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terça-feira, 3 de março de 2015

Tariq Ali: É tempo de a Revolução avançar sobre o Palácio


1/3/2015, [*] Chris Hedges e Tariq AliThruthdig
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Chantez, compagnons, dans la nuit la liberté nous écoute.
Cantem, camaradas! Dentro da noite, a liberdade nos ouve.
(Da Chanson du Partisan, 1943, cantada por Johnny Halliday)


Ver também: 2/3/2015, Eurobancos vs. trabalho grego, redecastorphoto, Michael Hudson em entrevista à rede TRNN.


O novo livro de Tariq Ali é “The Extreme Centre: A Warning”.
[O extremo centro: um alerta]

PRINCETON, N.J. – Tariq Ali é da alta nobreza da esquerda. Seus mais de 20 livros sobre política e história, seus seis romances, suas peças e roteiros e seu jornalismo no jornal Black Dwarf, na New Left Review e outras publicações, fizeram dele um dos mais afiados críticos do capitalismo empresarial-empreendedorista. Lança raios retóricos e críticas afiadíssimas contra os especuladores do petróleo e empresários oligarcas que manipulam a finança global e os imbecis úteis na empresa-imprensa, no sistema político e na academia que os apoiam. A história da parte final do século XX e da primeira parte do século XXI provou que Tariq Ali, intelectual formado em Oxford e ativista há muito tempo incômodo, que certa vez apresentou-se como candidato trotskista ao Parlamento britânico, sempre foi muito surpreendentemente profético.

Ali, nascido no Paquistão, portador de cidadania dupla, britânica e paquistanesa, já era ícone da esquerda durante as convulsões dos anos 1960s. Reza a história que Mick Jagger escreveuStreet Fighting Man (vídeo no fim do parágrafo) depois de assistir a um comício antiguerra em Grosvenor Square dia 17/3/1968, liderado por Ali, Vanessa Redgrave e outros à frente da Embaixada dos EUA em Londres. 8.000 manifestantes atiraram lama, pedras e bombas de fumaça contra a polícia de choque. A polícia montada atacou a multidão. Mais de 200 pessoas foram presas.


Semana passada, quando nos encontramos pouco antes de ele proferir a aula-homenagem a Edward W. Said na Princeton University, Ali elogiou as lutas de rua, e manifestações de protesto e o confronto aberto e sustentado contra o estado que irromperam durante a Guerra do Vietnam. Lamentou o fim do radicalismo que foi nutrido pela contracultura dos anos 1960s, dizendo que foi evento “sem precedentes na história do império” e produziu o “período mais cheio de esperança” nos EUA, “intelectualmente, culturalmente e politicamente”.
 Edward W. Said

Não consigo pensar em exemplo de nenhuma outra guerra imperial na história, e não só na história do império norte-americano, mas também na história dos impérios britânico e francês, durante a qual dezenas de milhares de veteranos de guerra e muitos GIs que ainda estavam no serviço militar ativo, marcharam à frente do Pentágono, dizendo que desejavam que os vietnamitas vencessem a guerra. Aquele foi evento único nos anais do império. E foi o que assustou, atemorizou, fez tremer de pavor todos eles [os que estavam no poder]. Se o coração de nosso apparatus já foi contaminado[pensaram eles], o que, diabos, vamos fazer?! − disse ele.

Esse desafio encontrou expressão até dentro dos muros do Establishment. Sessões e audiências pública da Comissão de Relações Exteriores do Senado abertamente desafiavam os que insistiam em orquestrar o banho de sangue da Guerra do Vietnã.

O modo como aquelas audiências públicas foram conduzidas educaram segmento enorme da população” – disse Ali falando das audiências públicas conduzidas por liberais como J. William Fulbright.

Mas Ali logo constatou com tristeza: audiências públicas como aquelas nunca mais voltarão acontecer.

Aquele espírito foi, exatamente, o que a elite governante teve de atacar e fazer retroceder, e conseguiram que retrocedesse, com considerável sucesso, ele disse; e o retrocesso foi completado pela implosão da União Soviética.

Então a elite sentou e disse:

Ótimo. Agora podemos fazer o que bem entendermos. Nada mais existe do outro lado do mundo, e o que temos em casa – crianças protestando contra a Nicarágua e os Contras – é coisa pouca. E gradualmente a oposição democrática retrocedeu.

Os EUA bombardeiam Bagdá  - março/2003
Já no início da Guerra do Iraque, as manifestações de cidadãos, embora grandes, já não passavam de “assunto de 24 horas”.

Antes, havia sido uma tentativa para parar uma guerra. Quando não conseguiram pará-la, a manifestação acabou – disse ele sobre as marchas de oposição à Guerra do Iraque.

Foi um espasmo. As autoridades conseguiram convencer o povo na rua de que eles nada poderiam fazer; que fizesse a rua o que fizesse, os do poder sempre fariam o que bem entendessem. Foi a primeira vez em que muitos se deram conta de que a própria democracia já fora enfraquecida e estava sendo ameaçada.

A volta do sistema político, já trazendo com ele em profusão o dinheiro privado, a reformatação das leis e regulações para remover todos e quaisquer controles democráticos sobre o poder dos empresários e das empresas, a ocupação de toda a empresa-imprensa por um punhado de empresas e empresários para silenciar qualquer oposição, e a ascensão da vigilância total vendida no atacado, e o estado de vigilância “levaram à morte do sistema de partidos” e à emergência do que Ali chamou de “um extremo centro”.

Os trabalhadores estão sendo cruelmente sacrificados no altar do lucro das empresas privadas – cenário que se vê em tonalidades dramáticas, hoje, na Grécia. E não há mecanismo ou instituição restante dentro das estruturas do sistema capitalista que seja capaz de pôr fim ou de mitigar a reconfiguração da economia global que a vai convertendo em neofeudalismo impiedoso, em mundo de patrões e servos.

Esse extremo centro – não importa o partido que o constitua – efetivamente entra em colusão com as empresas privadas gigantes, incorpora os mesmos interesses e põe-se pelo mundo a fazer guerras – disse Ali. – Esse extremo centro estende-se por todo o mundo ocidental. Por isso é que cada vez mais e mais jovens afastam-se, lavando as mãos feito Pilatos, do sistema democrático como existe hoje. Tudo isso é resultado direto de se haver ensinado ao povo, depois do colapso da União Soviética, que “não há alternativa”.

Vai-se tornando cada dia mais volátil a batalha entre desejo popular e as demandas dos empresários oligarcas – que cada dia saqueiam maior número de pessoas pelo mundo, jogando-as na miséria e no desespero. Ali observou que mesmo os líderes que têm compreensão clara da força destrutiva do capitalismo sem controles – como o Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, que é homem de esquerda – deixam-se intimidar pelo poder econômico e militar que há à disposição das elites empresariais e grandes empreiteiras.

Yanis Varoufakis (E) e Alexis Tsipras
Por essa razão, principalmente, é que Tsipras e seu Ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, acederam às demandas dos bancos europeus, em troca de uma prorrogação de quatro meses no atual processo de resgate da Grécia, por US$ 272 bilhões emprestados. Os líderes gregos foram forçados a se comprometer com manter reformas econômicas punitivas e a retroceder de suas promessas de campanha eleitoral, quando o partido de Tsipras, a SYRIZA, falava de cancelar grande parte da dívida da Grécia. A dívida grega chega a 175% do PIB grego. Esse negócio agora acertado, por quatro meses, como disse Ali, é uma tática de adiamento – mas ameaça enfraquecer todo o amplo apoio que a SYRIZA angariou entre os gregos. A Grécia não conseguirá pagar o serviço dessa dívida. Mais dia menos dia, as autoridades gregas e europeias terão de entrar em choque; e o choque, afinal, disparará uma quebradeira terminal e o derretimento financeiro na Grécia. Assim a Grécia se libertará da Eurozona, e disparará levantes populares na Espanha, Portugal e Itália.

O desafio aberto, declarado, disse Ali, e o custo que com certeza custará, é nossa única linha de fuga para nos salvar da tirania das empreiteiras e empresas privadas monstro. Esse custo, de início, será doloroso. Nossos patrões empresários e empreiteiros monstros privados não têm intenção alguma de afrouxar a pegada de suas garras, e a luta será brutal.

Ali relembra o que lhe ensinava o seu valente, falecido e muito querido amigo, Hugo Chávez, presidente socialista da Venezuela, que tampouco conseguiu escapar sempre das forças de intimidação do Establishment:

(...) lembro-me das muitas conversas que tive com Chávez, e que eu dizia: “Mas meu Comandante, por que parar nesse ponto?” – e ele sempre me dizia que não era realista tentar ir adiante, naquele momento. Podemos regular o capital, podemos fazer a vida mais difícil para o capitalismo, podemos usar o dinheiro do petróleo a favor dos pobres, mas não podemos derrubar o sistema.

E, Ali acrescenta:

Os gregos e os espanhóis estão dizendo a mesma coisa.

Movimento dos Indignados (15M) - Espanha

Não sei o que a SYRIZA pensou – diz Ali. – Se pensou “podemos dividir a elite europeia, podemos fazer vasta campanha de propaganda na Europa e eles serão obrigados a fazer concessões”... Isso seria loucura. A elite europeia, chefiada pelos alemães é dura na queda, não rachará assim tão facilmente. A elite europeia já esmagou os gregos. Os líderes gregos deveriam ter dito ao próprio povo que “Vamos tentar arrancar as melhores condições possíveis – se não conseguirmos, o povo será informado sobre o que aconteceu e sobre o que os gregos teremos de fazer”. Não fizeram assim. Em vez disso, caíram na armadilha dos europeus. Os europeus praticamente não fizeram concessão alguma, que interessasse aos gregos.

O embate entre os gregos e as elites empresariais e bancárias que dominam a Europa, disse Ali, “não é econômico”. [epígrafe]

A União Europeia está pronta para “fazer chover bilhões contra os russos na Ucrânia” – Tariq Ali observa. – Não é absolutamente questão de dinheiro. Eles podem jogar fora quanta merda de dinheiro queiram, como estão preparados para fazer na Ucrânia. Com os gregos, a União Europeia finge que seria questão de dinheiro, mas não é: a questão é política. Temem que se os gregos conseguirem, a febre se dissemine. Em dezembro haverá eleições na Espanha. Se o partido Podemos [o partido da esquerda da Espanha]vencer, o segundo, depois de a SYRIZA ter sido eleita na Grécia e seguindo avante, mesmo que os avanços sejam tímidos, e por via diferente, os espanhóis dirão que os gregos conseguiram. E há também os irlandeses, esperando pacientemente com seus países progressistas e dizendo “Por que não poderíamos fazer o que a SYRIZA fez? Por que não podemos todos nos unir e agir diretamente contra nosso extremo centro?”.

Ali disse que sempre se sentiu:

(...) furioso e chocado por causa das muitas esperanças que a esquerda investiu em ObamaBarack Obama, disse ele, é presidente imperial e age como tal, não importa que tenha pele de mestiço.

Ali também já há muito desacreditou da política de gêneros que já está dando combustível para uma possível candidatura de Hilária Clinton à Casa Branca, para ser a primeira presidenta mulher nos EUA.  

Hilária Clinton
DonkeyHotey

Minha resposta é “e que merda de diferença faz que seja mulher ou homem?!”– disse ele. Se ela vai bombardear o mundo e distribuir drones por todos os continentes, que diferença faz o gênero, se a política é a mesma?

Aí está a chave: toda a política foi desvalorizada e rebaixada pelos “valores” do neoliberalismo. As pessoas degradaram as lutas, recolheram-se para lutas de identidade, lutas religiosas. Penso mesmo se será possível ainda criar alguma oposição a tudo isso coisa em escala nacional nos EUA.

Penso se o melhor não será concentrar-se nas grandes cidades e tratar de desenvolver alguns movimentos onde possam fazer diferença, em Los Angeles, New York ou em estados como Vermont. Pode ser mais inteligente concentrar-se em três ou quatro coisas e mostrar o que pode ser feito.

Não consigo ver a velha sistemática, de reproduzir partidos políticos de esquerda cujo modelo é o mesmo dos partidos Republicano e Democrata, nos dar algum resultado avançado. Gente de partido só trabalha com o dinheiro. Às vezes eles já nem veem gente do povo, há anos. É a democracia de cartão de crédito. A esquerda não pode copiar e nunca deveria ter copiado esse modelo.

Os EUA são o osso mais duro de roer, mas se não roermos esse osso, estamos destruídos.

Ali disse que teme que, se os norte-americanos algum dia se tornarem politicamente conscientes e decidirem resistir, o estado das empreiteiras e empresários imporá diretamente as formas mais declaradas de repressão militarizada. A reação do governo dos EUA no caso das bombas na Maratona de Boston em 2013, o impressionou:

(...) o estado norte-americano fechou completamente uma cidade inteira, com o apoio da população.

Bomba na Maratona de Boston - Investigação
Para Tariq Ali, a declaração virtual de lei marcial em Boston foi como “um ensaio geral”.

Se conseguem fazer em Boston, conseguem fazer em outras cidades – disse.Precisavam testar e testaram em Boston para ver se funcionaria. Essa ideia muito me assustou.

Para Tariq Ali,

(...) quem fabrica ameaça fabrica medo. Criam-se cidadãos sonâmbulos. As autoridades norte-americanas nunca tentaram o que se vê hoje, nessa escala, nem quando combatiam contra a União Soviética e o inimigo comunista, pressuposto o pior, o mais ameaçador, o mais perigoso de todos os tempos. Agora fazem exatamente o que se vê, em escala gigantesca, por causa de meia dúzia de terroristas doidos. 

Para ele, grupos como Black Lives Matter, [Vida de negro faz diferença], trazem alguma esperança. Vídeo a seguir:


Assim como os tradicionais partidos de esquerda foram esvaziados por todos os cantos do mundo, assim também os segmentos radicais da população afro-norte-americana – diz Ali. – Foram fisicamente eliminados. Martin Luther King e Malcolm X, alguns dos líderes mais bem dotados, foram assassinados. Os Black Panthers [Panteras Negras] foram destruídos. Áreas nas quais os negros viviam na Costa Oeste foram inundadas com drogas. Foi ataque bem planejado. Mas os jovens que saíram às ruas no movimento Black Lives Matter parecem ter aquele velho espírito. Quando Jesse Jackson foi a Ferguson e tentou lá a sua demagogia, foi rechaçado. Aconteceu o mesmo na Costa Leste, com [Al] Sharpton. Esses líderes negros que se venderam estão sendo vistos, afinal, pelo que são.

A principal preocupação de Ali é que essas organizações, como Black Lives Matter quase sempre só reagem aos eventos e

(...) não se dão conta perfeitamente de que reagir a eventos não é suficiente para agir contra a continuada violência do estado contra os cidadãos; que, para isso, é indispensável que os cidadãos contem com movimentos políticos.

Ele se preocupa com que os norte-americanos conheçam mal a própria história; pouquíssimos algum dia tiveram contato com a literatura da teoria revolucionária, de Karl Marx a Rosa Luxemburg.

Esse analfabetismo político, diz ele, significa que movimentos de oposição raramente são competentes para analisar efetivamente as estruturas e os mecanismo do poder capitalista; sem isso, não podem formular resposta política mais sofisticada.

Por que a classe trabalhadora nos EUA não produziu um Partido Trabalhista nem um Partido Comunista efetivo? – Ali pergunta. Repressão. Se se considera o que aconteceu nos EUA nas primeiras décadas do século XX e na última década do século XIX, vê-se que muitos mercenários privados foram contratados para pôr fim a qualquer organização política democrática. É uma parte da história que raramente é focada. Esse amaldiçoado neoliberalismo degradou também os estudos de história. A história do morticínio entre os trabalhadores norte-americanos que tentavam organizar-se é item que os historiadores norte-americanos realmente odeiam. Até se dedicam a alguns estudos de política, porque nesse campo podem usar seu anticomunismo: ensiná-lo e praticá-lo pelos jornais e televisões. Mas história é problema muito amplo.

Não se consegue entender a emergência da SYRIZA sem compreender a IIª Guerra Mundial, o papel dos partisans, o papel do Partido Comunista que organizou os partisans e como, em dado ponto, 75% da Grécia era controlada por esses partisans comunistas. Então veio o “ocidente” e fez nova guerra, foi obra de Churchill, com o apoio de Truman, para derrotar aquele povo.


Fui simpático ao movimento Occupy, mas àquela conversa de nada exigir, sem demandas, é inútil – diz ele. Deveriam ter pauta de exigências. Que exigissem serviço público de assistência à saúde; fim das empresas que fabricam remédios e do controle das seguradoras sobre os planos de saúde. Que exigissem educação gratuita universal para todos os norte-americanos. A ideia promovida por anarquistas como John Holloway, de que se pode mudar o mundo sem tomar o poder é ideia inútil. Tenho grande, enorme respeito pelos anarquistas que mobilizam e lutam pelos direitos dos imigrantes. Mas critico muito os que constroem teorias de uma política sem política. É indispensável ter um programa político. Os anarquistas espanhóis, verdadeiros anarquistas, tinham verdadeiro programa político. Esse novo anarquismo que temos visto não leva a coisa alguma. E o mais provável é que metade dos grupos hoje atuantes já estejam infiltrados. Hoje já sabemos quantos havia, de gente do FBI, no Partido Comunista e no grupo dissidente trotskista. Eram muitos, muitos. Nas votações, quem votava era gente do FBI.

Ali disse que:

(...) o fracasso dos cidadãos, que não conseguem construir movimentos de massa para desmontar o estado de total vigilância sobre os cidadãos logo depois de tudo que Edward Snowden revelou foi exemplo de o quanto estamos todos mergulhados num mesmo autoengano, numa mesma autoilusão; e de nossa cumplicidade na opressão que se aplica contra nós mesmos. O culto do indivíduo e da autoimagem – que já beira o autismo – produto da propaganda das empresas e do empreendedorismo neoliberal, infecta todos os aspectos da sociedade e da cultura, e leva à paralisia.

Edward Snowden
Hollywood deu um prêmio Óscar a Citizenfour, e aí é o mais longe que vai – diz Ali. Como se fosse importante. E aí está o mais assustador: não brotou nenhum movimento por direitos civis, que unisse os cidadãos contra a vigilância em massa. O neoliberalismo realmente destruiu completamente a solidariedade e a empatia, auxiliado por novas tecnologias. É a cultura do narcisismo mais autista.

Ali previu que a atual onda de especulação global resultará em mais um crash financeiro. Esse novo crash fará nascer movimentos, as pessoas dirão “Basta!” Se esses movimentos derem origem a programas políticos radicais, com visão diferente, socialista, da sociedade, nosso “capitalismo autoritário” poderá ser enfrentado. Mas se não houver essa visão socialista, se a revolta for simplesmente reativa, as coisas ainda piorarão. O epicentro dessa luta, disse ele, será nos EUA.

Se nada acontecer nos EUA, se nada de novo for criado para desafiar o império e seus excessos sistêmicos, será situação muito ruim para todos nós – diz ele. Será a danação para todos, se nada acontecer nos EUA.
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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.


[*] Tariq Ali (nasceu em Lahore, hoje Paquistão, em 21/10/1943) é escritor e ativista. Escreve periodicamente para o jornal The Guardian e para a New Left Review e London Review of Books. Estudou na Universidade do Punjab. Devido aos seus contatos com movimentos estudantis e temendo por sua segurança, seus pais o enviaram à Inglaterra. Estudou Ciências Políticas e Filosofia em Oxford. Foi o primeiro paquistanês a ser eleito presidente do Diretório Central dos Estudantes daquela universidade inglesa.
Sua notoriedade teve início durante a Guerra do Vietnã, quando manteve debates com personagens centrais, tais como Henry Kissinger. Tornou-se um crítico ferrenho das políticas externas dos Estados Unidos e Israel. Ali é um crítico das políticas econômicas neoliberais e esteve presente nas edições de 2003 e 2005 do Fórum Social Mundial, tendo sido um dos dezenove signatários do Manifesto de Porto Alegre.
Publicou mais de uma dezena de livros sobre História e Política Internacional, além de várias novelas ficcionais. Seu livro mais recente é Bush na Babilônia: a Recolonização do Iraque, publicado no Brasil pela Editora Record, além de Confronto de fundamentalismo, Redenção e Mulher de Pedra.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Noam Chomsky, um espinho no lombo do estado-empresa

16/6/2014, [*] Chris Hedges, Thruthdig
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Noam Chomsky
CAMBRIDGE, Mass. – Noam Chomsky, a quem entrevistei 5ª-feira passada (12/6/2014) em sua sala no Massachusetts Institute of Technology (MIT), influenciou intelectuais nos EUA e em todo o mundo, por número incalculável de vias. A explicação que construiu para o Império, a propaganda de massa, a hipocrisia e o servilismo dos liberais e os fracassos dos acadêmicos, além do que ensinou sobre os modos pelos quais a linguagem é usada como máscara pelo poder, para nos impedir de ver a realidade, fazem dele o mais importante intelectual nos EUA. A força de seu pensamento, combinada a uma independência feroz, aterroriza o estado-empresa – motivo pelo qual a imprensa-empresa e grande parte da academia-empresa tratam-no como pária. Chomsky é o Sócrates do nosso tempo.

Ernst Mayr
1904 - 2005
Vivemos um momento sombrio e desolado na história humana. E Chomsky começa por essa realidade. Citou o falecido Ernst Mayr, importante biólogo evolucionista do século 20, que disse que provavelmente nós jamais encontraremos extraterrestres inteligentes, porque formas superiores de vida se autoextinguem em tempo relativamente curto.

“Mayr dizia que o valor adaptacional do que se chama inteligência superior é muito baixo” – disse Chomsky. – “Baratas e bactérias são muito mais adaptáveis que os humanos. É melhor ser inteligente que estúpido, mas podemos ser um equívoco biológico, usando os 100 mil anos que Mayr nos dá como expectativa de vida como espécie, para destruir-nos nós mesmos e destruir também muitas outras formas de vida no planeta”.

A mudança climática “pode acabar conosco, e em futuro não muito distante” – diz Chomsky. – “É a primeira vez na história humana em que temos a capacidade para destruir as condições mínimas para sobrevivência decente. Já está acontecendo. Há espécies que estão sendo destruídas. Estima-se que vivemos destruição equivalente à de há 65 milhões de anos, quando um asteroide colidiu com a Terra, extinguiu os dinossauros e grande número de outras espécies. A destruição, hoje, é de nível equivalente àquele. De diferente, que o asteroide somos nós. Se alguém nos está vendo do espaço, deve estar atônito. Há setores da população global tentando impedir a catástrofe global. Outros setores tentam apressá-la.

Veja bem quem são uns e outros: os que tentam impedir a catástrofe total são os que nós chamamos de primitivos, atrasados, populações indígenas – as Nações Originais no Canadá, os aborígenes australianos, pessoas que ainda vivem em tribos na Índia. E quem acelera a destruição? Os mais privilegiados, os chamados “avançados”, os letrados, as pessoas cultas e educadas do mundo”.

Tee Pee - Nação originária  do Canadá (Colúmbia Britânica)
Se Mayr acertou, estamos no fim de uma tendência, acelerada pela Revolução Industrial, que nos jogará para o outro lado de uma montanha, ambientalmente e economicamente. Esse evento, aos olhos de Chomsky, nos oferece uma oportunidade e, ao mesmo tempo, traz um perigo. Já várias vezes Chomsky repetiu, como alerta, que, se temos de nos adaptar e sobreviver, é preciso derrubar o poder da elite-empresa-corporação, mediante movimentos de massa; e devolver o poder a coletivos autônomos que são focados em manter as comunidades, em vez de explorar comunidades. Apelar às instituições e mecanismos estabelecidos de poder não vai dar certo.

“Podem-se extrair muitas boas lições, do período inicial da Revolução Industrial” – disse ele. – “A Revolução Industrial decolou aqui perto, no leste de Massachusetts, em meados do século XIX. Foi o período quando fazendeiros independentes estavam sendo conduzidos para dentro do sistema industrial. Homens e mulheres – as mulheres deixaram as fazendas para ser “operárias de fábrica” – lastimaram amargamente a mudança. Foi também período de imprensa muito livre, a mais livre que os EUA jamais conheceram, em toda sua história. Havia quantidade enorme de jornais e lê-los hoje é experiência fascinante. O povo que foi arrastado para o sistema industrial via aquilo tudo como um ataque à sua dignidade pessoal, aos seus direitos de seres humanos. Eram seres humanos livres, forçados para dentro do que chamavam “trabalho assalariado”, e que, aos olhos deles, não era muito diferente da escravidão. De fato, essa era a impressão dominante entre o povo, a tal ponto, que havia um slogan do Partido Republicano: “A única diferença entre trabalhar por salário e ser escravo é que o salário acaba”.

Chomsky diz que essa deriva, que forçou os trabalhadores agrários para longe da terra e para dentro das fábricas nos centros urbanos, foi acompanhada por uma destruição cultural. Os trabalhadores, diz ele, haviam sido parte da “mais alta cultura da época”.

“Lembro-me disso, lá nos anos 1930s, com minha própria família” – diz ele. – “Aquilo nos foi tirado. Estávamos sendo forçados a nos tornar, de certo modo, escravos. Diziam que você trabalhava como artesão e vendia um produto que você produzia, então, como assalariado, o que você passou a fazer foi vender você mesmo. E isso soava como ofensa profunda. Eles condenavam o que chamavam de “novo espírito da época”, ganhar dinheiro e esquecer-se completamente de si mesmo. É velho e, ao mesmo tempo, soa hoje muito familiar aos nossos ouvidos”.

Knights of Labor (Cavaleiros do Trabalho)
É essa consciência radical, que deitou raízes em meados do século XIX entre fazendeiros e muitos operários de fábrica, que Chomsky diz que temos de recuperar para conseguirmos avançar como sociedade e como civilização. No final do século XIX, fazendeiros, sobretudo no meio-oeste, livraram-se dos banqueiros e dos mercados de capitais, e constituíram seus próprios bancos e cooperativas. Entenderam o perigo de virar vítimas de um processo vicioso de endividamento, comandado pela classe capitalista. Os fazendeiros radicais fizeram alianças com os Knights of Labor [Cavaleiros do Trabalho], que entendiam que os que trabalhavam nos moinhos deviam ser também proprietários dos moinhos.

“À altura dos anos 1890s, operários estavam tomando cidades e governando-as, no leste e no oeste da Pennsylvania. É o caso de Homestead” – Chomsky lembrou. – “Mas foram esmagados à força. Demorou um pouco. O golpe final foi o “Medo Vermelho” de Woodrow Wilson [orig. Woodrow Wilson’s Red Scare].

“A ideia, hoje, ainda deve ser a dos Knights of Labor”, ele disse. “Os que trabalham nos moinhos devem ser também donos dos moinhos. Há muito trabalho em andamento. Haverá mais. Os preços da energia estão caindo nos EUA, por causa da massiva exploração de combustíveis fósseis, que destruirá nossos netos. Mas, sob a moralidade capitalista, o cálculo é: os lucros de amanhã são mais importantes que a existência ou não dos seus netos. Estamos conseguindo preços mais baixos de energia. Eles [os empresários] estão entusiasmadíssimos, porque podem oferecer preços inferiores aos que a Europa oferece, porque nossa energia é mais barata. E assim, os EUA conseguimos fazer fracassar os esforços que a Europa tem procurado fazer, para desenvolver energia sustentável...”

Chomsky espera que os que trabalham na indústria de serviços e na manufatura possam começar a organizar-se para começar a tomar o controle de seus próprios locais de trabalho. Observa que no ‘Cinturão da Ferrugem’ [orig. Rust Belt]. inclusive em estados como Ohio, há crescimento no número de empresas que pertencem aos trabalhadores.

A transferência do campo para as cidades criou o Rust Belt
O crescimento de poderosos movimentos populares no início do século XX mostrou que a classe empresarial já não conseguia manter os trabalhadores subjugados por ação exclusiva da violência. Os interesses empresariais tiveram de construir sistemas de propaganda de massa, para controlar opiniões e atitudes.

O crescimento da indústria de “relações públicas”, iniciada pelo presidente Wilson, que criou o Comitê de Informação Pública [Creel Committee], para instilar sentimentos pró-guerra na população, inaugurou uma era não só de guerra permanente, mas também de propaganda permanente. O consumo foi instilado também, com compulsão incontrolável. O culto do indivíduo e do individualismo tornou-se regra. E opiniões e atitudes, passaram a ser talhadas e modeladas pelos centros de poder, como o são hoje.

“Uma nação pacífica foi transformada em nação de odiadores, fanáticos por guerras” – diz Chomsky. – “Essa experiência levou a elite no poder a descobrir que, mediante propaganda efetiva, aquelas elites poderiam, como Walter Lippmann escreveu, usar “uma nova arte na democracia, e fabricar o consentimento”.

A democracia foi destripada. Os cidadãos tornaram-se “público”, “audiência”, telespectadores, não participantes no poder. Os poucos intelectuais, entre os quais Randolph Bourne, que mantiveram a independência e recusaram-se a servir à elite no poder foram expulsos para fora do sistema, como Chomsky.

“Muitos dos intelectuais dos dois lados estavam apaixonadamente dedicados à causa nacional” – disse Chomsky, falando a Iª Guerra Mundial. “Houve só uns raros dissidentes. Bertrand Russell foi preso. Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg foram mortos. Randolph Bourne foi marginalizado. Eugene Debs, preso. Todos esses se atreveram a questionar a magnificência da guerra”.

Aquela histeria pró-guerra jamais cessou, movida sem alteração, do medo de um bárbaro germânico, para o medo de comunistas e, daí, para o medos de jihadistas e terroristas islamistas.

“As pessoas vivem aterrorizadas demais, porque foram convencidas de que nós temos de nos defender nós mesmos” – diz Chomsky. – “Não é inteiramente falso. O sistema militar gera forças perigosas para nós, que nos ameaçam. Veja, por exemplo, a campanha terrorista dos drones de Obama – a maior campanha terrorista de toda a história. Esse programa dos drones de Obama gera novos terroristas e terroristas potenciais muito mais depressa, do que destrói suspeitos. É o que se vê agora no Iraque. Volte lá, aos julgamentos de Nuremberg. A agressão entre estados foi definida como o supremo crime internacional. Foi considerado diferente de outros crimes de guerra, porque a agressão entre estados reúne, como crime, todos os demais danos que outros crimes subsequentes causarão.

Julgamentos de Nuremberg
A invasão que EUA e Grã-Bretanha cometeram contra o Iraque é como um manual de crime de agressão entre estados. Pelos padrões de Nuremberg, os governantes dos EUA e da GB teriam, todos, de ser condenados à morte e enforcados. E um dos crimes que cometeram foi incendiar o conflito sunitas versus xiitas”.  

Esse conflito, que agora novamente inflama a região, é “um crime cometido pelos EUA, se acreditamos que sejam válidas as sentenças que Nuremberg proclamou contra os nazistas. Robert Jackson, promotor-chefe no tribunal de Nuremberg, em sua fala aos jurados, disse que aqueles acusados haviam bebido de um cálice envenenado. E que se algum de nós algum dia bebêssemos daquele mesmo cálice teríamos de ser tratados do mesmo modo, ou tudo não passaria de grande farsa”.

As escolas e universidades da elite inculcam hoje em seus alunos a visão de mundo endossada pela elite no poder. Treinam alunos para serem reverentes ante a autoridade. Para Chomsky, a educação, na maior parte das grandes escolas, inclusive em Harvard, a poucos quarteirões de distância do MIT, não passa de “um sistema de profunda doutrinação”.

“Há um entendimento de que há certas coisas que não se dizem nem se pensam” – diz Chomsky. – “É assim, entre as classes educadas. E é por isso que eles todos apoiam fortemente o poder do estado e a violência do estado, apenas com uma ou outra pequena “restrição”. Obama é visto como crítico contra a invasão do Iraque. Por quê? Só porque disse que seria erro estratégico. É argumento que o põe no mesmo nível moral de um general nazista que entendesse que o segundo front era erro estratégico. Isso, para os norte-americanos, é ser crítico”.

E Chomsky não subestima o ressurgimento de movimentos populares.

“Nos anos 1920s, o movimento trabalhista estava praticamente destruído” – disse. – “Havia sido movimento trabalhista forte, muito militante. Nos anos 1930s ele mudou, e mudou por causa do ativismo popular. Houve circunstâncias [a Grande Depressão] que levou à oportunidade de fazer alguma coisa. Vivemos constantemente com isso. Considere os últimos 30 anos. Para a maioria da população, foram tempos de estagnação, ou pior que isso. Não é a Depressão profunda, mas é uma depressão semipermanente para a maior parte da população. Há muita lenha lá fora, esperando para ser queimada”.

Chomsky entende que a propaganda empregada para fabricar consentimentos, mesmo na era das mídias digitais, está perdendo efetividade, com a realidade cada vez menos parecida com o “retrato” dela inventado pelos órgãos da imprensa-empresa de massas. Embora a propaganda feita pelo estado norte-americano ainda consiga “empurrar a população para o terror e o medo e para a histeria de guerra, como se viu nos EUA antes da invasão do Iraque”, ela já começa a fracassar na tarefa de manter fé não questionada nos sistemas de poder. Chomsky credita ao movimento Occupy, que ele descreve como uma tática, ter “disparado uma fagulha iluminadora” a qual, mais importante, atravessou toda a sociedade, apesar da atomização”.


“Há todos os tipos de esforços e projetos para separar as pessoas umas das outras” – diz ele. – “A unidade social ideal [no mundo dos propagandistas do estado-empresa] é você e sua tela de televisão. As ações de Occupy puseram isso abaixo, para grande parte da população. As pessoas reconheceram que poder nos juntar e fazer coisas por nós mesmos. Podemos ter uma cozinha comum. Podemos ter um palanque para discussões públicas. Podemos formar nossas próprias ideias. Podemos fazer alguma coisa. E esse é ataque importante contra o núcleo dos meios pelos quais o público é controlado”.

“Você não é só um indivíduo tentando maximizar o consumo. Você descobre que há outros interesses na vida, outras coisas com as quais se preocupar. Se essas atitudes e associações puderem ser sustentadas e mover-se em novas direções, será muito importante”.
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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais  War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.