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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Os anglo-americanos estão loucos

14/6/2015, [*] Finian CunninghamStrategic Culture
Tradução: mberublue

Philip Hammond, Secretário de Relações Exteriores

Se vivêssemos em um mundo são, o Secretário de Relações Exteriores da Inglaterra deveria ser obrigado a deixar seu posto de principal diplomata do país, coberto de desgraça e desaprovação, na sequencia de suas desastrosas declarações de que a Inglaterra deveria estar pronta para receber mais armas nucleares dos Estados Unidos, supostamente para conter a “ameaça russa”. Assim sendo, nós teríamos uma escalada alarmante das tensões internacionais e militarismo causados por ambos os países – Estados Unidos e Inglaterra – e tudo por causa de palavras imprudentes baseadas em fatos não provados. Claramente, os aliados anglo-americanos estão trabalhando em conjunto.
A regressão sem pejo de Hammond para o ambiente da Guerra Fria vem na mesma medida de Washington, que também tornou pública sua intenção de estar considerando colocar em vários países europeus, mísseis nucleares de “ataque preventivo”. Declaram os norte-americanos que esse movimento viria “em resposta” às supostas violações pelos russos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Médio (INF). Moscou está sendo acusada de testar mísseis de cruzeiros baseados em terra que estariam proibidos sob o tratado. A Rússia tem negado sistematicamente as alegações acusatórias de Washington, que – como parece estar se tornando uma espécie de norma em outros assuntos contenciosos – não tem sustentação em nenhum tipo de evidência ou prova da parte de Washington.
Tal atitude difamatória contra a Rússia é duplamente desprezível, porque não se trata apenas de uma calúnia. A mentira também serve como cobertura moral que permite aos anglo-americanos perpetrar outras etapas ultrajantes que resultam em perigo flagrante para a paz mundial, com a alocação sem precedentes de armas nucleares.
No que se refere à questão da colocação na Inglaterra de armas nucleares dos Estados Unidos, Hammond afirmou ao jornal de direita Daily Telegraph:
(...) penso que é correto de nossa parte estarmos preocupados se a direção tomada pela Rússia é o que chamam de “doutrina de guerra assimétrica”. Nós precisamos enviar um sinal muito claro para a Rússia, de que não permitiremos qualquer transgressão às nossas linhas vermelhas. Poderemos considerar a proposta [de permitir a instalação de armas nucleares norte-americanas em solo Britânico]. Trabalhamos lado a lado com os norte-americanos. Caso essa decisão seja mesmo colocada sobre a mesa, deve ser tomada em conjunto. Quanto a nós, devemos pesar os prós e os contras e chegar a uma conclusão.
Para justificar a si mesmo, o Ministro britânico de Relações Exteriores buscou relacionar a questão nuclear à alegada agressão russa no leste ucraniano, aduzindo:
Há sinais bem preocupantes de que aumentam as atividades tanto pelas forças russas quanto pelas forças separatistas controladas pelos russos.
Hammond tentou parecer ambíguo sobre a instalação de armas nucleares dos Estados Unidos em território Britânico – as quais se somariam ao próprio arsenal nuclear da Inglaterra – mas o simples fato de que seu governo está considerando a possibilidade, já é um movimento flagrantemente imprudente. Se tal acontecesse, reverteria a proibição relativa a essas armas que ocorreu na sequência do fim da Guerra Fria há mais de 20 anos.
Guerra fria 2.0 - Manobras da OTAN

Ironicamente, enquanto Hammond estava nesta semana se esforçando para que o Parlamento permitisse um referendo sobre a permanência da Inglaterra como membro da União Europeia, sequer uma palavra foi dita ao público inglês, para saber se a população inglesa quer mais uma vez tornar-se parte da força de ataque nuclear dos Estados Unidos.
Mas talvez a infração merecedora de cartão vermelho cometida por Hammond seja o fato de que ele está militarizando perigosamente a política externa da Inglaterra sem estar lastreado em nenhuma evidência razoável; na realidade, baseia-se em desinformação total. Exatamente como seus aliados em Washington, o Ministro do Partido Conservador está fazendo toda sorte de acusações mentirosas e histéricas contra a Rússia, que vão desde constituir uma ameaça para a Europa, até usar “doutrina de guerra assimétrica”, passando pela suposta invasão do leste ucraniano e chegando à sabotagem do acordo de cessar fogo de Minsk (aliás, uma tentativa de paz que Moscou trabalhou duramente para implementar, juntamente com a Alemanha e França em fevereiro, com a significativa ausência de Washington e Londres).
Sem qualquer informação confiável, os norte-americanos e britânicos parecem estar se movendo deliberadamente no sentido de incrementar a capacidade de um ataque nuclear preventivo contra a Rússia. Como relatou a Associated Press na última semana, embora usando uma linguagem eufemística:
(...) as opções chegaram apenas ao nível de insinuações – mas não de declarações enfáticas – de que certamente melhorariam a capacidade das armas nucleares dos EUA para atingir alvos em território russo.
A verdade é que os norte-americanos, os britânicos ou a OTAN não produziram sequer um fiapo de evidência verificável de que a Rússia tenha violado o Tratado INF, ou esteja subjugando a Ucrânia ou ameaçando qualquer outro país europeu.
No leste ucraniano os relatos mais confiáveis sobre a situação emanam tanto do grupo de monitoração do cumprimento do acordo de Minsk feita pela Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) quanto de fontes da mídia local e de oficiais separatistas de que o recente incremento da violência vem do regime de Kiev, apoiado pelo ocidente. A violência inclui o bombardeio de centros residenciais na cidade de Donetsk e nos arredores de pequenas cidades e vilas, que resultaram na morte de dúzias de civis durante a última semana.
Exército da Junta de Kiev bombardeia áreas civis em Donetsk

A maneira pela qual os britânicos e norte-americanos distorcem os fatos para fazer da Rússia o agressor e destruidor do cessar fogo de Minsk é apenas uma assertiva prejudicial que se baseia em qualquer coisa, menos nos fatos. Desta forma, essa visão é uma distorção dos fatos que chega às raias da mentira descarada.
Que o Secretário para a Política Externa possa fazer comentários tão enganosos e aparentemente desorientados sobre o conflito na Ucrânia e sobre a Rússia em geral, e pensar em mudar a política militar da Inglaterra para instalar no território inglês armas nucleares dos Estados Unidos é digno de expulsão do ministério por extrema e grosseira incompetência.
A adoção por Hammond de um militarismo nuclear em meio a um tenso impasse político entre Oriente/Ocidente não passou em brancas nuvens na Inglaterra. Suas teses e afirmações belicosas causaram controvérsia, com várias campanhas antiguerra em repúdio à imprudente reversão para a mentalidade de Guerra Fria. Contudo, o fato de que a incompetência de Hammond não tenha causado ainda mais celeuma é um preocupante sinal da dormência moral do povo inglês, que não fez com que Hammond incorresse numa condenação pública ainda maior.
Nas entrelinhas, a política externa dos governos dos Estados Unidos e da Inglaterra trata-se apenas disso: uma ideologia de Guerra Fria, que os faz ver o mundo inteiro como inimigos ou “ameaças externas”. Mais uma vez, Rússia e China são vistos e retratados como inimigos.
Na última semana, em uma entrevista para o jornal italiano Corriere dela Sera, o Presidente russo, Vladimir Putin observou:
Já que muitos países têm preocupações sobre possíveis agressões pela Rússia, eu penso que apenas uma pessoa insana, louca, e apenas em sonhos maus poderiam imaginar que a Rússia poderia subitamente atacar a OTAN.
Assista a seguir entrevista completa com legendas em italiano:
Ora, por dedução, esse raciocínio lista pessoas com a visão dos fatos de Hammond como “insanas”. O mesmo vale para o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama e sua administração. Discursando na recente reunião de cúpula do G7 na Alemanha, Obama pontificou: “precisamos encarar a agressão russa”.
A pergunta lógica é: por que tanto Washington como Londres em particular, interpretam o mundo em termos de inimigos, ameaças e agressões?
Parte da resposta pode ser a de que essas mesmas potências são as maiores praticantes de agressões ilegais na perseguição de seus objetivos na política externa. O Imperialismo – uso de força militar na sustentação de metas políticas e econômicas – é parte indissociável da forma pela qual Estados Unidos e Inglaterra operam no mundo. Agressão e militarismo são instrumentos fundamentais do imperialismo anglo-americano, assim como acordos para atividades bancárias, de investimento e comércio (TPP e TTIP).

TPP, TTIP, TISA, CETA - Assalto à DEMOCRACIA


Não se pode negar que existe uma espécie de “consciência do mal” que rola nas relações internacionais tanto de Inglaterra como dos Estados Unidos. Ambos temem (com razão) retribuição e vingança causadas por seus comportamentos agressivos e criminosos em relação ao resto do mundo. Numa palavra, a visão de mundo dos anglo-americanos se resume em: paranoia.
A militarização das relações exteriores também é uma eficiente via indireta para controlar eventuais aliados nominais. Se ameaças externas são retratadas de maneira suficientemente forte, cria-se então uma espécie de senso restrito de “defesa” entre “aliados”, que passam a ver a potência dominante como líderes para “proteção”. Esses jogos mentais são típicos da forma pela qual Washington e Londres promoveram a OTAN  ao status de protetor de seus “aliados europeus” frente “agressão russa”.
O mesmo jogo mental está rolando na região da Ásia/Pacífico, onde os norte-americanos estão tentando marcar a China como um “agressor do mal” para pequenas nações, que então se voltam para Washington em busca de “proteção” – e montes de dinheiro para comprar armas dos Estados Unidos, cortesia das máquinas impressoras de dólares do FED.
Sobre a questão das alegadas agressões russas, Putin, na entrevista acima, comentou de maneira muito apropriada:
(...) penso que alguns países estão simplesmente se aproveitando do medo das populações ocidentais no que diz respeito à Rússia... Suponhamos que os Estados Unidos gostariam de manter sua liderança na comunidade atlântica (União Europeia). Precisaria então de uma ameaça externa, um inimigo comum para garantir sua liderança. Claramente, o Irã não é suficiente – a ameaça que representa não é tão assustadora ou grande. Quem poderia ser assustador o bastante? Então, subitamente, a crise se desdobra na Ucrânia. A Rússia se viu forçada a responder. Talvez toda essa situação tenha sido criada de propósito... não sei. Mas sei que não fomos nós, russos, que a criamos.
Putin acrescentou, falando ao editor do Corriere dela Sera:
Deixe-me dizer uma coisa: não é preciso temer a Rússia. O mundo mudou de forma tão drástica que atualmente qualquer pessoa com um mínimo de bom senso não pode sequer imaginar um conflito militar em larga escala. Eu garanto que temos outras coisas com as quais nos preocuparmos.
É por isso que políticos como o Ministro de Relações Exteriores da Inglaterra, Philip Hammond, são compelidos a demonizar a Rússia e conjurar pesadelos de invasões, conflitos militares em larga escala e armas nucleares. Sem alarmismo, não pode haver belicismo; e sem belicismo o capitalismo anglo-americano não pode exercer a hegemonia da qual sempre desfrutou e que necessita para funcionar.
Essa forma de ver o mundo adotada pelos anglo-americanos continua atrelada a uma era que já deveria estar esquecida, na qual a gestão da relações internacionais se dava através de violência e agressões ou até da instigação de uma guerra total, se necessário.
A origem do APOCALIPSE
 Hammond, Obama, Kerry e Cameron

Se vivêssemos em um mundo são, pessoas como Philip Hammond, o Primeiro Ministro Cameron e do outro lado do Atlântico, Obama e seu Secretário de Estado Kerry, não seriam merecedores de estar em uma posição de poder e governo. Se vivêssemos em um mundo são.
Ocorre que em nosso mundo capitalista e louco, são pessoas desse tipo que são selecionadas, porque dão ao sistema tudo o que é essencial para a sua sobrevivência, ainda que através de uma mentalidade draconiana de agressão, violência e guerra. A inominável e diabólica vergonha é que essas pessoas insanas são perfeitamente capazes de trazer o apocalipse para milhões e milhões de pessoas inocentes.
Botando para fora esses políticos estaríamos praticando uma forma inteligente de evitar a guerra. Talvez fosse ainda melhor se pudéssemos chutar para a estratosfera todo esse sistema, no qual alguns enriquecem obscenamente à custa do sofrimento da maioria.
Esse “custo” inclui suportar o risco perene de guerra e, ouso dizer, aniquilação.
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[*] Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A semana inaugural da nova Guerra Fria

29/7/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama anuncia sanções à Rússia (29/7/2014)
Se historiadores futuros quiserem ver quando aconteceu de a era do pós-guerra fria converter-se em neo-Guerra Fria, bem farão se examinarem de perto a semana em curso. O governo Barack Obama está em astral triunfalista na sequência de alguns sucessos: afinal, conseguiu pôr ordem entre os principais aliados dos EUA na Europa – Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália – todos numa mesma estratégia concertada pra isolar a Rússia da Europa e impor sanções fortes contra a Rússia.

Obama poderia talvez ter feito discurso incendiário à moda da Cortina de Ferro essa semana – não pôde, por causa da Líbia, do Iraque, da Síria, do Afeganistão et allii, e por causa do horrendo massacre em Gaza que já conspurcou também a reputação dele; além do mais, não esqueçam, Obama é “Prêmio Nobe” e não pode ser visto por aí dando gritos de guerra.

Mesmo assim, a videoteleconferência de Obama com seus contrapartes europeus na 2ª-feira para mostrar o acordo “sobre medidas coordenadas de sanções contra a Rússia” sugere, além de qualquer dúvida, que está terminando o período pós-guerra-fria.

Nas próximas “12-48 horas” Bruxelas anunciará novas sanções contra Moscou baseadas no roteiro dos EUA envolvendo amplo pacote de medidas que visam a pôr de joelhos a economia russa. Washington, na sequência, anunciará suas próprias sanções contra a Rússia.

Essas chamadas Terceira Rodada de sanções estão previstas para atingir instituições financeiras russas, negócios de armas e de tecnologia de exploração de energia. Os bancos russos serão impedidos de operar com novos títulos russos ou substituí-los por outros equivalentes (ing. listing new bond or equity issues) em Bolsas Europeias, e serão banidos nas transferências de tecnologias sensíveis que possam ser usadas em perfuração em mar profundo, exploração no Ártico e extração de xisto betuminoso. O embargo deve incluir também a proibição de futuros negócios de armas com a Rússia.

Putin no Conselho de Segurança da Rússia (28/7/2014)
Moscou adivinhou o que viria e começou a organizar a defesa. 3ª-feira o presidente Vladimir Putin teve reunião do Conselho de Segurança da Rússia no Kremlin, o mais alto corpo para proposição de políticas externas e de segurança. Putin fez ali um importante discurso, para um grupo cuja agenda era, sem dúvida, discutir as opções estratégicas da Rússia no novo clima de Guerra Fria em todas as áreas de políticas nacionais – políticas domésticas, política exterior, política militar e, até, “guerra de informação”. 

Putin disse:

Nossas Forças Armadas continuam a ser a mais importante garantia de nossa soberania e da integridade territorial da Rússia. Reagiremos apropriadamente e proporcionalmente à abordagem pela infraestrutura militar da OTAN contra nossas fronteiras, e não deixaremos de perceber qualquer expansão dos sistemas de mísseis globais de defesa e aumentos nas reservas de armamento estratégico não nuclear de precisão (...). Estamos vendo claramente o que está acontecendo hoje: grupos de tropas da OTAN estão claramente sendo reforçados em estados da Europa Oriental, inclusive no Mar Negro e no Mar Báltico. E a escala e a intensidade do treinamento operacional e de combate estão aumentado. É imperativo implementar todas as medidas planejadas para reforçar a capacidade de defesa de nosso país, plenamente e conforme o cronograma. (Kremlin website [em tradução]).

Os eventos dessa semana simplesmente liquefizeram qualquer resíduo que ainda houvesse de possibilidade de acomodação entre Washington e Moscou. Assim também, o papel mediador da Europa – de França e Alemanha em particular – também se está esvaindo. A avaliação dos EUA é que eles estão numa situação de “ganha-ganha”, porque, como Dmiti Trenin, professor da Carnegie, observou essa semana,

Dmitri Trenin
Ainda que nenhum líder pró-ocidente venha a substituir Putin no Kremlin (...) a Rússia sucumbirá ante outro período de tumultos, tornando-se o maior problema para ela mesma e sem meios para criar problemas para Washington.

Trenin pintou um cenário em traços simplificados:

Já não se trata de lutar pela Ucrânia, mas de batalha pela Rússia. Se Vladimir Putin conseguir manter o povo russo ao seu lado, vencerá. Se não, vem por aí mais uma catástrofe geopolítica.

Claro que Trenin exagera. Para começar, a popularidade de Putin é mais que o dobro da de Obama. Os russos admiram Putin como patriota e líder firme; e os norte-americanos, cada dia mais, veem Obama como vacilante e incompetente, não importa a pose que faça.

Mas o verdadeiro perigo não está aí: está na evidência de que a comunidade internacional pode ter tido de pagar preço caro demais pelas tenebrosas transações em que Obama os está metendo, em cenário de uma nova Guerra Fria. Se o Irã, como já se viu, não foi destruído por sanções, o que leva Obama e seus colegas europeus a crer que país muitíssimo mais poderoso, como a Rússia, poderia ser destruído?

Será que a força somada de EUA e seus aliados europeus basta para “resetar” a ordem mundial e isolar a Rússia, a qual, por falar dela, também é voraz globalizadora (diferente, nisso, da União Soviética)?

Se a Europa não vai comprar petróleo russo e diversificará... o que acontecerá ao mercado de petróleo que serve também o resto do mundo? O que acontece à própria recuperação econômica da Europa, se o preço do petróleo subir à estratosfera?

É absolutamente óbvio que, se a Rússia vê a OTAN e seus sistemas de mísseis antibalísticos como desafio existencial, como admitirá, algum dia, a implantação de bases militares de EUA-OTAN no Afeganistão? E, mais uma vez: se a Rússia é país adversário, por que continuaria a cooperar com os EUA (e com o ocidente) no Irã, Síria ou Iraque?

BRICS - Os Presidentes (16/7/2014)
E onde tudo isso deixa os outros maiores países dos quintais não ocidentais do mundo – Índia, Brasil ou China? Será que o ocidente conta com que esses países pactuarão com o regime de Terceira Rodada de sanções contra a Rússia? E se não pactuarem?

Não, Sr. Trenin, o senhor errou. Não se trata absolutamente do regime russo. Trata-se, isso sim, da ordem mundial. O que está em jogo é o sistema de Bretton Woods e o desafio contra ele que Putin comanda – como se viu bem claramente na reunião dos BRICS em Fortaleza, Brasil.


O que estamos vendo é o contra-ataque de Obama numa guerra de guerrilhas – assustado, ele, ante o desafio que não para de crescer contra a supremacia do dólar norte-americano. O caso é que, sem liberdade total-total para imprimir notas de dólar, a economia dos EUA será fulminada.

O resto do mundo compreende perfeitamente do que trata essa neo-Guerra-Fria. Nem os europeus são perfeitos idiotas; eles também compreendem o que se passa – a forte resistência que manifestaram contra o desejo dos EUA de isolar a Rússia, e que tirou o sono de Obama durante várias semanas e meses, é prova disso.

Com certeza absoluta, não há ideologia, dessa vez. Não é guerra contra o socialismo ou contra o terrorismo, nem é guerra intrinsecamente pela Ucrânia ou pela Rússia. Em termos simples, a nova Guerra Fria é sobre a perpetuação da dominação pelos EUA em mundo global.

Sem o sistema de Bretton Woods, sem a OTAN, sem superioridade nuclear sobre a Rússia, os EUA já anteveem a possibilidade real de, com o tempo, se irem tornando potência muito reduzida. Sem a liderança trans-Atlântica, os EUA ficam reduzidos ao que foram antes da Iª Guerra Mundial, há cem anos: uma potência regional, com influência só no Hemisfério Ocidental.


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Não fossem os franceses, todos no Hezbollah seriam sírios, lutando lado a lado com seu próprio governo, no seu próprio país


2/3/2014, [*] Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

As fronteiras do Oriente Médio em 1916 quando a França e a Inglaterra "repartiram" o território. (Clique na imagem para aumentar)
As fronteiras estão-se tornando bem esquisitas no Oriente Médio. Sempre foram, é claro. Desde que Mark Sykes e François Georges Picot – esse último, cônsul da França em Beirute, por falar dele; e seu consulado custou a muitos bravos libaneses a própria vida, pelo desleixo com que ele lacrava as cartas antiotomanas deles por trás do muro da embaixada – dividiram Líbano, Síria, Iraque, Palestina, etc., muitos árabes (ou os netos deles) acabaram tendo de viver como refugiados detestados, poucas milhas distantes de seus lares originais, amaldiçoados e maltratados e às vezes mortos por outros muitos árabes que acabaram por ser – em alguns casos, para sua própria surpresa – ou libaneses ou sírios.

Então se chega à questão de um estado chamado Israel que existe numa terra que era chamada Palestina, 22% da qual – e porcentagem que encolhe dia a dia – supõe-se que se chame “Palestina”. É, talvez seja.

O que me leva ao de que se trata. Porque semana passada, o ministro de Assuntos Estratégicos – será que alguma outra nação na Terra tem ministério disso?, pergunto aos meus botões – de Israel, avisou o Líbano de que deve tratar de impedir que o Hezbollah (armado pelo Irã, apoiado pela Síria, vocês conhecem os clichês, batidos e verdadeiros) ataque Israel, como retaliação pelo ataque de Israel a um comboio de armas – ataque que, como acontece muitas vezes, Israel sequer admitiu ter executado.


Vejamos do que realmente se trata. E começo com uma esquisitíssima citação, que recolhi da agência Reuters de notícias:

Na 6ª-feira (28/2/2014), Israel avisou o Líbano de que impeça retaliação [sic] pelo Hezbollah, por causa de um suposto [sic] ataque israelense na fronteira síria.

O quê?! Os editores da Reuters viram-se às voltas com um problema factual, é claro. Os israelenses não admitiram que bombardearam o comboio dentro do Líbano, portanto a agência teve de dourar a pílula – porque Israel não admitiu o ataque e, sem a confirmação por Israel, ninguém pode afirmar fato algum no Oriente Médio. Mas, ao mesmo tempo, a Reuters não podia deixar de noticiar o ataque aéreo que centenas de libaneses no Vale do Bekaa viram com os próprios olhos. Por isso escreveram “suposto ataque”. Curiosamente, nem o Hezbollah noticiou o ataque, para começar.

Treinamento soldados israelenses no norte da base de El Yakim de Israel em 21/2/2014). A aldeia libanesa simulada foi criada para se preparar para a guerra contra o Hezbollah. Israel elevou seu nível de alerta na fronteira com o Líbano.
Sem problemas, suponho, se o ataque aéreo tivesse acontecido dentro das fronteiras sírias – como outros três, nenhum dos quais confirmado pelos israelenses.

Mas voltemos a Yuval Steinitz – o supracitado ministro israelense – que disse que “é autoevidente que nós consideramos o Líbano responsável por qualquer ataque a Israel que parta de território libanês”. Sempre segundo a mesma matéria da Reuters, Israel ameaçou destruir “milhares” de prédios residenciais que, diz Israel, o Hezbollah usa como bases. É ainda mais esquisito.

Por muitos anos – e já testemunhei cinco dessas guerras, embora Israel diga que só combateu três delas – vi milhares e milhares de prédios “residenciais” reduzidos a cacos por Israel e que não eram bases do Hezbollah. Então, o sr. Steinitz estará sendo mais contido que seus predecessores? Estará ele dizendo que Israel pode atacar só os prédios residenciais que o Hezbollah está usando – e não outros prédios residenciais que haja na mesma área? E isso, claro, só se o Hezbollah retaliar depois de um ataque aéreo que talvez – talvez sim, talvez não – tenha acontecido?

E só para encerrar, também dos enlouquecidos editores da Reuters, a agência tem mais uma linha sensacional que tenho de partilhar com vocês. “Israel está tecnicamente em guerra contra o Líbano e a Síria”. Uau! Essa acabou comigo.

Assim sendo, voltemos às fronteiras. Há muitas décadas, havia várias vilas no Líbano que os franceses deram aos britânicos – quando os britânicos mandavam na “Palestina” e os franceses controlavam o Líbano e a Síria (o Líbano sendo parte da Síria até que os franceses o amputaram, como aliado útil para anos futuros).

Foto tirada da vila libanesa de Adaysseh mostra soldados de Israel patrulhando a fronteira Israel-Líbano, dia 20/1/2014 (Getty Images)
Muitos libaneses, nascidos no Império Otomano, acordaram um belo dia e descobriram que já não eram libaneses – mas palestinos. E quando os israelenses chegaram à Galileia e empreenderam o serviço de limpeza étnica (sobre isso, vejam o trabalho do excelente historiador israelense Ilan Pappe, dentre outros), alguns desses ex-libaneses – já então palestinos – foram assassinados. Os demais foram expulsos de Israel (ex-Palestina), mandados para o Líbano – onde muitos deles haviam nascido – como refugiados palestinos. Há poucos anos realmente receberam passaportes libaneses – e assim ficaram sabendo que deixavam de ser palestinos.

Não pode haver muitos deles ainda vivos, mas – se tivessem dirigido algumas milhas rumo norte, a partir de suas atuais casas no Líbano, semana passada – poderiam ter testemunhado o ataque aéreo contra o Líbano que só “supostamente” aconteceu. Assim, veriam com os próprios olhos um ataque executado pelo país que os expulsou da “Palestina” para o país onde realmente nasceram. Veriam pois um ataque aéreo que talvez não tenha acontecido (“suposto ataque”), porque o país no qual eles não nasceram não declarou que realmente atacou o país do qual eles são agora (outra vez) cidadãos.

E você, leitor, que pensava que o Oriente Médio era lugar difícil de entender... Experimente viver aqui.

Mapa atual do Oriente Médio 
OK, voltemos para a Síria, por um momento. Como vocês sabem, há guerra aqui há mais de dois anos. O Hezbollah está combatendo ao lado do governo de Bashar al-Assad – ofensa terrível aos olhos dos governos ocidentais que permitiram à França amputar o Líbano, da Síria, depois da Iª Guerra Mundial.

Se os franceses não tivessem feito isso, é claro que no Hezbollah seriam todos sírios lutando lado a lado com seu próprio governo, no seu próprio país, e o Hezbollah não nos ofenderia tanto, por cruzar a fronteira que os ocidentais criaram contra a vontade dos avós do Hezbollah. Nesse caso, os israelenses não teriam de “avisar” o Líbano sobre retaliações pelo Hezbollah contra ataque aéreo que talvez – talvez sim, talvez não – os israelenses executaram contra o Líbano, mas ataque que – se o ocidente não tivesse inventado o Líbano – seria o quarto ataque de mesmo tipo por Israel contra a Síria... Sempre supondo que Israel “declare” que, antes de tudo começar, Israel atacou a Síria (“primeiro ataque”).

Daqui em diante é com vocês, pessoal! (...)
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[*] Robert Fisk é filho de um ex-soldado britânico da Primeira Guerra Mundial, Robert Fisk estudou jornalismo na Inglaterra e Irlanda. Trabahou como correspondente internacional na Irlanda - cobrindo os acontecimentos no Ulster - e Portugal. Em 1976, foi convidado por seu editor no The Times para substituir o correspondente do jornal no Oriente Médio. Fisk trabalhou para The Times até 1988, quando se mudou para The Independent - após uma discussão com seus editores sobre modificações feitas em seus artigos, sem seu consentimento.
Fisk cobriu a guerra civil do Líbano, iniciada em 1975; a invasão soviética do Afeganistão, em 1979; a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a invasão israelense do Líbano, em 1982), a guerra civil na Argélia, as guerras dos Balcãs e a Primeira (1990-1991) e a Segunda Guerra do Golfo Pérsico, iniciada em 2003. Fisk notabiliza-se também pela cobertura ao conflito israelo-palestino. Ele é um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes, o Irã e Israel.
Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda (em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão). 
Robert Fisk é o correspondente estrangeiro britânico mais premiado. Recebeu o Prêmio Correspondente Internacional Britânico do Ano sete vezes (as últimas em 1995 e 1996). Também ganhou o Prêmio à Imprensa da Anistia Internacional no Reino Unido em 1998 e 2000.