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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Grécia – Yanis Varoufakis: “Não sou mais ministro”



6/7/2015, [*] Yanis Varoufakis, Blog Yanis Varoufakis
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Yanis Varoufakis

O referendum de 5 de julho de 2015 ficará na história como momento raro, quando uma pequena nação europeia levantou-se contra a servidão da dívida.
Como todas as lutas por direitos democráticos, também essa rejeição histórica ao ultimatum que o Eurogrupo nos fez dia 25 de junho de 2015 arrasta com ela uma etiqueta de alto preço. É pois essencial que o grande capital político que foi outorgado ao nosso governo pela esplêndida votação que o NÃO recebeu seja imediatamente investido num SIM às correspondentes coragem e decisão – para um acordo que envolva reestruturação da dívida, menos austeridade, redistribuição a favor dos mais necessitados e reformas reais.
Imediatamente depois do anúncio dos resultados do referendum, fui informado de uma preferência, de alguns participantes do Eurogrupo e de variados ‘'parceiros'’, que apreciariam minha... ‘'ausência'’ de futuras reuniões; ideia que o Primeiro-Ministro considerou potencialmente útil para que ele alcance algum acordo. Por essa razão, estou deixando o Ministério das Finanças hoje (6/7/2015).
Considero meu dever ajudar Alexis Tsipras a explorar, como melhor lhe pareça, o capital que o povo grego nos assegurou, mediante o referendum de ontem.
E a ira dos credores é trunfo que ostento com orgulho.
Nós da Esquerda sabemos como atuar coletivamente, sem interesse pelos privilégios do poder. Apoiarei firme e integralmente o Primeiro-Ministro Tsipras, o novo Ministro das Finanças e o nosso governo.
O esforço sobre-humano para honrar o bravo povo da Grécia e o famoso OXI (NÃO) que os gregos avalizaram para todos os democratas em todo o mundo, está só começando.
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[*] Yanis Varoufakis (em grego Γιάνης Βαρουφάκης) (nasceu em Atenas em 24/3/1061), é economista, blogueiro e político grego membro do partido SYRIZA. É o atual ministro das Finanças do Governo Tsipras desde 26/1/2015. Varoufákis é um acérrimo opositor do ARROCHO.
Depois de diplomas em matemática e estatística, Varoufákis fez seu doutorado em 1987 na Universidade de Essex (Reino Unido) em Economia. Em 1988, ele passou um ano como professor assistente na Universidade de Cambridge. Foi professor de Economia na Universidade de Sydney (Austrália) entre 1988 e 2000. Em seguida foi nomeado para a Universidade de Atenas. Em 2013 ele também ensinou na Universidade do Texas, em Austin.
Em 2010 fundou, com a artista e esposa, Danae Stratou, a organização sem fins lucrativos Vital Space.
A partir de 2012, trabalhou para a Valve Corporation, inicialmente como economista da empresa, em seguida, como consultor. Tem um blog com os resultados de suas pesquisas.
Desde a crise global do US$ e do €, que começou em 2008, Varoufákis tem sido um participante ativo nos debates ocasionados por esses eventos. Juntamente com Stuart Holland e James K. Galbraith, ele é o autor do livro: Uma proposta modesta para resolver a crise do euro.
No seu livro Europe and the Minotaur – Greece and the Future of the Global Economy, publicado em janeiro de 2015, Varoufakis defende a europeização de um sistema de redistribuição entre os estados europeus, apelando à justiça e igualdade entre os membros da União Europeia.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Hagel demitido sugere mais e mais guerra

25/11/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Susan Rice
(por Rob Bates)
Ontem, a Conselheira de Segurança Nacional dos EUA Susan Rice demitiu o Secretário de Defesa, Chuck Hagel. Foi erro terrível, do presidente Obama, ter concordado com a jogada. Há muitos problemas na política externa, que a Casa Branca criou. Nenhum deles foi criado por culpa de Hagel, e praticamente todos eles podem ser rastreados até a própria Susan Rice e seu estilo surreal de administrar:

No início deste ano, a decisão sobre quantos soldados norte-americanos permaneceriam no Afeganistão em 2015 foi objeto de 14 reuniões de membros do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, quatro reuniões de secretários do gabinete e outros “figurões” do CSN, e duas sessões do CSN com o presidente, como informou um ex-alto funcionário da administração.

Consequência dessas reuniões foi que o número de soldados a permanecer no Afeganistão caiu de 10.500 para 9.800: 700 soldados a menos.

Ilustração distribuída pelo Daily Mail (UK)
Depois que Obama e Rice, contra todas as promessas feitas, prorrogaram secretamente o combate dos EUA no Afeganistão, o número de soldados a ficar lá, decidido depois de 20 reuniões do CSN, já está outra vez em discussão, e deve aumentar. Esse processo de decisão mostra o sistema ensandecido de governar de Susan Rice – não de Hagel.

Rice exigiu que Hagel fosse demitido, porque ela enlouqueceu quando Hagel recomendou que os EUA deixassem de lado, para sempre, a (não)política perfeitamente enlouquecida que Rice desenvolvera contra o Estado Islâmico e para a Síria. Homem realista, Hagel sabe que os EUA precisarão do exército sírio, comandado pelo presidente Assad, para devolver o Estado Islâmico ao fundo dos infernos. Contra todos os conselhos dos militares, Rice, que é “intervencionista democrática” insiste em [continuar a esfalfar-se, tentando] derrubar Assad.

Michèle Flournoy
Os neoconservadores, inclusive os redatores das páginas de piadas que Fred Hiatt edita no Washington Post, querem ver Michèle Flournoy no lugar de Hagel. Ela é ativa propagandista das Operações de Contra-insurgência [COIN], sempre em campanha a favor das duas”‘avançadas’, no Iraque e no Afeganistão. As duas avançadas e toda a COIN fracassaram e não chegaram nem perto dos resultados que Flournoy e outros tanto prometeram.

O ato de nomear Flournoy, que só acrescentará mais incompetência e sandice à política externa dos EUA, não favorecerá a paz no mundo: só favorecerá guerra e mais guerra.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como  “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

quinta-feira, 15 de março de 2012

(1) Carta de despedida um sócio “ético” de Goldman Sachs; e (2) comentário, na lata, de um leitor escolado


(1) Por que estou deixando Goldman Sachs

13/3/2012, Greg Smith, New York Times
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Goldman Sachs/Greg Smith
Hoje é meu último dia no Banco Goldman Sachs. Depois de quase 12 anos de firma – primeiro como estagiário, enquanto estudava em Stanford, depois em New York por dez anos, e agora em Londres – creio que trabalhei por tempo suficiente para entender a trajetória da cultura, o pessoal e a identidade do banco. E posso honestamente dizer que o ambiente é agora tão tóxico e destrutivo como sempre o vi.

Pondo o problema em termos simples, o interesse do cliente continua a ser deixado de lado, pelo modo como a firma opera e pensa sobre fazer dinheiro. Goldman Sachs é dos maiores e mais importantes bancos de investimentos do mundo, e é por demais integrado à finança global, para continuar a agir desse modo. A empresa afastou-se tanto do ponto em que estava quando entrei, logo ao sair da universidade, que já não posso dizer, em boa consciência, que me identifico com o que ela defende hoje.

Essa carta talvez surpreenda o público mais cético, mas a cultura sempre foi parte vital do sucesso de Goldman Sachs. Tinha a ver com trabalho de equipe, integridade, um espírito de humildade, e sempre fazer o melhor para nossos clientes. A cultura foi o tempero secreto que fez a grandeza dessa empresa e valeu-nos a confiança de nossos clientes por 143 anos. Não se tratava só de fazer dinheiro; essa ambição, por ela mesma, não teria mantido empresa alguma por tanto tempo. Tinha algo a ver com orgulho e fé na organização. É triste ter de dizer que olho à volta hoje e não vejo praticamente traço algum da cultura que me fez amar trabalhar aqui, por tantos anos. Já não me orgulho, nem acredito.

Mas nem sempre foi assim. Por mais de uma década, recrutei e orientei candidatos através de nosso difícil processo de seleção e entrevistas. Fui selecionado, entre dez colegas (de uma empresa de mais de 30 mil empregados) para aparecer em nosso vídeo de recrutamento, que é exibido em todos os campus universitários que visitamos, em todo o mundo. Em 2006, gerenciei o programa de verão para estagiários em vendas e comércio em New York para os 80 universitários que foram selecionados, dentre os milhares que se candidataram.

Entendi que era hora de sair, quando me dei conta de que já não conseguia olhar nos olhos dos estudantes e falar-lhe sobre a grande empresa em que trabalhávamos.

Quando se escrever a história de Goldman Sachs, os livros talvez registrem que o atual presidente executivo Lloyd C. Blankfein e o presidente Gary D. Cohn perderam o controle sobre a cultura da firma no período sob o comando deles. Creio firmemente que esse declínio na fibra moral da empresa é a mais grave ameaça que pesa hoje sobre sua sobrevivência de longo prazo.

Ao longo da minha carreira, tive o privilégio de servir como consultor de dois dos maiores fundos hedge do planeta, de cinco dos maiores gerentes de patrimônio dos EUA e de três dos principais fundos soberanos no Oriente Médio e na Ásia. Meus clientes tinham patrimônio total de mais de um trilhão de dólares. Sempre senti muito orgulho de aconselhar meus clientes a fazer o que eu acreditava que fosse o correto para eles, inclusive quando significasse menos dinheiro para o banco. Essa atitude é cada dia menos popular no Banco Goldman Sachs. Mais um sinal de que é hora de partir.

Como chegamos ao ponto em que estamos? A empresa mudou o modo como vê a liderança. Antes, liderança era questão de ideias, de dar o exemplo, de fazer a coisa certa. Hoje, se você fizer muito dinheiro para o banco (e conseguir não ser condenado como assassino serial) você será promovido e terá posto influente.

Qual o caminho mais rápido até lá? a) “Malhar” muito, que é a palavra que o Banco Goldman usa para o trabalho de convencer o cliente a investir nas ações e outros produtos dos quais o banco esteja querendo livrar-se porque são vistos como sem potencial de lucros. b) “Matar o Elefante”. Em inglês: conseguir empurrar para o cliente – alguns muito sofisticados, outros não – qualquer coisa cuja venda gere o maior lucro para o Goldman. Chamem-me de antiquado, mas não gosto de vender aos meus clientes produtos que não sejam os mais indicados para cada um. c) Faça de sua sala um lugar onde a principal atividade seja vender qualquer papel sem liquidez, o mais opaco possível, conhecido só por uma sigla obscura.

Hoje, muitos desses líderes exibem uma cultura Goldman Sachs de exatos 0%. Participei de reuniões de vendas de derivativos em que não se consumia nem meio minuto com perguntas sobre como ajudar o cliente. Só se discutiam modos como arrancar deles a maior quantidade possível de dinheiro. Se um marciano aparecesse numa daquelas reuniões, logo concluiria que o sucesso do cliente absolutamente não era problema de nenhum dos presentes, nem interessava ao processo.

Eu fico doente de ver o à vontade com que aquelas pessoas falam sobre “descascar o cliente”. Nos últimos 12 meses, vi cinco diferentes diretores referirem-se aos próprios clientes como “os Muppets”, algumas vezes em e-mails internos. Mesmo depois da US Security and Exchange Comission, do Fabulous FAB  [1], Abacus [2], “God’s work” [3], Carl Levin [4], “Vampire Squids” [5]? Nenhuma humildade? Quer dizer... Vamos e venhamos! Integridade? Acabou. Não sei de nenhum comportamento ilegal, mas continuarão a empurrar aos clientes, mentindo que são “lucro certo”, investimentos complexos, mesmo quando nada têm a ver com os objetivos e interesses do cliente? Sim, sem dúvida alguma. De fato, é o que fazem todos os dias.

Surpreende-me sempre que a alta gerência ignore uma verdade tão básica: se os clientes não confiam em você, mais dia menos dia eles partirão. E não importa o quanto você se ache espertíssimo.

Atualmente, a pergunta que mais ouço dos analistas juniores sobre derivativos é “Quanto dinheiro se pode arrancar do cliente?” É pergunta que me incomoda sempre que a ouço, porque é reflexo evidente do que veem nos superiores e do modo como os veem atuar. Projetem então um futuro de dez anos: ninguém precisa ser engenheiro de foguetes para prever que o analista júnior, sentado e ouvindo atentamente aqueles discursos sobre “muppets”, “arrancar os olhos dele” e “ver o lucro” não será cidadão modelo.

Quando eu trabalhava como analista iniciante, não sabia onde ficava o banheiro e nunca usara sapatos sociais. Aprendi ali a amarrar sapatos; aprendi o que é um derivativo, a entender de finanças, conheci nossos clientes e o que os motivava, como entendiam o sucesso e o que podíamos fazer para ajudá-los a chegar lá.

Os momentos dos quais mais me orgulho na vida – conquistar bolsa integral da África do Sul para estudar na Stanford University, ser selecionado como finalista nacional e ganhar medalha de bronze nas Macabíadas em Israel, em tênis de mesa – foram vitórias ganhas com muito esforço, sem atalhos. Goldman Sachs hoje só tem a oferecer lições sobre atalhos, nada sobre realização pessoal. Já nada ali me parece certo.

Espero que essa carta sirva como sinal de alerta aos diretores. É preciso voltar a concentrar-se no cliente. Sem clientes, nenhum banco faz dinheiro. De fato, vocês nem existem, sem clientes. Varram daí a turma da bancarrota moral, e não importa quanto dinheiro façam para o Banco. E voltem à cultura certa, para que as pessoas que trabalhem para vocês trabalhem pelas razões certas. Gente que só pensa em fazer dinheiro não manterá de pé esse banco – nem manterá a confiança dos clientes – por mais muito tempo.

(2) Comentário, na lata, de um leitor escolado:

TH, MN

Não me parece que alguma coisa tenha mudado muito no Goldman Sachs nos últimos 12 anos. Greg Smith deve ter começado a trabalhar lá logo depois do colapso da bolha da internet, do qual GS foi agente ativo, inflando empresas que não tinham nenhum verdadeiro projeto de negócios. Daí, se mudaram imediatamente para a bolha das hipotecas podres e produtos (podres) derivados. Portanto, a única coisa que pode ter mudado nos últimos 12 anos não foi a cultura do Goldman Sachs: foram os olhos do próprio Greg Smith.

A única coisa que realmente mudou no Goldman Sachs foi que, em 1999, passou a ter ações na bolsa, pouco antes da chegada de Greg Smith. De repente, os riscos passaram, dos ombros dos proprietários privados para os ombros dos acionistas, o único objetivo passou a ser a distribuição de dividendos trimestrais, e a administração foi liberada para fazer o que lhes desse na telha, porque as consequências não recaíam sobre eles. Criou-se assim um espaço gigantesco para ganhar dinheiro pelas frestas, o risco moral. E nada se fez, até hoje, para controlar isso.

(14/3/2012. 169 leitores recomendaram esse comentário)



Notas dos tradutores

[1] Sobre esse escândalo que envolveu um corretor do GS e seus e-mails financeiros-sexuais assinados por “Fabulous Fab”, ver 26/4/2010, “Goldman's “Fabulous” Fab's conflicted love letters”.
[2] Outro escândalo de “hipotecas tóxicas”, envolvendo o mesmo corretor de GS. Ver 16/4/2010, “Goldman Sachs, Fabrice Tourre and the complex Abacus of toxic mortgages

[3] Lloyd Blankfein, CEO de Goldman Sachs, em depoimento à Comissão de Inquérito sobre a Crise Financeira, dia 13/1/2010, disse que GS fazia “trabalho de Deus”. Assista a seguir:



[4]
Senador Democrata, presidente da Subcomissão Permanente de Investigações do Senado, que insistiu para que os executivos de GS fossem acusados e julgados. Sobre isso, ver 14/4/2011, “Sen. Carl Levin Wants Goldman Sachs Execs Prosecuted After His Sweeping Investigation Is Concluded

[5] “Polvos vampiros sugadores”. É expressão que apareceu em artigo de Matt Taibbi, na revista Rolling Stone. Ver 13/12/2001, imagens em: The 'Squidding' of Goldman, Sachs

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Quem precisa da CNN (ou da FSP)?

O que é e faz o jornalismo-que-há 

8/7/2010, Glenn Greewald, Salon (excertos traduzidos por Caia Fittipaldi)


Todos os códigos “jornalísticos” de discurso sobre o Oriente Médio são dolorosamente enviesados, sempre de um só lado. Chas Freeman foi impedido de assumir cargo para o qual fora nomeado pelo governo Obama – apesar de longa e importante folha de bom serviço público prestado aos EUA –, porque o AIPAC decidiu que um de seus comentários publicados não seria suficientemente enviesado a favor de Israel.

Juan Cole não obteve indicação para uma cátedra em Yale, porque sofreu campanha doentia dos neoconservadores, para os quais seria “anti-Israel”. Norman Finklestein teve idêntico destino, apesar de ter sido indicado por todo o corpo acadêmico para uma cátedra, depois da campanha de demonização que sofreu, liderada por Alan-Dershowitz, por ter publicado livro-denúncia do lobby pró-Israel.

Alguém algum dia ouviu falar de movimento semelhante, que negasse o direito de trabalhar a algum profissional – como acontece agora com a jornalista Nasr da CNN – por ter manifestado ideias antiárabes ou antimuçulmanas? Claro que não.
As proibições e os crimes de pensamento sobre o Oriente Médio seguem todos uma só direção: reforçar a ortodoxia “pró-Israel”. A lista de exemplos é infindável. Não há dúvidas sobre isso.

A demissão de Nasr mostra mais uma vez, absolutamente exposta, a mentira central do jornalismo do establishment norte-americano: que a “objetividade” seria possível, exigida e regra. A verdade é exatamente o contrário disso: opiniões claras e “com lado” são, não apenas admitidas, mas exigidas. Basta que sejam as opiniões “certas”, as oficiais, as pré-aprovadas. Adiante, uma amostra de tudo que se admite no jornalismo dos EUA.

Em editoral, o Washington Post elogiou entusiasticamente o tirano Augusto Pinochet. Não se leram cartas de protesto e ninguém foi demitido. 

O editor-chefe da Associated Press em Washington Ron Fournier foi apanhando trocando e-mails secretos, de apoio e elogios a Karl Rove, e ninguém foi demitido.

Benjamin Netanyahu elogiou e celebrou formalmente o ataque terrorista israelense contra o Hotel King David, que matou 78 civis, e ninguém foi demitido por manifestar-lhe apoio. 

Erick Erickson já começava a cansar de distribuir tweets racistas repugnantes, quando, afinal, foi CONTRATADO como colaborador da CNN. 

E, como escreveu Jonathan Schwarz, sobre a demissão de Nasr:

William Barr é do comitê de direção da Time Warner, do mesmo grupo da CNN. Barr era conselheiro chefe no governo Reagan, que organizou atentado para assassinar Fadlallah. Não conseguiu, mas, no atentado, assassinou mais de 80 civis.
Perfeito é você contar, no comitê editorial, com alguém que tenha participado do massacre de 80 civis no Líbano. E contar também com Blitzer, ex-funcionário do AIPAC, e com sua visão enviesada a favor de Israel, também é perfeitamente consistente com a “credibilidade” de uma rede de notícias.
Mas manifestar tristeza pela morte de um clérigo islâmico amado e reverenciado em praticamente todo o mundo muçulmano, não, isso não. Seja qual for a força que age nesse processo, nada tem a ver com “objetividade”.
Tudo seria mais tolerável se a CNN simplesmente admitisse que permite que seus empregados manifestem algumas opiniões (sempre de acordo com as políticas oficiais de Washington e com a ortodoxia pró-Israel) e proíbe que manifestem outras opiniões (todas as que desagradam à neodireita conservadora). Mas, não. Em vez disso, somos obrigados a ouvir discursos sobre uma falsa autoproclamada objetividade da opinião jornalística.
A verdade é que o discurso pró-Israel não é considerado discurso de opinião: é considerado fato; é considerado discurso objetivo. Por isso é que jamais haverá manifestação de viés pró-Israel que seja considerado suficientemente distorcida e alheia à realidade a ponto de gerar punição como a que Nasr sofreu (e muitos outros, antes dela). 
Por outro lado, ao mesmo tempo em que grande parte do planeta vê o Hezbollah como importante agente da defesa do Líbano contra os ataques israelenses, o governo dos EUA declarou-o “organização terrorista”. Assim sendo, a mídia “independente” dos EUA faz exatamente o que existe para fazer: obedientemente demite qualquer empregado que manifeste qualquer simpatia por defunto pranteado pelo Hezbollah. 
É verdade que parte do mundo considera terroristas algumas das ações do Hezbollah. Outra parte do mundo considera terroristas algumas das ações de Israel. CNN repete os que considerem o Hezbollah organização terrorista. E censura os que considerem Israel Estado terrorista. Assim, os veículos da imprensa dos EUA esterilizam a opinião pública e sufocam o discurso político nos EUA”.
 
A íntegra do artigo original, em inglês, pode ser lido em: Octavia Nasr's firing and what The Liberal Media allows

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O affair McChrystal, general desembestado

23/6/2010, Norman Solomon, Huffington Post - Traduzido por Caia Fittipaldi

Troca-se o motorista, com o carro está derrapando. Trocam-se os generais, Petraeus assume o comando geral no Afeganistão; e o esforço de guerra dos EUA prossegue, só carnificina e futilidade.

Nas entrelinhas, tudo já estava escrito. Horas antes de o general Stanley McChrystal apresentar-se ao presidente Obama na 4ª-feira, o New York Times noticiava que “a fuzilaria está sendo alimentada por dúvidas crescentes – também entre os militares –, sobre se é possível vencer no Afeganistão, ao mesmo tempo em que encolhe o apoio da população àquela guerra de nove anos; e cresce como nunca o número de mortos norte-americanos.”

Pouca diferença faz agora, para McChrystal, que os jornais tanto tenham falado dos seus hábitos pessoais espartanos (praticamente nem come nem dorme), da energia física (corre freneticamente) e dos sucessos acadêmicos (lê História) e militares. Não há indivíduo insubstituível.

McChrystal é estrela cadente há muito tempo. Alguns dias antes de a matéria de Rolling Stone acelerar a queda repentina dos píncaros da glória de fazedor de guerras, Joe Klein, com a sabedoria convencional do Time Magazine, já não usava meias palavras, ao avaliar os resultados obtidos por McChrystal: “Seis meses depois de Barack Obama ter anunciado sua nova estratégia para o Afeganistão em discurso em West Point, a estratégia continua em sinuca [ing. stymied].”

Essas expressões, “em sinuca” e “num beco sem saída” [ing. stalemate], têm sido frequentemente usadas em referência à guerra do Afeganistão. O que de modo algum significa que os militares norte-americanos considerem a retirada.

Walter Cronkite usou a expressão “beco sem saída” em famoso comentário, aos telespectadores da rede CBS, em fevereiro de 1968, pela rede CBS, quando disse que já era impossível, para os EUA, vencer a guerra do Vietnã. “Temos nos frustrado já vezes demais pelo otimismo dos líderes norte-americanos, no Vietnã e em Washington, para continuar acreditando nos tons prateados que eles veem até nas nuvens mais escuras” – disse Cronkite. E continuou: “Já parece impossível não ver que a sangrenta experiência do Vietnã acabará num beco sem saída.”

Vendo ou não vendo o beco sem saída, a guerra dos EUA no Vietnã prosseguiu por outros cinco anos depois daquele comentário, gerando horrores e mais horrores indizíveis em escala vastíssima.

Como milhares de outros ativistas norte-americanos, tenho alertado para a escalada da guerra do Afeganistão já há muito tempo. Cresceu a oposição à guerra, mas a situação hoje não é muito diferente da que descrevi em artigo de 9/12/2008: “Há, implícita na panaceia receitada pelos especialistas em política externa nos EUA, uma fé monolítica na massiva capacidade do Pentágono para produzir violência e infligir sofrimento. E o eco responde: a guerra do Afeganistão bem vale o preço que outros pagarão.”

Os eventos mais recentes refletem as regras não escritas que regem os comandos militares: tudo bem, se você quiser aprofundar uma matança horrenda. Mas nem pense em falar mal do comandante-em-chefe!

Fato é que os aspectos mais profundos do artigo “The Runaway General” [O general desembestado] da revista Rolling Stone pouco têm a ver com o general. O ponto de partida é – ou deveria ser – que a guerra dos EUA no Afeganistão é desastre sem solução; por mais que sejam insaciáveis os argumentos dos militares que aumentam, dia a dia, o desastre. “Em vez de iniciarem a retirada ano que vem, como Obama prometeu, os militares insistem em levar adiante aquela campanha de contraguerrilha, e cada vez maior” – lê-se em Rolling Stone. E “a contraguerrilha só conseguiu criar demanda perpétua pelo único produto primário que os militares sempre têm para vender: guerra perpétua.”

Há um tom lamentoso e sombriamente patético nas últimas palavras do editorial do New York Times que chegou aos lares e gabinetes poucas horas antes de o general enfrentar o comandante-em-chefe: “Seja o que for que decida fazer com o General McChrystal, é indispensável que o presidente Obama assuma imediatamente o controle de sua política para o Afeganistão.”

Como inúmeros outros veículos de mídia em todo o país, o conselho editorial do Times continua agarrado ao sonho da guerra antiguerrilhas universal comandada pelos EUA. (...)

Houve furiosa discussão sobre a demissão de um general desembestado terminal. Mas falta ainda, desesperadamente, por fim àquela guerra desembestada.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: From Great Man to Great Screwup: Behind the McChrystal Uproar