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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Obama sobre táticas heterodoxas da CIA pós 11/9: “Torturamos uns caras...”

1/8/2014, Russia Today - RT, Moscou – com vídeo, em inglês
Texto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama, na Casa Branca, em 1/'8/2014
O presidente Barack Obama fez um rara admissão de culpa durante conferência de imprensa sobre o uso, pelos EUA de táticas de interrogatório com estimulação, logo depois dos ataques terroristas do 11/9.

Imediatamente depois do 11/9, fizemos algumas coisas erradas. Fizemos muitas coisas certas, mas torturamos uns caras... Fizemos coisas que contrariam nossos valores” – disse o presidente Obama na parte final de conferência de quase uma hora com jornalistas na Casa Branca em Washington, DC.

O comandante-em-chefe fez a admissão ao responder a uma pergunta sobre John Brennan, Diretor da CIA-EUA, entre várias perguntas de jornalistas sobre as situações em Gaza, na Ucrânia e no Oeste da África.

No início dessa semana, Brennan admitira que empregados da CIA teriam, como foi divulgado, espionado o computador de uso dos funcionários da Comissão de Inteligência do Senado, quando trabalhavam num relatório sobre o uso, pela CIA, de táticas controversas de interrogatório. O relatório, de 6 mil páginas, ainda não foi divulgado, mas a senadora Dianne Feinstein (D-California), que preside a investigação sobre as práticas da inteligência, considerou-o “apavorante”; disse que, quando for divulgado, mostrará que a tortura é prática “muito mais sistemática e difundida do que pensávamos”.

Depois de admitir que os EUA “torturaram uns caras”, na conferência de imprensa dessa 6ª-feira (1/8/2014), Obama acrescentou: “É o que aquele relatório reflete”.

No início da semana, o senador Ron Wyden (D-Oregon) disse ao The Daily Beast que “o povo americano ficará gravemente perturbado com o que esse relatório mostrará”.

Por sua vez, o presidente Obama disse, no briefing desta 6ª-feira (1/8/2014), que “O caráter de nossa nação deve ser medido em parte não pelas coisas que fazemos quando as coisas estão fáceis, mas pelo que fazemos quando as coisas estão difíceis”. Vídeo a seguir:


A palavra “tortura” para descrever as táticas de interrogatório empregadas pela CIA é raramente usada por altos funcionários do governo, mas o presidente Obama já condenara antes abusos passados da CIA. Em discurso ano passado na Universidade da Defesa, Obama disse que, em alguns casos, “creio que conspurcamos nossos valores básicos, ao usar tortura para interrogar inimigos e ao deter indivíduos de modo contrário ao que a lei ordena”.  

Por isso, depois que assumi a presidência, ampliamos a guerra contra a Al-Qaeda, mas também buscamos mudar o curso daquela guerra. Atacamos sem trégua a liderança da Al-Qaeda. Pusemos fim à guerra do Iraque e trouxemos de volta para casa 150 mil soldados. Procuramos estratégia diferente no Afeganistão e ampliamos o treinamento do exército afegão. Banimos inequivocamente a tortura, reafirmamos nossos compromissos em tribunais civis, trabalhamos para alinhar nossas políticas e o estado de direito e expandimos as consultas ao Congresso”, disse Obama naquela fala de maio passado.

O presidente falou do relatório, depois de perguntado sobre sua opinião sobre Brennan, que, antes, dissera que a senadora Feinstein errara ao dizer que a CIA espionara os funcionários da Comissão de Inteligência do Senado.

Estou profundamente desapontado, porque membros do Senado decidiram fazer acusações espúrias sobre ações da CIA, acusações que absolutamente não encontram confirmação nos fatos” – dissera Brennan, comentando a fala da senadora.

John Brennan, Diretor da CIA
Na 5ª-feira (31/7/2014), McClatchy noticiou que investigação feita pelo Gabinete do Inspetor Geral da CIA concluíra que seus funcionários “agiram de modo inconsistente com o entendimento vigente” entre a Agência e o senador Saxby Chambliss (R-Georgia), vice-presidente da Comissão, e “pediu-lhes desculpas pelas ações dos funcionários da CIA descritas no relatório OIG” – como um porta-voz da CIA informou a [revista] McClatchy.


Tenho confiança integral em John Brennan” – disse Obama na 6ª-feira, aos jornalistas.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Acusação−insinuação — Como opera a propaganda dos EUA

22/7/2013, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama: "Você mente"
Por que os EUA não se uniram ao presidente Putin da Rússia, que exigiu investigação internacional objetiva, não politizada, feita por especialistas, do caso do avião da Malaysia Airlines?

O governo russo continua a distribuir fatos, inclusive fotos de satélite que mostram que havia Buks antiaéreos ucranianos em pontos dos quais o avião de passageiros pode ter sido abatido por aquele tipo de veículo armado, e documentos de que um jato de combate ucraniano SU-25 aproximou-se rapidamente do avião malaio antes de o avião ser abatido.

O chefe do Diretorado de Operações dos militares russos disse em conferência de imprensa em Moscou ontem [21/7/2014], que a presença do jato militar ucraniano foi confirmada pelo centro de monitoramento de Rostov.

O Ministério de Defesa da Rússia observou que, no momento em que o MH-17 foi abatido, um satélite dos EUA sobrevoava a área. O governo russo exige que os EUA disponibilizem as fotos e dados capturados por aquele satélite.

O presidente Putin já repetiu várias vezes que a investigação do voo MH-17 requer “um grupo representativo de especialistas trabalhando juntos sob orientação da ICAO (International Civil Aviation Organization)”. Putin, ao exigir investigação independente pelos especialistas da ICAO não age como quem tenha algo a esconder.

Vladimir Putin
Falando diretamente a Washington, Putin disse:

Até que se conheçam os resultados dessa investigação, ninguém [nem a “nação excepcional”] tem o direito de usar essa tragédia para fazer avançar seus objetivos políticos egoístas estreitos.

Putin relembrou aos EUA:

Nós várias vezes pedimos que os dois lados suspendessem imediatamente o banho de sangue e sentassem à mesa de negociações. O que se pode dizer com certeza é que, se as operações militares não tivessem sido reiniciadas [por Kiev] no dia 28/6/2014 no leste da Ucrânia, essa tragédia não teria acontecido.

E o que respondem os EUA? 

Só mentiras e insinuações.

Anteontem [20/7/2014], o Secretário de Estado dos EUA, confirmou que federalistas pró-Rússia estavam envolvidos na derrubada do avião malaio, e disse que seria “bem claro” que a Rússia esta[ria] envolvida. Eis as palavras de Kerry:

É bem claro que há um sistema que foi transferido da Rússia para as mãos de separatistas. Sabemos com certeza, com certeza, que os ucranianos não têm tal sistema em ponto algum nos arredores daquele local naquela hora, portanto é óbvio que há um dedo muito claro dos separatistas.

A declaração de Kerry é mais uma da infindáveis mentiras que secretários de Estado dos EUA mentiram ao longo do século XXI.

John Kerry: "O maior MENTIROSO de todos"
Quem poderia esquecer o pacote de mentiras que Colin Powell mentiu descaradamente na ONU sobre as “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein? Ou a mentira que Kerry repetiu incontáveis vezes, de que Assad “usou armas químicas contra seu próprio povo”? Ou as infindáveis mentiras sobre “bombas atômicas do Irã”?

Recordem que Kerry, várias vezes, disse que os EUA teriam provas de que Assad “cruzara” a “linha vermelha” e usara armas químicas. Mas Kerry jamais conseguiu comprovar o que dizia, nunca apresentou uma única prova, que fosse. Os EUA não tinham prova alguma a entregar ao primeiro-ministro britânico, nem mesmo para ajudá-lo a conseguir que o Parlamento aprovasse a participação britânica ao lado dos EUA, num ataque militar contra a Síria! O Parlamento então disse ao primeiro-ministro inglês: “sem provas, nada de guerra”.

Agora, aí está Kerry outra vez a declarar que tem “certeza”, em “declarações” que já foram desmentidas por fotos do satélite russo e incontáveis provas de testemunhas no solo.

Por que Washington não distribui as fotos do satélite norte-americano?

A resposta é: pela mesma razão pela qual Washington não distribuirá os vídeos que confiscou e que, dizem os EUA, “comprovam” que um avião de passageiros sequestrado atingiu o Pentágono dia 11/9/2001. Nenhum vídeo comprova o que os EUA mentem sobre o 11/9/2001; assim como nenhuma foto de satélite comprova as mentiras de Kerry sobre o avião malaio.

Inspetores de armas da ONU em campo, no Iraque, relataram que o Iraque não tinha armas de destruição em massa. Mas esse fato comprovado, porque desmascararia a propaganda dos EUA, foi simplesmente ignorado. Os EUA iniciaram guerra terrivelmente destrutiva, baseados numa mentira intencional mantida em Washington.

Inspetores da Comissão Internacional de Energia Atômica em campo, no Irã, e todas as 16 agências de inteligência dos EUA relataram que o Irã não tinha (como não tem) programa de armas nucleares. Mas esse fato comprovado era inconsistente com a agenda de guerra de Washington e foi ignorado: pelo governo dos EUA e pela imprensa-empresa press-tituta.

Agora estamos testemunhando a mesma coisa, ante a ausência de qualquer evidência que comprovasse que a Rússia teria algo a ver com a derrubada do avião malaio.

Nem todos, no governo dos EUA, são tão irresponsáveis e imorais quanto Kerry e John McCain. Esses mentem. A maioria dos agentes do governo dos EUA vivem de insinuações.

Dianne Feinstein
por Honkey Donkey
A senadora Dianne Feinstein é exemplo perfeito. Entrevistada pelo canal CNN da imprensa-empresa press-tituta, Feinstein disse:

A questão é: onde está Putin? Eu diria: “Putin, seja homem. Você tem de falar ao mundo. Tem de dizer. Se foi um erro, como espero que tenha sido, diga!”.

Putin não faz outra coisa que não seja falar ao mundo, sem parar, exigindo que se faça investigação por especialistas, não politizada. E Feinstein a perguntar por que Putin se esconde em silêncio! Feinstein lá estava para insinuar que “sabemos que você é culpado. Só não sabemos se foi crime deliberado ou acidental”.

O modo como todo o ciclo ocidental de noticiário foi orquestrado para instantaneamente culpar a Rússia, desde muito antes de que surja qualquer informação real confiável, sugere que a derrubada do avião malaio foi operação dos EUA.

É possível, é claro, que a bem adestrada imprensa-empresa press-tituta não precise de orquestração alguma vinda de Washington, para imediatamente culpar a Rússia. Por outro lado, alguns dos desempenhos “televisivos” parecem tão bem ensaiados, que simplesmente têm de ter sido preparados com antecedência.

Também foi preparado com antecedência o vídeo de YouTube montado para “mostrar” um general russo e federalistas ucranianos discutindo que teriam acabado de, por engano, derrubar um avião de passageiros.

Como já comentei, esse vídeo tem dois vícios insanáveis: já estava gravado desde antes do acidente; e, ao apresentar o que seria a fala de um militar russo, esqueceu que qualquer militar saberia ver as diferenças entre um avião de passageiros e um avião militar de combate. A própria existência daquele vídeo já implica que houve um complô para derrubar o avião e culpar a Rússia.

Já vi relatórios que dizem que o sistema russo de mísseis antiaéreos, como um de seus dispositivos de segurança, faz contato com os transponders das aeronaves, para verificar o tipo de aeronave que aparece em seu alvo. Se esses relatórios estão corretos e se os transponders do MH-17 forem encontrados, é possível que lá esteja gravado o contato.

Já vi notícias que dizem que o controle aéreo ucraniano mudou a rota do MH-17 e o mandou sobrevoar diretamente a área de conflito. Os transponders também indicarão se isso é verdade. Se for, há claramente uma prova, pelo menos circunstancial, de que foi ato intencional de Kiev – e ato que teria de ter sido aprovado pelos EUA.

Há notícias ainda de que haveria uma divergência entre os militares ucranianos e milícias não oficializadas formadas por extremistas ucranianos de direita, que aparentemente foram os primeiros a atacar os federalistas. É possível que Washington tenha usado aqueles extremistas para derrubar o avião malaio, para inculpar os russos e usar as acusações para pressionar a União Europeia a acompanhar as sanções unilaterais dos EUA contra a Rússia.

Todos a favor de chutar a Russia do clube...
por Kevin Sears
Sabe-se que os EUA estão desesperados para conseguir quebrar os crescentes laços econômicos e políticos entre Rússia e Europa.

Se havia um complô para derrubar um avião de passageiros, todos os dispositivos de segurança do sistema de mísseis teriam sido desligados, para que não abortassem o ataque e para que não houvesse registro de ataque, não acidental, mas deliberado. Essa pode ser a razão pela qual os ucranianos mandaram um jato para “inspecionar” de perto o avião malaio. É possível que o alvo fosse o avião presidencial de Putin, e a incompetência dos criminosos os tenha levado a destruir um avião de passageiros.

Há inúmeras explicações possíveis. É importante, agora, manter a mente aberta e resistir contra a propaganda dos EUA, até que apareçam os fatos e as provas. No mínimo, os EUA são culpados por usar o incidente para inculpar os russos “antecipadamente”, antes de qualquer prova.

Até agora, Washington só distribuiu acusações gratuitas e insinuações. E se Washington continuar a só distribuir acusações e insinuações sem provas... logo se saberá com certeza de quem é a culpa.

Enquanto isso, lembrem do menino que gritou “lobo!”, sem haver lobo algum, muitas vezes. Tantas vezes mentiu que, quando o lobo afinal realmente apareceu, ninguém acreditou nos gritos do menino. Será esse o destino final de Washington?

Nas guerras que declarou ao Iraque, ao Afeganistão, à Líbia, à Somália e à Síria, os EUA sempre se esconderam atrás de mentiras. Por quê? Se Washington quer guerra contra o Irã, a Rússia e a China, por que não declara guerra?

Constituição dos EUA, vilipendiada pelos  neocons  
A razão é que a Constituição dos EUA exige que, para que haja guerra, o Congresso emita uma Declaração de Guerra. Com esse dispositivo, se esperava que o Congresso conseguisse impedir que o Executivo fizesse as guerras que quisesse, para promover as agendas ocultas que bem entendesse. Agora, quando já abdicou dessa responsabilidade constitucional, o Congresso dos EUA já é cúmplice nos crimes de guerra do Executivo.

E ao aprovar o assassinato premeditado de palestinos por Israel, o governo dos EUA já é cúmplice também nos crimes de guerra de Israel.

Agora, se pergunte você mesmo, e responda: o mundo não seria mais seguro, lugar de menos morte, menos destruição e menos refugiados sem teto, e não seria lugar de mais verdade e mais justiça, se os EUA e Israel não existissem?



[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano e colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que destruíram a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton,  Oxford University.

domingo, 28 de abril de 2013

Robert Fisk - Síria: repete-se o teatro do “gás sarin”


Conversa dos EUA é repetição de repetição de repetição...

28/4/2012, Robert Fisk, The Independent
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário/pergunta enviado por e-mail para a redecastorphoto:
“Será que o povo dos EUA é tão IDIOTA que não percebe a FARSA recidiva dos seus POLÍTICOS e da IMPRENSA-EMPRESA “morteamericana”?

Robert Fisk
Será que não há meio para escaparmos do teatro das armas químicas? Primeiro, a “inteligência militar” de Israel diz que o exército da Síria teria usado/provavelmente usou/poderia talvez usar armas químicas. Depois, Chuck Hagel, secretário de Defesa dos EUA, surge em Israel, para prometer mais armas para Israel já super mega over militarizada – nem menciona as mais de 200 bombas atômicas do arsenal de Israel – e repete a conversa da “inteligência” de Israel sobre o uso/provável uso/possível uso/talvez uso de armas químicas pelo governo sírio.

Aí então o bom velho Chuck volta a Washington e conta ao mundo que:

(...) esse negócio é sério. Temos de reunir todos os fatos.

Dianne Feinstein
A Casa Branca conta ao Congresso que agências da inteligência dos EUA, presumivelmente as mesmas antes referidas como “inteligência” de Israel, porque o pessoal ali trabalha sempre em perfeita harmonia, têm “graus variáveis de confiança” na avaliação. Mas a senadora Dianne Feinstein, presidente da Comissão de Inteligência do Senado – a mesma que deu jeito de defender todas as ações de Israel em 1996, depois de Israel ter massacrado 105 civis, a maioria crianças, em Qana no Líbano – já diz, da Síria, que:

(...) as linhas vermelhas foram evidente e claramente transgredidas e é preciso agir para evitar uso em larga escala.

E lá vem o mais velho e gasto clichê da Casa Branca – ultimamente usado exclusivamente contra o Irã e o provável/possível desenvolvimento de armas atômicas:

Todas as opções estão sobre a mesa.

Qualquer sociedade normal já estaria em estado de atenção, sirenes tocando, sobretudo nas redações das empresas-imprensa. Mas, não.

Jornalistas dedicam-se a lembrar o mundo que Obama disse, sim, que o uso de armas químicas na Síria “mudaria o jogo” – pelo menos, os jornalistas norte-americanos admitem que a coisa é jogo. – E jornalistas e mais jornalistas “confirmam”, pela repetição, o que ninguém, até agora, confirmou.

Usaram armas químicas. Em dois estúdios da televisão canadense, os produtores me abordam brandindo a mesma manchete. Digo logo que, se me perguntarem, desmontarei, ao vivo, aquela “prova” lixo. Então, repentinamente, a matéria desaparece dos dois programas de entrevista. Não porque não venham a usar a “prova” lixo (usarão logo depois), mas porque não querem correr o risco de alguém dizer, pela televisão, que aquilo tudo pode bem ser um amontoado de sandices.

A CNN não se inibe. Perguntaram ao repórter da CNN em Amã o que se sabe sobre o uso de armas químicas. E ele:

Menos do que o mundo gostaria de saber. É a psique do regime de Assad...

Mas... e alguém tentou saber alguma coisa? Ou algum jornalista perguntou a pergunta óbvia que ouvi de um homem da inteligência síria, em Damasco, semana passada:

Dado que a Síria pode causar dano infinitamente maior se usar os seus jatos bombardeiros MiG, por que usaria armas químicas?

Além disso, dado que tanto o governo Assad quanto seus inimigos acusaram-se mutuamente de estar usando armas químicas... Por que Chuck teme mais as armas químicas do governo sírio? As armas químicas dos “rebeldes” estariam, talvez, liberadas?

Tudo se resume àquele clichê, o mais infantil dos clichês: que EUA e Israel teme(ria)m que as armas químicas de Assad “caiam em mãos erradas”. Em outras palavras, temem que todas essas “químicas” acabem no arsenal dos mesmíssimos “rebeldes”, sobretudo islamistas fundamentalistas, que Washington, Londres, Paris, Qatar e Arábia Saudita estão apoiando. Se essas mãos são “erradas”, então as armas do arsenal de Assad estariam em “mãos certas”.

Era exatamente o que se dizia, exatamente, das armas químicas que havia no arsenal de Saddam Hussein – até que foram usadas contra os curdos.

Dizem os jornalistas que em três incidentes específicos pode(ria)m ter sido usadas armas químicas na Síria: em Aleppo, onde os dois lados acusam-se (mas os vídeos de hospitais foram publicados pela televisão estatal síria); em Homs, aparentemente, em pequena escala; e nos arredores de Damasco. E, embora a Casa Branca pareça ter esquecido esse detalhe, três crianças sírias refugiadas chegaram ao hospital no norte de Trípoli, no Líbano, com profundas, terríveis queimaduras pelo corpo.


Há aí vários problemas. As bombas de fósforo provocam queimaduras profundas e é possível que gerem defeitos em fetos. Mas os EUA não estão dizendo que o exército sírio teria usado bombas de fósforo (que é bomba química). Afinal de contas, os EUA usaram bombas de fósforo na cidade iraquiana de Fallujah, onde há hoje um assustador aumento no número de nascituros com defeitos de formação.

Talvez o horror que o governo sírio provoca no ocidente deva-se às notícias sobre tortura pela polícia secreta síria. Mas aqui também há um problema: há apenas dez anos, os EUA também faziam “entrega especial” de homens inocentes, entre os quais um cidadão canadense, exatamente àquelas mesmas prisões sírias, para serem interrogados e torturados pelos mesmos torturadores da mesma polícia secreta síria.

E, já que se falou de armas químicas de Saddam, há mais uma: os componentes químicos dessas armas hoje amaldiçoadas eram (então) fabricados por uma empresa de New Jersey e entregues em Bagdá pelos EUA.

Mas nas redações, hoje, não se fala de nada disso, é claro. Quem entre em qualquer redação de qualquer rede de televisão, só vê jornalistas que leem jornais. E quem entre em qualquer redação de jornais... só vê jornalistas que assistem à televisão, dia e noite. O sistema é osmótico. Todas as manchetes são a mesma manchete: o governo sírio usa armas químicas. E assim seque o teatrinho.

 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

John Brennan, a CIA e uns tais “cidadãos norte-americanos”


9/2/2013, Amy Davidson*, The New YorkerClose Read blog 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


John Brennan mentindo no Senado dos EUA
“Um dos problemas é que, se o programa dos drones se generalizar, e um norte-americano for apanhado, ninguém jamais saberá o suficiente sobre esse tal “cidadão norte-americano’” – disse a senadora Dianne Feinstein, ao arguir John Brennan, indicado pelo presidente Obama para dirigir a CIA (John Cassidy has more on the hearing). 

Anwar al-Awlaki
A senadora referia-se a Anwar al-Awlaki, assassinado num ataque de drone no Iêmen em 2011, e que era “suposto cidadão norte-americano” porque nasceu nos EUA, no Novo México. “Ninguém sabe o que ele fazia” – Feinstein continuou. “Ninguém sabe do seu trabalho de aliciamento. Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre o Sr. Awlaki e o que fazia”.

Brennan tentou esquivar-se, porque a pergunta envolvia comentário sobre uma “operação”...

Feinstein aproveitou a deixa: É aí que está o problema! Quando as pessoas ouvem falar de “um norte-americano”, todos supõem que seja pessoa de bem. E esse homem absolutamente não era pessoa de bem.
Brennan: É.
Feinstein: Entendo que o senhor não possa comentar o caso, porque ouvi dizer que o homem seria problema sério.

Dianne Feinstein
Brennan concordou. Disse que al-Awlaki “estava intimamente envolvido em atividades que visavam a matar homens, mulheres e crianças inocentes, a maioria dos quais norte-americanos. Não era só agente de propaganda”. (Omitiu, no comentário, que o filho norte-americano de al-Awlaki, adolescente, também foi assassinado, num segundo ataque de drone.) Feinstein fez referência a vários outros incidentes; em alguns casos, Brennan concordou que al-Awlaki seria “um organizador”; em outros fez comentários oblíquos sobre “inspirar” e “incitar pessoas”.

Feinstein resumiu a troca de palavras numa linha, que talvez seja a mais perturbadora das três horas de sabatina, pior, até, que a “piadinha” que o senador Burr contou, minutos depois, sobre simulação de afogamento:

“Portanto, o senhor está dizendo que o Sr. Awlaki não era cidadão norte-americano dos quais os EUA possam orgulhar-se”.

Richard Burr
“Orgulhar-se de alguém”, “cidadão de bem”, “suposto cidadão dos EUA”... são esses os critérios pelos quais o Senado dos EUA avalia questões fundamentais dos direitos dos cidadãos e sobre o que seja o devido processo legal?

Antes da sabatina, surpreendi-me pensando sobre o que passaria pela cabeça dos norte-americanos quando ouvem dizer que o Presidente dos EUA deu-se a ele mesmo o direito de assassiná-los. Feinstein não poderia ter dado resposta mais angustiante, menos tranquilizadora.

Quando, por quais critérios, qualquer de nós vira “suposto cidadão” e alvo legal de assassinato premeditado? Exatamente porque, talvez, houvesse grande quantidade de provas contra al-Awlaki é que o caso deveria ter sido objeto de inquérito e processo. Haver provas não é motivo para evitar-se o inquérito e o processo e decidir pelo assassinato sumário. Que fim levou a ideia segundo a qual quando nos vemos tomados pela ira, quando estamos por baixo na cadeia da popularidade, é quando, precisamente, mais cuidados temos de tomar?

Angus King
O governo Obama, na medida em que se possa avaliar por um documento do Departamento de Estado que vazou, está construindo argumento viciado de muitas contradições: por um lado, diz que é atento e cuidadoso, que só assassina para salvar vidas. Mas, quando é contraditado, desce para o mais baixo plano das emoções e esquece completamente o que a lei lhe impõe. Angus King, o novo senador independente, do Maine – sujeito simpático, de bigodes brancos, que gosta de citar sentenças da juíza Sandra Day O’Connor – perguntou por que não se poderia criar algo semelhante a uma corte de Supervisão da Aplicação da Lei da Inteligência Externa [orig. something like a Foreign Intelligence Surveillance Act court] para examinar provas antes de o executivo ordenar um assassinato. (Em outras palavras: que tal criar mecanismos para impedir o presidente de agir baseado em acusações sem provas ou baseado em inteligência falhada?).

Brennan respondeu que estaria interessado em discutir a questão. Mas, em seguida, fez um comentário que mostrou claramente o que há de mais perturbador nas políticas do governo Obama que lhe permitem assassinar – e nem importa quem seja o assassinado:

Nenhuma dessas ações visam a determinar culpas passadas por ações passadas. As decisões [de assassinar com premeditação, usando os drones] são tomadas para impedir ações futuras – para proteger vidas norte-americanas. E essa é função inerente do Executivo.

Quer dizer então que o presidente mata por palpite? Que decide por palpites, que ordena o assassinato, talvez, porque alguém não lhe parece ser “pessoa de bem”?

Ron Wyden
E a coisa ficou ainda mais confusa, quando Ron Wyden, do Oregon, perguntou a Brennan se cidadãos norte-americanos cujos nomes apareçam em alguma “lista para matar” [orig. “kill list”] têm chance de render-se, antes de serem assassinados. Brennan respondeu que quem quer que se alinhe com a Al Qaeda “tem de saber perfeitamente bem que, de fato, é parte da força inimiga que luta contra nós”. Sugeriu que bastaria, para ser alvo de assassinato por drones, qualquer associação passada, por remota e não provada que tenha sido.

O documento vazado do Departamento de Justiça apoia essa interpretação, com o “conceito” de “gente que vive conspirando” e – como vários analistas observaram – introduz “definições” de “ação iminente”, de prevenção de “ações futuras”, definições tão elásticas a ponto de nada significarem, porque nada excluem. O documento do Departamento de Justiça sequer limita a resposta-retaliação só ao poder de destruição da própria Al Qaeda: inclui também, sem nada definir, umas tais “forças associadas”.

Se algo se aproveita daquela sabatina, é que já se vê claramente que não há nível satisfatório de transparência ou de supervisão. Brennan demonstrou-o, ele mesmo, na arguição sobre as consequências da tortura e o dano que têm causado aos EUA. Disse, de um relatório secreto da Comissão de Inteligência do Senado, que teria sido “perturbador” e que o teria levado a questionar-se sobre boa parte do que pensava que sabia. (Falou, literalmente, de “informação pouco acurada que foi passada adiante”).  

Jay Rockefeller
Se um homem na posição em que está Brennan diz tal coisa, da próxima vez a opinião pública terá de ter pleno acesso ao tal relatório secreto, antes de admitir novos assassinatos “legais”. Chama a atenção também que a Casa Branca tenha liberado o acesso aos senadores, que leram as decisões secretas do Departamento de Justiça, mas não tenha autorizado que fossem distribuídas para os gabinetes dos senadores.

Brennan está indignado por não ter informação confiável sobre tortura? Ao longo da sabatina, nada fez além de oferecer, como justificativa, suas paixões pessoais: “Vou dormir à noite, sem ter certeza de ter feito o bastante” – disse ele. (As paixões, em seguida, foram ilustradas com piadinhas sobre ele ser “de New Jersey”.) Os norte-americanos não compreendem, disse ele, “a agonia que padecemos”, cuidando para que não haja mortes colaterais nos ataques dos drones.

Carl Levin
É possível, sim, que padeçam terrível agonia, mas é agonia muito menos importante, ou relevante, ou considerável, ou preocupante, que o trabalho de ir criando precedentes que aí ficam, à disposição de futuros presidentes – mais vingativos, ou assassinos mais frios, ou que sejam colhidos em crises que os desestabilizem e assustem mais. Como disse o senador Jay Rockefeller, “os drones só aumentarão”.

Mas, sim, houve um ponto em relação ao qual Brennan deixou de lado qualquer sentimento pessoal. Perguntado por Carl Levin se a simulação de afogamento [orig. waterboarding] seria tortura, Brennan respondeu que, embora no plano pessoal considere a prática “repreensível”, não podia responder: “Não sou advogado”.





Amy Davidson* é editora sênior da revista The New Yorker. Ingressou na publicação em 1995, escreve o blog Close Read no site da revista, além das contribuições na edição impressa. Nasceu e cresceu em Nova York e se formou em Harvard. Antes de ingressar na The New Yorker viveu e trabalhou na Alemanha.