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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Obama sobre táticas heterodoxas da CIA pós 11/9: “Torturamos uns caras...”

1/8/2014, Russia Today - RT, Moscou – com vídeo, em inglês
Texto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama, na Casa Branca, em 1/'8/2014
O presidente Barack Obama fez um rara admissão de culpa durante conferência de imprensa sobre o uso, pelos EUA de táticas de interrogatório com estimulação, logo depois dos ataques terroristas do 11/9.

Imediatamente depois do 11/9, fizemos algumas coisas erradas. Fizemos muitas coisas certas, mas torturamos uns caras... Fizemos coisas que contrariam nossos valores” – disse o presidente Obama na parte final de conferência de quase uma hora com jornalistas na Casa Branca em Washington, DC.

O comandante-em-chefe fez a admissão ao responder a uma pergunta sobre John Brennan, Diretor da CIA-EUA, entre várias perguntas de jornalistas sobre as situações em Gaza, na Ucrânia e no Oeste da África.

No início dessa semana, Brennan admitira que empregados da CIA teriam, como foi divulgado, espionado o computador de uso dos funcionários da Comissão de Inteligência do Senado, quando trabalhavam num relatório sobre o uso, pela CIA, de táticas controversas de interrogatório. O relatório, de 6 mil páginas, ainda não foi divulgado, mas a senadora Dianne Feinstein (D-California), que preside a investigação sobre as práticas da inteligência, considerou-o “apavorante”; disse que, quando for divulgado, mostrará que a tortura é prática “muito mais sistemática e difundida do que pensávamos”.

Depois de admitir que os EUA “torturaram uns caras”, na conferência de imprensa dessa 6ª-feira (1/8/2014), Obama acrescentou: “É o que aquele relatório reflete”.

No início da semana, o senador Ron Wyden (D-Oregon) disse ao The Daily Beast que “o povo americano ficará gravemente perturbado com o que esse relatório mostrará”.

Por sua vez, o presidente Obama disse, no briefing desta 6ª-feira (1/8/2014), que “O caráter de nossa nação deve ser medido em parte não pelas coisas que fazemos quando as coisas estão fáceis, mas pelo que fazemos quando as coisas estão difíceis”. Vídeo a seguir:


A palavra “tortura” para descrever as táticas de interrogatório empregadas pela CIA é raramente usada por altos funcionários do governo, mas o presidente Obama já condenara antes abusos passados da CIA. Em discurso ano passado na Universidade da Defesa, Obama disse que, em alguns casos, “creio que conspurcamos nossos valores básicos, ao usar tortura para interrogar inimigos e ao deter indivíduos de modo contrário ao que a lei ordena”.  

Por isso, depois que assumi a presidência, ampliamos a guerra contra a Al-Qaeda, mas também buscamos mudar o curso daquela guerra. Atacamos sem trégua a liderança da Al-Qaeda. Pusemos fim à guerra do Iraque e trouxemos de volta para casa 150 mil soldados. Procuramos estratégia diferente no Afeganistão e ampliamos o treinamento do exército afegão. Banimos inequivocamente a tortura, reafirmamos nossos compromissos em tribunais civis, trabalhamos para alinhar nossas políticas e o estado de direito e expandimos as consultas ao Congresso”, disse Obama naquela fala de maio passado.

O presidente falou do relatório, depois de perguntado sobre sua opinião sobre Brennan, que, antes, dissera que a senadora Feinstein errara ao dizer que a CIA espionara os funcionários da Comissão de Inteligência do Senado.

Estou profundamente desapontado, porque membros do Senado decidiram fazer acusações espúrias sobre ações da CIA, acusações que absolutamente não encontram confirmação nos fatos” – dissera Brennan, comentando a fala da senadora.

John Brennan, Diretor da CIA
Na 5ª-feira (31/7/2014), McClatchy noticiou que investigação feita pelo Gabinete do Inspetor Geral da CIA concluíra que seus funcionários “agiram de modo inconsistente com o entendimento vigente” entre a Agência e o senador Saxby Chambliss (R-Georgia), vice-presidente da Comissão, e “pediu-lhes desculpas pelas ações dos funcionários da CIA descritas no relatório OIG” – como um porta-voz da CIA informou a [revista] McClatchy.


Tenho confiança integral em John Brennan” – disse Obama na 6ª-feira, aos jornalistas.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ucrânia: golpistas de Kiev-EUA reconhecem derrota

30/4/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

John Brennan
Estimulado pelo diretor da CIA Brennan e pelo vice-presidente Biden dos EUA, o governo ucraniano em Kiev tentou duas vezes usar força militar contra os federalistas, no leste. Na segunda vez, quando tentou bloquear a cidade de Slovyansk, a Federação Russa anunciou manobras das tropas de fronteira e ameaçou intervir. Kiev retrocedeu e os federalistas ocuparam prédios do governo ucraniano em mais cidades no leste. Cerca de 23 cidades e vilas na região do Donbass, que gera 1/3 do PIB da Ucrânia, estão já controladas pelos federalistas. Espera-se que, amanhã, esse número aumente.

Oleksandr Turchynov
Pelo menos por hora, o governo golpista em Kiev entregou os pontos:

O presidente da Ucrânia advertiu, na 4ª-feira (30/4/2014), que sua polícia e forças de segurança são “impotentes” para conter os tumultos no leste do país, onde militantes pró-Rússia tomaram prédios do governo em mais uma cidade.
“Serei franco: hoje, as forças de segurança não conseguem retomar rapidamente o controle da situação nas regiões de Donetsk e Luhansk” – disse o presidente “interino” Oleksandr Turchynov ...”

A imprensa-empresa “ocidental” insiste em chamar os manifestantes do leste de “separatistas” ou “pró-Rússia”. [1] São expressões ERRADAS.

Diferente da Crimeia, nessas áreas não há maioria que deseje unir-se à Federação Russa. Aí, as pessoas querem estados autônomos dentro da Ucrânia, com governos eleitos localmente e algum controle sobre as próprias relações exteriores. Querem uma Ucrânia federal, com governo central fraco, que não interfira nos assuntos das regiões.

Joe Biden
Com as coisas seguindo como até aqui, é possível que consigam o que eles – e a Rússia – querem. E, sem autoridade sobre o leste e sem forças de segurança confiáveis, o governo de Kiev nada pode fazer para impedir que aconteça.

A opinião pública nos EUA é contra mais intervenção dos EUA na Ucrânia; e, a seis meses das eleições de meio de mandato, não há dúvidas de que a opinião pública será levada em conta, pelo menos por enquanto. Tampouco se vê qualquer apoio vindo da Europa para a novas sanções contra a Rússia. O ‘ocidente’ e seus sabujos em Kiev ficaram sem ferramentas para fazer avançar os próprios planos.

O plano dos neoconservadores, de capturar para a OTAN o porto Sebastopol no Mar Negro foi derrotado no momento em que a Rússia apoiou o referendo dos (então, ainda) ucranianos, que se manifestaram a favor da reintegração da Crimeia à Rússia.

Henry Kissinger
O plano da OTAN, de incluir a Ucrânia em seu anel “de contenção” em torno da Rússia, fracassou. E jaz em cacos o plano da União Europeia, para devorar o que resta das riquezas naturais da Ucrânia.

A Ucrânia se converterá, como recomendava há dois meses, um velho político (e criminoso de guerra), Henry Kissinger, uma nação federal finlandizada, entre o leste e o oeste.

Mas ainda há fatores complicadores possíveis. Os intervencionistas humanitários neoconservadores ficarão furiosos com a perda, e podem ainda inventar algum neogolpe ou neocrime. Podem, usando suas conexões com os fascistas da Ucrânia, iniciar uma guerra civil na Ucrânia. Se para mais não servir, servirá para manter a Rússia ocupada, e desatenta, talvez, a outras questões.


Nota dos tradutores

[1] No Brasil, repetem e repetem sempre, todos, e sem salvar-se um jornal ou jornalista do Grupo GAFE (Globo, Abril, Folha de SP, Estado) que fosse, o mesmo BESTEIROL! Por exemplo, amostra pequena:

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[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:


sábado, 26 de abril de 2014

Conflicts Fórum: Comentário semanal de 11-18/4/2014

26/4/2014, [*] Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Yezid Sayigh
É “perspectiva melancólica, com certeza”, escreve Yezid Sayigh, do Carnegie Middle East Centre. “Mas o momento em que Assad poderia ter sido derrotado por uma oposição inepta e por um movimento rebelde dividido, já passou”. O artigo de Sayigh é peça para ler com atenção. Embora reproduza a narrativa parcial da oposição, o que se vê claramente no tom melancólico, Sayigh mesmo assim é um dos mais conscientes analistas estratégicos da questão síria. Está na linha de frente do pensamento ocidental dominante sobre a Síria. Para muitos, hoje, o que mais surpreende na atual posição dele é a declaração, clara, de que “na verdade, todo o contexto de Genebra está morto”.

De fato, a iconoclastia de Sayigh vai além: ele também demole o mantra dominante segundo o qual, a Síria, sem Genebra, permaneceria condenada a ser inevitável “refém de um impasse militar infindável”. “Verdade é que, com o conflito entrando já no quarto ano, o impasse absolutamente já não parece infindável” – diz ele, refutando a fantasia do “impasse”. Observa que evidentemente os EUA não planejam aumentar substantivamente sua oposição militar; e que a Arábia Saudita está sendo contida, ao mesmo tempo, pela pouca disposição da Jordânia para facilitar a escalada militar através de seu território e, também, por Obama insistir em que o suprimento de armas seja limitado. “Quase três anos depois que o exército sírio interveio para conter o levante popular no país” – Sayigh escreve em outro artigo  – “o treinamento militar superior, a organização e o poder de fogo [do exército sírio] começaram a traduzir-se em vantagem decisiva. O regime avançou posições no norte e está em boa posição para frustrar o avanço dos rebeldes a partir do sul”.

John Brennan
Sayigh continua: “como John Brennan, diretor da CIA, disse em fala pública em março de 2014, “a Síria tem exército de verdade”, que é “uma grande força militar convencional, com tremendo poder de fogo”. “Beneficia-se significativamente, também, de aconselhamento de iranianos e russos, com novo treinamento para guerra em ambiente urbano, e da contribuição de força de combate não síria, sobretudo do Hezbollah libanês, de milícias xiitas iraquianas, da Guarda Revolucionária do Irã e de outros voluntários. E está fazendo mais do que manter posições”. E acrescenta: “Se a tendência atual se mantiver – e nada sugere que não se mantenha – nesse caso, o regime sírio [de Assad] estará em posição dominante, com efetivo controle sobre massa crítica do país, até o final de 2015, se não antes”.

A formulação de Brennan, não surpreendentemente, é seca e técnica. Mas, em essência, ambos, Sayigh e Brennan, estão dizendo que a Síria é o ponto crucial onde medem forças duas irreconciliáveis visões de futuro – não só do futuro da Síria, mas do futuro de todo o Oriente Médio.

De um lado, o mundo estreito, dogmático, intolerante dos jihadists e seus patrões; de outro lado, uma visão pluralista, mais ampla, não sectária, mais tolerante [de Assad, Khamenei, Nasrallah], para o Oriente Médio. O que Sayigh e Brennan, cada um à sua maneira, estão sinalizando, é que, nessa disputa de forças, essa segunda visão [de Assad, Kamenei, Nasrallah] está prevalecendo. Isso é imensamente significativo para a região como um todo; mas só depois de que se cristalize o resultado desse teste de força – não antes –, a política poderá voltar à cena.

Bashar al-Assad
A conclusão de Sayigh é que – por mais que os chamados “Amigos da Síria”, por hora, ainda clamem por solução internacional – também os agentes ocidentais já estão vendo que o “processo de Genebra” está esvaziado. O presidente Assad permanecerá no governo para comandar qualquer transição; e o mais melancólico é que talvez ainda se passem anos, antes de que possa emergir qualquer nova oposição legítima. Para Sayigh, o mais provável é que nenhuma nova oposição “se materialize, até que a oposição que há hoje e a rebelião armada tenham perdido completamente a batalha” (itálicos de CF).

Mas a expectativa de que se venha a criar um “espaço” político vazio, como resultado inevitável do fracasso do “processo” de Genebra, é, parece, excessivamente “polarizada”. A própria cristalização dessa disputa épica de forças gerará uma nova política. De fato, já começou a gerar, como comentamos adiante.

A “realidade” de Sayigh é uma, mas em vasta medida, visão externa – da diáspora no exílio & da maioria dos especialistas de think-tanks – e pode ser resumida como “nada de Genebra + nada de papel para a oposição no exílio = nada de solução”. Mas há outra “realidade” (à qual Sayigh não se refere, e que ele rotula pejorativamente como pacificação coerciva.

Essa outra história é história interna síria – e, essa, nada tem de melancólica.

O que hoje gera amplo interesse dentro da Síria é uma dinâmica de reconciliação –inclusive entre alguns elementos armados. Muitos sírios (incluídos muitos que não aderem à oposição externa, e, também, muitos dos que aderem a ela) deixaram de crer no “processo” de Genebra, depois de ouvir os discursos em Genebra-2. Não poucos sírios concluíram, do que ouviram lá e daqueles procedimentos, que o Ocidente não tem qualquer interesse numa solução política para o país; que o Ocidente só faz insistir que Assad “tem de sair”, e que todos os poderes executivos foram delegados à oposição de exilados da Coalizão Nacional Síria, inventada e cevada no Ocidente, e que tem ralo, ou nenhum, apoio dentro da Síria, em nenhum dos campos.

Essa outra realidade recebe pouca atenção da imprensa-empresa ocidental e, particularmente, dos think-tanks ocidentais, precisamente porque não considera nem o “processo” de Genebra, nem a Coalizão Nacional Síria. É realidade absolutamente contrária ao consenso que o Ocidente fixou, de alívio orquestrado internacionalmente para o conflito. Mas se Sayigh acerta ao dizer que alguns diplomatas ocidentais já viram que o “processo” de Genebra está morto, faltou dizer que devem também começar a ver que militarmente, politicamente e socialmente, a Síria caminha cada vez mais na direção de coisa diferente – uma nova dinâmica interna que, talvez, venha a exigir atenção mais séria no futuro.

O processo de reconciliação não foi lançado como uma política; aconteceu espontaneamente, e foi essencialmente um processo de baixo para cima que emergiu à medida que os sírios comuns descobriram uma via para “ação-agenciamento humano” – essencialmente em contexto local. Em resumo, surgiu quando as pessoas passaram por uma mudança de consciência: passaram a ver-se de outro modo, começaram a agir em defesa própria, em nome de si mesmos. Em vários sentidos, os comitês de reconciliação que agora existem e surgem em número sempre crescente de vilas e cidades, assemelham-se aos comitês populares que brotaram durante as Intifadas palestinas (e depois foram reprimidos pelos movimentos políticos palestinos).

Combatente do ESL passa por oficial do Exército sírio (17/2/2014)
Outro componente – talvez o mais evidente – foi o aspecto militar desse processo de reconciliação: cessar-fogos foram diretamente negociados entre grupos da oposição armada e o Exército Sírio; ou populações locais expulsaram os grupos insurgentes de suas vilas, bairros ou cidades; ou, simplesmente, os próprios moradores organizaram milícias para defender as próprias vilas – e pediram armas ao governo sírio.

O governo sírio respondeu a essas iniciativas e permitiu que ex-insurgentes conservassem suas armas (leves) – e preservassem o próprio status e a autoestima como combatentes. Ex-dissidentes, de fato, estão sendo absorvidos nos grupos locais, ajudando a defendê-los e participando do processo local de tomada de decisões. Nada disso aconteceu sem aguda controvérsia. Muita gente que sofreu ou teve parentes mortos, ainda guarda muito ressentimento e insiste em que os criminosos têm de ser processados, não recuperados. Mas a posição do governo é que a reconciliação tem de prosseguir – apesar da muita dor que cause a alguns.

O outro aspecto do que está ocorrendo é, precisamente, a redescoberta da ação-agenciamento humano. E é esse aspecto que tem imenso potencial político. Já se formaram comitês populares em muitas cidades e vilas. O Ministério da Reconciliação [1] supre esses comitês locais com fundos, mas eles também recebem doações de voluntários e colaboradores privados.

Embora mantidos com ajuda do Ministério da Reconciliação, esses comitês, que incluem funcionários locais, profissionais da educação, elementos das forças de segurança, sindicalistas, mulheres, ativistas e voluntários, tomam suas próprias decisões. Tentam encontrar professores voluntários para substituir professores ausentes nas escolas; organizam mutirões para reconstruir moradias; organizam abrigo e alimentação para famílias desabrigadas; dão apoio a mulheres atacadas ou violentadas; e reúnem comerciantes e empresários locais para repor em funcionamento pequenas fábricas em diferentes áreas. Como disse um analista, as pessoas já não esperam que as decisões venham de Damasco: fazem as coisas ali mesmo. E aí está o importante: sírios comuns estão redescobrindo as possibilidades da ação-agenciamento humano, mas de modo muito diferente – e em oposição – ao que fizeram os grupos armados radicais.

Combatentes do ESL caminham por bairro pacificado em Aleppo (17/2/2014)
O que temos aqui? Em certo sentido é mudança quase impalpável; é difícil de definir empiricamente, precisamente porque é iniciativa local; é condicionada por situações locais, e é iniciativa atomizada. Mas é o que se vê, muito frequentemente, em sociedades que conheceram conflitos e crises (a África do Sul, por exemplo): a própria sociedade reemerge psicologicamente transformada. A experiência do trauma existencial – individual ou coletivo – pode levar à ruptura psíquica, ou, alternativamente, a um fortalecimento, mesmo, até, a um endurecimento, e a uma atitude psíquica reenergizada.  

No caso da Síria, quem visite Damasco pode sentir que, apesar de os combates continuarem, provocados pelos insurgentes, com morteiros lançados sem alvo, diariamente, nos arrabaldes da cidade, as pessoas comuns mostram-se mais determinadas, mais resolutas e mais autossuficientes.

Como isso se manifestará politicamente, no plano nacional? Ainda é muito cedo para dizer, mas a experiência do Irã, no início de 2009, mostra que, ao sair de uma crise nacional, é possível unir-se nacionalmente para construir uma nova direção política (no Irã, nas eleições presidenciais do ano passado, houve mudança clara de direção, mas mudança que, como os eleitores desejavam que acontecesse, acomodou-se dentro do sistema vigente).

Por que acontece assim? Os sírios dizem que o que disparou a mudança que se vê hoje, com mudança de consciência, foi a súbita percepção (generalizada na população), de que o que acontecia na Síria nada tinha a ver com reformas, democracia ou participação popular no governo; que se tratava, exclusivamente, de derrubar uma sociedade síria que existia e prosperava, para substituí-la por outra, algo distante do modo de viver dos sírios, da história social, política e cultural dos sírios.

Por hora, o foco não está em detalhes políticos (por exemplo, emendar o Artigo 8º da Constituição) – isso virá à sua hora. As pessoas sentem-se envolvidas num conflito de vida ou morte, uma guerra. E, em guerra, todas as energias concentram-se em sobreviver, viver e vencer o combate de hoje. Política é coisa para depois.

Mesa de negociações de Genebra II
O senso de luta existencial foi reforçado recentemente, por várias coisas: pelo linguajar e ações emanados dos estados do Golfo; pelo linguajar de Genebra II; pelos padecimentos dos palestinos; e, com absoluta certeza, pelos recentes eventos na Ucrânia.

Um veterano especialista em Síria disse-nos que, há duas semanas, praticamente não se ouvem discussões na Síria sobre o próprio conflito sírio: que só se fala da Ucrânia. É evidente: a Síria e o Irã (tanto no plano das discussões entre os cidadãos, quanto no plano do governo) compreenderam imediatamente e plenamente a importância dos eventos que se desenrolam na Ucrânia. Os sírios comuns conseguem muito facilmente identificar o próprio sofrimento e o sofrimento dos ucranianos e “admiram Putin por levantar-se contra as maquinações ocidentais que se veem por lá” – como disse bem claramente um sírio.

Por hora, toda a política, na Síria, condensa-se numa única demanda: a volta da vida em segurança, e a normalização da vida diária. Por isso se vê ali – como também se vê no Irã – um reposicionamento em torno do sistema existente, enquanto, simultaneamente, se articula o desejo de viver sob uma nova política. As lideranças, na Síria e no Irã parecem também compreender com clareza esse movimento, razão pela qual se veem tantos esforços para fazer avançar os processos de diálogo nacional interno e de reconciliação.
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Nota dos tradutores 
[1] Não se encontra notícia alguma sobre esse Ministério da Reconciliação na Síria, na imprensa-empresa ocidental. Mas há notícia na mídia chinesa, por exemplo, 13/2/2013, Xinhuanet: Syrian minister confirms readiness for talks with opposition (notícia do ano passado, portanto).
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[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Ucrânia: Campanhas “antiterrorismo” imediatamente depois que os EUA “visitam” o país

23/4/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

John Brennan
Dia 12 de abril, Brennan, diretor da CIA, esteve em conversações com o governo golpista em Kiev, Ucrânia.

Dia 13 de abril, o governo golpista em Kiev lançou campanha antiterrorismocontra forças da oposição no leste da Ucrânia.

AS OPERAÇÕES NÃO DERAM CERTO.

Joe Biden
Dia 22 de abril, o vice-presidente Biden esteve em conversações com o governo golpista em Kiev, Ucrânia.

Dia 23 de abril, o governo golpista em Kiev relançou campanha antiterrorismo contra forças de oposição no leste da Ucrânia.




[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como  “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blogMoon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Receita secreta de Obama: “Kiev à moda Brennan”

15/4/2014, [*] Wayne Madsen, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A pergunta a fazer é: por que Brennan teve de ir pessoalmente a Kiev? (...)

Primeiro, porque a Junta já mal consegue manter a fachada de que governa(ria) uma população de 45 milhões, muitos dos quais já se armaram e fazem implacável oposição aos “eleitos” só por Washington. Dada a alta posição de Brennan como eminência parda em Washington, a ida a Kiev visou a levantar o moral (?) do abalado “governo” de Kiev.

Segundo – e muito mais sinistramente – Brennan foi dizer & mostrar, do modo mais claro, aos seus anfitriões em Kiev, que podem contar com a ajuda de toda a monstruosa expertise do estado terrorista de Washington. 
 
16/4/2014, Finian Cunningham, The 4th Media News, Pequim em: CIA Terror Chief Pulls Rank in Kiev: The US’s $5 Billion Covert Investment in Regime Change At Stake

John Brennan, atual diretor da CIA, - Central Intelligence Agency
John O. Brennan, diretor da CIA-EUA está cozinhando uma tempestade que se abaterá sobre a Ucrânia. “Kiev à moda Brennan” é só o antepasto. Recentemente, Brennan fez visita secreta à capital da Ucrânia, quando se reuniu com os líderes do golpe para transmitir ordens de Obama sobre o ataque à oposição que cresce no leste da Ucrânia. Várias agências europeias de notícias informaram que Brennan pousou em Kiev dia 12 de abril, com passaporte diplomático e identidade falsa.

Ao que já se sabe, Brennan levou aos membros do “Conselho de Segurança e Defesa Nacional”, autoridade suprema criada pelos golpistas que derrubaram o presidente Viktor Yanukovich em fevereiro, ordens para esmagar com força extrema a rebelião de ucranianos pró-Rússia que cresce no leste do país. Na sequência, Brennan e outros funcionários do governo dos EUA também passaram a rotular como “terroristas” os manifestantes no leste da Ucrânia – item que nunca pode faltar na guerra de propaganda que os EUA e a inteligência ocidental movem contra o leste da Ucrânia e o governo da Rússia.

A informação sobre a visita secreta de Brennan a Kiev vazou, de início, de dentro do próprio governo da Ucrânia, que permanece cheio de funcionários leais a Yanukovich, e de membros do Partido Comunista da Ucrânia que não abandonaram o Parlamento ucraniano. 

Brennan coordenou as atividades anti-Rússia da CIA com os serviços de inteligência de aliados dos EUA na OTAN na Europa Oriental, especialmente com os Países Bálticos, Polônia, República Tcheca e Eslováquia. Brennan é filho de imigrantes irlandeses, casado com Kathy Pokluda, filha de imigrantes tchecos. A família Pokluda tem um ramo que ainda vive no oeste da Ucrânia. Os laços de Brennan com a República Tcheca, que teve vários governantes virulentamente anti-Rússia, pode explicar talvez, em parte, a fúria com que Brennan trabalha para fazer escalar as tensões com Moscou no leste da Ucrânia.

George Soros
Governantes e funcionários dos EUA e da Grã-Bretanha têm chamado de “combatentes da liberdade” e de “forças pró-democracia” os líderes do golpe violento que derrubou Yanukovich em fevereiro – mesmo depois que milicianos nacionalistas neofascistas armados atiraram contra a multidão reunida na Praça Maidan, usando atiradores treinados, camuflados em prédios em torno da área onde se realizavam as manifestações populares. Esses “combatentes da liberdade” mataram com tiros na testa inúmeros civis e policiais. A CIA, servindo-se sempre de ONGs da “sociedade civil” organizada por George Soros e de empresas de imprensa, cuidou de implantar notícias segundo as quais os tiros teriam partido de partidários de Yanukovich e, até, de forças especiais russas.

Agora, o que a CIA acusou Yanukovich e a Rússia de ter feito na Ucrânia é precisamente o que a mesma CIA está fazendo já há algumas semanas: usando forças especiais, entre as quais empregados da empresa Academi (a infame ex-Blackwater), que trabalha para a CIA, sob contrato, para atirar contra manifestantes pró-Rússia no leste da Ucrânia.

Brennan, cujos sentimentos pró-sauditas são tão conhecidos que seu apelido entre funcionários da CIA é “Xeique Brennan”, ajudou a preparar resposta violenta pelas forças ucranianas na cidade de Sloviansk e em outros centros populosos no leste da Ucrânia, entre os quais Donetsk, Carcóvia e Lugansk. 

Sergey Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Rússia
O Ministro Sergey Lavrov disse ontem, em conferência com jornalistas, que a Rússia ainda não recebeu resposta oficial a consulta sobre a presença de Brennan, portando identidade falsa, na Ucrânia.

A CIA tem longa história de assumir o comando virtual de forças de segurança estrangeiras, como o Serviço de Segurança Ucraniano [orig. Sluzhba Bezpeky Ukrayiny (SBU)]. Durante o governo do Xá, no Irã, a CIA dava ordens ao Serviço Secreto do Xã, SAVAK; depois que deixou a direção da CIA, o mesmo Richard Helms foi nomeado embaixador dos EUA em Teerã. Como agora Brennan, que está em atividade na Ucrânia, Helms comandava a SAVAK treinada pela CIA no Irã. A reação dos iranianos ao serviço que Helms fez em Teerã foi a Revolução Islâmica de 1979, que, em parte, foi reação ao fato de que a CIA continuava a treinar agentes do SAVAK, em técnicas de tortura e execuções de líderes da oposição iraniana.

A CIA também comandou, de facto, os serviços de inteligência do ditador Mobutu Sese Seko, do Zaire; do caudilho da República Dominicana, Rafael Trujillo; do ditador Manuel Noriega do Panamá; de Anastasio Somoza, homem-forte da Nicarágua. 

Mas – o que deveria gerar alguma preocupação entre os atuais governantes em Kiev – é preciso lembrar que, no instante em que qualquer desses ditadores deixou de ser útil à CIA, a própria CIA rapidamente os descartou. Mobutu morreu no exílio no Marrocos, depois de derrubado por forças ajudadas pela CIA. Trujillo foi assassinado dentro do próprio Chevrolet Bel-Air, por gente da CIA. Noriega foi preso, no instante em que tentava asilar-se na embaixada do Vaticano na capital do Panamá, depois de uma invasão norte-americana; cumpriu sentença em prisão na Flórida e na França e hoje apodrece numa prisão de selva no Panamá; e Somoza teve de fugir da Nicarágua, depois que os EUA suspenderam o apoio que lhe davam; seu carro, depois, foi atingido por um foguete antitanque, quando vivia exilado no Paraguai.

Arseny Yatsenyuk
O presidente impostor da Ucrânia, Oleksandr Turchynov; o primeiro-ministro impostor Arseny Yatsenyuk; o ministro do Interior impostor Arsen Avakov, e outros cabeças do golpe na Ucrânia com certeza ainda não consideraram o que a CIA faz aos “amigos” estrangeiros, depois que se tornam inúteis e descartáveis.

Vladimir Golub, deputado do Partido Comunista da Ucrânia disse à rede RIA Novosti que a agência SBU tornou-se “uma unidade da CIA”.

Funcionários da CIA rejeitaram as notícias de que Brennan estivera em Kiev como “completa mentira”. Mas Brennan é conhecido mentiroso, que várias vezes mentiu sobre outras operações clandestinas da CIA; e a CIA distribuiu a resposta padrão: “não confirma nem desmente” a presença de Brennan na Ucrânia. [A Casa Branca já confirmou: Brennan esteve, sim, na Ucrânia].

Brennan disse de tudo, exceto a verdade, sobre o seu papel, com sauditas e qataris, numa operação fracassada da CIA em Benghazi, Líbia, que resultou na morte do embaixador dos EUA, Christopher Stevens, e de três outros norte-americanos, mortos por islamistas rebeldes durante operação de transferência de armas, dos arsenais saqueados de Muammar Gaddafi, para jihadistas salafistas na Síria. Brennan era o vice-conselheiro de Obama para segurança nacional, na época do desastre de Benghazi. Depois que o então diretor da CIA, David Petraeus, renunciou (confessou que mantinha um caso extraconjugal com sua biógrafa), Brennan, funcionário aposentado da unidade de Serviços Clandestinos Nacionais da CIA, com extensas conexões com a Arábia Saudita, foi nomeado para substituir Petraeus.

Brennan ajudou a construir toda a política do governo de George W. Bush de “entrega secreta” de prisioneiros para serem torturados em diferentes prisões pelo mundo, usadas contra suspeitos de pertencerem à Al Qaeda. Depois que se aposentou, em 2005, Brennan constituiu sua própria empresa, The Analysis Corporation (TAC), fornecedora privada de serviços para a CIA.

Hillary Clinton
No início da campanha presidencial de 2008, empregados da empresa TAC, de Brennan, fizeram sumir dos arquivos do Setor de Passaportes do Departamento de Estado algumas informações sobre Obama e familiares, que o candidato não queria que fossem divulgadas. O miniescândalo também envolveu registros de passaportes dos dois adversários de Obama, Hillary Rodham Clinton e John McCain, também apagados dos arquivos. Brennan foi recompensado pelo empenho a favor da campanha de Obama, recebendo o segundo cargo mais alto no Conselho de Segurança Nacional e, depois, com a queda de Petraeus, foi nomeado diretor da CIA.

Brennan toma poucas decisões sem a aprovação de Obama. Qualquer decisão para mandar agentes da CIA, inclusive mercenários privados, para o leste da Ucrânia tem, com certeza, aprovação oficial de Obama. Essa aprovação oficial é dada por um documento conhecido como “Presidential Finding”, ou, noutros casos, com “uma piscadela e um aceno de cabeça” do presidente, para Brennan.

Brennan, que tem sido chamado de “knuckle-dragging thug” [pouco inteligente, violento, primitivo (ofensivo)] por funcionários da CIA aposentados e da ativa que o conhecem, certamente não seria das figuras mais bem-vindas na Ucrânia, se os golpistas de Kiev realmente estivessem considerando a possibilidade de algum acerto pacífico com os ucranianos do leste.


[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da ativa projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha dos EUA. Tem sido comentarista frequente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al Jazeera,Strategic Culture e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e do National Press Club. Reside em Washington, DC.