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terça-feira, 10 de setembro de 2013

O 11 de setembro na América Latina


Salvador Allende

Publicado em 10/09/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind

O 11 de setembro da América Latina está completando 40 anos. Trata-se de uma data trágica que corresponde ao golpe comandado pelo general Augusto Pinochet que derrubou o Presidente constitucional Salvador Allende. Muito se denunciou sobre a participação dos Estados Unidos comprovada por inúmeros documentos oficiais demonstrando a culpa no cartório do então Secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger.

Nestes dias, documentos da chancelaria do Chile tornados públicos confirmam a participação também do Governo do então ditador de plantão Garrastazu Médici no golpe sangrento. A embaixada brasileira tornou-se inclusive num espaço de apoio aos golpistas. O chefe da representação diplomática, embaixador Câmara Canto, esteve de braços dados com militares que transformaram o Chile numa espécie de sucursal do inferno. Tanto assim que quando se confirmou a vitória dos golpistas, Câmara Canto comemorou com seus asseclas abrindo champagne.

Logo após o golpe, o Governo brasileiro colaborou financeiramente com a ditadura e assim sucessivamente. Mesmo antes do golpe, a ditadura civil militar vigente no Brasil respaldava os chilenos de extrema direita. Documentos tornados públicos no Chile comprovam a participação de brasileiros em apoio a grupos extremistas de direita como o Patria y Libertad.

Matéria do jornal O Estado de S. Paulo informa que em julho de 1973, o Brasil concedeu asilo político a Eduardo Roberto Keymer Aguirre, identificado como integrante do Patria y Libertad. A concessão ocorreu quatro dias depois que os extremistas assassinaram um ajudante de ordens de Allende, o capitão Arturo Araya Peeters.

René Dreifuss
Os vínculos da extrema direita chilena com extremistas brasileiros não se resumiram a este fato. Anos atrás, o cientista político René Dreifuss em seu livro “A Internacional capitalista” revelou que o jornalista Aristóteles Drummond, uma figura nefasta vinculada até hoje a antigos golpistas da pior espécie, fornecia armas para os extremistas do Patria y Libertad

Há tempos este espaço democrático divulgou a informação veiculada no importante trabalho de pesquisa de René Dreifuss sobre o extremista brasileiro acusado inclusive de responsável pela explosão de uma bomba numa exposição soviética no Rio de Janeiro.

Pois bem, na reportagem do Estadão sobre os documentos divulgados nestes dias no Chile aparece novamente o nome de Aristóteles Drumond como um dos brasileiros que teria transportado recursos para os chilenos que preparavam o golpe contra Salvador Allende.

Aristóteles Drummond
Questionado pelo jornal paulista, Aristóteles Drummond preferiu não assumir diretamente a ajuda fornecida, mas a sua resposta é um reconhecimento da ajuda. Analisem bem o que disse este senhor que todo ano aparece no Clube Militar para comemorar o golpe que levou o Brasil a ingressar numa noite escura de 21 anos.

Eu não levei, mas teria levado. Tenho o sentimento de que os brasileiros amigos do Chile tenham (enviado dinheiro). Sou de classe média, mas, se corresse uma lista aqui para dar US$ 500 (a grupos anti-Allende), eu daria do meu bolso. Acho que o general Pinochet foi decisivo para evitar a criação de uma sucursal de Cuba no Pacífico. Pinochet salvou o Chile, assim como os militares salvaram o Brasil. 

Aristóteles Drummond, que chegou a ocupar um cargo de confiança no governo Negrão de Lima na área de habitação, não foi perguntado pelo Estadão sobre a denúncia de René Dreifuss do fornecimento de armas ao gupo Patria y Libertad, mas se em algum momento for perguntado sobre o tema, provavelmente não confirmará integralmente a ação, mas o teor da reposta será nos moldes da que deu ao Estadão.

Tais fatos são importantes de serem conhecidos pela opinião pública e ajudarão também à Comissão da Verdade a concluir seu relatório sobre os trágicos acontecimentos ocorridos no Brasil depois do golpe de estado que derrubou o Presidente constitucional João Goulart.

O caso de Aristóteles Drumond é bastante emblemático e não será nenhuma surpresa se outros documentos a serem tornados públicos apontarem a participação de outros brasileiros que seguiram impunes ao longo do tempo. É também uma demonstração concreta segundo a qual o golpe no Brasil não foi apenas de conotação militar, mas civil também

Por estas e muitas outras não bastam apenas autocríticas de estilo marqueteiro, como fez recentemente O Globo, sobre o golpe de 64. No caso das Organizações Globo, que ao longo dos anos se transformaram numa espécie de diário oficial dos detentores de fato do poder, teria que acontecer um reconhecimento que além do “erro editorial” do apoio ao golpe, o grupo midiático então comandado por Roberto Marinho, como diria Leonel Brizola, engordou na estufa da ditadura.
______________________

[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE
Enviado por Direto da Redação

sexta-feira, 1 de março de 2013

Robert Fisk – “Guerra ao terror: nova religião ocidental”


24/2/2013, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mohamed al-Zawahiri

Robert Fisk
Mohamed al-Zawahiri, irmão caçula do sucessor de Osama bin Laden, Ayman, fez declaração particularmente intrigante no Cairo, mês passado. Falando àquela maravilhosa instituição francesa Le Journal du Dimanche sobre o Mali, disse ao jornal que alertasse a França “e as pessoas racionais e razoáveis na França, para que não caiam na mesma armadilha em que caíram os norte-americanos. A França já é responsável por ocupar um país muçulmano. A França já declarou guerra ao Islã”. Jamais, em todos os tempos, a França recebeu aviso mais claro.

E, como se podia adivinhar que aconteceria e aconteceu, dia seguinte suicidas-bomba atacaram a cidade ocupada de Gao; exatamente dez dias depois, a França perdia o segundo soldado no Mali, morto a tiros por rebeldes, em batalha nas montanhas Ifoghas. Ali, nas palavras da velha, fatigada retórica do presidente Hollande, houve uma batalha contra “terroristas” que se “acoitaram” na área, durante uma operação que já estava “na fase final”. É fraseologia tão esgotada – ouviram-se as mesmas palavras velhas em praticamente todos os pronunciamentos dos EUA durante a guerra do Iraque – quanto a capacidade do ocidente para compreender a nova al-Qa’eda.

Pimpinela Escarlate
Só se compara ao Pimpinela Escarlate da Baronesa Orczy (Livro editado em português pela Livraria do Globo, Porto Alegre, em 1957):  (“Procuraram [o Pimpinela] aqui, ali, acolá, os francezolas procuram o homem por toda parte...” Mas quem, exatamente, procuravam? O líder de qual específico grupúsculo de bandoleiros inspirados pela al-Qa’eda no Mali? De fato, nossos amos e senhores não dão sinal de terem nem qualquer mínima ideia das pessoas das quais falam. Há poucas semanas, quando a maioria de nós não sabia nem o nome da capital do Mali – reconheçamos, ô leitores! – ainda vivíamos sob a firme fé de que o renascimento da al-Qa’eda acontecia no Iraque, onde tudo já voltou à situação de suicidas-bombas diários contra xiitas.

Veio então o “professor de al-Qa’eda”, como o chamam seus editores, Gregory Johnsen, com livro intitulado The Last Refuge: Yemen, Al-Qaeda and the Battle for Arábia [O último refúgio: Iêmen, Al-Qaeda e a Batalha pela Arábia]. Yes, folks! Os bandidos encontraram abrigo no antigo reino da Rainha de Sabá; no livro não há nem uma referência, referência zero, ao Mali. Em seguida – para surpresa e estarrecimento globais – constatou-se que os amaldiçoados da al-Qa’eda estavam, sim, confirmado, no norte da Síria (vejam La Clinton e indômito, valente, valoroso secretariozinho de Relações Exteriores do nosso Reino Unido). Desnecessário dizer, estávamos de volta ao Mali, outra vez, dia 12/2, quando a al-Qa’eda na Península Arábica (o quartel-general, como se sabe ficava no Iêmen, não esqueçam) convocou para Jihad no Mali contra “os cruzados”. Bem... Pelo menos a al-Qaeda demarcou uma das nações europeias que, sim, realmente participaram das Cruzadas originais. A imprensa-empresa ocidental, como sempre, manteve e repetiu essa narrativa delirante, sem sentido algum, citando os mesmos especialistas em “terroristas” de sempre, em Londres, Paris e por todo o ocidente.

Graças aos céus, portanto, que haja autores árabes como Abdel Bari Atwan – que conheceu o verdadeiro Bin Laden melhor que qualquer jornalista – e seu livro After Bin Laden: Al-Qa’ida, the Next Generation [Depois de Bin Laden: Al-Qa’eda, a Próxima Geração]. Atwan – admito: meu velho amigo – explica estruturadamente como a al-Qa’eda transformou-se depois do assassinato de Bin Laden; e recorda como, em 2005, recebeu por e-mail um documento intitulado “Al-Qa’eda’s strategy to 2020” [Estratégia da Al-Qaeda até 2020], que delineava sete “estágios” rumo a um califado islâmico mundial.

O estágio n. 1 era “provocar o pesado elefante americano para que invada terras muçulmanas, onde os mujahideen poderão combatê-lo mais facilmente.
Estágio n. 2: a nação muçulmana desperta de seu longo sono e enfurece-se ante o plano de uma nova geração de cruzados, de ocupar grandes partes do Oriente Médio e de roubar seus valiosos recursos. “As sementes do ódio contra os EUA no qual a al-Qa’eda sempre investiu” – diz Atwan – “foram semeadas quando as primeiras bombas caíram sobre Bagdá em 2003”.

De fato, como escrevi depois da invasão, uma mensagem oblíqua de Bin Laden pouco depois da aventura de Bush – e mensagem que a CIA, em atitude que lhe é típica, ignorou – realmente convocava os membros da al-Qa’eda a cooperar com os odiados baath’istas, contra as forças dos EUA. Foi a primeira convocação para que a al-Qa’eda colaborasse com outros grupos – semente da praga que hoje já se disseminou, com unidades da al-Qa’eda lutando ao lado de outras organizações rebeldes no Iraque, Iêmen, Líbia, Argélia, Mali e, agora, na Síria.

Abdel Bari Atwan
O estágio 3 é um conflito OTAN-al-Qa’eda, num “triângulo de horror” (...) no Iraque, Síria e Jordânia”. No estágio 4, “Al-Qa’eda passa a ser rede global (...), o que torna a geração de franquias operação extraordinariamente mais fácil”. No estágio 5, o orçamento militar dos EUA “é sufocado, arrastado na bancarrota e no derretimento da economia”. O 6º estágio é “derrubar os odiados ditadores árabes. Finalmente, o definitivo choque de civilizações e uma batalha terrível, apocalíptica”. Al-Zawahiri, aliás, vive a citar Ascensão e queda das grandes potências [1] [The Rise and Fall of the Great Powers] de Paul Kennedy, historiador de Yale, que vê o colapso econômico sempre na base do colapso dos impérios.
A al-Qa’eda também tem seus fracassos: o movimento não conseguiu entrar na Palestina, o suposto centro do coração de Bin Laden; nem obteve sucesso algum no hedonista Líbano – embora a al-Qa’eda tenha tentado encenar um levante num campo de refugiados palestinos no norte do país e tenha seguidores no gigantesco campo de Ein al-Helwe, em Sidon.

Atwan escreveu capítulo perturbador sobre guerra digital – a al-Qa’eda é hoje, afinal, quase tão adepta de gerar conteúdos quanto qualquer empresa-imprensa – e fala da possibilidade de a al-Qa'eda assumir o controle de um sistema de tráfego aéreo, de usinas nucleares, de redes de energia, de absolutamente tudo e qualquer coisa. E al-Zawahiri tem-se manifestado pessoalmente interessado na energia líbia. Interromper ou perturbar os fluxos de petróleo para o ocidente. Claro: já foi tentado na Arábia Saudita.

Atwan, menos realisticamente, embarca na análise da Rand Corporation, de 2008, sobre “como terminam os grupos de terror”, uma lista dos desejos e sonhos da CIA: todos os líderes são “dronados” ou assassinados de outros modos, os grupos dissidentes crescem e racham o movimento, o grupo “engaja-se no processo político” (ver o “presidente” Hamid Karzai e os Talibã). Bin Laden tinha uma palavra sobre isso. “Você mencionou que a inteligência britânica disse que a Inglaterra [sic] deixaria o Afeganistão se a al-Qa’eda prometesse não atacar interesses dela” – escreveu ele em carta a um comandante que seria “dronado” um ano antes de o próprio Osama ser morto (o “negócio britânico” soa, sim, como possível perfeita, cruel verdade). “Não faça acordo de nenhum tipo, não aceite nada... mas sem bater a porta”.

Aha! Quer dizer então que até Bin Laden teria fechado acordo por menos que um califado mundial. Duvido que Hollande, algum dia, receba proposta de “negócio” semelhante a esse, depois de os franceses terem assado no Mali. Duvido. Ainda creio no grande conto de John Wyndham, The Day of the Triffids [2]. Ninguém sabia como as malsinadas criaturas, que cobriram a Terra de cegueira, poderiam sem contidas. Até que a filha de um guardador de farol, na tentativa desesperada de salvar a própria vida, jogou água do mar sobre as coisas. E elas apodreceram em segundos, diante dos olhos dela.

Soldado francês morto no Mali
Assim sendo, por que não param de borrifar bombas e urânio baixo enriquecido sobre os povos do Oriente Médio? E por que não param de mandar nossos combalidos exércitos para ocupar terras dos muçulmanos – o que, aliás, é exatamente o que a al-Qa’eda deseja que façamos – e por que não param de subornar líderes árabes para que esmaguem o próprio povo? Em vez disso, não podemos levar a justiça a visitar aquelas tristes terras? Justiça para os palestinos, justiça para os curdos, justiça para os sunitas iraqueanos, justiça para o povo do sul do Líbano, justiça para o povo da Caxemira. Se o ocidente orientar-se para essa Cruzada verdadeira, a al-Qaeda, como aquelas pérfidas trífides, desaparecerão. E o povo que vive no mundo muçulmano que resolva, lá, sobre o “califado” deles.

Porém, justiça não é feita de água salgada, nem abunda como água do mar e nossos amos e senhores ainda querem governar o mundo, e não há a menor chance de que arrisquem o status deles, a reputação, o futuro na política, a vida, lutando por justiça, conceito fora de moda. A “Guerra ao Terror” ainda é a nova religião do Ocidente – e por que não seria, quando o ministro francês do Interior declara que “há um fascismo islâmico crescendo por todos os lados?”.

O mais triste é que não estamos lendo a mensagem mais óbvia: que a al-Qa’eda fracassou quase completamente e não conseguiu sequestrar o despertar árabe; não se veem imagens de Bin Laden, nem a bandeira da al-Qa’eda surgiu nas mãos daqueles milhões que marcham pelas ruas das capitais árabes. Mas... não! Embarcamos agora no mito de que partidos islamistas eleitos seriam al-Qaedas disfarçadas, de que – no fundo – o mundo islâmico está em eterno “choque de civilizações” conosco, que temos de temê-los, de odiá-los.

Leon Panetta
E assim a guerra prossegue. O que aquele esplêndido Leon Panetta – meu secretário de Defesa favorito – disse em Kabul, há 18 meses? “Estamos já bem próximos de derrotar estrategicamente a al-Qa’eda”. E em Londres, há poucos dias? Falou de “incansável pressão” sobre o grupo. Será que há um agente da al-Qaeda, trabalhando como assessor de imprensa, escrevendo essas coisas para ele? Ou será que partilhamos algum conhecimento obscuro, não dito, nós e a al-Qa’eda? Ou será que todos, no fundo da alma, nós e a al-Qaida queremos que a guerra continue?

Os EUA enviam soldados

  • O Pentágono deslocou cerca de 100 soldados para o Niger, para executar voos de drones comandados à distância, de reconhecimento, sobre o Mali e partilhar inteligência com forças francesas que combatem contra militantes afiliados à al-Qa’eda. O mais recente contingente chegou há quatro dias ao Niger, e “receberam armas com vistas a garantir proteção e segurança à própria força”.
  • Oficial do Pentágono disse que o AFRICOM – Comando dos EUA na África (com sede em Stuttgart) enviou os drones ao Niger, para apoiar várias missões de segurança regional e compromissos assumidos com nações parceiras”.
  • 13 soldados do Chade foram mortos em combate no norte do Mali, o maior número de baixas sofridas por forças francesas e africanas desde o início da campanha, há seis semanas. Tropas do Chade mataram 65 militantes da al-Qa’eda naqueles confrontos, que começaram antes do meio dia nas montanhas Adrar des Ifoghas, perto da fronteira norte do Mali.
  • A França invadiu sua ex-colônia em janeiro. A violência pode facilmente degenerar numa infindável guerra de guerrilhas entre forças francesas e africanas.




Notas dos tradutores
[1] KENNEDY, Paul. - Ascensão e Queda das Grandes Potencias, Rio de Janeiro: Campus, 1991.
[2] The Day of the Triffids [O dia das trífides] é romance pós-apocalíptico sobre uma praga de cegueira que atinge todo o planeta, o que permite a proliferação de uma espécie agressiva de plantas (as trífides do título). Publicado em 1951, foi roteirizado para o cinema em 1962, para o rádio e para duas séries de televisão

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Tribunal nos EUA condena o Irã e outros a pagar indenização de $6 bilhões, pelos ataques de 11/9/2001

Entreouvido na Vila Vudu: “Os tribunais do capital estão mesmo dando a lôôôôôka (vários deles)!”

Comentário da redecastorphoto: “Quase tão ridículo quanto um tribunal brasileiro muito em voga atualmente...”

3/10/2012, Raja, The Agonist (matéria da Agência France-Press)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Juiz George Daniels
NEW YORK — Ontem, um juiz distrital de Nova York, George Daniels, ordenou que o Irã, a Al-Qaeda e vários outros citados nos autos a pagar indenização de $6 bilhões de dólares às vítimas do 11/9/2001. A sentença é considerada apenas simbólica.

Apesar de o Irã sempre ter negado qualquer conexão com o 11/9 e de nada ter sido comprovado, o país aparece incluído na lista de supostos culpados, por decisão de uma Corte Distrital da Justiça em New York, além do grupo militante libanês Hezbollah, guerrilheiros do grupo Talibã no Afeganistão e a Al-Qaeda – organização que se declarou responsável por toda a operação de ataque terrorista de grandes proporções contra os EUA.

O nome do Líder Supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei também aparece entre os condenados.

Mas a indenização, que o juiz considerou devida por danos econômicos e pessoais e como medida punitiva, que alcança um total de $6.048.513.805, dificilmente poderá ser cobrada. Para os especialistas, embora formalmente válida, a sentença pode ser contestada e tem valor exclusivamente político.

sábado, 8 de outubro de 2011

Dez anos do Golpe nos EUA – Parte 2


Amigos,

Adriano Benayon ressalta neste seu artigo vários factos e argumentos que põem em causa a versão oficial do fatídico 11 de Setembro de 2001, em NY, cuja verdade, ou seja, quem de facto planeou e executou o hediondo acontecimento daquela data, está por esclarecer, passados que são dez anos.  

Pouco mais de um mês após o derrube das Torres Gémeas em NY, o Dr. Oswald Le Winter, ex-agente da CIA, emigrado em Portugal, publicou em Portugal o livro “Desmantelar a América”, cuja leitura recomendamos, em que, perplexo, levanta sérias dúvidas sobre os supostos autores do atentado.

Homem familiarizado com a investigação e com os procedimentos oficiais de segurança não acredita que 19 islâmicos possam alguma vez ter cometido tão arriscado atentado. Mais, considera que, pelos meios envolvidos e pelo grau elevado de coordenação, tais terroristas não tinham capacidade técnica para o fazer.

Como 19 terroristas repartidos por quatro aviões comerciais de duas companhias aéreas diferentes conseguiram iludir os funcionários do chek-in e o controle da tripulação a bordo antes da partida, procedimentos de controle de passageiros obrigatórios?

Como puderam iludir os múltiplos Serviços Secretos dos USA? Deviam estar todos com uma grande ressaca…

Mais estranho para este autor é o facto de as listas de passageiros divulgadas pela CNN, na primeiras horas, não conterem qualquer passageiro com nome tipicamente árabe…

Estas dúvidas levantam a suspeita que os referidos aviões utilizados na operação foram manobrados a partir do solo pelo sistema ANAPIRCS (The Anti-Air Piracy Remote Control System). Este sistema foi desenvolvido a partir de 1970 pela Agência de Projectos Avançados de Defesa (DARPA) e destina-se a recuperar à distância uma aeronave comercial desviada. Permite a controladores em terra escutarem as conversas no cockpit e assumir o controle dos computadores de bordo, a partir do momento em que é enviado um código especial de “transponder” pela tripulação, independentemente da vontade dos terroristas. Contudo esse código nunca foi accionado. E não foi por que nenhum dos aviões tinha pilotos humanos… De onde conclui que “…o que nos dá a prova concreta final de que o ataque aéreo foi pirateado electronicamente a partir do chão, e não por terroristas árabes”.

Artur Teixeira
O que é facto, é que a partir dessa data fatídica, o Complexo Militar-Industrial que se acantona no Pentágono e na Casa Branca, passou ter os argumentos necessários e suficientes, junto da opinião pública norte-americana e mundial, para desencadear a Guerra irrestrita ao “Eixo do Mal”, previamente planeada nos bastidores da Elite Global.

Abraços.
Artur Teixeira (Ponta Delgada -PT)

Dez anos do Golpe nos EUA – Parte 2

Adriano Benayon
(continuação de “Dez Anos do Golpe nos EUA”)
Adriano Benayon* – 26.09.2011

1. Antes de expor para que a oligarquia financeira mandou destruir as Torres Gêmeas (WTC), em Nova York, e avariar o Pentágono, em Washington, concluamos a demonstração de que os autores só podiam ser dos aparelhos de segurança e militar do governo dos EUA.

2. Isso emerge de dezenas de documentos. Em um filme de 49’, produzido na Itália, de que participa o prêmio Nobel, Dario Fo, falam peritos, na maioria estadunidenses, em engenharia, física, materiais, aeronáutica e segurança.

3. Um sobrevivente, que trabalhava no 84º andar da Torre Sul, quando do impacto de um avião poucos andares abaixo, conseguiu descer ao térreo, passando pelos andares com fumaça, e diz que tudo parecia normal, até com luzes e sistema de ar.

4. Muitas testemunhas, como o heróico porteiro William Rodriguez, ouviram as explosões da implosão, 55 minutos após o choque do avião. O Prof. Ray Griffin refere pessoas que ouviram “bangs” das explosões e foram atiradas ao solo.

5. Quando do choque, a Torre sacudiu, mas voltou ao lugar. Foi desenhada e edificada para suportar impactos, como confirma o construtor dela, Frank de Martin.

6. Ademais, o filme mostra a Torre Windsor, em Madrid, que, em 2005, ardeu, durante 30 horas, tendo as estruturas metálicas ficado de pé após o incêndio.

7. Tudo isso evidencia o ridículo da versão oficial, o relatório do NIST, segundo o qual as Torres desabaram em função do calor do incêndio causado pelo avião.

8. Não bastasse, o professor emérito de física, Steven Jones, e outros experts esclarecem que só a 1.000 graus de calor se derretem estruturas metálicas, enquanto a queima do combustível de avião não gera sequer 300 graus.

9. Kevin Ryan, ex-diretor do Underwriters Labs,  foi demitido por ter provado que as amostras salvas de andar atingido pelo incêndio tinham temperaturas muito baixas, e que o NIST fraudou os parâmetros da análise, dobrando o tempo de  exposição ao fogo.

10. O perito em metalurgia Paolo Marin atesta que a Torre caiu “como se não houvesse sequer resistência do ar”: se ela não tivesse  sido pulverizada, não poderia desabar na vertical e em 7 segundos. Isso ocorreu devido a explosivos de uso militar, a ponto de não terem sobrado nem pedaços de móveis, computadores e corpos das vítimas.

11. O governo fez retirar os destroços antes de qualquer investigação, e pedacinhos do aço das estruturas derretidas foram exportados à China.  Mas, três semanas depois, foi retirado do local material com thermite, explosivo composto por alumínio, óxido de ferro e enxofre, capaz de causar a fusão de colunas de aço,  comprovando a implosão controlada e acionada por rádio, como confirma William Cristison, ex-CIA.

12. Como a Torre foi atingida por um avião, e a manobra é impossível com Boeings 757, não se sabia o que a tocou. O filme mostra um avião da Força Aérea, certamente teleguiado.

13. Em 12.07.2006, o general Albert Stubblebine, ex-Comandante-Geral do Comando de Inteligência e Segurança do Exército dos EUA (INSCOM) definiu o 09.11 como farsa: “o buraco no Pentágono teve 5 metros de largura, e a envergadura de um Boeing tem 38 metros: simplesmente não encaixa!” “Nem sequer restos de motores foram encontrados”.

Para quê

14. Demonstrado como e quem, falta para que. A oligarquia financeira tem um só objetivo: concentrar poder, e a guerra é um dos meios para isso. Assim, inventou a estória do sequestro dos Boeings para inculpar “terroristas islâmicos” e justificar as agressões ao Afeganistão e ao Iraque.

15. Havia planos para controlar o Afeganistão, rota de hidrocarburantes da Ásia Central, e o Iraque, dono de enormes reservas de petróleo, além de estender as intervenções militares a mais países islâmicos.

16. As potências anglo-americanas, a França, a Rússia etc. haviam, anos antes, fornecido ao Iraque todo tipo de armamentos, inclusive armas químicas, para a  guerra contra o Irã, que, mesmo assim, não foi vencido.

17. Depois, os anglo-americanos fizeram a intervenção genocida sobre o Iraque, em 1990-91, usando quantidade incrível de bombas com pontas de urânio.

18. Apesar da terrível destruição sofrida, Saddam Hussein não perdeu o controle do Iraque e adotou políticas favoráveis a seu país, inclusive deixando de vender petróleo por dólares.

19. Em seguida ao 11.09.2001, os EUA e seus aliados  realizaram agressões imperiais ao Afeganistão e ao Iraque, abusando  de mais mentiras, como acusar esse país de ter “armas de destruição de massa” (que as potências imperiais têm em doses inimagináveis). Tal falsidade prevaleceu até contra as verificações de inspetores das Nações Unidas.

20. O golpe das Torres Gêmeas serviu para anular a resistência dentro dos EUA - e reações em outros países - àquelas agressões, que completaram a destruição das instituições, inclusive culturais e milenares do Iraque, além de causar vítimas na casa dos milhões.

21. Rememorados a cada ano com enorme dramatização pela mídia, os “ataques” de 11.09 permitiram, ainda, radicalizar  o Estado policial nos EUA e continuam servindo de pretexto para mais intervenções: na  Somália, no Iêmen e em outros países. Faz também que desinformados aplaudam o latrogenocídio cometido contra a Líbia.

22. Ao final dos mandatos de Bush, os EUA mantinham tropas especiais em 60 países, como planejado antes de 2001. Com Obama, esse número chega a 75. O desastre na economia é acompanhado por crescente belicismo.

23. A oligarquia não lança guerras para dinamizar a economia - o que aconteceu, provavelmente por acaso - na época da 2ª Guerra Mundial. Ademais, hoje, a guerra emprega muito mais equipamento que gente.

24. O objetivo da oligarquia é  implantar sua tirania em âmbito mundial. Para isso tem concentrado poder financeiro em grau inimaginável, o que acarreta a depressão da economia produtiva e acentua as dificuldades e a impotência dos dominados.  Calcula que quanto maior essa impotência, mais poderá avançar na escravização da humanidade.

25. Nesse processo, a oligarquia tirânica assenhoreia-se, com exclusividade, também dos recursos reais: minérios preciosos e estratégicos, energia, água e terras agricultáveis.

26.A busca do controle sobre a energia explica a escolha dos “terroristas” islâmicos como objeto da demonização, já que o petróleo abunda sob terras muçulmanas.

27.As monarquias totalitárias inventadas pelos britânicos (Arábia Saudita, Coveite, Catar, EAU, Bahrein etc.) não são problema para a oligarquia anglo-americana, uma vez que entregam petróleo em troca de dólares e os aplicam principalmente no exterior. Não são  sequer países: não têm população assentada em terras, mas só cidades entre o deserto e o mar, urbanizadas com dinheiro do petróleo, técnicos e trabalhadores importados.

28.Nesses lugares a CIA, o M-16 e outros serviços secretos não fomentam, nem financiam nem armam “rebeldes”, cuja proteção “humanitária” serve de pretexto para intervenções, como sucedeu com a Líbia.

29.O Irã é um país de verdade, e por isso os imperiais o consideram do “Eixo do Mal”.  Saddam Hussein, no Iraque, e Muamar Gaddafi, na Líbia, investiram internamente recursos do petróleo, além de pretender vendê-lo em moedas que não o dólar.

30. A guerra, no caso, serve aos objetivos de assegurar acesso ao petróleo, em condições coloniais, e de assegurar sobrevida ao dólar, moeda que, de outro modo, já estaria fora de uso como divisa internacional, devido ao caos financeiro e orçamentário dos EUA.

31. Visa também a fomentar a indústria de armamentos e investir nesta como instrumento de poder e gerador de divisas, o único setor com balança comercial positiva, outra ajuda ao dólar em vias de colapso.

32.O Brasil é o país mais bem dotado em minérios preciosos e estratégicos, energia, água e terras agricultáveis. Econômica e politicamente controlado, de modo cada vez mais intenso, desde 1954, seus inestimáveis recursos vão sendo saqueados sob os olhares negligentes ou benignos dos três Poderes da República.

33. Por isso, a intervenção permanente que sofre dos serviços secretos das potências imperiais prescinde, desde 1964,  da participação direta de forças militares norte-americanas.

34.Fica o Brasil sem perspectiva de independência real, enquanto não se liberar do subdesenvolvimento programado que lhe é imposto através do domínio de empresas transnacionais sobre sua economia. Está, assim,  destituído do controle sobre tecnologias estratégicas, como os chips da eletrônica.

35.Sem indústria nacional, manietada e dizimada desde a instituição de subsídios às transnacionais, desde 1954, o Brasil carece de armamentos essenciais à sua defesa. Apesar de seu tamanho territorial e populacional, está tão sujeito a intervenções militares imperiais, como o Afeganistão ou a Líbia. Se isso não está em pauta é porque não há resistência ao saqueio dos recursos do País.


*Adriano Benayon é Doutor em Economia e autor de “Globalização versus Desenvolvimento”

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

É preciso demolir o prédio Freedom Tower [1]

10/9/2011, Tom Engelhardt, Counterpunch  e Asia Times
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Chega. Acabou. 

Estou falando das cerimônias do 10º aniversário do 11/9, e tudo que as acompanha: a leitura solene dos nomes dos mortos, o repicar de sinos, as homenagens aos primeiros que apareceram para ajudar, a reunião de dois presidentes, a inauguração do novo memorial, os momentos de silêncio. E da construção que nunca para. 

Fechar aquilo lá. Fechar. Fechar o Marco Zero. Adeus turistas. Fechar o “Reflexo da ausência” [orig. “Reflecting absence”] o memorial erguido sobre “as pegadas” das antigas torres, com as árvores, as piscinas gigantes, as muitas quedas d’água – e o melhor é que tudo seja fechado ainda antes da inauguração, depois de amanhã, domingo. Parem as máquinas que estão construindo o Museu Nacional do 11/9 (subterrâneo), com inauguração prevista para 2012. Que nunca seja inaugurado.

É preciso demolir a Torre da Liberdade (novo nome do prédio 1 do Centro Comercial Mundial [orig. World Trade Center], escolhido para nos fazer esquecer que as guerras norte-americanas ‘por liberdade’ nada têm a ver com liberdade), 102 andares “do mais caro arranha-céu jamais construído nos EUA”. (Custo estimado: $3,3 bilhões.) 

Parem imediatamente a construção do prédio-monumento à húbris, à arrogância, mais de meio quilômetro de altura, projetado nos dias de glória de George W Bush e que se destaca contra o céu de Manhattan como provocação ensandecida aos terroristas do futuro. Ponham abaixo também o que já exista das três outras torres de escritórios que estão sendo erguidas, negócios azeitados pelos 11 bilhões de dólares do programa estatal de reconstrução. 

Temos de nos livrar de tudo isso. Se alguém algum dia quisesse preservar, para sempre inesquecível o 11/9, melhor seria deixar lá, intocadas, as ruínas descomunalmente gigantescas das torres destruídas. 

Que cada norte-americano pergunte a si mesmo: dez anos já vividos da era pós-11/9, será que ainda não aprendemos nada? Zero? Coisa alguma? 

Se tivermos algum respeito genuíno pela história da humanidade, ou se nos restar alguma decência humana, não será hora de arrancar o Band-Aid que encobre nossas chagas, e arrancar para sempre o 11/9 de nossa consciência coletiva? 

Quem queira conservar alguma memória, alguma lembrança, algum luto, que, pelo menos, ponha-se a gritar que a morte de seus entes queridos NÃO PODE ser invocada para explicar as guerras inexplicáveis no Iraque e no Afeganistão e a nossa (“Oh! Como é global a minha guerra!”) “guerra ao terror”. 

Que ninguém nunca mais invoque o 11/9 para manter o Pentágono e o “estado nacional de segurança abarrotado de dinheiro”. 

Que ninguém nunca mais invoque o 11/9 para justificar agressões às liberdades civis, cada um e todos os procedimentos de vigiar cidadãos nos EUA, as novas apalpações, os novos “dispa-se” que mantêm o medo em níveis altíssimos, e deixam à vista o estado de “segurança da pátria”. 

Os ataques de 11/9 foram, em todos os sentidos, horríveis. E o mais triste é que as vítimas daquelas monstruosidades suicidárias foram e continuam até hoje maltratadas, desde aquele dia, sob a máscara de um falso respeito, de uma falsa rememoração. 

Os EUA tornaram-se dependentes dos cadáveres de 11/9 – que não se podem defender eles mesmos contra o modo como vêm sendo usados – como explicação com mil e uma utilidades da nossa inexcedível bondade e do horror que outros fizeram desabar sobre nós. Simultaneamente, apagam-se os muitos mortos – calculados em novas torres, quantas seriam? – que os EUA provocaram e continuam provocando no Iraque, no Afeganistão, sangue que mancha as nossas mãos. 

Não chegou afinal a hora de esquecer as mentiras? De deixar partir os mortos? Por que tanto insistir em repetir o mantra do 11/9, como culto de alguma religião antiga, se todos já sabemos que os EUA, como nação, não sabemos o que fazer do nosso passado de guerras de agressão – e, pior ainda, que nada fizemos para merecer absolvição? 

O melhor que teríamos a fazer seria entregar ao esquecimento o 11/9. Se, pelo menos, pudéssemos esquecer! Claro que não podemos. Mas, pelo menos, poderíamos pôr fim às cerimônias-espetáculo. 

Podemos, sim, parar de recorrer ao 11/9 para explicar o inexplicável. Podemos, sim, parar de usar aqueles mortos para que os EUA, como nação, finjam que se sentem um pouco melhores. Não somos nação que mereça qualquer consolo. Que, pelo menos, deixássemos os mortos em paz, e cuidássemos, nós mesmos, de nos olhar, nós, os vivos, com menos condescendência. 

Cerimônias da húbris, do orgulho arrogante 

Menos de 24 horas depois dos ataques de 11/9/2001, o primeiro jornal já batizara o local, em New York, de “Marco Zero” [ing. “Ground Zero”]. Como se alguém precisasse de algum sinal de que estávamos já descarrilando, como avaliação errada do que realmente acontecera. Puseram-se então aos gritos de “agora, chega!” 

Antes daquele dia, a expressão “marco zero” só tivera um significado: sempre designou o ponto em que a bomba atômica explodiu em Hiroxima. 

Os fatos do 11/9 são, nesse sentido, bem simples. Não foi ataque nuclear. Não foi o apocalipse. A nuvem de poeira onde antes houvera as torres, não era cogumelo, nem a poeira era radiativa. A civilização não estava ameaçada de morte. Sequer a existência dos EUA foi ameaçada. Sequer a vida da cidade de New York. 

Espetacular como imagens, e terrível pelo número de vítimas, a operação não foi mais tecnologicamente avançada que o ataque falhado contra uma das torres do mesmo Centro Comercial Mundial em 1993, por radicais que alugaram um caminhão Ryder e o carregaram de explosivos. 

Ao lado da primeira irrealidade, logo veio a segunda. Quase imediatamente, Republicanos conhecidos, como o senador John McCain, acompanhados do presidente George W Bush, de altas figuras do governo e, pouco depois, num frenético rufar de tambores de apoio e concordância, toda a imprensa-empresa dos EUA, decidiram que “Estamos em guerra”. Aconteceu exatamente assim. Apenas três dias depois dos ataques, Bush declararia que aquela seria “a primeira guerra do século 21”. Qual o problema? Simples: o problema é que não havia guerra alguma. Os EUA não estávamos em guerra. 

Por mais esforço que a imprensa-empresa tenha investido para implantar essa fantasia, o Marco Zero não foi Pearl Harbor. Al-Qaeda nunca foi o Japão, nem a Alemanha Nazista. Sequer a União Soviética. A Al-Qaeda nunca teve exército, não tem dinheiro suficiente para tanto, não é Estado (embora conte com a proteção mínima do fraco governo do Afeganistão – terra das mais miseráveis, mais pobres, mais atrasadas do planeta). 

E mesmo assim – mais um sinal de para onde os EUA estávamos indo – quem quer que sugerisse que não havia ato de guerra, que o ataque fora crime e exigia ação da polícia internacional, era alvo de risadas (ou de humilhação ou de insulto) e expulso dos lares norte-americanos [2]. E assim o império preparou a retaliação (exatamente como Osama bin Laden desejou que o império fizesse), numa “guerra” apocalíptica, planetária, guerra para dominar, mascarada como guerra para sobreviver. 

Enquanto isso, o populacho foi bombardeado com propaganda, repetitiva, massiva, de costa a costa, dos ritos do 11/9, enfatizando que os norte-americanos teriam sido as maiores vítimas, eram os gloriosos sobreviventes e seriam, no futuro, os mais fortes dominadores do planeta Terra. 

Assim, os mortos do 11/9 foram convertidos em agentes potenciais de recrutamento, a serviço de um revitalizado American way of war [modo americano de fazer guerra]. 

Por tudo isso, nos curtos meses de “missão cumprida” depois de caírem Kabul e, em seguida, Bagdá, a arrogância norte-americana, a húbris, não conheceu limites. E foi naquele momento – não no 11/9 – e foi essa arrogância sem limites, que inspiraram e ainda inspiram a construção dessa gargantuesca “Torre da Liberdade” e do projeto imobiliário de 10 bilhões de dólares, à guisa de memorial erigido no local onde ocorreram os ataques. 

O memorial que lá está – inaugurado ontem, 11/9/2011. É memorial àquela húbris, memorial erigido à arrogância imperial. 

No dia que marca 10 anos do 11/9/2001, para potência imperial em frangalhos, visivelmente decaída, visivelmente em deterioração, que se debate à beira do desastre financeiro, da paralisia política, que vive tempos de crise econômica sem precedentes, em que a infraestrutura está em desintegração, que não oferece emprego aos seus cidadãos, que lhes tirou empregos, moradia, assistência médica pública... tudo isso já deveria ser evidente e óbvio. Mas não. Ainda nada nos dizem, aos norte-americanos, sobre a terapia de choque de que precisamos. 

Enterrar as piores carências da vida dos norte-americanos 

Mesmo hoje, é lugar comum falar do Marco Zero como “Campo Santo” [3]. Nada mais falso. Dez anos depois, é campo desfigurado, e nós o desfiguramos. Tudo poderia ser diferente. Os ataques do 11/9 poderiam ter sido como a Blitz, em Londres na 2ª Guerra Mundial. Algo que se recordasse para sempre com orgulho, queixo trêmulo e tudo. 

E se tivéssemos de recordar só a reação de quem estava em New York City, vivos e mortos, os primeiros a reagir e os últimos a aparecer, os que criaram memoriais improvisados e centrais de mensagens para localizar os desaparecidos em Manhattan, ainda poderíamos lembrar com orgulho, do 11/9. 

Em termos gerais, os novaiorquinos são respeitosos, calorosos, atenciosos, não vingativos. Nada tinham planejado, antes do dia 12/9/2001, que os ajudasse a enfrentar aqueles cerca de 3.000 mortos. Não estavam preparados no momento da catástrofe para – como disse o secretário da Defesa Donald Rumsfeld, em formulação clássica – “ser massivo. Remexer em tudo, varredura total. Coisas relacionadas e coisas sem relação alguma”. 

Infelizmente, não eram as medidas que o momento pedia. Como resultado, os usos que demos ao 11/9 na década que transcorreu desde aquele dia só fizeram destacar os traços de covardia, não de coragem. Se permitimos que o 11/9 seja usado na próxima década, como foi usado na década passada, os EUA passaremos à história como nação de covardes. 

Poucos eventos nesse planeta dos vivos são mais importantes, ou mais humanos, que o enterro e a lembrança dos mortos. Os seres de Neanderthal já enterravam os mortos, talvez com flores. Há dezenas de milhares de anos, os primeiros humanos, de Cro-Magnon, já faziam cerimônias elaboradas de atenção aos mortos, um deles, pelo menos, foi encontrado envolto em mortalha na qual se bordaram 3.000 contas de marfim, objeto de reverência talvez e, mesmo, para que fosse lembrado. Tudo que se sabe da pré-história do homem, dos primórdios da história, foi aprendido de túmulos construídos para os mortos. 

Claro que é nosso dever, nesse vale de lágrimas, lembrar os mortos, os mais próximos e os mais distantes. Muitos dos que amavam e eram próximos das vítimas do 11/9 certamente apreciam as cerimônias anuais celebradas em homenagem a esposas, maridos, amantes, crianças, mães, pais, irmãos, irmãs. Merecem um memorial, em nome do pesadelo do 11/9. Mas os que não morremos não merecemos memorial algum. 

Se o 11/9 foi pesadelo, o memorial e o Marco Zero apresentados como locais “sagrados” nada são além de cheque em branco que permitiu criar os “EUA, estado de guerra”, começo de uma viagem sem fim rumo ao inferno. 

O memorial e o Marco Zero ajudaram a empurrar os EUA para campos de morticínio, que cobrem de vergonha os mortos do 11/9. 

Todos os mortos, claro, serão esquecidos, mais cedo ou mais tarde, por mais que nos agarremos às lembranças e por mais memoriais que se construam. Guardo comigo um memorial privado pelo qual homenageio meu pai e minha mãe, mortos. Sempre que folheio o álbum de fotos da infância de minha mãe, só reconheço o rosto dela cercado de rostos desconhecidos, e sei que já não há ninguém na face da terra que pergunte por eles. E quanto eu morrer, esse meu memorial mínimo em homenagem àqueles mortos irá comigo. 

Esse, mais cedo ou mais tarde, será o destino de todos que foram assassinados dia 11/9/2001, naqueles prédios em New York, naquele campo na Pensilvânia e no Pentágono, além de todos que sacrificaram a vida tentando salvá-los, ou que estejam morrendo hoje, por ferimentos daquele dia. Nessas circunstâncias, quem não pensaria em relembrá-los de modo especial? 

É terrível pedir aos que ainda choram os mortos do 11/9 que não se prestem ao espetáculo público da lembrança. Mas muito pior é o que se vê: repetidas solenidades em que se homenageiam, não mortos amados, mas sempre, e só, o estado de guerra em que os EUA converteram-se e a plena realização dos mais ensandecidos sonhos de Osama bin Laden. 

A memória é, em geral, importante patrimônio de todos. Mas nesse caso, sairemos melhores disso tudo, se esquecermos. 

É hora de enterrar todas as misérias que cresceram na vida nos EUA desde o 11/9/2001 e todas as cerimônias que santificam aquelas misérias, anualmente, há dez anos. O melhor é fazer o funeral dessas misérias no mar, com Bin Laden. De modo que, livres da guerra, os EUA possamos relembrar nossos mortos como deve ser, sem espetáculo, longe das câmeras de televisão: em silêncio. 

Mas, sobretudo, em paz.




Notas dos tradutores
[1  Freedom Tower, “Torre da Liberdade”, é o nome ridículo que a empresa construtora deu a um dos vários prédios que estão sendo construídos no local onde ficavam as torres gêmeas do World Trade Center que Osama bin Laden pôs abaixo, dia 11/9/2011 – no que é e por muitos anos continuará a ser o mais impressionante ato de guerra de todos os tempos, disputado e vencido no coração do território do inimigo. Veja o Projeto do prédio.  A construção desse conjunto de prédios foi matéria do noticiário “Bom dia Brasil”, da rede Globo em 9/9/2011. O artigo que aí vai, portanto, é resposta também àquela baboseira desnoticiosa, desinformativa e de ativa propaganda imobiliária-ideológica antijornalística. 
[2] Sobre isso, ver CHOMSKY, Noan, 2011, “Havia alternativa? Revisitando o 11 de setembro uma década depois”, em português, em vários blogs, entre os quais Esquerda.net. Para Chomsky, os ataques do 11/9 deveriam ter sido objeto de denúncia à polícia internacional, prisão dos denunciados, se condenados e fim de papo.  
[3] Hollowed Ground” é título de um filme de horror (2007) (em  ); nesse caso, pode ser traduzido como “cemitério mal assombrado”. Grafado como “Hollowedgrounds” é título de um documentário (2009) sobre vários cemitérios onde estão enterrados, em todo o mundo, soldados norte-americanos; nesse caso, pode ser traduzido como “campo santo”.