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terça-feira, 16 de junho de 2015

Hamid Karzai, presidente do Afeganistão (2004-2014), entrevistado por Oksana Boyko


11/6/2015, Hamid Karzai entrevistado por Oksana BoykoRT – “Words Apart”
Traduzido da transcrição em inglês  pelo pessoal da Vila Vudu

A rede estatal russa de televisão RT exibiu entrevista sensacional com o ex-presidente do Afeganistão Hamid Karzai, sobre a agenda secreta dos EUA no Afeganistão.
No estilo que é sua marca registrada, Karzai saltita em torno dos assuntos. Mas dessa vez deixou muito claro que, na sua avaliação, o Estado Islâmico (EI), que parece estar estreando no Afeganistão, não passa de “braço religioso armado” dos EUA, ferramenta que Washington usa para desestabilizar a Ásia Central, como parte da estratégia norte-americana de contenção, contra Rússia e China [(“Karzai nudges regional powers on Afghan peace process) [Karzai agita as potências regionais, sobre o processo de paz afegão],
14/6/2015, M.K. Bhadrakumar, Asia Times News



Quando digo “nossa região”, digo China, Rússia, Índia e outros países, inclusive o Paquistão, inclusive o Irã, nossos dois grandes vizinhos (...) Os EUA devem explicações ao mundo. Devem explicar ao mundo se falharam na guerra contra o terror, ou se a guerra deles contra o terror escapou de qualquer controle. 
Hamid Karzai

O Afeganistão tem estado no centro do grande jogo geopolítico há séculos. Com complexos interesses locais, regionais e internacionais que se sobrepõem, permanece incerto o futuro da segurança do país.
●– O governo afegão pode chegar a uma reconciliação com os Talibã e manter-se independente de influência exterior?
●– E como se comportará ante a presença cada dia mais visível do Estado Islâmico em seu território?
Oksana entrevista o ex-presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, para destrinçar essas questões.


Oksana Boyko (OB): Boa-noite. Sejam bem-vindos ao programa Worlds Apart. Cemitério de Impérios, não se sabe se realmente é ou não, mas o Afeganistão nunca deixou de ser campo de batalha para atores locais, regionais e internacionais. Quanto ainda falta para que o Afeganistão vença o Grande Jogo geopolítico que se desenrola em seu próprio território? Para discutir isso, recebo hoje o ex-presidente do Afeganistão, Hamid Karzai. Sr. Karzai, é uma grande honra tê-lo em nosso programa.
Hamid Karzai (HK): Obrigado. A honra é minha.
OB: Alguns veículos da imprensa ocidental nos últimos anos de seu governo noticiaram que o senhor mal podia esperar para deixar a presidência, que estaria cansado de política. Mas desde a aposentadoria o senhor parece muito ativo. Mês passado, o senhor esteve na Índia, eu sei, para a reunião com o primeiro-ministro Modi. E o senhor é esperado em Moscou, ainda no mês de junho, para uma série de reuniões, uma delas com o presidente Putin. Parece que o senhor converteu-se na “eminência parda” do Afeganistão. Quais os seus planos?
HK: Bem, infelizmente é verdade que o Afeganistão tem sido campo para alto jogo político já há dois séculos. E com imensas consequências e muito sofrimento para o Afeganistão e para a região. A senhora tem razão: estava mesmo muito ansioso para deixar a presidência do Afeganistão, e começar a viver como cidadão do meu país. Não estou fazendo política. Estou simplesmente tentando fazer o que posso, como cidadão do Afeganistão, para ajudar meu país e nossa região.
OB: Sr. Karzai, o senhor não está na política, como disse, mas é figura muito, muito influente em seu país. E acho que é justo dizer que a natureza dos problemas que seu país enfrenta não mudou muito desde o fim de seu mandato. Ainda não alcançou acordo político com os Talibã. O relacionamento com o Paquistão ainda é fonte de tensão. Mas seu sucessor, Ashraf Ghani, tentou construir relações de certo modo mais funcionais com Islamabad, algo em que o senhor nunca acreditou. O senhor chegou a dizer que o recente acordo entre as agências de inteligência dos dois países é “um estorvo”. Por que lhe parece tão má ideia?
HK: Apoio muito firmemente os esforços do presidente Ashraf Ghani para construir boas relações com o Paquistão. O Paquistão e vizinho do Afeganistão. O povo do Paquistão nos ajudou muitíssimo nos últimos 30 anos, especialmente na luta contra a União Soviética. O povo paquistanês aceitou nossos refugiados, cuidou de nós e dos nossos. Mas a história com o establishment militar e com o establishment de inteligência paquistaneses é história muito diferente. Mesmo quando lutávamos contra a União Soviética, eles conspiravam para enfraquecer o Afeganistão e rachar o Afeganistão. Mas... Há grande diferença entre construir relações com o Paquistão e submeter-se aos complôs e maquinações da inteligência paquistanesa e dos militares paquistaneses.
Sou contra aquele acordo, que dá poderes para a inteligência paquistanesa dentro do Afeganistão. É acordo danoso aos interesses do Afeganistão. Mas sou empenhadamente a favor de melhorarmos as relações com o governo civil do Paquistão. Os paquistaneses são nossos irmãos.
OB: O Paquistão não é a única parte que está fazendo essa política dupla, ou ambígua. Os próprios Talibã estão seguindo estratégia complicada, de conversar e combater ao mesmo tempo. E acho que não exagero se disser que, esse ano, houve mais do lado dos combates, que das conversas. Forças de segurança e forças policiais afegãs sofreram perdas significativas. Se estou bem informada, há combates em 26 das 34 províncias do país. Há algum incentivo para trazer os Talibã à mesa de negociações? Será que não estão mais empenhados em obter pela força o que querem?
HK: Minha senhora, aqueles Talibã que são afegãos, que são do Afeganistão, eles são nossos irmãos, são filhos dessa nossa terra, são muito bem-vindos para virem ao Afeganistão e para participar da vida como todos os demais afegãos. Para reconstruir o país conosco, para engajar-se conosco no processo de paz. E sei com certeza que há muitos anos aqueles Talibã querem voltar ao Afeganistão, mas não podem fazê-lo coletivamente, porque há outras forças nessa região, inclusive essas de que falei, os militares e a inteligência paquistanesa, que os impedem de vir. Ora, o processo de paz é absolutamente necessário para o Afeganistão, e todos os afegãos o apoiam. Desejo muito, como muitos outros afegãos, que a luta chegue ao fim, e espero que os Talibã não voltem a atacar dentro do Afeganistão. Espero que acabem imediatamente com os ataques. Mas o que se vê é que essa decisão não está inteiramente nas mãos deles.
OB: Bem, não está inteiramente nas mãos deles, em parte porque  eles impuseram condições muito difíceis para que as conversações prosseguissem. Uma dessas condições é, como se sabe, que todos os soldados estrangeiros, todas as forças estrangeiras, têm de deixar o Afeganistão. O senhor pessoalmente crê que se os norte-americanos saíssem amanha do Afeganistão, seria mais fácil negociar e alcançar a paz? O senhor acha que os Talibã se mostrariam mais interessados em negociar ou, ao contrário, menos dispostos a entrar em algum tipo de acomodação?
HK: Sem dúvida, pode ser mais fácil para os Talibã vir e conversar, se os norte-americanos devessem sair amanhã. Mas tal saída deles, amanhã, pode não significar imediata paz para o Afeganistão. O que espero que aconteça é que os Talibã desistam dessa exigência de retirada imediata dos soldados norte-americanos, porque essa retirada jamais acontecerá.
Em vez disso, quero que os Talibã venham e se engajem em conversações com o governo afegão, com o povo afegão, e preparem o terreno, mediante forte aliança de todo o povo afegão, para que todas as forças estrangeiras deixem nosso país, para que nossa região, afinal, possa ajudar o Afeganistão.
Quando digo “nossa região”, digo China, Rússia, Índia e outros países, inclusive o Paquistão, inclusive o Irã, nossos dois grandes vizinhos, para que todos nós, nessa região, possamos construir a estabilidade e o progresso de que todos tanto precisamos para o Afeganistão e para a região em torno do Afeganistão.
OB: Senhor Karzai, o senhor acaba de mencionar as dimensões geopolíticas que a luta no Afeganistão sempre teve. Gostaria de lhe fazer uma pergunta mais ampla. Não sei se o senhor concorda comigo, mas acho que, por já um longo tempo, o Afeganistão vem servindo como uma espécie de laboratório para testes de todos os tipos de ferramentas e estratégias geopolíticas. E a política, especialmente a geopolítica e especialmente no Afeganistão, sempre foi caracterizada por viradas dramáticas. O senhor mencionou a luta contra os soviéticos. Sei que o senhor, na juventude, também ajudou a recolher fundos para os Mujahideen. Agora o senhor está a caminho de Moscou. Acho que é caso exemplar de como as alianças tantas vezes fazem-se e desfazem-se tão rapidamente. Acho que agora esse processo intensificou-se, e anda ainda mais rápido que nos anos de sua juventude.
Minha pergunta é: O senhor vê constantes, absolutos, qualquer regra que todos os atores geopolíticos – e sabe-se que a geopolítica pode ser negócio bem sujo –, o senhor vê alguma regra, ou regras, ou qualquer constante que todos tenham seguido sempre, em todos os casos?
HK: Sim, minha senhora. Há duas coisas que absolutamente não mudaram, daquele tempo até hoje. Primeira – os EUA e seus aliados vieram ao Afeganistão para fazer guerra contra o terrorismo, e para, com aquela guerra, trazer paz e segurança ao Afeganistão, à região e também aos países deles mesmos. E aquela mesma guerra está entrando agora no 13º, 14º ano, sem nenhuma mudança e sem que nenhum dos resultados buscados tenha sido alcançado.
Infelizmente, os afegãos sofreram pesadamente naquela guerra ao terror. E o terrorismo e o extremismo, em vez de terem sido derrotados, ou reduzidos ou eliminados, estão firme e ininterruptamente em ascensão. Temos hoje mais radicalismo do que jamais antes, em tempo algum. Temos mais atividade terrorista hoje, do que jamais antes. Da Líbia até o Paquistão, Índia e China, e também a Rússia veem as consequências desse crescimento do terrorismo.
Por tudo isso, entendo que nessa questão da luta contra o terror – e essa é questão que eu sempre trouxe à discussão com líderes norte-americanos, quando era presidente, e ainda levanto essa questão sempre que encontro personalidades e autoridades: os EUA devem explicar ao mundo se falharam na guerra contra o terror, ou se a guerra deles contra o terror escapou de qualquer controle.
E, ainda sobre isso, também é necessária uma discussão sem meias palavras entre EUA e OTAN, e as grandes potências, potências globais, todas nessa região – Rússia, China e Índia e outros países – para determinar em que ponto todos nós erramos, se é que o erro foi de todos.
No que tenha a ver com a Rússia, minha senhora, a Rússia é vizinha do Afeganistão por todos os critérios. Foi fonte de tremenda ajuda aos afegãos desde antes de haver União Soviética, ainda na Rússia czarista. Rússia e Afeganistão sempre tiveram engajamento muito íntimo, cooperação muito próxima. Houve aquele período infortunado na nossa história, quando a União Soviética cometeu o erro de invadir o Afeganistão. O resultado, de fato, foi que os dois lados, Afeganistão e Rússia, sofremos. Nós nada recebemos como prêmio pela vitória. E a Rússia sofreu de outros modos, e desde então o Afeganistão enfrenta altos níveis de instabilidade.
Por tudo isso, para nós, uma Rússia forte, uma Rússia poderosa, uma Rússia em firme aliança com China e Índia, será fator decisivo de estabilidade para o Afeganistão e para toda a região. E isso é o que esperamos conseguir logo, em direção a quê temos de trabalhar sempre.
OB: Senhor Karzai, o senhor falou sobre a necessidade dessa discussão aberta sobre a guerra ao terror dos norte-americanos. E sabe-se que o senhor há muito tempo é crítico do envolvimento dos EUA no Afeganistão. Mas em seu discurso de despedida, o senhor falou muito incisivamente: disse que a missão dos EUA foi uma traição. O senhor disse que os EUA não queriam paz alguma no Afeganistão, porque os EUA têm agenda própria e seus próprios objetivos. Para o senhor, que objetivos seriam esses?
HK: Com certeza eu estava muito desgostoso com aspectos da presença dos EUA no Afeganistão, o modo como se conduziam os militares dos EUA no Afeganistão, o modo como estavam fazendo aquela guerra ao terror em território do Afeganistão. Eles sabem, como nós sabemos, e o mundo inteiro sabe, que os santuários, os campos de treinamento, os fatores de motivação para o terrorismo não estavam em território afegão. Os próprios norte-americanos nos disseram várias vezes que tudo isso estava localizado no Paquistão. Mas... lá estavam os soldados dos EUA bombardeando vilas afegãs, prendendo afegãos e ferindo afegãos civis. Esse foi ponto de grave desentendimento entre nós, um ponto de desacordo muito forte entre nós. Mas ao mesmo tempo em que me opunha muito firmemente a tudo isso, nunca deixei de agradecer ao povo dos EUA pela ajuda que deram ao Afeganistão, para educação, serviços de saúde, construção de estradas e tal.
Significa dizer que não me oponho a relações com os EUA. Sou muito decididamente favorável a relações com os EUA e seu povo. Mas quero que os militares norte-americanos e o pensamento estratégico norte-americano mudem de rumo na guerra ao terror; que mudem o comportamento, as práticas, em tudo que tenha algo a ver com guerra ao terror e qualquer luta contra o terror.
OB: Mas senhor Karzai, só para esclarecer: o senhor acha que se trata de uso de táticas erradas? Que a política estava certa, mas as medidas para pô-la em prática foram erradas? Ou é a política que estava errada? Porque acho que o senhor usou várias vezes um eloquente provérbio: “correr com a lebre, caçar com o cão ”. Será que o senhor entende que os norte-americanos não querem de fato alinhar-se com nenhum dos lados em conflito, simplesmente porque não acham que seja a coisa certa a fazer? Fato é que as dualidades das políticas deles aparecem de longe, não só no Afeganistão ou Paquistão, mas em todo o mundo. O senhor acha que a política da dualidade estaria dando frutos, no que tenha a ver com os norte-americanos?
HK: Sim, realmente acredito que havia uma política de dualidade, que eles estão correndo com a lebre e caçando com o cachorro. E essa é a razão desses fracassos, e é o motivo de tanto sofrimento para o povo afegão, e também para os norte-americanos. O que lhe disse antes – sobre a necessidade de conversa séria entre os EUA e as potências mundiais, e nós, no Afeganistão – era exatamente para mudar essa política, se eles querem convencer o mundo sobre a guerra ao terror. Se se trata de promover mudanças, é necessário que sentem para discussão sincera, séria. [Intervalo]
OB: Sr. Karzai, o senhor sabe que há tensões entre a Rússia e o ocidente, e que são sempre descritas em termos da Guerra Fria. Mas ouvi o senhor dizer que, na sua avaliação, está em curso uma nova versão do Grande Jogo. Será que as regras desse jogo são diferentes das de antes?
HK: Acho que as regras não são diferentes. As regras são as mesmas, o Grande Jogo, infelizmente, ainda é jogado como se viu durante a Guerra Fria, como foi jogado durante o Império Britânico e o Império Russo. O jogo é o mesmo, mas há mais jogadores. Há uma China grande, poderosa, em ascensão. Há uma Índia, grande, poderosa, também em ascensão. O Irã também é player regional. E há o Paquistão que é potência nuclear, além dos EUA e da OTAN ativamente presentes no Afeganistão. Quero dizer: o jogo é o mesmo, mas há mais jogadores e a coisa está muito mais complicada. Claro, há alguns do lado perdedor, do lado que mais sofre, nesse jogo.
E há os que tentam obter vantagens no sofrimento pelo qual passamos. Citaria aqui uma frase do presidente Xi Jinping da China, que disse na mais recente reunião [inaudível] em Xangai, que não se pode ter um mundo no qual só alguns países vivem sempre em segurança e os demais vivem sempre inseguros e em sofrimento. Ou lembrar o que disse o presidente Putin sobre isso, que não se pode ter mundo no qual alguns países estão sempre por baixo e destroçados, e outros sempre supremos, vivendo o melhor momento da vida e dos interesses deles. Isso tem de mudar. E isso mudará inevitavelmente.
OB: Mas ao mesmo tempo, Sr. Karzai, ouvimos frequentemente dos governantes dos EUA que, outra vez, os EUA seriam um hegemon benevolente, que o que fazem é feito com vistas ao melhor interesse do mundo. E lembro de ter ouvido o senhor dizer, várias vezes, que os presidentes mudam, mas o estado, a chamada política profunda ou estado profundo, permanece o mesmo. Pode haver diferenças cosméticas entre Obama e Bush, mas, no todo, as políticas que o país deles persegue são sempre as mesmas. Será que isso implica que, seja quem for o próximo presidente dos EUA, e independente dos fracassos e dificuldades, os EUA permanecerão como ator poderoso no Afeganistão?
HK: Ora, minha senhora, todos os estados têm estados profundos dentro deles. Até o Afeganistão, país pobre e enfraquecido, tem interesses de fundo dos quais jamais abrirá mão. Assim também os EUA, é claro. E também a Rússia, e com certeza outros países também têm estados profundos. O que estou tentado dizer aqui, de um ponto de vista afegão, é que não somos contra os EUA, queremos ser amigos dos EUA, mas queremos que os EUA aproximem-se de nós sem mentiras. Que embora tenham bases aqui, os EUA não devem jamais tentar, como fizeram antes do fim da União Soviética, quando fomos bem-sucedidos, trair o Afeganistão. E eles saíram do Afeganistão, e nos deixaram aqui, entregues aos desejos e às maquinações dos militares e da inteligência paquistaneses.
Estou querendo dizer que, desta vez, os EUA, outra vez, exatamente hoje, os EUA não repitam aquele erro. Que não tentem entregar nossa soberania ao Paquistão, ou submeter nossa autoridade e nossa soberania nacional ao controle dos paquistaneses.
Os EUA devem negociar conosco como estado independente, e do ponto de vista dos interesses afegãos. Esse é o ponto principal de discussão. Mas... mas também queremos que os EUA vivam em bons termos em toda a região, e internacionalmente, com países como Rússia, China, Índia e outros. Sobretudo, em relação à Rússia, dado que falo aqui ao canal Rússia Today, da televisão russa. A Rússia é um valor nesse mundo, potência reconhecida em todo o mundo, entidade histórica e [inaudível] não devem tentar minar-lhe a força, a influência, enfraquecê-la ou fingir que a Rússia não existiria.
OB: Não há dúvidas, Sr. Karzai, que suas ideias encontrarão muito ouvidos atentos e receptivos no Kremlin. Acho que as ideias que o senhor expressou aqui correspondem provavelmente ao que o presidente russo sente e pensa hoje. E especialmente, dado o conflito na Ucrânia, acho que há também aqui em Moscou uma sensação de ter sido traído, que a Rússia fez o possível para trabalhar produtivamente com o ocidente, e com que efeito? Só para ver seus interesses de segurança agredidos e ameaçados, como vimos acontecer na Ucrânia ano passado.
Minha pergunta ao senhor é a seguinte: É claro que ninguém escolheria ter os EUA como inimigos. Assim sendo, dada a sua longa experiência com os norte-americanos, o que lhe parece... Qual a melhor receita para lidar com eles num sentido construtivo, positivo? Como garantir que haja relacionamento positivo, sem que, ao mesmo tempo, os EUA puxem o tapete, nos passem a perna, nos engambelem?
HK: A questão é exatamente essa. Concordo integralmente com a senhora. Tive muitos contatos com o presidente Putin sobre o problema dos EUA e a guerra ao terror durante os últimos 13 anos. Várias vezes o presidente Putin repetiu que há muitas diferenças entre Rússia e EUA, mas que a Rússia está de acordo com os EUA no Afeganistão, na guerra contra o terror, na necessidade de combater o radicalismo e o terrorismo. Ouvi esse ideia repetidas vezes. Cada vez que eu manifestava minhas reservas, quanto a essa ‘solidariedade’ com os EUA, o presidente Putin recomendava-me moderação.
Agora, há apenas dois anos, o presidente Putin começou a pensar como eu. Que, sim, houve mudança no modo com a guerra ao terror está sendo combatida, que há mais mentiras que verdade nessa questão. E concordo integralmente com ele também nisso. Quero dizer que, sim, que o mundo tem de ser visto, do ponto de vista das grandes potências, para ser preservado, e também países como o nosso, têm de ser vistos sob luz especial. É preciso que as grandes potências cuidem de que todos sejam preservados e beneficiados. Não é possível que se deixem aprisionar nessa relação em que um sempre ganha, e o outro sempre perde.
OB: Então, Sr. Karzai, falando sobre combate ao terrorismo e ao extremismo, o senhor sabe das graves preocupações sobre o ISIS ou Daesh, que parece que está chegando ao Afeganistão. Ainda há poucos dias, ouviram-se notícias sobre o ISIS ter decapitado pelo menos dez combatentes dos Talibã. Que tipo de ameaça o senhor entende que o chamado “Estado Islâmico” acrescenta à ainda abalada situação de segurança no Afeganistão?
HK: Minha senhora, os Talibã são fato da vida no Afeganistão, são parte do nosso país, são gente do nosso povo, sempre estiveram lá, são parte da sociedade afegã, o que implica que temos de viver com eles e eles têm de viver conosco. Mas o ISIL ou Daesh não, não é produto autóctone do Afeganistão. Não surgiu no Afeganistão, não cresceu no Afeganistão e é absolutamente estranho e estrangeiro ao Afeganistão.
[ISIS/ISIL/Daesh] é resultado dos eventos no Iraque e na Síria, e resultado da interferência estrangeira naqueles países. Assim sendo, se algum dia o Daesh crescer, fortalecer-se ou expandir-se no Afeganistão, a única explicação é que tenha sido planejado assim para que eles avancem para a Ásia Central, para agredir China e Rússia. E nada disso será jamais possível sem ativa mão estrangeira, sem apoio de fora.
Digo-lhe pois que, se nos próximos dias ou meses, a senhora ouvir dizer que o Daesh está crescendo no Afeganistão, que está forte e expande-se em termos militares, não caberá dúvida alguma de que estão sendo apoiado por forças e dinheiro estrangeiros, com vistas a desestabilizar a região, especialmente a Ásia Central, China e Rússia.
OB: Permita-se explorar um pouco mais esse ponto. O senhor falou em agências estrangeiras de inteligência. Que agências o senhor tem em mente? Que país teria agenda geopolítica tão ampla a ponto de tentar agredir Rússia, China e a Ásia Central?
HK: O que posso lhe dizer é que se algum dia aparecer algum Daesh no Afeganistão, onde jamais houve, não será produto nativo do Afeganistão, não é nosso. Portanto, se os terroristas aumentarem por lá, em números, em poder de ataque, em armamento ou em estruturas militares, sempre significará, para os afegãos, que alguma forte mão estrangeira os está apoiando, armando, sustentando, treinando. É o que posso lhe dizer.
OB: O senhor está sendo muito diplomático. Sei que o senhor sempre argumentou, há muito tempo, que a questão do terrorismo tem de ser tratada por via política, não por via militar, removendo as fontes de financiamento, os fatores motivacionais, os campos de treinamento. E outros também dizem o mesmo em relação ao ISIS ou ISIL, que os EUA e talvez os seus aliados deveriam dedicar-se a mudar o ambiente onde brotam e crescem esses terroristas, em vez de só acertá-los do ar, de aviões de guerra. Mas os norte-americanos, pelo menos até aqui, persistem na abordagem bélica, militar. Pergunto-lhe outra vez: o senhor acha que estamos assistindo a uma escolha errada de táticas, ou é a mesma política de duas caras, de dualidade, que discutimos no início?
HK: Minha avaliação, para ser breve e preciso nessa resposta: é uma política de dualidade. É precisamente isso. É exatamente minha opinião.
OB: O senhor há muito tempo defende que se negocie com os Talibã. O senhor os chamou de “irmãos” várias vezes. O senhor acha que se deve também negociar com o ISIS?
HK: ISIS é corpo absolutamente estranho ao Afeganistão. Não surgiram no Afeganistão. Minha opinião é que não podemos nem poderemos nem falar com eles. Os Talibã, sim, são parte de nosso país, sempre falaremos com eles. Nunca houveDaesh no Afeganistão e está absolutamente fora de questão negociarmos com eles.
OB: Bem, senhor Karzai, a pergunta agora não é sobre o Afeganistão. É questão política mais ampla. Em geral se pensa, ou a imprensa comercial nos faz crer nisso, que o ISIS seria um bando de bárbaros degoladores. Alguma coisa aí pode até ser verdade, mas sabe-se que parte significativa dos combatentes do Estado Islâmico e praticamente todos os comandantes, são egressos das forças de segurança de Saddam Hussein, o que implica que têm educação formal, formação militar e experiência, muito provavelmente arrastados pelas próprias frustrações e sofrimentos. Queria saber: o senhor acha que essas pessoas algum dia sentarão à mesa de negociações?
HK: Como a senhora mesma disse, essa questão nos leva para o Iraque e Síria. Se o Daesh é nativo do Iraque, nasceu, cresceu e ganhou força arrastado pelos sofrimentos infligidos ao Iraque, se é parte do povo iraquiano, nesse caso, por que os iraquianos não poderiam negociar com eles? Claro que podem. Com certeza o governo iraquiano conversaria com eles. O mesmo vale para a Síria: se forem fenômeno sírio autóctone, claro que o governo sírio negociará com eles.
Mas se o Estado Islâmico é força estranha ao corpo social no Iraque e na Síria, como é estranho ao Afeganistão, se é força criada de fora, que está sendo usada por força externa à nossa região, nesse caso o ISIS/ISIL/Daesh está aqui a serviço dos objetivos de destruição também de força externa à nossa região. Nesse cenário, definitivamente não há o que negociar com eles.
OB: Discussão muito interessante essa, que o senhor está propondo. Infelizmente, temos de ficar por aqui.
[Agradecimentos. Fim da entrevista]

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O assassinato como política de Washington e como fracassou – 1990-2015


A estratégia de assassinar o “bandido-em-chefe”


28/5/2015, [*] Andrew CockburnTomDispatch blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Sobre o tema, ver também: COCKBURN, Andrew (2015) Kill Chain: The Rise of the High-Tech Assassins [As cadeias de matar: ascensão dos assassinos high-tech].



Warren Weinstein e Giovanni LoPorto (D)
Com a guerra ao terror aproximando-se do 14º aniversário – guerra que os EUA parecem estar perdendo, com os jihadistas avançando no Iraque, na Síria, no Iêmen – os EUA mantêm-se obcecadamente presos a sua estratégia de “alvejar alvos de alto valor” [orig. “high-value targeting”], o eufemismo preferido no país para “assassinato”. O Secretário de Estado, John Kerry, citou com orgulho a eliminação de “50%” dos “top comandantes” do Estado Islâmico como recente indicação de avanços. Houve notícias de que Abu Bakr al-Baghdadi, o Califa do Estado Islâmico, em pessoa, teria sido gravemente ferido num ataque aéreo em março e, portanto, estava afastado do comando diário da organização. Em janeiro, como a Casa Branca só admitiu com grande atraso, um ataque cujo alvo era a liderança da al-Qaeda no Paquistão conseguiu matar também um cidadão norte-americano, Warren Weinstein e outro refém que estava com ele, o italiano Giovanni Lo Porto.

Mais recentemente no Iêmen, quando a al-Qaeda na Península Arábica tomou um aeroporto chave, um drone dos EUA assassinou Ibrahim Suleiman al-Rubaish, suposta figura importante na hierarquia do grupo. Ao mesmo tempo, o canal saudita de notícias, al-Arabiya mostrava um baralho cujas cartas exibiam fotos dos principais inimigos dos sauditas no Iêmen, lastimável cópia do infame baralho de cartas criado pelos militares dos EUA pouco antes da invasão do Iraque, como indicação dos iraquianos a serem mortos (Saddam Hussein era o ás de espadas).

Seja qual for o eufemismo – os israelenses preferem falar de “prevenção focada” – o assassinato tem sido claramente a estratégia preferencial de Washington no século XXI. Os métodos de matar, incluindo drones, mísseis cruzadores e equipes de rastreadores-matadores nas Forças Especiais, podem variar, mas a noção central, de que o caminho do sucesso está em matar diretamente os líderes inimigos já está firmemente incorporada. Como a então Secretária de Estado, Hillary Clinton, disse em 2010:

Acreditamos que o uso de operações orientadas pela inteligência e com alvo predefinido contra insurgentes de alto valor e suas redes é componente chaveda estratégia dos EUA.

Análises dessa política recordam, corretamente, o precedente sangrento do Programa Fênix da CIA na era Vietnã, quando foram “neutralizados” pelo menos 20 mil seres humanos. Mas há fonte de inspiração mais recente e mais direta, embora menos notada, para o programa de assassinatos por matadores norte-americanos, no Oriente Médio Expandido e na África: a chamada “estratégia de assassinar o bandido-em-chefe” que foi usada nas guerras das drogas de Washington nos anos 1990s.


DRONE Predator MQ9-Reaper
Como me disse pessoalmente um ex-alto funcionário da Casa Branca para contraterrorismo, em entrevista em 2013:

A ideia nasceu da guerra às drogas. O precedente já estava no sistema, modelando nosso pensamento. Tínhamos alto grau de confiança na serventia do assassinato predefinido. Havia convicção generalizada de que essa era ferramenta que tínhamos de usar.

Tivesse o tal funcionário especialista melhor informação sobre o resultado desse capítulo da guerra às drogas, talvez tivesse menos confiança na utilidade da “ferramenta”.

Na verdade, a parte mais estranha dessa história é que a estratégia de matar os chefões da droga, que deu resultado terrivelmente errado, praticamente o oposto do que se esperava, tenha voltado a ser aplicada em grande escala, depois, na guerra ao terror – e com exatamente os mesmos resultados terrivelmente errados.

Aparece a estratégia de assassinar o bandido-em-chefe [orig. kingpin strategy]

No início dos anos 1990s, a Drug Enforcement Administration (DEA) era a prima pobre dentre as agências de polícia federal nos EUA. Criada duas décadas antes pelo Presidente Richard Nixon, dormitava à sombra das irmãs mais poderosas, sobretudo o FBI. Mas o futuro trouxe-lhe esperanças. O presidente George H.W. Bush acabava de relançar a guerra às drogas que havia sido lançada por Nixon, e havia gordas dotações orçamentárias à vista. Além do mais, em contraste com os tempos de Nixon, quando os grupos de traficantes viviam nas sombras, naquele momento o inimigo já tinha rosto ou rostos conhecidos. Os cartéis colombianos de tráfico de cocaína já estavam na mídia, seu poder e a eficiência violenta e cruel espalhafatosamente divulgados na televisão e nos jornais.

E Robert Bonner, ex-procurador e juiz federal nomeado para dirigir a DEA em 1990, viu ali, bem clara, uma oportunidade. Embora Nixon alimentasse fantasias de usar sua força antidrogas para assassinar traficantes, e até tivesse pedido a líderes da comunidade de emigrados cubanos anti-Castro que lhe fornecessem os indispensáveis assassinos, Bonner tinha em mente coisa mais sistemática. Chamou seu plano de uma “estratégia de assassinar o bandido-em-chefe”, cujo objetivo seria a eliminação, por morte ou por captura, dos “pinos centrais”, os bandidos-em-chefe que dominavam aqueles cartéis.

Robert Bonner, ex-nº 1 do DEA
Implícito no conceito estava o pressuposto de que os EUA enfrentavam uma ameaça estruturada hierarquicamente, que poderia ser derrotada pela remoção dos elementos chaves do comando. Nisso, Bonner fazia eco a uma doutrina tradicional da Força Aérea dos EUA: que todo e qualquer sistema inimigo tem contém necessariamente “nodos críticos”, cuja destruição levaria ao colapso do inimigo.

Num discurso revelador de 2012, numa reunião de veteranos da DEA organizada para comemorar os 20 anos de lançamento da estratégia de assassinar o bandido-em-chefe, Bonner falou do inimigo empresarial que enfrentara. Os grandes traficantes de droga, disse ele,

(...) são, por qualquer ponto de vista que se os analisem, grandes organizações. Por definição operam transnacionalmente. São integrados verticalmente em termos de produção e distribuição. E, aliás, mantêm gente muito esperta, embora também muito cruel, no topo; e têm estrutura de controle e comando. E eles também têm seus especialistas, encarregados de determinadas funções essenciais da organização, como logística, vendas e distribuição, finanças e policiamento.

Daí se inferiu que a remoção desses personagens muito espertos do topo da organização, para nem falar dos especialistas em logística, tornaria o cartel inoperante e, assim, se interromperia o fluxo de narcóticos para os EUA.

A caça aos bandidos-em-chefe prometia ricas recompensas institucionais. Além da superior presença do FBI, Bonner teve de discutir com outro predador carnívoro na selva da burocracia de Washington, que ansiava por tomar contra do território da agência de Bonner. “DEA e CIA eram como cão e gato” – relembra o ex-diretor da DEA, numa entrevista em 2013. “Havia tensão real entre elas”. Mas Bonner conseguiu negociar a paz com a poderosa agência, “com o quê passamos a ter uma aliada muito importante: a CIA podia usar a DEA e vice-versa”.

Queria dizer que a agência superior podia usar os poderes legais da agência antidrogas para agir domesticamente, com grande vantagem. Essa próspera relação atraiu outros potentes aliados. Agora, não apenas a sua agência estava mais próxima da CIA, como me disse Bonner, mas “através da CIA, nos aproximamos também da Agência de Segurança Nacional, NSA”. Uma nova Divisão de Operações Especiais criada para trabalhar com as agências superiores ficou encarregada de supervisionar os ataques aos bandidos-em-chefe, operando a partir de massiva inteligência eletrônica.

Essa nova orientação rapidamente ganharia credibilidade depois da eliminação do líder do cartel mais afamado de todos. Pablo Escobar, figura dominante do cartel de Medellín, era objeto de atenção obsessiva dos federais norte-americanos. Há muito tempo escapava das caçadas organizadas e comandadas pelos EUA, antes de negociar um acordo com o governo da Colômbia em 1991, pelo qual passou a residir numa “prisão” que o próprio Escobar construíra nas colinas acima de sua cidade natal. Um ano depois, temendo que o governo planejasse trair o acordo e entregá-lo aos norte-americanos, Escobar deixou aquela prisão e mergulhou na clandestinidade.

A caçada que se seguiu, para prender o barão das drogas fugitivo marcou um ponto de virada. A Guerra Fria acabara; Saddam Hussein fora derrotado na 1ª Guerra do Golfo em 1991; escasseavam as ameaças críveis contra os EUA; e pairava no ar o perigo dos cortes no orçamento da “defesa”. Foi quando os EUA empregaram toda a parafernália da vigilância tecnológica originalmente desenvolvida para confrontar o inimigo soviético, contra um único alvo humano. A Força Aérea enviou vasto sortimento de aviões de reconhecimento, inclusive os SR-71s, capazes de voar a velocidade equivalente a três vezes a velocidade do som. A Marinha enviou seus próprios aviões espiões; a CIA contribuiu com um drone helicóptero.

Houve momento em que havia 17 dessas aeronaves espiãs voando simultaneamente sobre Medellín, embora, como adiante se verificou, nenhuma delas tenha oferecido qualquer informação que ajudasse a localizar Escobar. A DEA tampouco fez qualquer contribuição relevante. Quem realmente teve papel decisivo foram traficantes rivais de Escobar, de Cali – o segundo maior cartel colombiano de tráfico de drogas – que trabalharam na destruição dos sistemas de poder e de organização do grupo de Escobar. Combinaram inteligência racionalmente construída e operada, e a mais sangrenta e violenta crueldade.

Com a sua antes poderosa rede de informantes e guarda-costas já destruída, Escobar acabou localizado, por causa de um rádio rastreado; e foi morto a tiros quanto tentava fugir por um telhado, dia 2/12/1993. Embora seja assunto controverso e jamais confirmado, um ex-alto funcionário da DEA garantiu-me que, sem dúvida possível, o tiro que o matou partiu da arma de um atirador de elite da Força Delta das Operações Especiais do Exército dos EUA.

Depois desse sucesso, a DEA voltou suas atenções para o cartel de Cali, jogando contra ele todos os recursos disponíveis: “Desenvolvemos realmente o uso de gravações telefônicas clandestinas” – disse-me Bonner. Paciência e uma quantidade enorme de dinheiro acabaram por produzir resultados. Em junho e julho de 1995, seis dos sete cabeças do cartel de Cali foram presos, inclusive os irmãos Gilberto e Miguel Rodríguez-Orijuela e o cofundador do cartel, José “Chepe” Santacruz Londoño. Embora Londoño tenha depois escapado da prisão, acabou também caçado, encontrado e assassinado. Pressão continuada dos EUA ao longo dos anos finais da década e depois disso, resultaram numa longa cadeia de chefões do tráfico para as prisões, com sentenças de prisão perpétua, ou para os cemitérios.

Pablo Escobar

Caem os bandidos-em-chefe... e sobe o tráfico

A estratégia parecia ter sido sucesso retumbante.

Quando Pablo Escobar teve de fugir e esconder-se, sua organização começou a desmoronar (...) e acabou destruída. E essa foi a estratégia que chamamos de “estratégia de assassinar o bandido-em-chefe”, jactava-se Lee Brown, o “czar da droga” de Bill Clinton, em 1994.

Pelo menos em público, nenhum funcionário do governo deu-se ao trabalho de explicar que, se o objetivo da tal estratégia era conter o uso de drogas pelos norte-americanos, o resultado final foi o exato oposto do que deveria ter sido. O ponto pelo qual a vitória da estratégia converteu-se em fracasso estava no preço da cocaína negociada nas ruas dos EUA. Naqueles anos, a DEA dedicava esforço enorme no monitoramento do preço da droga nas ruas, usando agentes infiltrados para comprar e compilando depois, laboriosamente, em cuidadosos “balanços”, tudo o que fora pago.

Mas a droga obtida por esses meios sub-reptícios era de pureza terrivelmente variável, com a cocaína muita vezes trocada por substituto sem valor comercial. Assim, o preço do grama de cocaína pura variava enormemente, porque alguns maus negócios, de material de baixa pureza, faziam o preço médio oscilar muito. Os varejistas de rua começaram a compensar os preços mais altos reduzindo a pureza da droga que vendiam, em vez de cobrar mais caro por grama. Com isso, os quadros de preço que a Agência mantinha passaram a indicar menor movimento; e nada informaram sobre os eventos que estavam afetando os preços e, portanto, a oferta da droga.

Mas em 1994, o Instituto de Análises para a Defesa, o think-tank que o Pentágono mantém intramuros, começou a examinar mais detidamente os dados sobre drogas nos EUA. O analista, um ex-piloto de combate da Força Aérea, de nome Rex Rivolo, foi encarregado de fazer exame independente da situação da guerra às drogas, a pedido de Brian Sheridan, o prático e realista Diretor da Comissão para Política de Controle de Drogas do Departamento de Defesa – que desenvolvera saudável desrespeito pela DEA e suas operações.

Depois de informar aos funcionários da DEA que suas estatísticas não valiam nada, mero “ruído aleatório”, Rivolo pôs-se a trabalhar para desenvolver uma ferramenta estatística que eliminaria o efeito, no tráfico, das oscilações da pureza das amostras recolhidas pelos agentes infiltrados. Tão logo Rivolo pôs em funcionamento a nova ferramenta, começaram a surgir conclusões interessantes: a caçada aos bandidos-em-chefe das organizações quase com certeza estava influenciando os preços e, por extensão, a oferta. Mas não na direção que o DEA propagandeava. Longe de impedir que o fluxo de cocaína alcançasse as narinas dos norte-americanos, a caçada aos barões estava acelerando o processo. Eliminar os bandidos-em-chefe havia, de fato, aumentado a oferta de cocaína nos EUA.


Civis indignados no Paquistão protestam
contra os assassinatos indiscriminados
Foi revelação que causou impacto, porque andava contra atitudes muito tradicionais da cultura policial nos EUA, que chegavam aos dias da guerra de Eliot Ness contra os contrabandistas de bebida nos anos 1920s e que se tornariam a base das guerras contrainsurgência de Washington no século XXI. Era diagnóstico que poderia ter sido feito intuitivamente, sobretudo depois que a estratégia de assassinar o bandido-em-chefe passou a ser aplicada contra terroristas e insurgentes. Mas, pelo menos daquela vez, havia dados observáveis, computáveis, inegáveis.

No último mês de 1993, por exemplo, a antes gigantesca organização de contrabando de cocaína de Pablo Escobar já estava em cacos, e ele estava sendo caçado pelas ruas de Medellín. Se a premissa da estratégia da DEA – que eliminar os barões da droga faria diminuir a oferta de drogas – estivesse correta, a oferta de cocaína dos EUA deveria ter sido interrompida.

Na verdade, aconteceu o oposto: naquele período, o preço da cocaína nas ruas dos EUA caiu de cerca de US$ 80 para cerca de US$ 60 o grama, porque aumentou a oferta de outros grupos para o mercado norte-americano. E o preço continuaria a cair ainda mais depois da morte de Escobar. Igualmente, quando o principal grupo que comandava o cartel de Cali foi preso em meados de 1995, os preços da cocaína, que haviam subido muito no início daquele ano, entraram em declínio vertiginoso, que continuou ao longo de 1996.

Certo de que a queda dos preços e a eliminação dos bandidos-em-chefe estavam conectadas, Rivolo pôs-se a procurar uma explicação, que encontrou numa velha teoria econômica que chamou de “competição monopolística”.

É coisa de que não se fala há anos – ele explicou. No essencial, diz que se você tem dois produtores de algo, há determinado preço. Se você dobra o número de produtores, o preço é cortado ao meio, porque os dois produtores partilham o mercado.

A questão portanto era – ele continuou – quantos monopólios havia por aí? Tínhamos três ou quatro grandes monopólios. Mas vocês os pulverizaram, dividiram-nos por vinte. Quem conheça as leis da competição monopolística, já saberia que o preço despencaria. Claro que nos anos 1990s o preço da cocaína estava despencando, porque a concorrência estava chegando e forçando a disputa. A melhor coisa que poderiam ter feito seria deixar aí um cartel sobre o qual tínhamos algum controle. Se o objetivo de vocês é reduzir o consumo de drogas nas ruas, o mecanismo tem de ser esse. Mas se você é policial, sua meta é prender o bandido. Daí que nós passávamos o ano inteiro tendo de lutar  contra a mentalidade policial dessas organizações provincianas como a DEA.

A “estratégia de assassinar o bandido-em-chefe” une-se à Guerra ao Terror

No fundo das selvas do sul da Colômbia, fazendeiros plantadores de coca não precisam de obscuras teorias econômicas para compreender as consequências da estratégia de matar o bandido-em-chefe. Quando chegaram as primeiras notícias de que Gilberto Rodríguez-Orejuela havia sido preso, pequenos varejistas no vilarejo remoto de Calamar deram vivas.

Graças à virgem abençoada! exclamou uma senhora idosa, a um repórter norte-americano que lá estava.

Espere só até que os EUA entendam o que isso realmente significa – disse outro residente local. – Mas... sabe-se lá! Vai-se ver talvez até aprovem, porque é realmente uma vitória da livre empresa! Nada de monopólios controlando o mercado e decidindo o quanto nós, os que plantamos, devemos receber. Aconteceu a mesma coisa quando eles mataram Pablo Escobar: agora, vai haver dinheiro para todos!

Miguel e Gilberto Rodriguez Orejuela (D) presos em 2005
Aí está juízo e avaliação que se comprovaram absolutamente corretos. Quando os grandes cartéis foram desmontados, o negócio reverteu para grupos menores, e até mais violentos, que trataram de manter satisfatórias a produção e a distribuição, sobretudo porque mantinham laços com os grupos para–militares fascistas antiguerrilhas aliados do governo da Colômbia e tacitamente apoiados pelos EUA.

Grande parte do trabalho de Rivolo sobre esse assunto ainda é material sigiloso. Não surpreende que seja, não apenas porque desmonta toda a argumentação a favor da “estratégia de assassinar o bandido-em-chefe” na guerra das drogas dos anos 1990s, mastambém porque acerta o plexo da doutrina dos “alvos de alto valor” a serem assassinados, e que é obsessão do governo Obama, com suas campanhas de assassinatos com drones por todo o Oriente Médio Expandido e partes da África.

Rivolo pôde, na verdade, monitorar a aplicação da mesma estratégia de matar o bandido-em-chefe também na década seguinte. Em 2007, foi nomeado para uma pequena, mas muito capacitada, célula de inteligência ligada ao quartel-general em Bagdá do general Ray Odierno, o qual, naquele momento, era o comandante de operações dos EUA no Iraque. Enquanto lá esteve, Rivolo ocupou-se com examinar o que estava acontecendo no contexto da eliminação dos “indivíduos de alto valor” [ing. “high-value individuals,” (HVIs)]. Construiu uma lista de 200 desses indivíduos-alvos de alto valor – líderes de insurgências locais –que haviam sido assassinados ou capturados entre junho e outubro de 2007. Em seguida, examinou o que acontecera depois da eliminação deles, nas localidades onde operavam.

Os resultados, ele descobriu quando pôs os números em gráficos, eram mensagem inequívoca, muito clara: a estratégia estava forçando novidades nas localidades, mas não as novidades desejadas. Era praticamente a mesma mensagem que já se inferira do uso da estratégia de matar o bandido-em-chefe na guerra às drogas dos anos 1990s. Matar os “indivíduos de alto valor” não fazia diminuir o número de ataques nem ajudava a salvar vidas norte-americanas: aumentava o número de ataques e de norte-americanos mortos. Cada assassinato de líder local, causava pandemônio. Num raio de três km da base de operações do alvo assassinado, os ataques, ao longo de 30 dias depois do assassinato aumentavam 40%. Num raio de cinco km, típica área de operações de célula insurgente, o aumento ainda era de 20%.

Ray Odierno
Resumindo suas conclusões para o general Odierno, Rivolo acrescentou uma enfática linha final:

Conclusão: a Estratégia de matar indivíduos de alto valor, nossa principal estratégia no Iraque, é contraproducente e tem de ser reavaliada.

Como no caso da “estratégia de matar o bandido-em-chefe”, as causas desse resultado aparentemente contraintuitivo não são difíceis de compreender. Os comandantes mortos eram imediatamente substituídos, e os novos comandantes quase sempre eram mais jovens e mais agressivos que os antigos chefes, ansiosos para “fazer um nome” e demonstrar seu valor.

A pesquisa e as conclusões de Rivolo, que foram apresentadas em resumo para os mais altos níveis, não provocaram qualquer diferença.

A estratégia de matar o bandido-em-chefe pode ter fracassado nas ruas das cidades dos EUA, mas com certeza foi retumbante sucesso no que tenha a ver com a prosperidade da DEA. O orçamento da agência, indicador seguro do status da agência, aumentou 240% durante os anos 1990s, de US$ 654 milhões em 1990, para mais de US$ 1,5 bilhões uma década adiante.

Assim também, embora em escala muitíssimo maior, o assassinato de alvos de alto valor também fracassou e não gerou os resultados esperados no Oriente Médio Expandido, onde cresceu o recrutamento para o terror, multiplicado, agora, à sombra dos drones matadores. (A remoção de al-Baghdadi do controle diário do Estado Islâmico, por exemplo, em nada retardou ou reduziu as operações do grupo).

Mas a estratégia tem gerado, isso sim, inestimáveis proveitos para muita, muita gente, desde os fabricantes dos drones até os funcionários do contraterrorismo na CIA, que fracassaram tão espetacularmente na prevenção do 11/9/2001 e agora fazem do assassinato a sua própriaraison d'être.

Não surpreende que os sauditas queiram drones e mais drones – seguindo no Iêmen as nossas pegadas. Mundo, mundo, vasto mundo... Quem será o próximo?

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[*] Andrew Cockburn é editor em Washington da Harper’s Magazine. Nascido em Londres em 1947, mas criado na Irlanda (County Cork), cobre questões de segurança nacional nos EUA há muitos anos. É autor de vários livros, co-produtor em 1997 do filme The Peacemaker e em 2009 de um documentário sobre a crise financeira, American Casino. Seu livro mais recente é Kill Chain: The Rise of the High-Tech Assassins.