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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Confirmado: Se depender dos EUA, todas as injustiças estão liberadas, no Oriente Médio

30/11/2010, Robert Fisk, The Independent, UK

Now we know. America really doesn't care about injustice in the Middle East.

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Muslim pilgrims pray at Mount Arafat, near the Saudi holy city of Mecca
Peregrinos muçulmanos rezam no Monte Arafat, perto da cidade sagrada de Meca, Arábia Saudita

Aproximei-me desconfiadíssimo, do mais recente rumoroso episódio diplomático. E ontem, depois das eleições no Cairo – as eleições parlamentares egípcias foram, como sempre, mistura de farsa e fraude, o que, afinal de contas, sempre é melhor que choque e horror – mergulhei nos milhares de telegramas diplomáticos norte-americanos, sem absolutamente qualquer esperança. Como disse o presidente Hosni Mubarak, e lê-se num dos telegramas, “vocês sabem esquecer a tal de democracia”.  

Não que os diplomatas dos EUA não entendam o Oriente Médio; é que eles já não sabem ver a injustiça. Quantidade imensa de literatura diplomática prova que o pilar da política dos EUA para o Oriente Médio é o alinhamento com Israel, que seu principal objetivo é encorajar os árabes a unir-se à aliança EUA-Israel contra o Irã, que a bússola da política dos EUA é a necessidade de domar/minar/esmagar/oprimir e, por fim, destruir o Irã.

Não vazou praticamente (pelo menos até agora) nenhuma referência às colônias israelenses ilegais exclusivas para judeus na Cisjordânia, nem aos ‘postos de controle’ israelenses, aos colonos israelenses extremistas, cujas casas pintam como cicatrizes de varíola toda a Cisjordânia palestina ocupada – ao vasto sistema ilegal de roubo de terra que é o coração da guerra Israel-palestinos. O que se vê mais, por incrível que pareça, são os mais variados espécimes de importantes diplomatas norte-americanos acocorados e rendidos ante as exigências de Israel – vários deles visivelmente apoiadores ardentes de Israel. É como se os chefes do Mossad e os agentes militares de inteligência de Israel obrigassem os padrinhos ouvir e decorar as instruções dos apadrinhados.

Há maravilhosa passagem nos telegramas, quando o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu explica a uma delegação do Congresso dos EUA, dia 28/4/2009, que “Estado palestino, só se for desmilitarizado, sem controle sobre o espaço aéreo e campo eletromagnético [sic], sem poder assinar tratados nem controlar fronteiras”. Assim sendo, adeus ao Estado palestino “viável” (palavra de Lord Blair de Isfahan) que todos supostamente desejamos. Não há registro nos telegramas de que os rapazes e moças deputados e senadores dos EUA e que lá ouviam Netanyahu tenham discordado.

Em vez disso, o The New York Times procurou as melhores frases. Eis o rei Abdullah da Arábia Saudita, por seu embaixador em Washington (sempre amigo da imprensa), dizendo que Abdullah crê que os EUA devem “cortar a cabeça da serpente” – onde, em “a serpente”, leia-se “o Irã” ou “Ahmadinejad” ou “as instalações nucleares do Irã” ou qualquer um desses itens ou todos.

Mas os sauditas vivem ameaçando cortar a cabeça de serpentes. Em 1982, Yasser Arafat disse que deceparia o braço esquerdo de Israel (depois que Israel invadiu o Líbano) e o então primeiro-ministro de Israel Menachem Begin respondeu que deceparia o braço direito de Arafat. Acho que quando somos informados – como, desgraçadamente, agora, por WikiLeaks – de que candidatos a visto norte-americano, mas que os EUA não queiram por perto, são chamados pelos diplomatas dos EUA de “víboras do visto” [ing. visa vipers], a única conclusão a que podemos chegar é que cresce em todo o mundo a demanda por ofídios.

O problema é que, por décadas, os potentados do Oriente Médio ameaçam decepar cabeças de cobras, serpentes, ratos e insetos iranianos – esses últimos preferidos de Saddam Hussein, que usou “inseticida” fornecido pelos EUA para a matança como bem se sabe –, enquanto os líderes israelenses chamaram os palestinos de “baratas” (Rafael Eitan), “crocodilos” (Ehud Barak) e “bestas de três patas” (Begin).

Tenho de confessar que gargalhei, de chorar de rir, ante um telegrama de diplomata dos EUA, em tom solene-ridículo, reportando do Bahrain, que o rei Hamad – ou “Sua Alteza Suprema Rei Hamad”, como faz questão de ser chamado, em sua ditadura de maioria xiita em reino pouco maior que a ilha de Wight – havia declarado que o perigo de deixar prosseguir o programa nuclear iraniano era “maior que o perigo de fazê-lo parar”.

O maravilhoso jornalista palestino Marwan Bishara acertou ao dizer, no fim-de-semana, que esses papéis diplomáticos dos EUA são mais interessantes para estudos antropológicos, que para estudos políticos; porque são documento de uma perversão do pensamento ocidental sobre o Oriente Médio. Se o rei Abdullah (versão saudita em ruínas, em oposição à versão Reizinho Valente da Jordânia) realmente chamou Ahmadinejad de Hitler, se o conselheiro de Sarkozy chamou o Irã de “Estado fascista”, então se prova, apenas, que o departamento de Estado dos EUA continua obcecado com a II Guerra Mundial.

Adorei o espantoso relato de alguém que visitou a embaixada dos EUA em Ancara e contou aos diplomatas que o Líder Supremo do Irã Ali Khamenei sofria de leucemia e estava à morte. Não porque o pobre velho sofra de câncer – é mentira – mas porque é o mesmo tipo de descalabro sobre líderes do Oriente Médio recalcitrantes que se vê há muitos anos. Lembro de quando “fontes diplomáticas” norte-americanas ou britânicas inventaram que Gaddafi estaria morrendo de câncer, que Khomeini estaria morrendo de câncer (muito antes de ele morrer), que o matador de aluguel Abu Nidal estaria morrendo de câncer 20 anos antes de ser assassinado por Saddam. Até na Irlanda do Norte um miolo-mole britânico contou-nos que o líder protestante William Craig estaria morrendo de câncer. Claro que Craig sobreviveu, como o horrível Gaddafi, cuja enfermeira ucraniana é descrita nos documentos dos EUA como “voluptuosa”, o que ela é. Mas haverá alguma dama loura não “voluptuosa”, nesse tipo de novelão?

Uma das reflexões mais interessantes – atentamente ignorada pela maioria dos jornais pro-WikiLeaks de ontem – aparece no relato de encontro entre uma delegação do Senado dos EUA e o presidente Bashar Assad da Síria, no início de 2010. Os EUA, disse Assad aos visitantes, possuem “gigantesco aparato de informação”, mas fracassam ao analisar essa informação. “Nós não temos as habilidades que os senhores têm”, disse em tom sinistro, mas “somos bem-sucedidos no combate aos extremistas porque contamos com melhores analistas. (...) Nos EUA vocês gostam de fuzilar [terroristas]. Sufocar as redes deles dá melhor resultado”. O Irã, concluiu Assad, era o mais importante país da região, seguido da Turquia e – número três – a Síria. O coitado velho Israel nem aparece no retrovisor.

Evidentemente, o presidente Hamid Karzai do Afeganistão é “movido à paranóia” – como todos os habitantes daquela terra, inclusive quase toda a OTAN e, sobretudo, os EUA – e naturalmente o presidente do Iêmen mente ao próprio povo que está matando representantes da al-Qa'ida, quando todos o mundo sabe que os verdadeiros culpados são os guerreiros do general David Petraeus. Líderes muçulmanos não fazem outra coisa além de mentir que as proezas militares dos EUA contra outros muçulmanos são proezas deles, não ‘nossas’.

Claro, não se pode ser tão cínico. Gostei muito do telegrama diplomático dos EUA (do Cairo, claro, não de Telavive) no qual se lê que Netanyahu seria “elegante e sedutor (...) mas nunca cumpre o que promete”. Ora! Não se aplica também a metade dos líderes árabes?

E assim chegamos ao apimentado e assustador relato de encontro entre Andrew Shapiro, “Secretário Assistente de Estado do Gabinete Político-militar dos EUA” e espiões israelenses há quase exatamente um ano. Israel não pode proteger seus Cessna Caravan e Raven aviões-robôs não pilotados no sul do Líbano, reconheceu o Mossad (o Hezbollah deve ao Mossad essa preciosa informação). Um coronel israelense “J5”, coronel Shimon Arad gorjeia sobre os perigos do “Hezbollahstão” e do “Hamastão” e sobre “o impasse político interno” no Líbano – naquele momento não havia; agora, há – e sobre o Líbano como “arena militar volátil” e a “suscetibilidade do Líbano a influências externas, inclusive da Síria, do Irã e da Arábia Saudita”.  

E – claro, apesar de o coronel Arad não ter falado sobre isso – também suscetível à influência de norte-americanos, israelenses, franceses, britânicos, além, também de o Líbano também ser suscetível à influência dos turcos. Shapiro “citou a necessidade de oferecer alternativa ao Hezbollah” – talvez... os policiais da Costa Rica? – e sugeriu que o exército libanês poderia defender o Hezbollah (improvável, nas atuais circunstâncias).

Há uma inestimável rejeição-negação do relatório Goldstone da ONU sobre as atrocidades em Gaza em 2008-09, pelo major-general da reserva Amos Gilad, que diz que os documentos em que se critica Israel são “sem fundamento, porque os militares israelenses fizeram 300 mil chamadas telefônicas para as residências em Gaza antes dos ataques aéreos (...) para evitar baixas entre os civis.” O infeliz, pobre Shapiro, dado que o telegrama não registra resposta dele, manteve-se em silêncio. Teria sido apenas uma, de cada cinco famílias palestinas, avisadas por telefone, se se considera a população palestina total de Gaza, crianças, bebês, todos. E mesmo assim os israelenses mataram 1.300 palestinos, a maioria dos quais civis. Claro que a Autoridade Palestina do insípido Mahmoud Abbas não quis assumir esse campo de morticínio depois que os israelenses venceram – como Israel propôs-lhe, com aprovação dos EUA – porque Israel não venceu em Gaza. Sequer conseguiram localizar nos túneis de Gaza o soldado israelense que o Hamás mantém preso há anos.

Há momento simbólico quando o Xeque Mohamed bin Zayed al-Nahyan de Abu Dhabi – sem comparação possível com o personagem “distante e sem carisma” de seu irmão Califa – preocupa-se com o Irã na presença do embaixador dos EUA Richard Olsen o qual, então, comenta que o Xeque “manifesta visão estratégica sobre a Região curiosamente semelhante à visão israelense”. Mas é claro que manifesta! São idênticos. Todos rezam em suas mesquitas de ouro, reis e emires e generais, comprando mais e mais armas dos EUA para protegerem-se contra “o Hitler” de Teerã – melhor Hitler, acho eu, que o Hitler do Tigre em 2003, que o Hitler do Nilo de 1956 – e praza a Deus Todo Poderoso que sejam salvos pelos santificados EUA e Israel.

Fico, em suspense, à espera do próximo capítulo dessa fantasia-farsa.

sábado, 27 de novembro de 2010

Oceanos de sangue e lucros para os mercadores da guerra

27/11/2010, The Independent, UK

Robert Fisk: Oceans of blood and profits for the mongers of war

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

As casualties continue to mount in Afghanistan, so does the cost of war after nine years
As vítimas continuam a crescer no Afeganistão, o mesmo acontece com o custo da guerra depois de nove anos

Dado que há hoje três conflitos no Grande Oriente Médio – Afeganistão, Iraque, Israel/“Palestina” e talvez a caminho nova guerra no Líbano –, parece boa ideia dar uma olhada nos custos da guerra.

Não o custo humano – 80 vidas num dia no Iraque, números não sabidos no Afeganistão, nenhum dia sem mortes em Israel/“Palestina” –, mas o custo financeiro. Ainda vivo obcecado pelo pedido dos sauditas, que exigiram seu dinheiro de volta, depois que Saddam Hussein invadiu o Kuwait em 1990. O rei Fahd da Arábia Saudita lembrou a Saddam que financiou sua guerra de oito anos contra o Irã, ao custo de espantosos $25.734.469.885,80. Foi muito generoso. Pagou pela custódia dos dois locais sagrados Meca e Medina. Foram mais de $25 bilhões entregues a Saddam para que massacrasse seus irmãos muçulmanos. Aqueles 80 centavos foram pura ganância.

Mas, falando em rapacidade, os árabes gastaram $84 bilhões subscrevendo a operação anglo-norte-americana contra Saddam em 1990-91 – três vezes o que Fahd pagou a Saddam pela guerra do Irã – e só a parte dos sauditas chegou, só ela, a $27,5 bilhões. No total, os árabes amargaram perda de $620 bilhões, por causa da invasão do Kuwait pelo Iraque em 1990 – despesa quase toda reembolsada pelos EUA e aliados. Em agosto de 1991, Washington reclamava que a Arábia Saudita e o Kuwait ainda deviam $7,5 bilhões. É como se as guerras do ocidente no Oriente Médio visassem tanto ao lucro quanto à vitória. Se o Iraque não tivesse sido o desastre que foi, talvez nos tivesse enriquecido. Se sauditas e Kuwait pagassem suas dívidas, ajudariam os EUA a manter o constante derrame de dinheiro dos EUA nas desastrosas guerras de Israel.

Segundo o historiador israelense Illan Pappé, desde 1949 os EUA entregaram a Israel mais de $100 bilhões em doações e $10 bilhões em empréstimos especiais – mais do que Washington destina ao Norte da África, à América Latina e ao Caribe. Nos últimos 20 anos, Israel recebeu $5,5 bilhões para compras militares. Mas para avaliar a autodepredação dos EUA, é preciso considerar as perdas, dignas de Midas desatinado, em todo o Oriente Médio, só a partir de 1991 – estimados $12.000.000.000.000,00.  Iéz, 12 trilhões secos. Se alguém duvidar, basta conferir num livrinho despretensioso que o “Strategic Fortnight Group” publicou há pouco tempo. Aquelas estatísticas chegaram a algumas manchetes, mas depois ficaram praticamente esquecidas, talvez porque tenham sido editadas na distante Mumbai, Índia, não por algum ignóbil “think-tank” (como eles dizem, e que eu, em vez de “centro avançado de reflexão”, prefiro chamar de “centro para funilaria de ideias velhas”[1]). Mas a publicação foi patrocinada, dentre outros, pelos ministérios de Relações Exteriores da Noruega e da Suíça. E os indianos são muito espertos com dinheiro, como sabemos, agora que todos tanto tememos sua nova super-economia.

E, dado que há à vista uma nova guerra Israel-Hizbollah, se considerarmos os custos astronômicos de todos aqueles F-16s, mísseis, “bunker-busters”, foguetes de fabricação iraniana, que destruíram fábricas, vilas, cidades, pontes, centrais de energia elétrica, terminais de petróleo libaneses –, nem nos sujaremos com os 1.300 patéticos mortos do Líbano e os 130 patéticos mortos de Israel na guerra de 2006, os quais, afinal, eram meros mortais –, para não falar do que se perdeu como renda do turismo e no comércio, dos dois lados. No total, o Líbano perdeu na guerra de 2006 estimados $3,6 bilhões; Israel, $1,6 bilhão – o que indica que, em termos de dinheiro, Israel saiu ganhando, apesar de o exército-ralé de Israel não ter deixado pedra sobre pedra por onde passou. Mas, entre os que pagaram por tudo isso há contribuintes norte-americanos (que financiam os israelenses) e contribuintes europeus. Potentados árabes e o doido do Irã (que financiam o Líbano).

Em outras palavras, o contribuinte norte-americano destrói o que o contribuinte europeu reconstrói. O mesmo acontece em Gaza: Washington financia as armas que explodem os projetos financiados pela União Europeia, e a União Europeia os reconstrói sempre a tempo de serem novamente destruídos. Mas, Oh! Sim!, na guerra do Líbano, os fabricantes de armas norte-americanos encheram as burras – quase tanto quanto os mercadores de mísseis iranianos e chineses.

Desagreguemos os números da guerra do Líbano de 2006. Pontes e estradas: $450 milhões. Fábricas: $419 milhões. Residências: $2 bilhões. Mas “instituições” militares: reles $16 milhões. Do que se sabe, o Hizbollah gastou $300 milhões. No total, as reconstruções consumiram $319 milhões, reparos na infra-estrutura, $454 milhões; vazamentos de óleo, $175 milhões. Para acrescentar um pouco de prazer sádico, somem-se os incêndios florestais ($4,6 milhões), deslocamento de civis ($52 milhões) e o aeroporto de Beirute ($170 milhões). O maior prejuízo de todos? No turismo, com perdas de $3-4 bilhões. Agora, Israel. O turismo perdeu $1,4 bilhão, “governo e serviços emergenciais” $460 milhões, businesses $1,4 bilhão, compensação paga $335,4 milhões, incêndios florestais $18 milhões. O que teriam o exército de Israel e o Hizbollah contra florestas? No total, os israelenses perderam 1,5% do PIB; os libaneses, 8% do PIB.

E quanto à “corrida armamentista” no Oriente Médio – cujos jóqueis são os fabricantes de armas e os apontadores são os países da região e, claro, as suas "huddled masses"[2]. A Arábia Saudita, como se lê no relatório de Mumbai, saltou, numa década, entre 1996 e 2006, de $18 bilhões para $30 bilhões ao ano – acaba de fechar negócio de $60 bilhões com os EUA – e o Irã, de $3 bilhões para $10 bilhões. Israel foi de $8 bilhões para $12 bilhões. De fato, há interessante correlação entre os mísseis ultramodernos e de alma democrática, de Israel, disparados entre 2000 e 2007 – 34.050 – e os mísseis do Hamás, de alma terrorista, do mal: pífios 2.333.

Há várias preciosidades nessa apavorante lista de horrores financeiros e sociais. Dia 11/9/2001, havia apenas 16 nomes na lista de pessoas proibidas de embarcar em aviões nos EUA; em dezembro, eram 594. Em agosto de 2008, a lista incluía inacreditáveis 100 mil nomes. Nesse ritmo, em dois anos, a lista de “terroristas procurados” dos EUA alcançará 2 milhões de almas.

Desde 1974, os soldados da ONU que estão nas colinas de Golan para manter a paz custaram $47,86 milhões. E desde 1978, a ONU consumiu $680,93 milhões com seus soldados da paz, no sul do Líbano.

Em breve nesse canal, portanto, mais uma guerra perto de você; oceanos de sangue, cadáveres em pedaços, claro. Mas não esqueça de trazer o cartão de crédito, ou o talão de cheques. É big business. Há possibilidade de lucros.


NOTAS
[1] Essa é uma tradução tentativa, arriscada, de um trocadilho intraduzível: no orig. “think-tank” vs “tink-tank” .

[2] “Huddled masses” [aproximadamente “grande quantidade de pessoas, agarradas umas às outras, desorganizadas”] é expressão que aparece no poema “The New Colossus”, de Emma Lazarus, inscrito aos pés da Estátua da Liberdade, em NY: "Give me your tired, your poor / Your huddled masses yearning to breathe free / The wretched refuse of your teeming shore. / Send these, the homeless, tempest-tost to me, /I lift my lamp beside the golden door!"  

sábado, 11 de setembro de 2010

9 anos, 2 guerras, centenas de milhares de mortos... E não aprendemos coisa alguma?

11/9/2010, Robert Fisk, The Independent, UK

Traduzido por Vila Vudu


The World Trade Center site with memorial footprints of the twin towers visible

The World Trade Center site with memorial footprints of the twin towers visible


O 11/9 nos enlouqueceu todos? Nossa homenagem aos inocentes que morreram há nove anos continua a ser um holocausto de fogo e sangue.


O 11/9 nos enlouqueceu todos? O quanto faz perfeito sentido, de um modo alucinado, enlouquecido, que a apoteose da tempestade de fogo há nove anos seja, hoje, um pregador pirado que ameaça nos ferir com outra tempestade de fogo à moda da queima de livros dos nazistas! E ameaça fazer piras de livros do Corão. Ou a campanha contra uma mesquita a ser construída a dois quarteirões do “marco zero” – como se o 11/9 tivesse sido ataque a cristãos que cultuam Jesus, em vez de ataque contra o ocidente ateu.


Mas, afinal, por que nos surpreender? Basta olhar para outros desses doidos que brotam depois de cada crime contra a humanidade: o semidoido Ahmadinejad; Gaddafi, o pegajoso pós-nuclear; Blair com aquele olho direito de maníaco e George W Bush, com suas prisões negras e torturas e a completamente lunática “guerra ao terror”. E o desprezível que viveu – e talvez ainda viva – numa caverna afegã e as centenas de al-Qaedas que criou, e o mullah Omar caolho – para não falar dos agentes lunáticos das agências de inteligência e da CIA principalmente – que não nos salvaram do 11/9 porque foram muito lentos ou idiotas demais para identificar 19 homens que atacariam os EUA. E lembrem: ainda que o Rev. Terry Jones continue persuadido a desistir de queimar livros do Corão, já há vários outros doidos como ele, de plantão, prontos a assumir seu lugar.


De fato, nesse sombrio 9º aniversário – e deus nos ajude, quando chegar o 10º, ano que vem – o 11/9 parece ter produzido só monstros, nenhuma paz, nenhuma justiça, nenhuma melhor democracia. Destruíram o Iraque – os doidos ocidentais e os doidos da cepa local – e massacraram 100 mil almas, ou 500 mil, ou um milhão; e quem liga? E mataram dezenas de milhares no Afeganistão; e quem liga? E enquanto a praga se espalha pelo Oriente Médio e pelo globo, eles – os pilotos da força aérea e os insurgentes, os fuzileiros e os homens-bomba, as al-Qaedas do Maghreb e do Khalij e do Califato do Iraque e as forças especiais e os garotos do apoio aéreo e os degoladores – degolaram mulheres e crianças e velhos e doentes e jovens e saudáveis, do Indus ao Mediterrâneo, de Bali ao metrô de Londres; que homenagem aos 2.966 inocentes que morreram há nove anos! Em nome daqueles mortos, oferecemos o holocausto que produzimos, de fogo e sangue; e, agora, a sandice do pregador doido de Gainesville.


Essas foram as perdas, é claro. Mas... quem ficou com o lucro? Bem, os mercadores de armas, é claro; e as Boeing e Lockheed Martin e os que vendem mísseis e fabricam aviões-robôs e peças de reposição para os F-16 e os mercenários sanguinários que confiscam terras de muçulmanos em nosso nome. Sobretudo agora, quando já produzimos mais de 100 mil novos inimigos para cada um dos 19 assassinos do 11/9. Os torturadores vivem boa vida, gozando seu sadismo nas prisões negras dos EUA – e seria conveniente que, nesse 9º aniversário, o mundo fosse afinal informado de que há um centro de tortura dos EUA, em pleno funcionamento, na Polônia –, homens (e mulheres, temo) que já aperfeiçoaram as técnicas de sufocamento e afogamento mediante as quais o ocidente guerreia as guerras contemporâneas. E, isso, sem esquecer todos os religiosos fanáticos do mundo, seja do tipo Bin Laden, ou os barbudos do Talibã, sejam os homens-bomba, sejam pregadores malucos grisalhos de gravata como aquele pregador, o nosso maluco, o de Gainesville.


Mas Deus? Onde entra Deus em tudo isso? Um arquivo de citações sugere que todos os monstros brotados do ou criados no 11/9 são seguidores desse quixotesco redentor. Bin Laden reza a Deus – “que faça dos EUA uma sombra do que é”, como me disse, pessoalmente, em 1997 –, e Bush reza a Deus, e Blair rezava – e ainda reza – a Deus, e todos os matadores muçulmanos e milhões de soldados ocidentais matadores e também o “Doutor” (honorário) “Pastor Terry Jones” e seus 30 (talvez 50, porque, nessa “guerra ao terror” as estatísticas nunca batem) seguidores também rezam a Deus. E o pobre velho Deus, é claro, tem de ouvir todas as rezas cujo coro aumenta durante as guerras. Relembremos as palavras atribuídas a Deus, por poeta de outra geração: “Deus isso, Deus aquilo, e Deus sabe-se lá o quê! Santo Deus! Assim, meu trabalho fica pela metade!”[1] E foi só a Primeira Guerra Mundial!


Há apenas cinco anos – no 5º aniversário dos ataques às torres gêmeas/Pentágono/Pensilvânia – uma aluna perguntou-me, numa conferência numa igreja em Belfast, se o Oriente Médio se beneficiaria por lá haver mais religião. Não!, rugi, na resposta. É preciso menos religião! Deus é assunto de contemplação, não de guerras. Mas – e aqui somos jogados contra os recifes e rochas escondidas que nossos líderes querem que não vejamos, que esqueçamos, que as ponhamos de lado – há, sim, esse inferno de sangue que envolve todo o Oriente Médio. São povos muçulmanos que mantiveram sua fé, enquanto os ocidentais, que os oprimem militarmente, economicamente, culturalmente, socialmente – já perderam qualquer fé. Como é possível?, perguntam-se os muçulmanos. De fato, é soberbamente irônico que o Rev. Jones seja homem de fé, enquanto já não há ninguém à volta dele que tenha qualquer fé. Por isso os nossos livros e documentários jamais falam de muçulmanos versus cristãos, mas de muçulmanos versus “O Ocidente”.


E, claro, há o tabu, o tema de que não se pode falar – o relacionamento entre Israel e os EUA, e o apoio incondicional dos EUA ao roubo de terras, porque Israel rouba terras dos árabes muçulmanos todos os dias –, também está no âmago da crise terrível que assola nossas vidas.

Na edição de The Independent da 6ª-feira, viam-se fotos de uma demonstração no Afeganistão em que os manifestantes gritavam “morte aos EUA”. Mas ao fundo, os mesmos manifestantes carregavam um estandarte negro escrito em dari, com tinta branca. Lá se lia – e nenhum jornal ocidental traduziu – “O regime sionista sanguinário e os líderes ocidentais indiferentes ao sofrimento dos palestinos mais uma vez celebram o ano novo com mais sangue palestino derramado”.


É mensagem de violência terrível – mas prova, mais uma vez, que a guerra em que estamos afundados é disputa também da questão Israel-palestinos. Talvez o “Ocidente” prefira acreditar que os muçulmanos “nos odeiam pelo que somos” ou que odeiem “nossa democracia” (é o que sempre mentiram Bush, Blair e uma horda de políticos mentirosos) – mas o conflito entre Israel e palestinos está no centro da “guerra ao terror”. Porque está. E, porque está, o igualmente vicioso Benjamin Netanyahu, ao reagir às atrocidades do 11/9, disse que “o evento” seria bom para Israel. Israel poderia passar a dizer que, contra os palestinos, lá também se lutava “a guerra ao terror”, e que Arafat – e foi o que disse o hoje semimorto Ariel Sharon – seria “nosso Bin Laden”. Assim, os israelenses puderam atrever-se a dizer que Sderot, sob chuva de mísseis de lata do Hamás, seria “o marco zero israelense”.


Nada disso é verdade. A batalha de Israel contra os palestinos é caricatura fantasmagórica da “guerra do terror” do “Ocidente”, mediante a qual o Ocidente dá apoio ao último projeto colonial do planeta – e aceita os milhões de mortos – porque as torres gêmeas, o Pentágono e o avião da United voo 93 foram atacados por 19 assassinos árabes há nove anos.


Há uma horrenda ironia no fato de que um dos resultados diretos do 11/9 tenha sido a legião de policiais e agentes e “especialistas” que voaram imediatamente para Israel para aprimorar sua “expertise antiterrorista” com a ajuda de oficiais israelenses que muito provavelmente – nos termos divulgados pela ONU – são criminosos de guerra. Não surpreende que os heróis que fuzilaram o infeliz Jean Charles de Menezes, brasileiro, no metrô de Londres em 2005 estivessem recebendo assessoramento “antiterroristas” dos israelenses.


Ah, sim, já sei o que vão dizer. Que não podemos comparar a ação de terroristas do mal e a coragem de jovens policiais ingleses, homens e mulheres, que defendem vidas inglesas – e sacrificam as próprias vidas – nos fronts da “guerra ao terror”. Não há comparação. Não são “iguais”. “Eles” matam inocentes, porque “eles” são o mal. “Nós” matamos inocentes... por engano. Mas nós sabemos que vamos matar inocentes – aceitamos a evidência de que mataremos inocentes, que nossos atos criarão valas comuns nas quais se enterrarão famílias inteiras dos mais pobres, dos mais fracos, dos mais desamparados.


Por isso inventamos o conceito obsceno de “dano colateral”. Porque se “colateral” significar que aqueles mortos são inocentes, então “colateral” também significaria que os que os assassinam também seriam inocentes. Não queríamos assassiná-los – por mais que sempre soubéssemos que os assassinaríamos. “Colateral” é nossa licença para matar. Essa única palavra faz toda a diferença entre “nós” e “eles”, entre o nosso direito divino de matar e o direito divino de Bin Laden matar. As vítimas, ocultadas como cadáveres “colaterais”, já nem se contam, porque são provas do nosso crime. Talvez lhes tenha doído menos. Talvez morrer por tiro de avião-robô seja morte mais doce, partida mais suave desse vale de lágrimas. Ou, quem sabe, ser cortado ao meio e eviscerado por um míssil AGM-114C Boeing-Lockheed ar-terra doa menos do que voar pelos ares aos pedaços por efeito de uma bomba no acostamento ou de algum cruel homem-bomba que se suicide na rua.


Por isso é que sabemos quantos morreram no 11/9 – 2.966, e o número talvez seja maior – mas nem contamos os mortos que nós matamos. Porque eles – “nossas” vítimas – nem são identificáveis, nem são inocentes, nem são humanos, não têm causas, nem crenças, nem sentimentos; e porque já matamos muito, muito, muito mais gente que Bin Laden e os Talibãs e a al-Qaeda.


Aniversários são eventos para jornais e televisões. E parecem ter o mau hábito de se unirem sempre em cenários trágicos. Assim os ingleses comemoram a “Batalha da Bretanha” – episódio cavalheiresco da história dos britânicos – e a “Blitz”, bisavó dos assassinatos em massa, mas símbolo de uma espécie ingênua de coragem –, como lembramos o início de uma guerra que rachou pelo meio a moralidade pública, converteu políticos britânicos em criminosos de guerra, nossos soldados em assassinos e nossos inimigos em heróis da causa contra o Ocidente.


E, ao mesmo tempo em que, nesse tormentoso aniversário, o Rev. Jones prega que se queime um livro intitulado “Corão”, Tony Blair está em campo para vender um livro intitulado “Uma jornada”. Jones disse que o Corão seria “o mal”. Muitos britânicos se perguntam se o livro de Blair não deveria chamar-se “O Crime”. Não há dúvida de que o 11/9 já virou delírio, se o Rev. Jones consegue atrair a atenção dos Obamas, dos Clintons, do Santo Padre e até da ainda mais santa ONU. Aqueles que os deuses querem destruir, os deuses primeiro enlouquecem...


O artigo original, em inglês, pode ser lido em:

Robert Fisk: Nine years, two wars, hundreds of thousands dead – and nothing learnt


Nota de Tradução

[1] No orig. "God this, God that, and God the other thing. 'Good God,' said God, 'I've got my work cut out'. São versos conhecidos na Inglaterra como “a quadrinha da [primeira] Grande Guerra”, de autor desconhecidos, mas atribuídos a J.C. Squire, depois Sir John Squire.

sábado, 4 de setembro de 2010

Robert Fisk: Tony Blair tem de assumir a responsabilidade pelo que fez no Iraque. Mas não assumirá. Blair não sabe assumir responsabilidades.

3/9/2010, The Independent, UK – traduzido por Vila Vudu


Será que esse homem deplorável não aprendeu coisa alguma? Na entrevista à BBC, só dizia: “Eu, com certeza...”,”Eu, sem dúvida alguma...”, “Creio, sem vacilar...”, “Estava claro, muito claro, que aquilo mudou tudo” (“aquilo” é o 11 de setembro de 2001), “Permitam-me afirmar clara e inequivocamente”, “A Inteligência pintou quadro bem claro”, “A justificativa legal era evidente”, “Dissemos, com toda a razão...”, “Porque eu acreditava firmemente, como acredito ainda hoje...”, “Minha conclusão definitiva, hoje, é que...”


Quem o ouvisse pensaria que os ingleses vencemos a guerra no Iraque, que estamos vencendo no Afeganistão, que venceremos a guerra seguinte, no Irã. E por que não seria assim, se Lord Blair de Kut al-Amara diz que é?!


Aqui, abandono para sempre qualquer referência a Lord Blair de Kut al-Amara, com a lembrança infeliz da humilhante derrota militar que a Grã-Bretanha sofreu em 1915 na Mesopotâmia. Doravante, falarei sempre de Lord Blair de Isfahan. Tendo derrotado Saddam, Blair agora decidiu que derrotará Ahmadinejad. “Afirmo que um Irã nuclear é absolutamente inaceitável” disse o homem ao infeliz velho Andrew Marr, que o entrevistava. Disse que “é preciso que os iranianos ouçam isso, em som alto e claro”.


E assim o enviado britânico ao Oriente Médio para fazer a paz, prepara os britânicos que serão mandados guerrear contra a Pérsia. Mas suspeito que os iranianos já “ouviram isso” e entenderam o recado há muito tempo: quem queira evitar ameaças de gente como Lord Blair, que trate de comprar sua bomba atômica. Afinal de contas, Blair já disse: “É absolutamente inaceitável que a Coreia do Norte tenha capacidade nuclear.” Todos entendemos por quê.


Às vezes, na entrevista à BBC, Blair falava como Avigdor Lieberman, ministro do Exterior de Israel. Como seus chefes israelenses, Lieberman acredita que Ahmadinejad seja pior que Hitler – o que é difícil, mas eles deram um jeito e conseguem entender – e, como Lieberman, Lord Blair tampouco é homem de paz.


Estranho é que – dado que Blair ganha para trabalhar pela paz entre os dois lados – as palavras “Israel” e “Palestina” absolutamente não apareceram na entrevista de Blair, apesar de Blair ter dito, no inquérito Chilcot, que houve “telefonemas” para os israelenses, durante o seu encontro com Bush, sobre o Iraque. Marr deixou passar essa. Sobre o que, diabos, Blair e Bush teriam conversado com os israelenses, enquanto se preparavam para nos mergulhar nessa catástrofe?


Tudo soou tão infantil. Sim “o povo” não queria guerra. “O povo sempre prefere procurar conspirações.” E – essa é a melhor! – “esse debate prosseguirá.” Mas não se trata de debate! Trata-se de completo, sangrento, vergonhoso desastre, pelo qual Blair tem de assumir toda a responsabilidade. Mas não assumirá. Não sabe assumir responsabilidades. Assim sendo, a carnificina, no açougue em que converteram o Iraque, é culpa da al-Qa'ida, do “envolvimento externo” da al-Qa'ida e do Irã.


O Iraque “foi desestabiizado pelas mesmas forças externas que desestabilizarm o Afeganistão”. Não. Desgraçadamente, não. Os homens (ocasionalmente, também mulheres) que matam, fuzilam e explodem britânicos e norte-americanos no Iraque são iraquianos – os mesmos que os Srs. Blair e Bush deliraram que estariam libertando das garras de Saddam. “Há gente que explode carros-bombas em subúrbios super populosos”, disse Lord Blair, às tantas, como se homens-bomba fossem alguma espécie de tradição folclórica, alguma dança, alguma prática tribal antiga que nada tivesse a ver com nós termos invadido o Iraque em 2003.


“Como não lamentar os mortos?”, disse Lord Blair, sobre as vítimas. Deveria ter dito “Lamento os mortos assassinados por nós”. Assim, pelo menos, estaria mais perto de admitir sua culpa. “Não provocamos isso” – disse Blair, em momento de descontração. “A culpa não é minha, cara!”


Observei também que Marr, que o entrevistava, só falou de “no mínimo 100 mil mortos iraquianos”. Não falou dos 500 mil mortos, talvez um milhão de mortos que, todos somados, assombrarão para sempre a alma de nosso ex-primeiro-ministro. Assim sendo, Blair pôde falar das “centenas de milhares de mortos assassinados por Saddam”. É a velha história. Blair não é pior que Saddam. Blair é muito melhor pessoa que Hitler, é mais risonho que Stalin, mais bonitinho que Genghis Khan. Não, não. Nada disso tem qualquer coisa a ver com Lord Blair. “É preciso ter coragem para fazer o que você pensa que é certo.” Não basta “pensar”.


Espero que as sirenes de alerta de ataque aéreo estejam funcionando bem, em Isfahan..


O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Blair should take responsibility for Iraq. But he won't. He can't

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Tortura. Corrupção. Guerra civil. Os EUA, sem dúvida, deixaram sua marca

Tropas dos EUA dizem adeus ao Iraque


20/8/2010, Robert Fisk, The Independent, UK

Traduzido por Vila Vudu



Quando alguém invade país dos outros, tem de haver um primeiro soldado – como tem de haver um último.


O primeiro homem da primeira unidade da primeira coluna do exército norte-americano invasor a chegar à praça Fardous no centro de Bagdá em 2003 foi o cabo David Breeze do Terceiro Batalhão, Quarto Regimento da Marinha. Por isso, é claro, ele me disse que não era, não, de modo algum, soldado. O pessoal da Marinha não é soldado, são Marines. Mas fazia dois meses que não falava com a mãe e então – também evidentemente – ofereci-lhe meu telefone por satélite para que ele ligasse para casa, em Michigan. Não há jornalista que não saiba que sempre se consegue boa história, quando se empresta o telefone a soldados, em guerras.


“Ei, pessoal”, disse o cabo Breeze ao telefone. “Estou em Bagdá. Liguei para dar um alô! Amo vocês. Por aqui, tudo bem. Amo vocês. Mais uns dias e essa guerra acaba. Não demora, estarei aí.” Sim. Todos eles sempre disseram que a guerra logo acabaria. Mas não consultaram os iraquianos sobre essa tão boa notícia. Os primeiros homens-bombas – um policial num carro e, depois, duas mulheres num carro – já atingiram os norte-americanos na longa estrada para Bagdá. Haverá mais centenas. Haverá mais centenas, no Iraque, no futuro.


Portanto, nada de nos deixarmos levar pelo clima festivo na fronteira do Kuwait nas últimas poucas horas, a partida das últimas tropas “de combate” antecipada em duas semanas. Nem pelos gritos de “Vencemos” de soldados adolescentes, alguns dos quais teriam 12 anos quando George W Bush mandou seu exército rumo a essa catastrófica aventura iraquiana. Deixarão para trás 50 mil homens e mulheres – um terço do total da força de ocupação norte-americana – que serão atacados e que ainda muito terão de lutar contra “os insurgentes”.


Sim. Oficialmente, lá estarão para treinar pistoleiros e milicianos e os mais pobres dos pobres que se alistaram no novo exército do Iraque, cujo comandante, nem ele, acredita que estejam preparados para defender o país antes de, com otimismo, 2020. Mas ainda será exército de ocupação – porque um dos “interesses dos EUA” que lhes caberá defender é a própria permanência deles no Iraque –, ao lado de milhares de mercenários armados e indisciplinados, ocidentais e orientais, que abrem o próprio caminho à bala no Iraque, para garantir a sobrevivência de nossos preciosos diplomatas ocidentais e de empresários. Portanto, podemos todos dizer, bem alto: não estamos saindo do Iraque.


Em vez disso, os milhões de soldados norte-americanos que passaram pelo Iraque levaram aos iraquianos a praga. Do Afeganistão – pelo qual mostraram tanto interesse depois de 2001, quanto mostrarão quando começarem a “deixar o país”, ano que vem – trouxeram para o Iraque a praga, a infecção, da al-Qa'ida. Levaram a doença da guerra civil. Injetaram doses maciças de corrupção, no Iraque, em grande escala. Estamparam o selo da tortura em Abu Ghraib – valorosa sucessora da mesma prisão dos tempos da lei vil de Saddam – depois de estamparem o selo da tortura também em Bagram e nas negras prisões do Afeganistão. Dividiram sectariamente um país que, por maiores que tenham sido a brutalidade e a corrupção dos tempos de Saddam, sempre foi, antes dos EUA, país no qual sunitas e xiitas conviviam lado a lado.


E porque os xiitas inevitavelmente reinarão nessa nova “democracia”, os soldados dos EUA deram ao Irã a vitória que buscara em vão, na guerra terrível de 1980-88, contra Saddam. De fato, os homens que atacaram a embaixada dos EUA no Kuwait nos tristes velhos tempos – homens aliados dos suicidas-bomba que explodiram a base dos Marines em Beirute em 1983 – hoje ajudam a governar o Iraque. Naquele tempo, os Dawa eram “os terroristas”. Hoje, são “os democratas”. Engraçado o quão rapidamente todos esquecemos os 241 soldados dos EUA que morreram na aventura do Líbano. O cabo David Breeze teria então dois, três anos de idade.


Mas a doença continuou. O desastre dos EUA no Iraque contagiou também a Jordânia, com a al-Qa'ida – as bombas no hotel em Amã – e, depois, outra vez o Líbano. A chegada dos pistoleiros do Fatah al-Islam ao campo palestino de Nahr al-Bared no norte do Líbano – sua guerra de 34 dias contra o exército libanês – e os muitos civis mortos foram consequência direta do crescimento dos sunitas no Iraque. A Al-Qa'ida chegou ao Líbano. Então o Iraque, controlado pelos EUA, reinfectou o Afeganistão com suicidas-bomba, os autoimoladores que converteram os soldados dos EUA, de homens que lutam, em homens que se escondem.


Seja como for, estão todos, agora, ocupados com reescrever a narrativa. Mais de um milhão de iraquianos morreram. Blair não dá a mínima – eles não contam, por favor, prestem atenção, nas suas contas de reais generosidades. Nem contam, tampouco, a maioria dos soldados dos EUA. Vieram. Viram. E perderam. E agora, contam que venceram. Ah! O quanto os árabes, sobrevivendo com seis horas de eletricidade por dia em seu país devastado, devem sonhar com mais e mais vitórias como essa!


O que foi e o que é


3.000 É o número estimado de iraquianos civis mortos no ano passado. Menos de um décimo dos 34.500 que morreram em 2007, mas prova dos perigos que os iraquianos ainda enfrentam todos os dias.


200 É o número estimado de iraquianos que ainda se suspeita que continuem nas prisões norte-americanas – pequena fração dos 26.000 prisioneiros em prisões militares, há três anos.


15,5 Número médio de horas em que há eletricidade, por dia, em Bagdá, bem mais dos que as seis horas de três anos atrás, mas ainda longe do que havia antes da invasão norte-americana, quando, sim, havia eletricidade nas cidades iraquianas, 24 horas por dia.


O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Robert Fisk: US troops say goodbye to Iraq

domingo, 11 de julho de 2010

Robert Fisk: A CNN errou tudo sobre o aiatolá Fadlallah

10/7/2010, The Independent, UK - Traduzido pelo Coletivo de tradutores Vila Vudu

Se me consultassem, eu adivinharia. A CNN demitiu um de seus principais editores de Oriente Médio, Octavia Nasr, por ter divulgado pelo Twitter elogio ao Grande Aiatolá Sayyed Mohammed Hussein Fadlallah do Líbano: “é um dos gigantes do Hizbollah que eu respeito muito.”

Bom, não foi homem do Hizbollah, mas isso nada altera. E, sim, foi um gigante, sem dúvida alguma. Foi homem de imenso saber de jurisprudência, defensor dos direitos das mulheres, combatente incansável contra os "crimes de honra", crítico do sistema teocrático de governo do Irã e... OK. OK. Melhor eu parar, antes que me telefone a tal de Parisa Khosravi [1], que atende pelo título de “primeira vice-presidente da CNN” – e sabe-se lá o que fazem essas figuras e o quanto ganham para desnoticiar e des-decidir. – Parisa foi quem anunciou que tivera “uma conversa” com Nasr (que trabalhava na CNN há mais de 20 anos) e que “decidimos que ela deixará a empresa.”

Oh, santo deus! A pobre velha CNN, cada vez mais acovardada, a cada minuto. Por isso, claro, ninguém mais presta atenção às opiniões da CNN. Exatamente o contrário do que se deve dizer sobre Fadlallah.

Os EUA divulgaram que Fadlallah teria abençoado o homem-bomba que explodiu a base naval dos EUA em Beirute em 1983, matando 241 homens e mulheres que lá serviam. Fadlallah negou, várias vezes, em vários encontros que tive com ele, e acredito nele. Homens-bomba, por loucos que nos pareçam, não precisam de bênçãos; morrem convencidos de que cumprem seu dever diretamente frente a Deus, sem precisar de ajuda de marja como Fadlallah. Com deus ou sem deus, há provas de que Washington usou dinheiro dos sauditas para preparar o carro-bomba que deveria ter assassinado Fadlallah em 1985. Fadlallah não morreu. Mas os EUA mataram mais de 80 civis inocentes naquele atentado. Não sei o que a Sra. Khosravi pensaria sobre isso. “Sem comentários”, provavelmente.

Fato é que até a embaixadora britânica no Líbano Frances Guy, escreveu em seu blog pessoal que Fadlallah era homem que ela muito respeitava e com quem gostava muito de conversar no Líbano. É mistério impenetrável para mim, o que leva gente importante a ter blogs pessoais. Mas a embaixadora britânica virou alvo da fúria do ministro de Negócios Exteriores de Israel, cujo porta-voz disse que “seria interessante” saber o que Londres pensa das opiniões de sua embaixadora.

Muito mais interessante seria, acho eu, saber o que pensa Liberman sobre os passaportes britânicos que seu governo roubou e adulterou, para infiltrar um assassino israelense em Dubai, faz pouco tempo.

Tudo isso ajuda a mostrar que Fadlallah – que também foi poeta – continua a perturbar muita gente, mesmo depois de morto.

Quando meu amigo e colega Terry Anderson foi sequestado em Beirute (16/3/1985) – depois de sete anos seqüestrado, chegou a ser o refém que mais tempo permaneceu em mãos dos sequestradores – fui falar com Fadlallah, que Anderson havia entrevistado há pouco tempo. “Ele esteve em minha casa e está sob minha proteção”, disse-me Fadlallah. “Considero-o meu amigo.” Essa frase muito provavelmente salvou a vida de Terry. Por extraordinária coincidência, Terry esteve em visita a Beirute essa semana com um grupo de alunos, mas não sei se a visita que fez aos subúrbios do sul de Beirute lhe valerá alguma medalha.

Naquele tempo, os jornalistas nos referíamos a Fadlallah como “líder espiritual” do Hizbollah, o que não era verdade. Fadlalah apoiou a resistência libanesa durante a invasão israelense em 1982 e era feroz opositor da política dos EUA para a região – exatamente como todo mundo, inclusive os EUA hoje, me parece – e pôs fim às sangrentas cerimônias dos xiitas na Ashura (quando os xiitas se autoflagelam, na data que marca a morte do filho do Profeta).

Voltei a procurar Fadlallah, outra vez pensando em sequestro. Estava com viagem marcada para Bagdá e queria alguma orientação sobre como não ser sequestrado. Ouviu-me com extrema gentileza e recomendou que eu procurasse um amigo seu, também religioso xiita, na capital do Iraque. Foi o que fiz, e fui escoltado a Najaf e Karbala por um aluno do amigo de Fadlallah, que viajava no banco da frente do carro, em trajes religiosos, o tempo inteiro lendo o Corão. “Fiquei muito preocupado com você”, disse-me o amigo de Fadlallah, quando voltei a Bagdá. E o senhor só me diz agora, respondi.

Mas havia outro motivo pelo qual Fadlallah ajudou-me. A cada momento, enquanto estive nas cidades santas do Iraque, tinha de encontrar-me com algum clérigo xiita, todos ex-alunos de Fadlallah. E cada um deles me entregava enorme pilha de escritos e documentos – seus respectivos sermões, ao longo de 10, 15 anos. A todos prometi que entregaria os sermões a Fadlallah. E foi o que fiz, um mês depois, quando um Fisk que não dava um passo sem olhar em volta, com medo de ser seqüestrado, carregava duas malas cheias de papéis pelos subúrbios do Hizbollah, no sul de Beirute. Fadlallah recebeu-me com um vasto sorriso. Sabia o que havia nas malas. Mr. Fisk carregara mais saber jurisprudencial xiita do que jamais saberá avaliar. E Fadlallah sabia sobre o que andavam falando os seus colegas em Najaf e Karbala.

Francamente, nada, no mundo, me interessa menos do que a opinião da vice-presidente Khosravi da CNN sobre essa história – desde que me poupe de uma de suas “conversas”.

Tampouco me interessam a opiniões do ministro de Negócios Exteriores de Israel. Nem me interessa o que pensem embaixadores britânicos, vale lembrar.


Não tenho dúvida alguma de que Fadlallah foi homem sério e muito importante, cujos sermões sobre a necessidade de regeneração espiritual e de mais generosidade fez mais bem que o banho de retórica que sempre afogou o Líbano. Seu funeral foi acompanhado por centenas de milhares de pessoas, em Beirute, na 3ª-feira. Para mim, não foi surpresa.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: Robert Fisk: CNN was wrong about Ayatollah Fadlallah

Nota de tradução
[1] Sobre ela, ler em: Parisa Khosravi

sábado, 26 de junho de 2010

Robert Fisk: O filme norte-americano que fotografou a verdade no Afeganistão

A câmera flagrou
26/6/2010, The Independent, UK – Traduzido por Caia Fittipaldi

Directors Sebastian Junger and Tim Hetherington in the Korangal Valley during the filming of 'Restrepo'

Desde o tempo de escola, eu viajava para assistir aos filmes do Festival de Cinema de Edinburgh, com meu amigo Julian Holt. Por três razões. Apaixonado por trens, queria tirar fotos de locomotivas soltando fumaça na estação de Waverley.

Eu era fascinado por cinema ­– tinha ambições de ser crítico de cinema, além de correspondente estrangeiro ­– e conseguia escapar de meus pais superprotetores. Eram os dias de Faca na Água [1962] de Polanski e da Nouvelle Vague francesa. Fisk Filho, que se hospedava numa pensão obscura no velho porto de Leith – só bebedeiras e navios velhos – podia ser visto ocasionalmente na Casa de Chá Crawford, na Princes Street, lendo ostensivamente uma Cahiers du Cinéma.

Pois essa semana lá estava eu, de volta a Edinburgh, já sem locomotivas fumarentas, um Novotel em vez das pensões em Leith, mas outra vez de olhos esbugalhados para o mundo do cinema. Adorei o filme sobre o futebol afegão Out of the Ashes [aprox. ‘Saído das cinzas’], que meu amigo Andrew Buncombe já comentou para o The Independent, de lá do poleiro onde vive em Delhi. Mas fiquei fascinado com Restrepo [1], longo documentário para o qual dois valentes jornalistas Sebastian Junger e Tim Hetherington, consumiram 13 meses com o Segundo Batalhão da Companhia de Combate da 173ª Brigada Aérea dos EUA no vale Korangal, provavelmente os palmos de terra mais mortíferos de todo o Afeganistão.

O batalhão instala um posto batizado “OP [Observation Post] Restrepo” – em homenagem a camarada muito amado e muito morto – e lá enfrenta versão miniatura da batalha de Khe Sanh[2] à sombra da neve monumental do reino da Talibanlândia. Outro soldado morre frente às câmeras – é morto em patrulha e vê-se rapidamente o cadáver –, as balas zunindo em volta do cinegrafista. Depois de requisitar ataque aéreo a uma vila dita “terrorista”, o batalhão chega por terra à vila e só encontra cadáveres horrivelmente mutilados de crianças e civis.

Tudo isso ganhou picância extra quando o general Stanley McChrystal tropeçou e caiu espetado na própria espada aos pés de Barack Obama essa semana. Não gosto de generais, mas senti uma pontinha de simpatia por esse soldado arrogante. O desprezo que McChrystal manifesta por Richard Holbrooke, o incompetente, – enviado ao "Af-pak" (e que título mais completamente idiota!) que há eras merece, ele também, ser demitido – tem, no mínimo, o mérito da verdade.

Muito mais instrutivo, contudo, foi o comportamento de Obama. Mensalmente, o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu lança insultos e humilhações ao impotente e assustado Obama, que faz tsk-tsk com a língua e, imediatamente depois, mensalmente, jura fidelidade eterna a Israel. Mas quando seu homem n.1 no Afeganistão diz algumas verdades de cozinha sobre o chefe, Obama faz-se de valente e o demite. No exército de Israel, McChrystal faria sucesso!

Por ironia da história, um dos últimos atos de McChrystal foi, precisamente, retirar seus homens do vale Korangal e desativar o Posto de Observação Restrepo. Mas o repórter da rede al-Jazeera conseguiu entrar no posto abandonado há poucos dias, com um grupo de suspeitíssimos Talibãs – os quais, com grande júbilo, descobriram que os norte-americanos saíram tão depressa que deixaram para trás muita munição sobressalente. Para isso serviu o sacrifício do Segundo Batalhão e o ainda muito maior sacrifício dos aldeãos afegãs, que foram explodidos, na saída, em nome da “guerra ao terror”.

Sim, Restrepo, o filme, é impressionante. Não só porque mostra o medo dos soldados – e espetaculares cenas reais de batalha – mas pelos momentos cênicos, terríveis, na vila bombardeada. Uma menina, contorcida de dor, olha com tão total incompreensão nos olhos de seus torturadores, que, quem veja aquele olhar, verá que perdemos a guerra no Afeganistão.

Mesmo assim, eu, que sou velho o bastante para ter coberto a ocupação desse mesmo país há 30 anos, tenho de dizer que nenhuma câmera russa jamais filmou as vítimas inocentes da aventura enlouquecida de Brezhnev no Afeganistão. Se nós, como público, somos convidados a simpatizar com os soldados norte-americanos, verdade é que o filme não nos poupa de conhecer a verdade. Nenhum cinéfilo russo jamais viu as vítimas afegãs dos russos, as crianças mutiladas pelas minas russas, as famílias assassinadas nos postos russos de controle, cadáveres cortados ao meio nos ataques aéreos dos MIGs que eu via decolar preguiçosamente do aeroporto de Jalalabad.

Algo do mesmo tipo de sentimento vai para outro filme do Festival de Edinburgh, The Oath [3], filme não exaustivamente mas cuidadosamente pesquisado sobre Salim Hamdan, ex-motorista de Osama bin Laden e há muito hospedado em Guantanamo, e seu “amigo” jihadista Abu Jandal ("Pai da Morte"). Aqui, de repente, vemos um outro lado, diferente da face brutal dos EUA: o conselho de defesa militar norte-americano de Hamdan em Sana’a, ante um mar de parentes iemenitas de seu representado, expondo os motivos deles para libertar o homem e salvá-lo dos vergonhosos campos de prisioneiros de Bush. Os interrogadores árabes são polidos e visivelmente respeitosos ante o jovem advogado funcionário norte-americano que vem a uma cidade perigosa – para ele, pelo menos – para ajudar a garantir defesa justa a um dos homens de bin Laden.

Quantos países árabes mandariam um advogado do Estado para defender um norte-americano preso em prisão árabe – ou para conversar com parentes norte-americanos do preso, nos EUA? Quantos países árabes sequer discutiriam as leis sob as quais aprisionam, torturam e executam prisioneiros? Será que o público de Sana entendeu esse aspecto? Acho que sim. O povo árabe vê muito bem os traços brutais e corruptos de seus ditadores, tanto quanto nós vemos a loucura do poder nos EUA.

Ao final de The Oath, ficamos sabendo, cruelmente, que o “amigo” iemenita de Salim Hamdan, longe de ser, ele mesmo, jihadista leal, passou horas entregando ao FBI todos os detalhes do aparato de segurança de bin Laden, identificando colegas, localizando pontos de defesa antiaérea, o sistema de rádio de baterias alimentadas por painéis solares. Hamdan e Abu Jandal casaram-se com irmãs, obedecendo a instruções de bin Laden. Mas Abu Jandal, como se descobre, vendeu o amigo Hamdan aos norte-americanos. Libertado afinal de Guantanamo, Hamdan escreve carta curta e espantosamente contida ao homem que o traiu. "Cunhado amado e cabeça-dura: ouvi dizer que você deu entrevistas ao rádio e à televisão. Por que tudo isso? O homem deve buscar a paz e a segurança que Deus dá. Cuide de sua vida e não se meta na minha. Carta curta, espero resposta também curta. Que Deus o abençoe.”

Abençoado ou não, Jandal é item hoje na lista da Al-Q’aida para ser assassinado. E dos demitidos dessa semana, eu preferiria ser McChrystal. Afinal, logo logo reaparecerá, como "especialista" pago no canal Fox News.

Notas:

[1] Assista o trailer.

[2] Khe Sanh foi um dos postos norte-americanos mais remotos do Vietnã, que enfrentou longo sítio pelas forças do Exército do Vietnã do Norte. Em 1968, até o presidente Lyndon Johnson já sugeria que o posto fosse ‘discretamente’ evacuado. Mais informações.

[3] Créditos do filme e sinopse.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: The US film that confronts the truth about Afghanistan