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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Cavalo (fúnebre) de Troia: Syriza e a fantasia do euro sem arrocho

12/1/2015, [*] Greg Palast, Διάλογος [Diálogo], Atenas
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Eu estava no Brasil quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou o FMI passear – e rejeitou a privatização dos bancos estatais e da estatal do petróleo, rejeitou cortes em aposentadorias e pensões, e deu uma banana para o resto do programa de arrocho [dito de “austeridade”] e correspondentes sandices. Em vez disso, Lula criou o programa Bolsa Família, ferramenta para massiva transferência de dinheiro para os pobres da nação brasileira. Resultado: o Brasil não apenas sobreviveu, mas prosperou durante a crise de 2008-10. Apesar das pressões, o Brasil de Lula e Dilma jamais cedeu o controle sobre sua moeda.


Troika - Cavalo de Troia: Syriza fará a Grécia capitular? 
SYRIZA quer curar a lepra da Grécia, mas quer que a Grécia continue a viver hospedada no leprosário. Quero dizer: SYRIZA quer livrar a Grécia das dores do arrocho [“austeridade”], mas insiste em continuar na zona do euro.

O problema é que o arrocho é só um sintoma da doença: a doença é o próprio euro.

Nos últimos cinco anos, os gregos ouviram dizer que, se curarem a doença de vocês – quer dizer, se abandonarem o euro –, o céu desabará sobre a cabeça de vocês. Acho que ninguém percebeu, mas o céu já desabou. Com desemprego acima de 25%, não há mais o que desabar.

Em 2010, quando o desemprego estava em terríveis 10%, a TROIKA prometeu que medidas de arrocho [austeridade] duro restaurariam, já em 2012, a economia grega. Olhem em volta e perguntem a vocês mesmos: a TROIKA acertou?

Há um dito nos EUA:

Me engane uma vez, a vergonha é sua. Me engane duas vezes, a vergonha é minha.

Se a Grécia pode sobreviver sem o euro? Mas vocês já estão mortos. Não passam de fantasmas. Disseram aos gregos que se deixarem o euro e não honrarem as dívidas, não terão acesso aos mercados mundiais de capitais. A realidade é que vocês já não têm acesso aos mercados mundiais: ninguém empresta a zumbis.

Muitas nações dão-se muito bem sem o euro: Suécia, Dinamarca e Bangladesh vivem excelentemente sem o euro – e também a Turquia, que teve a sorte de ser excluída da Eurozona. Enquanto os turcos se mantiverem agarrados à lira, nem mesmo um islamo-fascista com dano cerebral grave como Recep Tayyip Erdoğan conseguirá destruir a economia turca.

Se os gregos podem abandonar o euro? Há os mais felizes precedentes a seguir. A moeda argentina foi, antes, ligada ao dólar dos EUA, como a Grécia é hoje ligada ao euro.* Em 2000, os argentinos famintos e irados, revoltaram-se. A Argentina derrubou a ditadura do dólar, todos os diktats do FMI e as ameaças dos credores, e aplicou um calote, rindo, nos seus papéis em dólar. Desde então a economia argentina só cresce. Se a Argentina está hoje sob ataque dos abutres financeiros, é, exclusivamente, porque o país tornou-se tentadoramente muito rico.

Merkel, Euro e o ARROCHO!
Eu estava no Brasil quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou passear o FMI – e rejeitou a privatização dos bancos estatais e da estatal do petróleo, rejeitou cortes em aposentadorias e pensões, e deu uma banana para o resto do programa de arrocho [dito de ‘austeridade’] e correspondentes sandices. Em vez disso, Lula criou o programa Bolsa Família, meio massivo de transferência de dinheiro para os pobres da nação brasileira. Resultado: o Brasil não apenas sobreviveu, mas prosperou durante a crise de 2008-10. Apesar das pressões, o Brasil jamais cedeu o controle sobre sua moeda.

“Arrocho”: É religião, não é economia

Wolfgang Schäuble
O euro é simplesmente o marco alemão com estrelinhas em volta. Não se pode adotar a moeda alemã, sem adotar o ministro alemão das finanças, Wolfgang Schäuble, como ministro.

E Schäuble determinou que a Grécia tem de ser punida. Não há, é claro, teoria econômica crível que diga que o arrocho – quer dizer, cortar gastos do governo, cortar salários, cortar demanda de consumo – poderia de algum modo ajudar país em recessão, em deflação.

Mas o arrocho, também chamado de “austeridade”, nada tem a ver com economia. É religião: a crença, entre os duros luteranos alemães, de que os gregos já se divertiram demais, já gastaram dinheiro demais, já passaram tempo demais espreguiçando-se ao sol – e agora têm de pagar um preço pelos seus pecados.

Estranhamente, ouço essas bobagens de autoflagelamento também dos próprios gregos: somos vagabundos, preguiçosos. Merecemos o castigo. Estupidez e mais estupidez. Em média, o trabalhador grego trabalha mais horas que qualquer outro trabalhador nas 34 nações da OECD; o alemão é o que trabalha menos.

Alexis Tsipras gostaria de poder fingir que o arrocho e o euro seriam coisas diferentes, que se pode casar com a bonitinha e não convidar para a festa a cunhada feia. Aparentemente, o chefe do SYRIZA vive abençoadamente ignorante da história do euro. O horror do arrocho não é consequência da prodigalidade da Grécia: ele está projetado e previsto no plano do euro, desde o início.

Foi exatamente o que me explicou o próprio pai do euro, o economista Robert Mundell da Universidade de Columbia. (Estudei economia com o parceiro de Mundell, Milton Friedman.) Mundell não inventou só o euro: inventou também as políticas-máquinas de-produzir miséria de Thatcher e Reagan, chamadas “economia de oferta” [orig. “supply-side economics”] – ou, como a chamava George Bush Pai, “economia vudu”. Vudu de oferta é a crença há muito tempo desmascarada, segundo a qual se o país desmonta o poder dos sindicatos, corta impostos para empresas, elimina regulações que o governo impunha e a propriedade pública em geral... “disso” advirá a prosperidade econômica.

A Tragédia Grega imposta pela União Europeia
O euro é simplesmente o outro lado da moeda “da oferta”. Como diz Mundell, o euro é o modo como Congressos e Parlamentos podem perder o máximo poder nas políticas monetária e fiscal. A democracia, sempre com potencial para incomodar, é extraída do sistema econômico.

Sem política fiscal, Mundell me disse, o único modo pelo qual as nações podem manter empregos é promovendo a redução competitiva das leis que legislam sobre o business.

A Grécia, para sobreviver numa economia do euro, só conseguirá reviver o emprego se reduzir salários. De fato, a recente mínima redução no desemprego é o sinal de que os gregos já estão aceitando, aos poucos, um futuro permanente de baixos salários, servindo piña colada a alemães em cruzeiros turísticos.

Há quem diga que devemos à Alemanha, ao FMI e ao Banco Central Europeu pelo “resgate” da Grécia. Estupidez. Nenhum dos bilhões dos fundos de “resgate” foram para os bolsos dos gregos. Todos eles fora para o caixa do Deutsche Bank e de outros credores estrangeiros. O Tesouro da União Europeia engoliu 90% de seus papeis de bancos privados. A Alemanha resgatou a Alemanha, não a Grécia.

E agora a Grécia tem de pagar à Alemanha, Sr. Tsipras, quer dizer: se o senhor ainda quer usar a moeda alemã.

Robert Mundell
Ironicamente, é Robert Mundell, o pai do euro, cuja famosa Teoria das Áreas Monetárias Ótimas (pela qual ganhou o Prêmio Nobel), quem explica claramente por que Alemanha e Grécia de modo algum podem partilhar uma mesma moeda. Uma nação baseada em turismo, pesca e agricultura não pode cimentar os próprios termos de comércio como uma nação industrial. As consequências logo se veem: mediante o euro, a Alemanha mantém a moeda grega ridiculamente supervalorizada, de modo que Grécia, como Itália, Espanha e Portugal, não possam fazer concorrência às exportações alemãs.

Desculpe, Sr. Tsipras, mas permanecer no erro é decisão de maluco. Não pode ser – não honestamente. Não há meio possível pelo qual a Grécia consiga satisfazer a exigência do euro de limitar o déficit grego a 3% do PIB, sem eliminar as pensões e aposentadorias pagas pelo estado, sem arrochar salários. E não é ‘'austeridade'’ temporária; é arrocho que perdurará por todo o século XXI.

E não há meio honesto para derrubar a dívida nacional pelo “critério de convergência” do euro de 60% do PIB, sem liquidação em massa de propriedade do estado. Mas o problema com essas privatizações é que, quando você vende uma empresa de água, nem por isso você deixa de precisar beber água. A única diferença é que, depois da privatização, o preço da água sobe, e só alguns insiders [gíria: PDL – Por Dentro do Lance (Nrc)] e seus parceiros estrangeiros conseguem ao mesmo tempo beber água e enriquecer.

Yanis Varoufakis e Alexis Tsipras (20/11/2015)
A razão pela qual a Grécia está hoje presa por dívidas são as fraudes criminosas cometidas por governos anteriores para satisfazer os “critérios de convergência” do euro. A ruína da nação começou com swaps de moedas secretos, fraudulentos, concebidos há uma década por Goldman Sachs, para esconder os déficits gregos que excediam o limite de 3%-do-PIB da Zona do Euro. Quando se descobriu a verdade, os detentores da dívida grega viram que haviam sido tungados. Esses compradores da dívida, então, exigiram níveis de juros de usurário (ou, se alguém preferir: spread altíssimo), para protegerem-se contra fraudes futuras. Os juros sobre juros cobrados desses papeis puseram de joelhos a nação grega.

Em outras palavras: a causa da crise são os crimes cometidos para unir-se ao e permanecer no euro, não alguma prodigalidade grega. Isso permitiu que o euro – essa máquina de Mundell à prova de qualquer remorso – fizesse seu trabalho, até forçar a Grécia a ceder todo o poder e todos os fundos que pertenceram à classe trabalhadora. Sem poder sobre a própria oferta de dinheiro e taxa de câmbio, a Grécia desabou de joelhos, implorando a mercê da Alemanha.

Mas não há mercê. Como o Schäube alemão não se cansa de repetir, os votos de vocês valem nada.

Novas eleições nada mudam nos acordos firmados com o governo grego –como diz ele. – Os gregos não têm alternativa.

Ah, ministro Schäuble, mas, sim, os gregos têm saída. Os gregos podem dizer ao senhor e sua gangue, que peguem o seu euro de vocês e... engulam.
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Nota dos tradutores
[1] O peso argentino era ligado ao dólar norte-americano à razão de 1:1 [em 1996, nos governos da tucanaria privateira no Brasil, também o era a moeda brasileira.
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[*] Greg Palast (nascido em 26/6/1952) é um jornalista investigativo  estadunidense que reside na Inglaterra. Trabalha para o New York Times, BBC, The Observer, The Guardian e outras publicações. Seu trabalho centra-se frequentemente em prevaricação corporativa, mas também tem sido conhecido por trabalhar com sindicatos e grupos de defesa do consumidor. Notabilizou-se por descobrir a fraude de Jeb Bush e sua quadrilha composta da secretária Katherine Harris e o Chefe da Unidade Eleitoral, Clay Roberts, em composição com a corporação ChoicePoint (uma espécie de PROCONSULT da Flórida) na manipulação da contagem das cédulas dos votantes, na Flórida, durante a eleição presidencial de 2000 e novamente em 2004, quando a apuração da roubalheira nas urnas mostrou que o candidato John Kerry, na verdade, venceu a disputa, sendo derrotado não fosse o “desproporcional” roubo dos votos do Partido Democrata.


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O nome do jogo da guerra norte-americana: Um mundo mais seguro para os banqueiros

5/9/2013, [*] Ellen Brown, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Os membros da OMC foram induzidos a assinar o novo acordo; foram ameaçados de ver fechado seu acesso aos mercados globais, se recusassem. Todos assinaram, exceto o Brasil. O Brasil foi então ameaçado com um embargo. Mas a resistência valeu a pena: só o Brasil, de todas as nações ocidentais, sobreviveu e cresceu durante a crise 2007-2009. [1]

Greg Palast
Em artigo de agosto de 2013, intitulado “Larry Summers e o Memorando Secreto Chute-direto-ao-gol [2]” [orig. “Larry Summers and the Secret End-game Memo” [3]], Greg Palast apresentou provas de um plano secreto, do final dos anos 1990s, construído por funcionários de Wall Street e do Tesouro dos EUA, para abrir as atividades bancárias ao lucrativo negócio dos derivativos.

Para obter esse resultado, era indispensável afrouxar as regulações dos serviços bancários, não só nos EUA, mas globalmente. O veículo a ser usado era o Acordo de Serviços Financeiros [orig. Financial Services Agreement] da Organização Mundial do Comércio.

O “chute-direto-ao-gol” exigia não só coagir os membros da OMC para que apoiassem, mas também assumir o controle nos países que se recusassem a fazê-lo. Alguns países permaneceram como fortalezas contra os avanços da OMC, entre os quais Iraque, Líbia, Irã e Síria.

Nesses países islâmicos, os bancos são predominantemente estatais; e a “usura” – auferir lucro do “uso” do dinheiro – é vista como pecado, quando não como crime. [4] Cria-se assim oposição forte ao modelo ocidental, no qual intermediários privados podem auferir lucro do próprio dinheiro.

Bancos públicos também são ameaça à expansão do negócio de derivativos, porque governos que possam operar seus próprios bancos não precisam manipular taxas de juros nem ficam subordinados a agências privadas que construam tabelas de qualidade do crédito para empurrar as próprias operações.

Banksters
A desregulação dos serviços bancários avançou conforme o plano, e o negócio dos derivativos sancionados e alimentados pelos governos converteu-se num esquema de pirâmide de mais de $700 trilhões. Altamente alavancado, completamente desregulado e perigosamente insustentável, desmoronou em 2008, quando o banco de investimentos Lehman Brothers faliu, arrastando com ele um grande segmento da economia global. Só escaparam os países que contavam com bancos públicos, externos à rede bancária privada internacional.

Nem todos esses países são países islâmicos. 40% dos bancos em todo o mundo são bancos públicos. A maioria dos bancos públicos concentra-se nos países BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – quatro países onde vive 40% da população do planeta. Safaram-se da catástrofe global na crise de crédito de 2008, mas todos fizeram, pelo menos, algum “arremedo”, ou deram algum sinal de que se adaptariam às regras bancárias do ocidente.

Mas não as nações islâmicas “bandidas” [rogue states], onde a usura permaneceu proibida pela lei islâmica. Para “libertar” o mundo para a usura, para criar “usura segura”, esses estados islâmicos tiveram de ser silenciados por outros meios.

E afinal, dado que não sucumbiram à coerção econômica, todos entraram na alça de mira dos poderosos exércitos norte-americanos.

Aqui, alguns dados que apoiam essa tese.

O Memorando “Chute-direto-ao-gol”

Em seu artigo de 22/8, Greg Palast postou a fotografia de um memorando de 1997, de Timothy Geithner, então vice-secretário de Negócios Internacionais do secretário Robert Rubin, endereçado a Larry Summers, então vice-secretário do Tesouro dos EUA. No texto, Geithner referia-se ao “chute-direto-ao-gol nas negociações de serviços financeiros na OMC” e exigia que Summers entrasse em contato imediatamente com os presidentes dos bancos Goldman Sachs, Merrill Lynch, Bank of America, Citibank, e Chase Manhattan Bank, cujos telefones privados Geithner informava a Summers.

Banksters
O jogo que estava sendo jogado era a desregulação dos bancos como meio para que pudessem continuar a jogatina no lucrativo novo campo dos derivativos. Para chegar lá, era preciso, para começar, pôr fim à Lei Glass-Steagall, de 1933, que impunha uma porta corta-fogo entre os bancos de investimento e os bancos de depósitos, e visava a proteger os fundos dos depositantes contra a especulação bancária. Mas o plano exigia mais do que apenas a desregulação dos bancos norte-americanos. Era preciso eliminar os controles regulatórios sobre os bancos também no plano global, de modo a impedir que o dinheiro voasse para países com legislação bancária mais protegida contra a especulação. O “chute-direto-ao-gol” seria conseguir essa desregulação global mediante um obscuro adendo aos acordos de comércio internacional policiados pela OMC, o Acordo de Serviços Financeiros [ing. FSA]. Palast escreveu:

Antes de os banqueiros começarem a jogatina, os acordos da OMC só tratavam do comércio de produtos – meu carro, pelas suas bananas. As novas regras que estavam sendo implantadas por Summers e os bancos forçariam todas as nações a aceitar o comércio de ativos “ruins”, tóxicos, como os derivativos financeiros.

Antes de os banqueiros reescreverem os acordos FSA, cada nação controlava e enquadrava os bancos dentro das próprias fronteiras nacionais. As novas regras do jogo forçariam todas as nações a abrir seus mercados ao Citibank, JP Morgan e aos seus “produtos” derivativos.

E todas as 156 nações reunidas na OMC teriam de pôr abaixo suas portas corta-fogo, da Lei Glass-Steagall, que dividiam bancos comerciais de depósitos e os bancos de investimentos que jogam com derivativos.

O serviço de converter os acordos FSA em aríete a serviço dos banqueiros foi dado a Geithner, que foi nomeado Embaixador dos EUA na OMC.

Banksters
Os membros da OMC foram induzidos a assinar o novo acordo; foram ameaçados de ver fechado seu acesso aos mercados globais, se recusassem. Todos assinaram, exceto o Brasil. O Brasil foi então ameaçado com um embargo. Mas a resistência valeu a pena: só o Brasil, de todas as nações ocidentais, sobreviveu e cresceu durante a crise 2007-2009. [4] Quanto às demais:

Os novos acordos FSA abriram a caixa de Pandora do comércio mundial de derivativos. Dentre outras transações, foram legalizadas as seguintes: o banco Goldman Sachs (do qual o Secretário do Tesouro fora co-presidente) acertou uma troca secreta de euro-derivativos com a Grécia, que destruiu o país. O Equador, que desregulou e demoliu o próprio sistema bancário, explodiu em tumultos. A Argentina teve de vender suas empresas de petróleo (aos espanhóis) e o sistema de água (à Enron) enquanto professores argentinos tinham de recolher comida nas latas de lixo. Os banqueiros europeus que mergulharam de cabeça nas piscinas de derivativos, mas sem saber nadar, logo se afogaram e, agora, o continente está sendo fatiado e vendido, em pedaços pequenos, baratos, à Alemanha.

As fortalezas “contra”

Aquele foi o destino dos países na OMC, mas Palast não discutiu o destino dos países que não participavam da OMC, entre os quais Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Iraque. Esses sete países foram chamados pelo general (aposentado) Wesley Clark dos EUA, em entrevista em 2007 a Democracy Now, [vídeo a seguir, em inglês] de os novos “estados bandidos” que os EUA definiu como alvos, depois do 11/9/2001. O general disse que dez dias depois do 11/9, ouviu de um general que a decisão estava tomada, para guerra contra o Iraque. Em seguida, o mesmo general disse que o plano era ocupar os sete países em cinco anos: Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Irã.


O que esses países têm em comum? Além de serem países de religião islâmica, não são membros, nem da OMC, nem participam do Banco Internacional de Compensações [ing. BIS].Assim, não são alcançados pelo longo braço regulatório do banco dos bancos centrais, na Suíça. Outros países adiante também incluídos como “estados bandidos” e que não são membros do BIS são Coreia do Norte, Cuba e Afeganistão.

O corpo que hoje regula os bancos e chamado de Financial Stability Board (FSB) [aprox. Comitê de Estabilidade Financeira], e funciona no Banco de Compensações Internacional (BIS) na Suíça. Em 2009, os chefes de estado dos países do G20 acordaram que aceitavam as regras do FSB, ostensivamente para impedir uma segunda crise global dos bancos. Suas regulações não são apenas consultivas, são cogentes [têm de ser seguidas] e elas podem promover ou quebrar, não só bancos, mas nações inteiras. Foi o que ficou demonstrado em 1989, quando o Acordo Basel I aumentou a exigência de capital em meros 2%, de 6% para 8%. O resultado foi que a mudança forçou redução drástica nos empréstimos feitos pelos maiores bancos japoneses, que eram então os maiores e mais poderosos distribuidores de crédito do mundo. Mas ficaram descapitalizados, em relação a outros bancos. A economia japonesa afundou com os seus bancos e ainda não se recuperou completamente.

Dentre outras regras para inverter o jogo impostas pelo FSB estão os acordos de Basel III e novas regras de bail-in. [5] Pelo acordo Basel III, impuseram-se exigências de capital a bancos comunitários, cooperativos e públicos, que impediram que continuassem a operar e facilitaram a venda a grandes bancos multinacionais.

Banksters
As regras da operação de bail-in foram testadas pela primeira vez em Chipre e seguiram a regulação imposta pelo FSB em 2011. Bancos “grandes demais para falir” devem redigir “testamentos” nos quais exponham o modo como evitarão a insolvência, no caso de não serem resgatados por dinheiro público. A solução criada pelo FSB é jamais oferecer o recurso de bail-in a depositantes de bancos comunitários, cooperativos e públicos – o que converte os depósitos de seus depositantes em estoque do próprio banco; na prática, o banco confisca os depósitos.

A alternativa dos bancos públicos

Países submetidos a um sistema bancário “de extração” estão sendo forçados a fazer “ajustes estruturais” e curvar-se à “austeridade” sob o peso de dívidas impagáveis. Mas alguns países conseguiram escapar. No Oriente Médio, são os países que estão sendo atacados pelo exército dos EUA e aliados e parceiros, reunidos sob a designação de “países bandidos”. Os bancos estatais nesses países podem usar o crédito do estado a favor do estado, alavancando fundos públicos para uso público, sem pagar o alto custo da intermediação bancária privada. Abundância de recursos públicos permite oferecer serviços públicos necessários à vida do povo naqueles países.

Como a Líbia e o Iraque já foram envolvidos na guerra, a Síria também oferece educação gratuita em todos os níveis, da escola primária à universidade e assistência pública gratuita universal. Também subsidia a moradia (embora esse programa tenha sido comprometido em 2006, quando o país adotou um programa de ajuste estrutural do FMI e, hoje, pela presença de cerca de 2 milhões de refugiados iraquianos e palestinos). O Irã também oferece universidade subsidiada, quase gratuita e assistência básica à saúde.

Como a Líbia e o Iraque antes da invasão e ocupação, Síria e Irã também têm bancos centrais estatais que emitem a moeda nacional e são controlados pelo estado. Se esses países conseguirão ou não manter a soberania financeira, frente à enorme pressão de que são alvo hoje, pressão econômica, política e militar, só o futuro dirá.


Quanto a Larry Summers, depois de deslizar pela porta giratória entre o governo dos EUA e o mundo privado e tornar-se presidente do Citigroup, foi o maior doador de campanha do então senador Barack Obama. Teve papel crucial na desregulação bancária que levou à crise atual, e levou milhões de cidadãos norte-americanos a perder o emprego e a casa.

Apesar disso, Summers é hoje o nome preferido do hoje presidente Obama para substituir Ben Bernanke na presidência do Federal Reserve. Por quê? Porque é homem que tem comprovada capacidade para manipular o sistema e tornar o mundo mais seguro para Wall Street. E, no mundo às avessas no qual os banqueiros reinam, esse parece ser o nome do jogo.
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[*] Ellen Brown é advogada, presidente do Public Banking Institute e autora de doze livros, incluindo o best-seller Web of Debt. Em The Public Bank Solution, seu mais recente livro, ela explora modelos bancários públicos bem-sucedidos, historicamente e no mundo. 

Seus sites são: 


Notas dos tradutores

[1] Dia 1/1/2007, o presidente Lula assumiu a presidência, para seu segundo mandato. Disse que “Não faltaram os que, do alto de seus preconceitos elitistas, tentaram desqualificar a opção popular como fruto da sedução que poderia exercer sobre ela o que chamavam de “distribuição de migalhas”. Os que assim pensam não conhecem e não entendem este país. Agora se trata de crescer com pressa, ousadia, coragem e criatividade”. Grande Lula! Grande Dilma! Viva o Brasil!

[2] A expressão aplica-se a uma jogada para “resolver” o jogo. No xadrez diz-se “fechamento”; no futebol se diria “decidir o jogo”. Geithner, em seu memorando, pensava em beisebol. A solução aqui oferecida para a tradução, “pensa” em futebol. Pode ser melhorada. Todas as correções e sugestões são bem vindas.

[3] Para ter ideia aproximada do que são as “finanças islâmicas” há alguma coisa razoavelmente aproveitável, em português, em: “A brasileira das finanças islâmicas”.
Presidente Lula

[4] Dia 1/1/2007, o presidente Lula assumiu a presidência, para seu segundo mandato. Disse que:

Não faltaram os que, do alto de seus preconceitos elitistas, tentaram desqualificar a opção popular como fruto da sedução que poderia exercer sobre ela o que chamavam de “distribuição de migalhas”. Os que assim pensam não conhecem e não entendem este país. Agora se trata de crescer com pressa, ousadia, coragem e criatividade.

Grande Lula! Grande Dilma! Viva o Brasil!

[5] Acontece operação de bail-in quando, antes de uma falência, os reguladores têm o poder de impor a perda a alguns acionistas e preservar outros de igual estatura – como os detentores de derivativos. Permitindo, em teoria, resolver rapidamente os problemas de instituições doentes, a operação de bail-in removeria a incerteza e ajudaria a dar estabilidade ao sistema financeiro. As operações de bail-in têm enervado os acionistas, porque não são falências tradicionais, para as quais há regras estritas e o processo é supervisionado, com os credores organizados numa sequência, para serem reembolsados e todos têm de ser tratados em condições de igualdade. (Financial Times, Lexicon)