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terça-feira, 10 de setembro de 2013

O 11 de setembro na América Latina


Salvador Allende

Publicado em 10/09/2013 por [*] Mário Augusto Jakobskind

O 11 de setembro da América Latina está completando 40 anos. Trata-se de uma data trágica que corresponde ao golpe comandado pelo general Augusto Pinochet que derrubou o Presidente constitucional Salvador Allende. Muito se denunciou sobre a participação dos Estados Unidos comprovada por inúmeros documentos oficiais demonstrando a culpa no cartório do então Secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger.

Nestes dias, documentos da chancelaria do Chile tornados públicos confirmam a participação também do Governo do então ditador de plantão Garrastazu Médici no golpe sangrento. A embaixada brasileira tornou-se inclusive num espaço de apoio aos golpistas. O chefe da representação diplomática, embaixador Câmara Canto, esteve de braços dados com militares que transformaram o Chile numa espécie de sucursal do inferno. Tanto assim que quando se confirmou a vitória dos golpistas, Câmara Canto comemorou com seus asseclas abrindo champagne.

Logo após o golpe, o Governo brasileiro colaborou financeiramente com a ditadura e assim sucessivamente. Mesmo antes do golpe, a ditadura civil militar vigente no Brasil respaldava os chilenos de extrema direita. Documentos tornados públicos no Chile comprovam a participação de brasileiros em apoio a grupos extremistas de direita como o Patria y Libertad.

Matéria do jornal O Estado de S. Paulo informa que em julho de 1973, o Brasil concedeu asilo político a Eduardo Roberto Keymer Aguirre, identificado como integrante do Patria y Libertad. A concessão ocorreu quatro dias depois que os extremistas assassinaram um ajudante de ordens de Allende, o capitão Arturo Araya Peeters.

René Dreifuss
Os vínculos da extrema direita chilena com extremistas brasileiros não se resumiram a este fato. Anos atrás, o cientista político René Dreifuss em seu livro “A Internacional capitalista” revelou que o jornalista Aristóteles Drummond, uma figura nefasta vinculada até hoje a antigos golpistas da pior espécie, fornecia armas para os extremistas do Patria y Libertad

Há tempos este espaço democrático divulgou a informação veiculada no importante trabalho de pesquisa de René Dreifuss sobre o extremista brasileiro acusado inclusive de responsável pela explosão de uma bomba numa exposição soviética no Rio de Janeiro.

Pois bem, na reportagem do Estadão sobre os documentos divulgados nestes dias no Chile aparece novamente o nome de Aristóteles Drumond como um dos brasileiros que teria transportado recursos para os chilenos que preparavam o golpe contra Salvador Allende.

Aristóteles Drummond
Questionado pelo jornal paulista, Aristóteles Drummond preferiu não assumir diretamente a ajuda fornecida, mas a sua resposta é um reconhecimento da ajuda. Analisem bem o que disse este senhor que todo ano aparece no Clube Militar para comemorar o golpe que levou o Brasil a ingressar numa noite escura de 21 anos.

Eu não levei, mas teria levado. Tenho o sentimento de que os brasileiros amigos do Chile tenham (enviado dinheiro). Sou de classe média, mas, se corresse uma lista aqui para dar US$ 500 (a grupos anti-Allende), eu daria do meu bolso. Acho que o general Pinochet foi decisivo para evitar a criação de uma sucursal de Cuba no Pacífico. Pinochet salvou o Chile, assim como os militares salvaram o Brasil. 

Aristóteles Drummond, que chegou a ocupar um cargo de confiança no governo Negrão de Lima na área de habitação, não foi perguntado pelo Estadão sobre a denúncia de René Dreifuss do fornecimento de armas ao gupo Patria y Libertad, mas se em algum momento for perguntado sobre o tema, provavelmente não confirmará integralmente a ação, mas o teor da reposta será nos moldes da que deu ao Estadão.

Tais fatos são importantes de serem conhecidos pela opinião pública e ajudarão também à Comissão da Verdade a concluir seu relatório sobre os trágicos acontecimentos ocorridos no Brasil depois do golpe de estado que derrubou o Presidente constitucional João Goulart.

O caso de Aristóteles Drumond é bastante emblemático e não será nenhuma surpresa se outros documentos a serem tornados públicos apontarem a participação de outros brasileiros que seguiram impunes ao longo do tempo. É também uma demonstração concreta segundo a qual o golpe no Brasil não foi apenas de conotação militar, mas civil também

Por estas e muitas outras não bastam apenas autocríticas de estilo marqueteiro, como fez recentemente O Globo, sobre o golpe de 64. No caso das Organizações Globo, que ao longo dos anos se transformaram numa espécie de diário oficial dos detentores de fato do poder, teria que acontecer um reconhecimento que além do “erro editorial” do apoio ao golpe, o grupo midiático então comandado por Roberto Marinho, como diria Leonel Brizola, engordou na estufa da ditadura.
______________________

[*] Mário Augusto Jakobskind é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE
Enviado por Direto da Redação

domingo, 2 de junho de 2013

Brasil cada vez maior

(Ou: Das dificuldades da solidariedade internacional no mundo do capital global)

junho 2013, Renaud Lambert, Le Monde Diplomatique,
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os EUA ainda vêem a América Latina como seu quintal. O Brasil estará começando a se sentir da mesma forma sobre a América do Sul, onde é o maior e mais rico país?

Renaud Lambert
João Paulo Rodrigues e Rubens Barbosa parecem ter pouco em comum: Rodrigues trabalha pelos sem-terras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desde menino; Barbosa foi embaixador do Brasil em Londres, depois nos EUA, de 1994 a 2004, e hoje trabalha como consultor de negócios. Encontrei Rodrigues num pequeno sobrado em São Paulo; os escritórios comerciais de Barbosa ficam na muito chique Avenida Faria Lima, onde helicópteros sem conta transportam executivos ricos de um a outro heliponto, entre os arranha-céus. Rodrigues acabava de comandar uma sessão de treinamento para ativistas do MST; Barbosa esforçou-se para me dar “alguns momentos”, tomados entre telefonemas de clientes que queriam ouvi-lo sobre um movimento do governo – todos querendo ser ‘o primeiro a saber’ (foi a impressão que tive).

Rubens Barbosa
Por diferentes que sejam, esses dois homens concordam, às vezes, em muito do que dizem. Rodrigues, ao falar dos objetivos políticos do MST – “derrubar o neoliberalismo e construir sistema econômico mais justo” – identifica a integração regional como prioridade. Barbosa sonha com o Brasil que “transforme sua geografia, em realidade política”. Como escreveu em 2000 ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, Barbosa vê a América Latina como “quintal do Brasil, território natural de negócios brasileiros”. [1] E também identifica uma prioridade: “defender nossos próprios interesses” e reforçar o processo da integração regional.

Desde que o Grande Libertador, Simón Bolívar (1783-1830), sonhou com a unidade continental, houve várias tentativas para promover a colaboração entre os países latino-americanos e integrá-los em entidade supranacional, aproximando países diferentes, com vistas a atingir diferentes objetivos: a independência, no século19; a industrialização regional, depois da 2ª Guerra Mundial; o alinhamento neoliberal, nos anos 1990s.

João Paulo Rodrigues
Embora unidos por ambições semelhantes, Rodrigues e Barbosa rejeitariam sempre qualquer aliança política, o que parece fazer sentido. “O traço que define o processo de integração que o Brasil promove hoje” – disse Armando Boito Júnior, cientista político da Universidade de Campinas [2] – “é que o projeto foi lançado e tocado adiante por forças políticas opostas. Há interesses conflitantes, mas, atualmente, as duas agendas são compatíveis ou até convergentes”. [3]

O primeiro ponto em que coincidem é que os dois lados rejeitam a ideia de o Brasil ser satélite dos EUA – embora essa ideia tenha seduzido a elite ao longo dos anos 1990. [4] O presidente Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) aplicou todos os meios e recursos de seus dois mandatos para que o Brasil realizasse o sonho dos EUA: uma grande Área de Livre Comércio das Américas (FTAA (ing.); ALCA (esp., port.), que iria do Alasca à Terra do Fogo.

Mas o empenho neoliberal de Cardoso assustou a franja industrial da burguesia brasileira. A política dos “tucanos” [como são conhecidos no Brasil os políticos do Partido da Social-Democracia Brasileira, PSDB], de abrir o mercado brasileiro sem qualquer restrição, afogou o país num tsunami de produtos importados e levou a uma onda de falências [e consequentes fusões, em que centenas de empresas faliram ou foram vendidas e compradas na bacia das almas, com ganhos estratosféricos para alguns dos envolvidos e correspondente perda para outros, em processo até hoje ainda obscuro].

E a onda de privatizações [5] foi tão avassaladora no Brasil, que levou até a revista Veja, neoliberal, [6] a publicar que “A história do capitalismo conheceu poucas ondas tão intensas de transferências de controle de empresas, como a que se vê hoje, em tão curto período de tempo”. [7]

O setor financeiro prosperou, mas a poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) passou a temer o pior.

Em 2002 a FIESP produziu estudo em que analisou o provável impacto da ALCA sobre a economia brasileira. O estudo confirmou “o que muitos empresários temiam”: que aquele acordo de livre comércio traria “mais riscos que vantagens para a economia brasileira”. [8]

Luiz Ignácio Lula da Silva
Nas eleições presidenciais de 2002, o grande empresariado brasileiro apoiou um ex-metalúrgico, Luiz Inácio Lula da Silva, que cuidou de fazer naufragar as negociações com os EUA, desde o primeiro momento de seu governo. A própria FIESP – que se mantivera em silêncio durante as discussões sobre a ALCA, nem por isso teve papel menos decisivo para fazer naufragar aquele projeto.

Agora, o mesmo projeto de área de livre comércio pode estar tentando reerguer-se, com a Aliança do Pacífico, assinada em 2012 por Chile, Peru, Colômbia e México. Valter Pomar, líder da Articulação de Esquerda, uma das tendências em que se divide o Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro, vê a influência dos EUA por trás dessa aliança: todos os países envolvidos já assinaram acordos bilaterais de livre comércio com os EUA. [9]

FHC
Mas nos jantares em Brasília e na Bolsa de Valores de São Paulo, a crise de 2008 contribuiu para arrefecer a febre neoliberal dos tucanos. Só uns poucos que restam ainda em torno do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e bancos como o HSBC, ainda aprovam a aproximação entre México e os EUA (“os EUA são o sol; o México é um planeta que gira em torno do sol”). Mas o relacionamento já custou ao México queda de 6,7 pontos no PIB, em 2009 – fato que nem o PSDB de Fernando Henrique Cardoso conseguiu não ver.

“Há outros meios para alcançar a integração regional” – disse Rodrigues, do MST. – “Entre elas, a abordagem na qual nós trabalhamos no MST, de promover a ALBA (Aliança Bolivariana pelos Povos de Nossa América), proposta pela Venezuela e à qual o Brasil ainda não aderiu. Por essa via, a integração dá-se pela solidariedade, não pela competição, e visa a alcançar um “socialismo do século 21”. Mas é visão conhecida de poucos no Brasil. Apesar das reclamações de alguns idealistas esquerdistas visionários, para os quais, se o PT não os tivesse “traído”, seria fácil chegar ao socialismo amanhã mesmo, a luta por mudanças sociais radicais encontra poucos defensores no Brasil”.

Na véspera da noite em que conversamos, estudantes chilenos haviam conseguido pôr 600 mil pessoas nas ruas de Santiago. Para Rodrigues, “a última vez que se viu tanta gente na rua, no Brasil, era Carnaval”.  

Por isso, o MST tem de encontrar pontos comuns entre essa abordagem e o modelo de integração que prevalece no Brasil, ao mesmo tempo em que extrai vantagens das contradições dentro do modelo. “E há muitas” – disse Rodrigues, listando os diferentes grupos da aliança de governo: “O governo e seus aliados, alguns setores da indústria, empresas multinacionais, altos funcionários públicos, grande parte da classe trabalhadora, sobretudo pela ação dos grandes sindicatos”. É uma visão moderna do consenso fordista, a serviço de um projeto geopolítico regional.

Samuel Pinheiro Guimarães
O primeiro ingrediente é a busca por autonomia. Samuel Pinheiro Guimarães é ex-secretário-geral do Ministério de Relações Exteriores do Brasil; ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo do presidente Lula da Silva (2003-2010) e um dos mais conhecidos pensadores brasileiros. Por tudo isso, provavelmente, recebeu a missão de redigir o “Plano 2022”, que fixa os objetivos estratégicos que devem já ter sido atingidos quando o Brasil completar 200 anos como país independente.

Aos 74 anos, já é homem que vai direto ao assunto: “Que vantagem França ou Inglaterra poderiam obter, que as movesse a querer integração com, por exemplo, Malta?” – perguntou. – “Nenhuma. A única vantagem, talvez, é que Malta é país soberano e, portanto, vale um voto nas instituições internacionais”. Com outros grandes blocos se formando pelo mundo, o Brasil deve criar sua região “própria”, baseada não na América Latina, porque, aqui, o México e a América Central “votam com Washington”, mas na América do Sul, que se deve converter em “eixo central de nossa estratégia de rejeição a toda subserviência aos interesses dos EUA”.

O anti-imperialismo do mais progressista dos altos funcionários do Estado brasileiro é equivalente ao anti-imperialismo de Pomar. Pinheiro acredita que, independente das convicções políticas dos apoiadores, um movimento baseado nessa retórica anti-EUA pode levar a mudança social: “Todas as tentativas que houve de construir um bloco socialista na América Latina enfrentaram dois obstáculos: o poder da burguesia latino-americana e o poder da Casa Branca. A iniciativa de integração do Brasil não eliminará a influência externa, mas reduzirá seu impacto; e dá maior autonomia à política nacional”.

Nicolás Maduro
A posição firme da União de Nações Sul-americanas (UNASUL) – fundada em 2008 – provavelmente contribuiu para reverter os golpes tentados na Bolívia e no Equador em 2008 e 2010. Quando a oposição venezuelana e os EUA contestaram a validade da eleição de Nicolas Maduro, a UNASUL apoiou o sucessor designado por Hugo Chávez, que fora eleito. “No passado, essas questões caiam no âmbito da Organização dos Estados Americanos – quer dizer, da Casa Branca” – disse Pinheiro Guimarães. Ainda recentemente, o Secretário de Estado John Kerry referiu-se à América Latina como “quintal” dos EUA. [10]

Pomar crê que a única solução contra a interferência dos EUA é enfrentar o segundo obstáculo: a burguesia latino-americana; mas admite que essa luta teve de ser adiada.

Os países sul-americanos são ricos por seus recursos naturais (e estão agora em posição para voltar a controlá-los), mas lutam para diversificar suas economias e construir seus meios de produção. Durante a recente campanha presidencial na Venezuela, Maduro reclamou: “Nosso país não tem uma verdadeira burguesia nacional (...) os setores envolvidos na atividade econômica são altamente dependentes do capital norte-americano”. (O comportamento rentista é a regra). Apelou a todos que possam ajudar a Venezuela a “plantar as fundações de uma economia produtiva” [11] – mensagem dirigida ao “setor privado nacionalista”, mas que Maduro espera que chegue ao Brasil, cujos industriais e empresários são tidos como mais progressistas. [12]

A aliança entre o PT, os grandes sindicatos e os chefes de indústria não se desfez depois da posse de Lula da Silva na presidência; sobreviveu, atualizando a tradição desenvolvimentista do Estado brasileiro. Pelo mundo, ninguém parece saber o que fazer para responder à crise do neoliberalismo, além de aprofundar as mesmas reformas neoliberais. Assim sendo, um programa para desenvolver o mercado interno, mediante o pleno emprego, aumentos de salários, programas sociais e retomada da produção (por mais que desaponte os que viviam da especulação) é opção revolucionária.

Artur Henrique
Muitos ativistas de esquerda percebem isso, mesmo que não se deem por satisfeitos. “Ainda entendo que temos de lutar para chegar ao socialismo” – disse Artur Henrique, ex-presidente da Central Única de Trabalhadores (CUT), federação de sindicatos co-fundadora da nova aliança desenvolvimentista. “Mas não sou dos que acham que o socialismo começará domingo que vem, depois da missa. Não. Quero mudar as coisas, mas vejo bem as condições sob as quais trabalho. No nível regional, tentamos nos afastar do neoliberalismo, mas não estamos em posição de derrotar o capitalismo. Tentamos promover uma versão regional – não uma versão nacional – que considera as necessidades de outros países sul-americanos”.

O comércio entre Brasil e Venezuela aumentou 800% desde que Chávez chegou ao poder em 1999. Quando o metrô de Caracas precisou ser expandido, o consórcio brasileiro Odebrecht entrou no negócio, e o governo brasileiro garantiu financiamento em condições favoráveis. Quando falta comida na Venezuela, recebem reforço de indústrias brasileiras (praticamente toda a carne de galinha que a Venezuela consome é brasileira).

Carlos Cavalcanti
“A América do Sul é nosso mais importante mercado” – disse Carlos Cavalcanti, diretor do Departamento de Infraestrutura da FIESP. – “Ainda podemos competir com a China, e é a região para onde exportamos a maior parte de nossos bens manufaturados”. Tudo isso responde por 83% das exportações do Brasil para países da América Latina, e 5% dos embarques da AL para a China. Apesar de toda a economia mundial estar andando mais devagar, os embarques para países vizinhos saltaram, de $7,5 bilhões em 2002, para mais de $35 bilhões em 2010. Cavalcanti disse que “os países da América do Sul estão adotando políticas alimentadas por rendimentos recentes. Para nós, são mercados em crescimento.”

Anti-imperialismo e enriquecimento jamais foram incompatíveis: em documento de 2012, a FIESP descreve o processo da integração sul-americana como “uma quebra em 500 anos de história” marcada pela “subordinação do interesse nacional do Brasil aos interesses das potências mundiais dominantes”. [13] Mas a infraestrutura é a área na qual as demandas de desenvolvimento industrial regional e a busca de maior autonomia geopolítica também regional mais bem se harmonizam com a expansão do capital brasileiro.

Em outubro de 2012, a UNASUL identificou os recursos naturais como “o eixo dinâmico para a estratégia de integração e unidade dos [seus] países”. Antes, havia usado a mesma lógica como argumento para fazer avançar a IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional da América do Sul) [14]. A IIRSA é uma rede de grandes rodovias, ferrovias e vias de transporte fluvial que cobre todo o subcontinente. Foi proposta em 2000 por Fernando Henrique Cardoso – que via o sistema como parte indispensável do tal grande “livre mercado” das Américas. Mas não conseguiu convencer Chávez: em reunião de chefes de Estado em 2006, Chávez demoliu o projeto, criticando-o por vir carregado de “lógica neocolonial”.

María Emma Mejía
Muitos com quem conversei disseram que as coisas mudaram muito, depois de 2000. Já não se trata de construir uma única economia sul-americana, mas de trabalhar pelo “desenvolvimento interno” e pela “sustentabilidade do ponto de vista ambiental”, tratando a infraestrutura como “uma ferramenta para inclusão social”, segundo María Emma Mejía, Secretária (colombiana) da UNASUL, de maio de 2011 a maio de 2012. [15]

A carência de infraestrutura é grande, na América do Sul. Em tentativa para acalmar os ecologistas, o Vice-Presidente da Bolívia,  Álvaro García Linera assegurou que a exploração dos recursos naturais do país é indispensável para industrializar a Bolívia, mas a falta de capacidade tecnológica ameaça impedir isso. O Peru e a Venezuela precisam de novos portos e novas estradas. 

Álvaro García Linera
A produção de cereais no Brasil cresceu quase 220% entre 1992 e 2012, mas a rede de estradas não melhorou. Em abril passado, a estrada BR-364, que leva até o terminal ferroviário que serve o porto de Santos, ficou paralisada num engarrafamento de 100-km, que provocou atraso de 60 dias nas exportações. “O setor do agronegócio no Brasil seria muito beneficiado com um acesso à costa do Pacífico” – disse Barbosa. – “China é agora nosso maior parceiro comercial”.

A IIRSA, concebida num momento em que o neoliberalismo era cultuado, deveria, originalmente, ser financiada pelos mercados e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O bilionário argentino Eduardo Eurnekian admite que foi um erro: “Não suponho, nem de longe, que alguma empresa privada se interesse por assumir a responsabilidade de desenvolver linhas de transporte internacional”. Nessa ponto, a responsabilidade de ter de completar o trabalho recai sobre “os governos, não sobre o setor privado”. [16]

Por tudo isso, a integração física da América do Sul está sendo sustentada por vários esquemas nacionais de financiamento. O Brasil tem o mais rico banco de desenvolvimento do mundo: O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Em 2010, distribuiu mais de US$100 bilhões em empréstimos, comparados aos US$15 bilhões emprestados pelo BID e aos US$40 bilhões emprestados pelo Banco Mundial. E o BNDES só financia empresas brasileiras, o que é vantagem considerável para Odebrecht, Camargo Corrêa e outras “grandes”, que o governo trabalha para promover.

Essas multinacionais da construção devem ter aplaudido a UNASUL, em novembro de 2011, quando adotou seu primeiro Projeto Prioridade para a Agenda da Integração (API) para construir 1.500 km de gasodutos; 3.490 km de estrutura em vias de transporte fluvial e marítimo; 5.142 km de rodovias; e 9.739 km de ferrovias. O investimento total é de $116 bilhões, para 531 projetos, incluindo mais de $21 bilhões para projetos prioritários.

Os vizinhos do Brasil entusiasmaram-se menos. Em abril passado, na primeira reunião dos Estados Latino-americanos Afetados por Interesses Transnacionais; Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua, República Dominicana, São Vicente e as Granadinas e a Venezuela criticaram o poder econômico de “algumas empresas”, que ameaçam a soberania de “alguns estados”. A terminologia é vaga, mas todos sabiam do que estavam falando.

Raúl Zibechi
O escritor uruguaio Raúl Zibechi compara a abordagem do governo brasileiro, na questão da integração, a uma troca de bastão: o capital do norte, entrega o bastão ao capital do sul. “Os ingleses construíram a primeira estrada de ferro para exportar minérios; os EUA financiaram a estrada Cochabamba-Santa Cruz, como parte do projeto de avançar para o oeste. Agora, o Brasil constrói suas próprias vias de integração”. [17]

Mas para Pinheiro Guimarães, o problema é, sobretudo, geográfico: o Brasil tem metade da área terrestre da América do Sul, metade da população e metade do PIB continental; em 2011, o PIB do Brasil foi cinco vezes maior que o da Argentina, o segundo país mais rico; e 100 vezes o PIB da Bolívia. “E vários países da América do Sul só recentemente introduziram o Imposto de Renda. Eles não têm os recursos indispensáveis para fazer avançar o desenvolvimento, se não forem ajudados. É indispensável ajudá-los”.

E então? Exploração ou solidariedade? A pergunta ecoa por toda a América Latina e também dentro do Brasil. A resposta pode ser: as duas coisas.

Em abril/2013, Pinheiro Guimarães deu um exemplo de solidariedade regional: “Sob o governo Lula, aconteceu uma coisa extraordinária. Um subsídio do Brasil tornou possível começar a construir uma linha de transmissão entre a usina hidrelétrica de Itaipu e Assunção”, [18] pondo fim aos “apagões” de energia na capital do Paraguai.

Empresários da FIESP extraíram daí outras conclusões: “Setores que empregam muita mão de obra no Brasil, como o setor têxtil e a indústria do vestuário, melhorariam suas condições de competitividade face aos concorrentes asiáticos, pelo mercado interno brasileiro, se pudessem exportar a operação de produção para o Paraguai”, onde “o custo da mão de obra é cerca de 35% menor”. [19]



Notas de rodapé

[1]  21/1/2000, Carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso (arquivos pessoais de Rubens Barbosa).

[2]  O prof. Armando Boito Jr. é um dos principais propagandistas do Partido Comunista Brasileiro, PCB (em ação, por exemplo, em Foi o PCB que colocou o povo brasileiro na era moderna...).   [NTs].

[3]  Essa afirmação, no Brasil, hoje, detonaria protesto furioso, menos pelos intelectuais e cientistas políticos dos dois lados, mas, muito mais, pelos eleitores dos dois governos aí referidos (de FHC, até 2001, e Lula-Dilma, de 2002 até hoje). A impressão que se tem, dentro do Brasil, é que os eleitores sabem mais e melhor que os mestres sociólogos e cientistas políticos e filósofos e outros, da Unicamp e da USP [NTs].

[4]  Essa ideia seduz a elite brasileira, de fato, pelo menos, desde 1952, quando o general Golbery da Costa e Silva escreveu, numa monografia (esgotada e hoje inencontrável) para uso da Escola Superior de Guerra o mesmo que, em 1967 repetiu em seu Geopolítica e Poder: que o Brasil só teria futuro se se desenvolvesse “ancorado aos países desenvolvidos” (no pós-guerra, significava, claro, “ancorar o Brasil” aos EUA). É a mesma ideia-projeto que está por trás do golpe militar de 1964 – do qual o general Golbery foi um dos principais “teóricos”, que levou o Brasil a quase meio século de ditadura militar, da qual ainda subsiste hoje muito “entulho autoritário” [NTs].

[5]  O processo de privatizações no Brasil, durante os governos neoliberais do PSDB é objeto de pelo menos um livro importante, de um jornalista investigativo, Amaury Ribeiro Jr., que reúne e oferece vasta documentação, A privataria tucana  que pode ser baixado em .pdf. Sobre o livro, há bom guia de leitura na Wikipédia. [NTs].

[6]  A revista Forbes, mês passado (27/6/2013), fez, da revista Veja, retrato bem menos condescendente em: Veja é a revista mais odiada do Brasil

[7]  Citado em New Left Review, n. 16, Londres, jul.-ago. 2002, em ROCHA, Geisa Maria, Neo-dependency in Brasil, em  inglês; e em espanhol em: La Neo-dependencia en Brasil. [NT]. 

[8]  Estudo da Fiesp mostra que ALCA é mais risco que oportunidade, Valor Econômico, São Paulo, 26/7/2002.
[9] Sobre o mesmo assunto, ver: 6/1/2013, Atilio Borón, Contrainjerencia/ redecastorphoto em: Juan Manuel Santos e a conspiração contra a Venezuela e a Aliança do Pacífico”  [NTs]

[10]
US protests against Bolivia’s decision to expel USAID, BBC News, Londres, 1/5/2013.

[11]
Maduro no volante, Folha de S. Paulo, 7/4/2013.
 
[12]  Talvez haja outras exceções, mas deve-se registrar aqui, por obrigatória, a exceção dos empresários da indústria comércio da imprensa-empresa brasileira, os quais, esses, são os mais conservadores e reacionários do sistema solar, ativos desde antes do golpe militar de 1964 e ativos até hoje, sempre contra a democracia brasileira. [NTs]

[13]
  8 Eixos de Integração da Infraestrutura da América do Sul, Fiesp, São Paulo, 24/4/2012.

[14] Plano de trabalho do Conselho Sulamericano para Infraestrutura e Planejamento (Cosiplan) para 2012.

[15] “8 Eixos de Integração da Infraestrutura da América do Sul”, op cit. [13]

[16]Integração depende de governos, afirma bilionário, Valor Econômico, 19, 20 e 21/4/2013.

[17] ZIBECHI, Raúl. Brasil Potencia, 2012, Bogotá: Ed. Desde Abajo.

[18] 1/4/2013, Entrevista de Samuel Pinheiro Guimarães a Valéria Nader e Gabriel Brito, Correio da Cidadania em: Participação do povo sob Chávez foi muito maior que nos demais países da América Latina

[19] 3/4/2013, “Fiesp Mostra vantagens de se levar indústrias ao Paraguai, Valor Econômico.

domingo, 17 de março de 2013

Chávez e o redesenho do mundo


“Durante os 14 anos de governo Chávez, os EUA perderam a maior parte da influência que sempre tiveram na América Latina, especialmente na América do Sul”

A imprensa-empresa da América Latina, dos EUA e mesmo da Europa “informavam” e “informam”, quase exclusivamente, notícias negativas sobre a Venezuela. A maioria da população do hemisfério ocidental não foi, nem é informada, nem mesmo dos fatos básicos que ocorreram e ocorrem ou mesmo o que Chávez estava fazendo.


17/3/2013, Mark Weisbrot, Al-Jazeera - Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Mark Weisbrot é co-diretor do Center for Economic and Policy Research, em Washington, DC. E anima o blog Just Foreign Policy



A impressionante reação mundial à morte do presidente Hugo Chávez da Venezuela, sobretudo no hemisfério ocidental, pôs em forte destaque o mundo “multipolar” pelo qual Chávez lutou. 55 países fizeram-se representar por chefes de Estado em seu funeral, dia 8/3/2013 (todos os países latino-americanos). 14 países latino-americanos decretaram luto oficial – entre os quais o governo direitista do Chile.

Na contramão da comoção planetária, e da homenagem solene prestada por respeitados chefes de Estado latino-americanos, a Casa Branca limitou-se a uma declaração grosseira e fria e – para horror de muitos latino-americanos – sequer ofereceu condolências.

O que se vê é que presidente mais demonizado – apesar de democraticamente eleito e reeleito – da história do mundo tinha muitos amigos e admiradores – e não só “estados inimigos” como Irã ou Síria, imediatamente e incansavelmente mencionados no “jornalismo” e nos “noticiários” nos EUA.

A “mídia” nos explica agora que a simpatia se dirigiria ao petróleo venezuelano. Mas nenhum rei da Arábia Saudita jamais foi amado e homenageado como Chávez, vivo ou morto.

Os leitores do New York Times provavelmente surpreenderam-se ao ler, em coluna publicada semana passada, assinada por Lula da Silva, o popular ex-presidente do Brasil, que ambos sempre foram muito próximos e partilhavam a mesma visão de América Latina. É verdade, e há muito tempo: em 2006, quando Lula da Silva foi reeleito, sua primeira viagem ao exterior foi à Venezuela, para ajudar na campanha de reeleição de Chávez.

Encaremos os fatos: o que Chávez disse sobre o papel de Washington no mundo foi exatamente o que todos os presidentes de esquerda – hoje, ampla maioria na América do Sul – pensavam. E Chávez nunca se limitou a apenas falar: como Lula da Silva registra, Chávez desempenhou papel crucial na formação da UNASUR (União das Nações Sulamericanas), da CELAC (Comunidade de Nações da América Latina e Caribe), e em outros esforços e realizações para a integração regional.

“Talvez suas ideias venham a inspirar os jovens do futuro, como a vida de Simon Bolívar, o grande libertador da América Latina, inspirou o próprio Chávez” – escreveu Lula da Silva.

Chávez transformou a América Latina

Chávez foi o primeiro do que viria a ser uma linhagem de presidentes de esquerda democraticamente eleitos que transformaram a América Latina, e especialmente a América do Sul, ao longo dos últimos 15 anos, dentre os quais Néstor e Cristina Kirchner na Argentina, Lula da Silva e depois Dilma Rousseff no Brasil, Evo Morales na Bolívia, Daniel Ortega na Nicarágua, Fernando Lugo no Paraguai, José “Pepe” Mujica no Uruguai e Mauricio Funes em El Salvador.

Antes de Chávez, presidentes de esquerda que fossem democraticamente eleitos tendiam a ter o mesmo fim que teve Salvador Allende do Chile – derrubado por golpe organizado pela CIA, em 1973. Parte significativa da esquerda latino-americana, inclusive o próprio Chávez, continuavam céticos sobre a eficácia da via eleitoral para mudar a sociedade, ainda 20 anos depois, dado que as elites locais, apoiadas por Washington, sempre tinham um “veto” ilegal, ao qual recorriam quando dele precisavam.

Chávez soube ter papel vital na “segunda independência” da América do Sul, porque foi diferente de outros chefes de Estado, em vários importantes sentidos. Percebi isso logo na primeira vez que o encontrei, em abril de 2003. Dava a impressão de falar a todos do mesmo modo – fosse quem lhe trazia o almoço no palácio presidencial, fossem visitantes que ele admirava. Chávez falava muito, mas também era ouvinte atento e concentrado.

Lembro de um jantar, há poucos anos, com mais de 100 representantes de grupos da sociedade civil de todo o continente – ativistas que trabalhavam para o cancelamento das dívidas de países pobres, para a reforma agrária, muitas e muitas variadas lutas. Chávez ouviu longa e atentamente, anotando sem parar, por mais de uma hora, com os convidados à frente dele, apresentando o que cada grupo fazia. Ao final, com as anotações diante dos olhos, falou, com resposta para cada um dos grupos: “OK. Agora, aqui está o que me parece que podemos fazer para ajudar vocês.” Não sei de qualquer outro presidente capaz de trabalhar assim.

Não era simulacro ou demagogia. Em Chávez, nada era simulacro ou demagogia. Sempre dizia o que pensava – o que nem sempre é adequado, num chefe de Estado. Mas a maioria dos venezuelanos amava aquela franqueza, porque dava a Chávez uma densidade, uma realidade que poucos políticos têm: era, portanto, alguém em quem se podia confiar.

A atitude não mudava em relação a outros governos. Embora tenha tido grandes brigas públicas com alguns governos, praticamente nunca criticou outro chefe de Estado, a menos que tivesse sido atacado antes. Manteve boas relações até com o governo direitista de Alvaro Uribe da Colômbia, durante vários anos; até que Uribe virou-se contra ele, o que Chávez interpretou (provavelmente com razão) como Uribe agindo sob ordens dos EUA. Quando Manuel Santos, que fora Ministro da Defesa de Uribe, tornou-se presidente da Colômbia, em agosto de 2010 e decidiu restabelecer boas relações com Chávez, encontrou a porta aberta. As relações foram imediatamente recompostas. Chávez era amigável com qualquer um que não o agredisse.

Mas havia mais que traços de personalidade e a busca de alianças – das quais Chávez precisava, se quisesse sobreviver, depois que o governo Bush declarou publicamente, em 2002, que tinha intenções de derrubá-lo (embora essa informação tenha passado praticamente sem qualquer notícia na imprensa-empresa dos EUA, há provas documentais consistentes do  envolvimento de  Washington no golpe militar de 2002 contra Chávez. Chávez tinha visão solidária do mundo. Ele e seu governo construíram inúmeras políticas que não se orientavam pelo princípio de que “nações não têm amigos: nações têm interesses”.

Sempre viu as injustiças e desequilíbrios da ordem econômica e política mundial do mesmo modo como via as injustiças sociais dentro da Venezuela – como males sociais e algo que se podia combater com sucesso. Por que os EUA e meia dúzia de aliados ricos controlariam o FMI e o Banco Mundial? Ou por que escreveriam, só eles, as regras de comércio da OMC, ou da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas, que Chávez ajudou a derrotar)? A Venezuela não tinha qualquer interesse nacional específico nessas lutas, porque é dos grandes exportadores mundiais de petróleo.

Mas Chávez entendeu que eram lutas importantes para todos, e seu pensamento coincidiu com o que estava acontecendo no mundo: todo o planeta se encaminhava rapidamente para se tornar economicamente mais multipolar. A China, por exemplo, a qual, segundo as mais confiáveis estimativas de seu poder paritário de compra [orig.purchasing power parity), já é a maior economia do mundo, praticamente não tem voz nem voto nem no FMI nem no Banco Mundial. Outros países em desenvolvimento têm ainda menos. As ideias de Chávez, portanto, ressoaram cada vez mais profundamente, em grande parte do mundo, especialmente na América Latina.

A imprensa-empresa: “informação” sempre negativa sobre a Venezuela

Por outro lado, a história de Chávez também mostra o enorme poder da imprensa-empresa, a chamada “mídia”, no serviço de modelar a opinião pública. Muitos governos conhecem bastante bem as realizações do governo Chávez, mas, porque a imprensa-empresa norte-americana e, por via de repetição, a imprensa-empresa latino-americana só veiculavam, quase exclusivamente, “informação” negativa sobre a Venezuela, durante 14 anos – sempre “informação” exageradamente negativa e não raras vezes, “informação” falsa – a maior parte da população no hemisfério ocidental jamais conheceu sequer os fatos básicos sobre a Venezuela ou sobre o governo de Chávez.

Poucos sabem que, depois que Chávez alcançou o controle sobre a indústria do petróleo, a economia da Venezuela passou a crescer muito bem; a pobreza foi reduzida à metade e a pobreza extrema, em mais de 70%. Poucos sabem que a maior parte desses ganhos veio do crescimento do emprego no setor privado, não de “esmolas do governo”. Poucos sabem que milhões de venezuelanos ganharam acesso a serviços públicos de saúde pela primeira vez; e que melhoraram todos os indicadores de educação (o número de matriculados no ensino superior duplicou); e que o número de aposentados saltou, de 500 mil, para mais de dois milhões.

De fato, a imprensa-empresa ocidental praticamente pintou a Venezuela como total fracasso econômico e político. E bem poucos sabem que nada há que assemelhe a Venezuela a algum tipo de “estado autoritário”. De fato, a imprensa-empresa venezuelana ainda faz, até hoje, campanha contra o governo. [1] 

É um tipo de “jornalismo” que ensina a não saber o que Chávez fez pelo hemisfério – não só os bilhões de dólares que distribuiu como ajuda, pelo programa Petrocaribe e outros, mas também – como Lula da Silva explicou – o papel que desempenhou na promoção da unidade continental e da segunda independência da América Latina.

Essa independência é muito mais que questão de orgulho nacional ou regional; é mais, até, que uma das mais radicais mudanças geopolíticas, até aqui, do século 21. É mudança que teve consequências imensas para os latino-americanos, onde a pobreza já caiu, de 42% no início da década, para 27%, em 2009. Difícil imaginar esse tipo de avanço econômico e social, no tempo em que a região vivia sob tutela do FMI/Washington; de fato, na região, como um todo, entre 1980 e 2000, o crescimento do PIB per capita foi praticamente zero

A maioria das pessoas em todo o hemisfério ocidental receberam uma visão à moda “Tea Party”, da Venezuela, com a imprensa-empresa liberal e de direita, praticamente idêntica, sem noticiar praticamente nenhum fato, só mentiras, sobre a Venezuela e seu governo. (...). 

Por tudo isso, trava-se hoje uma nova batalha pela definição do legado de Chávez – e muitos já lutam para preservar os “ganhos” que conseguiram na campanha para demonizar Chávez. Para esses, a onda de simpatia e de respeito por Chávez e por seu governo que se vê crescer em todo o mundo é problema real. 

Fato é que, durante os 14 anos de governo Chávez, os EUA perderam a maior parte da influência que sempre tiveram na América Latina, especialmente na América do Sul. Pode-se pois dizer com razoável certeza, que, na batalha contra Washington, Chávez venceu. E, com ele, a região e o planeta venceram. Por isso, será para sempre honrado, respeitado e lembrado – como foi, dia 8/3/2013, por praticamente todo o mundo. 



Nota dos tradutores

[1] Quanto à imprensa-empresa brasileira, parece ser caso especial, no planeta. Em 2002, quando Chávez passou dois dias deposto, por golpe imediatamente derrotado pelo povo nas ruas, William Waack, um dos principais âncoras do principal “noticiário” nacional, da Rede Globo, disse:

O estilo mandão de Chávez prova que a era do populismo não funciona. Quem trata a democracia como ele tratou, desrespeitando instituições e preferindo mandar com a bota em vez de dialogar, não deve ficar espantado ao ser varrido do poder.

(o vídeo foi tirado do ar, mas a história aparece bem contada no Facebook)