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sexta-feira, 1 de março de 2013

África e AFRICOM: “Neoimperialismo e a arrogância da ignorância”


1-3/3/2013, Franklin C. Spinney*, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Muitos norte-americanos não veem o quão profundamente os EUA estão-se envolvendo militarmente no turbilhão de conflitos que varrem a África Saariana e Subsaariana. O caos está mapeado a seguir:

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Embora relatos recentes tendam a concentrar-se na tentativa dos franceses para expulsar para fora do Mali a Al Qaeda no Maghreb Islâmico [Al Qaeda in Islamic Maghreb (AQIM) – esforço que pode já se estar convertendo em complexa guerra de guerrilhas, a operação francesa não passa de versão, em pleno século 21, de disputa, à maneira do século 19, pelos recursos da África. É política que, do ponto de vista dos EUA, relaciona-se, bem provavelmente, ao pivô em direção à China, dado o crescimento do mercado e a presença chinesa na África no campo da ajuda humanitária. Juntos, a disputa feroz e o “pivô” bastarão para desencadear no Pentágono um movimento de sequestro, no curto prazo, de todos os conflitos, com a correspondente cascata de dinheiro antevista no longo prazo.

Ano passado, Craig Whitlock do Washington Post ofereceu um mosaico do envolvimento dos EUA na África e publicou uma série de excelentes reportagensO mapa a seguir apresentado:


é uma espécie de resumo das matérias de Whitlock (e outros), com informes para serem distribuídos às populações muçulmanas na África Central. Considerem-se as distâncias envolvidas nesse enxame de bases (os pontos vermelhos): só a distância entre as bases distribuídas no eixo noroeste-sudoeste no continente africano é maior que a distância entre New York e Los Angeles. Considerem-se as diferenças étnicas e tribais entre Burkina Faso e Quênia, para nem falar das diferenças internas, dentro desses países. E lembrem que praticamente todo o norte da África, do Marrocos ao Egito, é mais de 90% muçulmano.

Por mais que a correlação entre populações muçulmanas e as atividades de intervenção norte-americana nesse mosaico de diferenças culturais sugira um leque de diferentes mensagens para diferentes públicos, só uma generalização é absolutamente garantida, dada a história recente das intervenções norte-americanas: a presença continuada e o envolvimento crescente do Comando dos EUA na África, AFRICOM, só fará inflamar cada vez mais o relacionamento dos EUA com o Islã militante e, talvez, também com número imensamente maior de islamistas moderados.

Mas consideremos outras possibilidades, para que a loucura se generalize. Por exemplo: considerado o resultado da recente aventura líbia, os islamistas de mentalidade conspiracionista do norte da África (e – porque não? –, também muitos moderados), com queda para ler tendências no formato das nuvens, bem poderão interpretar a corrente de bases do AFRICOM na África Subsaariana como os tijolos iniciais de um covil gigante, que lá estará para acomodar uma nova geração de neocolonialistas europeus, que atacarão do norte, obedecendo à doutrina do presidente Obama que manda “liderar pela retaguarda”. Claro, dadas as distâncias envolvidas e a porosidade que aquelas distâncias implicam, tais divagações de mentes paranóicas não passam de tolices, de um ponto de vista militar.

Mas, se se considera a trilha de mentiras assassinas que os EUA deixaram no Iraque; de incompetência, no Afeganistão; e de arrogante indiferença à sorte dos palestinos, que os EUA comprovaram, ao construir processos de paz que só facilitaram o crescimento de colônias israelenses ilegais, num roubo continuado de terras, por Israel, que se arrasta já por 40 anos, esse tipo de caracterização será moída no moinho da propaganda, como reles fulminações de mentes paranoicas. E, lembre: você é paranoico, mas, nem por isso, os EUA deixarão de sair, armados até os dentes, para acabar com você.

Outro sentido da natureza metastática do envolvimento dos EUA na África pode ser inferido da carregada, terrorista-cêntrica, embora cuidadosamente construída verborragia das “respostas preparadas” que o general de exército David M. Rodriguez entregou à Comissão dos Serviços Armados do Senado, como material de apoio ao que disse, dia 12/2/2013, ao ser confirmado como novo comandante do Comando dos EUA na África, AFRICOM. Convido os leitores a, pelo menos, passar os olhos naquele documento revelador.  
As “ameaças” terroristas na África Subsaariana, evidentemente tão tentadoras para os neoimperialistas do AFRICOM, não existem isoladamente. Todas são intimamente conectadas à insatisfação étnico/tribal na África – tema ao qual Rodriguez alude, mas que absolutamente não analisa; nem o general nem seus “sabatinadores” senatoriais, naquele jogo cuidadosamente coreografado de perguntas e respostas.

Muitas dessas tensões, por exemplo, são, em parte, legado das fronteiras artificiais criadas pelos intervencionistas europeus no século 19. Aqueles intervencionistas deliberadamente traçaram fronteiras para misturar grupos étnicos, tribais e religiosos; assim contavam facilitar as políticas coloniais de “dividir para governar”. Os colonialistas do século 19 seguidamente exacerbaram deliberadamente as animosidades locais, impondo grupos minoritários em posições política e economicamente vantajosas, o que fazia crescer as ondas de descontentamento e revide. Stálin, aliás, usou a mesma estratégia nos anos 1920s e 1930s para controlar as repúblicas soviéticas muçulmanas, na região antes conhecida como Turquestão, na Ásia Central. Na URSS, o posicionamento dessas fronteiras artificiais entre aqueles novos “-stões” era amplamente conhecido como pílulas de veneno de Stálin.

A crise dos reféns na usina de gás no leste da Argélia, em janeiro passado, ilustra algumas dessas complexidades de profundas raízes culturais que sempre há nesses conflitos. Akbar Ahmed escreveu sobre isso, em mais um de uma série de ensaios fascinantes publicados por Al-jazeera. Essa série de matérias – que considero muito importantes – baseiam-se nas pesquisas para seu novo livro, no prelo, The Thistle and the Drone: How America’s War on Terror Became a War on Tribal Islam [O cacto/cardo e o drone: como a Guerra ao Terror, dos EUA, converteu-se em guerra contra o Islã tribal], a ser publicado em março, nos EUA, pela Brookings Institution Press.

Akbar Ahmed
O embaixador Akbar Ahmed é ex-alto comissário do Paquistão no Reino Unido, e ocupa agora a cátedra, apropriadamente batizada Cátedra Ibn Khaldun de Estudos Islâmicos da American University em Washington, D.C.. Considerado um dos pais da moderna historiografia e das ciências sociais, Ibn Khaldum  é um dos especialistas mais influentes, no campo da historiografia, na natureza espontânea do tribalismo e de seu papel na construção da coesão social. O núcleo duro do trabalho do professor Ahmed acompanha essa inspiração. Visa a explicar porque a insatisfação espalha-se tão amplamente em todo o antigo mundo colonial, e como, parcialmente, tem raízes numa complexa história da opressão de grupos étnicos e em rivalidades tribais, em toda aquela região. Assim se criou uma teia de tensões entre os fracos governos centrais dos países ex-colônias e os grupos e tribos minoritários que os cercam.

Ahmed diz que essas tensões foram exacerbadas pela resposta militar que os EUA deram ao 11/9. Explica por que as intervenções militares pelos EUA e outras potências europeias ex-coloniais só farão crescer a tensão que já existe entre os governos centrais daqueles países e os grupos oprimidos.

Dentre outras coisa, Ahmed, talvez inadvertidamente, constrói uma crítica devastadora ao fracasso dos EUA, que não souberam respeitar os critérios de qualquer grande estratégia sensível, na reação ao 11/9. Ao confundir um crime horrendo, com ato de guerra, e declarar guerra global ao terror, sem final previsto; e ao conduzir aquela guerra nos termos de uma grande estratégica classicamente falhada, que assumia que “quem não está conosco está contra nós”, os EUA não apenas criaram inimigos que se multiplicam mais depressa do que seria possível matá-los; também, ao fazê-lo, os EUA, sem avaliar qualquer consequência, exacerbaram conflitos locais altamente voláteis, incrivelmente complexos, de raízes locais profundíssimas; assim, os EUA contribuíram para desestabilizar porções gigantescas da Ásia e da África.

Sem avaliar consequências? É dizer pouco. Considere, leitor, o seguinte: muitos leitores, aqui, já ouviram falar de AQIM e, provavelmente, também dos tuaregues. Mas quantos algum dia ouviram falar dos berberes cabila e de sua história na Argélia? (Eu, nunca.) Pois, como ensina o professor Ahmed, os berberes cabila são os fundadores da AQIM – fundação que tem raízes profundas nos seus padecimentos históricos. Assim sendo, a AQIM é mais do que simples “desdobramento” da al-Qaeda.

Nada disso aparece nas respostas do general Rodriguez, apesar de fazer repetidas referências à AQIM e à Argélia. Tampouco se aprenderão essas coisas daqueles senadores, ou de suas perguntas.

Pode-se confirmar pessoalmente, em casa.

Faça uma pesquisa de palavras no pacote de perguntas e respostas do general Rodriguez: ninguém jamais encontrará ali nem vestígios da complexa história que Ahmed explica em seu ensaio para Aljazeera,The Kabyle Berbers, AQIM, and the search for peace in Algeria[Os berberes cabila, AQIM e a busca de paz na Argélia].  (Tente, por exemplo, encontrar as palavras AQIM, Kabyle, Berber, history, Tuareg, tribe, tribal conflict, culture, etc. ou use a própria imaginação).

Além de perceber o muito que não se discutiu, observe também como o contexto centrado em ameaças que cerca todas as palavras sempre salta à vista. Compare a esterilidade de tudo que Rodriguez diz e a riqueza da análise de Ahmed. E tire suas próprias conclusões. E lembre: “AQIM” é apenas um dos verbetes, no portfólio de ameaças com que o AFRICOM trabalha. E o quanto nós não sabemos, sobre os outros verbetes?

Como Robert Asprey mostrou em seu clássico War in the Shadows [Guerra nas sombras], em que estuda 2000 anos da história das guerras de guerrilha, o erro mais frequente, sempre cometido por quem pretenda intervir, vindo de fora, numa guerra de guerrilha, é sucumbir à tentação de deixar que a “arrogância da ignorância” modele seus esforços militares e políticos.

Apesar de a arrogância da ignorância já afirmada e reafirmada no Vietnã, no Afeganistão, no Iraque e na Líbia... já começa a parecer que a conclusão intemporal de Asprey será mais uma vez reafirmada na África.

Franklin “Chuck” Spinney* é ex-analista militar do Pentágono, autor incluído na coletânea Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion  [Sem esperança: Barack Obama e a política da ilusão], publicada por AK Press.
Recebe e-mails em:
chuck_spinney@mac.com

Robert Fisk – “Guerra ao terror: nova religião ocidental”


24/2/2013, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mohamed al-Zawahiri

Robert Fisk
Mohamed al-Zawahiri, irmão caçula do sucessor de Osama bin Laden, Ayman, fez declaração particularmente intrigante no Cairo, mês passado. Falando àquela maravilhosa instituição francesa Le Journal du Dimanche sobre o Mali, disse ao jornal que alertasse a França “e as pessoas racionais e razoáveis na França, para que não caiam na mesma armadilha em que caíram os norte-americanos. A França já é responsável por ocupar um país muçulmano. A França já declarou guerra ao Islã”. Jamais, em todos os tempos, a França recebeu aviso mais claro.

E, como se podia adivinhar que aconteceria e aconteceu, dia seguinte suicidas-bomba atacaram a cidade ocupada de Gao; exatamente dez dias depois, a França perdia o segundo soldado no Mali, morto a tiros por rebeldes, em batalha nas montanhas Ifoghas. Ali, nas palavras da velha, fatigada retórica do presidente Hollande, houve uma batalha contra “terroristas” que se “acoitaram” na área, durante uma operação que já estava “na fase final”. É fraseologia tão esgotada – ouviram-se as mesmas palavras velhas em praticamente todos os pronunciamentos dos EUA durante a guerra do Iraque – quanto a capacidade do ocidente para compreender a nova al-Qa’eda.

Pimpinela Escarlate
Só se compara ao Pimpinela Escarlate da Baronesa Orczy (Livro editado em português pela Livraria do Globo, Porto Alegre, em 1957):  (“Procuraram [o Pimpinela] aqui, ali, acolá, os francezolas procuram o homem por toda parte...” Mas quem, exatamente, procuravam? O líder de qual específico grupúsculo de bandoleiros inspirados pela al-Qa’eda no Mali? De fato, nossos amos e senhores não dão sinal de terem nem qualquer mínima ideia das pessoas das quais falam. Há poucas semanas, quando a maioria de nós não sabia nem o nome da capital do Mali – reconheçamos, ô leitores! – ainda vivíamos sob a firme fé de que o renascimento da al-Qa’eda acontecia no Iraque, onde tudo já voltou à situação de suicidas-bombas diários contra xiitas.

Veio então o “professor de al-Qa’eda”, como o chamam seus editores, Gregory Johnsen, com livro intitulado The Last Refuge: Yemen, Al-Qaeda and the Battle for Arábia [O último refúgio: Iêmen, Al-Qaeda e a Batalha pela Arábia]. Yes, folks! Os bandidos encontraram abrigo no antigo reino da Rainha de Sabá; no livro não há nem uma referência, referência zero, ao Mali. Em seguida – para surpresa e estarrecimento globais – constatou-se que os amaldiçoados da al-Qa’eda estavam, sim, confirmado, no norte da Síria (vejam La Clinton e indômito, valente, valoroso secretariozinho de Relações Exteriores do nosso Reino Unido). Desnecessário dizer, estávamos de volta ao Mali, outra vez, dia 12/2, quando a al-Qa’eda na Península Arábica (o quartel-general, como se sabe ficava no Iêmen, não esqueçam) convocou para Jihad no Mali contra “os cruzados”. Bem... Pelo menos a al-Qaeda demarcou uma das nações europeias que, sim, realmente participaram das Cruzadas originais. A imprensa-empresa ocidental, como sempre, manteve e repetiu essa narrativa delirante, sem sentido algum, citando os mesmos especialistas em “terroristas” de sempre, em Londres, Paris e por todo o ocidente.

Graças aos céus, portanto, que haja autores árabes como Abdel Bari Atwan – que conheceu o verdadeiro Bin Laden melhor que qualquer jornalista – e seu livro After Bin Laden: Al-Qa’ida, the Next Generation [Depois de Bin Laden: Al-Qa’eda, a Próxima Geração]. Atwan – admito: meu velho amigo – explica estruturadamente como a al-Qa’eda transformou-se depois do assassinato de Bin Laden; e recorda como, em 2005, recebeu por e-mail um documento intitulado “Al-Qa’eda’s strategy to 2020” [Estratégia da Al-Qaeda até 2020], que delineava sete “estágios” rumo a um califado islâmico mundial.

O estágio n. 1 era “provocar o pesado elefante americano para que invada terras muçulmanas, onde os mujahideen poderão combatê-lo mais facilmente.
Estágio n. 2: a nação muçulmana desperta de seu longo sono e enfurece-se ante o plano de uma nova geração de cruzados, de ocupar grandes partes do Oriente Médio e de roubar seus valiosos recursos. “As sementes do ódio contra os EUA no qual a al-Qa’eda sempre investiu” – diz Atwan – “foram semeadas quando as primeiras bombas caíram sobre Bagdá em 2003”.

De fato, como escrevi depois da invasão, uma mensagem oblíqua de Bin Laden pouco depois da aventura de Bush – e mensagem que a CIA, em atitude que lhe é típica, ignorou – realmente convocava os membros da al-Qa’eda a cooperar com os odiados baath’istas, contra as forças dos EUA. Foi a primeira convocação para que a al-Qa’eda colaborasse com outros grupos – semente da praga que hoje já se disseminou, com unidades da al-Qa’eda lutando ao lado de outras organizações rebeldes no Iraque, Iêmen, Líbia, Argélia, Mali e, agora, na Síria.

Abdel Bari Atwan
O estágio 3 é um conflito OTAN-al-Qa’eda, num “triângulo de horror” (...) no Iraque, Síria e Jordânia”. No estágio 4, “Al-Qa’eda passa a ser rede global (...), o que torna a geração de franquias operação extraordinariamente mais fácil”. No estágio 5, o orçamento militar dos EUA “é sufocado, arrastado na bancarrota e no derretimento da economia”. O 6º estágio é “derrubar os odiados ditadores árabes. Finalmente, o definitivo choque de civilizações e uma batalha terrível, apocalíptica”. Al-Zawahiri, aliás, vive a citar Ascensão e queda das grandes potências [1] [The Rise and Fall of the Great Powers] de Paul Kennedy, historiador de Yale, que vê o colapso econômico sempre na base do colapso dos impérios.
A al-Qa’eda também tem seus fracassos: o movimento não conseguiu entrar na Palestina, o suposto centro do coração de Bin Laden; nem obteve sucesso algum no hedonista Líbano – embora a al-Qa’eda tenha tentado encenar um levante num campo de refugiados palestinos no norte do país e tenha seguidores no gigantesco campo de Ein al-Helwe, em Sidon.

Atwan escreveu capítulo perturbador sobre guerra digital – a al-Qa’eda é hoje, afinal, quase tão adepta de gerar conteúdos quanto qualquer empresa-imprensa – e fala da possibilidade de a al-Qa'eda assumir o controle de um sistema de tráfego aéreo, de usinas nucleares, de redes de energia, de absolutamente tudo e qualquer coisa. E al-Zawahiri tem-se manifestado pessoalmente interessado na energia líbia. Interromper ou perturbar os fluxos de petróleo para o ocidente. Claro: já foi tentado na Arábia Saudita.

Atwan, menos realisticamente, embarca na análise da Rand Corporation, de 2008, sobre “como terminam os grupos de terror”, uma lista dos desejos e sonhos da CIA: todos os líderes são “dronados” ou assassinados de outros modos, os grupos dissidentes crescem e racham o movimento, o grupo “engaja-se no processo político” (ver o “presidente” Hamid Karzai e os Talibã). Bin Laden tinha uma palavra sobre isso. “Você mencionou que a inteligência britânica disse que a Inglaterra [sic] deixaria o Afeganistão se a al-Qa’eda prometesse não atacar interesses dela” – escreveu ele em carta a um comandante que seria “dronado” um ano antes de o próprio Osama ser morto (o “negócio britânico” soa, sim, como possível perfeita, cruel verdade). “Não faça acordo de nenhum tipo, não aceite nada... mas sem bater a porta”.

Aha! Quer dizer então que até Bin Laden teria fechado acordo por menos que um califado mundial. Duvido que Hollande, algum dia, receba proposta de “negócio” semelhante a esse, depois de os franceses terem assado no Mali. Duvido. Ainda creio no grande conto de John Wyndham, The Day of the Triffids [2]. Ninguém sabia como as malsinadas criaturas, que cobriram a Terra de cegueira, poderiam sem contidas. Até que a filha de um guardador de farol, na tentativa desesperada de salvar a própria vida, jogou água do mar sobre as coisas. E elas apodreceram em segundos, diante dos olhos dela.

Soldado francês morto no Mali
Assim sendo, por que não param de borrifar bombas e urânio baixo enriquecido sobre os povos do Oriente Médio? E por que não param de mandar nossos combalidos exércitos para ocupar terras dos muçulmanos – o que, aliás, é exatamente o que a al-Qa’eda deseja que façamos – e por que não param de subornar líderes árabes para que esmaguem o próprio povo? Em vez disso, não podemos levar a justiça a visitar aquelas tristes terras? Justiça para os palestinos, justiça para os curdos, justiça para os sunitas iraqueanos, justiça para o povo do sul do Líbano, justiça para o povo da Caxemira. Se o ocidente orientar-se para essa Cruzada verdadeira, a al-Qaeda, como aquelas pérfidas trífides, desaparecerão. E o povo que vive no mundo muçulmano que resolva, lá, sobre o “califado” deles.

Porém, justiça não é feita de água salgada, nem abunda como água do mar e nossos amos e senhores ainda querem governar o mundo, e não há a menor chance de que arrisquem o status deles, a reputação, o futuro na política, a vida, lutando por justiça, conceito fora de moda. A “Guerra ao Terror” ainda é a nova religião do Ocidente – e por que não seria, quando o ministro francês do Interior declara que “há um fascismo islâmico crescendo por todos os lados?”.

O mais triste é que não estamos lendo a mensagem mais óbvia: que a al-Qa’eda fracassou quase completamente e não conseguiu sequestrar o despertar árabe; não se veem imagens de Bin Laden, nem a bandeira da al-Qa’eda surgiu nas mãos daqueles milhões que marcham pelas ruas das capitais árabes. Mas... não! Embarcamos agora no mito de que partidos islamistas eleitos seriam al-Qaedas disfarçadas, de que – no fundo – o mundo islâmico está em eterno “choque de civilizações” conosco, que temos de temê-los, de odiá-los.

Leon Panetta
E assim a guerra prossegue. O que aquele esplêndido Leon Panetta – meu secretário de Defesa favorito – disse em Kabul, há 18 meses? “Estamos já bem próximos de derrotar estrategicamente a al-Qa’eda”. E em Londres, há poucos dias? Falou de “incansável pressão” sobre o grupo. Será que há um agente da al-Qaeda, trabalhando como assessor de imprensa, escrevendo essas coisas para ele? Ou será que partilhamos algum conhecimento obscuro, não dito, nós e a al-Qa’eda? Ou será que todos, no fundo da alma, nós e a al-Qaida queremos que a guerra continue?

Os EUA enviam soldados

  • O Pentágono deslocou cerca de 100 soldados para o Niger, para executar voos de drones comandados à distância, de reconhecimento, sobre o Mali e partilhar inteligência com forças francesas que combatem contra militantes afiliados à al-Qa’eda. O mais recente contingente chegou há quatro dias ao Niger, e “receberam armas com vistas a garantir proteção e segurança à própria força”.
  • Oficial do Pentágono disse que o AFRICOM – Comando dos EUA na África (com sede em Stuttgart) enviou os drones ao Niger, para apoiar várias missões de segurança regional e compromissos assumidos com nações parceiras”.
  • 13 soldados do Chade foram mortos em combate no norte do Mali, o maior número de baixas sofridas por forças francesas e africanas desde o início da campanha, há seis semanas. Tropas do Chade mataram 65 militantes da al-Qa’eda naqueles confrontos, que começaram antes do meio dia nas montanhas Adrar des Ifoghas, perto da fronteira norte do Mali.
  • A França invadiu sua ex-colônia em janeiro. A violência pode facilmente degenerar numa infindável guerra de guerrilhas entre forças francesas e africanas.




Notas dos tradutores
[1] KENNEDY, Paul. - Ascensão e Queda das Grandes Potencias, Rio de Janeiro: Campus, 1991.
[2] The Day of the Triffids [O dia das trífides] é romance pós-apocalíptico sobre uma praga de cegueira que atinge todo o planeta, o que permite a proliferação de uma espécie agressiva de plantas (as trífides do título). Publicado em 1951, foi roteirizado para o cinema em 1962, para o rádio e para duas séries de televisão

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Pepe Escobar: “O ilusório estado do Império”


13/2/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
Barack Obama jamais seria tolo a ponto de usar um discurso sobre o “Estado da União” [orig. State of the Union (SOTU)] para anunciar algum “eixo do mal”.

Não. Oh!-Oh!-Bama, equipado com sua exclusiva licença (lista) para matar, é bagre muito mais ensaboado. Assim como, cheio de autoconfiança, inventou esquema para governo “mais esperto” – não maior –, assim também manteve bem grudadas ao peito as cartas de sua política externa.

Viram-se poucos olhares de dúvida, ante a promessa de que “pelo final do próximo ano, nossa guerra no Afeganistão será passado”; claro que não será, porque Washington lutará até o fim par manter naquele solo número considerável de coturnos de contrainsurgência em solo – ostensivamente para combater, nas palavras de Obama, aqueles “remanescentes da al-Qaeda” do mal.

Obama prometeu “ajudar” a Líbia, o Iêmen e a Somália, para nem falar no Mali. Prometeu “engajar” a Rússia. Prometeu seduzir a Ásia com a Parceria Trans-Pacífico – na essência, uma coleção de acordos de livre comércio à moda das grandes corporações. Quanto ao Oriente Médio, prometeu “defender” os que querem liberdade; excluído, presumivelmente, o povo do Bahrain.

Dado que se tratava do Congresso dos EUA, claro que foi obrigado a incluir as juras de “impedir o Irã de obter armas nucleares”; de “pressionar mais” a Síria – cujos regimes “matam o próprio povo”; e de “manter-se firme” ao lado de Israel.

A Coreia do Norte foi mencionada. Sempre sabendo o que esperar daquelas vozes de lá, o ministro de Relações Exteriores em Pyongyang já lançou ataque preventivo: disse que o teste nuclear dessa semana era só uma “primeira resposta” às ameaças dos EUA; “uma segunda e uma terceira medidas de maior intensidade” serão disparadas, se Washington insistir na hostilidade.

Obama sequer incomodou-se com responder às críticas contra suas guerras clandestinas, o Império dos Drones, ou com oferecer alguma justificativa legal para a prática de treinar tiro ao alvo contra cidadãos norte-americanos; mencionou, de passagem, que todas essas operações serão conduzidas “com transparência”. E foi só? Ah, não! Teve muito mais.

O jogo de Oh!-Oh!-Bama

11/9/2001
Desde o 11/9, a estratégia de Washington durante os anos de George W Bush – redigida pelos neoconservadores – é versão modificada de retomada da guerra em solo. Mas então, depois do fracasso no Iraque, houve um ajuste estratégico de última hora, que se pode definir como o confronto Petraeus versus Rumsfeld. O mito da “vitória” de Petraeus, baseado em sua ‘'avançada'’ mesopotâmica, deu a Obama, de fato, um jeito para sair do Iraque com a ilusão de algum relativo sucesso (mito que, compreensivelmente, foi comprado e vendido pela imprensa-empresa).

Veio então a reunião de Lisboa, no final de 2010, programada para converter a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em clone do Conselho de Segurança da ONU em formado puramente ocidental, capaz de promover intervenções militares por conta própria – ações preventivas incluídas – pelo mundo inteiro. Nada menos que continuum Bush-Obama clássico.

A reunião da OTAN em Lisboa parecia ter entronizado uma visão de Paraíso Neoliberal nas complexas relações entre guerra e economia; entre operações militares e de polícia; e entre uma perene indústria de modernização de exércitos e o projeto político de guerras globais preventivas para sempre. E tudo, mais uma vez, sob supervisão de Obama.

A guerra no Afeganistão, por sua vez, foi bem útil para promover a OTAN, tanto quanto a OTAN foi útil para promover a guerra no Afeganistão – embora a OTAN não tenha conseguido converter-se em Conselho de Segurança do Império Global Norte-americano, sempre dedicado a dominar, render, subjugar, a ONU.

Seja qual for a missão na qual a OTAN esteja envolvida, o comando e o controle são sempre de Washington. Só o Pentágono pode fornecer a logística para operações militares transcontinentais globais. A Líbia 2011 é outro exemplo claro. No início, franceses e britânicos operaram em coordenação com os norte-americanos. Mas, em seguida, o AFRICOM, com base em Stuttgart, assumiu pleno comando e controle dos céus líbios. Em tudo que a OTAN fez na Líbia daquele momento em diante, o virtual comandante-em-chefe foi Barack Obama. 

Assim sendo, Obama é dono da Líbia. Tanto quanto é dono do ataque-revide em Benghazi, na mesma Líbia.

A Líbia parecia anunciar a chegada da OTAN como linha de montagem de uma coalizão em escala global, capaz de organizar guerras por todo o mundo, criando a aparência de algum consenso político e militar, unificado por uma doutrina integralmente norte-americana de alguma ordem global, pomposamente intitulada “conceito estratégico da OTAN”.  

É possível que o combo OTAN-AFRICOM tenha “vencido” na Líbia. Mas, em seguida, lá estava a linha vermelha não ultrapassável na Síria, devidamente imposta por Rússia e China. E no Mali – que é revide-retaliação do que foi feito na Líbia – a OTAN já nem aparece na fotografia. É possível que os franceses creiam que garantirão para eles todo o urânio e o ouro de que precisam no Sahel – mas é o AFRICOM quem continua a beneficiar-se no longo prazo, prosseguindo em sua avançada militar contra os interesses chineses na África.

O que é certo é que, mediante esse processo construído em volutas, Obama sempre esteve totalmente imerso na lógica do que o importante analista francês de geopolítica Alain Joxe chamou de “neoliberalismo de guerra”, herdado dos anos Bush. Pode-se considerar como definição au Champagne da guerra longa, ou infinita, do Pentágono.

O legado de Oh!-Oh!-Bama

O legado de Obama pode estar em processo de forjamento. Pode-se chamá-lo de Guerra Clandestina Forever – completado pela venenosa manutenção de Guantánamo. O Pentágono, por sua vez, jamais abandonará seu sonho de hegemonia militar “de pleno espectro”, controlando o futuro do mundo, idealmente, em todas aquelas zonas de sombra que há entre Rússia e China, terras do Islã e Índia, e África e Ásia.

Aprenderam alguma lição? Claro que não. Oh!-Oh!-Bama dificilmente terá lido o livro excepcional de Nick Turse Kill Anything that Moves: The Real American War in Vietnam [Matem tudo que se mova: A verdadeira guerra dos EUA no Vietnã][1], no qual documenta trabalhosa e dedicadamente o modo como o Pentágono produziu “verdadeiro sistema de gerar sofrimento”. Análises similares da longa guerra no Iraque só estarão à venda em 2040.

Obama pode mostrar-se pleno de autoconfiança, porque o Império dos Drones está garantido. Muitos norte-americanos parecem apoiar o Império dos Drones sem sequer saber do que se trata – enquanto os “terroristas” forem “eles”, quer dizer, desde que não sejam cidadãos norte-americanos. E nos mundos inferiores da Guerra Global ao Terror [ing. Global War on Terror (GWOT)], miríades dos que lucram com ela aplaudem alegremente.

Um ex-SEAL da Marinha e ex-Boina Verde publicou livro, lançado essa semana, Benghazi: the Definitive Report [Benghazi: relatório definitivo], no qual eles admitem completamente que Benghazi foi revide-retaliação contra a guerra clandestina por lá comandada por John Brennan, adiante recompensado por Obama com o posto de novo diretor da CIA.

Segundo o livro, Petraeus foi derrubado por golpe interno da CIA, com altos funcionários forçando o FBI a iniciar investigação sobre o caso entre Petraeus e sua falsa biógrafa, Paula Broadwell. Motivo: aqueles chefões da CIA estavam furiosos porque Petraeus convertera a agência em força paramilitar. Pois é. E isso, precisamente, é o que Brennan continuará a fazer: guerras clandestinas do Império dos Drones, lista de matar, estão todas lá. Petraeus-Brennan é mais um continuum clássico.

E há também matéria da Esquire que conta toda a história de um ex-SEAL anônimo da Equipe 6, o homem que assassinou Geronimo codinome, Osama bin Laden. É território conhecido: a tradicional hagiografia de um Grande Matador Norte-americano, cujos “três tiros mudaram a história”, hoje abandonado por uma máquina de governo que dificilmente lhe poderia dar menos atenção, mas certamente não desamparado por vários que podem ainda lucrar muito na exploração dessa saga, que vai muito além da aula de treinamento para torturadores – e candidato ao Oscar – A hora mais escura.

Ao mesmo tempo, eis o que se passa no mundo real. A China já ultrapassou os EUA e já é a maior potência comercial do planeta – ainda em crescimento. É só o primeiro passo para que o Yuan seja definido como moeda comercializada globalmente; em seguida, o Yuan será convertido em nova moeda de reserva global, movimento conectado ao fim do primado do petrodólar... Daí em diante, é fácil escrever o resto do roteiro.

Drone numa base "secreta" na Arábia Saudita
Tudo isso nos leva a refletir sobre o real papel político dos EUA na era Obama. Derrotado (pelo nacionalismo iraquiano) – e já batendo em retirada – no Iraque. Derrotado (pelo nacionalismo pashtun) – e já batendo em retirada – no Afeganistão. Sempre acolhedor com a medieval Casa de Saud – incluídas as bases “secretas” de drones (já conhecidas desde julho de 2011). Pivoteando-se para o Oceano Índico e o Mar do Sul da China e pivoteando-se também para várias latitudes africanas. E tudo isso para tentar “conter” a China.

Assim sendo, a pergunta que Obama jamais se atreveria a propor em discurso “O Estado da União” (menos ainda, em discurso “O Estado do Império”) é: os EUA ainda seriam potência imperial global? Ou os exércitos do Pentágono – e os exércitos clandestinos da CIA – já não passam de mercenários armados por um sistema neoliberal global que os EUA iludem-se supondo que ainda controlariam? 


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Pepe Escobar: “Tudo que pivota* é ouro”


1/2/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Pepe Escobar
Para citar a linha imortal de O Falcão Maltês de Dashiell Hammett, [1] na versão filmada por John Huston, “Falemos sobre o pássaro preto”. Conversemos sobre a misteriosa ave feita de ouro. Sim, sim, porque esse é film noir digno de Dashiell Hammett – que envolve o Pentágono, Pequim, guerras clandestinas, pivoteamentos e muito, muito ouro.

Comecemos com a posição oficial de Pequim: “Não temos ouro que chegue”. Daí o atual frenesi de comprar, comprar, comprar, no qual mergulhou a China – e o qual, sobretudo em Hong Kong, qualquer um vê, ao vivo, em tempo real. A China já é (i) o maior produtor de ouro e (ii) o maior importador de ouro do mundo.

70% das reservas de EUA e Alemanha são ouro; mais ou menos a mesma proporção, também para França e Itália. A Rússia – que também entrou em frenesi de comprar, comprar, comprar, comprar – é pouco acima de 10%. Mas a porcentagem de ouro nos estonteantes US$3,2 trilhões das reservas chinesas é de apenas 2%.

Pequim acompanha atentamente o bate-cabeça no New York Federal Reserve, depois que o German Bundesbank pediu a devolução do ouro alemão que lá estava depositado, e os americanos responderam que demoraria no mínimo sete anos para devolverem tudo.

Lars Schall
Lars Schall, jornalista alemão especializado em finanças, acompanha o caso desde o início [2] e, praticamente sozinho, sem qualquer ajuda, conseguiu unir duas pontas cruciais do movimento entre ouro, papel moeda, recursos energéticos e o abismo dos abismos ante o qual vive hoje o petrodólar.

Pequim diz que precisa de mais ouro, para proteger-se contra a ameaça de desastre “nas reservas estrangeiras” – também chamada flutuação do dólar norte-americano – mas especialmente para “promover a globalização do Yuan”. E também, para, suavemente, fazer o Yuan competir com o dólar dos EUA e com o euro “com justiça” [3] no “mercado internacional”.

E aí está o nebuloso (elusivo) xis da questão. O que Pequim realmente quer é livrar-se do dólar norte-americano, essa canga. Para que isso aconteça, a China precisa de ouro, ouro, imensas reservas de ouro. E eis Pequim que se pivoteia, do dólar norte-americano para o Yuan – e está tentando levar com ela, pelo mesmo caminho, vastas fatias da economia global. A “regra de ouro”, o “corte de ouro” é o Falcão Maltês de Pequim: “Dessa matéria se fazem os sonhos”.

O drone X-47B Unmanned Air System Combate (UCAS)  é apresentado no convés de vôo do porta-aviões USS Harry S. Truman em 9/12/2012
Drone próprio, Aceita viajar...” [4]

O Qatar também se pivoteia – mas pivô à moda MENA (Middle East-Northern Africa). Doha tem financiado wahabbistas e salafistas – e até jihadistas salafistas – como os “rebeldes” da OTAN na Líbia; as gangues do chamado Exército Sírio Livre na Síria e a gangue panislamista que tomou o norte do Mali.

O Departamento de Estado – e mais tarde o Pentágono – talvez até se tenham dado conta do que acontecia; foi quando tentaram, como no acordo conduzido conjuntamente por Doha e Washington, criar uma nova “coalizão” síria, mais palatável.

Mas continuam ativadas, potentes e extremamente perigosas as relações entre o francófilo Emir do Qatar e o Quai d'Orsay em Paris – que já vinham ganhando gás e mais gás durante o reinado do Rei Sarkô, também chamado Nicolas Sarkozy, ex-presidente francês.

Observadores bem informados de geopolítica já vêm seguindo, vazamento a vazamento (que pingam semanalmente, de um ex-funcionário do serviço secreto francês, para o semanário satírico Le Canard Enchainé), e que detalham o modus operandi do Qatar. É simples. A política externa do Qatar atende também pelo nome Fraternidade Muçulmana Aqui, Lá, por Toda Parte (menos dentro do emirado neofeudal): eis o Falcão Maltês do Qatar. Ao mesmo tempo, Doha – para gozo das elites francesas – é praticante ativo de neoliberalismo hardcore e forte investidor na economia francesa.

Assim sendo, os interesses de França e Qatar são complementares: interessa a ambos os governos promover o capitalismo de desastre – como já foi implantado com sucesso na Líbia, mas ainda não conseguiram implantar com sucesso na Síria. O Mali, sim, é outra coisa: caso clássico de volta do chicote no lombo do chicoteador, e é aí que os interesses de Doha e Paris divergem (para nem falar de Doha e Washington. E, pelo menos, se ninguém entender que o Mali serviu como perfeito pretexto para dar alma nova ao AFRICOM dos EUA).

Na Argélia, a imprensa manifesta-se ultrajada e questiona a agenda do Qatar. [5] Mas fato é que o pretexto – como se previa que funcionasse – funcionou perfeitamente.

Carter  Ham
O COMANDO DOS EUA NA ÁFRICA, AFRICOM – surpresa! – está numa roda viva, com o Pentágono ultimando os preparativos para instalar uma base de drones no Niger. [6] Eis o resultado prático da visita que o comandante do AFRICOM, general Carter Ham, fez a Niamey, capital do Niger, há poucos dias.

Esqueçam as velharias PC-12 de propulsão a jato que há anos espionam o Mali e a África Ocidental. Agora, é tempo de Predator. Tradução: o chefe-no-aguardo, John Brennan, planeja uma guerra-clandestina-monstro da CIA, por todo o Saara-Sahel.

Com a permissão de Mick Jagger/Keith Richards, é hora de cantarolar aquele velho sucesso, remixado: “Vejo um drone cor de rato/quero o bicho pintado de preto”. [7]

John Brennan
Para o AFRICOM norte-americano, o Niger é mais doce que mamão no açúcar. No noroeste do Niger estão todas aquelas minas das quais sai o urânio que faz girar a indústria nuclear francesa. Ali, pertinho das reservas de ouro do Mali. Imaginem todo aquele ouro, em área “instável’ e caindo em mãos de... empresas chinesas?! Pequim teria chegado ao seu momento falcão maltês, e teria ouro suficiente para livrar-se da canga do dólar norte-americano, a coisa estaria ali, ao alcance da mão.

O Pentágono já conseguiu autorização até para que essa máquina infernal de vigilância e espionagem se reabasteça – onde? Onde? – em Agadiz, crucial Agadiz. É provável que a Legião Estrangeira francesa já esteja fazendo a parte mais dura do trabalho de campo no Mali, mas o AFRICOM, não a França, colherá os lucros do que lá está sendo feito, por todo o Sahara-Sahel.

Não conhece o pássaro (asiático)?

O que nos traz de volta àquele famoso pivoteamento na direção da Ásia – que se supôs que fosse o principal tema geopolítico do governo Obama 2.0. Talvez até seja. Mas aparecerá acompanhado, já ninguém duvida, pelo pivoteamento do AFRICOM por todo o Sahara/Sahel, em modo drone – para crescente irritação em Pequim; e também pelo pivoteamento de Doha-Washington, que pivoteiam feito loucas em apoio a ex-“terroristas” convertidos em “combatentes da liberdade” e vice-versa.

E ainda sequer se comentou um pivoteamento-zero também incluído nessa trama noir: o governo Obama 2.0 não afrouxa o assustador abraço que o associa à medieval Casa de Saud cum “estabilidade na Península Arábe” – como recomenda um dos suspeitos de sempre, muito medíocre (embora influente) “veterano oficial da inteligência”. [8]

Play it again, Sam. Naquela cena de O Falcão Maltês, no início do “caso” entre Humphrey Bogart (digamos que represente o papel do Pentágono) e Sydney Greenstreet (digamos que represente Pequim), o oficial é o terceiro que se vê ali.  [9] O pivoteamento para a Ásia é invenção, essencialmente de Andrew Marshall, [10] conhecido totem-Yoda [11] da segurança nacional nos EUA.

Andrew Marshall
Marshall esteve por trás da Revolução em Assuntos Militares [orig. Revolution in Military Affairs (RMA)] – tudo que todos os fãs freaks de Donald Rumsfeld mais apreciam; foi “o cérebro” da fracassada operação “Choque e Pavor” (que só serviu para destruir o Iraque além de qualquer “reconstrução” possível, com capitalismo de desastre & tudo); e ainda é “o cérebro”, hoje, por trás do conceito de “Batalha Ar-Mar”. [12]

A premissa da “Batalha Ar-Mar” é que Pequim atacará as forças dos EUA no Pacífico – ideia ridícula, sinceramente (mesmo que se encene operação fantasticamente imensa, em que os EUA se autoataquem, a ser apresentada como “deflagradora” da retaliação). Em seguida, então, os EUA retaliariam, com uma “blinding campaign” [para cegar o inimigo] – equivalente naval da Operação Choque e Pavor. A Força Aérea e a Marinha dos EUA, ambas, adoraram o “conceito”, porque implica muitos negócios de equipamento pesado para mobiliar e armar muitas bases pelo Pacífico e em outros pontos.

Assim sendo, mesmo que a contraguerrilha à moda David Petraeus tenha-se pivoteado e recebido ares de “guerras de sombras” da CIA de John Brennan, o grande negócio pelo qual tantos salivam é, sim, o pivoteamento na direção da Ásia: uma pseudoestratégica, concebida exclusivamente para manter o orçamento do Pentágono em níveis exorbitantes, inventando e promovendo uma nova Guerra Fria, dessa vez contra a China.

“Nunca conseguirão juntar ouro suficiente para impor ao mundo seus projetos maléficos” – quase se ouve a voz de Marshall, sobre a China (sem a elegância e o aplomb de Bogart ou de Greenstreet, claro). Hammett ficaria horrorizado: o falcão maltês de Marshall é a substância de que se fazem os sonhos (de guerra).



Notas de rodapé

*Sobre o verbopivotar. Há no original clara referência ao “movimento de pivô” do presidente Obama, afastando-se do Oriente Médio para meter-se com a China, como se pensou de início, mas, como já se vê, para meter-se também com o norte da África [NTs].

[1] Sobre a edição em português, ver: O FalcãoMaltês[NTs]

[2] 11/10/2011, Lars Schall blog, Lars Schall, em: Germany should end the secrecy and bring its gold home

[3] 29/1/2013, BRIC Post, em: Renminbi to compete with dollar and euro

[4]No orig. “Have drone, Will travel” Há aí uma alteração/atualização na expressão original “Have Gun - Will Travel”. A expressão original foi título de seriado de televisão lançado em 1957 nos EUA. O enredo mostra um pistoleiro profissional (codinome “Paladino”), formado na Academia de West Point, o qual, depois da Guerra Civil, instalou-se no Hotel Carlton, em San Francisco, à espera de respostas aos cartões de propaganda comercial que distribuíra pela cidade. No cartão, sobre a imagem de um cavalo do jogo de xadrez, lia-se “Arma Própria, Aceita Viajar... Contrate Paladino, San Francisco”. “Traduzindo” alguns subcontextos, chegamos a “Drone próprio, Aceita viajar...” (NTs)

[5] 28/1/2013, France, Le Monde, Courrier International em: Le jeu trouble du Qatar

[6] 28/1/2013, Washington Post, Craig Whitlock, em: U.S. plans to add drone base in West Africa

[7]  Rolling Stones (Paint it Black). Orig. “I see a red door and / I want to paint it Black” [Vejo uma porta vermelha e quero pintá-la de preto].
Vídeo original a seguir: [NTs]

[8] O documento da Brookings Research (17/1/2013) está em: Big Bets and Black Swans: Foreign Policy Challenges for President Obama’s Second Term. O Brasil lá está anotado entre as “Big Bets” (“Políticas nas quais o pres. Obama deve investir seu poder, tempo e prestígio”) [NTs].

[9] Vêem-se todos no vídeo que se segue: “The Maltese Falcon (1941) - Humphrey Bogart - Sidney Greenstreet” [NTs].


[10] Ver “Andrew Marshall

[11] Pode-se ver o jeitão em: Yoda: Bring You Wisdom, I Will (Star Wars (Chronicle))”  [NTs].

[12] 1/8/2012, Washington Post, Greg Jaffe, Gene Thorp, Bill Webster em: What is Air-Sea Battle?