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terça-feira, 2 de junho de 2015

Karl Marx tinha razão

31/5/2015, [*] Chris Hedges  truthdig
Traduzido por Emerx

 Busto de Karl Marx 
(gravitat-OFF CC BY 2.0)


Sábado (30/5/2015) no Forum de Esquerda em Nova Iorque, Chris Hedges uniu-se aos professores Richard Wolff e Gail Dines para conversar sobre porque Karl Marx é essencial no momento em que o capitalismo global entra em colapso. Foi com essas observações que Hedges abriu o debate.


Karl Marx expôs a dinâmica peculiar do capitalismo, ou aquilo que chamou “o modo de produção burguês”. Ele previu que o capitalismo havia plantado dentro de si as sementes de sua destruição. Ele sabia que as ideologias predominantes – pense no neoliberalismo- foram criadas para servir aos interesses das elites e particularmente das elites econômicas, visto que

(...) a classe que tem à disposição os meios de produção material tem ao mesmo tempo o controle dos meios de produção espiritual e (...) as ideias dominantes não são nada mais que a expressão ideal das relações materiais dominantes (...) relações que fazem de uma classe a classe dominante.

Ele viu que chegaria o dia em que o capitalismo esgotaria seu potencial e entraria em colapso, só não sabia quando.

Marx, como escreveu Meghnad Desai, era “um astrônomo da história, não um astrólogo”. Marx era agudamente consciente da capacidade de inovação e adaptação do capitalismo. Mas também era consciente de que a expansão capitalista não era eternamente sustentável. No momento em que testemunhamos o desenlace do capitalismo e do globalismo, Karl Marx é justamente reconhecido como o mais presciente e importante crítico deste modo de produção.

Num prefácio à “Contribuição para a Crítica da Economia Política” Marx escreveu:

Nenhuma ordem social jamais desapareceu antes de que todas as forças produtivas existentes em seu seio estivessem desenvolvidas; e novas e mais elevadas relações de produção nunca aparecem antes do amadurecimento das condições materiais de sua existência no seio da própria velha sociedade.
Portanto, a humanidade sempre se coloca apenas as tarefas que pode resolver; a examinar atentamente, encontramos sempre que a tarefa em si surge apenas quando já existem as condições materiais necessárias para a sua solução, ou estão pelo menos no processo de formação.

Em outras palavras, o socialismo não seria possível antes de o capitalismo exaurir seu potencial de continuidade, ainda que fosse temerário predizer quando. Somos convocados a estudar Marx para dar conta disso.

Os estágios finais do capitalismo, escreveu Marx, seriam marcados por desenvolvimentos que são intimamente familiares para muitos de nós. Incapaz de se expandir e gerar lucro nos mesmos níveis do passado, o sistema capitalista começaria a consumir suas próprias estruturas de sustentação. Ele começaria a predar, em nome da austeridade, a classe trabalhadora e os mais pobres, fazendo-os mergulhar ainda mais na dívida e na pobreza e diminuindo a capacidade do Estado em atender às necessidades dos cidadãos comuns.

Como diria Marx: O Sistema Burguês

O capitalismo deslocaria cada vez mais empregos – é o que ele está fazendo- inclusive manufaturas e quadros profissionais, em países com reserva de mão de obra barata. As indústrias mecanizariam suas unidades de produção. Isso desencadearia golpes econômicos não apenas sobre a classe trabalhadora, mas também sobre a classe média – um baluarte do sistema capitalista – sob a imposição maciça de dívidas concomitante à estagnação ou redução de renda.

Nos últimos estágios do capitalismo, a política seria subordinada à economia, o que levaria a partidos completamente esvaziados de qualquer conteúdo realmente político e desprezivelmente subservientes às imposições da finança e do capitalismo global.

Mas como advertiu Marx, há um limite a uma economia construída sobre a expansão da dívida. Chega o momento, sabia Marx, em que não há mercados disponíveis e o endividamento das pessoas atinge seu limite. Isso foi o que aconteceu com a chamada crise das hipotecas subprime. Uma vez que os bancos não podem mais conseguir novos tomadores de empréstimos subprime, o esquema desmorona e o sistema vem abaixo.

Enquanto isso, a oligarquia capitalista entesoura escondido vastas somas de riqueza – US$ 18 trilhões estão armazenados em paraísos fiscais – uma extorsão em forma de tributo sobre aqueles que essa oligarquia domina, endivida e empobrece. Em sua fase final, disse Marx, o capitalismo se transformaria no chamado livre mercado, e com ele os valores e as tradições que ele diz defender. Nessa fase última, o capitalismo pilharia os sistemas e as estruturas que o tornaram possível. Em resposta ao sofrimento geral que isso causaria, haveria um recrudescimento da repressão. Numa última cartada desesperada para manter sua taxa de lucro, o capitalismo passaria ao saqueio e à pilhagem do Estado, contradizendo sua pretensa natureza.

Marx advertiu que nos últimos estágios do capitalismo imensas corporações exerceriam o monopólio dos mercados globais.

A constante necessidade de expansão dos mercados para seus produtos lança a burguesia sobre toda a superfície do globo. Ela se aninha em toda parte, se instala em toda parte e estabelece conexões em todo lugar, escreveu Marx.

Essas corporações, seja no setor bancário, agrícola ou da indústria alimentícia, no armamento ou nas comunicações, usaria seu poder assumindo o controle dos mecanismos do Estado para impedir quem quer que seja de desafiar o seu monopólio.


Elas fixariam preços para alcançar o lucro máximo. Através de tratados comerciais como o  TPP e o CAFTA, as corporações fariam pressões – como de fato é o que estão fazendo- para debilitar a capacidade do Estado em impedir a exploração ao impor regulamentações ambientais ou trabalhistas. E finalmente essas corporações suprimiriam a livre competição de mercado.

Num editorial de 22/5/2015, The New York Times nos dá uma vista sobre aquilo que, segundo Marx, caracterizaria os últimos estágios do capitalismo:

A partir deste fim de semana, Citicorp, JPMorgan Chase, Barclays e Royal Bank of Scotland podem ser considerados criminosos, pois declararam-se culpados na quarta-feira de crimes de conspiração para fraudar o valor das moedas do mundo. Segundo o Departamento de Justiça, a longa e lucrativa conspiração permitiu aos bancos elevar seus lucros sem considerações para com a equidade, a lei e o bem comum.

E The Times continua:

Os bancos vão pagar multas que totalizam cerca de US$ 9 bilhões, valores estimados pelo Departamento de Justiça e por reguladores federais, estrangeiros e dos Estados. Parece um bom negócio para uma fraude que durou pelo menos 5 anos, do final de 2007 ao começo de 2013, período durante o qual a renda dos bancos com o câmbio internacional foi de algo como US$ 85 bilhões.

Nos últimos estágios daquilo que chamamos capitalismo, como Marx bem entendeu, já não há mais capitalismo algum. As corporações devoram os recursos do governo, basicamente oriundas do contribuinte, como porcos ávidos num cocho.

A indústria armamentista, com seus US$ 612 bilhões de dólares legalmente outorgados para a defesa, sem contar várias outras despesas militares embutidas em outros orçamentos, aumenta nossa despesa com segurança nacional em mais de US$ 1 trilhão por ano. Essa indústria conseguiu este ano que o governo se comprometesse a gastar US$ 348 bilhões ao longo da próxima década para modernizar nossas armas nucleares e construir 12 novos submarinos padrão Ohio, estimados em US$ 8 bilhões cada um.

Como esses dois novos programas armamentistas vão resolver o que nos dizem ser a maior ameaça de nossos tempos – a guerra ao terrorismo- é algo que permanece um mistério. Afinal, que o saibamos, ISIS não possui sequer um bote a remo. Gastamos cerca de US$ 100 bilhões por ano com inteligência – leia-se vigilância- e 70% desse dinheiro vai para empresas privadas como Booz Allen Hamilton, cujos 99% de renda vêm do governo. E ainda por cima, somos os maiores exportadores de armas do mundo.

A indústria de combustíveis fósseis engole US$ 5.3 trilhões por ano em todo o mundo em custos encobertos para continuar queimando esses combustíveis, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Esse dinheiro, nota o FMI, acrescenta-se aos US$ 492 bilhões de subsídios diretos oferecidos pelos governos em todo o mundo através de isenções fiscais, reduções de taxas e brechas na legislação fundiária. Num mundo sadio, esses subsídios seriam investidos em esforços para nos livrar dos efeitos letais das emissões de carbono causadas pelos combustíveis fósseis, mas nós não vivemos num mundo sadio.

O capitalista e o trabalhador

No artigo Why Should Taxpayers Give Big Banks US$ 83 Billion a Year?” (Por que os contribuintes dão US$ 83 bilhões por ano aos grandes bancos?), relatório publicado em 2013 por Bloomberg News, ficamos sabendo que economistas calcularam que os subsídios do governo reduzem os custos de empréstimo dos grandes bancos em 0.8%. 

Multiplicado pelo passivo total dos 10 maiores bancos estadunidenses por ativos, isso chega a US$ 83 bilhões por ano de subsídios financiados pelo contribuinte, diz o relatório.

Os cinco maiores bancos - JPMorgan, Bank of America Corp., Citigroup Inc., Wells Fargo & Co. e Goldman Sachs Group Inc. representam um total de US$ 64 bilhões em subsídios, uma soma insolentemente igual a um lucro anual típico dessas empresas. Em outras palavras, os bancos que ocupam postos de decisão na indústria financeira dos Estados Unidos – com quase US$ 9 trilhões em ativos, mais da metade da economia estadunidense –simplesmente quebrariam na ausência do Estado de bem-estar corporativo. Seus lucros são, mormente, transferências de recursos dos contribuintes para os acionistas dessas empresas -  continua o relatório.

As despesas do governo contam por 41% do PIB. O objetivo dos capitalistas corporativos é açambarcar esse dinheiro. Daí a privatização de setores completos das Forças Armadas, a pressão pela privatização da Seguridade Social, a contratação de corporações para cuidar de 70% de nossas 16 agências de inteligência, bem como da privatização das prisões, escolas e do desastroso e comercial serviço de saúde. Nenhum desses açambarcamentos de serviços básicos os torna mais eficientes nem reduz seus custos. Essa não é a questão. O que estão fazendo é roer as carcaças do Estado. E isso é a garantia da desintegração das estruturas que sustentam o próprio capitalismo. Marx anteviu tudo isso.

Marx realçou essas contradições inerentes ao capitalismo. Ele entendeu que a ideia de capitalismo – livre comércio, mercados livres, individualismo, inovação, autodesenvolvimento – só funciona no espírito utopista de verdadeiro crente como Alan Greenspan, mas nunca no mundo real. A acumulação de riqueza por uma minúscula elite capitalista, Marx anteviu, significaria que as massas já não mais poderiam comprar os produtos que fizeram avançar o capitalismo. A riqueza torna-se concentrada nas mãos de uma minúscula elite – o 1% dos mais ricos possuirá mais da metade da riqueza mundial no ano que vem.

As investidas contra a classe trabalhadora vêm acontecendo já há várias décadas. Os salários têm-se mantido estagnados ou têm sido reduzidos desde os anos 70. As manufaturas foram terceirizadas em países como a China ou Bangladesh, em que os trabalhadores ganham salários baixíssimos como 22 centavos de dólar por hora.

Trabalhadoras miserabilizadas em Bangladesh

Trabalhadores pauperizados, forçados a competir com outros que mal superam a condição servil, têm proliferado em todo o território dos Estados Unidos; eles lutam para manter um nível mínimo de subsistência. Indústrias como a construção civil, antigo celeiro de empregos bem remunerados e sindicalizados, são agora o feudo de trabalhadores não sindicalizados e amiúde não documentados. As corporações importam engenheiros e programadores que recebem um terço dos salários normais graças aos vistos H-1B, L-1 e outros semelhantes. Todos esses trabalhadores não gozam dos direitos dos outros cidadãos.

Os capitalistas respondem ao colapso de suas economias domésticas, por eles mesmos urdido, tornando-se credores tubarões globais e especuladores. Eles emprestam dinheiro a taxas de juros exorbitantes aos trabalhadores e aos pobres, mesmo sabendo que esse dinheiro pode nunca ser devolvido, e depois vendem essas dívidas em bloco, contratos derivativos de risco, títulos e ações a fundos de pensão, municipalidades, firmas de investimento e instituições. Essa forma recente de capitalismo é construída sobre aquilo que Marx chamou “capital fictício”. E isso leva, como sabia Marx, à vaporização do dinheiro. 

Uma vez que os devedores de hipotecas subprime deixaram de pagar, o que esses grandes bancos e firmas de investimento sabiam ser inevitável, a grande crise mundial de 2008 se instalou. O governo socorreu os bancos, sobretudo imprimindo dinheiro, mas deixou os pobres e a classe trabalhadora – sem falar nos estudantes recém-formados – com dívidas pessoais esmagadoras. A política de austeridade se impôs. As vítimas da fraude financeira teriam sido feitas para pagar por essa fraude. E o que nos salvou de uma depressão ainda mais devastadora foi a intervenção maciça do Estado na economia, inclusive com a nacionalização de imensas corporações como AIG e General Motors.

O que vimos em 2008 foi a oficialização do Estado de bem-estar social para os ricos, um tipo de socialismo estatista para as elites financeiras previsto por Marx. Mas com isso instaura-se um crescente e volátil ciclo de altos e baixos, levando o sistema à beira da desintegração e do colapso. Sofremos duas crises de grande monta no mercado de ações e a implosão dos valores imobiliários só na primeira década do século XXI.

As corporações que possuem a mídia têm trabalhado dobrado para vender a um público aturdido, a ficção de que estamos vivendo uma recuperação. Os números do desemprego, obtidos através de uma variedade de truques, inclusive da eliminação dos desempregados por mais de um ano das listas oficiais, são uma mentira, como de resto também o são quase todos os indicadores divulgados para o consumo público. O que estamos antes vivendo são os estágios crepusculares do capitalismo global, o qual pode ser surpreendentemente mais resiliente que o esperado, mas nem por isso deixa de ser moribundo.

Capitalismo de Livre Mercado
Povo sem casa                           Casa sem povo

Marx sabia que uma vez que o mecanismo de mercado se tornou o único fator determinante do destino do Estado-nação, bem como do mundo natural, ambos seriam demolidos. Ninguém sabe quando isso vai acontecer, mas que isso vai acontecer, talvez no horizonte de nossas vidas, isso vai.

“O velho está morrendo, o novo luta para nascer, e neste ínterim há sintomas mórbidos,” escreveu Antonio Gramsci.

O porvir depende de nós.
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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War,   American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

domingo, 17 de maio de 2015

Espanha: Guerra de trincheiras e estratégia eleitoral

3/5/2015, [*] Pablo Iglesias (candidato do PODEMOS – partido espanhol)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pablo Iglesias - PODEMOS, Espanha


Dos “Comentários de Leitores”, na mesma página:
●– Não esqueçam a origem de vocês.
●– Não esqueçam que para mudança real é preciso recuperar a alegria.
●– Não aceitem os debatem inúteis que a TV propõe.
●– À TV só interessa impedir que vocês falem e sujar qualquer coisa que vocês digam ou façam.



Nos parágrafos mais míticos de seus Cadernos do Cárcere, Antonio Gramsci refletia sobre as estratégias de guerra da Iª Guerra Mundial, posição e manobra, para entender a política no ocidente. Na política ocidental, a guerra de manobra (o assalto) perderia a relevância ante uma complexa guerra de posições na qual o Estado já não seria mais que a trincheira avançada do conjunto de fortificações da sociedade civil.

A política da guerra de trincheiras é a luta pela hegemonia. Diferentes do que pensam muitos, Gramsci não criou o conceito de “hegemonia”, que já estava presente nas reflexões de socialistas russos que Gramsci conheceu, inclusive em alguns textos do Komintern. Mas Gramsci foi o primeiro a entender a hegemonia, não como a necessidade das organizações socialistas liderarem setores subalternos diferentes da classe operária ou de se aliarem a setores da burguesia, mas, isso sim, como o conjunto de mecanismos culturais sobre os quais repousa a ordem política nas sociedades avançadas.

Gramsci voltou a Maquiavel, pai da política como ciência do poder, para entender a importância do consentimento. É que o poder, nas sociedades avançadas, não se manifesta só mediante mecanismos coercitivos, mas – e predominantemente – mediante o consentimento e o consenso.

A explicação de por que as reflexões de Gramsci resistiram tão bem ao tempo, convertendo-se em referência para todas as esquerdas, inclusive para algumas direitas letradas, é que a política ocidental, depois que se consolidaram os sistemas democráticos e seus Estados, é, basicamente, a política “de hegemonia”.

Os setores dominantes “têm a hegemonia”, quando têm a capacidade orgânica [têm os meios orgânicos indispensáveis] para convencer as maiorias da sociedade da veracidade dos relatos que justificam e explicam a ordem política vigente.

Os dispositivos de convencimento são basicamente culturais (a escola e a Igreja são os exemplos clássicos; os meios de comunicação são o exemplo do nosso tempo) e servem para implantar as chaves para a interpretação de todos os relatos ditos “hegemônicos”. Obter a vitória na política “de hegemonia” é, basicamente, ser capaz de convencer os demais da veracidade da própria narrativa.

Nos períodos de estabilidade política (geralmente associados à estabilidade econômica), a narrativa hegemônica é quase inexpugnável. Mas quando se produzem crises orgânicas, abre-se a oportunidade de

(I) questionar mediante a guerra de trincheiras, ou de manobra, todos os relatos dominantes; e, por isso, de que
(II) se produzam mudanças políticas.

movimento 15M mostrou que há uma crise orgânica na Espanha, questionando os relatos políticos oficiais e expondo-se como a melhor expressão social da crise.

Movimento 15M - Madri, Espanha
PODEMOS tem sido, até agora, a melhor expressão política dessa crise, conseguindo impor novas interpretações da situação e novas possibilidades de transformação, mediante o protagonismo dos setores subalternos (o povo). Temos conseguido introduzir a palavra “casta” no idioma político espanhol, para designar as elites políticas e econômicas, é bom exemplo da política de PODEMOS, que se dedica a construir uma nova hegemonia; nossa política que visa a construir um novo relato da crise e nova forma para superá-la.

A luta por ocupar o centro do tabuleiro é, precisamente, a luta pela capacidade para determinar onde, exatamente, está o centro do tabuleiro.

Como dissemos em artigo anterior, se conseguirmos situar o centro na necessidade de democratizar a economia, há chances de PODEMOS ser eleito. Ao contrário, se o centro for situado em outros parâmetros (a mera regeneração ou nova troca das elites, dentro das próprias elites) os setores dominantes terão mostrado sua capacidade para resistir.

Nos momentos de crise orgânica, as campanhas eleitorais são uma guerra de trincheiras simplificada. As campanhas representam o momento ou da glória ou do fracasso dos estrategistas políticos que se engalfinham para conseguir impor o próprio relato sobre a base de consensos mutáveis e mutantes, no dificílimo entorno dos meios de comunicação, que são, eles também, operadores políticos não neutros.

Essa campanha que começa agora é guerra de trincheiras pela imposição de um relato político. De como se imponha um ou outro, dependerão, em boa medida, os resultados finais, dado que quase a metade dos eleitores ainda não decidiram em quem votar.

Movimento 15M - INDIGNADOS
Que devemos fazer? A primeira tarefa, antes de se pôr a perseguir o adversário, é observar seus movimentos. Que narrativa eles estão tentando impor? Dirão que PODEMOS está-se esvaindo nas pesquisas, que basicamente há quatro aspirantes ao [palácio de] Moncloa, que o problema fundamental desses comícios são os pactos pós-eleitoriais num cenário instável de muitos partidos, que a Espanha é país de classes médias e que as maiorias sociais são moderadas.

Basta examinar o passado próximo, para comprovar que o êxito político e social do regime de 1978 dependia de relato muito parecido a esse, que se traduziu no estrepitoso fracasso do possibilismo eurocomunista e na moderação de um Partido Socialista que, ao chegar o comando do Estado, poderia ter ido muito mais longe.

Hoje, a narrativa dos nossos adversários dirá que PODEMOS foi protagonista da ruptura, mas que não será protagonista da mudança. Alguns cartunistas têm repetido a mesma coisa, com a lucidez própria dos caçadores e inventores de narrativas.

O que, então, temos de dizer nessa campanha? Em primeiro lugar, que PODEMOS nasceu para ganhar as eleições gerais e que nenhuma batalha prévia, por importante que seja, vai-nos distrair da batalha principal. Temos de dizer que não haverá mudança sem ruptura e que, portanto, quem se aliar a nós terá de romper com as políticas que nos levaram ao desastre.

Nessas eleições não há quatro opções, há duas: ou mudar, ou continuar com o de sempre. PODEMOS não está só no projeto de mudança; na cidade de Madrid, a mudança chama-se Manuela Carmena; em Barcelona, Ada Colau. E nossa mão está estendida para todos que sejam pela mudança, que significa defender o que é público e os direitos sociais.

Por isso PODEMOS defende a unidade popular e é instrumento para a unidade popular. É preciso dizer que hoje 13 milhões de espanhóis estão ameaçados pela miséria; que 1/3 dos assalariados recebem apenas 645 euros/mês; que quase a metade dos desempregados não recebe nenhum tipo de serviço público. As maiorias sociais não aspiram a uma segunda moradia, nem a três carros na garagem. Só aspiram a escolas públicas e a hospitais públicos ; a moradia digna ; a não atarem a própria vida a uma hipoteca infindável ; e a um salário decente.

Movimento 15M - 2015
Na Espanha não há maioria social moderada, há um povo que se recusa a humilhar-se e tem bem claro quem são seus inimigos: as elites políticas e econômicas que assaltam o povo espanhol e enriqueceram à custa dele.

Temos de explicar que nosso programa é o programa da mudança, precisamente porque se centra em resgatar os cidadãos, em transformar o modelo de produção, em favorecer o emprego de boa qualidade e com direitos, em promover a inovação tecnológica e em criar instituições que protejam a democracia contra a corrupção e o assalto à propriedade pública.

A guerra de trincheiras está começando. O adversário deseja que nos deixemos guiar pelos movimentos dele. Temos de forçá-lo a seguir os nossos movimentos, fazendo o que melhor sabemos fazer: dizer as verdades que outros não têm coragem para dizer, dizê-las sem meias palavras, por incômodas que sejam para as elites.

Nada temos a ganhar com nos fazer parecidos com o inimigo. Só temos a ganhar nos parecendo cada vez mais conosco mesmos.
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[*] Pablo Iglesias é professor de Ciência Política na Universidad Complutense, onde também estudou Direito. Depois de doutorar-se especializou-se em Humanidades na Universidad Carlos III e em filosofía dos meios e da comunicação na European Graduate School. Anima um programa de discussão política, La TuerKa, que muitos consideram o mais crítico da TV espanhola.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Pepe Escobar: − Somos o “Teorema” de Pasolini vivo

17/1/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pier Paolo Pasolini
BOLONHA – Nas primeiras horas da manhã de 2/11/1975, em Idroscalo, numa favela imunda e miserável em Ostia, nos arredores de Roma, foi encontrado o corpo de Pier Paolo Pasolini, 53 anos, uma usina intelectual e um dos maiores cineastas dos anos 1960s e 1970s; fora severamente espancado e duas vezes esmagado pelas rodas do seu próprio Alfa Romeo.

Difícil conceber mais dolorosa, aterradora, mistura moderna de tragédia grega e iconografia renascentista; em cenário que parecia copiado de filme de Pasolini, o autor foi imolado como seu principal personagem em Mamma Roma (1962) jazendo na prisão à maneira do Cristo Morto, também conhecido como A lamentação do corpo de Cristo, de Andrea Mantegna.

A lamentação do corpo de Cristo
Provavelmente, um encontro gay que deu terrivelmente errado; um jovem marginal de 17 anos foi acusado pelo assassinato, mas ele também tinha ligações com neofascistas italianos. A verdadeira história jamais foi divulgada. O que emergiu é que “a nova Itália” – os pós-efeitos de uma nova revolução capitalista – matou Pasolini.


Pasolini só poderia ter saído à caça de estrelas, ao sair graduado em literatura da Universidade de Bolonha – a mais antiga do mundo –, em 1943. Hoje, um Pasolini é absolutamente impensável. Seria alguma espécie de OIVNI (Objeto Intelectual Voador Não Identificado). O intelectual total – poeta, dramaturgo, pintor, músico, autor de ficção, teórico da literatura, cineasta e analista político.

Para italianos cultos, foi essencialmente poeta (o que, há algumas décadas, era imenso elogio...) Em sua obra-prima Ceneri di Gramsci (1952) [Cinzas de Gramsci], [1] Pasolini traça notável paralelo, em termos de ânsia por um ideal heroico, entre Gramsci e Shelley – que estão enterrados no mesmo cemitério em Roma. Justiça poética. [2]

Então saltou sem dificuldade, da palavra à imagem. O jovem Martin Scorsese ficou embasbacado quando assistiu pela primeira vez a Accattone (1961); para nem falar do jovem Bernardo Bertolucci, que aprendia ao vivo, como cameraman de Pasolini. No mínimo, não haveria Scorsese, Bertolucci, ou, para não parar por aí, Fassbinder, Abel Ferrara e incontáveis outros, sem Pasolini.

E especialmente hoje, quando flanamos 24 horas/dia, sete dias por semana, em nossa medíocre Feira da Vaidade, é impossível não simpatizar com o método de Pasolini – que muda de direção, de crítica ácida (sulfúrica) da burguesia (como em Teorema e Porcile [Pocilga]), para buscar refúgio nos clássicos (sua fase das tragédias gregas) e nos medievais, fascinantes, da “Trilogia da Vida” – adaptações do Decameron (1971), Contos de Canterbury (1972) e As Mil e Uma Noites (1974).

Teorema
Também não é surpresa que Pasolini decida sair da Itália decadente, corrupta, para filmar no Terceiro Mundo – na Cappadocia, Turquia, para Medea; e no Iêmem para As Mil e Uma Noites. Bertolucci adiante faria o mesmo, filmando no Marrocos (O céu que nos protege), no Nepal (seu épico Buda) e na China (O último imperador), seu formidável triunfo holliwoodiano.

E então veio o inclassificável Salo, ou Os 120 Dias de Sodoma, último filme de Pasolini, torturado, devastador, distribuído apenas uns poucos meses depois do assassinato, proibido durante anos em vários países e impiedoso, ao extrapolar para muito além o flerte da Itália (e da cultura ocidental) com o fascismo.

Entre 1973 e 1975, Pasolini escreveu várias colunas para o Corriere della Sera, jornal de Milão, publicados como Scritti Corsari em 1975 e depois como Lettere luterane, postumamente, em 1976. [3] O tema que engloba tudo é a “mutação antropológica” da Itália moderna, que também pode ser lido como um microcosmo para todo o ocidente.

Sou de uma geração em que muitos eram enlouquecidamente apaixonados por Pasolini na tela e no papel. À época, era claro que aquelas colunas eram os RPGs [Role Playing Games] de um intelectual extremamente arguto – mas supremamente solitário. Relidas hoje, soam nada menos que proféticas.

Porcile (Pocilga)
Examinando a dicotomia entre rapazes burgueses e rapazes proletários – como Itália do Norte vs Itália do Sul – Pasolini descobre nada menos que uma nova categoria, “difícil de descrever (porque ninguém descreveu antes)” e para a qual ele não tinha “precedentes linguísticos e terminológicos”. E há os “destinados à morte”. Um desses, pode ter vindo a ser seu assassino em Idroscalo.

Como Pasolini argumentou, os novos espécimes eram aqueles que, até meados dos 1950s teriam sido vítimas da mortalidade infantil. A ciência interveio e salvou-os da morte física. São portanto sobreviventes “e na vida deles há algo de contra natura”. Portanto, Pasolini argumentava, filhos nascidos hoje não não, a priori, “abençoados”; os que nascem “em excesso” são definitivamente “não abençoados”.

Em resumo, era Pasolini presa de um sentimento de não ser realmente bem-vindo, e, mesmo, até, de ser culpado; a nova geração era “infinitamente mais frágil, embrutecida, triste, pálida e doentia que todas as gerações precedentes”. São depressivos ou agressivos. E “nada pode cancelar a sombra que uma anormalidade desconhecida projeta sobre a vida deles”. Hoje, essa interpretação pode facilmente explicar o jovem islamista, alienado, nascido em fronteiras que ninguém vê, e que cruza aquelas fronteiras para unir-se a qualquer jihad, em desespero.

Salo ou 120 dias de Sodoma
Ao mesmo tempo, segundo Pasolini, esse sentimento inconsciente de ser fundamentalmente descartável alimenta “os destinados à morte” em sua ânsia por normalidade, pela “total adesão, sem reservas, à horda, o desejo de não parecer distinto ou diverso.” E eles “mostram como viver agressivamente o conformismo”. Ensinam “a renunciar”, uma “tendência para a infelicidade”, a “retórica da feiúra” e a brutalidade. E os feios e brutos tornam-se expoentes, campeões da moda e do comportamento (como se Pasolini já antevisse os punks ingleses, em 1976).

O autodescrito “velho burguês racionalista, idealista” foi muito além dessas reflexões sobre a geração “não há futuro para vocês”. Pasolini anteviu, dentre outros desastres, a destruição urbana da Itália, a responsabilidade pela “degradação antropológica” dos italianos, a condição terrível dos hospitais, escolas e da infraestrutura pública, a selvagem explosão da cultura de massa e da imprensa de massa, a “estupidez delinquente” da televisão, a “carga imoral” dos que governaram a Itália de 1945 a 1975 – isto é, a Democracia Cristã apoiada pelos EUA.

Guy Debord
Ele flagrou com destreza o “cinismo da nova revolução capitalista – a primeira real revolução de direita”. Essa revolução, disse ele, “de um ponto de vista antropológico – em termos da fundação de uma nova “cultura” – implica homens sem vínculo com o passado, vivendo em “imponderabilidade”. Assim, a única expectativa existencial possível é consumir e satisfazer seus impulsos hedonistas”. Aqui, é a crítica feroz de Guy Debord à “sociedade do espetáculo” expandida para o horizonte cultural de “o sonho acabou” dos anos 1970s.

No momento em que foi escrito, tudo isso era pensamento radiativo. Pasolini não carregava prisioneiros; se o consumo arrancara a Itália da miséria, “para gratificá-la com algum bem-estar” e alguma cultura não popular, o resultado humilhante foi alcançado “com mimar a pequena burguesia, com escola obrigatória e com televisão delinquente”. Pasolini costumava zombar da burguesia italiana, “a mais ignorante de toda a Europa” (nisso, se enganou: a burguesia espanhola é imbatível).

Assim brotou um novo modo de produção de cultura – construída sobre “o genocídio das culturas precedentes” – e uma nova espécie de burguês. Ah, se Pasolini tivesse sobrevivido para vê-lo em cena em uniforme completo, como Homo Berlusconis!

A Grande Beleza já era!  

Agora, o coração consumista das trevas – “o horror, o horror” – profetizado e detalhado por Pasolini já em meados dos anos 1970s acaba de aparecer exposto em toda sua miserável purpurina por um cineasta italiano de Nápoles, Paolo Sorrentino, nascido quando Pasolini, para nem falar de Fellini, já estavam no auge da potência. La Grande Bellezza (A Grande Beleza) – que acaba de vencer o Golden Globes como Melhor Filme Estrangeiro e provavelmente também ficará com um Óscar – seria inconcebível sem La Dolce Vita de Fellini (do qual é coda não assumida) e a crítica de Pasolini à “nova Itália”.

Pasolini e Fellini, aliás, ambos são ramos brotados numa fabulosa tradição intelectual na Emilia-Romagna (Pasolini, de Bolonha; Fellini, de Rimini; Bertolucci, de Parma). No início dos anos 1960s, Fellini dizia ao amigo e ainda aprendiz Pasolini, que ele, Fellini, não era equipado para o criticismo. Fellini era sempre emoção pura; Pasolini – e Bertolucci – eram emoção modulada pelo intelecto.

Cena de "A Grande Beleza" de Paolo Sorrentino
O surpreendente filme de Sorrentino – corrida vertiginosa sobre os galhos da Itália de Berlusconi – é La Dolce Vita que acabou horrivelmente azeda. Impossível não sentir empatia com ‘'Marcello'’ (Mastroianni), chegando aos 65 anos (representado pelo agradável Toni Servillo), padecendo de bloqueio de escritor, ao mesmo tempo em que surfa a própria reputação de rei da vida noturna em Roma. Como o grande Ezra Pound – que amava profundamente a Itália – também profetizou – uma torpeza barata de liquidação acabou por durar até nossos dias, convertida em insipidismo berlusconiano no qual – segundo um personagem – todos “esqueceram tudo sobre cultura e arte” e o ex-ápice da civilização terminou conhecido só por “moda e pizza".

Pasolini nos falava exatamente sobre isso há quase 40 anos – antes que uma fantasmagórica, macabra manifestação dessa mesma mediocridade o tivesse silenciado. Sua morte demonstrou afinal – avant la lettre – o seu teorema; sempre esteve, desgraçadamente, mortalmente certo.



Notas dos tradutores

[1] PASOLINI , Pier Paolo. Le ceneri di Gramsci. Milano: Garzanti, 1957. 249 p.. Há traduções de alguns poemas em Le ceneri di Gramsci, Poemas I e Le ceneri di Gramsci IV - Porto: Assírio & Alvin, 2005. Trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo no blog Canal da Poesia.

[2] De fato, estiveram bem separados nos cemitérios, por muito tempo. Gramsci foi enterrado, primeiro, no Cemitério Campo Verano, antes de suas cinzas serem trazidas para o Cemitério de Não Católicos de Roma, onde estão hoje, como Shelley e Keats. Foi a cunhada de Gramsci (Tatiana Schucht, cidadã russa e não católica, e quem cuidou de Gramcsi durante os anos de cárcere em Roma) quem fez a transferência das cinzas para onde estão hoje. Caso talvez mais de amor, que de justiça, poética ou qualquer outra. A história está contada em detalhes em:  Gramsci’s grave and Pasolini, onde também aprendemos que no túmulo de Gramsci há a inscrição “Cinera Antonii Gramscii”, “cinzas de Antonio Gramsci”, que Pasolini usaria para título de seu poema. A internet é totalmente O MÁXIMO.

[3] PASOLINI, Pier Paolo, “Escritos Corsários e Cartas Luteranas”, Porto: Assírio & Alvim,2006, 174 pp.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.