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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Do Camboja ao ISIS/ISIL: “Tudo que voe, contra tudo que se mova”

8/10/2014, [*] John PilgerBlog de John Pilger
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O MUNDO DE HENRY KISSINGER
(por David Levine)
Ao transmitir as ordens do presidente Richard Nixon, para um bombardeio “massivo” contra o Camboja em 1969, Henry Kissinger disse: “Tudo que voe, contra tudo que se mova”. Agora, quando Barack Obama acende o pavio de sua sétima guerra contra o mundo muçulmano desde que levou para casa o Prêmio Nobel da Paz, a histeria orquestrada e as mentiras quase nos fazem sentir saudades da assassina franqueza de Kissinger.

Como testemunha das consequências humanas da selvageria aérea – inclusive a decapitação e o esquartejamento das vítimas, pedaços de corpos pendurados pelas árvores e jogados pelos campos – não me surpreende o descaso com a memória e as lições da história, mais uma vez. Exemplo eloquente foi a ascensão ao poder de Pol Pot e seu Khmer Rouge, que têm muito em comum com o Estado Islâmico no Iraque e na Síria (Levante) [ing. ISIS/ISIL]. Eles também eram medievalistas brutais, e também iniciaram uma pequena seita. Eles também foram produto de um apocalipse made-in-USA, naquele caso, na Ásia.

Segundo o próprio Pol Pot, seu movimento consistira de “menos de 5.000 guerrilheiros mal armados, incertos quanto a suas estratégia, táticas, lealdades e líderes”. Quando os bombardeiros B52 de Nixon e Kissinger começaram a trabalhar, como parte da “Operação Cardápio” [orig. Operation Menu], o maior demônio do ocidente mal pôde acreditar em tanta sorte.

Os EUA lançaram em bombas o equivalente a cinco Hiroshimas sobre o Camboja rural, durante 1969-73. Destruíam, arrasavam vila após vila, e voltavam para bombardear novamente as ruínas e os cadáveres. As crateras deixavam à vista monstruosos colares de carne humana, que se viam do céu. O terror foi inimaginável. Um ex-oficial do Khmer Rouge contou que os sobreviventes

(...) como que congelavam e punham-se a caminhar ao leu, mudos, por três ou quatro dias. Terrificadas e semiloucas, as pessoas estavam prontas para acreditar em qualquer coisa que ouvissem (...). Foi o que tornou tão fácil, para o Khmer Rouge, convencer o povo.

Uma Comissão de Investigação do Governo da Finlândia estimou que 600 mil cambojanos morreram na guerra civil que se seguiu àqueles ataques e descreveu o bombardeio norte-americano como “o primeiro estágio numa década de genocídio”. O que Nixon e Kissinger começaram, Pol Pot, o herdeiro beneficiário dos dois, completou. Ao ritmo dos bombardeios, o Khmer Rouge cresceu e tornou-se poderoso exército de 200 mil soldados.

O ISIL tem passado e presente semelhantes a isso. Muitos especialistas entendem que a invasão do Iraque ordenada por Bush e Blair em 2003 levou à morte de cerca de 700 mil pessoas – num país que jamais antes tivera história de jihadismo. Os curdos haviam feito acordos territoriais e políticos; sunitas e xiitas tinham diferenças de classe e sectárias, mas estavam em paz – eram comuns os casamentos mistos. Três anos antes da invasão, atravessei o Iraque dirigindo meu carro, sem medo. Pelo caminho, encontrei gente orgulhosa do próprio país, herdeiros de uma civilização que, para eles, era bem presente ali.

Bush e Blair - Criminosos de Guerra
Bush e Blair destruíram tudo, reduziram a cacos tudo aquilo. O Iraque é hoje ninho de jihadismo. Al-Qaeda – como os “jihadistas” de Pol Pot – colheu a oportunidade gerada pelo massacre que foi a Operação Choque e Pavor e pela guerra civil que a seguiu. A Síria “rebelde” oferecia recompensas ainda maiores, nas linhas-de-rato da CIA e dos Estados do Golfo, pelas quais corriam armas, logística e dinheiro através da Turquia. A chegada de recrutas estrangeiros seria inevitável. Um ex-embaixador britânico, Oliver Miles, escreveu recentemente:

O governo [Cameron] parece estar seguindo o exemplo de Tony Blair, que ignorou os repetidos avisos que recebeu do Foreign Office, do MI5 e do MI6, que já sabiam que nossa política para o Oriente Médio – especialmente as guerras que fizemos no Oriente Médio – havia sido o principal agente de mobilização no recrutamento de muçulmanos, para o terrorismo, na Grã-Bretanha.

O ISIS/ISIL é filho dileto dos que, em Washington e Londres, ao destruírem o Iraque, como estado e como sociedade, conspiraram para cometer um crime épico contra a humanidade. Como Pol Pot e o Khmer Rouge, o  ISIS/ISIL é mais uma mutação de um estado ocidental de terror, mantido por uma elite imperial venal que não para ante nenhuma consequência de seus atos, desde só atinjam culturas e povos que vivam bem, bem longe dela. Essa culpabilidade é tabu: não pode ser mencionada nas “nossas” sociedades.

Já são 23 anos desde que esse holocausto atingiu o Iraque, imediatamente depois da Iª Guerra do Golfo, quando EUA e Grã-Bretanha sequestraram o Conselho de Segurança da ONU e impuseram “sanções” punitivas contra a população iraquiana – o que, ironicamente, reforçou a posição de Saddam Hussein. Foi como um sítio medieval. Praticamente tudo que mantém um estado moderno foi, conforme o jargão, “bloqueado” – desde cloro para produção de água potável, até lápis escolares, peças para aparelhos de máquinas de raio-X, analgésicos comuns e drogas usadas por pacientes de câncer vítimas da poeira gerada nos campos bombardeados, contaminados por urânio baixo-ativo.

Pouco antes do Natal de 1999, o Departamento de Comércio e Indústria em Londres restringiu a exportação de vacinas destinadas a imunizar crianças iraquianas contra difteria e febre amarela. Kim Howells, médico e subsecretário de Estado no governo Blair, explicou por quê:

As vacinas podem ser usadas para produção de armas de destruição em massa.

O governo britânico safou-se desse escândalo universal, porque a imprensa-empresa que distribuía “notícias” do Iraque – praticamente toda ela manipulada pelo Foreign Officebritânico – culpou Saddam Hussein por tudo.

BOMBARDEAR O IRAQUE
UMA TRADIÇÃO DOS EUA
Sob um falso “Programa Petróleo por Comida”, dito “humanitário”, pagavam US$ 100 por iraquiano, por ano. Esse valor devia pagar por toda a infraestrutura e serviços essenciais de que a sociedade precisasse, como energia e água.

Imagine – disse-me o subsecretário-geral da ONU, Hans Von Sponeck – essa ninharia, para pagar por toda a água limpa, que não havia, e o fato de que a maioria dos doentes não podia pagar por qualquer tratamento, e o trauma terrível de passar por esse tipo de necessidade dia após dia, e você poderá fazer ideia daquele pesadelo. E, não tenha dúvidas: foi tudo deliberadamente planejado. No passado, sempre me recusei a usar a palavra genocídio, mas agora é inevitável.

Desgostoso, Von Sponeck demitiu-se do cargo de Coordenador Humanitário da ONU para o Iraque. Antes dele, Denis Halliday, também alto funcionário da ONU, também se demitira.

Fui instruído – disse Halliday – a implementar uma política que corresponde à definição de genocídio: política deliberada que efetivamente matou mais de um milhão de indivíduo, crianças e adultos.

Estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância, UNICEF, descobriu que entre 1991 e 1998, no auge do bloqueio, houve 500 mil mortes “a mais”, no Iraque, na faixa etária até cinco anos. Uma repórter da TV norte-americana falou disso a Madeleine Albright, embaixadora dos EUA à ONU, e perguntou-lhe:

O preço não foi alto demais?

Madeleine Albright
Resposta de Albright:

Entendemos que valeu a pena.

Em 2007, o mais alto funcionário britânico responsável pelas sanções, Carne Ross, conhecido como “Mr. Iraque”, disse a uma comitê parlamentar, que:

[Os governos de EUA e Reino Unido] estão de fato negando a toda a população iraquiana os meios para sobreviver.

Quando entrevistei Carne Ross três anos depois, era um homem consumido pela arrependimento e pela vergonha: “Sinto vergonha” – disse ele. Ross é hoje um dos raros que dizem a verdade sobre como os governos mentiram aos cidadãos e sobre o papel decisivo que cabe à imprensa-empresa na implantação e disseminação das mentiras. “Ou passávamos aos jornalistas os factoides que recebíamos da inteligência, já limpos, ou simplesmente escondíamos todos os fatos”.

Dia 25/9/2014, uma manchete do Guardian dizia: Ante o terror do ISIS/ISIL, temos de agir. Esse “temos de agir” é fantasma que despertou, como um sinal de alerta: tratem de esquecer todos os fatos, lembranças, lições aprendidas, arrependimentos ou vergonha. O autor do artigo é Peter Hain, ex-ministro do Foreign Office responsável pelo Iraque durante o governo Blair. Em 1998, quando Denis Halliday revelou a extensão da tragédia e do sofrimento humano no Iraque, pelos quais o governo Blair era um dos dois principais responsáveis, Hain acusou-o, no programa Newsnight da BBC, de ser “defensor de Saddam”. Em 2003, Hain apoiou a invasão do Iraque no governo Blair, repetindo o que todos já sabiam serem mentiras. Em conferência no Partido Labour, pouco depois, descartou a invasão como “questão marginal”.

Esse é o homem que, hoje, exige “ataques aéreos, drones, equipamentos militares e outros apoios” aos que “enfrentam o genocídio” no Iraque e na Síria. Só depois seria possível “o imperativo de uma solução política”. É o mesmo que Obama tem na cabeça, quando suspende o que ele chama de “restrições” contra bombardeios e ataques por drones norte-americanos. Significa que mísseis e bombas de 300 kg podem destruir casas de camponeses, como fazem sem qualquer restrição no Iêmen, Paquistão, Afeganistão e Somália – e como fizeram no Camboja, Vietnã e Laos. Dia 23 de setembro de 2014, um míssil Tomahawk atingiu uma vila na província Idlib na Síria, matou uma dúzia de civis, entre os quais mulheres e crianças. Nenhum deles tinha bandeira preta.

No dia em que foi publicado o artigo de Hain, Denis Halliday e Hans Von Sponeck estavam casualmente em Londres e vieram visitar-me. Não estavam chocados com a letal hipocrisia de uma autoridade, mas lamentaram a inexplicável ausência de qualquer diplomacia inteligente, capaz de negociar alguma espécie de trégua. Por todo o planeta, do Norte da Irlanda ao Nepal, pessoas que se viam umas às outras como terroristas e hereges conseguiram sentar-se face a face numa mesa de negociações. Por que não agora, no Iraque e na Síria?

Como o ebola, do Oeste da África, uma bactéria chamada “guerra perpétua” já cruzou o Atlântico. Lord Richards, até recentemente comandante dos militares britânicos, quer agora “coturnos em solo”. Há uma verborragia doentia, quase sociopática, de Cameron, Obama e aquela “coalizão dos dispostos/desejantes” – e chama a atenção o estranhamente super agressivo australiano Tony Abbott – que agora prescrevem mais e mais violência, lançada de bem longe, de 30 mil pés de altitude, sobre locais onde o sangue de aventuras anteriores ainda não secou. Nunca sofreram bombardeios e aparentemente gostam tanto que querem agora bombardear também um seu potencialmente valioso aliado, a Síria. Não é novidade, como mostram arquivos vazados da inteligência de EUA e Reino Unido:

Para facilitar a ação de forças de libertação [sic] (...) deve-se fazer esforço especial para eliminar alguns indivíduos chaves [e] provocar agitação interna na Síria. A CIA está preparada, e o MI6 tentará montar pequena sabotagem e golpe de incidentes principais [orig. main [sic]] dentro da Síria, trabalhando mediante contatos com indivíduos (...) um grau necessário de medo (...)confrontos [encenados] de fronteira darão um pretexto para a intervenção(...) CIA e SIS devem usar (...) capacidades nos campos psicológico e de ação, para aumentar a tensão.

Esse parágrafo foi escrito em 1957, mas poderia ter sido escrito ontem. No mundo imperial, as coisas essenciais jamais mudam.

Roland Dumas
Ano passado, o ex-ministro de Relações Exteriores da França Roland Dumas revelou que “dois anos antes da Primavera Árabe”, fora informado em Londres de que estava já planejada uma guerra contra a Síria.

Vou lhe dizer uma coisa – disse ele, em entrevista ao canal LPC da TV francesa: Eu estava na Inglaterra, dois anos antes da violência na Síria e outros negócios. Encontrei-me com altos funcionários britânicos, que confessaram que estavam preparando alguma coisa na Síria (...). A Grã-Bretanha estava organizando uma invasão de rebeldes na Síria. Até perguntaram, embora eu já não fosse Ministro de Relações Exteriores, se gostaria de participar (...) Essa operação é velha. Foi preparada, preconcebida, planejada.

Os únicos que realmente se opõem ao ISIS/ISIL são considerados demônios sem salvação no Ocidente – Síria, Irã, Hezbollah. O obstáculo é a Turquia, “aliado” e membro da OTAN que conspirou com a CIA, o MI6 e os medievalistas do Golfo para reunir apoio para os “rebeldes” sírios, inclusive os que agora se autodenominam ISIS/ISIL. Apoiar a Turquia e sua antiga aspiração de dominação regional, com a derrubada do governo do presidente Assad, levará a grande guerra convencional e ao horrendo desmembramento do estado etnicamente mais diverso de todo o Oriente Médio.

Uma trégua – por difícil de negociar que seja – é a única via para fora desse pântano imperial; sem uma trégua negociada, as degolas continuarão. A evidência de que qualquer negociação com a Síria deva ser declarada “moralmente questionável” (como escreveu The Guardian) sugere que a pressuposição de alguma superioridade moral entre os que apoiaram Blair, criminoso de guerra, continua a ser não apenas absurda, mas perigosa.

Além de uma trégua, devem cessar imediatamente todos os embarques de equipamento de guerra para Israel; e é preciso reconhecer o Estado da Palestina. A questão da Palestina é a mais purulenta questão de toda a região, e causa muitas vezes declarada do crescimento do extremismo islâmico. Osama bin Laden disse isso, precisamente, muito claramente. A Palestina também oferece esperanças. Deem justiça aos palestinos, e começarão a mudar o mundo ao redor deles.

Há mais de 40 anos, o bombardeio do Camboja por Nixon-Kissinger gerou uma torrente de sofrimentos da qual o país até hoje não se recuperou. Vale o mesmo para os crimes de Blair-Bush no Iraque.

Com timing impecável, o último tomo da autobiografia de autoconsagração de Kissinger acaba de ser lançado, com o título satírico de World Order [Ordem Mundial]. Em resenha de desavergonhada propaganda, Kissinger é descrito como

(...) modelador chave de uma ordem mundial que permaneceu estável por um quarto de século.

Contem essa ao povo do Camboja, Vietnã, Laos, Chile, Timor Leste e outras vítimas desse “construtor de Estados”. Só quando “nós” identificarmos esses criminosos de guerra que sobrevivem ainda entre nós, o sangue começará a secar.


[*] John Pilger − nasceu em Bondi na área metropolitana de Sydney, Austrália, 9 de outubro 1939. A carreira de Pilger como repórter começou em 1958; ao longo dos anos tornou-se famoso pelos artigos, livros e documentários que escreveu e/ou produziu. Apesar das tentativas de setores conservadores de desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio de Britain’s Journalist of the Year Award na área dos dos Direitos Humanos. No Reino Unido é mais conhecido pelos seus documentários, particularmente os que foram rodados no Camboja e no Timor−Leste. Trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, em Bangladesh e em Biafra. Atualmente reside em Londres.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O PT (Partido Trabalhista INGLÊS) e a imprensa: “Foi batalha pelo poder, que jamais conseguiríamos vencer”

18/7/2011, *Jonathan Powell, Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Não escrevo para me desculpar pelos esforços que o Novo PT [orig. New Labour] fez para aproximar-se de Rupert Murdoch e de Lord Rothermere em 1994. Passáramos 18 anos na oposição, em parte porque não tínhamos nenhum tipo de cobertura que nos preservasse do massacre diário dos tablóides conservadores. Tentar nos aproximar de pelo menos alguns deles foi estratégia razoável. Políticos só sobrevivem se conseguem fazer-se ouvir pela opinião pública, e tem de ser pela imprensa. Mas aprendêramos bem as lições do tempo em que estivemos na oposição, e, chegados ao governo, nos preocupavam muito os barões da mídia, sobretudo na Europa.

A edição final do News of the World vendeu 1,5 milhão de cópias extras. 
Foto: Mike Kemp / Mike Kemp / In Pictures / Corbis
Gordon Brown decidiu que o “primeiro turno” que tinha de vencer, se quisesse chegar à liderança do PT seria aproximar-se de Murdoch e chegou a tentar usar a boa vontade que então recebia de Murdoch e de Paul Dacre, editor do Daily Mail, como alavanca para tirar Tony Blair do n. 10 da rua Downing. David Cameron seguiu essa escrita, e cultivou assiduamente uma nova geração de Murdochs, mobilizando-os contra o Brown.

Esse tipo de relacionamento entre políticos e a imprensa continuará, aconteça o que acontecer a Murdoch, a menos que se façam mudanças num plano muito mais fundamentalmente importante que o futuro financeiro da empresa News International. Em junho de 2007, Tony Blair fez cuidadoso discurso no qual falou dos problemas e ofereceu soluções. A imprensa desmantelou o discurso, porque a imprensa não tem nenhum interesse em nenhuma discussão séria sobre... a imprensa. 

Assumo que nos deixamos apanhar na arapuca da “crítica” que a imprensa nos fez, porque deixamos aquele discurso para muito tarde, quando o mandato de Tony já chegava ao fim. Erramos por medo da vingança da imprensa e por um erro inadmissível nos contatos com a “mídia”: apresentamos a própria “mídia” como besta fera sem escrúpulos. Já deveríamos saber, àquela altura, que os jornalistas, colunistas e “analistas” destacariam a “acusação”, apagariam o resto do discurso e calariam os argumentos que não lhes fossem favoráveis.

No governo, pensamos na possibilidade de tomar passos radicais, para por em novas bases o relacionamento com a imprensa. Em 2002, encomendamos a especialistas um estudo sobre novas regras de conduta para a imprensa, que poderia vir a ser lei; um projeto de lei para impor limites à propriedade de empresa de comunicação. Em discurso de 2006, a Rainha introduziu reflexões sobre algumas daquelas medidas. Mas recuamos, nas duas ocasiões, por causa do massacre incansável que sabíamos que aquelas medidas enfrentariam na imprensa. E não podíamos confiar no apoio da oposição (sequer podíamos confiar no apoio dos nossos!) por causa dos desesperados elogios que Gordon fazia a Dacre e Murdoch. No final, entendemos que era uma guerra pelo poder e que não tínhamos meios para vencê-la.

A raiz do problema é a impermeabilidade da imprensa a qualquer controle. E a total impunibilidade. A razão pela qual os jornais de Murdoch e outros podem invadir contas bancárias, plantar jornalistas seus empregados em todos os cantos do governo, de onde podem roubar documentos, vasculhar latas de lixo e agendas pessoais de políticos e celebridades em geral e interceptar telefones de cidadãos comuns é porque (1) nada lhes acontece e (2) há uma ideologia de legitimação desses atos (os jornalistas estariam ‘fiscalizando’ o poder). Costumávamos perguntar aos jornalistas dos jornais dominicais, por que haviam publicado matéria que sabiam ser forjadas. Eles riam e respondiam que “era uma grande matéria”. Quando, depois, se comprovasse que a matéria fora forjada, nada aconteceria nem ao jornalista nem a empresa que o emprega: já haveria outras notícias, o mundo anda, ninguém seria punido. Uma ou outra condenação judicial de jornais ou jornalistas vira tabu, que nenhum jornal publica.

Dacre diz que, diariamente, é julgado pelos leitores. Bobagem. Quase dois milhões de pessoas compraram o News of the World depois de o jornal já estar exposto pela prática de vários crimes, como se fosse edição “normal” do jornal do domingo a que estavam habituados.

A Comissão de Autorregulação da Imprensa, fundada pelos barões da imprensa e presidida pelo próprio Dacre e outros editores, já comprovou que é incapaz de manter qualquer tipo de fiscalização dos crimes que a própria imprensa comete. Assim sendo, por que não examinamos soluções encontradas em outros países? A resposta automática é que queremos preservar nossa tradição de imprensa livre. Mas a Alemanha criou leis que asseguram pleno direito de resposta. Alguma imprensa ficou menos livre, por algum caluniado ter-se defendido? As televisões seriam talvez menos livres, se fossem fiscalizadas e cobradas quando não fossem imparciais? Países nos quais se respeitam as leis que protegem a privacidade dos cidadãos seriam por acaso menos democráticos? Claro que não. 

Em todas as ditaduras, a imprensa é controlada pelo favor do ditador: só o próprio ditador e seus amigos oligarcas podem ser proprietários de empresas de comunicação. Ou assassinam-se jornalistas independentes. Nenhuma ditadura controla a imprensa por leis aprovadas democraticamente. A própria ditadura controla a imprensa. É exatamente o mesmo mecanismo que se vê em países ‘livres’! 

Será que o juiz Levenson, que presidirá o inquérito do escândalo Murdoch terá coragem para sugerir as medidas que tornarão a imprensa britânica mais transparente ao controle social? Não, se, antes, conversar com Brian Hutton. 

Lord Hutton supunha que tivesse sido chamado a presidir inquérito sobre a morte de David Kelly como juiz imparcial. Analisou as provas, ouviu as testemunhas e chegou a sentença justa. Foi quando a imprensa, que até ali o elogiara pela condução equilibrada do inquérito, não gostou da sentença. E a imprensa virou-se contra ele. Foi pessoalmente atacado, foi acusado de ter julgado movido por instinto de vingança. Depois daquele inquérito, nunca mais nenhum juiz atreveu-se a condenar ou absolver quem a imprensa não quisesse ver absolvido ou condenado.

Já houve inúmeras comissões nomeadas pela Rainha e grupos de exame da imprensa na Grã-Bretanha, mas nenhuma conseguiu alterar a equação básica. Duvido que batalhas pelo poder político possam ser decididas em inquéritos ou em relatórios de comissões de notáveis, por melhores que sejam.

Ainda que o inquérito não nos traga qualquer resposta, é possível que alguma solução apareça bem antes do que esperam os barões da imprensa. Pode vir das novas tecnologias. Na internet, o jornalismo impresso e a televisão estão-se misturando, Os jornais online são fartos de conteúdos em vídeo. Na Grã-Bretanha, as televisões online não são reguladas. O jornal BBC News online já é o jornal mais lido do país. Novas fontes de informação, híbridas, ganham cada vez mais leitores entre os mais jovens. Na medida em que cresça essa convergência, cada vez menos sentido haverá em dois sistemas de regulação. 

O mais provável é que o advento do blogueiro, muito mais que alguma condenação (ou absolvição) de Murdoch, consiga pôr fim à suja mistura em que vivemos hoje, de política e barões da imprensa.

*Jonathan Powell foi secretário do Gabinete de Tony Blair (1997-2007).

“Murdoch modela a política inglesa há 40 anos”

13/7/2011, Leo Panitch (Prof. Emérito de Ciências Políticas da UNY), 
The Real News Channel
Entrevista transcrita (traduzida pelo pessoal da Vila Vudu



[Panitch]
A primeira coisa que se deve anotar, é que Murdoch é homem da direita. O fato de ter apoiado o Partido Trabalhista [inglês] nada altera. É conhecido na Grã-Bretanha e na Austrália como “o Cavador”, por suas raízes australianas. Chegou em 1969 e comprou o Sun, que era então um clássico jornal da classe trabalhadora. Como disse Dennis Potter, o grande dramaturgo britânico, autor de roteiros para televisão, autor de The Singing Detective, em entrevista, não há ninguém na Grã-Bretanha mais responsável que Murdoch por poluir ainda mais, uma imprensa que já era muito poluída. 

Mas não se deve raciocinar como se o que estamos vendo tivesse sido, digamos, obra exclusivamente de Murdoch.

Quando tomou o Sun, Murdoch de fato ocupou aquele jornal dos trabalhadores, cuja história remonta aos anos 50s – antes, o jornal chamara-se The Labour Herald [Voz do Trabalho], trocara de nome e fora também jornal do Partido Trabalhista. Murdoch imediatamente converteu o jornal em panfleto da direita, que atacava a esquerda. 

Murdoch tornou-se dono de grande parte da imprensa. Comprou o Times, do canadense Lord Thomson of Fleet, quando Thomson desinteressou-se de jornais, porque conseguiu uma licença para um canal de televisão na Escócia (que ele chamava de “autorização para imprimir dinheiro”). 

Murdoch, como se sabe, entrou nesse mesmo jogo, também com a televisão BSkyB, com a rede Fox News, com todo o império Fox. É dono do Sunday Times também, que é jornal dominical dirigido aos ricos, e também foi acusado nesse escândalo de escutas clandestinas e invasão de telefones celulares, até de ter invadido o telefone de [Gordon] Brown, ex-líder do Partido Trabalhista. 

Tudo isso para dizer que não se trata só do jornal News of the World que, diferente do Sun, tem história que chega a meados do século 19. De qualquer modo, o News of the World e o Daily Sun – que já mostra uma mulher seminua na página 3 – não são os únicos jornais que fazem dinheiro com a repressão sexual dos britânicos e, portanto, com o frenesi social que qualquer escândalo sexual desperta, para desempenhar papel terrível na política britânica, papel que já se conhece, por exemplo, do canal Fox. Mas a coisa piorou, quando o mesmo papel começou a aparecer também nos diários. E feito de tal modo que passou a ser claro assassinato de reputações.

Você talvez já tenha ouvido a palavra “Bennismo”, hoje usada como ofensa, o pior dos palavrões. Origina-se do nome “Benn”, de Tony Benn, que foi ministro do Gabinete nos anos 1960s e depois passou para a esquerda, quando percebeu o pequeno espaço que tinha no governo britânico [foi ministro do governo trabalhista de Harold Wilson]. Abraçou a esquerda e propôs várias reformas radicais que iam além da simples “regulação” do estado de bem-estar e implicavam regular o próprio capital. 

Hoje, quando se diz “Bennismo”, a palavra significa palavrão, designa o pior dos homens, a “esquerda lunática”. Mas Benn foi um dos políticos mais efetivos, mais inteligentes e mais corajosos da Grã-Bretanha. Hoje, é lembrado como se fosse louco, ou imbecil. De fato, as coisas nunca são assim tão simples. Fato é que Benn, ao longo dos anos 1970s tornou-se muito popular entre os trabalhadores.

[Entrevistador]: Lembro que o Sun publicou matéria com um laudo de um psiquiatra norte-americano bastante conhecido, que declarava que Tony Benn era mesmo louco. A matéria analisava longamente o laudo psiquiátrico. Depois, se descobriu que tudo fora forjado: o psiquiatra jamais assinara o tal laudo.

PANITCH: E assim continuaram, lixo diário, publicado diariamente. Várias vezes em que estive com Tony [Blair], ele me disse que seu telefone estava grampeado. Não sabia se era a segurança, a imprensa, mas o telefone estava grampeado, Ouvia-se um clique e o som de uma fita rodando, quando se pegava o telefone. O que quero dizer é que nada, do que vemos hoje, é novidade.

[Entrevistador]: Vejamos então o contexto político, para compreender a importância de destruir a reputação de Benn e como isso levou ao surgimento de Tony Blair.

PANITCH: Os políticos do Partido Trabalhista que se opunham a Benn – que não queriam que o Partido Trabalhista voltasse a ser partido socialista –, assustavam-se quando abriam os jornais no café da manhã, e liam mais uma declaração atribuída a Benn, posta em manchete de primeira página do Times ou do Sun – ou, às vezes, sabe-se lá, também no Guardian, porque nem o Guardian estava imune àquilo –, que feria a reputação de todos os membros do Partido Trabalhista, a reputação pessoal, os deputados apresentados como Maria-vai-com-as-outras, como iguais aos políticos da direita, apoiadores do império norte-americano, traidores. A verdade era que, naquele momento, Benn trabalhava a favor da nacionalização dos cinco principais bancos britânicos. 

Mas os trabalhistas viviam apavorados com o que liam nos jornais de Murdoch. E, então, decidiram usar o Sun. Não foram só vítimas nem foram as únicas vítimas do Sun ou do News of the World nem do Sunday Times. Os trabalhistas decidiram usar o Sun: vazavam comentários para o Sun. Criavam “relatórios” absurdos, “dossiês” imundos, que os jornais amplificavam o mais que podiam, e tudo isso para desacreditar a esquerda trabalhista.

Os beneficiados foram a direita e o centro do Partido Trabalhista. Serviram-se do que a imprensa fazia, para atender interesses seus. Até que conseguiram livrar-se de Benn e elegeram Neil Kinnock para a liderança do Partido, quando Benn seria o líder óbvio, pode-se dizer, natural. 

Nem assim Murdoch aliviou a mão. Os que haviam conseguido livrar-se do “risco Benn”, logo viram que Murdoch já estava apresentando Kinnock como “desequilibrado”, “despreparado para o cargo”, “incompetente”, “corrupto”, “pouco ético” etc., etc. 

Foi quando, afinal, políticos extremamente pragmáticos, oportunistas, como Tony Blair, fizeram um acordo com o diabo. Disseram “- ok. Dancemos conforme a música”. Passaram a dizer o que Murdoch queria que dissessem. 

E Blair, depois que Kinnock foi derrotado em 1992 – em larga medida por efeito da campanha imunda de demonização que sofreu, sobretudo no Sun, que é jornal, como eu disse, popular – nas eleições de 1992 (...), Blair abriu caminho para a liderança do Partido Trabalhista, por acordo que fez com Brown. 

Blair, imediatamente, partiu para a Austrália, para o encontro anual do grupo News International, e lá ficou amigo de Murdoch. E Murdoch passou a apoiá-lo. Todos os jornais de Murdoch apoiaram Blair, mas, mais que todos, oSun, que praticamente o elegeu nas eleições de 1997. Blair tinha um acordo com Murdoch.

Mas não se pode esquecer que, com isso, Blair envolveu-se no mesmo tipo de política que se vê no Canal Fox, dos EUA. Todos assistimos ao papel que Blair desempenhou na guerra do Iraque, mas, sobretudo, todos assistimos ao modo como Blair, enquanto sorria para as televisões, decidiu que a desigualdade na Grã-Bretanha seria irremediável, que não se poderia impedir que continuasse a aumentar, e, em resumo, conseguiu levar o Partido Trabalhista de volta ao poder... ao preço de adotar o “Thatcherismo”. Por isso os jornais de Murdoch sempre o promoveram. Mas não promoveram todos os políticos do Partido Trabalhista. 

Jornalismo, para Murdoch é escândalo. Vivem a “denunciar” escândalos, às vezes, também entre os Conservadores, mas sempre e sempre mais entre os Trabalhistas. 

Dado que os jornais de Murdoch não sabiam exatamente para que lado velejaria Gordon Brown, que sucedeu Blair, com certeza dedicaram-se a cavoucar em busca de detalhes da privacidade de Brown. 

Mas tudo isso, do ponto de vista de Murdoch, são negócios, são questões comerciais. É o modo pelo qual Murdoch defende o capitalismo e seu patrimônio de $50 bilhões em todo o planeta. Mas também são negócios, são questões comerciais, no sentido de que tratam a notícia como um produto cuja matéria-prima é o escândalo. Os britânicos não sabem como reagir a seja o que for que tenha conotação sexual.

[Entrevistador]: Do modo como se fala do affair Murdoch, sobretudo nos EUA, é como se Murdoch fosse uma espécie de maçã podre, quase uma anomalia. A verdade é que nada há de excepcional no conluio entre os barões da grande mídia e os políticos. Todos os barões da grande mídia têm acesso facilitado aos políticos. Alguém, que participava das reuniões do Gabinete no governo Blair em Londres, escreveu recentemente que, naquelas reuniões, só três pessoas tinham poder de decidir: Blair, Brown e Murdoch, que era como sombra imaterial que pairava naquelas reuniões. Esse tipo de ‘convivência íntima’ entre os barões da imprensa e os políticos não acontece sempre? Não é sempre assim, em todo o mundo?

PANITCH: Claro que é. Todos sabemos que a liberdade de imprensa é liberdade para quem tenha empresa jornalística. “Liberdade de imprensa, só para quem tem imprensa” – como se diz. É engraçado que esses personagens venham tão frequentemente da Austrália e do Canadá. Lord Beaverbrook era canadense. Lord Thomson era canadense. Agora, o “cavador” Rupert Murdoch, é australiano. E conseguiu, vale lembrar, a cidadania norte-americana, sem a qual não poderia comprar o The New York Post. Como todos sabemos, é difícil ver cidadão não norte-americano proprietário de empresa de mídia nos EUA. Murdoch de fato, comprou a cidadania norte-americana. 

[Entrevistador]: Interessante também que, depois da experiência com Blair, Murdoch tenha apoiado Obama, contra Clinton, desde as primárias do Partido Democrata. 

PANITCH: Acho que houve algum “acerto” semelhante ao que Blair fez. Você sabe: desde os anos 90s há uma relação incestuosa entre os Democratas dos EUA e o Partido Trabalhista inglês, um aprendendo com o outro. Esse incesto continua. 

Mas o que queria dizer é que, por menos que se deva enfatizar o papel do indivíduo na história, há uma diferença entre o que Murdoch faz hoje e o que fizeram, antes deles,LordBeaverbrook ou, mesmo, Lord Thomson, embora fosse homem muito mais rude que Beaverbrook, que foi, de pleno direito, um intelectual. 

Murdoch sempre foi pior que os outros, pelo mercantilismo, pelo uso que dá à imprensa para objetivos pessoais seus, essencialmente capitalistas. Vê-se no Canal Fox News. Vê-se, de fato, nos seus jornais britânicos, acho. E acho que tudo que se possa dizer sobre a péssima qualidade da imprensa nesses países e em todos os países de língua inglesa pode ser atribuído ao ‘espírito’ de Murdoch, ao tipo de poder político que esse tipo de jornalismo dá a alguém ou a grupos, poder para modelar as políticas nacionais. Se o proprietário é homem sem escrúpulos, se é fascista... não vejo que tipo de benefício a liberdade de imprensa traria a alguém. Para começar, a liberdade de imprensa garantida a homens e grupos que não têm nenhum interesse em qualquer tipo de democracia legítima, destrói o sentido do próprio jornalismo. [Fim da entrevista]

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Antiga chefe do MI5 Arrasa defesa de Blair sobre a Guerra do Iraque

Antiga chefe do MI5 Arrasa defesa de Blair sobre a Guerra do Iraque

Andy McSmith*
08.Out.10 :: Outros autores
Andy McSmith
Se dúvidas houvesse sobre as mentiras do Tony Blair para justificar as aventuras belicistas do imperialismo – que as não há – elas ficavam totalmente dissipadas com as revelações deste artigo de Andy McSmith.


A afirmação de Tony Blair no Inquérito Chilcot de que afastar Saddam Hussein contribuiu para livrar a Grã-Bretanha de terroristas foi ontem desmentida categoricamente pela antiga diretora do MI5.

Ao depor no mesmo inquérito, Eliza Manningham-Buller revelou que, após a invasão do Iraque, apareceram tantos alertas para ameaças de terroristas caseiros que o MI5 pediu – e obteve – um aumento de 100 por cento no seu orçamento. A baronesa Manningham-Buller, que foi diretora-geral do MI5 em 2002-2007, disse ao painel Chilcot que o MI5 começou a receber um volume de relatórios “substancialmente” mais alto sobre a adesão de jovens muçulmanos britânicos à al-Qaida.

Disse ainda no inquérito: “O nosso envolvimento no Iraque radicalizou, no desejo de um mundo melhor, toda uma geração de jovens – parte de uma geração – que encararam o nosso envolvimento no Iraque e no Afeganistão como um ataque ao Islã”.

E acrescentou: “Podemos dizer que demos a Osama bin Laden a sua jihad iraquiana de tal modo que ele conseguiu penetrar no Iraque como não o tinha conseguido fazer anteriormente”.

Estas palavras estão em profunda contradição com a afirmação que Tony Blair fez perante o mesmo inquérito em 29 de Janeiro. O antigo primeiro-ministro disse a Sir John Chilcot: “Se me perguntarem se eu acho que estamos em maior segurança, que o Iraque está melhor, que a nossa segurança é melhor, desde que Saddam e os seus dois filhos estão longe dos seus cargos e longe do poder, acredito que sim, que de fato estamos. Foi melhor acabar com essa ameaça, afastá-lo do cargo, e acredito sinceramente que, em consequência disso, o mundo está em maior segurança”.

Mas o testemunho prestado por Lady Manningham-Buller não põe apenas em causa a credibilidade de Tony Blair, também contesta o governo de coligação, alertou Lord Carlile of Berriew, um liberal democrata que tem atuado desde 2005 como revisor independente das leis antiterroristas. Disse ao The Independent: “De fato acontece que a ameaça e o número de terroristas caseiros – e terroristas ‘não caseiros’ que vêm para o Reino Unido – aumentou depois da guerra do Iraque.”

“Isso torna difícil a vida tanto para o antigo governo, que tem que responder às críticas, como para o atual governo. Torna a revisão da atual lei antiterrorismo uma tarefa delicada porque não há indícios de qualquer redução significativa das ameaças. Continuamos onde sempre estivemos”.

Sir Menzies Campbell, antigo chefe dos liberais-democratas, acrescentou: “Ficaria espantado se Tony Blair voltasse para prestar outro depoimento, mas mantém-se a interrogação quanto ao que é que o levou a desprezar as reservas de funcionários e os seus conselhos. Se a Grã-Bretanha tivesse sido tão bem servida pelos seus políticos como foi por Eliza Manningham-Buller, nunca nos teríamos envolvido nessa trapalhada ilegal do Iraque”.

Lord West, que foi ministro do contraterrorismo no Home Office no tempo de Gordon Brown, disse à BBC que “não tinha dúvidas” de que a guerra no Iraque aumentou a ameaça de terrorismo no Reino Unido, que atingiu o governo como uma “onda de proa” em 2003.

Ken Livingstone, que era Prefeito de Londres na época das explosões bombistas de 7 de Julho, disse: “O depoimento de Eliza Manningham-Buller é uma denúncia condenatória duma política externa que não só agravou significativamente o risco de ataques terroristas em Londres como deu à al-Qaida a abertura para também funcionar no Iraque”.

Antes de 2003, a preocupação do MI5 era a possibilidade de que terroristas estrangeiros se pudessem infiltrar no Reino Unido. Posteriormente, Lady Manningham-Buller afirmou: “Apercebemo-nos de que o perigo não eram os estrangeiros. A ameaça crescente que apareceu foi uma ameaça de cidadãos britânicos e isso criou um cenário muito diferente do de impedir a entrada de mais gente. Era o que agora designamos por caseiros”.

Acrescentou: “Ficamos bem atolados – possivelmente isto é um exagero – mas fomos sobrecarregados com informações em grande escala que eram em muito maior quantidade do que aquela com que podíamos lidar em termos de conspirações, pistas para conspirações e coisas que tínhamos que perseguir.”

“Em 2003 considerei necessário pedir ao primeiro-ministro o dobro do nosso orçamento. Isso era uma coisa impensável, mas tanto ele como o Tesouro e o Chanceler aceitaram-no porque eu pude demonstrar a escala do problema”.

O painel Chilcot publicou um documento até aí confidencial que considerava que a antiga directora do MI5 pura e simplesmente não estava a ser discreta após esse incidente. Um ano antes de as tropas britânicas irem para o Iraque, ela enviara ao Home Office um memorando que – embora redigido em linguagem oficial – deitava abaixo a ideia de que o regime de Saddam Hussein representava uma ameaça terrorista credível para o Reino Unido.

Num memorando para John Gieve, secretário permanente no Home Office, em Março de 2002, Lady Manningham-Buller dizia-lhe que não era provável que Saddam usasse armas químicas ou biológicas a não ser que “sentisse que estava em perigo a sobrevivência do seu regime”.

O memorando prosseguia: “Consideramos que a capacidade iraquiana de organizar ataques no Reino Unido atualmente é limitada”.

Lady Manningham-Buller também apontava para uma tensão entre o gabinete de Tony Blair e o MI5 quanto ao dossier que o primeiro-ministro apresentou ao Parlamento em Setembro de 2002, para preparar a opinião pública para a probabilidade da guerra.

“Pediram-nos para lhe introduzir algumas informações menores mas recusamo-nos porque achamos que não eram fiáveis”, afirmou ela.

Provas: O que ele disse – e o que ela disse.

Afirmações falsas quanto a ligações entre a al-Qaida e Saddam Hussein.

Tony Blair afirmou em 21 de Janeiro de 2003:

“Há alguns indícios de informações sobre ligações soltas entre a al-Qaida e diversas pessoas no Iraque… Não seria correcto dizer que não há indícios de quaisquer relações entre a al-Qaida e o Iraque”

O porta-voz do Foreign Office afirmou em 29 de Janeiro de 2003:

“Cremos que tem havido, e ainda há, alguns operacionais da al-Qaida em partes do Iraque controladas por Bagdade. É difícil imaginar que eles estão ali sem o conhecimento e aceitação do governo iraquiano”.

Eliza Manningham-Buller, antiga directora do MI5, ontem:

“Não havia quaisquer informações credíveis que sugerissem essa relação e podia afirmar que era essa a opinião da CIA”.

“Informações” deficientes, apanhadas a esmo

Blair, na Câmara dos Comuns, em 24 de Setembro de 2002:

“O serviço de informações chegou à conclusão de que o Iraque tem armas químicas e biológicas, que Saddam continuou a fabricá-las, que tem planos militares atuais e activos para a utilização de armas químicas e biológicas, que podem ser ativadas em 45 minutos; e que está a tentar ativamente a adquirir capacidade de armas nucleares…”

Blair, na Câmara dos Comuns, em 25 de Fevereiro de 2003:

“As informações são claras: Ele [Saddam] continua a pensar que o seu programa de armas de destruição maciça é essencial tanto para a repressão interna como para a agressão externa. Os agentes biológicos que cremos que o Iraque é capaz de produzir incluem o antrax, a botulina, a toxina, a aflatoxina e o rícino. Todos eles acabam por provocar uma morte terrivelmente dolorosa”.

Manningham-Buller, ontem:

“A natureza do serviço de informações – é uma fonte de informações, raramente estão completas, é necessário confirmá-las, são fragmentárias… Pediram-nos para lhe introduzir algumas informações menores [no dossier de Setembro de 2002], mas recusamo-nos porque achamos que não eram confiáveis”.

O Iraque não constituía nenhum risco para a Grã-Bretanha

Blair, na Câmara dos Comuns, em 10 de Abril de 2002:

“Saddam Hussein está aperfeiçoando armas de destruição maciça, e não podemos permitir que ele faça isso sem ser controlado. Ele é uma ameaça para o seu próprio povo e para a região e, se lhe permitirmos aperfeiçoar essas armas, também será uma ameaça para nós”.
Manningham-Buller, ontem:
“Considerávamos a ameaça direta do Iraque como baixa… achávamos que ele não tinha possibilidade de tentar alguma coisa no Reino Unido”.

Disse-se aos ministros que a invasão do Iraque iria aumentar a ameaça do terrorismo na Grã-Bretanha.

Blair, discurso de despedida na conferência do partido Labour, em 26 de Setembro de 2006:

“Este terrorismo não é culpa nossa. Não fomos nós que o provocámos. Não é uma consequência da política externa”.

Manningham-Buller, ontem:

“Foi comunicado através das análises do JIC, em que eu colaborei… penso que eles [ministros seniores] os leram. Se os leram, não podiam ficar com dúvidas”.

A guerra do Iraque tornou a Grã-Bretanha num local mais perigoso e permitiu que a al-Qaida ganhasse influência no Iraque.

Blair, em 29 de Janeiro de 2010:

“Se me perguntarem se eu acho que estamos em maior segurança, que o Iraque está melhor, que a nossa segurança é melhor, acredito que sim, que de facto estamos. Em consequência disso, o mundo está em maior segurança”.

Manningham-Buller, ontem:

“O nosso envolvimento no Iraque radicalizou uma geração de jovens que encararam o nosso envolvimento no Iraque e no Afeganistão como um ataque ao Islã. Nós [o MI5] estávamos bem atolados… com informações em grande escala que eram em muito maior quantidade do que aquela com que podíamos lidar em termos de conspirações, pistas para conspirações e coisas que tínhamos que perseguir. Demos a Osama bin Laden a sua jihad iraquiana de tal modo que ele conseguiu entrar no Iraque como não o tinha conseguido fazer anteriormente”.

As conspirações pós Iraque
Explosões bombistas de 7/Julho - 2005

As bombas que explodiram nos comboios subterrâneos e num trem em Londres em Julho de 2005 mataram 52 pessoas do público e feriram cerca de 700. Três dos quatro bombistas suicidas tinham nascido em Yorkshire; o quarto, nascido na Jamaica, chegou ao Reino Unido com cinco anos. No seu vídeo, um dos bombistas afirmou: “Os vossos governos democraticamente eleitos cometem atrocidades permanentemente”.

Bilal Abdulla, médico, e Kafeel Ahmed, estudante de engenharia, tentaram e falharam a colocação de bombas no exterior de um clube noturno londrino em 29 de Junho. No dia seguinte guiaram um jipe cheio de latões de gasolina até ao aeroporto de Glasgow. No julgamento de Abdulla, este afirmou que se tinha envolvido “por causa dos acontecimentos no Iraque”.

Conspiração das bombas líquidas – 2006

Foi descoberta uma conspiração terrorista em que iriam ser escondidas bombas líquidas em aviões comerciais. Muitos dos homens fizeram vídeos “suicidas” citando a política externa britânica. Umar Islam disse no seu vídeo: “Se julgam que podem entrar no nosso país e fazer o que estão fazendo no Iraque, no Afeganistão e na Palestina e… pensam que isso não vai acontecer à vossa porta, vão ver acontecer outra coisa”.

*Jornalista do The Independent
Este texto foi publicado no jornal britânico The Independent (em 21 de julho de 2010)
Tradução de Margarida Ferreira para o Diário.info