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domingo, 19 de outubro de 2014

Vietnã, 50 anos: a narrativa inventada (repetida)

18/10/2014, [*] Marjorie Cohn, Truthout
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Marcha de estudantes universitários anti-Guerra do Vietnã em frente ao Michigan Stadium em Greene Street, Ann Arbor, 20/9/1969. 
Foto wystan
Controlar a narrativa é ferramenta chave para propagandistas que sabem que o modo como a opinião pública compreenda um conflito externo tem efeito direto e decisivo sobre o comportamento de apoio ou de oposição ao governo. Então o governo dos EUA sempre cuidou de sanear a Guerra do Vietnã. Mas essa não é questão do passado histórico: tem efeito direto sobre o presente.

Por muitos anos os norte-americanos, depois da Guerra do Vietnã, nos beneficiamos da “síndrome do Vietnã”, segundo a qual presidentes dos EUA sempre hesitariam muito antes de lançar ataques substanciais contra outros países, porque temiam oposição forte, semelhante ao poderoso movimento que ajudou a pôr fim à guerra no Vietnã. Mas em 1991, no final da Guerra do Golfo, George H.W. Bush declarou “Por Deus! Afinal nos livramos da síndrome do Vietnã, de uma vez por todas!”.

Com as guerras de George W. Bush contra o Iraque e o Afeganistão, e as guerras de drones de Barack Obama contra sete países de maioria muçulmana, e a escalada que ordenou nas guerras contra Iraque e Síria, aparentemente já andamos bem para trás, para antes da síndrome do Vietnã. Plantando desinformação no campo da opinião pública, o governo dos EUA construiu apoios para ele mesmo para suas novas guerras: exatamente como fez antes da Guerra do Vietnã.

Agora, o Pentágono planeja as comemorações do 50º aniversário da Guerra do Vietnã, lançando um programa de US$ 30 milhões para re-escrever e "sanear" a história daquela  guerra. A partir de uma fantasiosa e super interativa página na Internet, o esforço visa a ensinar às crianças de escola uma história inventada daquela guerra. O programa visa a honrar nossos soldados que lutaram no Vietnã. Mas não se vê naquela página [paga com dinheiro público] nem sinal de que houve um potente movimento antiguerra, no coração do qual estava o movimento dos próprios soldados que estavam no Vietnã, o GI movement.

GI movement anti guerra do Vietnã
Milhares de GIs participaram do movimento antiguerra. Muitos se sentiam traídos pelo governo dos EUA. Criaram cafeterias e jornais underground pelos quais distribuíam informação sobre a resistência. Durante a guerra do Vietnã, 500 mil soldados norte-americanos desertaram. A força da rebelião daqueles “coturnos em solo” forçou os militares a recorrer à guerra aérea.

Oficialmente, a guerra custou a vida de 58 mil norte-americanos. Número jamais revelado foram feridos e voltaram mutilados e sofrendo da síndrome da desordem pós-traumática. Na mais aterradora das estatísticas, mais veteranos da guerra do Vietnã morreram por suicídio, que na guerra.

Protesto contra a guerra do Vietnã
NÃO QUEREMOS LUTAR  A GUERRA DOS RICOS!
Milhões de norte-americanos, muitos de nós estudantes nas universidades, marcharam, fizeram manifestações, discursos, cantamos cantos de protesto e nos manifestamos contra a guerra. Milhares foram presos e alguns, na universidade estadual de Kent e na estadual Jackson, foram mortos. O alistamento militar obrigatório e imagens de vietnamitas mortos galvanizaram o movimento.

Dia 15/11/1969, no que foi a maior manifestação de protesto daquela época em Washington, DC, 250 mil pessoas marcharam para a capital do país, exigindo o fim da guerra. Tudo isso, na página do Pentágono cabe em duas palavras: “protestos massivos”.

Mas não estavam morrendo só norte-americanos. Foram mortos número estimado entre 2 e 3 milhões de indochineses – no Vietnã, Laos e Camboja. Crimes de guerra – como o massacre de My Lai – eram frequentes. Em 1968, soldados norte-americanos massacraram 500 velhos, homens e mulheres, e crianças, na aldeia vietnamita de My Lai. A isso a página do Pentágono chama de “o incidente em My Lai” – apesar de a palavra consagrada para aquela monstruosidade já ser “massacre”.

My Lai, onde "heróicos" soldados dos EUA massacraram cerca de 500 homens mulheres e crianças vietnamitas
Um dos mais vergonhosos legados da Guerra do Vietnã foi o uso, pelos militares norte-americanos, de uma arma química de destruição em massa, o mortal agente desfolhante “Agente Laranja”, dioxina. Os militares norte-americanos borrifaram toneladas daquele agente químico mortal sobre grande parte da terra agricultável do Vietnã. Estimados 3 milhões de vietnamitas sofrem até hoje o efeito daqueles desfolhantes químicos. Dezenas de milhares de soldados dos EUA também foram afetados. A dioxina causou má formações fetais e em nascituros em centenas de milhares de crianças, no Vietnã e nos EUA. Hoje, ainda segue afetando a segunda e terceira gerações nascidas de pessoas que foram expostas ao Agente Laranja há décadas.

Casos de cânceres, diabetes, spina bífida e outros defeitos congênitos podem ser rastreados até a exposição direta ao Agente Laranja. E as armas químicas de destruição em massa destruíram grandes áreas do meio ambiente natural do Vietnã. O solo em vários “pontos quentes” próximos a ex-bases militares dos EUA continua contaminado até hoje.

Nos Acordos de Paz de Paris, assinados em 1973, o governo Nixon prometeu contribuir com US$ 3 bilhões para curar as feridas da guerra e para reconstruir o Vietnã pós-guerra. Até hoje, os EUA ainda não cumpriram esse compromisso.

Apesar de o dano provocado pelo Agente Laranja continuar até hoje, a página do Pentágono só faz uma rápida referência à “Operação Mão no Rancho” [orig. Operation Ranch Hand]. Diz que entre 1961 e 1971, os EUA borrifaram 70 milhões de litros de produtos químicos sobre 20% das selvas naturais do Vietnã do Sul e 36% de suas áreas de mangue. Mas a página do Pentágono nada diz sobre os efeitos devastadores do uso dessa arma química.

Um dos muitos "efeitos" causados pelo AGENTE LARANJA jogados pelos EUA contra o Vietnã
A história incompleta e mal contada que se lê na página Internet do Pentágono levou mais de 500 veteranos do movimento pela paz nos EUA contra a Guerra do Vietnã a assinar uma petição, dirigida ao tenente-general Claude M. “Mick” Kicklighter. Pedem que a página oficial “inclua pontos de vistas, depoimentos e materiais educativos que representem reflexo real, justo e completo das questões que dividiram os EUA durante a Guerra no Vietnã, Laos e Camboja”.  

O documento lembra “os muitos milhares de veteranos” que se opuseram à guerra; “os que resistiram ao recrutamento obrigatório, muitos milhares de jovens norte-americanos”, os “milhões que exerceram seus direitos de cidadãos norte-americanos e marcharam, rezaram, organizaram paralisações, escreveram cartas ao Congresso” e “todos que foram acusados e processados pelo governo dos EUA por desobediência civil ou morreram nos protestos”.  

E, prossegue o documento, “muito importante, não podemos esquecer tampouco os milhões de vítimas da guerra, militares e civis, que morreram no Vietnã, Laos e Camboja, nem os que morreram ou foram feridos depois da guerra, em explosões de minas, munição não explodida, Agente Laranja ou na fuga de refugiados”.  

Entre os ativistas antiguerra que assinaram aquela petição estão Tom Hayden e o homem que revelou os “Pentagon Papers”, Daniel Ellsberg. “Todos nós lembramos que o Pentágono nos empurrou para aquela guerra por causa daquela sua versão da verdade” – disse Hayden numa entrevista ao New York Times. “Não se pode admitir que os mesmos que fazem a guerra sejam encarregados de narrá-la” – completou.

Os Veteranos pela Paz [orig. Veterans for Peace (VFP)] estão organizando um evento alternativo para fazer lembrar a Guerra do Vietnã. “Uma das nossas principais preocupações” – disse ao Times Michael McPhearson, diretor dos VFP – “é que, se não conseguirmos fazer lembrar uma narrativa completa, o governo usará a sua própria narrativa inventada para continuar a inventar guerras pelo mundo: como ferramenta de propaganda”.

A farsa dos EUA no Golfo de Tonkin
É verdade. Assim como Lyndon B. Johnson usou o incidente inventado do Golfo de Tonkin como pretexto para escalar a Guerra do Vietnã, George W. Bush usou armas de destruição em massa perfeitamente inexistentes para justificar sua guerra contra o Iraque, e a “guerra ao terror” para justificar a invasão contra o Afeganistão. E Obama justifica sua guerra de drones repetindo considerações de segurança nacional, embora Obama esteja criando mais inimigos para os EUA, quanto mais milhares de civis ele mate e mande matar.

ISIS e Corassão (do qual ninguém na Síria jamais ouvira falar até há três semanas) são os novos inimigos que Obama está usando para justificar suas guerras contra o Iraque e a Síria, por mais que já tenha tido de admitir que nenhum desses seja ameaça aos EUA. A síndrome do Vietnã foi substituída pela “Guerra Permanente”.

Não é clichê que os que ignorem o passado estão condenados a repeti-lo. A menos que alguém trate de construir relato honesto da desgraçada história da guerra dos EUA contra o Vietnã, estaremos cada dia mais mal equipados para protestar contra guerras atuais e futuras que são feitas em nosso nome.


[*] Marjorie Cohn é professora da Faculdade de Direito Thomas Jefferson e ex-presidente da Ordem Nacional dos Advogados dos EUA [orig. National Lawyers Guild]. É co-coordenadora da Vietnam Agent Orange Relief & Responsibility Campaign (trad. Campanha de Assistência & Responsabilidade sobre o Agente Laranja no Vietnã).
Seu livro mais recente, Drones and Targeted Killing: Legal, Moral and Geopolitical Issues [Drones e Assassinatos premeditados: questões legais, morais e geopolíticas] será lançado ainda em outubro/2014.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Iraque: a hora mais solene de Maliki

11/6/2014, [*] Paul Mutter, The Arabist
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Com o governo de Bagdá enfrentando essa semana a perda humilhante de Mosul para terroristas, o que se vê é que o grupo Estado Islâmico do Iraque e Levante [orig. Islamic State of Iraque and the Levant (ISIS)] começa a dar-se bem, onde a al-Qaeda fracassou no Iraque.

Veículos e jihadistas da ISIS já estacionados nos arredores de Mosul (9/6/2014)
Durante a 2ª Guerra do Golfo, analistas disseram que a al Qaeda deixaria o Afeganistão, se pudesse trocá-lo por base segura no Iraque. Bem pensado, mas pensamento talvez prematuro: entre 2007 e 2010, os iraquianos rejeitaram amplamente aquele destino para o país deles e aplicaram golpe no plexo dos jihadistas sunitas estrangeiros que entraram no país. Mas, então, começou a guerra na Síria. Jihadistas não sírios entraram na Síria em grandes números – e muitos dos sunitas dentre eles vinham do vizinho Iraque, para lutar em solidariedade.

O mais significativo desses “novos” grupos foi o Estado Islâmico do Iraque e Levante [orig. Islamic State of Iraque and the Levant (ISIS)], o qual ao longo do ano passado passara tanto tempo combatendo outros grupos rebeldes quanto combatendo contra o Exército da República Árabe Síria. O ISIS foi grupo submetido ao comando central da al-Qaeda, mas, na sequência, separou-se e seguiu trilha própria. Embora seja cada dia mais um conglomerado multinacional, depois de ter absorvido muitos dos milicianos estrangeiros alistados na Frente al-Nusra, hoje só tem um único objetivo estratégico: reunir sob seu comando todos os sunitas que vivem na “Síria Expandida”.

“Muitos [terroristas do ISIS] vieram do Afeganistão e Iraque”, diz o ativista sírio Abu Ibrahim Ar-Raqqawi, que descreve o mando do grupo no norte da Síria como esforço para construir um estado, “limpá-lo” (primeiro, de forças que se opõem a Assad) e, na sequência, passar a combater a valer também contra o próprio Assad. “Nossos combatentes sírios são fazendeiros e operários da construção civil, não têm qualquer experiência”.

Militantes da ISIS desfilam em Mosul em 11/6/2014:


A verdade é que os terroristas do ISIS conseguiram sucesso onde Abu Musab al-Zarqawi fracassara. Assim, assentaram os pilares de um emirado no coração do território sunita, que tem fronteiras com Turquia, Iraque, Síria e as montanhas do Cáucaso. ISIS não é al-Qaeda. E porque há diferenças nas prioridades, ISIS fez o que al-Qaeda não conseguiu fazer: garantir, como tuitou Aymenn Al-Tamim, “território contíguo, uma série de fortalezas-bases interconectadas e provisão de serviços”. Para as próximas semanas, estão preparadas, para o norte do Iraque, ações mais complexas que tirar dinheiro de ricos mercadores e distribuir balinhas às crianças..

Há apenas poucos dias, os terroristas do grupo ISIS avançaram, de suas fortalezas e bases no Governorato de Nineveh, cujo controle obtiveram ao longo dos últimos meses, para tomar a cidade de Mosul. Atacaram também várias outras cidades no norte do Iraque, e romperam o cerco que forças federais no Iraque montaram contra eles e seus aliados no Governorato de Al-Anbar nessa primavera. Mosul já vivia em estado de sítio, com o governo tendo de recorrer a uma ponte aérea, por causa do risco que as emboscadas do ISIS geravam para o trânsito por rodovias.

Frente al-Nusra bombeia petróleo cru de um poço do Iraque
Já há mais de um ano, o grupo segue uma campanha estratégica batizada “Colheita de Soldados” [orig. Soldier’s Harvest [1]]: o objetivo é retomar os territórios que jihadistas alinhados à al-Qaeda perderam nos anos finais da ocupação norte-americana, por aterrorizarem as autoridades locais para que deixassem a luta (e os terroristas do ISIS preencheriam o vácuo resultante da retirada das forças locais). “Começou em áreas rurais do Iraque, como nas regiões desérticas de Anbar e das montanhas Hamrin que se estendem por Diyala e Salahaddin [Saladin]” – escreveu Joel Wing, observador do Iraque – “e agora o ISIS está avançando para áreas urbanas”.

A outra campanha – “Quebrando muros” [orig. Breaking the Walls], assim denominada porque envolvia libertar militantes sunitas das prisões do primeiro-ministro Nouri al-Maliki – também evolui bem em Mosul, com mais de 1.000 prisioneiros libertados essa semana, depois que os soldados que faziam a guarda das prisões terem debandado. Com Mosul já tomada – os bancos e arsenais militares foram esvaziados pelos jihadistas, para redistribuição entre as forças do ISIS no Iraque e na Síria do que foi saqueado – e com dezenas de milhares engarrafando as saídas da região, o ISIS está simultaneamente atacando no vizinho Governorado de Saladin e se encaminha para ainda mais ao sul, na direção da capital. Não houve ainda nenhuma resposta armada do governo à crise em Nineveh, província que também é lar de muitos assírios e outras minorias cristãs remanescentes do Iraque. Na Síria, ISIS fechou igrejas e criou escolas religiosas (Da’wah) para jovens: já houve acusações de sequestros e execuções.

A desilusão com a agenda sectária de Maliki, seu apego ao poder, e a recusa a pôr fim aos abusos das forças federais, somados à situação econômica que se deteriora na área, com o grupo ISIS e outras milícias a ele aliadas saquearam completamente a segunda maior cidade do Iraque: o Iraque, afinal de contas, é o maior tesouro para várias milícias islamistas que combatem na Síria, graças ao contrabando, às organizações islamistas de caridade e os velhos e bem conhecidos extorsão, roubo, exigência de resgates. A imprensa-empresa local noticiou que, confiando menos no Exército Iraquiano que em proteção comprada, os ricos de Mosul preferem pagar ao ISIS para que não ataquem, a pagar aos serviços de segurança para que defendam. Infelizmente para eles, a organização ISIS de Mosul não era a 'Ndrangheta italiana. O governador local, Adheel al-Nujaifi, não reconheceu esses detalhes desagradáveis em suas declarações depois da derrota, contra as forças de segurança. Mas os resultados daquela troca foram deserção em massa e retirada: as estradas nos arredores da cidade estão cobertas de uniformes descartados do exército e da polícia.

Grupos armados patrulham os arredores de Ramad--Fallujah desde janeiro 2014
A área de Mosul é lar da peshmerga [guerrilha curda] que agora se prepara para dar combate ao ISIS onde as forças de segurança nada fizeram. Apesar de o grupo ISIS ter anunciado que não têm qualquer problema com os curdos, há notícias de confrontos, e a estrada para Kirkuk está sob controle do ISIS. Os curdos não combatem em defesa de Maliki, mas por sua própria região autônoma. Militarmente, o governo federal só pode realmente confiar em brigadas de Operações Especiais treinadas nos EUA – que conseguiram que o ISIS se retirasse da cidade de Samarra, cidade natal de Abu Bakr al-Baghdadi, líder do ISIS, com pesadas perdas – força aérea e meia dúzia de divisões de exército regulares.

Mas nenhuma dessas unidades bem treinadas e politicamente confiáveis estavam disponíveis em Mosul essa semana, e grande porção dos militares iraquianos estão forçados a permanecer[13] em Al Anbar, numa campanha de revide contra milícias antigoverno que tomaram as principais cidades no início de 2014. O exército regular enfrenta carências de todos os tipos, e a polícia nacional não está dando conta de repetidos ataques contra seus postos.

A cidade realmente caiu em um dia: os principais prédios governamentais, as barragens do norte, que fornecem energia e água para a área central do Iraque, o aeroporto, os campos de petróleo – tudo isso está agora em mãos dos militantes do ISIS.

Ver o que está sendo perdido – e ver militantes do ISIS desfilar em torno dos [blindados] Humvees que capturaram – deve ser especialmente difícil para os militares dos EUA: quando Mosul foi ocupada, há uma década, pela 101ª Divisão Aerotransportada dos EUA, a ocupação foi saudada como exceção à regra de anarquia que se via no resto do país. Mosul chegou a ser um “modelo” para a Avançada e para o “Despertar” que veio imediatamente depois do pior surto de violência interna no Iraque, durante a Ocupação Norte-americana (2003-2011), especialmente em Fallujah, no sudoeste.

Quanto à própria Fallujah – cenário de duas batalhas sangrentas depois de 2005 – já não é controlada por Bagdá há alguns meses. Não que algum dia tenha sido integralmente controlada pelo governo federal ou pelas forças dos EUA durante a Avançada. Embora o ISIS esteja presente em Fallujah, a perda da cidade deve-se mais a efeitos da política norte-americana do “Despertar”, que chegou à região já bem depois de ultrapassada sua ‘data de validade’.

O movimento árabe sunita tribal “Filhos do Iraque” poderia ter sido momento importante na construção de algum estado no Iraque. Mas acabou desgastado e comprometido pela inabilidade do governo de Maliki, incapaz de reconhecer e aceitar a legitimidade do movimento. Antes da formação do “Filhos”, os ataques incessantes por milicianos xiitas e terroristas, contra comunidades sunitas, induziam muitos sunitas a não confiar nas novas autoridades. Como Phil Williams escreveu em 2009, “a própria força criada para protegê-los [para proteger os sunitas], a polícia nacional iraquiana, vivia a atacá-los e promovia matanças sectárias, extorsões, assaltos, roubos e sequestros”.

Sectarismo xiita-sunita promove ampla destruição por todo o Iraque
Em reação a tudo isso, e às depredações promovidas pela al-Qaeda, os sunitas iraquianos começaram a organizar-se em ligas de autodefesa e pediram ajuda aos EUA (principalmente apoio aéreo e ajuda em dinheiro que os oficiais iraquianos ou não tinham ou saqueavam para obter). Com o tempo, essas milícias converteram-se na nuvem de jihadistas conhecida como “al-Qaeda no Iraque”, sempre comandados por estrangeiros, que mostraram completa inabilidade para governar as áreas sunitas que ocupavam.

À altura de 2011, quando os EUA deixaram o Iraque, a maioria dos iraquianos já apoiavam essa coalizão (que recebia forte “indução” dos norte-americanos); muitos líderes tribais haviam posto seus homens nas barricadas para impedir o avanço dos xiitas, em vez de ordenar que bombardeassem os pontos de controle ao longo das barricadas.

Quando líderes sunitas foram a Bagdá, de chapéu na mão, para receber as bênçãos oficiais para suas milícias durante a Avançada, o governo Maliki relutou muito antes de aceitá-los; e, na sequência, não implantou as medidas que haviam sido acordadas com os sunitas. Isso, porque os líderes xiitas temiam armar grupos que, apenas semanas antes, estavam lutando no campo antigoverno – detalhe importantíssimo que os EUA parecem não ter percebido, quando saíam do Iraque. Essa vacilação do governo de Maliki, por sua vez, convenceu alguns dos membros dos Filhos do Iraque de que melhor para eles seria conservar as próprias armas e rejeitar vagas promessas do governo de que lhes daria reconhecimento e salários. Depois das contestadas eleições de 2010 que repuseram Maliki no poder – e, vale lembrar, antes mesmo de os EUA deixarem o Iraque – Al Anbar viu-se andando de volta para o ponto onde estava antes do começo do “Despertar”.  

Mas o agente catalisador da (terceira?!) Batalha de Fallujah, em janeiro de 2014, não foi qualquer”‘respingamento” de violência vindo da Síria, mas um desastroso terrível ataque, por forças federais, contra um acampamento de protesto de sunitas.

Os dois acampamentos, de tipo “acampadas” de protesto da Primavera Árabe, montados em Fallujah e em Ramadi, cidade próxima, foram atacados com violência; e clérigos sunitas passaram a pregar revolta aberta contra Bagdá, para defender os acampados. O grupo ISIS aproveitou-se do caos para organizar-se e implantar-se na cidade, embora a revolta inicial – e as pessoas das barricadas, com quem o governo e xeiques locais tentavam dialogar – tenha sido desencadeada por milícias locais fartas de serem usadas como avalistas formais de uma paz instável.

O vice-primeiro ministro de Maliki, Saleh al-Mutlaq, culpou o governo federal; para ele, uma típica resposta violenta de Bagdá a um assassinato no interior do país – e que nada tinha a ver com as manifestações de rua – pôs fim à paz que, até ali, os “Filhos do Iraque” estavam conseguindo manter.

É verdade que os descontentamentos contra o governo, entre os sunitas, são bem reais e em grande número: discriminação nos empregos, perseguição de ativistas, violações de direitos humanos pela polícia, cortes de benefícios, que castigam os sunitas pela colaboração em ditaduras passadas. Bem antes do atual levante, “os sunitas já haviam perdido a fé no processo político; e os jihadistas, outra vez, encontraram condições para se infiltrar entre eles”. Daí que “todas as facções políticas iraquianas que compõem o quadro tenham continuado a engajar-se na luta, porque sempre haverá um ou outro esquadrão da morte a enfrentar, se alguém tentar respeitar as regras constitucionais que o próprio governo Maliki desrespeita” – como escreve James Fromson, do Middle East Institute.

Terroristas da ISIS desfilam por Mosul nos veículos tomados do Governo do Iraque
O grupo ISIS e o governo federal concordam implicitamente num item: há uma nação iraquiana, mas o estado que há para governá-la é muito fraco; e representantes de diferentes facções continuarão a tentar capturá-lo, cada um para si. Essa desconfiança – não a guerra na Síria – foi que acabou por levar ao colapso os precários arranjos de partilha do poder do “Despertar” negociado entre autoridades locais (predominantemente sunitas) e autoridades da província. Os sunitas também estão enfurecidos por causa da aliança de Maliki com o Irã, a qual, em termos práticos, permite que o exército do Irã envie soldados, material e dinheiro para o Líbano e para a Síria para apoiar Assad.

A liderança xiita do Iraque, por outro lado, em geral aceitou esses ataques contra líderes sunitas, porque conhecem a retórica virulenta contra eles, de políticos sunitas ou de personalidades midiáticas (principalmente da rede Al-Jazeera em árabe, agora já banida do Iraque), retórica que evocava as piores ameaças de destruição que faziam Saddam Hussein e al-Zarqawi.

Os xiitas veem a associação deles com o Irã como necessária para fazer frente à influência saudita e do Golfo entre os insurgentes sunitas.

Mesmo assim, políticos sunitas, como o governador de Mosul – diz Kirk. H. Sowell da consultoria Uticensis Risk – têm sido “frouxos”; Sowell observa que ele e o comando do exército em Mosul gastou mais combatendo entre eles mesmos, que combatendo contra o ISIS ou contra qualquer outro grupo antigoverno, como o Jamaat Ansar al-Islam (anti-ISIS) ou o General Military Council and Naqshbandi Army (pro-ISIS). As provocações e lutas internas, e os atentados com carros-bomba e tiroteios praticados por terroristas antigoverno, foram consideradas causa suficiente para não dar ouvidos às queixas dos sunitas contra a violência xiita.

Assim, em Fallujah, os terroristas do ISIS conseguiram implantar uma esfera de influência – mas influência que tiveram de partilhar com grupos locais, inclusive vários que não se interessam pelos objetivos estratégicos do ISIS para todo o Levante e só querem mais autonomia local.

Em Mosul, parece que o ISIS tem todo o palco mais à sua disposição – resultado de eficiente trabalho de construção de bases ao longo dos meses anteriores. Al-Tamimi observa que no norte o ISIS dominou o esforço militar (o seu número de baixas parece confirmar isso) e obteve mais território e mais materiais, diferente do que se viu em Fallujah. Assim sendo, o ISIS considerará acordos de partilha de poder em Mosul nos quais agora só prometerá unidade; mas, adiante, se entrincheirará, à custa dos seus ditos “amigos”, muitos dos quais – como o Exército Sírio Livre – percebem tarde demais por que as portas dos arsenais são repentinamente trancadas e protegidas contra eles, como acontece agora.

As Ar-Raqqaqi observa, em comentário que dá calafrios, a partir de sua experiência com eles na Síria: “o ISIS abriu seu próprio espaço, desmantelando os rebeldes que havia lá, grupo a grupo”. Esse será o objetivo imediato do ISIS, como foi em Fallujah, mesmo antes de eles terminarem de faxinar os restos dos serviços de segurança no norte.  



Nota dos tradutores


A campanha Soldiers’ Harvest refere-se à intimidação e deslocamento das Forças de Segurança do Iraque, especialmente mediante a destruição das residências dos soldados.
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[*] Paul Mutter é jornalista e blogueiro. Atualmente presta serviços no Oriente Médio. É especialista em política externa. Escreve principalmente sobre as relações exteriores dos Estados Unidos, Israel e de países da região do Golfo Pérsico; formado no Instituto Arthur L. Carter da NY University. Contribui para as seguintes publicações para a PBS Tehran Bureau, The Arabist, Mondoweiss, Truthout, Salon e Foreign Policy in Focus.