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quinta-feira, 28 de julho de 2011

“Pela porta dos fundos, Mr. Murdoch, please”

22/7/2011, Geoffrey Wheatcroft, The New York Review of Books Blogs, vol. 58, n. 12
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


No estranho vaudeville que foi o “interrogatório” de Rupert e James Murdoch no Parlamento britânico dia 19 de julho – que Rupert ensaiou aplicadamente –, desde a frase “Foi o dia mais triste da minha vida”, que desencadeou solidariedades e protestos, até o momento final, em que alguém tentou jogar uma torta-pastelão em Murdoch, que foi salvo por salto verdadeiramente acrobático de Mrs. Murdoch, parece que outra frase, dita já ao final do depoimento, passou despercebida: “Queria que eles me deixassem em paz”.

R. Murdoch por John Springs
“Eles”, naquela frase, são os principais políticos britânicos – líderes de partidos e primeiros-ministros – que jamais deixaram de cortejar Murdoch, incansável e descaradamente, inclusive David Cameron. Em maio do ano passado, Murdoch foi convocado para encontro em Downing Street 10, dois dias depois de Cameron assumir o cargo de primeiro-ministro; Murdoch disse que o encontro lhe pareceu pura perda de tempo. Por que Murdoch não entrou, como um dos deputados perguntou durante a audiência, pela porta da frente, como outros notáveis? “Porque me disseram que eu, por favor, entrasse pela outra porta”, Murdoch respondeu.

Murdoch dizer que gostaria que os políticos o deixassem em paz talvez soe arrogante ou pouco inteligente, mas não há dúvidas de que não tinha prazer algum naquelas reuniões; precisava, só, que os políticos lhe dessem o que queria. Quase sempre deram. E aí está o problema.

Um ou dois analistas tentaram defender Murdoch. Seu admirador e biógrafo indulgente William Shawcross defendeu-o na rede BBC. Disse, mais uma vez, que a derrota que Murdoch impôs aos sindicatos de gráficos há 25 anos beneficiou toda a imprensa. Matthew Parris, ex-deputado conservador e hoje colunista altamente remunerado do Times de Murdoch, disse que “essa história de grampos não passa de ridícula hiper encenação”; e Simon Jenkins, ex-editor doTimes e correspondentemente ex-empregado de Murdoch, escreve que “A Grã-Bretanha enlouqueceu (...) Morreu alguém?” e insiste que “sua [de Murdoch] influência na indústria da comunicação foi de inovador serial”.

A verdade é que alguém, sim, morreu, assassinada: a repulsa pública contra o grampo e a invasão ao correio de voz de uma menina assassinada não foi invenção dos inimigos de Murdoch. E os espantosos acontecimentos do mês – o fechamento sacrificial do jornal News of the World, a autodemissão de Rebekah Brooks e de Les Hinton (os dois que Murdoch mais quis proteger), a prisão de um ex-editor de News of the World, Andy Coulson, e depois de outro(a), Mrs. Brooks, a renúncia do chefe da Polícia Metropolitana e de seu vice – não são, exatamente, trivialidades.

A operação frenética de controle de danos que os Murdochs acionaram não está funcionando, como se pode ver. Cada dia, desde que estiveram em Westminster, trouxe-lhes alguma nova péssima notícia. Cameron dizer que nada houve de “não apropriado” em seus contatos com Mrs. Brooks equivaleu a ele admitir que o tema “BSkyB”, a operadora de televisão por satélite cujo controle acionário (mais 39% das ações, além das que já são suas) Murdoch queria comprar, sim, apareceu nas conversas da dupla.

Na mais recente reviravolta da história, dois ex-executivos da empresa News International publicamente desmentiram partes do depoimento de James Murdoch sobre o ex-jogador de futebol e hoje executivo do sindicato de jogadores ingleses Gordon Taylor, que teve seus telefones grampeados, processou o jornal News of the World e em seguida aceitou polpuda indenização extra-judicial para calar-se. À época do acordo, a empresa News International dizia que um único “repórter bandido” [ing. “rogue reporter”] seria responsável pelo grampo. Mas os advogados de Taylor apresentaram provas importantes de que os grampos telefônicos eram recurso amplamente empregado e, obviamente, autorizado: uma mensagem de e-mail dirigida a um dos principais repórteres do jornal News of the World, com a transcrição de uma mensagem de correio de voz extraída de telefone celular grampeado.

No Parlamento, James Murdoch disse aos deputados que jamais vira o e-mail crucial; ontem, Colin Myler, último editor de News of the World no momento em que o jornal foi fechado, e Tom Crone, chefe do departamento jurídico do jornal, desmentiram-no cabalmente: “A memória de James Murdoch, do dia e hora em que foi informado e concordou com o acordo no caso de Gordon Taylor, o traiu”. O filho de Murdoch disse que ninguém lhe falara sobre o e-mail. “A verdade é que nós o informamos” – disse Tom Crone.

E como se não bastasse, o escândalo expôs a extensão dos laços de corrupção crônica que ligavam a empresa News International e a Polícia Metropolitana de Londres. É quase inacreditável, mas agora se sabe que dez, dos 45 assessores de imprensa da Polícia Metropolitana eram ex-empregados da NI; também não há dúvida possível de que o jornal News of the Worl  pagava propinas a policiais, com regularidade.

Dado que o jornal é propriedade também de uma empresa norte-americana, a prática de corromper funcionários públicos pode gerar processo criminal também nos EUA. E o FBI já iniciou investigação de acusações de que empregados de Murdoch podem ter grampeado mensagens de voz de vítimas dos atentados de 11/9. Se as acusações forem comprovadas, além das consequências legais, o efeito na opinião pública norte-americana será devastador. Será interessante observar o que fará a claque de jornalistas leais a Murdoch, do Wall Street Journal, para tentar neutralizar esse efeito.

Pois mesmo assim, apesar de todos esses horrores barrocos, a verdadeira história não é a dos jornais de Murdoch e os métodos repulsivos usados por seus repórteres: é a força, o peso descomunal da influência política que Murdoch exercia através de seus jornais. 

Por mais que a responsabilidade pela conduta obscena dos jornais que comandava caiba a Murdoch, a culpa pelo modo como exercia esse poder político ilegítimo e arbitrário é dos políticos que, por tanto tempo, ajoelharam-se, reverenciais, à sua frente. Cameron é o mais recente, e talvez ainda consiga provar alguma inocência. Mas é preciso dizer que, em todos os casos, Cameron nunca foi tão cínico, tão sem princípios, tão amoral em seus negócios com Murdoch, quanto Tony Blair.

No dias das eleições em 1992, the Sun superou-se a si mesmo, com a manchete que pôs na primeira página (“Se Neil Kinnock vencer hoje, o último que sair da Grã-Bretanha apague a luz”). Depois que os Conservadores já estavam reeleitos (e Kinnock renunciara à liderança do Partido Trabalhista) um doador de campanha dos Conservadores disse off the records que os Conservadores deviam a vitória, de fato, aos tablóides. O comentário alimentou um surto de onipotência do jornal que manchetou, também na primeira página: “O Sun é o grande vitorioso”. Provavelmente, mais uma mentira. Mas Blair estava convencido de que o Sun fora, sim, eleito. 

Logo que assumiu a liderança dos Trabalhistas ingleses em 1994, Blair passou a trabalhar para firmar uma aliança com Murdoch; no ano seguinte viajou à Austrália, para discursar na reunião anual da News Corp mundial (onde fez discurso que o posicionou muito mais à direita que qualquer dos predecessores). Não há dúvidas de que o Sun apoiou Blair em três eleições, e o Times foi convertido em verdadeiro Pravda do Novo Trabalhismo, com acesso irrestrito aos meandros obscuros da cabeça de Blair, e falando pela boca de seu pestilento, imundo assessor de imprensa e porta-voz, Alastair Campbell.

Os dois jornais tinham acesso privilegiado às notícias. A data em que Blair convocaria as eleições de 2001 foi vazada para o Sun antes até de Downing Street ter comunicado à rainha e chefe de Estado. Lance Price, que trabalhou na Downing Street de Blair, disse que todos sempre sentiam que Murdoch era uma invisível 25ª presença nas reuniões do Gabinete. E nenhum jornalista foi mais íntimo da casa que Tom Baldwin do Times, que às vezes falava como boneco de ventríloquo de Campbell.

Essa aliança foi plenamente explorada durante os meses que levaram à invasão – desnecessária, inútil e ilegal – do Iraque. O próprio Murdoch disse, sobre a invasão, que “a maior coisa que sairá disso, para a economia mundial, se se pode dizer assim, será o petróleo a $20 o barril”. Mas o Sun entendeu que sinceridade tão brutal, em tão altas doses, seria excessiva para muitos de seus leitores. Então, em vez do que Murdoch dissera, o Sun publicou, no dia 15/3/2003, que “Saddam armazenou armas de destruição em massa e recusa-se a entregá-las”; simultaneamente, Richard Littlejohn, colunista do Sun, escreveu que “será guerra, a menos que Saddam Hussein entregue suas armas de destruição em massa. Ele as tem. Sabemos que as tem. Ele sabe que nós sabemos que as tem.”

Esse relacionamento sórdido e manipulatório entre o governo de Blair e a imprensa foi exposto, do modo mais repulsivo, quando Downing Street, subrepticiamente, vazou a identidade de David Kelly, o inspetor de armas que, horrorizado ante a desavergonhada barragem de propaganda, dissera à BBC, em entrevista off the record, que o que Downing Street estava dizendo sobre armas de destruição em massa no Iraque não passava de grosseiro exagero.

Depois que Blair, pessoalmente e privadamente, tomou a decisão de “demitir” Kelly, começaram a pingar pistas de sua identidade, e vários jornalistas foram sendo conduzidos até a completa identificação. O Financial Times foi o primeiro a publicar o nome completo de Kelly, mas os jornais de Murdoch chegaram imediatamente depois. Kelly foi arrastado até uma comissão parlamentar de inquérito, onde foi agredido, insultado e humilhado. Suicidou-se dois dias depois.

Seria de supor que, depois de tudo isso, os honrados e ‘éticos’ Conservadores afastar-se-iam de qualquer relação mais próxima com Murdoch (ou, no mínimo, que tentariam encobrir suas relações com mais eficácia), mas Cameron também já fora fisgado. Em julho de 2007, contratou Andy Coulson como seu “diretor de comunicações”, ou sua resposta a Campbell. 

Também é muito significativo que a coisa mais próxima de um verdadeiro emprego, que Cameron jamais tivera, antes de ser eleito ao Parlamento, foi o de chefe de Relações Públicas numa empresa de televisão de segunda classe, Carlton Communications – na qual nunca foi reconhecido, em tempo algum, pelos escrúpulos.

Quando Coulson foi contratado, os Conservadores haviam despencado nas pesquisas, e perderam a cabeça. Coulson foi recomendado a Cameron por George Osborne – o que Rebekah Brooks confirmou no depoimento ao Parlamento. Osborne é o atual ministro das Finanças da Grã-Bretanha [ing. Chancellor of the Exchequer], e só resta rezar para que mostre mais prudência no trato das finanças públicas. Cameron e Osborne eram muito conscientes do próprio pedigree, de filhos de famílias abastadas, educados em escolas caras, que uma vez trajaram os paletós azuis do afamado Bullingdon Club em Oxford. Careciam desesperadamente de alguém como Coulson, que sabia falar às massas, por direitos de nascimento.

E Coulson acabava de ser forçado a demitir-se da editoria do News of the World já acossado pelas primeiras nuvens do escândalo dos grampos. Mas as nuvens só fizeram aumentar. Antes da eleição, Cameron foi alertado, privadamente, por Alan Rusbridger, editor do Guardian (jornal que persistiu na investigação, até que a história dos grampos estourou), de que provas que apareceriam na investigação em andamento, de um assassinato, seriam muito graves, contra Coulson, em função do envolvimento dele com um detetive e escroque.

Mesmo assim, Cameron insistiu em trazer Coulson para Downing Street. E ele lá ficou mesmo depois de a New York Times Magazine noticiar, em setembro passado, que Coulson era cúmplice direto no crime de grampear telefones. Dia 5 de outubro, Cameron disse que “não temos uma única reclamação a fazer sobre como [Coulson] trabalhava (...). É homem que serviu ao governo e atualmente dirige um bem sucedido escritório de assessoria de imprensa”. Coulson só deixou Downing Street em janeiro, quando as nuvens, de tão inchadas, desabaram, como dilúvio e como inferno.

Se a tolice de Cameron, antes de tudo, ao contratar Coulson, já seria indesculpável, a insistência em manter-se colado a ele, enquanto mais e mais provas se acumulavam, pareceria incompreensível, não fosse essa uma daquelas questões em cuja explicação tropeça-se, mesmo sem procurá-la. Tudo, hoje, leva a crer que Cameron, sim, desejava manter um agente de ligação com a empresa News International: um laço direto com Murdoch. OK. Teve o seu. E vejam no que deu! 

Tudo isso deu a Ed Milliband sua primeira oportunidade para brilhar, depois de meses marcando passo na obscuridade, desde que se tornou líder dos Trabalhistas em setembro. E Milliband agarrou-se a ela, batendo o mais que pôde em Cameron, o qual, então, também estava obrigado a romper qualquer laço que o ligasse a Murdoch. A declaração de independência de Milliband aconteceu quando disse, depois das revelações, que Murdoch não poderia ser autorizado a comprar a BSkyB. No mesmo momento, Murdoch retirou sua proposta, tática de retirada, evidentemente, na esperança de depois voltar, apesar de, hoje, todo o negócio já ser politicamente inconcebível.

“Com visão panorâmica e a posteriori e considerado tudo o que se seguiu”, Cameron discursou na Câmara dos Comuns, falando de Coulson, “eu nunca lhe ofereceria o emprego e espero que ele nunca aceitasse”. Qualquer ser humano sabe que não seria necessária nenhuma visão panorâmica: bastaria o mais elementar bom senso, ou o talento básico conhecido como autopreservação. Milliband tem muito que dizer contra Cameron, sim. Mas... Quem Milliband contratou como seu “diretor de estratégia e comunicação”?! Ninguém menos que Tom Baldwin! 

O mais engraçado é que, ano passado, ainda no Times, Baldwin ostentou o furo – excitante –, de que Ed Milliband concorreria à liderança dos Trabalhistas, contra seu irmão David Miliband, até então, a aposta mais quente. E nem bem Ed assumira a nova função em janeiro, quando Baldwin mandou instruções para os deputados da linha de frente dos Trabalhistas, no sentido de que “evitassem comentários que dessem a impressão de ataque desmedido a um grupo jornalístico”. Um doce, a quem adivinhar que grupo Baldwin tinha em mente. Ainda não apareceu político inglês cujas mãos não sejam manchadas de murdochismo.

Nada autoriza a supor que os truques sujos de News of the World sejam exclusividade dos tablóides de Murdoch, ou que a imprensa popular ‘aprenderá a lição’: até que o crime de grampear telefones converteu-se em “grande notícia”, inevitável, inescapável, o que se ouvia era o silêncio ensurdecedor sobre o assunto no Daily Mail e no Daily Mirror. A única coisa que aconteceu, depois de tantos e tantos escândalos anteriores, é uma ostentação de arrependimento fingido, algum tempo de moderação e então, como viciado que não resiste à droga, tudo voltará a ser feito como antes, pelos velhos sujos caminhos.

Até aqui, a resposta dos tablóides tem sido “denunciar” a cobertura que a BBC ofereceu da história, e reclamar, furiosamente, contra qualquer tentativa de regulação da imprensa. 

Há, sim, urgente necessidade de reformar-se a lei da mídia, para obrigar a imprensa a respeitar a privacidade dos cidadãos e a servir ao interesse público. Mas, isso, é o que nos prometem há anos, e continuamos à espera.

Seja como for, pode-se afirmar, no mínimo, que a obscena influência que Rupert Murdoch exercia sobre a política britânica, se não acabou, sofreu duro baque. Quebrou-se o feitiço. Vince Cable, ministro do gabinete Liberal Democrata que já enfrentou Murdoch, comparou o estado de espírito reinante em Westminster ao êxtase popular quando cai um tirano. 

Cameron, em tom compungido-grandiloquente, diz que todos “temos de aprender as lições e fazer, do momento presente, momento de catarse”. Sim, sim. E a primeira lição é que, para o futuro, os magnatas bilionários das empresas de comunicação e mídia sejam mantidos bem longe da convivência com primeiros-ministros, ministros etc. Nada muda, de fato, se são obedecidos, se entram pela entrada principal ou pela porta dos fundos.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

“Murdoch falava MUITO MAIS com seus editores, do que diz”

Oliver Wright

27/7/2011, Oliver Wright, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu




Excerto da discussão de pauta, na Vila Vudu:
Vam traduzi isso aí, sim. Taí o caso Murdoch, prá prová comé o negócio. 
Os nossos ministros dos nossos governos Lula-Dilma têm de pará coesse papim-fraco de dar entrevista pro grupo GAFE (Globo-Abril-Folha-Estadão) do desjornalismo brasileiro. 
Um dia, a casa cai prôs murdochs do grupo GAFE Brasil-2011, os carin lá vai tudo pará na cadeia... e comé kefica quem vivia em convescotes com eles?!
Já não basta a presepada dos mervais e miogosdainardis e goldembergs e cerras & tucanaria udenista golpista, em lambeção de bota côs sub-dos-subs da embaixada dos EUA, como WikiLeaks noticiou?! 
Se, no Brasil os jornalistas são “idiotas que perderam a modéstia” (e são!), por que, diabos, o Jobim vive a dar entrevistas por aí, prôs mesmos idiotas arrogantes do grupo GAFE? 
Deu pá entendê, ministro Jobim... OU A GENTE VAI TÊ QUE DESENHÁ?!

Rupert Murdoch mantinha contato muito mais próximo e mais frequente com os editores de seus jornais londrinos do que admitiu no depoimento a deputados do Parlamento inglês, semana passada –, disse ontem seu biógrafo.

Michael Wolff, que gravou mais de 60 horas de entrevista com Rupert Murdoch para sua biografia semiautorizada, disse que o presidente e principal executivo da empresa News Corp passava “mais da metade do dia, todos os dias” envolvido com os jornais e conversava regularmente com os editores sediados em Londres sobre matérias a serem publicadas.

Semana passada, em depoimento ao Parlamento, Rupert Murdoch declarou que “só muito raramente” conversava com seus editores em Londres, e acrescentou: “Vocês não fazem ideia da quantidade de assuntos de que tenho de tratar diariamente. Acabei por perder de vista o The News of the World, talvez porque era pequeno demais, praticamente insignificante no contexto geral de minha empresa”. 

Mas em entrevista ao Independent, Mr. Wolff, que teve o mais irrestrito acesso à intimidade da família Murdoch quando escreviaThe Man Who Owns the News publicado em 2008, disse que Rupert Murdoch sempre foi proprietário muito mais presente e ativo do que agora admite.

“O envolvimento [de Murdoch] com os jornais sempre foi total” – disse Wolff. “Rupert foi chamado a depor, e seus advogados disseram ‘Você tem de dizer que não se envolvia com os jornais’. E ele foi e mentiu.” 

E acrescentou: “Estive com ele durante horas e horas. Todas as vezes em que trabalhamos, ele atendia, pelo menos, um telefonema e muitas vezes atendia vários telefonemas, de Londres. Sempre eram os editores – James [Murdoch] e Rebekah [Brooks].

“Pelas minhas contas, ele passava metade do dia envolvido diretamente no dia a dia dos jornais. Ele trabalha assim. Ele telefona – e pergunta sobre as manchetes. Quer saber o que está sendo preparado. Quer saber de onde vieram as matérias. É sempre muito preciso quando fala de uma ou outra matéria, quando pensa sobre uma matéria, ao analisar a substância da história: se é boa, ou se é fraca.” 

Mr. Wolff lançou dúvidas sobre as declarações de que a empresa News Corp nada teria tido a ver com a indicação de Andy Coulson para trabalhar com David Cameron. Disse que acredita que tenha sido parte de uma estratégia construída por Rebekkah Brooks e James Murdoch, para conseguir que Rupert decidisse apoiar o então líder da oposição.

“Em 2007, quando eu estava preparando o livro, Rupert não tolerava Cameron” – disse Mr. Wolff. “Falava abertamente contra ele, sempre com desdém. Depois, começou a dizer “meu filho gosta dele e vou ter de confiar no que meu filho diz. A decisão será do meu filho.” 

“Rebekkah fez campanha, se não para obter o apoio de Rupert a Cameron, pelo menos para reduzir a antipatia que Cameron lhe inspirava. Parte dessa campanha foi a indicação de Andy Coulson. Pessoalmente, não tenho dúvidas que houve uma barganha: para atrair Rupert na direção de Cameron. Rebekkah incluiu Andy no processo, como alguma espécie de garantia, para convencer Rupert a apoiar Cameron.”

Na opinião de Mr. Wolff, que rompeu espetacularmente com Rupert Murdoch depois da publicação do livro, o papel crucialmente decisivo que Murdoch desempenhava na empresa está hoje gravemente comprometido.

“Agora, estamos diante de um fato consumado. Não há como voltar atrás. É impossível meter a pasta de dente de volta no tubo” – diz ele.

Encontros com ministros... 

George Osborne [desde maio de 2010, é Ministro da Fazenda do Reino Unido, Chancellor of the Exchequer]

Teve dois encontros com Rupert Murdoch depois da eleição de maio de 2010; quatro com seu filho, James Murdoch; cinco com a ex-editora executiva de Murdoch na empresa News International, depois de presa, acusada de participação no crime de grampeamento ilegal de telefones; e um encontro com Elisabeth Murdoch. Convidou Elisabeth Murdoch para sua festa de aniversário.

Jeremy Hunt [Secretário de Estado da Cultura, Jogos Olímpicos, Mídia e Esportes] 

Teve dois encontros em janeiro de 2011 com James Murdoch para “delinear o processo da fusão da BSkyB”. Jantou com Rupert Murdoch dias depois da eleição geral.

Michael Gove [Secretário de Estado da Educação] 

Rupert Murdoch almoçou ou jantou seis vezes com Michael Gove a partir das eleições, mais do que com qualquer outro ministro do Gabinete. Gove reuniu-se uma vez com James Murdoch.

Liam Fox [Secretário da Defesa do Reino Unido]

Três reuniões com executivos da empresa News International, nas quais o ministro passou-lhes informes da Defesa (em agosto do ano passado e em março e junho de 2011). Rebekkah Brooks esteve presente às três reuniões; James Murdoch participou de duas; e Rupert Murdoch, de uma.

terça-feira, 26 de julho de 2011

O dilema institucional da mídia ocidental

25/7/2011, Wang Fang, People’s Daily Online, Pequim, China
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário entreouvido na Vila Vudu
Depois de eeeeeeras ouvindo asneiras metidas a “éticas” e “democráticas” sobre a importância da “liberdade de imprensa” para a salvação da democracia (com eleições em que as empresas de comunicação elegem e deselegem quem bem entendam -- ou quase!), a China, agora, deita e rola. Muito bom! 
Agora, só não vê quem não queira: “liberdade de imprensa” pro grupo GAFE (Globo, Abril, Folha & Estadão), só engendra monstruosidades como, dentre muuuuuuitas outras monstruosidades, elianes, mervais, waacks, miriansleitões, donasdanuzas, korasdramers, magnollis & outros murdochs (pooobres), por aí! [risos, risos] Ótimo!

A verdade é que NADA no mundo, nem algum jornalismo controlado pelo Partido Comunista Chinês, pode ser PIOR que o jornalismo controlado pelo grupo GAFE & murdochs em geral. A luta continua. Só a luta ensina!

O escândalo de telefones grampeados por jornalistas de News of the World, jornal britânico, desencadeou um efeito-dominó: outros jornais ligados à empresa-mãe News Corporation começam a ser acusados também de participação ativa em novos escândalos que não param de ser descobertos. Afinal, começam a ouvir-se vozes até nos EUA, na Austrália e em outros países, que exigem ampla investigação e reavaliação dos princípios éticos do jornalismo e imposição de medidas para supervisionar jornalistas e jornais. O escândalo já ultrapassou os limites da imprensa e causou reações em cadeia nos círculos policiais e políticos; o premiêr britânico David Cameron enfrenta a maior crise política desde que assumiu o governo.

O escândalo dos telefones grampeados não é aberração provocada por uma ou outra empresa jornalística ou um ou outro jornalista que esquece a própria responsabilidade social e abusa, individualmente, da liberdade de imprensa. O escândalo reflete o dilema institucional em que a imprensa ocidental e o sistema democrático representativo enfrentam desde sempre, em seu processo de desenvolvimento.

Na história do jornalismo ocidental, os meios massivos sempre falam muito da “liberdade” e batem tambor a favor do estabelecimento e desenvolvimento do sistema democrático capitalista. A imprensa ocidental sempre se apresenta como “o Quatro Estado”, que seria independente do executivo, do judiciário e do legislativo, e que seria “um príncipe não coroado”, que distribuiria fatos e verdades e protegeria a justiça e a sociedade.

Contudo, quando subiu a maré dos monopólios e da fusão de empresas, as empresas de comunicação de massa sempre foram parte interessada no processo. Nos anos 1980s, 50 grandes empresas controlavam praticamente todo o jornalismo de massa nos EUA. Em meados dos anos 1990s, esse número já estava reduzido e todo o poder já estava concentrado em apenas dez empresas.

Hoje, no século 21. a imprensa está praticamente monopolizada nos EUA, controlada por apenas cinco grupos financeiros, entre os quais Time Warner, Walt Disney e News Corporation. A empresa News Corporation, de Rupert Murdoch, alcança vários continentes e é proprietária de 40% dos jornais do mundo, entre os quais o Times e News of the World. Nos EUA, a mesma empresa controla vários veículos, todos de grande circulação ou audiência, entre os quais o Wall Street Journal, a rede Fox de televisão, Movie.com e dúzias de estações de televisão. Além disso, mais de 70% de todos os jornais com sede na Austrália pertencem à mesma empresa. É absolutamente impossível falar de liberdade de imprensa, senão em sentido absolutamente superficial e oco, ante o processo de fusão de megaempresas que leva, exclusivamente, ao monopólio do direito de expressão.

Artigo recentemente publicado, intitulado “o capital é mais forte que a liberdade: Murdoch venceu”, diz que os jornalistas dos EUA têm de enfrentar a triste realidade de que rezam pela mão do único deus que efetivamente reconhecem; e que não se chama “liberdade de imprensa”; chama-se “capital”.

W. Lance Bennett, professor norte-americano, disse que todos os políticos e grupos políticos, inclusive o presidente, os senadores, grupos de interesse e radicais, conhecem ou deveriam conhecer a importância da imprensa para suas carreiras políticas. Grupos multinacionais de comunicações já controlam completamente não só os veículos, como empresas, mas também já constituíram poderosíssimos grupos de interesses, nos quais se interconectam os negócios, a política, veículos e profissionais que, todos esses, constituem uma elite que existe exclusivamente para proteger os interesses dessa elite.

Agências governamentais e as corporações de comunicações cooperam, mais do que se interfiscalizam. Os políticos acabam por aprender a usar a imprensa e algumas vezes têm, mesmo, de render-se à imprensa – quando não a subornam diretamente – para aumentar o próprio poder ou ganhar status graças ao auxílio da imprensa.

Segundo matérias publicadas na imprensa britânica, Andy Coulson, ex-editor-chefe do jornal News of the World e ex-principal assessor de comunicações do primeiro-ministro britânico David Cameron, foi preso, há algumas semanas, acusado de participar no grampeamento ilegal de telefones. Ligado por laços fortes com todo o mundo dos jornalistas ingleses, Coulson teve papel decisivo na campanha eleitoral que levou Cameron ao poder, como candidato dos Conservadores, nas eleições do ano passado. Peter Oborne, principal editor de política do jornal Daily Telegraph, disse que, nos últimos 20 anos, o fator decisivo para qualquer candidato que desejasse alavancar sua carreira política foi aproximar-se de Murdoch e conquistar sua simpatia.

Para maximizar interesses comerciais, vários jornais e jornalistas sempre usaram meios ilegais – escutas e grampos clandestinos e ilegais, suborno e chantagem – para obter informações exclusivas e a proteção de políticos e policiais. Agências governamentais, às quais deveria caber fiscalizar e coibir esse comportamento de jornais e jornalistas, mantiveram-se cegas, para não se indispor com jornalistas e jornais – o que foi como autorizar e legitimar os crimes ‘da mídia’. O escândalo das escutas clandestinas, agora, afinal, expôs completamente as relações complexas e obscuras que há entre jornais, jornalistas, policiais e outros funcionários corruptos.

O que ainda se chama no ocidente “liberdade de imprensa” acabou por condenar grandes países ocidentais democráticos à degradação de um círculo vicioso no qual “a imprensa modela a opinião pública; a opinião pública pressiona os políticos; e os políticos, em colusão com jornais e jornalistas, trabalham a favor de seus próprios interesses” – sempre privados, jamais públicos.

Nos estágios iniciais das guerras no Iraque e na Líbia, todos os grandes jornais do Reino Unido e dos EUA deram massiva divulgação a vitórias da coalizão, e sempre ignoraram o trágico grande número de civis mortos e a brutalidade da guerra. Indústrias que fabricam armas, empresas de comunicação e agências do governo constituíram comunidades de interesses, usando todos os meios possíveis para manipular, modelar e controlar a opinião de seus cidadãos.

O monopólio é o predador natural da liberdade. Os grupos globais de televisão e jornais, beneficiários, hoje, dos sistemas de comunicação de massa e, agregados a esses, também os sistemas da democracia ocidental, não têm medido esforços para homogeneizar as necessidades de alguns grupos domésticos, oferecendo sempre informação limitada e enviesada; e também se dedicam a reforçar estereótipos negativos contra outros povos e outros países. 

Há muito tempo, a voz dos países pobres e emergentes foi suprimida das discussões sociais no ocidente, pela influente indústria da mídia ocidental. A mídia ocidental é responsável pela abissal desigualdade de informação entre países ricos e países pobres – e essa desigualdade construída inevitavelmente fez aumentar as desigualdades políticas e econômicas.

A indústria da mídia modela a opinião pública, mas não escapa da influência do poder político e da economia. No seu último editorial, antes de o jornal ser fechado, News of the World admitiu: “Nós perdemos o rumo”. Mas há outra pergunta no ar, a espera de resposta:

“O que mais toda a imprensa ocidental perdeu?”

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Murdoch, como Napoleão, é um grande homem mau

Conrad Black

14/7/2011, Conrad Black, Financial Times, Londres
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Conrad Black foi diretor e editor-chefe dos Telegraph Newspapers e de vários outros jornais. Foi condenado em cinco processos por fraude e obstrução da justiça em 2007. Cumpriu 29 meses de prisão, até que a Suprema Corte o absolveu. Uma corte de apelação restaurou duas das condenações e Black deverá cumprir mais 7½ meses de prisão. Ele continua a jurar inocência. Escreve coluna semanais para a National Review.


Rupert Murdoch é, provavelmente, o mais bem-sucedido proprietário e operador de empresa de comunicação da história. Não há o que dizer contra sua firmeza, visão e capacidade para fazer, na conquista do mercado britânico de tablóides, na liderança da integração vertical da mídia, unindo estúdios de cinema e estações de televisão, na quebra do monopólio dos EUA na televisão britânica, e é um dos mais notáveis pioneiros da televisão por satélite e na criação de uma rede conservadora-populista de notícias. (Foi para reduzir a dependência da News Corp, do Tea Party de Roger Ailes, que Murdoch tanto insistiu em gastar $13,3 bilhões de dólares para comprar o controle acionário da BSkyB.) Também é preciso admitir que o Wall St Journal é o único produto de qualidade que Mr. Murdoch algum dia comprou e, de fato, aprimorou.

Teve sorte algumas vezes, sobretudo quando Margaret Thatcher isentou de qualquer regulação seu satellite telecasting (apesar de ela só estar retribuindo os favores que recebeu do Sun); quando perdeu o leilão para comprar MGM, pouco antes da crise financeira quase mortal de 1990; e quando a British Satellite Broadcasting foi gerida com tal inépcia por Granada e outros, que morreu em seus braços há vinte anos. Mas sorte é parte pequena, na explicação de seu sucesso.

É pouco provável que Mr. Murdoch, seu filho James, ou Les Hinton tenham cometido crimes (Mr. Hinton é homem muito decente). Gente de discernimento não se deve deixar impressionar pelo processo, que conheço tão bem, como o conhecem outras vítimas dele, de uma mídia hostil que vive de solenemente citar professores de Direito e fontes que se escondem no anonimato (quase sempre mera expressão de fantasias tendenciosas pessoais dos próprios jornalistas), em comentários sobre as dificuldades que os Murdochs enfrentam hoje com a justiça. Ninguém deve invejar The Guardian, a BBC, a CNN, o New York Times e outros que se divertem à custa dessas dificuldades, nem levar excessivamente a sério o que dizem. Mr. Murdoch é, como Clarendon disse de Cromwell e o historiador britânico David Chandler atualizou para Napoleão, “um grande homem mau”. É errado lançar dúvidas sobre sua grandeza, a partir do que nele é mau.

Denegrir Murdoch tem sido, até bem recentemente, suja atividade na qual se empenham, principalmente, os invejosos, a extrema esquerda e os comercialmente não competitivos, comentaristas incapazes de leitura não interessada, quase sempre – mas nem sempre. Quanto a isso, pelo menos, essa é a hora da verdade. 

Por décadas, o establishment britânico professou desprezo por Mr. Murdoch mas não o contrariou e sempre lhe foi servil (“Desaprovo Rupert profundamente, mas até que gosto dele” foi o refrão mais tedioso), como quando se viu bem claramente que boa parte da Londres ‘que pensa’ esperava que ele derrotasse o Daily Telegraph na guerra de preços que lançou em 1993. É motivo de algum orgulho para nós, do Telegraph que, então, não tenhamos sido derrotados. Por mais que queira responder resposta robusta aos britânicos, nem por isso preciso praticar o desarmamento verbal unilateral.

Surpresa será se alguns dos empregados da News International não se envolveram em crimes, revelando o clima de imunidade que regeu o modus operandi do grupo ao longo de décadas. Sucessivos governos na Grã-Bretanha submeteram-se de modo supinamente obsequioso a ele. Quanto mais os títulos de livros de jornalistas do grupo vituperavam a família real, mais seus livros apareciam resenhados no Sunday Times.

Apesar de ser homem de personalidade em geral bem agradável, Mr. Murdoch não é leal a nada e a ninguém, exceto ao seu negócio. Tem dificuldade para cultivar amizades; raramente mantém a palavra por muito tempo; é especialista em explorar o desconforto dos outros; e traiu todos os líderes políticos que algum dia o ajudaram em vários países do mundo, exceto Ronald Reagan e talvez Tony Blair. Todos os seus instintos apelam aos mercados populares: não é apenas sensacionalista de tablóides; é mal intencionado fazedor de mitos, assassino da dignidade dos outros e de instituições respeitáveis, tudo sob a máscara do antielitismo. Finge-se de pilar do populismo contemporâneo ilustrado na Grã-Bretanha; e de conservador sensível nos EUA – mas há anos lambe botas em Pequim. 

Sua noção de entretenimento público e valores civis são os mesmos do seriado de televisão “The Simpsons”: todos os funcionários públicos são escroques e o público é um lumpenproletariat ignorante. Nada há de ilegal nisso, e tem aspectos engraçados, mas é inadequado em alguém que tem sido alvo de tanta reverência e favorecimento oficial.

Antes de a empresa News Corp desistir da proposta para comprar o controle acionário da BSkyB, eu ainda acreditava que, se se tratasse apenas de alguns jornalistas que subornaram alguns policiais e invadiram algumas privacidades, as autoridades deveriam aplicar-lhes as devidas palmadas e deixar que o negócio se consumasse. Que seria coisa pequena. Ninguém precisa de intrusões regulatórias tolas, e tudo acabaria como mais uma das trapaças camufladas de Rupert, que voltaria com oferta para comprar por melhor preço.

De fato, não vejo qualquer diferença prática, no que tenha a ver com interesse público, que Mr. Murdoch já controle, como controla, a BSkyB, ou que venha a ser único proprietário da empresa. Se, mas só nesse caso, a empresa News Corp for considerada legalmente culpada de crimes institucionais – e os réus têm sempre a seu favor a presunção de inocência (por mais que esse direito só muito raramente seja respeitado) – a licença da empresa para transmitir por satélite deve ser cassada.

Trata-se de recuperar a integridade das elites inglesas governantes, e nada conseguirão com as frágeis racionalizações de Alastair Campbell que o Financial Times publicou na 2ª-feira, nem com o pouco convincente recurso a princípios, de Ed Miliband.

É preciso resgatar o que sobre de décadas de covardia do establishment, frente a alguém cuja natureza todos conheceram sempre muito bem. Errou o establishment britânico. E não pode deixar-se seduzir e intimidar tão profundamente e por tanto tempo, outra vez.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O PT (Partido Trabalhista INGLÊS) e a imprensa: “Foi batalha pelo poder, que jamais conseguiríamos vencer”

18/7/2011, *Jonathan Powell, Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Não escrevo para me desculpar pelos esforços que o Novo PT [orig. New Labour] fez para aproximar-se de Rupert Murdoch e de Lord Rothermere em 1994. Passáramos 18 anos na oposição, em parte porque não tínhamos nenhum tipo de cobertura que nos preservasse do massacre diário dos tablóides conservadores. Tentar nos aproximar de pelo menos alguns deles foi estratégia razoável. Políticos só sobrevivem se conseguem fazer-se ouvir pela opinião pública, e tem de ser pela imprensa. Mas aprendêramos bem as lições do tempo em que estivemos na oposição, e, chegados ao governo, nos preocupavam muito os barões da mídia, sobretudo na Europa.

A edição final do News of the World vendeu 1,5 milhão de cópias extras. 
Foto: Mike Kemp / Mike Kemp / In Pictures / Corbis
Gordon Brown decidiu que o “primeiro turno” que tinha de vencer, se quisesse chegar à liderança do PT seria aproximar-se de Murdoch e chegou a tentar usar a boa vontade que então recebia de Murdoch e de Paul Dacre, editor do Daily Mail, como alavanca para tirar Tony Blair do n. 10 da rua Downing. David Cameron seguiu essa escrita, e cultivou assiduamente uma nova geração de Murdochs, mobilizando-os contra o Brown.

Esse tipo de relacionamento entre políticos e a imprensa continuará, aconteça o que acontecer a Murdoch, a menos que se façam mudanças num plano muito mais fundamentalmente importante que o futuro financeiro da empresa News International. Em junho de 2007, Tony Blair fez cuidadoso discurso no qual falou dos problemas e ofereceu soluções. A imprensa desmantelou o discurso, porque a imprensa não tem nenhum interesse em nenhuma discussão séria sobre... a imprensa. 

Assumo que nos deixamos apanhar na arapuca da “crítica” que a imprensa nos fez, porque deixamos aquele discurso para muito tarde, quando o mandato de Tony já chegava ao fim. Erramos por medo da vingança da imprensa e por um erro inadmissível nos contatos com a “mídia”: apresentamos a própria “mídia” como besta fera sem escrúpulos. Já deveríamos saber, àquela altura, que os jornalistas, colunistas e “analistas” destacariam a “acusação”, apagariam o resto do discurso e calariam os argumentos que não lhes fossem favoráveis.

No governo, pensamos na possibilidade de tomar passos radicais, para por em novas bases o relacionamento com a imprensa. Em 2002, encomendamos a especialistas um estudo sobre novas regras de conduta para a imprensa, que poderia vir a ser lei; um projeto de lei para impor limites à propriedade de empresa de comunicação. Em discurso de 2006, a Rainha introduziu reflexões sobre algumas daquelas medidas. Mas recuamos, nas duas ocasiões, por causa do massacre incansável que sabíamos que aquelas medidas enfrentariam na imprensa. E não podíamos confiar no apoio da oposição (sequer podíamos confiar no apoio dos nossos!) por causa dos desesperados elogios que Gordon fazia a Dacre e Murdoch. No final, entendemos que era uma guerra pelo poder e que não tínhamos meios para vencê-la.

A raiz do problema é a impermeabilidade da imprensa a qualquer controle. E a total impunibilidade. A razão pela qual os jornais de Murdoch e outros podem invadir contas bancárias, plantar jornalistas seus empregados em todos os cantos do governo, de onde podem roubar documentos, vasculhar latas de lixo e agendas pessoais de políticos e celebridades em geral e interceptar telefones de cidadãos comuns é porque (1) nada lhes acontece e (2) há uma ideologia de legitimação desses atos (os jornalistas estariam ‘fiscalizando’ o poder). Costumávamos perguntar aos jornalistas dos jornais dominicais, por que haviam publicado matéria que sabiam ser forjadas. Eles riam e respondiam que “era uma grande matéria”. Quando, depois, se comprovasse que a matéria fora forjada, nada aconteceria nem ao jornalista nem a empresa que o emprega: já haveria outras notícias, o mundo anda, ninguém seria punido. Uma ou outra condenação judicial de jornais ou jornalistas vira tabu, que nenhum jornal publica.

Dacre diz que, diariamente, é julgado pelos leitores. Bobagem. Quase dois milhões de pessoas compraram o News of the World depois de o jornal já estar exposto pela prática de vários crimes, como se fosse edição “normal” do jornal do domingo a que estavam habituados.

A Comissão de Autorregulação da Imprensa, fundada pelos barões da imprensa e presidida pelo próprio Dacre e outros editores, já comprovou que é incapaz de manter qualquer tipo de fiscalização dos crimes que a própria imprensa comete. Assim sendo, por que não examinamos soluções encontradas em outros países? A resposta automática é que queremos preservar nossa tradição de imprensa livre. Mas a Alemanha criou leis que asseguram pleno direito de resposta. Alguma imprensa ficou menos livre, por algum caluniado ter-se defendido? As televisões seriam talvez menos livres, se fossem fiscalizadas e cobradas quando não fossem imparciais? Países nos quais se respeitam as leis que protegem a privacidade dos cidadãos seriam por acaso menos democráticos? Claro que não. 

Em todas as ditaduras, a imprensa é controlada pelo favor do ditador: só o próprio ditador e seus amigos oligarcas podem ser proprietários de empresas de comunicação. Ou assassinam-se jornalistas independentes. Nenhuma ditadura controla a imprensa por leis aprovadas democraticamente. A própria ditadura controla a imprensa. É exatamente o mesmo mecanismo que se vê em países ‘livres’! 

Será que o juiz Levenson, que presidirá o inquérito do escândalo Murdoch terá coragem para sugerir as medidas que tornarão a imprensa britânica mais transparente ao controle social? Não, se, antes, conversar com Brian Hutton. 

Lord Hutton supunha que tivesse sido chamado a presidir inquérito sobre a morte de David Kelly como juiz imparcial. Analisou as provas, ouviu as testemunhas e chegou a sentença justa. Foi quando a imprensa, que até ali o elogiara pela condução equilibrada do inquérito, não gostou da sentença. E a imprensa virou-se contra ele. Foi pessoalmente atacado, foi acusado de ter julgado movido por instinto de vingança. Depois daquele inquérito, nunca mais nenhum juiz atreveu-se a condenar ou absolver quem a imprensa não quisesse ver absolvido ou condenado.

Já houve inúmeras comissões nomeadas pela Rainha e grupos de exame da imprensa na Grã-Bretanha, mas nenhuma conseguiu alterar a equação básica. Duvido que batalhas pelo poder político possam ser decididas em inquéritos ou em relatórios de comissões de notáveis, por melhores que sejam.

Ainda que o inquérito não nos traga qualquer resposta, é possível que alguma solução apareça bem antes do que esperam os barões da imprensa. Pode vir das novas tecnologias. Na internet, o jornalismo impresso e a televisão estão-se misturando, Os jornais online são fartos de conteúdos em vídeo. Na Grã-Bretanha, as televisões online não são reguladas. O jornal BBC News online já é o jornal mais lido do país. Novas fontes de informação, híbridas, ganham cada vez mais leitores entre os mais jovens. Na medida em que cresça essa convergência, cada vez menos sentido haverá em dois sistemas de regulação. 

O mais provável é que o advento do blogueiro, muito mais que alguma condenação (ou absolvição) de Murdoch, consiga pôr fim à suja mistura em que vivemos hoje, de política e barões da imprensa.

*Jonathan Powell foi secretário do Gabinete de Tony Blair (1997-2007).