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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Philippe Corcuff: “A esquerda está em estado de morte cerebral”


Set. 2012, Philippe Corcuff (entrevista a Mathieu Deslandes) - Rue89 
Entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Excerto da Ata de Reunião dos tradutores: Essa entrevista não é nenhuma brastemp: muito critica e pouco propõe. Além disso, os jornalistas do Blog Rue89 creem firmemente que Hollande, na presidência da França – dado que ele não é a fascista Marinne Le Pen – seria alguma “esquerda”. Mas o entrevistado faz retrato interessante, pensado com cuidado, de uma autoproclamada esquerda não comunista (no Brasil, é a chamada “a militância” petista e inclui também os marina-silvistas “ecológicos à moda Al Gore & créditos de carbono" que, estes, são o NADA absoluto), que abunda nesses tempos pós-neoliberais ou, talvez, melhor dito, nesses tempos de neoliberalismo terminal, mas de neoliberalismo ainda sobrevivente no PSDB e na imprensa-empresa e, ativo, portanto, ainda, nas discussões sociais no Brasil (embora o entrevistado só fale da França). Então, decidimos traduzir.


Philippe Corcuff em Lyon (9/2012). Foto de Mathieu Deslandes - Rue 89
O sociólogo Philippe Corcuff  conhece bem as esquerdas: milita há 35 anos. Trocou o Partido Socialista pelos Movimento dos Cidadãos, depois pelos Verdes, de onde partiu para a Liga Comunista Revolucionária (LCR), que se converteu em Novo Partido Anticapitalista (NPA). Novamente decepcionado, diz que talvez se una à Federação Anarquista. Frequenta também a Associação pró-Taxação das Transações financeiras e pela Ação Cidadã (ATTAC), altermundista, e o sindicato Unitários Solidários Democráticos [orig. Solidaires Unitaires Démocratiques, SUD-Education].

Mathieu Deslandes
Mantendo-se conectado a todos os ambientes militantes que pôde atravessar, Corduff alarma-se, há meses, com o embrutecimento intelectual dos militantes. Da experiência, extraiu um livreto, “A esquerda está em estado de morte cerebral?” [Orig. La Gauche est-elle en état de mort cérébrale? éd. Textuel), que essa semana chegará às livrarias.

Em sua sala, no Instituto de Estudos Políticos de Lyon, descreve o quadro mental da “esquerda à Hollande”, dos “esquerdistas do esquerdismo”, e suas patologias mentais. Explica por que os think tanks são total fracasso, por que “os indignados trazem alguma esperança”, milita para que a política aprenda com o RAP e que ouse tentar, que ouse experimentar.

Rue89 : Qual o papel das ideias, na reconquista do poder [na França], pela esquerda?

Antonio Gramsci
Philippe Corcuff: Instalou-se um “esquemão”, ligado a uma determinada leitura super simplificada de Antonio Gramsci, pensador marxista: a ideia de que a conquista do poder político teria de, antes, passar por uma fase de hegemonia cultural ou intelectual.

Minha hipótese caminha na direção exatamente oposta, para a situação atual: a esquerda só conseguiu vencer eleitoralmente, quando já estava em estado de decomposição intelectual.

Rue89 : O “sonho francês” de François Hollande, nesse caso, foi o quê?

Philippe Corcuff: Confundem-se hoje ideias e slogans de marketing, na discussão política. Ideias têm a ver com trabalho intelectual. Na tradição da esquerda, é confrontar os preconceitos, criticar as ideias feitas e os lugares-comuns, buscar distanciar-se de qualquer sinal de imediatismo, reformular frases, estabelecer relações entre diferentes dimensões... É precisamente tudo que já praticamente não se encontra, ou encontra-se cada vez menos.

Discutem-se, praticamente sempre, ideias apenas empilhadas umas sobre as outras, mas nada é retrabalhado, nada é pensado. E a publicidade e o jornalismo-que-há arrancam daí slogans lisos e consensuais.

Rue89 : Desde quando a esquerda está nesse estado de morte cerebral, como você diz?

Pierre Moscovici
Philippe Corcuff: É resultado de várias evoluções misturadas.

  • Há, para começar, um movimento contínuo de profissionalização política e, nele, os recursos intelectuais são cada vez menos valorizados. Por exemplo: até há poucos anos, Pierre Moscovici,  que tinha imagem de intelectual, pôs-se a explicar ao jornal Libération  que não, que era homem de aparelho. Como se fosse melhor negócio, para ele, expor-se como apparatchik que como intelectual.
  • Há também o movimento de tecnocratização. Os tecnólogos participam cada vez mais da definição do que seja a política. Passaram a ocupar, simultaneamente, o posto de alto funcionário do Estado, o mais alto cargo político e ocupam também uma parte do poder econômico. Assim se forjou uma visão particular, muito fragmentada. A realidade foi recortada e surgem casos ditos “técnicos”: “a imigração”, “o emprego”, “o déficit no orçamento”, “a delinquência”... Segmentam-se os problemas, sem estabelecer qualquer relação entre eles. Examinam-se pequenos trechos das grandes engrenagens sociais, e ignora-se a totalidade.
    François Hartog
  • Em seguida, não surgiu nenhum corpo teórico englobante que substituísse o marxismo, em declínio a partir do início dos anos 1980s. Não lastimo a ausência do peso muito exclusivo que se dava às referências marxistas nos anos 50-70, mas a ausência de qualquer teoria totalizante, englobante, que, sim, o marxismo oferecia.
  • Por último, o que o historiador François Hartog  chama de “presentismo” [orig. “le présentisme”]. As sociedades tradicionais tinham, para referência, o passado; as sociedades modernas (no sentido de “o Iluminismo”) voltavam-se para o futuro, mediante o progresso; hoje, uma espécie de presente perpétuo substituiu tudo isso, sem apoio nem no passado nem no futuro, para avaliar o que acontece. De fato, a política está convertida, cada dia mais, numa esquete de marionetes do imediatismo.
Rue89 : E por que lhe parece grave?

Philippe Corcuff: É grave, se se considera a história da esquerda, que sempre foi a luta, ao mesmo tempo, por justiça e por verdade. O mundo sobreviveu ao fim dos dinossauros, a esquerda bem pode sobreviver ao sumiço do trabalho intelectual dentro dela mesma, mas haverá uma perda, que já se constata na própria definição do que conhecíamos como “a esquerda”.


Rue89 : E os think-tanks que pululam fora da Academia? Não criaram material de pensamento?

Philippe Corcuff: Mantiveram-se e mantêm-se sempre num domínio limitado: dos intelectuais segmentados por expertise e pela lógica programática. Só fazem elaborar “respostas aos problemas” da “escola”, da “imigração”, do “déficit de orçamento”, só respostas a “problemas”, sem qualquer reflexão sobre o quadro geral onde cada “problema” se insere.

Isso não basta, para que a esquerda reelabore o que chamo “os programas” [lit. os softwares (NTs)] da crítica social e da emancipação, quero dizer, os modos de formular as questões, antes de começar a pensar em respostas.

Rue89 : Como você definiria o quadro intelectual da esquerda no governo [da França]?

Anthony Giddens
Philippe Corcuff: Apesar de os socialistas franceses rejeitarem a palavra, o quadro intelectual, ali, é social-liberal. O sociólogo Anthony Giddens,  intelectual farol da “terceira via” britânica defendida por Tony Blair, disse bem claramente:

  • havia a social-democracia que defendia o Estado social;
  • houve Thatcher, com o neoliberalismo que atacava o Estado social; e
  • veio o social-liberalismo, que ficou entre os dois anteriores.

Essa esquerda à Hollande entende que a globalização neoliberal e o recuo do Estado social são fatos consumados, são irremediáveis e irreversíveis. Contenta-se com arranjos societais justos, mas limitados (como o casamento homossexual, por exemplo, uma causa que, no fundo, é a consagração do casamento burguês mais conservador). Hollande, especificamente, defende os quadros da Educação nacional e, em certa medida, dos funcionários da Polícia e do Judiciário, mas o restante dos serviços públicos estão já na lógica dos “cortes” e mais “cortes” neoliberais.

François Hollande
Como nada disso pode ser claramente assumido, o que se vê é o distanciamento entre os discursos e as práticas.

Rue89 : Como você definiria o quadro intelectual dos “esquerdistas da esquerda”?

Philippe Corcuff : É o que chamo, provocativamente, de “pensamento Le Monde Diplo”. Não penso especificamente no jornal mensal Le Monde diplomatique, das raras publicações da imprensa-empresa comercial que resistiu à virada neoliberal de 1983. Mas já se passaram 30 anos! E, pouco a pouco, aqueles esquemas maniqueístas viraram rotina de pensamento.

Havia “o mal” (o mercado, o individualismo) e “o bem” (o Estado, o coletivo e, cada vez mais a nação, sob o tema da “desglobalização”). E a luta entre o bem e o mal favoreceria “o mal” por causa “da mídia”, grande “o mal”, que aliena e embrutece todo mundo – exceto, evidentemente, os senhores desse específico discurso, sempre preservados por obra e graça do Espírito Santo!

Esse “pensamento Le Monde Diplo” não se caracteriza tanto pela indignação ou pelo engajamento. O que ele faz é, ininterruptamente “se lamentar”, lastimar-se, deplorar que as coisas não sejam... o que não são. Os automatismos de hiper-simplificação dessa doxa crítica têm ecos na Front de Gauche, no grupo Attac, no Novo Partido Anticapitalista (NPA) – no qual milito – na esquerda do Partido Socialista, entre os ecologistas... Mas, sobretudo, entre grande número de simpatizantes “críticos”.

O pensamento “lamentativo” é pensamento paralisante, que, hoje, é dos principais obstáculos à reconstrução intelectual das esquerdas. Por exemplo: a esquerda, hoje, jura por todos os santos ante a dupla fé de que ‘tudo será diferente’ quando o mundo livrar-se do “individualismo” e der jeito “na mídia dominante”.

O que se vê aí, operante, nesse caso, é uma das manifestações de uma patologia intelectual que atravessa todas as esquerdas: o essencialismo, quero dizer: ver o mundo através de essências, de entidades homogêneas e estáveis. Fala-se de “os muçulmanos”, de “a Europa”, “a mídia”, “os EUA”, “Israel”, “Venezuela”... como se fossem essências imutáveis.

E ninguém cuida de observar que, na realidade, só há contradições, lógicas diversas, mais ou menos variadas, resistências, transformações. O livro de Alain Badiou sobre Sarkozy é tipicamente essencialista: fez do sarkozysmo uma essência atemporal: um “transcendental Pétainista”.

Philippe Corcuff  em Lyon (9/2012). Foto de Mathieu Deslandes - Rue 89
Rue89 : Como você chegou à conclusão de que as teorias da conspiração também são característica que atravessa todos os campos de pensamento da esquerda?

Philippe Corcuff: No que tenha a ver com análise dos meios de comunicação e das relações internacionais, dei-me conta de que havia esquemas muito presentes entre os militantes e simpatizantes de esquerda, em total contradição com os esquemas das ciências sociais nesses domínios.

No quadro conspiracional/conspiracionista, o principal, de tudo que acontece, é fruto de manipulações conscientes e ocultadas de algumas elites. Ora, tudo que aprendi nas Ciências Sociais, de Marx a Bourdieu, me diz que o que mais opera são limitações de estruturas não personalizadas, impessoais.

O capitalismo é Matrix ou Skynet  em Terminator: um maquinário impessoal que constrange e pouco a pouco domina o mundo. A máquina não tem piloto, ninguém a controla completamente: foi o que se viu na crise das hipotecas podres, quando alguns dos que se sentiam ‘pilotos’ foram eliminados, outros mal tiveram tempo de salvar a própria pele... A evidência de que há quem se aproveite do sistema não implica que os mesmos controlem o sistema.

Aí se vê, cara a cara, como no caso do essencialismo, outra patologia intelectual importante da esquerda.

Rue89? E há outras?

Philippe Corcuff  Uma visão implícita assombra as esquerdas: a passagem sub-reptícia do verbo pronominal reflexivo “emancipar-se”, para o verbo transitivo “emancipar” [quase sempre “o outro”].

A maioria dos que falam publicamente no campo da esquerda usam mais a primeira acepção, no caso da autoemancipação dos oprimidos, mas são quase sempre leninistas: uma vanguarda esclarecida (antiliberal, anticapitalista, laica, feminista) que deverá arrancar, da caverna para a luz, a massa que os meios de comunicação teriam alienado completamente, alienada também pelo trabalho, pelo consumo e/ou pelo Islã.

Esses homens e mulheres embrutecidos pelo trabalho, essas mulheres com véus embrutecidas pelo patriarcado, as prostitutas embrutecidas pelos cafetões, e eu, profeta feminista, as conduzirei das trevas à luz...

Rue89: E como se sai disso?

Philippe Corcuff: Os partidos políticos têm cada vez menos relações, para se revigorarem, com os movimentos sociais – e é no que deu a hegemonia da visão tecnocrática –, ou com os intelectuais seriamente críticos.

Quando estão à procura de ideias, escolhem ou tecnocratas especialistas num ou noutro domínio, ou intelectuais “de televisão” – os Alain Minc, Jacques Attali, Bernard Henry-Levi, Caroline Fourest... – Quer dizer: procuram gente que fala de tudo com aplomb sem saber coisa alguma de coisa alguma.

As universidades populares alternativas são experiências interessantes, mas apresentam-se mais como locais de difusão de recursos críticos, que como locais de elaboração.

Grupos como o Conselho Científico de ATTAC  e a Fundação Copérnico  oferecem a contraexpertise útil para enfrentar cenários tecnocráticos, mas, para fazê-lo, correm o risco de continuar prisioneiros de uma visão segmentada das coisas.

Há também revistas interessantes (Multitudes, Vacarme, ContreTemps, Agone, Réfractions, EcoRev’, La Revue des livres...), mas nem sempre conseguem evitar o fechamento intelectualista. Tem havido algum contato e interações com grupos de ação – entre Vacarme e Act Up, entre Multitudes e a coordenação dos trabalhadores precários e intermitentes da Ile-de-France, entre ContreTemps e o Novo Partido Anticapitalista – mas as interações mais produtivas só duraram pouco tempo.

Sinto também que muitos esperam que surja “o grande pensador”. Não me parece coisa que se deva desejar, se se pensa de uma perspectiva democrática. Alguns grandes intelectuais franceses desempenharam (como Foucault, Bourdieu, etc.) e podem ainda desempenhar certo papel, mas isso, para mim, não é o principal : os programas [no sentido de softwares, orig. les logiciels] da esquerda não podem ser reinventados só por uma casta de intelectuais profissionais.

Sonho com clubes nos quais os militantes dos movimentos sociais, pesquisadores, políticos de partido, artistas possam dialogar, e nos quais podem desenvolver-se ideias renovadas, a partir de uma relação crítica com tradições que cada grupo traga.

Rue89 : O movimentos dos “Indignados” poderia revificar intelectualmente a esquerda, não?

Philippe Corcuff: É um pouco o que se vê na Espanha e nos EUA: há um começo de reelaboração intelectual do que é a esquerda e que aproxima novos meios militantes e meios intelectuais e culturais.

Rue89: Mas estão esboçando conceitos? Ou é só a união de categorias que, até aqui, nunca haviam trabalhado juntas?

Judith Butler
Philippe Corcuff: A visão da sociedade construída em torno da clivagem 1% versus 99% permitiu que convergissem pessoas preocupadas com moradia, os sindicalistas, militantes das minorias, teóricos do gênero, de relações pós-coloniais, marxistas, ecologistas, artistas…

Há um cadinho favorável à emergência de algo que brote simultaneamente do mais antigo e do mais novo. O movimento “Occupy” produziu uma revista: Tidal. Leem-se artigos de Judith Butler  e outros. Começaram a fazer “a quente” o que eu sonhava em fazer “a frio”, naquele clube de que falei.

Rue89: As esquerdas francesas são mais preguiçosas que outras esquerdas?

Philippe Corcuff: Diferente da Alemanha e dos EUA, a esquerda francesa é carente de cultura experimental. É ligada à valorização da política como combate (os que pensam que a política é, sobretudo, questão de ter colhões presidenciais ou revolucionários) e do centralismo estatal. Por aqui se experimenta menos, outros modos de viver, de trabalhar, de decidir, de pensar... Há algumas experiências, como Lip  e, depois, passa-se tempos e tempos falando delas.

Melhor que se afundar nas lamentações e no ressentimento do “pensamento Monde Diplo” (“é culpa da mídia, do individualismo, do Grupo de Bilderberg da Troika...”), seria lançar-se na aventura de outras práticas sociais, políticas e intelectuais.

Ouço, seguidamente me dizem: essas suas histórias de experiências são boas para os burguesinhos ‘de balada’ [orig. bobos, de bourgeois bohémien (NTs)]. Mas as pessoas que fizeram emergir as ideias de consciência de classe e de movimento operário entre 1830 e 1848 na França, viviam em situação bem mais miserável que hoje.

De fato, vez ou outra, bastam alguns dispositivos absolutamente simples, para começar a pensar e agir. Por exemplo: numa oficina, na Universidade Popular de Lyon, mandei os alunos lerem dois textos : um de Michel Onfray, um de Bernard-Henri Lévy. E os fiz discutir: 100% dos alunos “detonaram” o artigo assinado por BHL. Mas eu trocara os autores. Apenas uma ideia de experiência que mostra a dificuldade de “pensar pela própria cabeça”, na prática.

Rue89: Você escreve que seria preciso buscar o RAP, dentre outros grupos, para inventar novas linguagens políticas. Que novidade há aí, além do modismo?

Philippe Corcuff: Quando, como agora, vivemos em sociedades individualistas, as pessoas fortemente presas à própria individualidade, a maioria dos grupos de esquerda só sabem dar respostas, principalmente, coletivas. É o que chamo de hegemonia, na esquerda, do “software coletivista”.

Contudo, umas das fontes importantes de anticapitalismo, hoje, sobrevive na intimidade sonhadora e agredida das pessoas. Dei-me conta disso, ao fazer um estudo de recepção do seriado norte-americano de televisão “Ally McBeal”,  com uma centena de telespectadoras. Não raro, o ápice do autoesquecimento de si mesmo, um cerne de não egoísmo capitalista, é vivido sob a forma de uma amizade ou de um amor no qual não vigem leis de interesse. Há aí, portanto, valores anticapitalistas.

Nas letras de RAP de Keny Arkana Casey  ou La Rumeur vê-se, precisamente, pessoas que nos falam da opressão social, e, simultaneamente, do vivido individual. A linguagem política teria de conseguir associar assim os quadros coletivos e as subjetividades individuais.

Rue89: Mais ou menos o discurso de Martine Aubry sobre “o cuidar” e “o cuidado... 

Philippe Corcuff: O problema é que ali se deu uso “marketado” à coisa: ela falou um pouco, porque parecia chique, e logo mudou de assunto.

Sandra Laugier
Mas, sim, há trabalhos sobre o cuidado e o cuidar, dos quais participa minha amiga a filósofa Sandra Laugier que, sim, são apaixonantes : associam dimensões afetivas e pessoais, à questão da proteção social. Mas seria necessário que os filósofos que se interessam pelo cuidado e pelo cuidar, políticos, trabalhadores sociais, sindicalistas e militantes feministas pudessem pensar juntos.

Em todos os casos, é importante distinguir bem claramente o que é reposicionamento e realinhamento das esquerdas em face do trabalho intelectual, e o que, bem diferente, não passam de brilharecos superficiais e modismos temporários ou “marketing político”.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A esquerda fora do eixo

As últimas mobilizações em São Paulo demonstram a fragilidade prática e teórica da esquerda num cenário de ascensão e transformação econômica.
Por Passa Palavra em 17 de junho de 2011

I. 2011, São Paulo em cinco mobilizações

Do início do ano até abril houve grandes manifestações da luta contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo. Diferentemente do que ocorreu em 2010 e nos anos anteriores, o público mobilizado passou de 4 mil pessoas e, ao invés de esvaziarem, os atos mantiveram-se cheios e permitiram realizar ações que antigamente chamaríamos de radicais, ou mesmo de ousadas, como a ocupação de um terminal de ônibus na região central e a paralisação de um dos sentidos da Avenida 23 de Maio – uma das maiores da capital do estado.

A análise informal de alguns militantes sobre esse “fenômeno” baseava-se nos seguintes elementos: Facebook (com a confirmação de milhares de pessoas nos eventos que chamavam para as manifestações), repressão policial, o próprio valor da passagem (R$ 3,00) e a reunião das forças político-partidárias de oposição na cidade aos governos estadual e municipal. O ciclo de 2011 de lutas contra o aumento da tarifa foi encerrado pelo Movimento Passe Livre-SP, por acreditar que seria a hora de impulsionar uma luta mais abrangente que criticasse estruturalmente o sistema de transporte, com a bandeira da tarifa zero. Desse episódio, os militantes refletiram que havia uma “nova juventude” mobilizada: de classe média, estudantil, ligada nas mídias sociais.

Polícia Fascista e a "ordem"
Em abril, após uma entrevista para programa de TV, “Custe o Que Custar”, o CQC, do jornalista Marcelo Tas, levantou-se a polêmica com o deputado federal e militar da reserva Jair Bolsonaro e seu discurso pró-ditadura e moralmente conservador. Durante aquela semana, a polêmica matéria repercutiu pelas mídias sociais que pressionaram uma cassação por quebra de decoro parlamentar. Em apoio, grupúsculos da extrema-direita marcaram um ato em defesa ao deputado e, espontaneamente, indivíduos atomizados da esquerda convocaram um ato antifascista com o objetivo de impedir a realização da manifestação.

O que foi testemunhado pelos que compareceram nada mais foi que um grupo numericamente insignificante de valentões fantasiados de fascistas. Reencenando a Batalha da Praça da Sé, em que os integralistas foram confrontados nas ruas do centro paulista pelos anarquistas, colocou-se em ação um teatro da luta antifascista: palavras de ordem de um lado e de outro. O ato reuniu cerca de duas centenas de pessoas.

Quem de fato protagonizou alguma coisa foi o próprio Estado de Direito, o qual deteve alguns membros dos skinheadspor serem procurados pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).

Em maio o transporte voltou a ser pauta na cidade. Moradores de Higienópolis [1] organizaram um abaixo-assinado com menos de 5 mil assinaturas para impedir a construção de uma estação da linha amarela do metrô no bairro.

Segundo os moradores, a estação faria com que “gente diferenciada” passasse a frequentar a região. Espontaneamente, indivíduos atomizados e blogs “antielitismo” divulgaram o “Churrascão da gente diferenciada”, a ser realizado nas ruas de Higienópolis.

Ao menos virtualmente, o evento marcado no Facebook teve mais de 60 mil pessoas com a presença confirmada. No sábado, dia do “churrascão”, cerca de mil pessoas compareceram e, segundo alguns manifestantes, ao todo 2 mil passaram pelo local.

Churrascão de gente diferenciada
O campo social presente ultrapassou os limites daquele ativista-militante e político-partidário, isto é, se expandiu com pessoas que não participavam das lutas pelo transporte público. No entanto, o caráter pouco contestatório era evidente. Devido à pressão dos manifestantes, o governo estadual voltou atrás e decidiu construir a estação na rica região da cidade, a qual já possui acesso a três outras estações.

Assim, o grande mote de revolta dessa manifestação lúdica foi o próprio diagnóstico de quão arcaica e antiquada é a elite de Higienópolis, mas, no limite, não se colocou a questão – essa sim crucial – da própria lógica elitista da construção do metrô em São Paulo, que prioriza o atendimento às regiões centrais e exclui as regiões periféricas. Tornou-se assim não uma manifestação “antielite” ou por transporte público para todos, mas contra essa elite arcaica.

Ainda em maio ocorreu uma nova mobilização. Desde 2004, indivíduos e coletivos pró-descriminalização das drogas – ou ainda antiproibicionistas – convocaram a “Marcha da Maconha” e, de modo análogo aos anos anteriores, a marcha foi proibida pela Justiça por apologia ao uso de drogas e a Polícia Militar reprimiu os manifestantes. Por conta disso, no mesmo dia convocou-se na porta da delegacia [esquadra] uma nova marcha, agora contra a violência sofrida. Logo após esse anúncio, o coletivo Fora do Eixo (FdE) entrou em contato com os organizadores para integrar a articulação da próxima marcha.

Entre 21 e 27 de maio ocorreram duas reuniões presenciais. Na primeira lançou-se o nome do ato, que passou a se chamar “Marcha da Liberdade” e não mais “Contra a repressão policial”.

Na segunda reunião, no Studio SP  – uma casa de show administrada por Alexandre Youssef [2] –, Pablo Capilé, articulador do FdE, assumiu as tarefas relacionadas à comunicação da manifestação, como transmissão online, e seu coletivo também arcou com os custos das flores que seriam distribuídas no dia. Capilé ainda mencionou a possibilidade de patrocínio da Coca-Cola à marcha; segundo seu argumento, hoje em dia as empresas buscam contato direto com os grupos e movimentos sem que seja necessário expor as suas marcas. De imediato os presentes ligados ao coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR) e Movimento Passe Livre discordaram de tal patrocínio.

Uma das pautas impulsionada a partir da repressão pelos movimentos e coletivos de esquerda foi a promoção de um projeto de lei para proibir o uso de armas “menos letais” em manifestações. Pretende-se que seja aprovado um projeto semelhante ao da Argentina. O coletivo FdE, Cláudio Prado (da Casa de Cultura Digital), e membros da rede MobilizaCultura discordaram que fosse necessário pautar qualquer coisa que não fosse a “própria ideia de liberdade”. Esta foi a maneira encontrada para neutralizar politicamente a Marcha.

No dia 28 de maio, a Marcha da Liberdade agregou movimentos como GLBT, Movimento Passe Livre, Marcha da Maconha, organizações políticas e milhares de indivíduos. Os otimistas estimam 10 mil pessoas, já a polícia calculou a presença de 4 mil manifestantes e na transmissão online a cobertura feita por Bruno Torturra, jornalista da Trip, foi acompanhada por cerca de 2 mil pessoas. Um novo ato da Marcha da Liberdade foi convocado para 18 de junho, dessa vez de caráter nacional e, no dia 15 de junho, o Supremo Tribunal Federal julgou e autorizou a realização da “Marcha da Maconha”.

Dessa série de manifestações e atos, extrai-se que as mídias sociais – principalmente o Facebook e oTwitter – mobilizaram conjunturalmente novos setores da classe média, mas, por outro lado, houve também um caráter diferenciado da pauta tradicional dos movimentos sociais e da esquerda em geral.

A pauta genérica de algumas delas (e mesmo neutra) ou de grande relação com os direitos individuais – como explicitamente no caso da descriminalização das drogas e da liberdade de expressão – tem possibilitado a aproximação de elementos da classe política – tanto de esquerda como de direita [3] – e também de novas empresas e ONGs com foco no marketing virtual, na publicidade e na cultura.

II. O coletivo Fora do Eixo

A experiência precursora ao Fora do Eixo ocorreu em 2000 com o Espaço Cubo – “a cultura que você não vê na TV” –, fundado por Pablo Santiago Capilé, 31 anos. Na época estudante de publicidade e marketing da Universidade de Cuiabá, Capilé incentivava as bandas da cidade organizando festivais e, assim, formando um mercado cultural independente [4]. Com o crescimento da organização alugaram uma casa de show e, inspirados no conceito de economia solidária de Paul Singer, criaram uma moeda baseada no trabalho envolvido na produção dos eventos, o Cubo Card.

Pontos do CfE - Trip 2011
Num novo fôlego para ampliar a rede, no final de 2005, Capilé formou o Fora do Eixo, um coletivo de gestores da produção cultural independente com o objetivo de promover festivais com intercâmbio de bandas e outras expressões artísticas e contando com a articulação de quatro cidades: Cuiabá, Rio Branco, Uberlândia e Londrina. Diferentemente da produção cultural mainstream, o coletivo estimula a cultura fora do eixo Rio-São Paulo. Hoje o Fora do Eixo possui 57 coletivos espalhados pelo país. Segundo a organização, eles possuem a capacidade de realizar 5 mil shows por ano e em mais de 100 cidades. Em seu catálogo figuram algumas estrelas da música independente da atualidade como o rapper Emicida e as bandas Macaco Bong, Mombojó e Vanguart.

O organograma interno do Circuito Fora do Eixo pode ser visto aqui.

Desde o início de 2011, membros do coletivo de Cuiabá e Uberlândia se mudaram para São Paulo e inauguraram uma casa no Cambuci como sede do Fora do Eixo – a CAFESP (Casa Fora do Eixo - SP). O aluguel de R$ 4 mil sustenta um espaço para shows, estúdio, salas de reunião e a hospedagem de 18 membros “liberados” que trabalham 24 horas por dia para o coletivo, não recebem salário, mas em troca têm suas despesas pessoais pagas pelos cartões do coletivo; esse investimento individual e comportamental é denominado de se “entregar para a causa” [5].

Atualmente a CAFESP realiza shows todos os domingos com churrasco e cerveja “na faixa”. Mas o principal deste projeto não se trata de festas, conversas e diversão. A sede do coletivo no “eixo” (e não fora dele), como se poderia supor, trata-se de uma estratégia para alcançar o mainstream cultural:

Agora, com a trama bem costurada em 112 cidades, a estratégia é ganhar o mainstream, atrair artistas com carreiras mais consolidadas e criar um pólo para atrair gente, dinheiro e oportunidades. Em parceria com o Studio SP, principal palco da cidade para novos músicos, já ganharam as noites de terça-feira para agendar bandas do Brasil e da América Latina.” [6]


Casa Fora do Eixo - SP: em breve,
no Distrito Federal


Para sustentar todo esse recurso material e projeto político-cultural, há uma constante pesquisa de editais para financiamentos públicos e privados combinada com a elaboração e envio de projetos para captação dos recursos neles disponibilizados.

Em 2010 inscreveram-se em cerca de 125 editais e, com mais de 30 aprovados, captaram aproximadamente R$ 2 milhões para os projetos (festivais de música, de cinema, de economia solidária, etc.) e R$ 300 mil para as despesas do “institucional” [7].

Outro aspecto interessante é que eles possuem diversos tipos de cadastro jurídico: associações culturais, empresas, ONGs, casas noturnas. No total são 57 CNPJs [número fiscal] a serviço do FdE, uma fluidez que permite um amplo leque de atuação dentro dos negócios.

Além dos editais há também propostas comerciais para emissoras de rádio como a OI FM.

O Fora do Eixo se constituiu e articulou através do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, na gestão do ex-ministro-cantor Gilberto Gil e Juca Ferreira. E fora do governo encontrou o suporte das organizações, empresas e indivíduos que orbitam a “cultura digital” [8].

III. Os embates no Ministério da Cultura

O programa Cultura Viva realizou a distribuição de recursos pelos Pontos e Pontões de Cultura [9], numa parceria direta organizações-governo para fazer cultura.

A mudança nas gestões Gil e Juca transformou um Ministério de pequeno orçamento em algo relevante no cenário cultural, com a possibilidade de alteração da Lei do Direito Autoral. No artigo “A economia criativa e a economia social da cultura”, Pablo Ortellado descreve quatro grandes mudanças que ocorreram no Ministério durante esse período: reconhecimento das mudanças das novas tecnologias, política cultural para todos os atores da cadeia produtiva, direito autoral como uma garantia de acesso aos bens culturais e o investimento nos novos modelos de negócios.

Longe de ser uma política de integração nacional através da cultura para forjar a identidade do povo brasileiro presente em outros momentos da história brasileira, o objetivo dos Pontos de Cultura foi estimular uma cadeia de produtores culturais a se intercomunicarem via novas tecnologias para estimular a diversidade cultural brasileira.

Ao invés da repetição e massificação da indústria cultural denunciada pelos frankfurtianos, dessa forma haveria a produção “genuína” de cultura, nos quatro cantos do país, isto é, em tese, novos mercados e mais produtores que não precisariam da infra-estrutura produtiva das transnacionais da cultura e dos oligopólios culturais regionais.

A prospecção de cultura num primeiro momento abriria a oportunidade para um segundo em que ela entraria na esteira da exportação internacional inserindo a produção cultural brasileira no mercado sul-sul, o que de fato não chegou a ocorrer mas alia-se assim ao pensamento de desenvolvimento nacional do governo Lula.

Campanha pelo Creative
Commons no Ministério da Cultura
No entanto, com a mudança no Ministério da Cultura, a ministra Ana Buarque de Hollanda tem confrontado as decisões das últimas gestões, como a retirada do logo do Creative Commons, a paralisação dos editais e premiações, e a reforma da Lei do Direito Autoral. Desta forma, acena para os gestores das transnacionais da cultura e dos oligopólios culturais regionais.

A mudança política tem fechado a porta para os recursos dos pontos de cultura [10] e para as mudanças na Lei do Direito Autoral, as quais beneficiariam o modelo de negócios adotado pelas organizações parceiras e o próprio Fora do Eixo. Em resposta foi fundado o “Partido da Cultura”, o PCult, uma organização suprapartidária contra a ministra Ana Buarque, pela retomada e “continuidade das políticas do Gilberto Gil” e também o MobilizaCultura, uma “rede das redes” para “propor políticas no campo da cultura que radicalizem a democracia” [11].

Para essas organizações do campo da cultura digital, a gestão de Ana Buarque, e num aspecto geral o governo Dilma, estão sendo um “retrocesso das conquistas”. Por outro lado, a prática realizada anteriormente por algumas organizações e coletivos reencena o patrimonialismo, que um entrevistado nos descreve:

Apesar do discurso e da estética anarquistas de muitos, e da adoção de organizações horizontais, como redes e coletivos enquanto forma de organização, a apropriação do Estado – seus recursos e estruturas – é umas das principais práticas do Fora do Eixo. Já enraizados no aparelho do Estado, principalmente no MinC [Ministério da Cultura] mas não só, participam da elaboração dos editais para projetos culturais e de novos tipos de políticas públicas, como os de promoção do uso de softwares livres e da consolidação da Economia Solidária, cuja articulação entre essas tecnologias e o Estado é de criação e exclusividade deles. Assim, ao incorporarem ao Estado (e não só aos governos) a necessidade de políticas nestas áreas, garantem também a exclusividade na apropriação dos recursos destinados a estas mesmas políticas. O interessante é que por fazerem tudo isso usando de estruturas informais e completamente diferentes das que as organizações político-partidárias e tradicionais grupos empresariais adotam para os mesmo propósitos, é praticamente impossível para um observador desatento ou viciado nas velhas estruturas identificar e combater o novo sujeito formado por este coletivo (ou rede). Outra característica é para a maioria dos membros deste coletivo/rede aumentar o próprio poder já é o mais importante, por mais que para um ou para outro o discurso propalado ainda seja o que os movem, e ao invés de executarem os projetos financiados pelos editais que eles mesmos criaram, usam dos recursos e da estrutura do Estado para se articularem por todo o país e garantirem o tempo livre necessário para o desenvolvimento de novos editais, novos discursos, consolidação de práticas e de tecnologias que os mantêm.”

Nessa perspectiva, para estes grupos como Fora do Eixo e Cultura Digital, o embate se dá numa disputa por quem ficará com aquele quinhão do orçamento do Ministério da Cultura, não que o acesso a ele seja para fins diferentes num caso ou em outro.

IV. Cultura livre e os novos modelos de negócios

Os novos modelos de negócios partem da inovação tecnológica e jurídica realizada pelo Software Livre que, quando transportados para o campo da cultura, criam uma produção com a ausência ou flexibilidade do direito autoral, permitindo assim novas formas de geração de valor. Incentivado pelo Fora do Eixo e pelas organizações que compõem a Cultura Digital, o modelo é conceituado como “open business”(negócios abertos ou novos modelos de negócios, em português). A pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, Oona Castro, define dois tipos de open business: um é fruto do uso do instrumento legal (licenciamento em Creative Commons, por exemplo) – e o outro, uma situação social, na qual há produção em rede com flexibilização da propriedade intelectual como o mercado tecnobrega do Pará. A cultura resultante desse processo é denominada cultura livre.

O open business é a transformação do modelo de negócios de um mercado monopolista em concorrencial, ou seja, dada a natureza não rival do bem digital e a cópia a custo próximo de zero, o lucro passa a depender da produção material (camisetas, adesivos, etc.) e, principalmente, dos shows; caminha-se assim da renda para os serviços. Para as transnacionais da cultura e os oligopólios culturais regionais, isso significa a modificação do seu papel de intermediador entre mercado e consumidor, e, na dimensão econômica, a extração de lucro por renda é ameaçada.

Advogado e fundador da Creative Commons, Lawrence Lessig afirmou em seus artigos e livros que o termo “cultura livre” (free culture) é análogo ao “livre mercado” (free market). Em seu livro “Free Culture“, Lessig afirma que:

“... a cultura livre que eu defendo nesse livro é um equilíbrio entre anarquia e controle. Uma cultura livre, como um mercado livre, e composta de propriedades. Ela é composta por regras de propriedade e contratos que são garantidos pelo Estado. Porém, da mesma forma que um mercado livre é corrompido se sua propriedade se torna feudal, da mesma forma uma cultura livre pode ser deturpada pelo extremismo nos direitos à propriedade que a definem. Isso é o que eu temo sobre a nossa cultura atual. Foi por causa desse extremismo que esse livro foi escrito.” [12]

Os autores de “Copyright, Copyleft and the Creative Anti-Commons”, Joanne Richardson e Dmytri Kleiner, analisam essa noção de liberdade:

“Uma obra é livre na medida em que pode ser comercialmente apropriada, uma vez que a liberdade é definida como a circulação ilimitada de informação e não como algo livre de exploração.” [13]

A ideologia da cultura livre baseia-se na ideia de que a flexibilização da propriedade intelectual com a concorrência proporcionada pelo livre mercado pode estimular a criação e, nesse processo, democratizar a informação e assim as nações caminharem ao progresso. De fato, quanto maior a flexibilização da propriedade intelectual, maior a produtividade dos trabalhadores e, por isso, maior a produção de riqueza a ser apropriada e transformada em mercadoria. Em síntese, a cultura livre é a própria regra do jogo do capitalismo, a apropriação de algo que a classe capitalista não produz.

Dessa forma, a aliança política tática formada por um programa de oposição às transnacionais da cultura e os oligopólios culturais regionais acabou por ocultar a reflexão crítica sobre o que há de surgir em seu lugar.

V. Gestores e a política Fora do Eixo

A principal atividade econômica do Fora do Eixo não é a produção de um produto, mas a comercialização de seus serviços, os quais se especializam através da gerência dos processos da cooperação social, os tais festivais.

É por essa razão que se posicionam contra a existência da figura do “intermediador”, isto é, das transnacionais da cultura e os oligopólios culturais regionais e sua relação entre produtores e mercado.

No caso da cultura livre trata-se de um conflito no interior da classe capitalista: de um lado, rentistas da cultura e gestores da produção cultural [14] e, do outro lado, gestores da cultura digital e os artesãos da cultura, em que trabalhadores por conta própria na produção de consumo de luxo – de forma a maximizar seus ganhos – posicionam-se ao lado dos segundos sob o embate de produtivos versus improdutivos.

Fora desse debate, há artistas que de certa forma preferem manter-se ao lado da “velha” indústria autoral, talvez não ideologicamente, mas pelo privilégio do circuito de apresentação mainstream exclusivo para os artistas das majors; uma típica situação de rentista que quer manter o monopólio sobre determinado bem do qual aufere renda. Resta ainda saber onde ficam os proletários que fabricam as mídias na Zona Franca, os que operam o som, os que produzem equipamentos, os que vendem os ingressos etc.

A Teoria da Cauda Longa de Chris Anderson
Os artistas do catálogo do circuito do Fora do Eixo representam um nicho de mercado em crescimento, mas que são consumidos como novidade, o diferente, e da mesma forma que outro produto, o risco da estagnação do mercado também existe. Mas, com a vinda do coletivo para São Paulo, trata-se de expandir o mercado divulgando a marca “Fora do Eixo” em mobilizações de jovens com o perfil consumidor de seus produtos [15].

O trabalho do FdE é fazer serviços para outros. Fazem realmente como um coletivo e não como proprietários de algo. Mas isso é justamente o que os identifica como gestores: possuir o know-how, o trabalho baseado no conhecimento e na gerência dos processos. Um tipo de trabalho que é possível vender e não ficar sem ele, já que conhecimento é um bem não rival.

Além dessas implicações econômicas, na esfera política há outras sobre as quais é necessário refletir.

Para o Fora do Eixo a cultura é apenas um pretexto e, atualmente, passou a buscar meios para chegar na política.

Segundo Capilé, o coletivo conseguiu nesses 5 anos “musculatura e capilaridade nacional” e no dia 18, na Marcha da Liberdade, vão mostrar a força da organização.

Em entrevista para a coletânea “Produção Cultural no Brasil”, Capilé responde o que pretendem na política formal:

“Pretendemos criar um ambiente favorável para que daqui há trinta anos o presidente da República possa sair de uma perspectiva ligada a isso que nós estamos construindo. Há trinta anos, ele saiu do sindicato, então podemos tentar criar uma plataforma onde a cultura consiga ganhar mais espaço na agenda”.

Não por acaso, o Fora do Eixo possui instituições semelhantes às do governo como o “Diário Oficial FDE”, “Congresso FDE”, “Casa Civil”, etc.

Na análise de Capilé, o momento atual com a ministra Ana Buarque de Hollanda é de enfrentamento e, de uma forma geral, isso é possível graças a construção desse (novo) meio de produção.

Além da raiz econômica, a projeção na burocracia os configura politicamente enquanto uma classe gestora, classe que em outros momentos históricos possuiu como projeto a renovação das elites. Mas enquanto dispersos em organizações e instituições, os gestores confundem-se com os trabalhadores na sua oposição à burguesia.

Em caráter elogioso, Alexandre Youssef fez recentemente uma análise sobre o FdE:

“Imaginem um liquidificador em que se possa colocar as ramificações da esquerda, com estratégias e lógicas de mercado das agências de publicidade, misturando rock, rap, artes visuais, teatro, um bando de sonhadores e outro de pragmáticos, o artista, o produtor, o empresário e o público. Tudo junto e misturado. O caldo dessa batida é uma nova tecnologia de participação e engajamento que funciona de forma exemplar para a circulação e produção musical, mas que acima de tudo é um grande projeto de formação política.
O Fora do Eixo cria, portanto, uma geração que se utiliza sem a menor preocupação ideológica de aspectos positivos da organização dos movimentos de esquerda e de ações de marketing típicas dos liberais. É, como disse, o teórico da contracultura Cláudio Prado, a construção da geração pós-rancor, quenão fica presa à questões filosóficas e mergulha radicalmente na utilização da cultura digital para fazer o que tem que ser feito.” [grifos nossos] [16]

Podem utilizar os meios militantes e ativistas para ampliar sua influência política e até para expandir seu mercado consumidor de cultura independente, mas não deixarão de ser o que são – uma classe de gestores que visa renovar a burocracia.

VI. A esquerda fora do eixo

Desde a ascensão do PT ao governo e o processo da oposição virar a ordem, forjou-se um pacto social entre as classes que configura-se através da pacificação dos movimentos sociais [17] e diminuição do desemprego por um novo ciclo econômico; além disso, o acesso ao crédito fácil e o Bolsa Família permitiram às classes mais baixas adentrarem no mercado de consumo básico.

E, de forma arrebatadora, a promessa de um futuro dourado estaria garantida com a exploração petrolífera da camada pré-sal que permitirá o ingresso do país na OPEP. O brado retumbante do ex-presidente Lula de que “Nunca antes na história desse país…” expôs que, de fato, não se pode mais designar o Brasil como um país “atrasado” na economia global [18].

A conjuntura econômica liquidou o programa de oposição ao governo, seja de direita ou de esquerda, e suas críticas aos programas do governo transmutam-se de acordo com a maré eleitoral: ora dobrar-se-ia o Bolsa Família, ora o mesmo não passaria de um novo clientelismo.

O que restou da generalidade dos críticos de esquerda é a sustentação do “socialismo da miséria” [19] e, sem saber responder à social-democracia brasileira, na melhor das hipóteses formulam-se propostas que não ultrapassam a sua própria lógica, como a crítica às consequências da realpolitik governista, isto é, ao enriquecimento a partir dos cargos públicos.

Nesse cenário de transformação global que elevou a imagem do Brasil a hype – sintetizado na capa da The Economist que apresenta a ignição do Cristo Redentor rumo ao espaço – o “Churrascão da gente diferenciada” revela o seu caráter politicamente ambíguo, em que a incorporação do discurso “antielitista” passou a ser um recado para a nobre elite de Higienópolis: o futuro dos negócios chegou, não ignorem as novas classes médias, pois, mesmo morando na periferia, a sua empregada também pode consumir uma TV de plasma e ter um carro na garagem.

O “churrascão” pode, sim, ser compreendido como um ritual lúdico para profanar – sem deixar de estigmatizar – uma elite deslocada do seu tempo, dando boas-vindas aos mais novos consumidores do mercado brasileiro. Um processo que se limita à modernização da mentalidade e renovação das elites, e que, por isso, foi incapaz de revelar a incoerência de destinar mais recursos públicos para a ampliação da oferta de transporte público na região mais rica da cidade.

Sem o teatrinho de luta de classes ou antifascista, o que representa a onda anti-Bolsonaro é a recusa em aceitar uma elite arcaica no poder.

Antes, a bola da vez foi o senador José Sarney com a hashtag #forasarney no Twitter. Da espontaneidade das mídias sociais não saiu outra pauta política que não fosse a renovação ou rejeição da elite política e econômica.

Os elementos da composição dessa nova elite passam pelo consumo e sustentação de novos habitus, como se deslocar para o trabalho de bicicleta ou a pé – algo inimaginável para um morador da periferia – e reciclar seu lixo, cuidar de pequenas hortas em casa, consumo de orgânicos, baixar músicas e minutar os momentos do dia numa mídia social.

As preocupações políticas passam principalmente pela legalização das drogas e pelo meio-ambiente. Uma geração “pós-rancor” que não se apega a discussões “filosóficas”, como define, de forma elogiosa, Cláudio Prado.

Esse descontentamento com o “Brasil potência” tem sido abarcado pelo movimento liderado pela ex-petista Marina Silva. Se ao adentrar ao poder, o PT implementou um pacto social e tirou de cena os movimentos sociais, é também através da conciliação de classes que os ambientalistas buscam fazer oposição, seja eleitoralmente, nas manifestações ou na criação de um novo habitus.

O clímax desse discurso será ano que vem no Rio +20 [20], evento para o qual diversas organizações já preparam as suas ações.

Juntam-se ao campo de “oposição” os grupos que anteriormente hegemonizavam o Ministério da Cultura, como o Fora do Eixo e as ONGs e empresas da Cultura Digital. Essa coletividade ambiental, “antielitista” e “alternativa” é uma das redes que permeiam a Marcha da Liberdade; um nome neutro que pode tanto servir para a Coca-Cola quanto para ativistas inseridos num projeto de classe.

Profissão repórter da Globo entrevista
Capilé sobre a Marcha da Liberdade
Mas, o que o Fora do Eixo apropria da manifestação?

Eles se apropriam da comunicação para se projetarem, capturar o “status” de organizadores e depois capitalizar esse público em seu circuito comercial. Esse método difere, por exemplo, de uma campanha do PT ou PSDB, pois não utiliza força de trabalho assalariada para construir sua base social.

As ações do Fora do Eixo são a propaganda da organização para o alargamento do mercado e a manutenção de atividades gratuitas para angariarem simpatizantes.

Numa manifestação onde a quantidade de pessoas é consequência da divulgação nas mídias (corporativas e sociais) e não uma causa “real” relacionada ao trabalho cotidiano de formação, construção e mobilização, o refluxo de uma hora para outra é iminente. Um processo semelhante à Marcha da Liberdade são os acampamentos em Portugal e Espanha [21].

Nos limites da renovação e modernização das elites, com esta “geração em rede” mascara-se o conteúdo político das ações de um setor ascendente de uma classe dominante para evitar que se perceba isto que é e jamais poderá deixar de ser um confronto político.

Notas de rodapé

[1] Higienópolis é um bairro de classes média-alta e alta de São Paulo. A sua origem histórica remete ao estabelecimento das famílias aristocratas, mas no decorrer do século XX passou a receber migrantes de origem judaica. Consultado aqui.
[2] Alexandre Youssef é um dos fundadores do site Overmundo, que tem em seu staff Ronaldo Lemos e Hermano Viana. Durante a gestão Marta Suplicy foi coordenador da juventude. Hoje é filiado ao Partido Verde e colunista da revista Trip.
[3] Como a ex-petista Soninha Francine (PPS), coordenadora da campanha virtual do candidato à presidência José Serra, que participou da Marcha da Maconha e da Marcha da Liberdade.
[4] “Independente” e “alternativo” são os termos vagos que as empresas encontraram para ocultar que trata-se de um nicho de mercado para o público universitário e similar.
[5] O jornalista Bruno Torturra categorizou a disciplina do coletivo como “espartana”.
[6] Ministério da Cultura, Revista Trip, 12/05/2011, disponível aqui.
[7] A lista dos editais é pública e pode ser acessada aqui.
[8] Cultura digital é a produção baseada nas novas mídias, mas também é o nome da ONG fundada por Cláudio Prado para gerir o programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura. O conceito desenvolvido por essas organizações pode ser lido aqui.
[9] Segundo Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura, o Ponto de Cultura é “uma espécie de ‘do-in’ antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do País”.  Ver aqui.
[12] LESSIG, Lawrence. “Cultura livre: como a grande mídia usa a tecnologia e a lei para bloquear a cultura e controlar a criatividade”. São Paulo: Trama, 2005.
[13] RICHARDSON, Joanne e KLEINER, Dmytri. “Copyright, Copyleft and the Creative Anti-Commons”. Berlin, 2006. Disponível aqui.
[14] Sobre a discussão dos gestores enquanto classe, leia a nota 2 do artigo “Extrema-esquerda e desenvolvimentismo (2)”, publicado aqui.
[15] Não será necessária uma análise quantitativa para saber o quanto da esquerda presente nessa série de manifestações corresponde como um potencial público-alvo para os serviços do Circuito do Fora do Eixo.
[16] Ministério da Cultura, Revista Trip, 12/05/2011, disponível aqui.
[17] De fora para dentro, os movimentos sociais passam por um processo de cooptação e pacificação pelo governo, e, de dentro para fora, a burocratização das lutas impedem a generalização das relações horizontais e solidárias entre os movimentos. Ver o artigo “Entre o fogo e a panela: movimentos sociais e burocratização”.
[18] O Passa Palavra investiga numa série de artigos as mudanças profundas que o Brasil tem passado, ver aqui.
[19] Ver “Socialismo da abundância, socialismo da miséria“, de João Bernardo.
[21] “A mobilização assembleiária não se inventa de cima para baixo. Ou nasce de baixo, ou não acontece. Ou corresponde a interesses de classe mais definidos, exprimindo contradições reais da sociedade e medindo forças no terreno, ou se ficará sempre pelos limites - estreitos e efémeros - de uma espécie de festa dionisíaca politizada.” Trecho do artigo “Acampados“.

Artigo enviado por Alípio Freire
Extraído do sítio Passa Palavra