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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Pepe Escobar – Obama & Estados do Golfo: Convescote com atlanticistas wahhabistas

16/5/2015, [*] Pepe Escobar, RT – Rússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Fotos: Kevin Lamarque


Barack Obama reúne-se com representantes do CCG (14/5/2015)
A reunião de cúpula do presidente dos EUA Barack Obama com o Conselho de Cooperação do Golfo – CCG, em Camp David, essa semana, cabe melhor nos anais do surrealismo que da geopolítica.

A gangue do petrodólar do CCG – Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Bahrain e Omã – clamava por um “acordo de segurança” com Washington similar àquele “relacionamento especial” com Israel. Bem... Não vai acontecer, porque a coisa teria de ser aprovada pelo Congresso, absoluto não-não, considerando que o lobby pró-Israel controla a maioria do Congresso nos EUA.

Não sendo isso, a segunda opção seria espernear para arranjar alguma aliança formal com a OTAN. Ora, já existe praticamente isso mesmo, como na guerra à Líbia, que foi operação OTAN-CCG de fato. Pode-se chamar de atlanticismo wahhabista.

No final, o que com certeza obterão são mais armas norte-americanas cada dia mais caras. Isso sim, é fato consumado: bonança para o complexo industrial-militar – e mais pilhas de instrutores norte-americanos.

Quanto ao bônus extra, é pouco provável. Os sauditas também estão aos berros, querendo um escudo inexpugnável, feito escudo de mísseis de defesa, invencível, que os proteja da “agressão iraniana” Nonsense. Assumindo-se que haja algum acordo nuclear assinado pelo final de julho entre Irã e o P5+1 – do mais alto interesse para EU, China e Rússia – Teerã não só estará “normalizada” no ocidente, mas também receberá massivo influxo de fundos, logo que as sanções sejam levantadas.

Compare isso com a agenda não-dita – especialmente da Casa de Saud, dos falcões nos Emirados e do duro regime do Bahrain, que querem que o Irã continue sob sanção até o dia do Juízo Final, e que permaneça como estado pária perene no ocidente.

Barack Obama: EUA estarão com os Estados
do Golfo, contra “ataques externos”
O que torna tudo ainda mais absurdo é que os gastos militares dos países do CCG somados são muito mais altos que os do Irã. E também há divisões internas. Omã, menos linha dura que os demais membros do CCG, é amigável em relação a Teerã. E os Emirados Árabes Unidos – sobretudo via Dubai – não podem negar que estão vivendo tempos de vacas gordas em investimentos iranianos.

No final, lá veio o ‘'documento final'’ proverbialmente longo, vago, destacando que as partes devem fazer mais manobras militares conjuntas e cooperar em incontáveis campos, inclusive em matéria de mísseis balísticos de defesa. E há planos, também, para acelerar o armamento generalizado de todos. E repetiram sua “unidade” na luta contra ISISISILDaesh.

Cuidado com vassalos que pedem presentes

Não é mistério que o CCG – conveniente pós-apêndice do extinto Império Britânico – leva a palma no que tange a comprar lixo militar por bilhões de dólares e, no caso da Casa de Saud, também no que tange a fixar o preço do petróleo. Muitos dos membros do CCG recebem massivas populações de trabalhadores migrantes – quase todos vindos do sul da Ásia – que superam em número os locais e mal conseguem sobreviver, naquela armadilha suarenta em que caíram, com zero direitos humanos respeitados.

Absurdo extra aí, é Qatar e Arábia Saudita apoiando suas próprias redes, não necessariamente conflitantes, de jihadistas salafista na Síria. A Casa de Saud também disparou “operação cinética” ilegal ao estilo da “Tempestade Decisiva” do Pentágono, de guerra/bombas contra o Iêmen – operação que, reza a mitologia do Departamento de Estado, em termos os mais orwellianos, seria “esforço” ao qual Washington limita-se a “assistir”.

A proverbial histeria da imprensa-empresa comercial norte-americana decidiu que o ISIS/ ISILDaesh pode estar a alguns passos de tomar o Texas ou bombardear New York. Mesmo assim a maioria dos companheiros associados do CCG continuam paranoicos: naquela sua visão de mundo obtusa, a única coisa indispensável é esmagar o falso Califato que empodera o governo de maioria xiita em Bagdá, liderado por Haydar al-Abadi do Partido Da’wa, que ameaça os wahhabistas por serem o que são: intolerantes, armados e perigosos.

Por tudo isso, certo de que nada como um renovado surto de paranoia, e calculando que não sairia de Camp David com os presentes que foi buscar do governo Obama autodescrito como “Não faça merda coisa estúpida”, o novo capo da Casa de Saud, o rei Salman, deu chilique, resolveu não ir e mandar o seu novo príncipe coroado, príncipe Muhammad bin Nayef. Afinal, esse é o homem da hora, na “nova” Casa de Saud, como examinei aqui.

Presidente Obama olha para o Vice-Primeiro Ministro de Omã, Sayyid Fahd bin Mahmoud Al Said (esq.) e para o Emir do Kuwait, Sheikh Sabah Al-Ahmed Al-Jaber Al-Sabah (2º à esq.), ao receber representantes das seis nações do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) em Camp David, Maryland, dia 14/5/2015
Onde está Osama?

E aí, surge o fantasma de Osama bin Laden.

Recente matéria assinada por Seymour Hersh, em que expõe o saco de mentiras da Casa Branca sobre o fim que deram a bin Laden continua a agitar as águas. Muitas das revelações já haviam sido noticiadas em 2011, por outras fontes.

O que emerge é que bin Laden foi inicialmente capturado pelos serviços secretos do Paquistão (ISI) e mantido sob estrita vigilância em Abbottabad desde 2006. Foi denunciado por um ex-alto funcionário da inteligência paquistanesa, que embolsou uma fortuna em troca da informação e vive hoje amoitado, com a família, na Virginia.

Importante jornal paquistanês dedicou-se à história por algum tempo. Em seguida, outro confirmou a identidade do informante.

Tendo assistido à CIA em ação do Af-Pak ao Iraque, não me surpreendi. A CIA jamais encontraria nem um dos cobertores marrons pashtuns de bin Laden, ao contrário do que ensinam mitos fixados por Hollywood, tipo A hora mais escura.

Quanto ao assassinato, foi – como se diz na gíria dos drones em Nevada – simples assassinato rotineiro, assassinato predefinido. Mais uma vez, diferente do que reza o mito, bin Laden não estava armado com sua Kalashnikov nem usou uma de suas esposas como escudo.

Hersh vai direto ao cerne da questão, quando escreve:

Mas o alto nível de mentiras continua a ser o modus operandi da política dos EUA, além das prisões secretas, ataques de dronesraids noturnos de forças especiais e por aí vai.

E elemento chave de todo o imbróglio é – mais uma vez – a longa mão da Casa de Saud. A citação radicalmente importante do artigo, de fonte top da CIA, falando a Hersh:

Os sauditas não queriam que a presença de bin Laden nos fosse revelada, porque ele era saudita; então disseram aos paquistaneses que o mantivessem fora de circulação. Os sauditas temiam que, se nós soubéssemos, pressionaríamos os paquistaneses para que deixassem bin Laden começar a nos contar o que os sauditas andaram fazendo com a Al-Qaeda. Eles estavam fazendo chover dinheiro – muito dinheiro! Os paquistaneses, por sua vez, temiam que os sauditas dessem com a língua nos dentes sobre [os paquistaneses] estarem com bin Laden. O medo era que, se os EUA soubessem de bin Laden por Riad, seria o inferno. Os EUA terem sabido sobre a prisão de bin Laden por um terceiro não foi a pior solução possível.

Examinei aqui por que toda a “guerra ao terror” é fraude. O que a torna a coisa diferente agora é que parece que os verdadeiros Masters of the Universe que comandam o eixo Washington/Wall Street começam a cansar-se da Casa de Saud.

Barack Obama: Patrocinador do terrorismo wahabbista
Agora, até o New York Times tem licença para publicar que:

Apoio saudita à jihad afegã há décadas ajudou a criar a Al-Qaeda.

Até há bem pouco tempo, essa ‘'notícia'’ seria totalmente inadmissível. A mesma matéria também registra que o novo rei Salman

(...) foi homem de ponta da realeza e levantador de fundos para jihadistas a caminho do Afeganistão, da Bósnia, de vários destinos.

Não é coincidência que esse tipo de matéria apareça exatamente quando Salman “esnobou” Obama ao não dar as caras naquele convescote wahhabista-atlanticista em Camp David.

Assim sendo, eis a conclusão: os que pela primeira vez financiaram Osama bin Laden e depois pagaram aos paquistaneses para que o mantivessem fora de circulação, agora querem que Washington lhes dê todos os tipos de “garantias” de segurança, para terem certeza de que permanecerão para sempre no poder. E continuam a ser a matriz ideológica da qual brotam milhares de novos Osamas.

História assim tão inverossímil, só se for verdade.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.




quinta-feira, 6 de março de 2014

Esfacela-se mais uma “frente-contra” inventada pelos EUA

O CCG − Conselho de Cooperação do Golfo RACHOU!

5/3/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comemoração do dia da libertação do Kuwait em 25/2/2014
Há muito tempo os EUA tentam firmar uma frente anti-Irã nos países árabes no Golfo Persa. O Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), fundado em 1981, incluía Bahrain, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O braço militar do CCG, o escudo peninsular, foi formado sob orientação dos EUA e como uma grande feira cativa para a venda de armas fabricadas nos EUA:

Gostaríamos de expandir nossa cooperação de segurança com parceiros na região, trabalhando de forma coordenada com o CCG, inclusive mediante a venda de artigos norte-americanos de defesa, através do CCG, como organização. Esse é um passo adiante natural, para melhorar a colaboração EUA-CCG, e permitirá que o CCG adquira capacidades militares críticas, inclusive itens para defesa com mísseis balísticos, segurança marítima e contraterrorismo − disse o secretário de Defesa, Chuck Hagel
...

[Hagel] disse que nos últimos dez anos, a venda de armamento militar avançado dos EUA às nações do CCG alterou o equilíbrio militar a favor do CCG e contra o Irã.

O Conselho de Cooperação do Golfo (antes de "rachar")
Hoje, o CCG rachou:

Arábia Saudita, Bahrain e os Emirados Árabes Unidos retiraram seus embaixadores de Doha, na 4ª-feira (5/3/2014), como protesto contra a interferência do Qatar em seus assuntos internos, anunciaram em declaração conjunta.

Os três países árabes do Golfo tomaram a decisão, depois do que os jornais descreveram como “reunião tempestuosa” em Riad, tarde da noite, na 3ª-feira (4/3/2014), entre os ministros de Relações Exteriores das seis nações que formam o CCG.

Os países do GCC “empreenderam esforços massivos para entenderem-se com o Qatar, em vários níveis, para chegar a uma política unificada (...) para garantir a não interferência, direta ou indireta, nos assuntos internos de cada um dos estados membros” – diz a declaração.

As nações também pediram ao Qatar, apoiador do movimento da Fraternidade Muçulmana, banido na maioria dos estados do Golfo, que “não apoie qualquer partido que ameace a segurança e a estabilidade de qualquer membro do CCG” – citando, em particular, as campanhas pela imprensa contra aqueles membros.

A declaração diz que, apesar de o emir do Qatar , Sheikh Tamim bin Hamad al-Thani, ter-se comprometido com esses princípios, em mini-cúpula realizada em Riad em novembro, com o emir do Kuwait e o monarca saudita, o Qatar não cumpriu o compromisso que assumiu.

Os investimentos do Golfo em empresas do Qatar caíram depois de divulgada a declaração, mas o Qatar ainda tem alguns instrumentos de pressão, porque fornece gás natural aos Emirados Árabes Unidos. Kuwait e Omã, também membros do CCG não convocaram seus embaixadores.

O Qatar não está navegando com segurança no Golfo Pérsico
Qatar e Arábia Saudita vêm lutando pela liderança do “arquivo sírio”, em torno de interpretações ideológicas do Islã, mas também em torno da posição anti-Irã fanática da Arábia Saudita. Omã é outro país que não adere muito firmemente à posição anti-Irã liderada por EUA/sauditas, no CCG. Agora, os EUA têm em mãos mais um grande problema de política exterior.

Os EUA parecem estar falhando em todos os cantos onde tentam unir seus “aliados” em campanha anti-alguém, sob comando dos EUA.

Na Europa, os “aliados” dos EUA discordam quanto a possíveis sanções contra a Rússia, e não seguirão o comando anti-Rússia que os EUA preferem. No sudeste da Ásia, os “aliados” dos EUA, Coreia do Sul e Japão batem cabeça um contra o outro, e não acompanharão os EUA em sua campanha anti-China. Agora, com o CCG rachado, a campanha anti-Irã comandada pelos EUA no Golfo parece também estar fazendo água.

As aspirações de política externa de total dominação pelos EUA enfrentam dificuldades, com os “aliados” cuidando cada vez mais dos próprios interesses, em vez de acompanhar a liderança, tantas vezes lunática, de Washington.

Aí está um fato histórico, que os atores da política exterior em Washington ainda não entenderam.
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Dos COMENTÁRIOS a esse postado:

Ver em:E o Kuwait está fazendo sua rebelião à parte, contra o CCG. (Postado por Mina − Mar 5, 2014 7:27:35 AM)



[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blogMoon of  Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Pepe Escobar: “Sangue nas trilhas iraquiano-sírias”


Pepe Escobar

17/8/2011, Pepe Escobar, AToL
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Foi segunda-feira sangrenta em todo o Iraque; dois suicidas-bomba, 11 carros-bomba e 19 VBIEDs (língua do Pentágono para dizer “vehicle-borne improvised explosive devices”, dispositivos explosivos improvisados instalados em veículos) –, com cerca de 70 mortos e mais de 300 feridos. 

Carros-bomba em Najaf, outro dentro do principal mercado em Kut, uma bomba detonada ao lado do comboio que acompanhava o prefeito de Baquba, dois suicidas-bomba contra uma unidade iraquiana de contraterrorismo em Tikrit, uma bomba detonada em área próxima de um comboio do governo no subúrbio de Mansur em Bagdá. – O fato de a segunda-feira sangrenta ter acontecido menos de duas semanas depois que o governo de Nuri al-Maliki anunciou negociações para que Washington mantenha no Iraque pelo menos parte dos atuais 48 mil soldados, depois de esgotado o prazo final de 2011 para completa retirada dos EUA do Iraque, inevitavelmente obriga a perguntar: quem ganha alguma coisa, de todo esse sangue? 

A al-Qaeda no Iraque tem o que ganhar, talvez, se sua estratégia for impedir que os EUA consigam escapar do pântano iraquiano –, dado que a principal acusação que atravessou o Potomac e domina a narrativa tem a ver com a “capacidade” das forças iraquianas, em cenário em que estariam “sobrecarregadas na luta contra os insurgentes”. Mais sangue no Iraque também interessa aos neoconservadores norte-americanos, aos falcões de gabinete, sobretudo no Pentágono, e praticamente a todos os Republicanos e pelas mesmas razões, também se beneficiam, em contexto de mais sangue. 

Mohamed al-Adnani, porta-voz da al-Qaeda no Iraque, parece ter fortalecido essa hipótese, dizendo, semana passada, por um website islâmico: “Não se preocupem, os dias de Zarqawi logo voltarão.” 

Se é mensagem autêntica da al-Qaeda no Iraque, está destinada ao fracasso, exatamente como Abu Musab al-Zarqawi, líder da al-Qaeda no Iraque, fracassou miseravelmente – foi assassinado em 2006 – e seus métodos sanguinolentos usados contra os próprios iraquianos sunitas. Não faz sentido algum – além de ser profundamente não islâmico que a al-Qaeda no Iraque bombardeie indiscriminadamente áreas de maioria sunita e de maioria xiita, com muitas mortes de civis, e durante o mês do jejum de Ramadan, sagrado para todos os muçulmanos. 

Estabilidade é sempre relativa 

A segunda-feira sangrenta no Iraque vem depois da sexta-feira sangrenta na Síria – e muitos perdem o sono em Bagdá, preocupados com o que acontece na Síria. 

Mas, por mais que a violência viciosa do aparelho de segurança do presidente Bashar al-Assad incomode Maliki, seu governo nada fez até agora para pressionar Damasco (ao contrário dos curdos e do Partido Iraqiya de maioria sunita, que já criticaram com veemência o governo de Assad). 

Há muitas razões para essa omissão. Quando ainda vivia exilado, nos tempos de Saddam Hussein, Maliki foi sempre muito bem acolhido pelo regime dinástico dos Assad. Maliki – como a maioria dos xiitas iraquianos – teme a volta dos sunitas salafitas, no caso (até agora altamente improvável) de o regime sírio, controlado pela seita xiita dos alawitas, cair. 

Teerã, que é xiita, por sua vez, também teme aquele mesmo cenário. Mas isso não significa necessariamente – como os EUA repetem sem parar – que o Irã, que, sim, de fato, negociou a formação da maioria parlamentar a favor de Maliki em Bagdá, esteja manobrando todos os cordões, das sombras. 

Maliki – pessoalmente encarregado do Ministério da Defesa e do aparelho de segurança em Bagdá – é homem muito próximo de Teerã. Mas, sobretudo, é nacionalista iraquiano. Sua posição é muito mais nuançada – quer reformas, mas ao mesmo tempo adverte que o governo de Assad não deve ser desestabilizado, porque na Síria é “ou Assad ou o caos”. 

A sede de sangue do regime de Assad pode ser confundida com alguma espécie de patologia. O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan da Turquia não é nenhum Maliki – e sua paciência está chegando ao fim. Aparentemente, o regime Assad ganhou algum tempo depois da visita do ministro turco de Relações Exteriores Ahmet Davutoglu a Damasco, semana passada (ver “Síria: Assad não cairá”, 12/8/2011).

A gota d’água para Davutoglu pode ter acontecido no fim de semana, quando as forças do regime sírio intensificaram o sítio de Latakia. Muito significativamente, Davutoglu anunciou, nessa 2ª-feira: “É nossa última palavra às autoridades sírias: Esperamos absolutamente que todas essas operações sejam imediata e incondicionalmente suspensas. Se as operações não forem suspensas, nada mais haverá a discutir sobre medidas a serem tomadas.” 

Mas... e agora? A Turquia invade a Síria, com a ajuda da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)? 

A possibilidade de que o regime de Assad como um todo esteja numa viagem suicida é quase impensável. Mas o regime luta pela vida; reformas realmente democráticas implicam o fim do regime. As manifestações não param, e podem já estar chegando a Aleppo, a segunda maior cidade do país; e a linha oficial não muda: é rebelião armada por sunitas islâmicos financiada de fora (quer dizer, pela Arábia Saudita e por milionários “pessoais” do Golfo Persa). 

Pode ser parcialmente verdade – no que tenha a ver com ramos mais radicais da Fraternidade Muçulmana, aquela “nuvem” sem contornos precisos de salafitas. Mas não explica o que a romancista síria Samar Yazbek define como “revolução de Spartacus - escravos contra os senhores”, que começou no interior, entre os mais pobres e oprimidos, e espalhou-se globalmente para a juventude e os intelectuais urbanos plugados. 

Agora, quando uma Bagdá “estável” olha para uma Síria “instável”, tenta avaliar o nível de popularidade do levante – e até que ponto a repressão furiosa poderá provocar, dentre outros resultados, uma crise reversa de refugiados, imagem especular da guerra sectária no Iraque, que gerou uma onda de refugiados iraquianos que atravessaram a fronteira em direção à Síria em 2006/2007. 

Bagdá também tenta avaliar o jogo que a Casa de Saud está jogando – a paranóia cósmica dos sauditas, que só vê o “crescente xiita”, levando a Casa de Saud à guerra contra todos os regimes sunitas. Dizer que Riad é hostil a Bagdá é dizer o mínimo. 

E há também, mais uma vez, o Kuwait, que nos tempos otomanos não passava de anexo do que, depois, viria a ser o Iraque. Membros do parlamento em Bagdá já acusam abertamente o Kuwait de roubar petróleo iraquiano, em perfurações clandestinas dentro do território iraquiano. Pode-se dizer que a história se repete outra vez como tragédia – não como farsa – porque essa, precisamente, era a amarga reclamação de Saddam contra o Kuwait em 1990; e foi a razão-chave para que o Iraque invadisse o Kuwait, o que levou à primeira guerra do Golfo. 

Quero dizer que, sim, Bagdá sabe por experiência própria que vive cercada de vizinhos muito perigosos. Portanto, precisa de forças armadas poderosas. A história volta como farsa trágica, se, para conseguir as forças armadas poderosas de que precisa, Bagdá tem de pedir ajuda a Washington – exatamente a mesma superpotência que destruiu o Iraque. 

sábado, 27 de novembro de 2010

Oceanos de sangue e lucros para os mercadores da guerra

27/11/2010, The Independent, UK

Robert Fisk: Oceans of blood and profits for the mongers of war

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

As casualties continue to mount in Afghanistan, so does the cost of war after nine years
As vítimas continuam a crescer no Afeganistão, o mesmo acontece com o custo da guerra depois de nove anos

Dado que há hoje três conflitos no Grande Oriente Médio – Afeganistão, Iraque, Israel/“Palestina” e talvez a caminho nova guerra no Líbano –, parece boa ideia dar uma olhada nos custos da guerra.

Não o custo humano – 80 vidas num dia no Iraque, números não sabidos no Afeganistão, nenhum dia sem mortes em Israel/“Palestina” –, mas o custo financeiro. Ainda vivo obcecado pelo pedido dos sauditas, que exigiram seu dinheiro de volta, depois que Saddam Hussein invadiu o Kuwait em 1990. O rei Fahd da Arábia Saudita lembrou a Saddam que financiou sua guerra de oito anos contra o Irã, ao custo de espantosos $25.734.469.885,80. Foi muito generoso. Pagou pela custódia dos dois locais sagrados Meca e Medina. Foram mais de $25 bilhões entregues a Saddam para que massacrasse seus irmãos muçulmanos. Aqueles 80 centavos foram pura ganância.

Mas, falando em rapacidade, os árabes gastaram $84 bilhões subscrevendo a operação anglo-norte-americana contra Saddam em 1990-91 – três vezes o que Fahd pagou a Saddam pela guerra do Irã – e só a parte dos sauditas chegou, só ela, a $27,5 bilhões. No total, os árabes amargaram perda de $620 bilhões, por causa da invasão do Kuwait pelo Iraque em 1990 – despesa quase toda reembolsada pelos EUA e aliados. Em agosto de 1991, Washington reclamava que a Arábia Saudita e o Kuwait ainda deviam $7,5 bilhões. É como se as guerras do ocidente no Oriente Médio visassem tanto ao lucro quanto à vitória. Se o Iraque não tivesse sido o desastre que foi, talvez nos tivesse enriquecido. Se sauditas e Kuwait pagassem suas dívidas, ajudariam os EUA a manter o constante derrame de dinheiro dos EUA nas desastrosas guerras de Israel.

Segundo o historiador israelense Illan Pappé, desde 1949 os EUA entregaram a Israel mais de $100 bilhões em doações e $10 bilhões em empréstimos especiais – mais do que Washington destina ao Norte da África, à América Latina e ao Caribe. Nos últimos 20 anos, Israel recebeu $5,5 bilhões para compras militares. Mas para avaliar a autodepredação dos EUA, é preciso considerar as perdas, dignas de Midas desatinado, em todo o Oriente Médio, só a partir de 1991 – estimados $12.000.000.000.000,00.  Iéz, 12 trilhões secos. Se alguém duvidar, basta conferir num livrinho despretensioso que o “Strategic Fortnight Group” publicou há pouco tempo. Aquelas estatísticas chegaram a algumas manchetes, mas depois ficaram praticamente esquecidas, talvez porque tenham sido editadas na distante Mumbai, Índia, não por algum ignóbil “think-tank” (como eles dizem, e que eu, em vez de “centro avançado de reflexão”, prefiro chamar de “centro para funilaria de ideias velhas”[1]). Mas a publicação foi patrocinada, dentre outros, pelos ministérios de Relações Exteriores da Noruega e da Suíça. E os indianos são muito espertos com dinheiro, como sabemos, agora que todos tanto tememos sua nova super-economia.

E, dado que há à vista uma nova guerra Israel-Hizbollah, se considerarmos os custos astronômicos de todos aqueles F-16s, mísseis, “bunker-busters”, foguetes de fabricação iraniana, que destruíram fábricas, vilas, cidades, pontes, centrais de energia elétrica, terminais de petróleo libaneses –, nem nos sujaremos com os 1.300 patéticos mortos do Líbano e os 130 patéticos mortos de Israel na guerra de 2006, os quais, afinal, eram meros mortais –, para não falar do que se perdeu como renda do turismo e no comércio, dos dois lados. No total, o Líbano perdeu na guerra de 2006 estimados $3,6 bilhões; Israel, $1,6 bilhão – o que indica que, em termos de dinheiro, Israel saiu ganhando, apesar de o exército-ralé de Israel não ter deixado pedra sobre pedra por onde passou. Mas, entre os que pagaram por tudo isso há contribuintes norte-americanos (que financiam os israelenses) e contribuintes europeus. Potentados árabes e o doido do Irã (que financiam o Líbano).

Em outras palavras, o contribuinte norte-americano destrói o que o contribuinte europeu reconstrói. O mesmo acontece em Gaza: Washington financia as armas que explodem os projetos financiados pela União Europeia, e a União Europeia os reconstrói sempre a tempo de serem novamente destruídos. Mas, Oh! Sim!, na guerra do Líbano, os fabricantes de armas norte-americanos encheram as burras – quase tanto quanto os mercadores de mísseis iranianos e chineses.

Desagreguemos os números da guerra do Líbano de 2006. Pontes e estradas: $450 milhões. Fábricas: $419 milhões. Residências: $2 bilhões. Mas “instituições” militares: reles $16 milhões. Do que se sabe, o Hizbollah gastou $300 milhões. No total, as reconstruções consumiram $319 milhões, reparos na infra-estrutura, $454 milhões; vazamentos de óleo, $175 milhões. Para acrescentar um pouco de prazer sádico, somem-se os incêndios florestais ($4,6 milhões), deslocamento de civis ($52 milhões) e o aeroporto de Beirute ($170 milhões). O maior prejuízo de todos? No turismo, com perdas de $3-4 bilhões. Agora, Israel. O turismo perdeu $1,4 bilhão, “governo e serviços emergenciais” $460 milhões, businesses $1,4 bilhão, compensação paga $335,4 milhões, incêndios florestais $18 milhões. O que teriam o exército de Israel e o Hizbollah contra florestas? No total, os israelenses perderam 1,5% do PIB; os libaneses, 8% do PIB.

E quanto à “corrida armamentista” no Oriente Médio – cujos jóqueis são os fabricantes de armas e os apontadores são os países da região e, claro, as suas "huddled masses"[2]. A Arábia Saudita, como se lê no relatório de Mumbai, saltou, numa década, entre 1996 e 2006, de $18 bilhões para $30 bilhões ao ano – acaba de fechar negócio de $60 bilhões com os EUA – e o Irã, de $3 bilhões para $10 bilhões. Israel foi de $8 bilhões para $12 bilhões. De fato, há interessante correlação entre os mísseis ultramodernos e de alma democrática, de Israel, disparados entre 2000 e 2007 – 34.050 – e os mísseis do Hamás, de alma terrorista, do mal: pífios 2.333.

Há várias preciosidades nessa apavorante lista de horrores financeiros e sociais. Dia 11/9/2001, havia apenas 16 nomes na lista de pessoas proibidas de embarcar em aviões nos EUA; em dezembro, eram 594. Em agosto de 2008, a lista incluía inacreditáveis 100 mil nomes. Nesse ritmo, em dois anos, a lista de “terroristas procurados” dos EUA alcançará 2 milhões de almas.

Desde 1974, os soldados da ONU que estão nas colinas de Golan para manter a paz custaram $47,86 milhões. E desde 1978, a ONU consumiu $680,93 milhões com seus soldados da paz, no sul do Líbano.

Em breve nesse canal, portanto, mais uma guerra perto de você; oceanos de sangue, cadáveres em pedaços, claro. Mas não esqueça de trazer o cartão de crédito, ou o talão de cheques. É big business. Há possibilidade de lucros.


NOTAS
[1] Essa é uma tradução tentativa, arriscada, de um trocadilho intraduzível: no orig. “think-tank” vs “tink-tank” .

[2] “Huddled masses” [aproximadamente “grande quantidade de pessoas, agarradas umas às outras, desorganizadas”] é expressão que aparece no poema “The New Colossus”, de Emma Lazarus, inscrito aos pés da Estátua da Liberdade, em NY: "Give me your tired, your poor / Your huddled masses yearning to breathe free / The wretched refuse of your teeming shore. / Send these, the homeless, tempest-tost to me, /I lift my lamp beside the golden door!"