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domingo, 11 de julho de 2010

Robert Fisk: A CNN errou tudo sobre o aiatolá Fadlallah

10/7/2010, The Independent, UK - Traduzido pelo Coletivo de tradutores Vila Vudu

Se me consultassem, eu adivinharia. A CNN demitiu um de seus principais editores de Oriente Médio, Octavia Nasr, por ter divulgado pelo Twitter elogio ao Grande Aiatolá Sayyed Mohammed Hussein Fadlallah do Líbano: “é um dos gigantes do Hizbollah que eu respeito muito.”

Bom, não foi homem do Hizbollah, mas isso nada altera. E, sim, foi um gigante, sem dúvida alguma. Foi homem de imenso saber de jurisprudência, defensor dos direitos das mulheres, combatente incansável contra os "crimes de honra", crítico do sistema teocrático de governo do Irã e... OK. OK. Melhor eu parar, antes que me telefone a tal de Parisa Khosravi [1], que atende pelo título de “primeira vice-presidente da CNN” – e sabe-se lá o que fazem essas figuras e o quanto ganham para desnoticiar e des-decidir. – Parisa foi quem anunciou que tivera “uma conversa” com Nasr (que trabalhava na CNN há mais de 20 anos) e que “decidimos que ela deixará a empresa.”

Oh, santo deus! A pobre velha CNN, cada vez mais acovardada, a cada minuto. Por isso, claro, ninguém mais presta atenção às opiniões da CNN. Exatamente o contrário do que se deve dizer sobre Fadlallah.

Os EUA divulgaram que Fadlallah teria abençoado o homem-bomba que explodiu a base naval dos EUA em Beirute em 1983, matando 241 homens e mulheres que lá serviam. Fadlallah negou, várias vezes, em vários encontros que tive com ele, e acredito nele. Homens-bomba, por loucos que nos pareçam, não precisam de bênçãos; morrem convencidos de que cumprem seu dever diretamente frente a Deus, sem precisar de ajuda de marja como Fadlallah. Com deus ou sem deus, há provas de que Washington usou dinheiro dos sauditas para preparar o carro-bomba que deveria ter assassinado Fadlallah em 1985. Fadlallah não morreu. Mas os EUA mataram mais de 80 civis inocentes naquele atentado. Não sei o que a Sra. Khosravi pensaria sobre isso. “Sem comentários”, provavelmente.

Fato é que até a embaixadora britânica no Líbano Frances Guy, escreveu em seu blog pessoal que Fadlallah era homem que ela muito respeitava e com quem gostava muito de conversar no Líbano. É mistério impenetrável para mim, o que leva gente importante a ter blogs pessoais. Mas a embaixadora britânica virou alvo da fúria do ministro de Negócios Exteriores de Israel, cujo porta-voz disse que “seria interessante” saber o que Londres pensa das opiniões de sua embaixadora.

Muito mais interessante seria, acho eu, saber o que pensa Liberman sobre os passaportes britânicos que seu governo roubou e adulterou, para infiltrar um assassino israelense em Dubai, faz pouco tempo.

Tudo isso ajuda a mostrar que Fadlallah – que também foi poeta – continua a perturbar muita gente, mesmo depois de morto.

Quando meu amigo e colega Terry Anderson foi sequestado em Beirute (16/3/1985) – depois de sete anos seqüestrado, chegou a ser o refém que mais tempo permaneceu em mãos dos sequestradores – fui falar com Fadlallah, que Anderson havia entrevistado há pouco tempo. “Ele esteve em minha casa e está sob minha proteção”, disse-me Fadlallah. “Considero-o meu amigo.” Essa frase muito provavelmente salvou a vida de Terry. Por extraordinária coincidência, Terry esteve em visita a Beirute essa semana com um grupo de alunos, mas não sei se a visita que fez aos subúrbios do sul de Beirute lhe valerá alguma medalha.

Naquele tempo, os jornalistas nos referíamos a Fadlallah como “líder espiritual” do Hizbollah, o que não era verdade. Fadlalah apoiou a resistência libanesa durante a invasão israelense em 1982 e era feroz opositor da política dos EUA para a região – exatamente como todo mundo, inclusive os EUA hoje, me parece – e pôs fim às sangrentas cerimônias dos xiitas na Ashura (quando os xiitas se autoflagelam, na data que marca a morte do filho do Profeta).

Voltei a procurar Fadlallah, outra vez pensando em sequestro. Estava com viagem marcada para Bagdá e queria alguma orientação sobre como não ser sequestrado. Ouviu-me com extrema gentileza e recomendou que eu procurasse um amigo seu, também religioso xiita, na capital do Iraque. Foi o que fiz, e fui escoltado a Najaf e Karbala por um aluno do amigo de Fadlallah, que viajava no banco da frente do carro, em trajes religiosos, o tempo inteiro lendo o Corão. “Fiquei muito preocupado com você”, disse-me o amigo de Fadlallah, quando voltei a Bagdá. E o senhor só me diz agora, respondi.

Mas havia outro motivo pelo qual Fadlallah ajudou-me. A cada momento, enquanto estive nas cidades santas do Iraque, tinha de encontrar-me com algum clérigo xiita, todos ex-alunos de Fadlallah. E cada um deles me entregava enorme pilha de escritos e documentos – seus respectivos sermões, ao longo de 10, 15 anos. A todos prometi que entregaria os sermões a Fadlallah. E foi o que fiz, um mês depois, quando um Fisk que não dava um passo sem olhar em volta, com medo de ser seqüestrado, carregava duas malas cheias de papéis pelos subúrbios do Hizbollah, no sul de Beirute. Fadlallah recebeu-me com um vasto sorriso. Sabia o que havia nas malas. Mr. Fisk carregara mais saber jurisprudencial xiita do que jamais saberá avaliar. E Fadlallah sabia sobre o que andavam falando os seus colegas em Najaf e Karbala.

Francamente, nada, no mundo, me interessa menos do que a opinião da vice-presidente Khosravi da CNN sobre essa história – desde que me poupe de uma de suas “conversas”.

Tampouco me interessam a opiniões do ministro de Negócios Exteriores de Israel. Nem me interessa o que pensem embaixadores britânicos, vale lembrar.


Não tenho dúvida alguma de que Fadlallah foi homem sério e muito importante, cujos sermões sobre a necessidade de regeneração espiritual e de mais generosidade fez mais bem que o banho de retórica que sempre afogou o Líbano. Seu funeral foi acompanhado por centenas de milhares de pessoas, em Beirute, na 3ª-feira. Para mim, não foi surpresa.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Robert Fisk: CNN was wrong about Ayatollah Fadlallah

Nota de tradução
[1] Sobre ela, ler em: Parisa Khosravi

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Quem precisa da CNN (ou da FSP)?

O que é e faz o jornalismo-que-há 

8/7/2010, Glenn Greewald, Salon (excertos traduzidos por Caia Fittipaldi)


Todos os códigos “jornalísticos” de discurso sobre o Oriente Médio são dolorosamente enviesados, sempre de um só lado. Chas Freeman foi impedido de assumir cargo para o qual fora nomeado pelo governo Obama – apesar de longa e importante folha de bom serviço público prestado aos EUA –, porque o AIPAC decidiu que um de seus comentários publicados não seria suficientemente enviesado a favor de Israel.

Juan Cole não obteve indicação para uma cátedra em Yale, porque sofreu campanha doentia dos neoconservadores, para os quais seria “anti-Israel”. Norman Finklestein teve idêntico destino, apesar de ter sido indicado por todo o corpo acadêmico para uma cátedra, depois da campanha de demonização que sofreu, liderada por Alan-Dershowitz, por ter publicado livro-denúncia do lobby pró-Israel.

Alguém algum dia ouviu falar de movimento semelhante, que negasse o direito de trabalhar a algum profissional – como acontece agora com a jornalista Nasr da CNN – por ter manifestado ideias antiárabes ou antimuçulmanas? Claro que não.
As proibições e os crimes de pensamento sobre o Oriente Médio seguem todos uma só direção: reforçar a ortodoxia “pró-Israel”. A lista de exemplos é infindável. Não há dúvidas sobre isso.

A demissão de Nasr mostra mais uma vez, absolutamente exposta, a mentira central do jornalismo do establishment norte-americano: que a “objetividade” seria possível, exigida e regra. A verdade é exatamente o contrário disso: opiniões claras e “com lado” são, não apenas admitidas, mas exigidas. Basta que sejam as opiniões “certas”, as oficiais, as pré-aprovadas. Adiante, uma amostra de tudo que se admite no jornalismo dos EUA.

Em editoral, o Washington Post elogiou entusiasticamente o tirano Augusto Pinochet. Não se leram cartas de protesto e ninguém foi demitido. 

O editor-chefe da Associated Press em Washington Ron Fournier foi apanhando trocando e-mails secretos, de apoio e elogios a Karl Rove, e ninguém foi demitido.

Benjamin Netanyahu elogiou e celebrou formalmente o ataque terrorista israelense contra o Hotel King David, que matou 78 civis, e ninguém foi demitido por manifestar-lhe apoio. 

Erick Erickson já começava a cansar de distribuir tweets racistas repugnantes, quando, afinal, foi CONTRATADO como colaborador da CNN. 

E, como escreveu Jonathan Schwarz, sobre a demissão de Nasr:

William Barr é do comitê de direção da Time Warner, do mesmo grupo da CNN. Barr era conselheiro chefe no governo Reagan, que organizou atentado para assassinar Fadlallah. Não conseguiu, mas, no atentado, assassinou mais de 80 civis.
Perfeito é você contar, no comitê editorial, com alguém que tenha participado do massacre de 80 civis no Líbano. E contar também com Blitzer, ex-funcionário do AIPAC, e com sua visão enviesada a favor de Israel, também é perfeitamente consistente com a “credibilidade” de uma rede de notícias.
Mas manifestar tristeza pela morte de um clérigo islâmico amado e reverenciado em praticamente todo o mundo muçulmano, não, isso não. Seja qual for a força que age nesse processo, nada tem a ver com “objetividade”.
Tudo seria mais tolerável se a CNN simplesmente admitisse que permite que seus empregados manifestem algumas opiniões (sempre de acordo com as políticas oficiais de Washington e com a ortodoxia pró-Israel) e proíbe que manifestem outras opiniões (todas as que desagradam à neodireita conservadora). Mas, não. Em vez disso, somos obrigados a ouvir discursos sobre uma falsa autoproclamada objetividade da opinião jornalística.
A verdade é que o discurso pró-Israel não é considerado discurso de opinião: é considerado fato; é considerado discurso objetivo. Por isso é que jamais haverá manifestação de viés pró-Israel que seja considerado suficientemente distorcida e alheia à realidade a ponto de gerar punição como a que Nasr sofreu (e muitos outros, antes dela). 
Por outro lado, ao mesmo tempo em que grande parte do planeta vê o Hezbollah como importante agente da defesa do Líbano contra os ataques israelenses, o governo dos EUA declarou-o “organização terrorista”. Assim sendo, a mídia “independente” dos EUA faz exatamente o que existe para fazer: obedientemente demite qualquer empregado que manifeste qualquer simpatia por defunto pranteado pelo Hezbollah. 
É verdade que parte do mundo considera terroristas algumas das ações do Hezbollah. Outra parte do mundo considera terroristas algumas das ações de Israel. CNN repete os que considerem o Hezbollah organização terrorista. E censura os que considerem Israel Estado terrorista. Assim, os veículos da imprensa dos EUA esterilizam a opinião pública e sufocam o discurso político nos EUA”.
 
A íntegra do artigo original, em inglês, pode ser lido em: Octavia Nasr's firing and what The Liberal Media allows