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terça-feira, 17 de julho de 2012

Obama e seu Oriente-Monstro


17/7/2012, Manlio Dinucci, Il Manifesto, Itália
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Manlio Dinucci
Os EUA defendem a democracia há 236 anos: foi o que disse Hillary Clinton no Cairo. Quer dizer: ela já apagou da história as mais de 160 intervenções armadas que o imperialismo norte-americano obrou pelo mundo, a partir dos anos 1940s; as guerras do período da Guerra Fria, no Vietnã, no Laos, no Camboja e no Líbano; os golpes orquestrados pela CIA na Guatemala, Indonésia, Brasil, Chile e Argentina; e as guerras do período pós-Guerra Fria no Iraque, Somália, Iugoslávia e Afeganistão.

Clinton garante que o governo Obama mantém o mesmo compromisso em todas essas ações. De fato, se se considera a estratégia posta em prática pelo Republicano George W. Bush, do “Oriente Médio Expandido” (para incluir o Norte da África e a Ásia Central), Barack Obama, Democrata (e recipiendário de um Prêmio Nobel da Paz), mantém, sim, o mesmo compromisso, com a mesma estratégia, cujo alvo é toda a região do Pacífico Asiático, em declarada provocação a China e Rússia.

O primeiro passo foi à guerra contra a Líbia, país que (como Bill Clinton e Bush fizeram na Iugoslávia) foi demolido, como estado unificado, para implantar no poder governantes servis, que obedeçam Washington. Assim se chegou a “eleições livres” na “Líbia livre”, vencidas pelo “liberal” Mahmoud Jibril, cuja vitória passa a ser responsabilidade do desejo popular.

Quem diga isso ignora o fato de que os EUA e outras potências ocidentais gastaram milhões, na Líbia, para comprar o apoio de organizações e grupos tribais. Ignora também que Jibril é homem de confiança de Washington, economista formado nos EUA e propagandista do neoliberalismo econômico no mundo árabe. Em 2007, Jibril foi nomeado presidente do Conselho de Governo líbio para o desenvolvimento econômico, organismo ligado a empresas transnacionais de capital norte-americano e britânico. Nesse posto, Jibril alertou Washington para o fato de que Gaddafi bloqueara o projeto de privatizar a economia líbia e formar um governo ou grupo de influência no governo, de tendências ocidentalizantes. Disse também que aumentavam as pressões chinesas e russas. A vitória de Jibril começou a delinear-se nas mesas de conspiração.

Dia 30/3/2011 (dez dias antes do início da guerra contra a Líbia), o New York Times escreveu, com informação de releases do governo Obama: “Se a intervenção de forças norte-americanas e ocidentais derrubar Muammar Gadhafi, Mahmoud Jibril pode ser o novo líder líbio”.

A guerra contra a Líbia é o modelo que os EUA adotaram para desintegrar outros estados, entre os quais Síria e Irã, que impedem o avanço na direção leste. Dado que vários países relutam, sem aceitar a implantação de bases militares dos EUA em seu território, o Pentágono está ocupando águas territoriais, a começar pelo Golfo Pérsico, e avançando gradualmente na direção leste, usando navios especiais que servem como bases flutuantes para forças especiais.

Outras bases aéreas e navais já estão instaladas ou foram ampliadas, nas Filipinas, em Cingapura, Austrália e outros países. Em Cingapura, está ancorado o primeiro “navio de combate litorâneo” [1]. É um novo tipo de navio de guerra, que se pode aproximar da costa e atacar áreas em terra. A Marinha dos EUA já deslocou cerca de 50, para o Pacífico.

Além da ofensiva diplomática, para criar disputas entre a China e países vizinhos, Clinton fez uma “visita histórica” ao Laos. Prometeu US$ 9 milhões para o trabalho de remover minas e posou para fotografias ao lado de um menino mutilado, vítima de munição não detonada, cerca de 30% dos 2 milhões de toneladas de bombas que os EUA descarregaram contra o Laos em 1964-1973. Claro. Sempre defendendo a democracia. 



Nota dos tradutores
[1]Orig. Litoral Combat Ship (LCS). Vídeo a seguir:

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O que há por trás do golpe de estado no Paraguai?


A equação brasileira: a saída para o Pacífico 

3/7/2012 (ing.) Adrian Salbuchi, Russia Today– 

8/7/2012 (esp.) La Haine.orgAdrian Salbuchi
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Adrian Salbuchi
Além da semente transgênica da Monsanto, há também a necessidade de os EUA impedirem o acesso do Brasil ao Oceano Pacífico (e à China).

Nada ali se refere exclusivamente ao Paraguai que, apesar de ser nação pequena, localiza-se no coração geopolítico e geoestratégico do continente sul-americano, como já observaram estrategistas brasileiros do século passado. Controlar o Paraguai é fator chave do controle sobre o continente, para os EUA, cuja principal meta é frear o aumento crescente da influência do Brasil, integrante do chamado grupo BRICS, com Rússia, China, Índia e África do Sul.

Recentemente, o Brasil descobriu enormes reservas de petróleo em suas águas, na costa do Atlântico, o que levou o país a melhorar e reforças suas forças navais e aéreas, sobretudo depois de os EUA reativarem a IV Frota, do Atlântico Sul, criada durante a IIa. Guerra Mundial, desativada em 1953 e novamente ativada durante o governo de George W. Bush. 

Manifestação anti-Golpe de Estado no Paraguai
A aproximação entre Brasil, Rússia, China e Índia exige que se estabeleçam novas rotas pelo Pacífico, distantes do Atlântico cada vez mais controlado pela OTAN. O controle político e militar norte-americano sobre o Paraguai é obstáculo considerável no caminho desses interesses do Brasil e, além disso, é passo preliminar nos projetos norte-americanos de constituir um bloco comercial com países seus aliados na América Latina, especialmente México, Panamá (e o canal), Colômbia, Peru, Chile e, agora, o Paraguai. Está sendo construído um verdadeiro “muro do Pacífico”, que visa a cercar o Brasil e impedir que chegue ao Pacífico e que caberá ao Brasil ultrapassar. 

O tipo de “democracia” que os EUA desejam... 

Ao longo do século 20, a América Latina assistiu a várias tentativas de golpes de estado – civis e militares – orquestrados por EUA, Reino Unido e suas respectivas agências de inteligência, CIA e MI6, que, sistematicamente, orquestraram, financiaram, armaram e promoveram “mudanças de regime” em vários países que resistiam a suas imposições. 

Esses golpes de “mudança de regime” instalaram no poder governos pró-EUA que lá permaneceram ao longo de décadas, tendo à frente figuras de fama planetária, como os generais Augusto Pinochet (Chile), Anastasio Somoza (Nicarágua), Aramburu, Onganía e Videla (Argentina), Carlos Andrés Perez (Venezuela), Fulgencio Batista (Cuba), Alfredo Stroessner (Paraguai), [e os generais MILICANALHAS  BRASILEIROS - Nota da redecastorphoto] dentre muitos outros. 

Dividir para governar. Também vale na versão “enfraquecer para governar”. Essa parece ser a pauta fundamental de uma bem provável espécie de ‘primavera latino-americana’, exatamente como também já é pauta hoje da chamada ‘primavera árabe’. 

É hora de alerta máximo. Há novidades à vista. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Islã norte-americano avança no Oriente Médio


Oriente Médio (expandido) - clique no mapa para aumentar
27/1/2012, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

O primeiro-ministro do Qatar Xeique Hamad bin Jasem Al Thani está comandando pessoalmente a carga da brigada ligeira na Baía da Tartaruga, em Manhattan, à margem do East River, no prédio da ONU, onde a Liga Árabe passa a bandeira aos EUA e aliados ocidentais para que comandem o assalto diplomático e arranquem da ONU a resolução que autorize a intervenção na Síria [1]. 

Está para começar uma batalha de titãs no Conselho de Segurança, tarde da noite, com todas as escaramuças de uma guerra fria. 

Por ironia da história, pouco antes de subirem as cortinas no Conselho de Segurança da ONU, notícias interessantíssimas começavam a pipocar, vindas dos desertos líbios [2]: a Líbia está rachando ao meio. A tribo Warfallah, pró-Gaddafi, de Bali Walid e das maiores tribos líbias, expulsou de lá a milícia anti-Gaddafi (treinada e equipada e financiada pelo Qatar e seus mentores ocidentais) e, essa semana, formou um governo tribal local. Que Trípoli já “reconheceu”. Isso, além dos tumultos que crescem na Benghazi ocidental e por todo o país, com a insatisfação já impossível de conter contra o governo fantoche de Trípoli, lá instalado pelo Qatar e pelas potências ocidentais comandadas pelos EUA. 

Mas Xeique Hamad já não tem tempo para pensar na Líbia, onde já fez o que podia e de onde seus mentores ocidentais lhe disseram que se escafedesse, porque agora o problema é a Síria. O espetáculo acabou na Líbia, já que o ocidente controla os grandes campos de petróleo do país. E disseram a Hamad que o resto dos desertos líbios podiam ser jogados aos cães. Hamad obedeceu. Tira o sobretudo manchado de sangue, veste uma túnica imaculadamente branca e, no sábado, embarca no avião rumo a New York.

Não é trágico que Hamad e o rei Abdullah da Arábia Saudita, um depois do outro, tenham-se autoarrogado o papel de porta-estandartes da democracia no Oriente Médio muçulmano? A tragédia dos muçulmanos do Oriente Médio está condensada nesses dois patéticos autocratas que, sob as vestes reais, tremem de medo pela própria sobrevivência. Não vá uma avalanche de reformas genuínas desabar sobre seus reinos! Portanto, Hamad e Abdullah farão das tripas coração para perpetuar a dominação ocidental – política, militar, econômica e cultural – na região. 

Conselho de Segurança da ONU
A batalha diplomática que começará hoje à noite em New York tem importância histórica. Rússia e China enfrentarão pressão tremenda, porque estão exatamente no caminho da – e contra a – intervenção militar do ocidente na Síria. Se a coisa chegar até lá, será que vetarão o projeto de resolução e negarão ao ocidente a autorização para atacar a Síria? Eis a grande questão. Em alguns dias, todos saberemos a resposta. 

No fundo, a intervenção clandestina por ocidente-turcos-e-árabes, já em curso, só precisa ser legitimada e levada à conclusão lógica.

Por que os muçulmanos culpam os EUA por suas desgraças? A culpa é exclusivamente deles mesmos, que permitem que gente como Hamad e Abdullah fale pelos muçulmanos. 

Qual o plano de jogo dos EUA? Russia Today ofereceu uma brilhante análise do ABC da chamada “Primavera Árabe”, sucintamente explicada por John Bradley, autor e arabista britânico [3]. Em resumo, o levante no Oriente Médio muçulmano e a cisão entre xiitas e sunitas, artificialmente disparados, estariam criando o ambiente político ideal para semear as primeiras sementes do “Islã norte-americano” no Oriente Médio.

O grande objetivo seria perpetuar a hegemonia ocidental sobre o Oriente Médio muçulmano por mais um século, sob novos arranjos políticos locais. Autocratas como Hamad e Abdullah esperam sobreviver nessa barganha, quando o ocidente afastar-se dali. Se suas tórridas esperanças de sobrevivência são realistas ou não, só o tempo dirá. Meu palpite é que serão descartados como restos de comida num prato, tão logo o ocidente conclua a implantação das forças do Islã norte-americano no Qatar e na Arábia Saudita. 

Não se trata de renascimento muçulmano ou árabe no Oriente Médio. Não se trata de democracia nas sociedades muçulmanas. O levante conhecido como “Primavera Árabe” não é sequer autóctone. Está em curso uma operação cesárea, conduzida cirurgicamente pelo ocidente em terras muçulmanas. É bem possível que o Corão que os muçulmanos do Oriente Médio terão para ler nas próximas décadas seja impresso no ocidente, financiado por Hamad e Abdullah. O mundo muçulmano bem merece espetáculo menos repugnante. 

Uma variante da mesma tragédia está surgindo também na fímbria do Oriente Médio Expandido – no Afeganistão. O Qatar foi trazido por Washington, para repetir a performance no Hindu Kush. Os Talibã governarão Kabul. De diferente, só, que aparecerão reciclados como islâmicos – tão logo despachem para a estratosfera sua forma arcaica de Islã tradicional e passem a praticar o “Islã norte-americano”. 

Ryan Crocker
O embaixador Ryan Crocker tem razão [4]. Não se trata de dividir o Afeganistão. Trata-se de “islamizar” o Afeganistão. De fato, a unidade do Afeganistão é terrivelmente importante para a geoestratégia dos EUA. O Afeganistão deve permanecer inteiro, como entidade geopolítica una no tabuleiro da Ásia Central, com todos os adereços ideológicos de democracia islâmica. É isso, ou todo o grande jogo vira beco sem saída. 

Porque, tão logo a conversão-reciclagem dos Talibã esteja completada sob supervisão de EUA-Qatar, os Talibã serão a vanguarda da mudança nas estepes da Ásia Central para o norte e demais regiões muçulmanas do Paquistão (e das regiões indianas da Caxemira, onde o “Islã norte-americano” ainda não conseguiu fincar pé).

Quando isso acontecer, algo como metade dos vastos espaços territoriais da China habitados por povos não Han (muitos dos quais são muçulmanos) e o soft underbelly da Rússia estarão maduros para a mudança. E Paquistão e Índia que deem adeus às nascentes esperanças de se manterem como estados independentes com autonomia estratégica. Desgraçadamente, também há Hamads e Abudllahs nas elites paquistanesas e indianas. 

Contudo, paradoxalmente, o que os EUA e aliados esperam de Rússia e China (e da Índia e do Paquistão), no Conselho de Segurança, é que se mantenham como audiência passiva, meros assistentes inanimados, de uma empreitada que, afinal de contas, pode ser a nêmese para esses todos – a implantação do islamismo sob controle dos EUA, como força vital, na carne de seus corpos. 

O grande projeto dos EUA é meterem-se profundamente no Oriente Médio Expandido, antecipando um século ao longo do qual a Ásia estará dedicada a interromper 500 anos de dominação global exclusiva. O ocidente não cederá a hegemonia, sem luta. Controlar o Oriente Médio é questão crucial na estratégia global dos EUA. 

Se os EUA não conseguirem enfraquecer Rússia e China, e Índia e Paquistão – o que tentam fazer explorando as contradições mútuas (e esmagando o desafiador regime iraniano, que se rege por valores de justiça e resistência), não conseguirão deter a marcha da história em direção à liderança asiática.

Moscou sabe do que fala, quando diz que a Síria não é problema só da Rússia, quando o Conselho de Segurança da ONU reunir-se hoje para debater uma resolução que abrirá caminho para a intervenção do ocidente que tentará derrubar o governo de Damasco. A Síria é problema também da China – de todos os BRICS e do Paquistão.



Notas dos tradutores

[1]  27/1/2012, Al-Jazeera, UN Security Council discusses Syria crisis 
[2] 27/1/2012, Hurriet News,Libya splits before seeing unity” 
[4]  24/1/2012, The Globe and Mail,U.S. envoy in Kabul denies partition rumours
  
*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A carta secreta de Obama para Teerã: A guerra contra o Irã está suspensa?


“A Estrada para Teerã passa por Damasco”

por Mahdi Darius Nazemroaya [*]

O New York Times anunciou que a administração Obama tinha enviado uma carta importante aos dirigentes do Irã a 12 de Janeiro de 2012. [1] A 15 de Janeiro de 2012 o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano reconheceu que a carta tinha sido entregue a Teerã através de três canais diplomáticos:

1. uma cópia foi entregue ao embaixador iraniano nas Nações Unidas, Mohamed Khazaee, pela sua equivalente norte-americana, Susan Rice, em Nova Iorque;
2. uma segunda cópia da carta foi entregue em Teerã pela embaixadora da Suíça, Livia Leu Agosti; e
3.  uma terceira cópia partiu para o Irã através de Jalal Talabani, do Iraque. [2]

Planos do Pentágono para o Irã
Na carta, a Casa Branca expunha a posição dos EUA, ao passo que responsáveis iranianos afirmaram que ela constitui um sinal do real estado das coisas: os EUA não podem dar-se ao luxo duma guerra contra o Irã.

Da carta, escrita pelo presidente Barack Hussein Obama, constava um pedido norte-americano para o início de negociações entre Washington e Teerã visando colocar um termo às respectivas hostilidades.

“Na carta, Obama anunciava a disponibilidade para negociações e a resolução de desacordos mútuos”, declarou Ali Motahari, um negociador iraniano, à agência noticiosa Mehr. [3] De acordo com outro negociador iraniano, desta feita o vice-presidente da Comissão de Segurança Nacional e Política Exterior do Parlamento do Irã, Hussein Ebrahimi (Ibrahimi), a carta prosseguia solicitando a cooperação e negociações do Irã com os EUA baseadas nos respectivos interesses mútuos. [4]

A carta de Obama procurava igualmente assegurar Teerã de que os EUA não se envolveriam em quaisquer ações hostis ao Irã. [5] De fato, em simultâneo o Pentágono cancelou ou adiou grandes exercícios conjuntos com Israel. [6] Para os iranianos, porém, estes gestos são desprovidos de significado, dado que os atos da administração Obama têm sido sempre contrários às respectivas palavras. Mais amplamente, o Irã está persuadido de que os EUA não atacaram apenas porque sabem que os custos de uma guerra com semelhante oponente são demasiado elevados e as respectivas consequências demasiado arriscadas.

Todavia, isto não significa que um conflito aberto Irã-EUA tenha sido evitado ou que não possa acontecer. As correntes podem levar em qualquer direção, por assim dizer. Nem tampouco impede que a administração Obama esteja já a conduzir uma guerra contra o Irã e os respectivos aliados. De fato, os blocos de Teerã e de Washington têm prosseguido uma guerra fantasma que se prolonga da arena digital e das ondas televisivas até aos vales do Afeganistão e às agitadas ruas de Bagdad.

A guerra contra o Irã começou há vários anos

A guerra contra o Irã não começou em 2012 ou sequer em 2011. A revista Newsweek chegou ao ponto de afirmar num título de página em 2010: “Assassínios, ataques cibernéticos, sabotagem, será que a guerra contra o Irã já começou?” A guerra real pode bem ter começado em 2006. Em vez de atacarem o Irã diretamente, os EUA iniciaram uma guerra encoberta e através de proxies.

As dimensões secretas da guerra têm sido travadas através de agentes infiltrados, ataques cibernéticos, vírus informáticos, unidades militares secretas, espiões, assassinos, agentes provocadores e sabotadores.

O rapto e o assassínio de cientistas iranianos que teve início há vários anos é uma parte constituinte desta guerra encoberta. Nesta “guerra de sombras” vários diplomatas iranianos em Bagdad têm sido vítimas de sequestros e cidadãos iranianos em visita à Geórgia, à Arábia Saudita e à Turquia foram detidos ou raptados. Vários responsáveis sírios e importantes figuras palestinas, bem como Imad Fayez Mughniyeh [dirigente do Hezbollah libanês], foram também assassinados.

A guerra por proxies começou em 2006, quando Israel atacou o Líbano com a intenção de expandir a guerra em direção à Síria. O caminho para Damasco passa por Beirute, do mesmo modo que Damasco está na rota para Teerã. Depois do fracasso de 2006, e compreendendo que a Síria era o ponto central do Bloco de Resistência dominado pelo Irã, os EUA e os seus aliados passaram os cinco ou seis anos subsequentes a tentarem separar a Síria do Irão.

Os EUA combatem igualmente o Irã e respectivos aliados na frente diplomática e na econômica, através da manipulação de organismos internacionais e de estados satélites. No contexto de 2011-12, a crise na Síria constitui, ao nível geopolítico, uma frente da guerra conta o Irã. Até mesmo os exercícios conjuntos norte-americanos e israelenses "Austere Challenge 2012" e a correspondente deslocação de tropas visaram primordialmente a Síria enquanto forma de combater o Irã.

A Síria no centro da tempestade

O que Washington está levando a cabo consiste em exercer pressão psicológica sobre o Irã como maneira de o distanciar da Síria, de forma que os EUA e as suas legiões possam desferir o golpe mortal. Até ao começo de Janeiro de 2012 os israelenses têm estado em permanente preparação para o lançamento da invasão da Síria, numa repetição da iniciativa de 2006, enquanto os EUA e a UE têm continuadamente tentado chegar a um arranjo com Damasco, de forma a separá-la do Irã e do Bloco de Resistência. Todavia, os sírios têm persistentemente recusado esses avanços.

Foreign Policy, a revista do Conselho de Relações Externas (Council on Foreign Relations) norte-americano, publicou um artigo em Agosto de 2011 expondo o que era a visão do rei Saudita acerca da Síria no contexto do ataque ao Irã: “O rei sabe que à parte o colapso da própria República Islâmica, nada enfraquecerá mais o Irã do que a perda da Síria”. [7]

Tenha esta afirmação sido genuinamente proferida ou não por Abdul Aziz Al-Saud, a respectiva concepção estratégica é representativa das razões para visar a Síria. O próprio conselheiro de segurança de Obama disse a mesma coisa, poucos meses depois de a notícia da Foreign Policy ter sido publicada, em Novembro de 2011. O conselheiro de segurança nacional [Thomas E.] Donilon garantiu num discurso que “...o fim do regime de Assad constituiria o maior inconveniente regional para o Irã um golpe estratégico que alterará o equilíbrio de poder na região contra o Irã”. [8]

O Kremlin também produziu afirmações que corroboram a ideia de que Washington pretende separar a Síria do aliado iraniano. Um alto responsável russo para assuntos de segurança anunciou que a Síria está sendo punida pela sua aliança com o Irã. O secretário do Conselho Nacional de Segurança da Federação Russa, Nikolai Platonovich Patrushev, declarou publicamente que a Síria está submetida à pressão de Washington devido aos interesses geoestratégicos apostados na quebra dos seus laços com o Irã, e não em virtude de quaisquer preocupações humanitárias. [9]

O Irã também deu sinais de que, no caso de os sírios serem atacados, não hesitaria em intervir militarmente em seu apoio. Washington não pretende esse curso de eventos. O Pentágono preferiria engolir a Síria primeiro, antes de dirigir a sua atenção plena e indivisa para o Irã. O seu objetivo consiste em superar cada obstáculo à vez. Não obstante a doutrina militar norte-americana acerca da persecução de guerras simultaneamente em vários teatros de operação, e de toda a correspondente literatura do Pentágono, a verdade é que os EUA não estão preparados para suportarem uma guerra regional convencional simultaneamente contra o Irã e contra a Síria, menos ainda para o risco duma guerra estendida aos aliados russo e chinês do Irã.

O caminho para a guerra, porém, está longe de ter chegado ao fim. Por enquanto, o governo norte-americano terá de continuar com a “guerra de sombras” contra o Irã, enquanto intensifica as guerras mediática, diplomática e econômica.

20/Janeiro/2012

NOTAS
[1] Elisabeth Bumiller et al., "US sends top Iran leader warning on Hormuz threat," The New York Times, 12/Janeiro/2012.
[2] Mehr News Agency, "Details of Obama's letter to Iran released," 18/Janeiro/2012.
[3] Ibid.
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6] Yakkov Katz, "Israel, US cancel missile defence drill" Jerusalem Post, 15/Janeiro/2012.
[7] John Hannah, "Responding to Syria: The King's Statement, the President's hesitation," Foreign Policy, 9/Agosto/2011.
[8] Natasha Mozgovaya, "Obama Aide: End of Assad regime will serve severe blow to Iran," Haaretz, 22/Novembro/2011.
[9] Ilya Arkhipov e Henry Meyer, "Russia Says NATO, Persian Gulf Nations Plan to Seek No-Fly Zone for Syria," Bloomberg, 12/Janeiro/2012.

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[*] Sociólogo, autor premiado e investigador associado do Centre for Research on Globalization (CRG), Montreal. Está especializado em questões do Oriente Médio e da Ásia Central. Tem contribuído para discussões relativas ao Grande Oriente Médio em numerosos programas internacionais e em estações televisivas tais como a Al Jazeera, a Press TV e a Russia Today. Escritos seus foram publicados em mais de dez idiomas. Escreve para a Strategic Culture Foundation, SCF, Moscou.



Esta tradução foi extraída de: Resistir