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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A crise do jornalismo face aos novos desafios da comunicação pública


Carlos CAMPONEZ [Universidade de Coimbra, Portugal], s/d
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

A actual crise dos media deve-se, em grande parte, ao facto de eles fundarem a sua legitimidade numa concepção individualista de liberdade que confunde liberdade de expressão, liberdade de imprensa e liberdade de empresa”.

A liberdade de expressão só para as empresas “de jornalismo”, de fato, não passa de variante ideológica da liberdade (liberaloide) de empreender e da liberdade (liberaloide) que os mercados ditos “livres” reivindicam como direito exclusivo, reservado, só deles”.


Entre a crítica e os “deslizes” contínuos da “mídia”

A crítica dos media não é um fenómeno contemporâneo. Voltaire dizia, já no século XVIII, que

«A imprensa, é preciso admiti-lo, tornou-se num flagelo da sociedade e numa pilhagem intolerável»  [1](3)

Balzac, no século seguinte, concluia a Monographie de la Presse Parisienne com o conhecido axioma:

«Se a imprensa não existisse, seria necessário não inventá-la»[2](4)

Interessa-nos, porém, perceber o renovar do debate e da crítica pública sobre o jornalismo [3](5), sobretudo a partir dos finais da década de 80, princípios da década de 90. Estamos numa altura rica em acontecimentos, desde a queda do Muro de Berlim às guerras na Somália, na Jugoslávia, no Golfo Pérsico. Trata-se, além do mais, de um período marcante também do ponto de vista das mudanças tecnológicas e do impacto das políticas neoliberais no sector dos media, como é o caso da desregulamentação dos sectores do audiovisual e das telecomunicações, na Europa e nos EUA, bem como a formação dos grandes grupos multimédia mundiais, um processo que se acelerou sobretudo no final dos anos 90.

Não temos qualquer pretensão de exaustividade perante a multiplicidade de situações e a riqueza do debate em torno das derrapagens éticas e deontológicas das coberturas jornalísticas dos media neste período. Permita-se-nos, no entanto, recordar a polémica em torno da cobertura jornalística dos acontecimentos em Timisoara, na Roménia, na Guerra do Golfo, no conflito da Jugoslávia, ou em casos em torno de figuras famosas, como Diana, O. J. Simpson e Bill Clinton/ Monica Lewinsky. Se, nestes casos, fomos, em Portugal, mais espectadores que protagonistas, também é verdade que temos as nossas especificidades para contar: Timor-Leste, ponte de Entre-os-Rios, Casa Pia, a morte de Fehér, só para referir alguns casos que, pela sua força, mais polémica geraram ou ainda continuam a ser tema de discussão.

Em 1991, a associação Médias 92 fazia um levantamento crítico dos erros mais comuns cometidos durante a Guerra do Golfo: não identificação das fontes de informação; manipulação dos media pelas autoridades oficiais políticas e militares; monopólio da informação bruta por um único medium (no caso, a CNN) que desempenhou um papel de «oráculo» e de «grossista de imagens»; subordinação da informação e da programação aos imperativos do directo; selecção das informações com base no critério da audiência em detrimento do critério da importância; tratamento hiperbólico da informação tendo por base uma cobertura jornalística em contínuo; cortes arbitrários de entrevistas, utilização de pequenas frases fora do seu contexto e traduções incorrectas; cronologia defeituosa e ausência de datação dos acontecimentos ou dos documentos apresentados; confusão entre as opiniões pessoais dos jornalistas e os seus comentários sobre a actualidade; vedetismo dos jornalistas, por vezes ultrapassando o exercício normal da profissão; corrida à cacha jornalística, à dramatização, à emoção, em resultado da forte concorrência entre os media, as televisões, as redacções e os próprios jornalistas (6)[4].

Não seria muito difícil encontrar estas e outras marcas de derrapagens jornalísticas nos casos portugueses já acima referenciados. No caso da cobertura jornalística do período pós-referendo em Timor-Leste, muitas destas questões puderam ser disfarçadas pelos fortes constrangimentos que pesaram sobre a cobertura jornalística, associada à ideia de uma causa nacional que justificou ou, pelo menos, desculpabilizou os meios utilizados e os erros cometidos[5](7). Mas no caso da ponte Hintz Ribeiro, em Entre-os-Rios, os excessos foram por demais evidentes.

Entrevistas a crianças, interpelação de populares em visível estado de comoção, cobertura extensiva e em directo da tragédia, a folclorização mediática do evento e a degenerescência informativa sob o efeito da concorrência das estações televisivas em busca das audiências, são algumas das referências que podemos encontrar na crítica do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas à cobertura do acontecimento  [6](8). A exaustiva cobertura televisiva transformou o jornalista numa espécie de animador com a função de não deixar espaços em branco durante as emissões desse «Show da Morte» [7](9), tentando trazer as famílias das vítimas para o palco das emoções para lhes perguntar: como se sente? A cobertura jornalística do caso Casa Pia ou, mais recentemente, da morte de Fehér – e, certamente, outros virão – têm servido apenas para reactualizar este debate, não obstante os pareceres das entidades reguladoras e os códigos deontológicos que regem a profissão.

Num levantamento dos textos deontológicos ocidentais, Jean-Marie Charon identifica os valores que regem a profissão.

Em primeiro lugar, destacam-se as questões relacionadas com princípios fundamentais: o respeito pela liberdade de informação, pela Justiça, pelo Estado de Direito e pela verdade/objectividade.

Em segundo lugar, seguem-se os aspectos relacionados com o respeito pelo público: não criar confusão entre informação, publicidade, promoção e propaganda; não truncar a informação; não mentir; não caluniar; não acusar sem provas; ser exacto; não espectacularizar; não discriminar; rectificar os erros.

Em terceiro lugar, aparecem os temas centrais dos códigos deontológicos do jornalismo, relacionados com o tratamento das fontes de informação: o respeito do segredo profissional; a não utilização de métodos de investigação desleais, tais como o recurso à compra de documentos; o respeito pela vida privada; a recusa da calúnia, da injúria e da acusação sem provas; a não alteração ou deturpação de documentos; a identificação das fontes, bem como a distinção entre factos e opiniões ou comentários dos jornalistas.

Finalmente, encontramos um conjunto de regras referentes à conduta entre jornalistas e ao respeito pela própria profissão: reconhecer ou apenas aceitar a jurisdição dos seus pares; recusar o plágio; recusar prendas, viagens, privilégios ou benesses; e respeitar o regime de incompatibilidades [8](10). Em traços gerais, este levantamento é coincidente com outros efectuados por Tiina Laitila [9](11), Benoît Grevisse, Claude-Jean Bertrand, Daniel Cornu, entre outros, sobre os códigos deontológicos do jornalismo europeu e ocidental.

A questão que parece resultar da análise que acabámos de fazer não pode ser outra que a constatação de um impasse: o consenso em torno das normas e dos princípios deontológicos não consegue, por si só, evitar as cíclicas derrapagens da cobertura jornalística, sobretudo em acontecimentos mais mediáticos e susceptíveis de mobilizarem as audiências.

Este facto põe em causa a capacidade de autorregulação dos jornalistas e dos media.

Mas, também aqui, nada de substancialmente novo. Jean-Claude Guillebaud dizia, em 1991, a propósito das críticas acerca da cobertura jornalística da Guerra do Golfo: «De crise em crise, o julgamento dos media prossegue. Mas não necessariamente avança. Conduzido muitas vezes pelos próprios media, hesita entre o exorcismo colectivo, a auto-flagelação e a explicação mono-causal, mais ou menos sentenciosa» [10](12)

O debate em torno das questões deontológicas do jornalismo arrisca-se a cair num cinismo tanto mais evidente quanto mais ele procura iludir as fragilidades dos próprios códigos. A este respeito diz-nos Mário Mesquita: «A deontologia constitui um instrumento de aperfeiçoamento dos jornalistas, individualmente considerados, ou um factor de identidade da profissão no seu conjunto. Mas não possui virtualidades suficientes para explicar as transformações políticas, económicas, sociais, tecnológicas e retóricas da comunicação social, nem as frequentes “derrapagens” mediáticas. A imagem das empresas e dos jornalistas pode reforçar-se ou melhorar com a revalorização da “ética profissional”. Chega sempre o momento das homenagens que “o vício presta à virtude”.

Mas a deontologia-todo-poderosa, salvadora dos cidadãos, essa, só existe na imaginação generosa dos ingénuos ou na estratégia cínica de alguns “comunicadores”» [11](13). João Pissarra Esteves, salienta, por seu lado, a componente ideológica da deontologia no discurso profissional dos jornalistas. «O seu discurso de superfície assume a intencionalidade ética de projectar os media como instrumentos fundamentais da democracia – com base na sua função informativa e num conjunto de valores de referência (neutralidade, verdade, objectividade, distanciamento, etc.). Mas a grande ilusão desta ideologia está na crença de que os jornalistas, só por si e sem qualquer mudança estrutural profunda, podem condicionar decisivamente o funcionamento democrático dos media» [12](14). (...).

Conclusão
Se é verdade que, retomando Wolton, poderíamos dizer que a inovação tecnológica, o fim das ditaduras, o reconhecimento da liberdade de expressão e a superação da debilidade económica dos media aumentaram o seu poder e a sua visibilidade, também não deixa de ser verdade que, concomitantemente, a sua legitimidade tem vindo a ser cada vez mais questionada.

A actual crise dos media deve-se, em grande parte, ao facto de eles fundarem a sua legitimidade numa concepção individualista de liberdade que confunde liberdade de expressão, liberdade de imprensa e liberdade de empresa. Ora, o direito à comunicação é muito mais que um direito de expressão. Ao retirar aos media o monopólio da opinião, estaremos a reduzir o seu poder no quadro da determinação da opinião pública, mas estaremos também a delimitar-lhe as suas responsabilidades e a sua legitimidade. [o que é muuuuuuuuito necessário, urgentíssimo, se queremos ter melhor democracia (Vila Vudu)].
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Bibliografia

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Notas de rodapé

[1](3) Apud Alain WOODROW, Les Médias – Quatrième pouvoir ou cinquième colonne ?, Paris, Félin, 1996, p. 11.
[2](4) Honoré de BALZAC, Les Journalistes – Monographie de la presse parisienne suivi Des salons littéraires, Paris, Arléa, 1999, p. 143.
[3](5) Élizabeth Martichoux faz eco desse debate em França, através de publicações que foram sucesso de vendas, como foi o polémico livro de Pierre PÉAN e Philippe COHEN, La Face Cachée du Monde (221 mil exemplares vendidos em Setembro de 2003). Élizabeth MARTICHOUX, Les Journalistes, Paris, Le Cavalier Bleu, col. «Idées Reçues – Économie & Société», 2003, p.21.  
[4](6) MÉDIAS 92 e Bertrand COUSIN, Propositions Sur la Déontologie de L’Information – Presse écrite, radios et télévisions, 5 de Fevereiro de 1991. Apud Jacques LEPRETTE e Henri PIGEAT (org.), Éthique et Qualité de L’Information, Paris, Presses Universitaires de France, col. «Cahier des sciences morales et politiques, 2004, p. 28.
[5](7) Cf. Jornalismo e Jornalistas, nº1, Janeiro – Março, 2000.
[6](8) Cf. Jornalismo e Jornalistas, nº 5, Abril-Junho de 2001, pp. 6 a 8. O destaque deste número foi dedicado ao tema «Entre-os-Rios e o Jornalismo», com base no debate realizado na imprensa acerca da cobertura jornalística efectuada aos acontecimentos.
[7](9) José Pacheco PEREIRA, «O “Show” da morte», Jornalismo e Jornalistas, op. cit., p. 8.
[9](11) Tiina Laitila, «Journalistic codes of ethics in Europe», European Journal of Communication, vol. X, nº 4, pp. 527-544, 1995.
[10](12) Jean-Claude GUILLEBAUD, «Crise des médias ou de la démocratie ?», La Revue Nouvelle, nº 6, Junho, 1992, p. 36.
[11](13) Mário MESQUITA, «A turbodeontologia», in: Público, 16 de Março de 2001. Este texto pode ser encontrado na revista Jornalismo e Jornalistas, op. cit., p. 13.
[12](14) João Pissarra ESTEVES, A Ética da Comunicação e dos Media ModernosLegitimidade e poder nas sociedades complexas, Lisboa, Gulbenkian/JNICT, 1998, p. 22.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Droga Mata!



Publicado em 29/05/2012 por Mário Augusto Jakobskind*

A revista Veja, pouco confiável por ser useira e vezeira em editar matérias que não se sustentam, desta vez fez alarde com uma acusação do Ministro Gilmar Mendes, segunda a qual o ex-Presidente Luis Inácio Lula da Silva teria lhe proposto o adiamento do julgamento do chamado mensalão. 

O encontro entre Mendes e Lula, no escritório de Nelson Jobim, ocorreu há um mês e só agora o ministro revelou o suposto pedido. O adiamento proposto por Lula, ainda segundo a revista Veja, se daria em troca do silêncio da Comissão Parlamentar de Inquérito mista sobre Cachoeira  em relação ao próprio ministro, que se encontrou com o senador Demóstenes Torres em Berlim.

Há denúncias de que Cachoeira de lama pagou as passagens e estadas tanto de Mendes como do senador que ditava regra sobre moralidade e por debaixo do pano fazia o jogo sujo de Carlos Cachoeira de lama. Mendes garante que ele mesmo custeou a viagem e volta e meia vai a Berlim visitar a filha, que la reside.

Se o Ministro puder provar que pagou a passagem daquela vez (ninguém pediu), afinal a denúncia é grave, encerraria de uma vez por todas com a dúvida. Por enquanto vale apenas a palavra de Mendes, considerada bastante questionável.   

A notícia divulgada pela Veja, como sempre acontece, foi repercutida na Folha de S. Paulo, em O Globo e no Jornal Nacional. Lula negou que tenha feito a proposta. 

A matéria da revista Veja com a denúncia de Mendes deve ser encarada com reserva e se for melhor analisada não se sustenta. Por que Lula faria o pedido quando a mídia de um modo geral está em cima dos ministros do STF exatamente para apressar o julgamento do mensalão? Com a experiência que tem como ex-presidente por que ele se exporia dessa forma tão grosseira?  

Jobim também desmentiu a matéria da revista Veja, uma publicação sob suspeita de prática de baixo jornalismo. O esquema é conhecido. Os repórteres saem em campo já com a pauta determinada e dirigida para chegar a uma conclusão. Seja o que for falado por alguém alvo dos Civitas, a matéria conclusiva está pronta antes mesmo de ser elaborada. Os inimigos não serão poupados.

Desta vez, Gilmar Mendes se superou. Ele já esteve envolvido em outras matérias no mínimo  discutíveis, uma delas a de ter concedido habeas corpus a Daniel Dantas e na tentativa de desmoralizar o então delegado Protógenes Queiroz, que conduzia o inquérito contra o referido banqueiro acima de qualquer suspeita.

Se Lula tivesse mesmo feito o pedido seria uma demonstração de incompetência política, algo que até seus inimigos admitem que não corresponde aos fatos. Seria até um expediente prejudicial aos próprios implicados no mensalão que está para ser julgados nas próximas semanas. 

Vários Ministros do STF, entre eles Ricardo Lewandovsky, já disseram que nunca foram pressionados por Lula quando ele exercia a Presidência da República.

Seria absolutamente descabido e pouco inteligente, o que não é uma característica de Lula, reconhecido até pelos inimigos como um político hábil e inteligente, que agora sem mandato pressionasse Gilmar Mendes. E uma pressão, diga-se de passagem, prejudicial aos próprios petistas, entre os quais José Dirceu e Jose Genoino, que serão julgados antes das eleições.

Não se exclui a possibilidade de que este novo apronto da sujísima Veja com Mendes tenha se destinado a retirar dos holofotes algumas questões vinculadas à Comissão Parlamentar de Inquérito do Congresso sobre as ligações de Cachoeira de lama com o mundo político e mesmo midiático.

A Veja foi pautada pelo meliante Cachoeira e nestes dias ganhou uma defensora de peso, a Senador Kátia Abreu, agora no PSD de Gilberto Kassab, que escreveu artigo tomando as dores da revista que lhe dá grande acolhida. Usou os mesmos argumentos que outros defensores da publicação, como o imortal Merval Pereira, ou seja, que a convocação de Policarpo Júnior seria um atentado à liberdade de imprensa. 

Quanto ao Prefeito Kassab, a revista IstoÉ e o Ministério Público o acusaram de estar também envolvido em falcatruas, juntamente com um funcionário que recebeu de propina 106 apartamentos ao liberar obras irregulares na capital paulista. Nenhuma linha em O Globo ou na TV do mesmo nome.

A Veja pratica um jornalismo que lhe vale a denominação de sujíssima. Para se ter uma ideia, recentemente um repórter da revista tentou invadir o quarto de um hotel em Brasília onde estava hospedado o ex-ministro José Dirceu para possivelmente espionar alguma material que o incriminasse ou mesmo instalando algum microfone oculto. A camareira impediu que a transgressão acontecesse. Corre até uma investigação policial sobre o fato e o público não vem sendo informado a respeito.

Não se trata de defender José Dirceu, um dos responsáveis pela atual praxis fisiológica do PT em nome da governabilidade, mas de se repudiar uma prática que depõe verdadeiramente contra o jornalismo. E a corrida a qualquer custo para incriminar o ex-ministro Chefe da Casa Civil é sintomática.

Policarpo Júnior, chefe da sucursal da Veja em Brasília, tem culpa no cartório no mencionado episódio. Além disso, foi pautado por uma Cachoeira de lama, como demonstra cristalinamente vídeo apresentado pela TV Record, no ar também no YouTube. O jornalista está sendo blindado para não comparecer na CPMI.

Assim caminha a mídia de mercado. O mais recente apronto da Veja e Gilmar Mendes está realmente inserido no contexto enlameado do baixo jornalismo. E toda vez que se contesta a revista da família Civita, que para muitos forma uma gang, convoca entidades e colunistas para protestar conta o que eles alegam ser perseguição à liberdade de imprensa.

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) já deve estar de prontidão para qualquer emergência que porventura venha a envolver a sujíssima Veja na CMPI.

Em tempo: depois de na semana passada cancelar a reunião, o Ministro da Justiça, Jose Eduardo Cardozo, voltou a convocar familiares de desaparecidos políticos citados no livro Memórias de uma guerra suja sobre o depoimento do ex-delegado Claudio Guerra revelando, entre outras coisas, a incineração de dez combatentes contra a ditadura em um forno de uma usina de açucar em Campos. 

Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE.




Imagens colhidas na internet pela redecastorphoto
Titulo original do artigo:Veja como se faz baixo jornalismo”

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Alan Gross e a “liberdade de imprensa” (e Los Cinco Heroes)


Mas... Jornalistas não leem a “imprensa livre”?

25-27/5/2012, Saul Landau, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Alan Gross
Há menos de três anos, as autoridades cubanas prenderam Alan Gross, contratado por quase US$600 mil pela empresa DIA.Inc. para um programa da Agência USAID em Cuba.

Em Havana, as autoridades cubanas leram seus relatórios de viagem, nos quais Gross relatava o que fizera para entregar a um grupo pré-selecionado de, na maioria, judeus cubanos, equipamentos de tecnologia sofisticados e ilegais.

Gross contrabandeava equipamentos para Cuba, “peça por peça, em malas e sacos de viagem que eram despachados e jamais o acompanhavam como bagagem de mão”.

Entre os itens contrabandeados havia “laptops, smartphones, discos rígidos e equipamento para conexão de internet”, escreveu Desmond Butler, em matéria sobre o affair Gross, para a Associated Press, dia 12/2/2012 [1]. “O item mais sensível”, segundo os relatos de viagem do próprio acusado, era… um chip para telefone celular ultrassofisticado que, sempre nas palavras do próprio acusado, era “usado pelo Pentágono e pela CIA para gerar sinais para satélites, virtualmente impossíveis de rastrear”.

Com seu sofisticado SIM card, o grupo podia também encobrir os sinais emitidos e escapar a qualquer rastreamento. Todo esse equipamento não visava a impedir que o governo de Cuba conseguisse descobrir receitas de acepipes tradicionais que judeus cubanos trocariam por telefone, entre eles e com cozinheiros do Pentágono e da CIA.

A Agência USAID (US Agency for International Development/Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional) pagava pelos serviços de Gross, como parte de seu plano para “promover a democracia” e levar “desenvolvimento econômico e ajuda humanitária em todo o mundo, sempre a serviço das metas de política externa dos EUA”. Mas Gross identificava-se como “membro de um grupo de judeus que prestavam ajuda humanitária aos cubanos, nunca como agente do governo dos EUA”. [1]

Victoria Nuland 
Dia 11/5/2012, cerca de três meses depois de publicado o artigo de Butler, a principal porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Victoria Nuland, participou do seguinte diálogo, em briefing do Departamento de Estado para a imprensa, como transcrito por seu gabinete e reproduzido em Daily Press Briefing.

A seguir, excerto em que Nuland fala do “caso Gross”:

PERGUNTA: Podemos falar de Cuba

MS. NULAND: Sim.

PERGUNTA: Ontem, uma funcionária do governo de Cuba, deu uma entrevista à CNN. Seu nome é Josefina Vidal  [2] . Disse que Cuba encaminhou uma espécie de oferecimento aos EUA, para libertarem Alan Gross. Há possibilidade de alguma negociação nesse front?

Hillary Clinton (e) e Victoria Nuland (d)
MS. NULAND: Bem... Acho que, se você voltar a uma entrevista que a secretária Clinton concedeu à CNN no início da semana, de New Delhi... A secretária Clinton foi muito clara sobre essa questão. Não há qualquer semelhança entre as duas situações. De um lado, temos espiões condenados nos EUA [3]. De outro lado, um homem que trabalhava em ajuda humanitária, que, para início de conversa jamais poderia ter sido preso.

Evidentemente não estamos considerando a libertação dos “Cinco Cubanos” nem cogitamos de qualquer troca de prisioneiros. O encarceramento de Gross é deplorável, é errado e afronta a decência humana. E o Governo de Cuba tem de fazer a coisa certa.

PERGUNTA: Nesse caso... OK. A senhora, então, confirma que a proposta de Cuba está, mesmo, relacionada aos Cinco Cubanos. Não havia informação, até agora, que confirmasse essa vinculação.

MS. NULAND: O governo cubano tenta regularmente vincular as duas coisas. Nós rejeitamos regularmente qualquer vínculo.

PERGUNTA: Sim, mas... Por que, quero dizer: vários funcionários do seu governo estão trabalhando numa troca de cinco prisioneiros dos Talibã, e Bowe Bergdahl, como se sabe, sim, tudo indica que esteja envolvido nessa troca. Por que o seu governo não vê problemas em devolver prisioneiros Talibã, mas recusa-se a entregar prisioneiros cubanos, em troca de Cuba devolver um cidadão norte-americano que é prisioneiro em Cuba e, além do mais, está muito doente?

MS. NULAND: Não há qualquer equivalência entre os dois casos, e o governo de Cuba sabe disso. Temos o caso de um governo autoritário que prendeu um homem que fazia caridade e oferecia ajuda humanitária a cidadãos cubanos; e que foi preso sem provas. Só podemos negociar com governos estabelecidos. Até hoje nada disso existe em Cuba e não há condições para qualquer tipo de negociação. 

PERGUNTA: A senhora está dizendo que [Alan Gross, preso em Cuba] não infringiu leis cubanas?

MS. NULAND: Não vou discutir isso. Se infringiu ou não.

PERGUNTA: Mas, pensei que...

MS. NULAND: É o seguinte: nossa posição é que ele nada fez de errado.  

PERGUNTA: Nesse caso... Por que... Quero dizer... 

MS. NULAND: Nada fez de errado. Nós entendemos... Nós achamos que suas...

PERGUNTA: ... as atividades dele, entendi. Os Cubanos dizem que as atividades dele violaram leis cubanas. Quer dizer: a senhora concorde ou discorde, com o que a lei cubana determina... A lei cubana é a lei cubana. Mas esse é outro problema.

MS. NULAND: Nós...

PERGUNTA: Seja como for... O que ele estava fazendo, dizem os cubanos, é ilegal. Quer dizer... 

MS. NULAND: Bem, nós rejeitamos categoricamente...

PERGUNTA: Mas... Vocês rejeitam categoricamente que ele tenha infringido a lei cubana?  

MS. NULAND: Rejeitamos categoricamente as acusações feitas contra ele e o fato de ter sido preso.

PERGUNTA: Mas a senhora disse que é “afronta à decência humana”.

MS. NULAND: Hã-hã.

PERGUNTA: Por quê? Por que é “afronta à decência humana”? 

MS. NULAND: Porque está encarcerado sem motivo algum. Estão-lhe negando qualquer consideração humanitária. Dou-lhe um caso para comparar, que consideramos relevante.

Mesmo no caso dos Cinco Cubanos ok, temos um deles, Rene Gonzalez, preso há 15 anos por espionagem. Estava em liberdade condicional nos EUA. Pediu para voltar a Cuba, para visitar um parente doente. Permitimos. E ele foi e não voltou aos EUA. O nosso gesto foi gesto humanitário. Mas, repito, é uma situação completamente diferente. Mas o governo cubano não lhe assegura esse tipo do humanidade numa situação totalmente (inaudível), para início de conversa. A linguagem também é diferente.

PERGUNTA: Quanto a isso...  

MS. NULAND: Sim.

PERGUNTA: ... ontem, os funcionários cubanos disseram que Gross não pode viajar aos EUA para visitar a mãe, porque ainda não cumpriu o mínimo da sentença, que lhe daria esse direito. O que a senhora diz a isso?

MS. NULAND: Olhe, nós rejeitamos todo o negócio, qualquer tipo de equivalência e qualquer tipo de posição que o governo cubano tome, tudo, é completamente injusto. Ok? Assunto encerrado. Outro assunto?

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Mas... O que significa tudo isso?

A porta-voz não leu o artigo de Butler? E, se leu, que sentido há em repetir que Gross “distribuía laptops e computadores-padrão para ajudar a comunidade de judeus cubanos no acesso à Internet”?

A verdade – como La Alborada noticiou – é que Gross estava construindo a infraestrutura para um sistema clandestino de comunicações por satélite, para fazer propaganda contra o governo cubano, em Cuba; e para promover agitações e criar pretexto para forçar a entrada, em Cuba, de supervisores de “direitos humanos”, para construir “a democracia”. “Gross é técnico experiente na instalação desses equipamentos. Mas lá estava, de fato, como testa de ferro, considerado “indestrutível”, porque é judeu, ativo apoiador da organização B’nai B’rith; e porque se apresentou como uma espécie de Papai Noel, para distribuir computadores e equipamentos sofisticados, a judeus cubanos impedidos de praticar seus cultos e sem meios para acessar a Internet”. [1]

Cuba não prendeu Gross por “tentar ajudar outros judeus a partilhar cultos e informações religiosas e culturais. Gross está na cadeia porque atuava como agente de país inimigo de Cuba, em programa que visava a desestabilizar o governo cubano”. [1]

Para que serviria a imprensa livre, se os funcionários da Casa Branca, do Pentágono e do Departamento de Estado dos EUA não lhe dão qualquer atenção, ou não leem a imprensa livre ou fingem que não conhecem os fatos?

Mas também os jornalistas ignoram... a imprensa livre! 

Wolf Blitzer, jornalista e âncora da rede CNN, ou fingiu ignorância, ou estava desinformado dos fatos, quando entrevistou Hillary Clinton e Alan Gross. [4]

Desmond Butler fez apenas... jornalismo, quando se dedicou a ler atentamente os relatos de viagem do próprio Gross, com a mesma atenção que lhes dedicaram “agentes da USAID [que] recebiam relatórios periódicos dos avanços da missão de Gross, nas palavras do porta-voz da empresa DAI, contratada pela USAID, Steven O’Connor”. [1]

Butler leu, nos relatórios do próprio Gross, que, “para passar pela revista no aeroporto, [Gross] subcontratou a ajuda de outros judeus norte-americanos, para contrabandear equipamento eletrônico, peça a peça, para território cubano. Deu instruções aos seus colaboradores [judeus em viagens de peregrinação religiosa a Cuba] para despachar dentro das malas o equipamento contrabandeado; e nada levar na bagagem de mão”. [1]

No briefing para a imprensa dia 11 de maio, Nuland “rejeita categoricamente as acusações feitas contra [Gross] e o fato de ter sido preso”.

Mas Nuland não leu, tampouco, o que Judy Gross – esposa do agente da USAID – disse em entrevista a uma repórter de televisão: “Nós sabemos que ele [Alan Gross] infringiu a lei cubana”. Ficaram sabendo, pelo menos, quando Gross chegou a Cuba e foi preso.

Judy Gross
Por isso, decidi escrever a Mrs. Gross,

Cara Judy,

Por favor, envie cópia de sua entrevista diretamente à secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton; ao presidente Obama; e aos jornalistas que trabalham nas respectivas assessorias de imprensa de Clinton e Obama. Em seguida, à frente da Casa Branca e do Departamento de Estado, instale um cartaz: “Alan, meu marido, infringiu leis cubanas”. Quem sabe, com sorte, o pessoal por lá entenderá que muita gente já sabe do que a imprensa livre já sabe e já noticiou.”.

Desejo-lhe sorte. Saul.



Notas dos tradutores

[1] 12/2/2012, Associated Press - Desmond Butler, AP IMPACT: USAID contractor work in Cuba detained.

[2]10/5/2012, CNN [vídeo, em inglês], em: CNN's Wolf Blitzer follows the story of jailed U.S. citizen Alan Gross”; ou íntegra na Nota [4]

[3] A história desses cinco agentes cubanos [“espiões”, para a secretária Clinton, e “Los Cinco Heroes” para o resto do mundo, é tema do livro-reportagem Últimos soldados da Guerra Friade Fernando Morais (SP: Companhia das Letras, 2010), em cuja apresentação lê-se:

“No início da década de 1990, Cuba criou a Rede Vespa, um grupo de doze homens e duas mulheres que se infiltrou nos Estados Unidos e cujo objetivo era espionar alguns dos 47 grupos anticastristas sediados na Flórida. O motivo dessa operação temerária era colher informações com o intuito de evitar ataques terroristas ao território cubano. De fato, algumas dessas organizações ditas “humanitárias” se dedicavam a atividades como jogar pragas nas lavouras cubanas, interferir nas transmissões da torre de controle do aeroporto de Havana e, quando Cuba se voltou para o turismo, depois do colapso da União Soviética, sequestrar aviões que transportavam turistas, executar atentados a bomba em seus melhores hotéis e até disparar rajadas de metralhadoras contra navios de passageiros em suas águas territoriais e contra turistas estrangeiros em suas praias.”

[4] Assista a seguir: “Cuban Officials talks about  Alan Gross”