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terça-feira, 2 de junho de 2015

Karl Marx tinha razão

31/5/2015, [*] Chris Hedges  truthdig
Traduzido por Emerx

 Busto de Karl Marx 
(gravitat-OFF CC BY 2.0)


Sábado (30/5/2015) no Forum de Esquerda em Nova Iorque, Chris Hedges uniu-se aos professores Richard Wolff e Gail Dines para conversar sobre porque Karl Marx é essencial no momento em que o capitalismo global entra em colapso. Foi com essas observações que Hedges abriu o debate.


Karl Marx expôs a dinâmica peculiar do capitalismo, ou aquilo que chamou “o modo de produção burguês”. Ele previu que o capitalismo havia plantado dentro de si as sementes de sua destruição. Ele sabia que as ideologias predominantes – pense no neoliberalismo- foram criadas para servir aos interesses das elites e particularmente das elites econômicas, visto que

(...) a classe que tem à disposição os meios de produção material tem ao mesmo tempo o controle dos meios de produção espiritual e (...) as ideias dominantes não são nada mais que a expressão ideal das relações materiais dominantes (...) relações que fazem de uma classe a classe dominante.

Ele viu que chegaria o dia em que o capitalismo esgotaria seu potencial e entraria em colapso, só não sabia quando.

Marx, como escreveu Meghnad Desai, era “um astrônomo da história, não um astrólogo”. Marx era agudamente consciente da capacidade de inovação e adaptação do capitalismo. Mas também era consciente de que a expansão capitalista não era eternamente sustentável. No momento em que testemunhamos o desenlace do capitalismo e do globalismo, Karl Marx é justamente reconhecido como o mais presciente e importante crítico deste modo de produção.

Num prefácio à “Contribuição para a Crítica da Economia Política” Marx escreveu:

Nenhuma ordem social jamais desapareceu antes de que todas as forças produtivas existentes em seu seio estivessem desenvolvidas; e novas e mais elevadas relações de produção nunca aparecem antes do amadurecimento das condições materiais de sua existência no seio da própria velha sociedade.
Portanto, a humanidade sempre se coloca apenas as tarefas que pode resolver; a examinar atentamente, encontramos sempre que a tarefa em si surge apenas quando já existem as condições materiais necessárias para a sua solução, ou estão pelo menos no processo de formação.

Em outras palavras, o socialismo não seria possível antes de o capitalismo exaurir seu potencial de continuidade, ainda que fosse temerário predizer quando. Somos convocados a estudar Marx para dar conta disso.

Os estágios finais do capitalismo, escreveu Marx, seriam marcados por desenvolvimentos que são intimamente familiares para muitos de nós. Incapaz de se expandir e gerar lucro nos mesmos níveis do passado, o sistema capitalista começaria a consumir suas próprias estruturas de sustentação. Ele começaria a predar, em nome da austeridade, a classe trabalhadora e os mais pobres, fazendo-os mergulhar ainda mais na dívida e na pobreza e diminuindo a capacidade do Estado em atender às necessidades dos cidadãos comuns.

Como diria Marx: O Sistema Burguês

O capitalismo deslocaria cada vez mais empregos – é o que ele está fazendo- inclusive manufaturas e quadros profissionais, em países com reserva de mão de obra barata. As indústrias mecanizariam suas unidades de produção. Isso desencadearia golpes econômicos não apenas sobre a classe trabalhadora, mas também sobre a classe média – um baluarte do sistema capitalista – sob a imposição maciça de dívidas concomitante à estagnação ou redução de renda.

Nos últimos estágios do capitalismo, a política seria subordinada à economia, o que levaria a partidos completamente esvaziados de qualquer conteúdo realmente político e desprezivelmente subservientes às imposições da finança e do capitalismo global.

Mas como advertiu Marx, há um limite a uma economia construída sobre a expansão da dívida. Chega o momento, sabia Marx, em que não há mercados disponíveis e o endividamento das pessoas atinge seu limite. Isso foi o que aconteceu com a chamada crise das hipotecas subprime. Uma vez que os bancos não podem mais conseguir novos tomadores de empréstimos subprime, o esquema desmorona e o sistema vem abaixo.

Enquanto isso, a oligarquia capitalista entesoura escondido vastas somas de riqueza – US$ 18 trilhões estão armazenados em paraísos fiscais – uma extorsão em forma de tributo sobre aqueles que essa oligarquia domina, endivida e empobrece. Em sua fase final, disse Marx, o capitalismo se transformaria no chamado livre mercado, e com ele os valores e as tradições que ele diz defender. Nessa fase última, o capitalismo pilharia os sistemas e as estruturas que o tornaram possível. Em resposta ao sofrimento geral que isso causaria, haveria um recrudescimento da repressão. Numa última cartada desesperada para manter sua taxa de lucro, o capitalismo passaria ao saqueio e à pilhagem do Estado, contradizendo sua pretensa natureza.

Marx advertiu que nos últimos estágios do capitalismo imensas corporações exerceriam o monopólio dos mercados globais.

A constante necessidade de expansão dos mercados para seus produtos lança a burguesia sobre toda a superfície do globo. Ela se aninha em toda parte, se instala em toda parte e estabelece conexões em todo lugar, escreveu Marx.

Essas corporações, seja no setor bancário, agrícola ou da indústria alimentícia, no armamento ou nas comunicações, usaria seu poder assumindo o controle dos mecanismos do Estado para impedir quem quer que seja de desafiar o seu monopólio.


Elas fixariam preços para alcançar o lucro máximo. Através de tratados comerciais como o  TPP e o CAFTA, as corporações fariam pressões – como de fato é o que estão fazendo- para debilitar a capacidade do Estado em impedir a exploração ao impor regulamentações ambientais ou trabalhistas. E finalmente essas corporações suprimiriam a livre competição de mercado.

Num editorial de 22/5/2015, The New York Times nos dá uma vista sobre aquilo que, segundo Marx, caracterizaria os últimos estágios do capitalismo:

A partir deste fim de semana, Citicorp, JPMorgan Chase, Barclays e Royal Bank of Scotland podem ser considerados criminosos, pois declararam-se culpados na quarta-feira de crimes de conspiração para fraudar o valor das moedas do mundo. Segundo o Departamento de Justiça, a longa e lucrativa conspiração permitiu aos bancos elevar seus lucros sem considerações para com a equidade, a lei e o bem comum.

E The Times continua:

Os bancos vão pagar multas que totalizam cerca de US$ 9 bilhões, valores estimados pelo Departamento de Justiça e por reguladores federais, estrangeiros e dos Estados. Parece um bom negócio para uma fraude que durou pelo menos 5 anos, do final de 2007 ao começo de 2013, período durante o qual a renda dos bancos com o câmbio internacional foi de algo como US$ 85 bilhões.

Nos últimos estágios daquilo que chamamos capitalismo, como Marx bem entendeu, já não há mais capitalismo algum. As corporações devoram os recursos do governo, basicamente oriundas do contribuinte, como porcos ávidos num cocho.

A indústria armamentista, com seus US$ 612 bilhões de dólares legalmente outorgados para a defesa, sem contar várias outras despesas militares embutidas em outros orçamentos, aumenta nossa despesa com segurança nacional em mais de US$ 1 trilhão por ano. Essa indústria conseguiu este ano que o governo se comprometesse a gastar US$ 348 bilhões ao longo da próxima década para modernizar nossas armas nucleares e construir 12 novos submarinos padrão Ohio, estimados em US$ 8 bilhões cada um.

Como esses dois novos programas armamentistas vão resolver o que nos dizem ser a maior ameaça de nossos tempos – a guerra ao terrorismo- é algo que permanece um mistério. Afinal, que o saibamos, ISIS não possui sequer um bote a remo. Gastamos cerca de US$ 100 bilhões por ano com inteligência – leia-se vigilância- e 70% desse dinheiro vai para empresas privadas como Booz Allen Hamilton, cujos 99% de renda vêm do governo. E ainda por cima, somos os maiores exportadores de armas do mundo.

A indústria de combustíveis fósseis engole US$ 5.3 trilhões por ano em todo o mundo em custos encobertos para continuar queimando esses combustíveis, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Esse dinheiro, nota o FMI, acrescenta-se aos US$ 492 bilhões de subsídios diretos oferecidos pelos governos em todo o mundo através de isenções fiscais, reduções de taxas e brechas na legislação fundiária. Num mundo sadio, esses subsídios seriam investidos em esforços para nos livrar dos efeitos letais das emissões de carbono causadas pelos combustíveis fósseis, mas nós não vivemos num mundo sadio.

O capitalista e o trabalhador

No artigo Why Should Taxpayers Give Big Banks US$ 83 Billion a Year?” (Por que os contribuintes dão US$ 83 bilhões por ano aos grandes bancos?), relatório publicado em 2013 por Bloomberg News, ficamos sabendo que economistas calcularam que os subsídios do governo reduzem os custos de empréstimo dos grandes bancos em 0.8%. 

Multiplicado pelo passivo total dos 10 maiores bancos estadunidenses por ativos, isso chega a US$ 83 bilhões por ano de subsídios financiados pelo contribuinte, diz o relatório.

Os cinco maiores bancos - JPMorgan, Bank of America Corp., Citigroup Inc., Wells Fargo & Co. e Goldman Sachs Group Inc. representam um total de US$ 64 bilhões em subsídios, uma soma insolentemente igual a um lucro anual típico dessas empresas. Em outras palavras, os bancos que ocupam postos de decisão na indústria financeira dos Estados Unidos – com quase US$ 9 trilhões em ativos, mais da metade da economia estadunidense –simplesmente quebrariam na ausência do Estado de bem-estar corporativo. Seus lucros são, mormente, transferências de recursos dos contribuintes para os acionistas dessas empresas -  continua o relatório.

As despesas do governo contam por 41% do PIB. O objetivo dos capitalistas corporativos é açambarcar esse dinheiro. Daí a privatização de setores completos das Forças Armadas, a pressão pela privatização da Seguridade Social, a contratação de corporações para cuidar de 70% de nossas 16 agências de inteligência, bem como da privatização das prisões, escolas e do desastroso e comercial serviço de saúde. Nenhum desses açambarcamentos de serviços básicos os torna mais eficientes nem reduz seus custos. Essa não é a questão. O que estão fazendo é roer as carcaças do Estado. E isso é a garantia da desintegração das estruturas que sustentam o próprio capitalismo. Marx anteviu tudo isso.

Marx realçou essas contradições inerentes ao capitalismo. Ele entendeu que a ideia de capitalismo – livre comércio, mercados livres, individualismo, inovação, autodesenvolvimento – só funciona no espírito utopista de verdadeiro crente como Alan Greenspan, mas nunca no mundo real. A acumulação de riqueza por uma minúscula elite capitalista, Marx anteviu, significaria que as massas já não mais poderiam comprar os produtos que fizeram avançar o capitalismo. A riqueza torna-se concentrada nas mãos de uma minúscula elite – o 1% dos mais ricos possuirá mais da metade da riqueza mundial no ano que vem.

As investidas contra a classe trabalhadora vêm acontecendo já há várias décadas. Os salários têm-se mantido estagnados ou têm sido reduzidos desde os anos 70. As manufaturas foram terceirizadas em países como a China ou Bangladesh, em que os trabalhadores ganham salários baixíssimos como 22 centavos de dólar por hora.

Trabalhadoras miserabilizadas em Bangladesh

Trabalhadores pauperizados, forçados a competir com outros que mal superam a condição servil, têm proliferado em todo o território dos Estados Unidos; eles lutam para manter um nível mínimo de subsistência. Indústrias como a construção civil, antigo celeiro de empregos bem remunerados e sindicalizados, são agora o feudo de trabalhadores não sindicalizados e amiúde não documentados. As corporações importam engenheiros e programadores que recebem um terço dos salários normais graças aos vistos H-1B, L-1 e outros semelhantes. Todos esses trabalhadores não gozam dos direitos dos outros cidadãos.

Os capitalistas respondem ao colapso de suas economias domésticas, por eles mesmos urdido, tornando-se credores tubarões globais e especuladores. Eles emprestam dinheiro a taxas de juros exorbitantes aos trabalhadores e aos pobres, mesmo sabendo que esse dinheiro pode nunca ser devolvido, e depois vendem essas dívidas em bloco, contratos derivativos de risco, títulos e ações a fundos de pensão, municipalidades, firmas de investimento e instituições. Essa forma recente de capitalismo é construída sobre aquilo que Marx chamou “capital fictício”. E isso leva, como sabia Marx, à vaporização do dinheiro. 

Uma vez que os devedores de hipotecas subprime deixaram de pagar, o que esses grandes bancos e firmas de investimento sabiam ser inevitável, a grande crise mundial de 2008 se instalou. O governo socorreu os bancos, sobretudo imprimindo dinheiro, mas deixou os pobres e a classe trabalhadora – sem falar nos estudantes recém-formados – com dívidas pessoais esmagadoras. A política de austeridade se impôs. As vítimas da fraude financeira teriam sido feitas para pagar por essa fraude. E o que nos salvou de uma depressão ainda mais devastadora foi a intervenção maciça do Estado na economia, inclusive com a nacionalização de imensas corporações como AIG e General Motors.

O que vimos em 2008 foi a oficialização do Estado de bem-estar social para os ricos, um tipo de socialismo estatista para as elites financeiras previsto por Marx. Mas com isso instaura-se um crescente e volátil ciclo de altos e baixos, levando o sistema à beira da desintegração e do colapso. Sofremos duas crises de grande monta no mercado de ações e a implosão dos valores imobiliários só na primeira década do século XXI.

As corporações que possuem a mídia têm trabalhado dobrado para vender a um público aturdido, a ficção de que estamos vivendo uma recuperação. Os números do desemprego, obtidos através de uma variedade de truques, inclusive da eliminação dos desempregados por mais de um ano das listas oficiais, são uma mentira, como de resto também o são quase todos os indicadores divulgados para o consumo público. O que estamos antes vivendo são os estágios crepusculares do capitalismo global, o qual pode ser surpreendentemente mais resiliente que o esperado, mas nem por isso deixa de ser moribundo.

Capitalismo de Livre Mercado
Povo sem casa                           Casa sem povo

Marx sabia que uma vez que o mecanismo de mercado se tornou o único fator determinante do destino do Estado-nação, bem como do mundo natural, ambos seriam demolidos. Ninguém sabe quando isso vai acontecer, mas que isso vai acontecer, talvez no horizonte de nossas vidas, isso vai.

“O velho está morrendo, o novo luta para nascer, e neste ínterim há sintomas mórbidos,” escreveu Antonio Gramsci.

O porvir depende de nós.
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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War,   American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

terça-feira, 19 de maio de 2015

EUA-2105: Patologia da família branca rica

17/5/2015, [*] Chris HedgesTruthdig 
The Pathology of the Rich White Family
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 
 
 
Tive como crença, e permaneço,  que a diplomacia
pessoal pode ser muito útil e produtiva. (Bush-pai)
A patologia da família branca rica é das mais perigosas nos EUA. A família branca rica é amaldiçoada com excesso de dinheiro e privilégios. Não conhece nenhuma empatia, resultado de gerações e gerações de privilegiados. Tem mínimo senso de lealdade, e é incapaz de autossacrifício. A definição de amizade na família branca rica está reduzida a “O que você pode fazer por mim?” A família branca rica é possuída por insaciável ambição de aumentar sempre a própria fortuna e o próprio poder. Acredita que riqueza e privilégio conferem a ela inteligência e virtude superiores. É presa dos mais impenetráveis hedonismo e narcisismo. 
 
E, por tudo isso, a família branca rica interpreta a realidade através de lentes de autoadulação e cobiça que reduzem a realidade a alguma espécie de fantasia distante. A família branca rica é uma perigosa ameaça que vive dentro dos EUA. As doenças dos pobres, se comparadas às doenças dos norte-americanos brancos ricos, são pequena vela ao lado do sol. 
 
Não faltam propagandistas e elogiadores às famílias norte-americanas brancas ricas. Dominam as ondas de rádio e TV em todo o país. Culpam a patologia das famílias negras pobres pela miséria, pela falência da sociedade, pela violência urbana, pelo consumo de drogas, pela violência doméstica – como se não conhecessem algum desses itens. Dizem que as famílias negras pobres estão em desintegração por causa de algum defeito inerente – o que implica dizer que veem os brancos como melhores que os negros – defeito que essas famílias pobres devem tratar de consertar. 
 
Colete e regurgite todo esse lixo simplista racista, e você estará qualificado para assinar coluna no The New York Times. Bajular famílias brancas ricas sempre é bem negócio nos EUA. 
 
Se você é negro, e papagueia as mesmas pirações racistas dos brancos ricos, os brancos ricos enlouquecem de alegria. São capazes de cometer o desatino de oferecer-lhe palanques. Você pode até vir a ser presidente ou juiz da Suprema Corte. Dão-lhe programa de entrevistas na televisão, ou emprego bem remunerado numa universidade. Você receberá dinheiro para a sua fundação. Você pode publicar livros de autoajuda. Aparecerá dinheiro para fazer seus filmes. Pode acontecer até de você ser contratado para presidir uma empresa. 
 
Negro contratado para presidir uma "grande empresa"...
As famílias brancas, dizem os seus elogiadores profissionais, muito tentaram ajudar. As famílias brancas ricas deram incontáveis recursos aos pobres, muitos programas governamentais para erguê-los acima da pobreza. Muita, muita caridade, a mais generosa. Mas os negros, dizem eles, assim como outros pobres de cor, deixam-se derrotar pelas próprias atitudes e pelo próprio comportamento autodestrutivo. Programas governamentais são, pois, desperdiçados, com essa gente irresponsável. 
 
As famílias pobres, dizem os bajuladores de brancos ricos, nunca serão redimidas, se não se autorredimirem. Nós queremos ajudar, dizem os brancos ricos, mas os negros pobres têm vestir as calças, ficar na escola, dar jeito de se educarem, encontrar um emprego, dizer “Não às drogas” e respeitar a autoridade constituída. Se não fazem isso... merecem o que têm. E o que a família negra média consegue em termos econômicos é um níquel para cada dólar embolsado pela família branca média. 
 
Desde os dez anos, bolsista de uma escola de elite em New England, tive de aprender a conhecer a patologia das famílias brancas ricas. Não é experiência que eu recomende a alguém. Anos depois, por decisão pessoal, mudei-me para Rosbury, Boston, quando estava no seminário. Vivi do outro lado da rua de um dos projetos de moradia mais pobres da cidade, e era responsável por uma pequena igreja no centro do projeto, por quase três anos. Eu já tinha um sentimento de profundo desprezo contra famílias brancas ricas, e ele só aumentou depois de ver o que eles faziam contra os mais pobres. Gente branca rica, concluí depois da minha infância e dos meus anos em Roxbury, são sociopatas. 
 
A miséria e o colapso da família e da comunidade em Roxbury não eram causados por alguma patologia inerente das famílias negras. Os ricos que tratavam os pobres como refugo humano eram a causa de todos os problemas. Camadas superpostas de racismo institucionalizado – os tribunais, as escolas, a polícia, os oficiais de condicional, os bancos, o acesso fácil às drogas, o desemprego endêmico e o subemprego, as estruturas em colapso e o sistema prisional – tudo efetivamente sempre conspirou para assegurar que os pobres permanecessem pobres. Drogas, crime, famílias em desintegração são resultado da pobreza, não da cor da pele. Vê-se o mesmo quadro também entre brancos pobres. Tire todas as oportunidades, encha a vida dos pobres de desespero e desesperança, e o resultado é o mesmo, entre brancos ou entre negros. Mas aí está exatamente o que famílias brancas ricas não querem que ninguém saiba. Se se soubesse de tudo isso, os ricos teriam de ser responsabilizados. 
 
Divisão da riqueza nos EUA
Michael Kraus, Paul Piff e Dacher Keltner, cientistas sociais da Universidade da California, completaram uma pesquisa que os levou a concluir que os pobres têm mais empatia que os ricos. Os pobres, dizem eles, não conseguem dominar o ambiente em que vivem. Têm de construir relacionamentos com outros, para sobreviver. É coisa que só é possível se os pobres aprenderem a ler as emoções à sua volta e responder adequadamente a elas. Para isso, é indispensável que os pobres se olhem, uns os outros. Com isso se tornam mais sensíveis ao próximo. Os ricos, que podem dominar o ambiente em que vivem, não têm de se incomodar com o que outros sintam ou pensem. Estão no comando. Conseguem o que querem. O que querem que seja feito é feito. E quanto mais vivem no centro do próprio universo estanque, mais duros, mais insensíveis e mais cruéis se tornam. 
 
A família branca rica tem excepcional aptidão para o crime. Membros de famílias brancas ricas comandam corporações falidas (pensem nos Irmãos Lehman), fraudam acionistas e investidores, vendem hipotecas podres como se fossem investimentos dourados a fundos de pensão, comunidades e escolas e quando a coisa toda explode, ainda saqueiam o Tesouro dos EUA. Roubam centenas de milhões de dólares em Wall Street mediante fraude e assaltos, pagam poucos impostos ou nenhum, praticamente jamais vão para a cadeia, escrevem as leis e regulações que legalizam seus próprios crimes e, depois, são convidados a participar da direção das universidades de elite, ou tomam assento nos boards das grandes empresas privadas. Inventam fundações e são admirados como filantropos. E se acabam por meter-se em coisa realmente grave, têm os advogados mais caros e todos os seus “contatos” nas elites políticas, para se safarem. 
 
Isso é preciso reconhecer nas famílias brancas ricas: roubam com muito mais finesse que qualquer outra família. Se você é adolescente negro pobre e salta de uma caminhonete com alguns vidros de shampoo que acabou de roubar, o mais provável é que seja assassinado a tiros, pelas costas, ali mesmo na calçada ou, então, é condenado a anos de cadeia. Se houvesse Olímpiadas de crime, as famílias brancas ricas levariam todas as medalhas; as famílias negras pobres teriam sorte se ficassem menos de cem metros atrás do último classificado. Nem sei por que há negros que tentam competir com os brancos, no setor “crime”. Comparados aos criminosos brancos, os criminosos negros são lastimáveis fracassos. Os monarcas do crime são gente branca, que chafurdam na própria riqueza, enquanto vão trancafiando nas prisões porcentagem enorme de homens pobres negros. 
 
Famílias brancas ricas são também os matadores mais eficientes que há no planeta. É verdade há já 500 anos, começando na conquista da América e no genocídio contra os povos nativos norte-americanos, e continuando hoje, nas guerras dos EUA no Oriente Médio. As famílias brancas ricas não matam com as próprias mãos. Não precisam arriscar o próprio pescoço nas ruas das cidades nos EUA ou no Iraque. Mas contratam gente, quase sempre pobres, para matar por elas. Famílias brancas ricas queriam o petróleo do Iraque, ergueram bandeiras e entoaram slogans patrióticos, e assim arregimentaram legiões de crianças pobres para guerrear em nome delas e passar a mão nos poços de petróleo do Iraque. 
 
Casal branco rico típico
Famílias brancas ricas queriam guerra sem fim para benefício da indústria de armas. Foi só convocar para uma guerra ao terror, que conseguiram o que queriam. Famílias brancas ricas queriam que a polícia usasse impunemente força letal contra os pobres e que os prendessem aos milhares, inchando ainda mais as prisões dos EUA com 25% da população prisional do planeta. Foi só criar uma rede de leis antidrogas e militarizar os departamentos de Polícia, que conseguiram o que queriam. 
 
A beleza de fazer outros matarem por você é que você consegue se fazer passar por “razoável” e “bom”. Assim, você logo pode pôr-se a matar pobres muçulmanos por serem fanáticos furiosos. Você consegue divulgar a mensagem da tolerância num sorriso de querubim – o que implica continuar a tolerar os crimes e a violência cometidos por norte-americanos brancos ricos. 
 
Compare os tiros partidos de um carro em movimento em Watts e o bombardeio de saturação no Vietnam. Compare as guerras de gangues em Chicago e o ataque da polícia militarizada contra pelo menos um homem negro por dia, praticamente todos os dias. Ninguém produz mais rapidamente maior número de cadáveres que os ricos brancos. Só no Iraque, produziram um milhão de cadáveres, só até agora. E os ricos e poderosos que matam números espantosos de pessoas nunca vão para a prisão. Podem aposentar-se e ir viver num rancho em Crawford, Texas, e pintar retratos ridículos de líderes mundiais copiados de Google Image Search
 
Não há decadência como a decadência dos brancos ricos. Conheço um bilionário que, aposentado, passa o dia num iate fumando maconha e tratado por uma resma de prostitutas caras. Os filhos das famílias brancas ricas – cercados de empregados e cevados em escolas privadas, nunca voam em aviões de carreira nem se servem do transporte público – desenvolvem o ócio e a preguiça como meio de vida, quase sempre embalado em drogas, que com frequência os levam a desperdiçar completamente a própria vida, como parasitas sociais. As mães não precisam ser mães. Os pais não precisam ser pais. Babás e porteiros fazem o serviço. Os ricos vivem encastelados em reinos privados, protegidos por sua própria guarda privada, nos quais o mundo real não se intromete. São filisteus culturais ocupados com acumular mais riqueza e mais propriedades. O “sucesso material”, como escreveu C. Wright Mills, “é a única e verdadeira base da autoridade”. Misturam-se ao mundo das celebridades. E jornais e televisões comerciais de massa – que famílias brancas e ricas controlam – convertem-nos em ídolos a serem reverenciados só porque são ricos. Profissionais de “relações públicas” [mas que só sabem de relações privadas! :-D)))))] constroem as personas desses ricos, para o mundo exterior. Legiões de advogados atormentam e silenciam quem critique os ricos e brancos. Profissionais da bajulação promovem a sagacidade deles. Em pouco tempo, os brancos ricos estão convencidos da veracidade da mentira que criaram. 
 
Manifestação de negros pobres
Daniel Patrick Moynihan escreveu em 1965 o que se conhece como “Relatório Moynihan”, ou “The Negro Family: The Case for National Action” [A Família Negra: proposta de ação nacional]. O relatório concluiu que “no coração da deterioração do tecido da sociedade dos negros nos EUA está a deterioração da família dos negros”. Os oprimidos passavam a ser culpados pela própria opressão. Nenhum programa social poderia, sozinho, salvar os pobres. O relatório é exemplo clássico do modelo da economia neoliberal, ali re-embalado como uma ideologia. 
 
As patologias dos ricos logo nos levarão para uma ladeira econômica e ecológica. E quando mais nos afundarmos, mais os ricos, sem qualquer empatia e incapazes de compreender, determinados a manter a riqueza e os privilégios deles, mais usarão a guarda pretoriana deles, os veículos deles da comunicação de massas deles, os fantoches políticos deles, e o aparelho de vigilância e segurança deles para nos manter submissos. 
 
“O segredo de um grande sucesso sem causa aparente é sempre um crime jamais descoberto porque foi bem executado”, escreveu Honoré de Balzac em seu romance Le Père Goriot
 
Os ricos executaram um golpe de estado que transformou os três braços do governo dos EUA e praticamente todas as instituições, inclusive as empresas-mídia e todos os veículos comerciais de comunicação de massa em subsidiárias da empresa-estado. 
 
Esse golpe dá aos ricos autorização e poder para acumular riqueza inimaginável, sempre à nossa custa. O golpe permite que os ricos imponham pobreza cada vez mais incapacitante a círculos sempre crescentes da população. A pobreza passou a ser o pior dos crimes – como George Bernard Shaw escreveu, “todos os demais crimes passam a ser virtudes, se comparados à pobreza”. 

Martin Luther King e Malcolm X assassinados
por serem incômodos à elite branca e rica
E a habilidade de uma elite rapace, para deixar crianças morrerem de fome; para fazer homens e mulheres sofrerem a perda da própria dignidade humana e a autoestima, porque não encontram trabalho; a ter de abandonar as próprias casas e cidades; para jogar às ruas os doentes mentais e os velhos sem teto; para cortar sempre mais os magros serviços que ainda dão algum socorro e alguma esperança aos que sofrem, para meter centenas de milhares de pobres em celas de prisões por anos e anos; para fazer guerras sem fim; para fazer curvar os mais moços, sob o peso de dívidas estudantis sem fim; para lançar o estado de terror; e para pôr fim a qualquer esperança entre os menos afortunados, tudo isso demonstra e comprova que os oligarcas brancos e ricos norte-americanos são a força mais destrutiva e mais perigosa ativa hoje nos EUA.

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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

terça-feira, 3 de março de 2015

Tariq Ali: É tempo de a Revolução avançar sobre o Palácio


1/3/2015, [*] Chris Hedges e Tariq AliThruthdig
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Chantez, compagnons, dans la nuit la liberté nous écoute.
Cantem, camaradas! Dentro da noite, a liberdade nos ouve.
(Da Chanson du Partisan, 1943, cantada por Johnny Halliday)


Ver também: 2/3/2015, Eurobancos vs. trabalho grego, redecastorphoto, Michael Hudson em entrevista à rede TRNN.


O novo livro de Tariq Ali é “The Extreme Centre: A Warning”.
[O extremo centro: um alerta]

PRINCETON, N.J. – Tariq Ali é da alta nobreza da esquerda. Seus mais de 20 livros sobre política e história, seus seis romances, suas peças e roteiros e seu jornalismo no jornal Black Dwarf, na New Left Review e outras publicações, fizeram dele um dos mais afiados críticos do capitalismo empresarial-empreendedorista. Lança raios retóricos e críticas afiadíssimas contra os especuladores do petróleo e empresários oligarcas que manipulam a finança global e os imbecis úteis na empresa-imprensa, no sistema político e na academia que os apoiam. A história da parte final do século XX e da primeira parte do século XXI provou que Tariq Ali, intelectual formado em Oxford e ativista há muito tempo incômodo, que certa vez apresentou-se como candidato trotskista ao Parlamento britânico, sempre foi muito surpreendentemente profético.

Ali, nascido no Paquistão, portador de cidadania dupla, britânica e paquistanesa, já era ícone da esquerda durante as convulsões dos anos 1960s. Reza a história que Mick Jagger escreveuStreet Fighting Man (vídeo no fim do parágrafo) depois de assistir a um comício antiguerra em Grosvenor Square dia 17/3/1968, liderado por Ali, Vanessa Redgrave e outros à frente da Embaixada dos EUA em Londres. 8.000 manifestantes atiraram lama, pedras e bombas de fumaça contra a polícia de choque. A polícia montada atacou a multidão. Mais de 200 pessoas foram presas.


Semana passada, quando nos encontramos pouco antes de ele proferir a aula-homenagem a Edward W. Said na Princeton University, Ali elogiou as lutas de rua, e manifestações de protesto e o confronto aberto e sustentado contra o estado que irromperam durante a Guerra do Vietnam. Lamentou o fim do radicalismo que foi nutrido pela contracultura dos anos 1960s, dizendo que foi evento “sem precedentes na história do império” e produziu o “período mais cheio de esperança” nos EUA, “intelectualmente, culturalmente e politicamente”.
 Edward W. Said

Não consigo pensar em exemplo de nenhuma outra guerra imperial na história, e não só na história do império norte-americano, mas também na história dos impérios britânico e francês, durante a qual dezenas de milhares de veteranos de guerra e muitos GIs que ainda estavam no serviço militar ativo, marcharam à frente do Pentágono, dizendo que desejavam que os vietnamitas vencessem a guerra. Aquele foi evento único nos anais do império. E foi o que assustou, atemorizou, fez tremer de pavor todos eles [os que estavam no poder]. Se o coração de nosso apparatus já foi contaminado[pensaram eles], o que, diabos, vamos fazer?! − disse ele.

Esse desafio encontrou expressão até dentro dos muros do Establishment. Sessões e audiências pública da Comissão de Relações Exteriores do Senado abertamente desafiavam os que insistiam em orquestrar o banho de sangue da Guerra do Vietnã.

O modo como aquelas audiências públicas foram conduzidas educaram segmento enorme da população” – disse Ali falando das audiências públicas conduzidas por liberais como J. William Fulbright.

Mas Ali logo constatou com tristeza: audiências públicas como aquelas nunca mais voltarão acontecer.

Aquele espírito foi, exatamente, o que a elite governante teve de atacar e fazer retroceder, e conseguiram que retrocedesse, com considerável sucesso, ele disse; e o retrocesso foi completado pela implosão da União Soviética.

Então a elite sentou e disse:

Ótimo. Agora podemos fazer o que bem entendermos. Nada mais existe do outro lado do mundo, e o que temos em casa – crianças protestando contra a Nicarágua e os Contras – é coisa pouca. E gradualmente a oposição democrática retrocedeu.

Os EUA bombardeiam Bagdá  - março/2003
Já no início da Guerra do Iraque, as manifestações de cidadãos, embora grandes, já não passavam de “assunto de 24 horas”.

Antes, havia sido uma tentativa para parar uma guerra. Quando não conseguiram pará-la, a manifestação acabou – disse ele sobre as marchas de oposição à Guerra do Iraque.

Foi um espasmo. As autoridades conseguiram convencer o povo na rua de que eles nada poderiam fazer; que fizesse a rua o que fizesse, os do poder sempre fariam o que bem entendessem. Foi a primeira vez em que muitos se deram conta de que a própria democracia já fora enfraquecida e estava sendo ameaçada.

A volta do sistema político, já trazendo com ele em profusão o dinheiro privado, a reformatação das leis e regulações para remover todos e quaisquer controles democráticos sobre o poder dos empresários e das empresas, a ocupação de toda a empresa-imprensa por um punhado de empresas e empresários para silenciar qualquer oposição, e a ascensão da vigilância total vendida no atacado, e o estado de vigilância “levaram à morte do sistema de partidos” e à emergência do que Ali chamou de “um extremo centro”.

Os trabalhadores estão sendo cruelmente sacrificados no altar do lucro das empresas privadas – cenário que se vê em tonalidades dramáticas, hoje, na Grécia. E não há mecanismo ou instituição restante dentro das estruturas do sistema capitalista que seja capaz de pôr fim ou de mitigar a reconfiguração da economia global que a vai convertendo em neofeudalismo impiedoso, em mundo de patrões e servos.

Esse extremo centro – não importa o partido que o constitua – efetivamente entra em colusão com as empresas privadas gigantes, incorpora os mesmos interesses e põe-se pelo mundo a fazer guerras – disse Ali. – Esse extremo centro estende-se por todo o mundo ocidental. Por isso é que cada vez mais e mais jovens afastam-se, lavando as mãos feito Pilatos, do sistema democrático como existe hoje. Tudo isso é resultado direto de se haver ensinado ao povo, depois do colapso da União Soviética, que “não há alternativa”.

Vai-se tornando cada dia mais volátil a batalha entre desejo popular e as demandas dos empresários oligarcas – que cada dia saqueiam maior número de pessoas pelo mundo, jogando-as na miséria e no desespero. Ali observou que mesmo os líderes que têm compreensão clara da força destrutiva do capitalismo sem controles – como o Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, que é homem de esquerda – deixam-se intimidar pelo poder econômico e militar que há à disposição das elites empresariais e grandes empreiteiras.

Yanis Varoufakis (E) e Alexis Tsipras
Por essa razão, principalmente, é que Tsipras e seu Ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, acederam às demandas dos bancos europeus, em troca de uma prorrogação de quatro meses no atual processo de resgate da Grécia, por US$ 272 bilhões emprestados. Os líderes gregos foram forçados a se comprometer com manter reformas econômicas punitivas e a retroceder de suas promessas de campanha eleitoral, quando o partido de Tsipras, a SYRIZA, falava de cancelar grande parte da dívida da Grécia. A dívida grega chega a 175% do PIB grego. Esse negócio agora acertado, por quatro meses, como disse Ali, é uma tática de adiamento – mas ameaça enfraquecer todo o amplo apoio que a SYRIZA angariou entre os gregos. A Grécia não conseguirá pagar o serviço dessa dívida. Mais dia menos dia, as autoridades gregas e europeias terão de entrar em choque; e o choque, afinal, disparará uma quebradeira terminal e o derretimento financeiro na Grécia. Assim a Grécia se libertará da Eurozona, e disparará levantes populares na Espanha, Portugal e Itália.

O desafio aberto, declarado, disse Ali, e o custo que com certeza custará, é nossa única linha de fuga para nos salvar da tirania das empreiteiras e empresas privadas monstro. Esse custo, de início, será doloroso. Nossos patrões empresários e empreiteiros monstros privados não têm intenção alguma de afrouxar a pegada de suas garras, e a luta será brutal.

Ali relembra o que lhe ensinava o seu valente, falecido e muito querido amigo, Hugo Chávez, presidente socialista da Venezuela, que tampouco conseguiu escapar sempre das forças de intimidação do Establishment:

(...) lembro-me das muitas conversas que tive com Chávez, e que eu dizia: “Mas meu Comandante, por que parar nesse ponto?” – e ele sempre me dizia que não era realista tentar ir adiante, naquele momento. Podemos regular o capital, podemos fazer a vida mais difícil para o capitalismo, podemos usar o dinheiro do petróleo a favor dos pobres, mas não podemos derrubar o sistema.

E, Ali acrescenta:

Os gregos e os espanhóis estão dizendo a mesma coisa.

Movimento dos Indignados (15M) - Espanha

Não sei o que a SYRIZA pensou – diz Ali. – Se pensou “podemos dividir a elite europeia, podemos fazer vasta campanha de propaganda na Europa e eles serão obrigados a fazer concessões”... Isso seria loucura. A elite europeia, chefiada pelos alemães é dura na queda, não rachará assim tão facilmente. A elite europeia já esmagou os gregos. Os líderes gregos deveriam ter dito ao próprio povo que “Vamos tentar arrancar as melhores condições possíveis – se não conseguirmos, o povo será informado sobre o que aconteceu e sobre o que os gregos teremos de fazer”. Não fizeram assim. Em vez disso, caíram na armadilha dos europeus. Os europeus praticamente não fizeram concessão alguma, que interessasse aos gregos.

O embate entre os gregos e as elites empresariais e bancárias que dominam a Europa, disse Ali, “não é econômico”. [epígrafe]

A União Europeia está pronta para “fazer chover bilhões contra os russos na Ucrânia” – Tariq Ali observa. – Não é absolutamente questão de dinheiro. Eles podem jogar fora quanta merda de dinheiro queiram, como estão preparados para fazer na Ucrânia. Com os gregos, a União Europeia finge que seria questão de dinheiro, mas não é: a questão é política. Temem que se os gregos conseguirem, a febre se dissemine. Em dezembro haverá eleições na Espanha. Se o partido Podemos [o partido da esquerda da Espanha]vencer, o segundo, depois de a SYRIZA ter sido eleita na Grécia e seguindo avante, mesmo que os avanços sejam tímidos, e por via diferente, os espanhóis dirão que os gregos conseguiram. E há também os irlandeses, esperando pacientemente com seus países progressistas e dizendo “Por que não poderíamos fazer o que a SYRIZA fez? Por que não podemos todos nos unir e agir diretamente contra nosso extremo centro?”.

Ali disse que sempre se sentiu:

(...) furioso e chocado por causa das muitas esperanças que a esquerda investiu em ObamaBarack Obama, disse ele, é presidente imperial e age como tal, não importa que tenha pele de mestiço.

Ali também já há muito desacreditou da política de gêneros que já está dando combustível para uma possível candidatura de Hilária Clinton à Casa Branca, para ser a primeira presidenta mulher nos EUA.  

Hilária Clinton
DonkeyHotey

Minha resposta é “e que merda de diferença faz que seja mulher ou homem?!”– disse ele. Se ela vai bombardear o mundo e distribuir drones por todos os continentes, que diferença faz o gênero, se a política é a mesma?

Aí está a chave: toda a política foi desvalorizada e rebaixada pelos “valores” do neoliberalismo. As pessoas degradaram as lutas, recolheram-se para lutas de identidade, lutas religiosas. Penso mesmo se será possível ainda criar alguma oposição a tudo isso coisa em escala nacional nos EUA.

Penso se o melhor não será concentrar-se nas grandes cidades e tratar de desenvolver alguns movimentos onde possam fazer diferença, em Los Angeles, New York ou em estados como Vermont. Pode ser mais inteligente concentrar-se em três ou quatro coisas e mostrar o que pode ser feito.

Não consigo ver a velha sistemática, de reproduzir partidos políticos de esquerda cujo modelo é o mesmo dos partidos Republicano e Democrata, nos dar algum resultado avançado. Gente de partido só trabalha com o dinheiro. Às vezes eles já nem veem gente do povo, há anos. É a democracia de cartão de crédito. A esquerda não pode copiar e nunca deveria ter copiado esse modelo.

Os EUA são o osso mais duro de roer, mas se não roermos esse osso, estamos destruídos.

Ali disse que teme que, se os norte-americanos algum dia se tornarem politicamente conscientes e decidirem resistir, o estado das empreiteiras e empresários imporá diretamente as formas mais declaradas de repressão militarizada. A reação do governo dos EUA no caso das bombas na Maratona de Boston em 2013, o impressionou:

(...) o estado norte-americano fechou completamente uma cidade inteira, com o apoio da população.

Bomba na Maratona de Boston - Investigação
Para Tariq Ali, a declaração virtual de lei marcial em Boston foi como “um ensaio geral”.

Se conseguem fazer em Boston, conseguem fazer em outras cidades – disse.Precisavam testar e testaram em Boston para ver se funcionaria. Essa ideia muito me assustou.

Para Tariq Ali,

(...) quem fabrica ameaça fabrica medo. Criam-se cidadãos sonâmbulos. As autoridades norte-americanas nunca tentaram o que se vê hoje, nessa escala, nem quando combatiam contra a União Soviética e o inimigo comunista, pressuposto o pior, o mais ameaçador, o mais perigoso de todos os tempos. Agora fazem exatamente o que se vê, em escala gigantesca, por causa de meia dúzia de terroristas doidos. 

Para ele, grupos como Black Lives Matter, [Vida de negro faz diferença], trazem alguma esperança. Vídeo a seguir:


Assim como os tradicionais partidos de esquerda foram esvaziados por todos os cantos do mundo, assim também os segmentos radicais da população afro-norte-americana – diz Ali. – Foram fisicamente eliminados. Martin Luther King e Malcolm X, alguns dos líderes mais bem dotados, foram assassinados. Os Black Panthers [Panteras Negras] foram destruídos. Áreas nas quais os negros viviam na Costa Oeste foram inundadas com drogas. Foi ataque bem planejado. Mas os jovens que saíram às ruas no movimento Black Lives Matter parecem ter aquele velho espírito. Quando Jesse Jackson foi a Ferguson e tentou lá a sua demagogia, foi rechaçado. Aconteceu o mesmo na Costa Leste, com [Al] Sharpton. Esses líderes negros que se venderam estão sendo vistos, afinal, pelo que são.

A principal preocupação de Ali é que essas organizações, como Black Lives Matter quase sempre só reagem aos eventos e

(...) não se dão conta perfeitamente de que reagir a eventos não é suficiente para agir contra a continuada violência do estado contra os cidadãos; que, para isso, é indispensável que os cidadãos contem com movimentos políticos.

Ele se preocupa com que os norte-americanos conheçam mal a própria história; pouquíssimos algum dia tiveram contato com a literatura da teoria revolucionária, de Karl Marx a Rosa Luxemburg.

Esse analfabetismo político, diz ele, significa que movimentos de oposição raramente são competentes para analisar efetivamente as estruturas e os mecanismo do poder capitalista; sem isso, não podem formular resposta política mais sofisticada.

Por que a classe trabalhadora nos EUA não produziu um Partido Trabalhista nem um Partido Comunista efetivo? – Ali pergunta. Repressão. Se se considera o que aconteceu nos EUA nas primeiras décadas do século XX e na última década do século XIX, vê-se que muitos mercenários privados foram contratados para pôr fim a qualquer organização política democrática. É uma parte da história que raramente é focada. Esse amaldiçoado neoliberalismo degradou também os estudos de história. A história do morticínio entre os trabalhadores norte-americanos que tentavam organizar-se é item que os historiadores norte-americanos realmente odeiam. Até se dedicam a alguns estudos de política, porque nesse campo podem usar seu anticomunismo: ensiná-lo e praticá-lo pelos jornais e televisões. Mas história é problema muito amplo.

Não se consegue entender a emergência da SYRIZA sem compreender a IIª Guerra Mundial, o papel dos partisans, o papel do Partido Comunista que organizou os partisans e como, em dado ponto, 75% da Grécia era controlada por esses partisans comunistas. Então veio o “ocidente” e fez nova guerra, foi obra de Churchill, com o apoio de Truman, para derrotar aquele povo.


Fui simpático ao movimento Occupy, mas àquela conversa de nada exigir, sem demandas, é inútil – diz ele. Deveriam ter pauta de exigências. Que exigissem serviço público de assistência à saúde; fim das empresas que fabricam remédios e do controle das seguradoras sobre os planos de saúde. Que exigissem educação gratuita universal para todos os norte-americanos. A ideia promovida por anarquistas como John Holloway, de que se pode mudar o mundo sem tomar o poder é ideia inútil. Tenho grande, enorme respeito pelos anarquistas que mobilizam e lutam pelos direitos dos imigrantes. Mas critico muito os que constroem teorias de uma política sem política. É indispensável ter um programa político. Os anarquistas espanhóis, verdadeiros anarquistas, tinham verdadeiro programa político. Esse novo anarquismo que temos visto não leva a coisa alguma. E o mais provável é que metade dos grupos hoje atuantes já estejam infiltrados. Hoje já sabemos quantos havia, de gente do FBI, no Partido Comunista e no grupo dissidente trotskista. Eram muitos, muitos. Nas votações, quem votava era gente do FBI.

Ali disse que:

(...) o fracasso dos cidadãos, que não conseguem construir movimentos de massa para desmontar o estado de total vigilância sobre os cidadãos logo depois de tudo que Edward Snowden revelou foi exemplo de o quanto estamos todos mergulhados num mesmo autoengano, numa mesma autoilusão; e de nossa cumplicidade na opressão que se aplica contra nós mesmos. O culto do indivíduo e da autoimagem – que já beira o autismo – produto da propaganda das empresas e do empreendedorismo neoliberal, infecta todos os aspectos da sociedade e da cultura, e leva à paralisia.

Edward Snowden
Hollywood deu um prêmio Óscar a Citizenfour, e aí é o mais longe que vai – diz Ali. Como se fosse importante. E aí está o mais assustador: não brotou nenhum movimento por direitos civis, que unisse os cidadãos contra a vigilância em massa. O neoliberalismo realmente destruiu completamente a solidariedade e a empatia, auxiliado por novas tecnologias. É a cultura do narcisismo mais autista.

Ali previu que a atual onda de especulação global resultará em mais um crash financeiro. Esse novo crash fará nascer movimentos, as pessoas dirão “Basta!” Se esses movimentos derem origem a programas políticos radicais, com visão diferente, socialista, da sociedade, nosso “capitalismo autoritário” poderá ser enfrentado. Mas se não houver essa visão socialista, se a revolta for simplesmente reativa, as coisas ainda piorarão. O epicentro dessa luta, disse ele, será nos EUA.

Se nada acontecer nos EUA, se nada de novo for criado para desafiar o império e seus excessos sistêmicos, será situação muito ruim para todos nós – diz ele. Será a danação para todos, se nada acontecer nos EUA.
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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.


[*] Tariq Ali (nasceu em Lahore, hoje Paquistão, em 21/10/1943) é escritor e ativista. Escreve periodicamente para o jornal The Guardian e para a New Left Review e London Review of Books. Estudou na Universidade do Punjab. Devido aos seus contatos com movimentos estudantis e temendo por sua segurança, seus pais o enviaram à Inglaterra. Estudou Ciências Políticas e Filosofia em Oxford. Foi o primeiro paquistanês a ser eleito presidente do Diretório Central dos Estudantes daquela universidade inglesa.
Sua notoriedade teve início durante a Guerra do Vietnã, quando manteve debates com personagens centrais, tais como Henry Kissinger. Tornou-se um crítico ferrenho das políticas externas dos Estados Unidos e Israel. Ali é um crítico das políticas econômicas neoliberais e esteve presente nas edições de 2003 e 2005 do Fórum Social Mundial, tendo sido um dos dezenove signatários do Manifesto de Porto Alegre.
Publicou mais de uma dezena de livros sobre História e Política Internacional, além de várias novelas ficcionais. Seu livro mais recente é Bush na Babilônia: a Recolonização do Iraque, publicado no Brasil pela Editora Record, além de Confronto de fundamentalismo, Redenção e Mulher de Pedra.