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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Pepe Escobar – Obama & Estados do Golfo: Convescote com atlanticistas wahhabistas

16/5/2015, [*] Pepe Escobar, RT – Rússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Fotos: Kevin Lamarque


Barack Obama reúne-se com representantes do CCG (14/5/2015)
A reunião de cúpula do presidente dos EUA Barack Obama com o Conselho de Cooperação do Golfo – CCG, em Camp David, essa semana, cabe melhor nos anais do surrealismo que da geopolítica.

A gangue do petrodólar do CCG – Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Bahrain e Omã – clamava por um “acordo de segurança” com Washington similar àquele “relacionamento especial” com Israel. Bem... Não vai acontecer, porque a coisa teria de ser aprovada pelo Congresso, absoluto não-não, considerando que o lobby pró-Israel controla a maioria do Congresso nos EUA.

Não sendo isso, a segunda opção seria espernear para arranjar alguma aliança formal com a OTAN. Ora, já existe praticamente isso mesmo, como na guerra à Líbia, que foi operação OTAN-CCG de fato. Pode-se chamar de atlanticismo wahhabista.

No final, o que com certeza obterão são mais armas norte-americanas cada dia mais caras. Isso sim, é fato consumado: bonança para o complexo industrial-militar – e mais pilhas de instrutores norte-americanos.

Quanto ao bônus extra, é pouco provável. Os sauditas também estão aos berros, querendo um escudo inexpugnável, feito escudo de mísseis de defesa, invencível, que os proteja da “agressão iraniana” Nonsense. Assumindo-se que haja algum acordo nuclear assinado pelo final de julho entre Irã e o P5+1 – do mais alto interesse para EU, China e Rússia – Teerã não só estará “normalizada” no ocidente, mas também receberá massivo influxo de fundos, logo que as sanções sejam levantadas.

Compare isso com a agenda não-dita – especialmente da Casa de Saud, dos falcões nos Emirados e do duro regime do Bahrain, que querem que o Irã continue sob sanção até o dia do Juízo Final, e que permaneça como estado pária perene no ocidente.

Barack Obama: EUA estarão com os Estados
do Golfo, contra “ataques externos”
O que torna tudo ainda mais absurdo é que os gastos militares dos países do CCG somados são muito mais altos que os do Irã. E também há divisões internas. Omã, menos linha dura que os demais membros do CCG, é amigável em relação a Teerã. E os Emirados Árabes Unidos – sobretudo via Dubai – não podem negar que estão vivendo tempos de vacas gordas em investimentos iranianos.

No final, lá veio o ‘'documento final'’ proverbialmente longo, vago, destacando que as partes devem fazer mais manobras militares conjuntas e cooperar em incontáveis campos, inclusive em matéria de mísseis balísticos de defesa. E há planos, também, para acelerar o armamento generalizado de todos. E repetiram sua “unidade” na luta contra ISISISILDaesh.

Cuidado com vassalos que pedem presentes

Não é mistério que o CCG – conveniente pós-apêndice do extinto Império Britânico – leva a palma no que tange a comprar lixo militar por bilhões de dólares e, no caso da Casa de Saud, também no que tange a fixar o preço do petróleo. Muitos dos membros do CCG recebem massivas populações de trabalhadores migrantes – quase todos vindos do sul da Ásia – que superam em número os locais e mal conseguem sobreviver, naquela armadilha suarenta em que caíram, com zero direitos humanos respeitados.

Absurdo extra aí, é Qatar e Arábia Saudita apoiando suas próprias redes, não necessariamente conflitantes, de jihadistas salafista na Síria. A Casa de Saud também disparou “operação cinética” ilegal ao estilo da “Tempestade Decisiva” do Pentágono, de guerra/bombas contra o Iêmen – operação que, reza a mitologia do Departamento de Estado, em termos os mais orwellianos, seria “esforço” ao qual Washington limita-se a “assistir”.

A proverbial histeria da imprensa-empresa comercial norte-americana decidiu que o ISIS/ ISILDaesh pode estar a alguns passos de tomar o Texas ou bombardear New York. Mesmo assim a maioria dos companheiros associados do CCG continuam paranoicos: naquela sua visão de mundo obtusa, a única coisa indispensável é esmagar o falso Califato que empodera o governo de maioria xiita em Bagdá, liderado por Haydar al-Abadi do Partido Da’wa, que ameaça os wahhabistas por serem o que são: intolerantes, armados e perigosos.

Por tudo isso, certo de que nada como um renovado surto de paranoia, e calculando que não sairia de Camp David com os presentes que foi buscar do governo Obama autodescrito como “Não faça merda coisa estúpida”, o novo capo da Casa de Saud, o rei Salman, deu chilique, resolveu não ir e mandar o seu novo príncipe coroado, príncipe Muhammad bin Nayef. Afinal, esse é o homem da hora, na “nova” Casa de Saud, como examinei aqui.

Presidente Obama olha para o Vice-Primeiro Ministro de Omã, Sayyid Fahd bin Mahmoud Al Said (esq.) e para o Emir do Kuwait, Sheikh Sabah Al-Ahmed Al-Jaber Al-Sabah (2º à esq.), ao receber representantes das seis nações do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) em Camp David, Maryland, dia 14/5/2015
Onde está Osama?

E aí, surge o fantasma de Osama bin Laden.

Recente matéria assinada por Seymour Hersh, em que expõe o saco de mentiras da Casa Branca sobre o fim que deram a bin Laden continua a agitar as águas. Muitas das revelações já haviam sido noticiadas em 2011, por outras fontes.

O que emerge é que bin Laden foi inicialmente capturado pelos serviços secretos do Paquistão (ISI) e mantido sob estrita vigilância em Abbottabad desde 2006. Foi denunciado por um ex-alto funcionário da inteligência paquistanesa, que embolsou uma fortuna em troca da informação e vive hoje amoitado, com a família, na Virginia.

Importante jornal paquistanês dedicou-se à história por algum tempo. Em seguida, outro confirmou a identidade do informante.

Tendo assistido à CIA em ação do Af-Pak ao Iraque, não me surpreendi. A CIA jamais encontraria nem um dos cobertores marrons pashtuns de bin Laden, ao contrário do que ensinam mitos fixados por Hollywood, tipo A hora mais escura.

Quanto ao assassinato, foi – como se diz na gíria dos drones em Nevada – simples assassinato rotineiro, assassinato predefinido. Mais uma vez, diferente do que reza o mito, bin Laden não estava armado com sua Kalashnikov nem usou uma de suas esposas como escudo.

Hersh vai direto ao cerne da questão, quando escreve:

Mas o alto nível de mentiras continua a ser o modus operandi da política dos EUA, além das prisões secretas, ataques de dronesraids noturnos de forças especiais e por aí vai.

E elemento chave de todo o imbróglio é – mais uma vez – a longa mão da Casa de Saud. A citação radicalmente importante do artigo, de fonte top da CIA, falando a Hersh:

Os sauditas não queriam que a presença de bin Laden nos fosse revelada, porque ele era saudita; então disseram aos paquistaneses que o mantivessem fora de circulação. Os sauditas temiam que, se nós soubéssemos, pressionaríamos os paquistaneses para que deixassem bin Laden começar a nos contar o que os sauditas andaram fazendo com a Al-Qaeda. Eles estavam fazendo chover dinheiro – muito dinheiro! Os paquistaneses, por sua vez, temiam que os sauditas dessem com a língua nos dentes sobre [os paquistaneses] estarem com bin Laden. O medo era que, se os EUA soubessem de bin Laden por Riad, seria o inferno. Os EUA terem sabido sobre a prisão de bin Laden por um terceiro não foi a pior solução possível.

Examinei aqui por que toda a “guerra ao terror” é fraude. O que a torna a coisa diferente agora é que parece que os verdadeiros Masters of the Universe que comandam o eixo Washington/Wall Street começam a cansar-se da Casa de Saud.

Barack Obama: Patrocinador do terrorismo wahabbista
Agora, até o New York Times tem licença para publicar que:

Apoio saudita à jihad afegã há décadas ajudou a criar a Al-Qaeda.

Até há bem pouco tempo, essa ‘'notícia'’ seria totalmente inadmissível. A mesma matéria também registra que o novo rei Salman

(...) foi homem de ponta da realeza e levantador de fundos para jihadistas a caminho do Afeganistão, da Bósnia, de vários destinos.

Não é coincidência que esse tipo de matéria apareça exatamente quando Salman “esnobou” Obama ao não dar as caras naquele convescote wahhabista-atlanticista em Camp David.

Assim sendo, eis a conclusão: os que pela primeira vez financiaram Osama bin Laden e depois pagaram aos paquistaneses para que o mantivessem fora de circulação, agora querem que Washington lhes dê todos os tipos de “garantias” de segurança, para terem certeza de que permanecerão para sempre no poder. E continuam a ser a matriz ideológica da qual brotam milhares de novos Osamas.

História assim tão inverossímil, só se for verdade.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.




quinta-feira, 6 de março de 2014

Esfacela-se mais uma “frente-contra” inventada pelos EUA

O CCG − Conselho de Cooperação do Golfo RACHOU!

5/3/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comemoração do dia da libertação do Kuwait em 25/2/2014
Há muito tempo os EUA tentam firmar uma frente anti-Irã nos países árabes no Golfo Persa. O Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), fundado em 1981, incluía Bahrain, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O braço militar do CCG, o escudo peninsular, foi formado sob orientação dos EUA e como uma grande feira cativa para a venda de armas fabricadas nos EUA:

Gostaríamos de expandir nossa cooperação de segurança com parceiros na região, trabalhando de forma coordenada com o CCG, inclusive mediante a venda de artigos norte-americanos de defesa, através do CCG, como organização. Esse é um passo adiante natural, para melhorar a colaboração EUA-CCG, e permitirá que o CCG adquira capacidades militares críticas, inclusive itens para defesa com mísseis balísticos, segurança marítima e contraterrorismo − disse o secretário de Defesa, Chuck Hagel
...

[Hagel] disse que nos últimos dez anos, a venda de armamento militar avançado dos EUA às nações do CCG alterou o equilíbrio militar a favor do CCG e contra o Irã.

O Conselho de Cooperação do Golfo (antes de "rachar")
Hoje, o CCG rachou:

Arábia Saudita, Bahrain e os Emirados Árabes Unidos retiraram seus embaixadores de Doha, na 4ª-feira (5/3/2014), como protesto contra a interferência do Qatar em seus assuntos internos, anunciaram em declaração conjunta.

Os três países árabes do Golfo tomaram a decisão, depois do que os jornais descreveram como “reunião tempestuosa” em Riad, tarde da noite, na 3ª-feira (4/3/2014), entre os ministros de Relações Exteriores das seis nações que formam o CCG.

Os países do GCC “empreenderam esforços massivos para entenderem-se com o Qatar, em vários níveis, para chegar a uma política unificada (...) para garantir a não interferência, direta ou indireta, nos assuntos internos de cada um dos estados membros” – diz a declaração.

As nações também pediram ao Qatar, apoiador do movimento da Fraternidade Muçulmana, banido na maioria dos estados do Golfo, que “não apoie qualquer partido que ameace a segurança e a estabilidade de qualquer membro do CCG” – citando, em particular, as campanhas pela imprensa contra aqueles membros.

A declaração diz que, apesar de o emir do Qatar , Sheikh Tamim bin Hamad al-Thani, ter-se comprometido com esses princípios, em mini-cúpula realizada em Riad em novembro, com o emir do Kuwait e o monarca saudita, o Qatar não cumpriu o compromisso que assumiu.

Os investimentos do Golfo em empresas do Qatar caíram depois de divulgada a declaração, mas o Qatar ainda tem alguns instrumentos de pressão, porque fornece gás natural aos Emirados Árabes Unidos. Kuwait e Omã, também membros do CCG não convocaram seus embaixadores.

O Qatar não está navegando com segurança no Golfo Pérsico
Qatar e Arábia Saudita vêm lutando pela liderança do “arquivo sírio”, em torno de interpretações ideológicas do Islã, mas também em torno da posição anti-Irã fanática da Arábia Saudita. Omã é outro país que não adere muito firmemente à posição anti-Irã liderada por EUA/sauditas, no CCG. Agora, os EUA têm em mãos mais um grande problema de política exterior.

Os EUA parecem estar falhando em todos os cantos onde tentam unir seus “aliados” em campanha anti-alguém, sob comando dos EUA.

Na Europa, os “aliados” dos EUA discordam quanto a possíveis sanções contra a Rússia, e não seguirão o comando anti-Rússia que os EUA preferem. No sudeste da Ásia, os “aliados” dos EUA, Coreia do Sul e Japão batem cabeça um contra o outro, e não acompanharão os EUA em sua campanha anti-China. Agora, com o CCG rachado, a campanha anti-Irã comandada pelos EUA no Golfo parece também estar fazendo água.

As aspirações de política externa de total dominação pelos EUA enfrentam dificuldades, com os “aliados” cuidando cada vez mais dos próprios interesses, em vez de acompanhar a liderança, tantas vezes lunática, de Washington.

Aí está um fato histórico, que os atores da política exterior em Washington ainda não entenderam.
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Dos COMENTÁRIOS a esse postado:

Ver em:E o Kuwait está fazendo sua rebelião à parte, contra o CCG. (Postado por Mina − Mar 5, 2014 7:27:35 AM)



[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blogMoon of  Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:

segunda-feira, 7 de março de 2011

Sultão de Omã não consegue deter protestos

Novos protestos populares aconteceram no sultanato de Omã esta semana, seguindo uma onda de manifestações que pedem democracia em todo o mundo árabe. Os manifestantes exigem mais empregos e reformas políticas. Os partidos políticos estão proibidos em Omã, e o sultão Qabus exerce o poder absoluto.

ARTIGO | 6 MARÇO, 2011 - 16:58

Em Omã, os manifestantes exigem mais empregos e reformas políticas.
Em Omã, os manifestantes exigem mais empregos e reformas políticas.

Sohar, Omã, 4/3/2011 – A habitual tranquilidade na cidade portuária de Sohar, no Norte, foi abalada nos últimos dias. Testemunhas disseram que soldados dispararam para o ar e feriram uma pessoa, no dia 1, quando tentavam dispersar uma multidão que protestava perto dessa cidade. “Éramos entre 200 e 300 pessoas na estrada. O Exército começou a disparar para o ar”, contou um dos manifestantes. “Muitas pessoas correram. O homem atingido tentava acalmar o Exército”, acrescentou.

A multidão dispersou-se, somente para se reagrupar na Praça Globe, perto do Porto, e as tropas se retiraram, segundo testemunhas. Mais tarde, o tráfego começou a fluir livremente no Porto, e na Praça ficaram estacionados cinco blindados, mas os manifestantes tinham desaparecido. Era o quarto dia de protestos em Omã. Os manifestantes exigem mais empregos e reformas políticas. No dia 28 de Fevereiro, eles bloquearam a entrada do Porto de Sohar, que exporta diariamente 160 mil barris de 159 litros cada de petróleo refinado.

Também foram registrados pequenos protestos na capital, Mascate. Cerca de 300 pessoas manifestaram diante da sede da Assembleia Consultiva do Sultanato, no dia 1, exigindo reformas e o fim da corrupção. O protesto foi organizado por intelectuais e organizações da sociedade civil. Os manifestantes carregavam cartazes onde se lia “queremos empregos”, “queremos salários melhores”, e “queremos liberdade de imprensa”.

Enquanto isso, cerca de duas mil pessoas reuniram numa mesquita para expressar o seu apoio à monarquia absoluta do sultão Qabus bin Said, que governa este país há quatro décadas. Os seus partidários responsabilizaram os manifestantes pela violência desta semana. No dia 27 de Fevereiro, numa tentativa de acalmar as tensões, o sultão prometeu criar 50 mil novos empregos, fornecer ajuda aos desempregados no valor de 390 dólares mensais e considerar uma ampliação dos poderes da Assembleia Consultiva, que exerce apenas a função de assessoria.

Houve informes desencontrados sobre o número de mortos nos confrontos de Sohar no dia 27, quando a polícia abriu fogo contra os manifestantes que atiravam pedras, após tentar dispersá-los com cassetetes e gás lacrimogêneo. O Ministério da Saúde informou que uma pessoa morreu, mas um médico e várias enfermeiras de um hospital estatal asseguraram que houve seis vítimas fatais. “Estamos em contacto com o governo e aconselhamos a contenção e a resolução dos conflitos por meio do diálogo”, disse no dia 28 o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, P. J. Crowley.

Os partidos políticos estão proibidos em Omã, e o sultão Qabus exerce o poder absoluto. O monarca reorganizou o seu gabinete no dia 26 de Fevereiro, uma semana depois dos protestos em Mascate darem o primeiro sinal de que o descontentamento popular em todo o mundo árabe poderia chegar a Omã. Este país integra a Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), produz 850 mil barris diários e tem fortes vínculos militares e políticos com o Ocidente.

Em alguns países árabes ricos da região, como a Arábia Saudita e o Kuwait, as autoridades prometeram milhares de milhões de dólares em benefícios públicos e ofereceram modestas reformas para manter a calma dos seus habitantes, depois de movimentos populares derrubarem os governos da Tunísia e do Egito.

Artigo de correspondentes da IPS. Envolverde/IPS
Extraído do sítio Esquerda.net

terça-feira, 1 de março de 2011

Revolução árabe: Atenção: não tirem os olhos do Golfo

Pepe Escobar

2/3/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Imaginem um paraíso feudal, ou neomedieval, ex-lar do legendário Sindbad, o Marinheiro, onde reina, absoluto, um septuagenário solteiro, magro, que toca alaúde e escolheu viver em paz em seu palácio, o sultão Qabus bin Sa’id, paradigma da discrição. Em poucas linhas, eis Omã. 

No Omã pratica-se o Islã ibadi – nem sunita nem xiita –, também encontrado em seletas latitudes no norte e leste da África. Nada poderia ser mais diferente do wahhabismo, ou do fanatismo jihadista à moda da al-Qaeda. Em termos de Omã, o Islã ibadi implica procurar o justo equilíbrio, numa mistura de costumes tribais e aparato de estado (Qabus orgulha-se muito do sistema de consultas aos anciãos das tribos). 

Washington – e Londres – são absolutamente apaixonados por Qabus. Formado na Academia Militar de Sandhurst na Grã-Bretanha, o homem é amante de Mozart e Chopin, com faro estratégico que tem sido comparado ao do pai fundador de Cingapura, Lee Kwan Yew. (Quando estive em Omã, senti, mesmo, como se estivesse numa Cingapura árabe. Tudo em Omã é limpo demais, disneylandiamente perfeito demais, uma espécie de Stepford Wives [1] à moda de Cingapura.)

O amor dos EUA é facilitado pelo fato de o sultão ter dado enorme mão a George H W Bush durante a 1ª Guerra do Golfo em 1991 contra o Iraque de Saddam Hussein, estendendo o favor a George W Bush e permitindo que 20 mil soldados dos EUA parassem em Omã antes de invadir o Afeganistão e o Iraque. Coroando tudo, o largo e profundo, além de imensamente estratégico, Estreito de Ormuz – essencial para a navegação dos superpetroleiros no Golfo Persa – está em território de Omã.

Lamento estragar o namoro, mas... 

Qabus, no poder desde 1970, talvez ainda não seja objeto da ira do povo, em seu paraíso no Golfo de Omã. Mas a vez dele – e das elites de Omã – não tarda, nas voltas que dá o relógio da Grande Revolta árabe de 2011, que não pára. 

Na lista dos países à espera de levar sapatadas na revista The Economist, Omã ocupa nada menos que o 6º lugar, logo abaixo do já-deposto Hosni Mubarak do Egito e muitos furos à frente de Zine el-Abidine Ben Ali já-deposto na Tunísia e do Khalifa-por-um-fio do Bahrain. Metade da população de menos de três milhões de habitantes tem menos de 21 anos. O desemprego é altíssimo – sobretudo entre os portadores de inúteis diplomas. De um total de mais de 40 mil egressos de cursos secundários, por ano, só alguns pouquíssimos encontram emprego. 

Não há receita mais segura para tumultos. Blogueiros e tuiteiros de Omã destacam que têm havido manifestações em Sur e nos portos crucialmente estratégicos de Salalah (no sul, perto do Iêmen) e de Sohar (onde a polícia usou munição viva e matou um menino de 15 anos; a polícia de Omã – como a Mukhabarat egípcia – é treinada na Jordânia). Não menos de 3.000 manifestantes foram atacados com gás lacrimogêneo. A estrada entre Sohar e al-Ayn – que atravessa a fronteira para os Emirados Árabes Unidos (UAE) – foi fechada.

Os manifestantes, basicamente, reclamam dos salários miseráveis, em luta perdida contra a inflação que não arrefece; e de praticamente todos os empregos iram para estrangeiros (empregados das empresas estrangeiras) ou para os nativos que vivam na capital, Muscat. 

São manifestações pacíficas. Os manifestantes dizem que não sossegarão enquanto os salários não melhorarem. Preventivamente, o sultão aumentou o salário mínimo nacional, de US$316 mensais, para $520; os manifestantes exigem “não menos de $1.300”. E mais: melhores aposentadorias; educação gratuita para todos; e, por que não, a renúncia do governo. Durante o fim de semana, o sultão mudou o Gabinete e anunciou 50 mil novos empregos, e benefícios aos desempregados. Os manifestantes responderam:“Só palavras”.

Também é crucial que nada disso esteja sendo noticiado adequadamente no Golfo. A rede Al-Jazeera está estranhamente calada. A rede Al-Arabiyya – porta-voz da Casa de Saud – também está muito quieta. Para não falar da imprensa em Omã. A Al-Jazeera foi pesadamente criticada em várias frentes durante semanas pela fraquíssima cobertura dos eventos no Bahrain – se comparada à blitzkrieg de 24 horas/dia, sete dias/semana de cobertura do Egito ou da Líbia. Tudo isso despertou suspeitas de que o emir do Qatar, há “luta pela democracia” (no norte da África) e “luta pela democracia” (no Golfo), assuntos diferentes. 

Estreitos e apertos [2]

Sohar – ex-lar de Sindbad, o Marinheiro – a 80 quilômetros da fronteira com os Emirados Árabes Unidos, e a 200 quilômetros da capital Muscat, merece exame detalhado. É a usina de energia industrial de Omã – lá está um dos maiores projetos de desenvolvimentos de portos do mundo, além de uma refinaria, um complexo petroquímico, uma indústria de alumínio e uma fábrica de aço. Os trabalhadores do petróleo em Sohar começam a unir-se aos manifestantes. Não é impossível, para eles, bloquear o bombeamento de petróleo para exportação, como meio para pressionar o sultão. Omã bombeia 860 mil barris de petróleo/dia e exporta cerca de 750 mil barris. 

A economia global sabe que o Golfo Persa é sua principal fonte de petróleo. A noção paranóica de que o Estreito de Ormuz poderia ser fechado pelo Irã no caso de guerra contra EUA/Israel sempre foi quimera fabricada pelos neoconservadores. A realidade mostra agora outro cenário: a democracia real está chegando às portas de Omã, esse “farol da estabilidade”. 

Do ponto de vista da economia global, a luta pela democracia pode converter-se em cenário de pesadelo. Se a Líbia e Omã saírem completamente do mercado, desaparecerão da economia global 2,5 milhões de barris de petróleo/dia, 3% do que o mundo consome. Não há qualquer evidência de que a Arábia Saudita possa compensar a falta, explorando máquinas e infraestrutura até o limite. Tradução: o barril de petróleo pode ultrapassar os $150 o barril em questão de dias. E, isso, sem ninguém nem supor que possa haver protestos em março, na Arábia Saudita. 

Omã não é exatamente um acidente da história, como os reinos do Golfo – que não passavam de “o fio de pérolas” na rota naval do império britânico ao longo do Oceano Índico. Não surpreende que Lord Curzon, o imperialista-em-chefe, os chamasse de “pequeninas chefaturas árabes” [orig. petty Arab chiefships] (o que, parece, pouco mudou sob o governo imperial dos EUA). No que tenha a ver com Washington, Omã continua a ser o proverbial “aliado estável dos EUA” – atachado à sua marinha altamente treinada nos EUA e, o que é decisivo, posta bem ali, na boca do inexcedivelmente estratégico Estreito de Hormuz.

Omã não é exatamente uma hacienda familiar recentemente estabelecida no deserto – como a Casa de Saud. A dinastia reinante – al-Bu Sa'id – tem mais tempo de poder, que os EUA de existência.

Mas, apimentemos um pouco toda essa “estabilidade”. Omã é berço de um dos mais sofisticados movimentos de oposição de todo o mundo árabe – hoje incorporado em grande medida pela Frente Popular de Libertação de Omã [orig. Popular Front for the Liberation of Oman]. Alguns dos líderes acabaram cooptados pelo sultão, mas o ímpeto progressista, modernizante, não se perdeu completamente.

Ao mesmo passo em que os EUA fazem das tripas coração para que se acredite que Omã respeita os direitos humanos, os direitos políticos, esses, não há quem salve: continuam praticamente no zero. Nada de imprensa livre, nada de livre manifestação do pensamento, nada de liberdade para reunir-se, nada de liberdade de credo. Omã talvez não seja a ultra-repressiva Arábia Saudita, o selvagem Iêmen – mas tampouco é alguma Escandinávia (o pessoal dos think-tanks de Washington só faz comparar o sultão aos primeiros-ministros escandinavos).

A Grande Revolta Árabe de 2011 está, citando Bob Dylan, “dirigindo a 90 milhas por hora, por um beco sem saída” no Bahrain; deve fazer um pit-stop na Arábia Saudita; e já chegou a Omã. O septuagenário sultão tem diabetes, não tem herdeiro para o trono, e está oficialmente intrigado com tantos jovens desempregados e trabalhadores irados, bem ali à sua porta. Atenção: cuidado com o imperialismo humanitário, pronto para meter a cabeçorra na Líbia. Mas que ninguém tire os olhos do estreito de Hormuz; mas na costa de Omã, não na costa iraniana.




Notas de tradução

[1] The Stepford Wives (1975, refilmado em 2004) é filme de ficção científica/horror (dir. Bryan Forbes), baseado em romance de Ira Levin. No Brasil, “As esposas de Stepford.
[2] Orig. “Dire Straits”. Não há como traduzir. A expressão significa “dificuldades graves”, mas, também, é o nome de uma banda de rock do final dos anos 80, período e rock nos quais Pepe Escobar é especialista; e “estreito”, nesse contexto, só o de Hormuz. Tradução tentativa temerária.