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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Irã repudia linguagem da Casa Branca sobre acordo nuclear

23/1/2014, [*] Jim Sciutto , CNN
Traduzido, editado e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

 

Matéria aqui editada, para resgatar o pouco que dela se aproveita – a fala do ministro Zarif do Irã – e livrá-la do fedor “jornalístico” à moda CNN, em tudo semelhante ao fedor “jornalístico” do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão). 

Não concordamos com “desmantelar” nada, não estamos “desmantelando” nada, não “desmantelaremos” coisa alguma isso, precisamente, é o que diz o Ministro de Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, ao jornalista Jim Sciutto da CNN


Lê-se a matéria completa no “link” acima, mas da matéria nada se aproveita: é toda construída para que o público conheça a “opinião” do jornalista entrevistador, muito mais que do entrevistado. Assista vídeo a seguir (em inglês) com fragmentos da fala do ministro Zarif.


<

Além dos fragmentos da fala de Zarif, ouvem-se toneladas de bobajol de opiniões dos jornalistas. [1] E a quem interessa opinião de jornalista da CNN, mais do que aos próprios jornalistas da CNN?! O que se aproveita da matéria está em negrito  a seguir:

A versão da Casa Branca, simultaneamente desqualifica as concessões e exagera os compromissos do Irã, disse Zarif em Davos, Suíça, onde está para participar do Fórum Econômico Mundial.

A Casa Branca tenta pintar o acordo como se não passasse de um “desmantelamento” do programa nuclear iraniano. Usam sempre a mesma palavra, repetidas e repetidas vezes. Por que não leem o texto do acordo? Se os senhores encontrarem lá uma única palavra que, mesmo remotamente, sugira “desmantelamento” ou que possa ser definida como “desmantelamento” de alguma coisa, naquele texto inteiro, volto aqui e peço desculpas pelo que lhe estou dizendo.

Comentando o que Kerry dissera antes, na 4ª-feira (22/1/2014) em Montreux, que “de nenhum modo” al-Assad será parte de um governo de transição buscado nas conversações de Genebra-2, o ministro Zarif perguntou:

Por que jamais conversamos sobre isso? E, mais: por que os sírios não são consultados sobre como farão eleições limpas, livres e justas? Por que há quem tente fixar sua própria agenda e impô-la ao povo sírio?

Sciutto pergunta então a Zarif sobre a visita que fez, semana passada, ao túmulo do líder do Hezbollah, Imad Mugniyah, no Líbano, onde depositou uma coroa de flores.

Zarif respondeu que sua visita tem de ser vista no mesmo contexto da delegação dos EUA que foi ao recente funeral de Ariel Sharon.

É decisão baseada nas percepções nacionais e em crenças nacionais. Mugniyah é figura reverenciada pela resistência à ocupação israelense e sempre chamou de “massacres” o ataque comandado por Sharon a palestinos e libaneses nos campos de Sabra e Shatila. Os iranianos entendemos que os massacres de Sabra e Shatila foram crimes contra a humanidade.



Nota dos tradutores
[1] No Brasil, a revista (não)Veja, em 25/11/2013, não satisfeita com desmantelar o que mais a interesse desmantelar, detona logo tudo: “Netanyahu defende desmantelamento da capacidade nuclear dos aiatolás” em: Israel enviará equipe aos EUA para discutir acordo com Irã. E em setembro, antes de serem ambos desmantelados, O Globo e Netanyahu pontificavam: Irã deve desmantelar seu programa nuclear militar.
______________________

[*] Jim Sciutto é correspondente-chefe de segurança nacional da rede CNN que o entrevista. Sciutto é, praticamente, um Wacka da GloboNews, só que da CNN e com salário muuuuuuuuito maior que o do tal de Wacka.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

EUA: eleições 2012 e a imprensa-empresa: Vasto complô de imbecilidade direitista


31/8/2012, Glenn Greenwald, [The Guardian, UK], rep. em Commondreams
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


Glenn Greenwald
Quarta-feira à noite (29/8/2012), Paul Ryan, candidato do “Velho Grande Partido” Republicano à vice-presidência, fez discurso carregado da mais pura, da mais fundamental falsidade, em praticamente todas as frases. Jonathan Cohn, de The New Republic, oferece lista concisa das mentiras [1].

Refletindo a inutilidade e o fracasso crônico da CNN, contudo, eis a reação do principal âncora da rede, Wolf Blitzer, ao final do discurso:

Aí está ele, o candidato Republicano à vice-presidência e sua linda família. A mãe do candidato está ali, ao lado. É exatamente o que essa multidão de Republicanos aqui presente, com certeza os Republicanos de todo o país, esperavam. E que discurso poderoso! Anotei sete ou oito pontos que os maníacos por dados quererão discutir. Mas, no que tenha a ver com a campanha de Mitt Romney, Paul Ryan hoje, fez a sua parte.

A co-âncora de Blitzer, Erin Burnett – a qual, na noite anterior confessara que “fiquei com os olhos marejados” ouvindo o discurso de Ann Romney à convenção – acrescentou mais uma dose de sabedoria jornalística:

Você tem razão. Você está absolutamente certo. Haverá discussão sobre alguns pontos. Mas o discurso motivou as pessoas. Aí está um homem que diz ‘eu respeito profundamente as palavras, cada palavra. Desejo fazer um bom trabalho’. E falou sobre isso. Preciso, claro, apaixonado.

Como escreveu Louis Peitzman, de Gawker:

“Discurso poderoso”, com “só” sete ou oito mentiras? O homem pode considerar-se eleito! Parecer “preciso, claro, apaixonado” é, mesmo, muito mais importante que dizer a verdade.

Prova documentada perfeita do que é o deserto estéril, conhecido como “CNN” e produto vendido como “O Nome de Mais Credibilidade no Mundo da Notícia”, nada jamais superará o tuíte, abaixo reproduzido, que Blitzer distribuiu semana passada:

(Em @CNNSitRoom, 18h, "vamos ao Mar da Galileia em Israel, visitar a praia onde um deputado norte-americano deu um mergulho pelado")


Quando, algum dia, algo superará isso? E a chamada para o programa de Blitzer, com a história do Mar da Galileia, anunciava “as histórias e o noticiário político mais importantes do dia”.

Mas rir da CNN é brincadeira de criança. A questão importante é que a obsessão doentia da CNN com líderes políticos e “suas lindas famílias” domina o discurso político em geral, sobretudo quando o país entra em ciclo eleitoral para a presidência, que se arrasta por 18 meses que parecem intermináveis – equivale a mais de um terço do mandato do presidente – e sufoca virtualmente todas as demais questões políticas.

Uma das razões pelas quais escrevo tão pouco sobre eleições presidenciais é que acabaram por ser a realização completa da CNN-ização da política nos EUA: um horrendo, supercondensado reality show que tem menos a ver com a realidade política do que qualquer conversa de canto de bar ou de canto de cozinha de casa. Não significa que o resultado das eleições seja irrelevante. Significa apenas que o processo é sufocantemente imbecilizado, imbecilizante e falso, e gera o desejo de dar às costas e esperar que termine o mais rapidamente possível.

Eu estava viajando mês passado e, sem querer, acabei à frente de uma televisão que mostrava o presidente Obama falando em Maumee, Ohio, uma das paradas de sua viagem de ônibus de campanha “Apostando nos EUA”. Vestia camisa listrada de mangas curtas e falava frente a uma casa embandeirada com uma imensa bandeira dos EUA, com uma cerca branca. E lia-se “Apostando nos EUA” [orig. Betting on America] impresso em fundo azul, em fonte vintage Americana dos anos 1950s.


Lembro de ter pensado na quantidade descomunal do mais puro cinismo que se requer para ganhar a vida como consultor-marketeiro de campanha eleitoral nos EUA.

Não por acaso, a indústria da publicidade homenageou a campanha de Obama de 2008 com alguns de seus prêmios mais prestigiados, inclusive o “Marketeiro do Ano” dentre outras honrarias do planeta publicidade. A marca “Obama” foi construída e embalada com muita competência.

Por mais forte e quase irresistível que seja a tentação de ignorar completamente o espetáculo eleitoral anual, é preciso resistir. Apesar do que tem de raso e de manipulatório – ou, melhor dizendo, justamente por isso – a campanha eleitoral acabou tendo repercussões importantes na vida política nos EUA.

O processo eleitoral é o momento em que os políticos norte-americanos aparecem para serem venerados e glorificados, considerados sempre os mais triviais atributos de personalidade que nada têm a ver com o que fazem do poder, mas os quais, por definição, convencem os eleitores de que eles, porque são eleitores, são abençoados com o direito de serem governados por seres de tal integridade e de tantas qualidades tão nobres, e não importa o quanto os tais seres nada tenham de nobre e a longa experiência de decepções que os eleitores tenham vivido. (Na 4ª-feira, o presidente Obama, durante participação muito divulgada na sessão “Pergunte-me o que quiser” em Reddit, ignorou, muito previsivelmente, a pergunta de Nick Baumann do Blog Mother Jones sobre ele ter ordenado o assassinato de um adolescente norte-americano, Abdulrahman Awlaki; preferiu responder perguntas sobre a receita de cerveja da Casa Branca e seu jogador de basquete preferido).

Processo eleitoral é onde os partidos políticos consomem centenas de milhões de dólares para explorar as sempre mesmas qualidades triviais de personalidade e para demonizar candidatos do outro partido, como se os dois partidos fossem culturalmente antípodas; tudo, sempre, para manter os próprios eleitores em estado de medo pânico e, assim, garantir a lealdade do voto.

É o frenesi supremo, a suprema orgia da indústria da publicidade e propaganda, devotada a reforçar agressivamente a ideia do excepcionalismo americano; a crença de que mesmo quando as coisas parecem sombrias, os EUA sempre serão a terra abençoada por deus, terra da liberdade, da oportunidade e da prosperidade, e todos os cidadãos norte-americanos devem, portanto, ser muito gratos – em ordem e totalmente passivos, mas gratos - pelo privilégio de viver em tal país, não importam as dificuldades da vida, nem o quanto a corrupção seja generalizada.

É isso que induz muitos norte-americanos a crer que participam de vibrante debate político e de efetiva escolha democrática, mesmo quando a maioria das políticas que se discutem são destrutivas diretamente, da vida do eleitor – a “guerra às drogas”, a supremacia jamais contestada do aparelho clandestino de segurança, o estado de vigilância, as vastas desigualdades no sistema judiciário, o capitalismo predador que rapidamente enriquece a oligarquia que controla o processo político, mas jamais discutidas, sempre largamente ignoradas no debate público, porque os dois partidos, nesses assuntos, têm exatamente as mesmas posições e servem aos mesmos interesses.

(Observem com que frequência os apoiadores de Obama defendem o líder, de ataques dos conservadores, argumentando, com orgulho, que as políticas de Obama, de fato, são exatamente as mesmas que os conservadores pregam: Obama até cortou mais gastos, que Bush e Reagan! Wall Street jamais ganhou tanto dinheiro! Obama matou mais que Bush, em guerras! Seu plano de saúde foi produzido por um thinktank da direita! Ninguém se mostrou aliado mais fiel e prestativo de Israel, que Obama! As sanções mais “incapacitantes”, contra o Irã, são ideia de Obama! Obama “isolou” o Irã! etc.).

Dado que todos os candidatos acreditam na litania do “agradar as bases” e das “políticas populistas”, todos os eleitores podem acreditar que haja diferenças entre eles. Mas, pela mesma razão, o que dizem em campanha absolutamente nada tem a ver com o que farão no governo – como escreveu Peter Baker, hoje, no New York Times, escrevendo sobre as plataformas dos candidatos no campo da política externa, e subestimando o problema: “o elo que une o que os candidatos a presidente dizem em campanha e o que fazem depois de eleitos pode ser muito tênue”.

Há algumas poucas questões importantes, sobre as quais há agudas diferenças – questões sociais, direito de ter ou não ter filhos, filosofia da jurisprudência, alguns poucos programas sociais e políticas de impostos – e são infinitamente batidas, rebatidas e exploradas para super demarcar algumas diferenças e, mais importante, para encobrir a triste semelhança de todo o resto.

Ano eleitoral bem poderia ser significativa oportunidade para verdadeiro debate político: a única vez, a cada quatro anos, em que a maioria da população, que vive ou atribulada ou desinteressada demais dá algum sinal de interesse em prestar atenção e pode(ria) ser mais bem informada. Em vez disso, o processo é um festival de imbecilidades. E entretenimento, quase sempre macabro. De fato, o que se vê é que o processo eleitoral já é incansavelmente sem graça. E às vezes – como nos programas da CNN – é destrutivo e contraproducente.




Nota dos tradutores
[1] 29/8/2012, The New Republic, Jonathan Cohn em: The Most Dishonest Convention Speech ... Ever?


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Alan Gross e a “liberdade de imprensa” (e Los Cinco Heroes)


Mas... Jornalistas não leem a “imprensa livre”?

25-27/5/2012, Saul Landau, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Alan Gross
Há menos de três anos, as autoridades cubanas prenderam Alan Gross, contratado por quase US$600 mil pela empresa DIA.Inc. para um programa da Agência USAID em Cuba.

Em Havana, as autoridades cubanas leram seus relatórios de viagem, nos quais Gross relatava o que fizera para entregar a um grupo pré-selecionado de, na maioria, judeus cubanos, equipamentos de tecnologia sofisticados e ilegais.

Gross contrabandeava equipamentos para Cuba, “peça por peça, em malas e sacos de viagem que eram despachados e jamais o acompanhavam como bagagem de mão”.

Entre os itens contrabandeados havia “laptops, smartphones, discos rígidos e equipamento para conexão de internet”, escreveu Desmond Butler, em matéria sobre o affair Gross, para a Associated Press, dia 12/2/2012 [1]. “O item mais sensível”, segundo os relatos de viagem do próprio acusado, era… um chip para telefone celular ultrassofisticado que, sempre nas palavras do próprio acusado, era “usado pelo Pentágono e pela CIA para gerar sinais para satélites, virtualmente impossíveis de rastrear”.

Com seu sofisticado SIM card, o grupo podia também encobrir os sinais emitidos e escapar a qualquer rastreamento. Todo esse equipamento não visava a impedir que o governo de Cuba conseguisse descobrir receitas de acepipes tradicionais que judeus cubanos trocariam por telefone, entre eles e com cozinheiros do Pentágono e da CIA.

A Agência USAID (US Agency for International Development/Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional) pagava pelos serviços de Gross, como parte de seu plano para “promover a democracia” e levar “desenvolvimento econômico e ajuda humanitária em todo o mundo, sempre a serviço das metas de política externa dos EUA”. Mas Gross identificava-se como “membro de um grupo de judeus que prestavam ajuda humanitária aos cubanos, nunca como agente do governo dos EUA”. [1]

Victoria Nuland 
Dia 11/5/2012, cerca de três meses depois de publicado o artigo de Butler, a principal porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Victoria Nuland, participou do seguinte diálogo, em briefing do Departamento de Estado para a imprensa, como transcrito por seu gabinete e reproduzido em Daily Press Briefing.

A seguir, excerto em que Nuland fala do “caso Gross”:

PERGUNTA: Podemos falar de Cuba

MS. NULAND: Sim.

PERGUNTA: Ontem, uma funcionária do governo de Cuba, deu uma entrevista à CNN. Seu nome é Josefina Vidal  [2] . Disse que Cuba encaminhou uma espécie de oferecimento aos EUA, para libertarem Alan Gross. Há possibilidade de alguma negociação nesse front?

Hillary Clinton (e) e Victoria Nuland (d)
MS. NULAND: Bem... Acho que, se você voltar a uma entrevista que a secretária Clinton concedeu à CNN no início da semana, de New Delhi... A secretária Clinton foi muito clara sobre essa questão. Não há qualquer semelhança entre as duas situações. De um lado, temos espiões condenados nos EUA [3]. De outro lado, um homem que trabalhava em ajuda humanitária, que, para início de conversa jamais poderia ter sido preso.

Evidentemente não estamos considerando a libertação dos “Cinco Cubanos” nem cogitamos de qualquer troca de prisioneiros. O encarceramento de Gross é deplorável, é errado e afronta a decência humana. E o Governo de Cuba tem de fazer a coisa certa.

PERGUNTA: Nesse caso... OK. A senhora, então, confirma que a proposta de Cuba está, mesmo, relacionada aos Cinco Cubanos. Não havia informação, até agora, que confirmasse essa vinculação.

MS. NULAND: O governo cubano tenta regularmente vincular as duas coisas. Nós rejeitamos regularmente qualquer vínculo.

PERGUNTA: Sim, mas... Por que, quero dizer: vários funcionários do seu governo estão trabalhando numa troca de cinco prisioneiros dos Talibã, e Bowe Bergdahl, como se sabe, sim, tudo indica que esteja envolvido nessa troca. Por que o seu governo não vê problemas em devolver prisioneiros Talibã, mas recusa-se a entregar prisioneiros cubanos, em troca de Cuba devolver um cidadão norte-americano que é prisioneiro em Cuba e, além do mais, está muito doente?

MS. NULAND: Não há qualquer equivalência entre os dois casos, e o governo de Cuba sabe disso. Temos o caso de um governo autoritário que prendeu um homem que fazia caridade e oferecia ajuda humanitária a cidadãos cubanos; e que foi preso sem provas. Só podemos negociar com governos estabelecidos. Até hoje nada disso existe em Cuba e não há condições para qualquer tipo de negociação. 

PERGUNTA: A senhora está dizendo que [Alan Gross, preso em Cuba] não infringiu leis cubanas?

MS. NULAND: Não vou discutir isso. Se infringiu ou não.

PERGUNTA: Mas, pensei que...

MS. NULAND: É o seguinte: nossa posição é que ele nada fez de errado.  

PERGUNTA: Nesse caso... Por que... Quero dizer... 

MS. NULAND: Nada fez de errado. Nós entendemos... Nós achamos que suas...

PERGUNTA: ... as atividades dele, entendi. Os Cubanos dizem que as atividades dele violaram leis cubanas. Quer dizer: a senhora concorde ou discorde, com o que a lei cubana determina... A lei cubana é a lei cubana. Mas esse é outro problema.

MS. NULAND: Nós...

PERGUNTA: Seja como for... O que ele estava fazendo, dizem os cubanos, é ilegal. Quer dizer... 

MS. NULAND: Bem, nós rejeitamos categoricamente...

PERGUNTA: Mas... Vocês rejeitam categoricamente que ele tenha infringido a lei cubana?  

MS. NULAND: Rejeitamos categoricamente as acusações feitas contra ele e o fato de ter sido preso.

PERGUNTA: Mas a senhora disse que é “afronta à decência humana”.

MS. NULAND: Hã-hã.

PERGUNTA: Por quê? Por que é “afronta à decência humana”? 

MS. NULAND: Porque está encarcerado sem motivo algum. Estão-lhe negando qualquer consideração humanitária. Dou-lhe um caso para comparar, que consideramos relevante.

Mesmo no caso dos Cinco Cubanos ok, temos um deles, Rene Gonzalez, preso há 15 anos por espionagem. Estava em liberdade condicional nos EUA. Pediu para voltar a Cuba, para visitar um parente doente. Permitimos. E ele foi e não voltou aos EUA. O nosso gesto foi gesto humanitário. Mas, repito, é uma situação completamente diferente. Mas o governo cubano não lhe assegura esse tipo do humanidade numa situação totalmente (inaudível), para início de conversa. A linguagem também é diferente.

PERGUNTA: Quanto a isso...  

MS. NULAND: Sim.

PERGUNTA: ... ontem, os funcionários cubanos disseram que Gross não pode viajar aos EUA para visitar a mãe, porque ainda não cumpriu o mínimo da sentença, que lhe daria esse direito. O que a senhora diz a isso?

MS. NULAND: Olhe, nós rejeitamos todo o negócio, qualquer tipo de equivalência e qualquer tipo de posição que o governo cubano tome, tudo, é completamente injusto. Ok? Assunto encerrado. Outro assunto?

__________________________________

Mas... O que significa tudo isso?

A porta-voz não leu o artigo de Butler? E, se leu, que sentido há em repetir que Gross “distribuía laptops e computadores-padrão para ajudar a comunidade de judeus cubanos no acesso à Internet”?

A verdade – como La Alborada noticiou – é que Gross estava construindo a infraestrutura para um sistema clandestino de comunicações por satélite, para fazer propaganda contra o governo cubano, em Cuba; e para promover agitações e criar pretexto para forçar a entrada, em Cuba, de supervisores de “direitos humanos”, para construir “a democracia”. “Gross é técnico experiente na instalação desses equipamentos. Mas lá estava, de fato, como testa de ferro, considerado “indestrutível”, porque é judeu, ativo apoiador da organização B’nai B’rith; e porque se apresentou como uma espécie de Papai Noel, para distribuir computadores e equipamentos sofisticados, a judeus cubanos impedidos de praticar seus cultos e sem meios para acessar a Internet”. [1]

Cuba não prendeu Gross por “tentar ajudar outros judeus a partilhar cultos e informações religiosas e culturais. Gross está na cadeia porque atuava como agente de país inimigo de Cuba, em programa que visava a desestabilizar o governo cubano”. [1]

Para que serviria a imprensa livre, se os funcionários da Casa Branca, do Pentágono e do Departamento de Estado dos EUA não lhe dão qualquer atenção, ou não leem a imprensa livre ou fingem que não conhecem os fatos?

Mas também os jornalistas ignoram... a imprensa livre! 

Wolf Blitzer, jornalista e âncora da rede CNN, ou fingiu ignorância, ou estava desinformado dos fatos, quando entrevistou Hillary Clinton e Alan Gross. [4]

Desmond Butler fez apenas... jornalismo, quando se dedicou a ler atentamente os relatos de viagem do próprio Gross, com a mesma atenção que lhes dedicaram “agentes da USAID [que] recebiam relatórios periódicos dos avanços da missão de Gross, nas palavras do porta-voz da empresa DAI, contratada pela USAID, Steven O’Connor”. [1]

Butler leu, nos relatórios do próprio Gross, que, “para passar pela revista no aeroporto, [Gross] subcontratou a ajuda de outros judeus norte-americanos, para contrabandear equipamento eletrônico, peça a peça, para território cubano. Deu instruções aos seus colaboradores [judeus em viagens de peregrinação religiosa a Cuba] para despachar dentro das malas o equipamento contrabandeado; e nada levar na bagagem de mão”. [1]

No briefing para a imprensa dia 11 de maio, Nuland “rejeita categoricamente as acusações feitas contra [Gross] e o fato de ter sido preso”.

Mas Nuland não leu, tampouco, o que Judy Gross – esposa do agente da USAID – disse em entrevista a uma repórter de televisão: “Nós sabemos que ele [Alan Gross] infringiu a lei cubana”. Ficaram sabendo, pelo menos, quando Gross chegou a Cuba e foi preso.

Judy Gross
Por isso, decidi escrever a Mrs. Gross,

Cara Judy,

Por favor, envie cópia de sua entrevista diretamente à secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton; ao presidente Obama; e aos jornalistas que trabalham nas respectivas assessorias de imprensa de Clinton e Obama. Em seguida, à frente da Casa Branca e do Departamento de Estado, instale um cartaz: “Alan, meu marido, infringiu leis cubanas”. Quem sabe, com sorte, o pessoal por lá entenderá que muita gente já sabe do que a imprensa livre já sabe e já noticiou.”.

Desejo-lhe sorte. Saul.



Notas dos tradutores

[1] 12/2/2012, Associated Press - Desmond Butler, AP IMPACT: USAID contractor work in Cuba detained.

[2]10/5/2012, CNN [vídeo, em inglês], em: CNN's Wolf Blitzer follows the story of jailed U.S. citizen Alan Gross”; ou íntegra na Nota [4]

[3] A história desses cinco agentes cubanos [“espiões”, para a secretária Clinton, e “Los Cinco Heroes” para o resto do mundo, é tema do livro-reportagem Últimos soldados da Guerra Friade Fernando Morais (SP: Companhia das Letras, 2010), em cuja apresentação lê-se:

“No início da década de 1990, Cuba criou a Rede Vespa, um grupo de doze homens e duas mulheres que se infiltrou nos Estados Unidos e cujo objetivo era espionar alguns dos 47 grupos anticastristas sediados na Flórida. O motivo dessa operação temerária era colher informações com o intuito de evitar ataques terroristas ao território cubano. De fato, algumas dessas organizações ditas “humanitárias” se dedicavam a atividades como jogar pragas nas lavouras cubanas, interferir nas transmissões da torre de controle do aeroporto de Havana e, quando Cuba se voltou para o turismo, depois do colapso da União Soviética, sequestrar aviões que transportavam turistas, executar atentados a bomba em seus melhores hotéis e até disparar rajadas de metralhadoras contra navios de passageiros em suas águas territoriais e contra turistas estrangeiros em suas praias.”

[4] Assista a seguir: “Cuban Officials talks about  Alan Gross”


domingo, 11 de julho de 2010

Robert Fisk: A CNN errou tudo sobre o aiatolá Fadlallah

10/7/2010, The Independent, UK - Traduzido pelo Coletivo de tradutores Vila Vudu

Se me consultassem, eu adivinharia. A CNN demitiu um de seus principais editores de Oriente Médio, Octavia Nasr, por ter divulgado pelo Twitter elogio ao Grande Aiatolá Sayyed Mohammed Hussein Fadlallah do Líbano: “é um dos gigantes do Hizbollah que eu respeito muito.”

Bom, não foi homem do Hizbollah, mas isso nada altera. E, sim, foi um gigante, sem dúvida alguma. Foi homem de imenso saber de jurisprudência, defensor dos direitos das mulheres, combatente incansável contra os "crimes de honra", crítico do sistema teocrático de governo do Irã e... OK. OK. Melhor eu parar, antes que me telefone a tal de Parisa Khosravi [1], que atende pelo título de “primeira vice-presidente da CNN” – e sabe-se lá o que fazem essas figuras e o quanto ganham para desnoticiar e des-decidir. – Parisa foi quem anunciou que tivera “uma conversa” com Nasr (que trabalhava na CNN há mais de 20 anos) e que “decidimos que ela deixará a empresa.”

Oh, santo deus! A pobre velha CNN, cada vez mais acovardada, a cada minuto. Por isso, claro, ninguém mais presta atenção às opiniões da CNN. Exatamente o contrário do que se deve dizer sobre Fadlallah.

Os EUA divulgaram que Fadlallah teria abençoado o homem-bomba que explodiu a base naval dos EUA em Beirute em 1983, matando 241 homens e mulheres que lá serviam. Fadlallah negou, várias vezes, em vários encontros que tive com ele, e acredito nele. Homens-bomba, por loucos que nos pareçam, não precisam de bênçãos; morrem convencidos de que cumprem seu dever diretamente frente a Deus, sem precisar de ajuda de marja como Fadlallah. Com deus ou sem deus, há provas de que Washington usou dinheiro dos sauditas para preparar o carro-bomba que deveria ter assassinado Fadlallah em 1985. Fadlallah não morreu. Mas os EUA mataram mais de 80 civis inocentes naquele atentado. Não sei o que a Sra. Khosravi pensaria sobre isso. “Sem comentários”, provavelmente.

Fato é que até a embaixadora britânica no Líbano Frances Guy, escreveu em seu blog pessoal que Fadlallah era homem que ela muito respeitava e com quem gostava muito de conversar no Líbano. É mistério impenetrável para mim, o que leva gente importante a ter blogs pessoais. Mas a embaixadora britânica virou alvo da fúria do ministro de Negócios Exteriores de Israel, cujo porta-voz disse que “seria interessante” saber o que Londres pensa das opiniões de sua embaixadora.

Muito mais interessante seria, acho eu, saber o que pensa Liberman sobre os passaportes britânicos que seu governo roubou e adulterou, para infiltrar um assassino israelense em Dubai, faz pouco tempo.

Tudo isso ajuda a mostrar que Fadlallah – que também foi poeta – continua a perturbar muita gente, mesmo depois de morto.

Quando meu amigo e colega Terry Anderson foi sequestado em Beirute (16/3/1985) – depois de sete anos seqüestrado, chegou a ser o refém que mais tempo permaneceu em mãos dos sequestradores – fui falar com Fadlallah, que Anderson havia entrevistado há pouco tempo. “Ele esteve em minha casa e está sob minha proteção”, disse-me Fadlallah. “Considero-o meu amigo.” Essa frase muito provavelmente salvou a vida de Terry. Por extraordinária coincidência, Terry esteve em visita a Beirute essa semana com um grupo de alunos, mas não sei se a visita que fez aos subúrbios do sul de Beirute lhe valerá alguma medalha.

Naquele tempo, os jornalistas nos referíamos a Fadlallah como “líder espiritual” do Hizbollah, o que não era verdade. Fadlalah apoiou a resistência libanesa durante a invasão israelense em 1982 e era feroz opositor da política dos EUA para a região – exatamente como todo mundo, inclusive os EUA hoje, me parece – e pôs fim às sangrentas cerimônias dos xiitas na Ashura (quando os xiitas se autoflagelam, na data que marca a morte do filho do Profeta).

Voltei a procurar Fadlallah, outra vez pensando em sequestro. Estava com viagem marcada para Bagdá e queria alguma orientação sobre como não ser sequestrado. Ouviu-me com extrema gentileza e recomendou que eu procurasse um amigo seu, também religioso xiita, na capital do Iraque. Foi o que fiz, e fui escoltado a Najaf e Karbala por um aluno do amigo de Fadlallah, que viajava no banco da frente do carro, em trajes religiosos, o tempo inteiro lendo o Corão. “Fiquei muito preocupado com você”, disse-me o amigo de Fadlallah, quando voltei a Bagdá. E o senhor só me diz agora, respondi.

Mas havia outro motivo pelo qual Fadlallah ajudou-me. A cada momento, enquanto estive nas cidades santas do Iraque, tinha de encontrar-me com algum clérigo xiita, todos ex-alunos de Fadlallah. E cada um deles me entregava enorme pilha de escritos e documentos – seus respectivos sermões, ao longo de 10, 15 anos. A todos prometi que entregaria os sermões a Fadlallah. E foi o que fiz, um mês depois, quando um Fisk que não dava um passo sem olhar em volta, com medo de ser seqüestrado, carregava duas malas cheias de papéis pelos subúrbios do Hizbollah, no sul de Beirute. Fadlallah recebeu-me com um vasto sorriso. Sabia o que havia nas malas. Mr. Fisk carregara mais saber jurisprudencial xiita do que jamais saberá avaliar. E Fadlallah sabia sobre o que andavam falando os seus colegas em Najaf e Karbala.

Francamente, nada, no mundo, me interessa menos do que a opinião da vice-presidente Khosravi da CNN sobre essa história – desde que me poupe de uma de suas “conversas”.

Tampouco me interessam a opiniões do ministro de Negócios Exteriores de Israel. Nem me interessa o que pensem embaixadores britânicos, vale lembrar.


Não tenho dúvida alguma de que Fadlallah foi homem sério e muito importante, cujos sermões sobre a necessidade de regeneração espiritual e de mais generosidade fez mais bem que o banho de retórica que sempre afogou o Líbano. Seu funeral foi acompanhado por centenas de milhares de pessoas, em Beirute, na 3ª-feira. Para mim, não foi surpresa.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Robert Fisk: CNN was wrong about Ayatollah Fadlallah

Nota de tradução
[1] Sobre ela, ler em: Parisa Khosravi

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Quem precisa da CNN (ou da FSP)?

O que é e faz o jornalismo-que-há 

8/7/2010, Glenn Greewald, Salon (excertos traduzidos por Caia Fittipaldi)


Todos os códigos “jornalísticos” de discurso sobre o Oriente Médio são dolorosamente enviesados, sempre de um só lado. Chas Freeman foi impedido de assumir cargo para o qual fora nomeado pelo governo Obama – apesar de longa e importante folha de bom serviço público prestado aos EUA –, porque o AIPAC decidiu que um de seus comentários publicados não seria suficientemente enviesado a favor de Israel.

Juan Cole não obteve indicação para uma cátedra em Yale, porque sofreu campanha doentia dos neoconservadores, para os quais seria “anti-Israel”. Norman Finklestein teve idêntico destino, apesar de ter sido indicado por todo o corpo acadêmico para uma cátedra, depois da campanha de demonização que sofreu, liderada por Alan-Dershowitz, por ter publicado livro-denúncia do lobby pró-Israel.

Alguém algum dia ouviu falar de movimento semelhante, que negasse o direito de trabalhar a algum profissional – como acontece agora com a jornalista Nasr da CNN – por ter manifestado ideias antiárabes ou antimuçulmanas? Claro que não.
As proibições e os crimes de pensamento sobre o Oriente Médio seguem todos uma só direção: reforçar a ortodoxia “pró-Israel”. A lista de exemplos é infindável. Não há dúvidas sobre isso.

A demissão de Nasr mostra mais uma vez, absolutamente exposta, a mentira central do jornalismo do establishment norte-americano: que a “objetividade” seria possível, exigida e regra. A verdade é exatamente o contrário disso: opiniões claras e “com lado” são, não apenas admitidas, mas exigidas. Basta que sejam as opiniões “certas”, as oficiais, as pré-aprovadas. Adiante, uma amostra de tudo que se admite no jornalismo dos EUA.

Em editoral, o Washington Post elogiou entusiasticamente o tirano Augusto Pinochet. Não se leram cartas de protesto e ninguém foi demitido. 

O editor-chefe da Associated Press em Washington Ron Fournier foi apanhando trocando e-mails secretos, de apoio e elogios a Karl Rove, e ninguém foi demitido.

Benjamin Netanyahu elogiou e celebrou formalmente o ataque terrorista israelense contra o Hotel King David, que matou 78 civis, e ninguém foi demitido por manifestar-lhe apoio. 

Erick Erickson já começava a cansar de distribuir tweets racistas repugnantes, quando, afinal, foi CONTRATADO como colaborador da CNN. 

E, como escreveu Jonathan Schwarz, sobre a demissão de Nasr:

William Barr é do comitê de direção da Time Warner, do mesmo grupo da CNN. Barr era conselheiro chefe no governo Reagan, que organizou atentado para assassinar Fadlallah. Não conseguiu, mas, no atentado, assassinou mais de 80 civis.
Perfeito é você contar, no comitê editorial, com alguém que tenha participado do massacre de 80 civis no Líbano. E contar também com Blitzer, ex-funcionário do AIPAC, e com sua visão enviesada a favor de Israel, também é perfeitamente consistente com a “credibilidade” de uma rede de notícias.
Mas manifestar tristeza pela morte de um clérigo islâmico amado e reverenciado em praticamente todo o mundo muçulmano, não, isso não. Seja qual for a força que age nesse processo, nada tem a ver com “objetividade”.
Tudo seria mais tolerável se a CNN simplesmente admitisse que permite que seus empregados manifestem algumas opiniões (sempre de acordo com as políticas oficiais de Washington e com a ortodoxia pró-Israel) e proíbe que manifestem outras opiniões (todas as que desagradam à neodireita conservadora). Mas, não. Em vez disso, somos obrigados a ouvir discursos sobre uma falsa autoproclamada objetividade da opinião jornalística.
A verdade é que o discurso pró-Israel não é considerado discurso de opinião: é considerado fato; é considerado discurso objetivo. Por isso é que jamais haverá manifestação de viés pró-Israel que seja considerado suficientemente distorcida e alheia à realidade a ponto de gerar punição como a que Nasr sofreu (e muitos outros, antes dela). 
Por outro lado, ao mesmo tempo em que grande parte do planeta vê o Hezbollah como importante agente da defesa do Líbano contra os ataques israelenses, o governo dos EUA declarou-o “organização terrorista”. Assim sendo, a mídia “independente” dos EUA faz exatamente o que existe para fazer: obedientemente demite qualquer empregado que manifeste qualquer simpatia por defunto pranteado pelo Hezbollah. 
É verdade que parte do mundo considera terroristas algumas das ações do Hezbollah. Outra parte do mundo considera terroristas algumas das ações de Israel. CNN repete os que considerem o Hezbollah organização terrorista. E censura os que considerem Israel Estado terrorista. Assim, os veículos da imprensa dos EUA esterilizam a opinião pública e sufocam o discurso político nos EUA”.
 
A íntegra do artigo original, em inglês, pode ser lido em: Octavia Nasr's firing and what The Liberal Media allows