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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Quando nos Estados Unidos – “Não consigo escrever!”


19/6/2015, [*] Andre VltchekCounterpunch
Tradução mberublue
Los Angeles, no Museu de Arte Contemporânea

Em Los Angeles, no Museu de Arte Contemporânea (Museum of Contemporary Art – MOCA), uma gigantesca bandeira de cores sangrentas ondulava em um vento artificial criado por enormes hélices.
Não havia espectadores para a mostra. Por um instante, pensei que estava sozinho naquele espaço todo. Mas em seguida percebi dois vultos vestidos com roupas negras, movendo-se bem devagar na penumbra, grudados aparentemente em desespero às paredes. Curvados, eles passaram pela livraria, perto de um lugar onde alguém tinha colocado um pequeno cartaz na parede, onde se lia: “Eu não consigo respirar!”
Provavelmente se tratava de uma performance, uma espécie de protesto desesperado de um homem e uma mulher contra aquela bandeira gigantesca que a tudo devora.
Antes de morrer assassinado pelo regime, um homem exclamou: “não posso respirar!”
“Eu não posso escrever!”, pensei. Para mim, isso significa quase o mesmo que não poder respirar.
***
Pela primeira vez em muitos anos, eu não consegui entregar minha coluna, ou continuar meus ensaios, por várias semanas.
Mesmo quando estive preso na República Democrática do Congo, no Quênia, no Senegal, consegui continuar a escrever.
Mesmo depois que um pastor fascista, um evangélico louco pagou aos funcionários do hotel para me envenenar na cidade indonésia de Surabaya, eu continuei escrevendo.
Escrevi em muitas zonas de Guerra e favelas em que grassava o desespero, do Iraque a Mindanao, do Haiti às Ilhas Marshall.
Mas eu não consegui escrever nos Estados Unidos da América. Nem uma linha, ou uma mera palavra. Não agora.
***

Andre Vltchek (E) - palestra em Fresno

Eu falei. Fui convidado a falar e falei em uma grande conferência no Sul da Califórnia, e proferi palestras em encontros sobre paz e oposição em Monterey, San Jose e Fresno.
Fui convidado a falar sobre o meu livro de 1.000 páginas, já um best-seller, “Expondo as mentiras do Império”, onde defino de uma vez por todas minha posição oposicionista em relação ao Império, mostrando os horrores que são cometidos diuturnamente pelo mundo.
Mostrei filmes e excertos de meus filmes na África: em Ruanda, Congo, campos de refugiados somalis e as terríveis favelas de Nairobi.
Fui convidado a mostrar tudo isso e mais, mas no final, um homem se levantou e perguntou: “Por que você está nos mostrando tudo isso?”
“Porque o seu país está matando milhões de pessoas, neste exato momento”, respondi.
Então, com voz suave, ele perguntou novamente: “e você quer que a gente faça o que?”.
No momento em que ele se expressou dessa forma, eu acabava de me recuperar de um monstruoso jetlag, depois de uma viagem de 48 horas vindo da África do Sul, aterrissando na Califórnia apenas um dia antes da apresentação. Na África do Sul, eu estava entre meus camaradas, meus amigos. Tudo era diferente: ali havia uma luta tremenda por um mundo melhor, as pessoas pobres e desvalidas se unindo e enfrentando o governo, a grande UNISA (Universidade da África do Sul) estava profundamente envolvida na luta. Lá, falei no 14º Simpósio Internacional de Contribuição para a Psicologia da Paz. Lá, falei e falei, lutei com vontade, estive envolvido em negociações, estava ajudando um pleno momento de criação de conceitos: de como não pode existir paz se não houver justiça, que sem igualdade social a justiça se torna impossível e que não se pode conseguir atingir o progresso em nenhum lugar do planeta sem confrontar e lutar contra o fascismo e o imperialismo ocidental.
Na Califórnia acontecia o contrário. Tudo era totalmente diferente. Na Califórnia, eu estava só, frente a frente com os rostos frios de multidões hipócritas; pior: multidões convencidas de sua própria superioridade, mesmo quando criticavam, de maneira moderada e “benevolente” as ações homicidas de seu país em incontáveis lugares pelo mundo afora.
“Nada do que nos dizem é verdade”, é a frase que ouvi de várias pessoas, em muitas ocasiões.
Os cidadãos do Império aspiram ser descritas como se fossem eles mesmos as “vítimas”. Será que não acontecia o mesmo na Alemanha Nazista em 1930? Muito provavelmente sim! “A Alemanha derrotada foi castigada com a hiper inflação, teve que pagar reparações, por consequência, era a vítima!” Sentia-se vítima dos Bolcheviques, dos Judeus, dos Franceses, de Roma... Os Estados Unidos, embora não derrotados externamente, foram derrotados internamente. São duas coisas completamente diferentes. Mesmo assim, há similaridades, especialmente na maneira com que o Império trata as “não pessoas”.
Lá do meio do público, alguém perguntou: “Você acredita em culpa ou responsabilidade coletiva?”
“Claro que acredito!”, disparei de volta. “Não se pode negar a responsabilidade e a culpa escancarada do ocidente, da raça branca, do Cristianismo, do Império! Culpa e responsabilidade coletiva pelas milhões de mortes cometidas contra as vítimas definidas como ‘não pessoas’. Vítimas sufocadas com gás, estraçalhadas por bombardeios, mortas à fome, mutiladas... Culpa e responsabilidade coletiva pelo estupro da livre vontade de bilhões de pessoas na África, América Latina, Oriente Médio, Ásia e Oceania. Culpa e responsabilidade coletiva pelo apartheid global em andamento!”
***
Não pude perceber qualquer senso de urgência no Sul da Califórnia; nem em Fresno, Monterey ou San Jose. A vida continua. A vida deles... Sobre outras vidas eles não queriam nem saber. Eles na realidade fazem mesmo é questão de não saber.
Eventualmente eles protestam, para que possam se sentir bem.
Fui empilhando discursos, apresentações e palestras sobre o que eu tinha presenciado no Oriente Médio: guerras perpétuas, destruição de nações inteiras, milhões de corpos empilhados uns sobre os outros. Dei exemplos, exibi filmes. Eu estava oferecendo análises em profundidade sobre a maneira pela qual o ocidente estava antagonizando a China e a Rússia.
Pablo Neruda (1904 - 1973)

Em dado momento, comecei a falar, apaixonadamente, sobre as revoluções na América Latina, sobre poesia e música, sobre as histórias, a beleza quixotesca das rebeliões. Falei sobre poetas como Neruda, Paz, Cardenal e Parra. Eu tentava inflamar, incendiar a multidão. Então, de repente, senti que algo estava profundamente errado... Havia um silêncio sepulcral. Olhei para a multidão em frente a mim: a maior parte da “multidão” consistia de mulheres com idade acima de 80 anos, algumas em cadeiras de rodas, várias delas dormindo.
“Os jovens daqui são introspectivos…” me disseram. “Não é fácil fazer com que se interessem...”
Dia após dia eu me questionava: o que estou fazendo aqui, dentro do país responsável por milhões de assassinatos em massa mundo afora. Eu mesmo estava ficando insano cada vez mais, a cada dia, como os vários editores de publicações da pseudo-esquerda tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, que pregam ao mundo que as pessoas na Espanha, Grécia e nos Estados Unidos na realidade sofrem muito, quase tanto como os bilhões de “não pessoas” em todo o mundo? Como se a maioria deles não fosse, apesar de tudo, recebedores de tremendos privilégios pagos pelo sangue e pela vida de africanos, asiáticos e árabes. Não, eu ainda sabia quem são as verdadeiras vítimas! Eu ainda sabia o que estava acontecendo na realidade! Eu precisava dar o fora do país, o mais rápido que pudesse!
Tudo era uma tremenda de uma bobagem aqui; “sentir-se bem” era uma coisa ôca! Movimentos pela paz... movimentos quase sem negros, muito poucos hispânicos ou asiáticos! Nenhum deles estava comprando nada disso. Eles sabem muito bem que aquilo não era para eles.
Era muito claro que as pessoas com as quais eu me encontrava não queriam saber de mudança alguma. Eles sequer querem obter “conhecimento”. Para quem quer, o conhecimento está à disposição, na RT, no CounterPunch, em todos os lugares, realmente, em toda a parte! Mas se obtiver conhecimento, ninguém mais poderá alegar que não sabia; saber significa a obrigação de agir!
***
Quase não há revolucionários de esquerda nos Estados Unidos ou na Europa, apenas as massas moralmente mortas, sem emoção, insinceras, egoístas que morrem de medo de perder seus privilégios. Os militantes da direita pelo menos são honestos!
O regime, claro, se aproveita da situação. Ele dá sustentação plena para esse estado de coisas. Acabaram por se tornar interdependentes, os governos e as massas, ambos egoístas e hipócritas; estão no mesmo barco. Não é por outra razão que os partidos fascistas nunca se apeiam do poder: quase todos os habitantes dos Estados Unidos e da Europa desejam que a exploração e o estupro do resto do mundo continue como está!
Pode alguém, qualquer um, acreditar que a massa em protesto na Espanha ou na Grécia está lutando alguma batalha internacionalista, lutas pela humanidade? Ou eles lutam apenas pela manutenção de seus privilégios sociais e econômicos? Esses mesmo privilégios nos quais eles estavam nadando a braçadas há apenas uma ou duas décadas, e que consistiam de doações ou subsídios, enquanto milhões daqueles que o ocidente considera como “não pessoas” no mundo pobre estão sendo espoliados e sacrificados, para que os norte-americanos e europeus vagabundos nos Estados Unidos e na Europa possa viver com qualidade de vida, só porque nasceram brancos e “no lugar certo”?
Movimento 15M-2015 (Espanha)

A esquerda se perdeu tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Clara e vergonhosamente, se perdeu. Mas mesmo agora, ainda é tão arrogante que tenta arrostar países como a China ou Rússia com o seu ar cristão e ocidental de superioridade; tem o atrevimento de tentar permanecer no direito de decidir se a China ou a África do Sul são, de fato, socialistas ou comunistas ou, para usar um mote da propaganda enganosa que grassa no ocidente, “ainda mais capitalistas que o ocidente”.
Durante as duas semanas que fiquei na Califórnia, não detectei qualquer sinal de remorso. Quando mostrei e expliquei como milhões de pessoas foram mortas pelo imperialismo ocidental, as pessoas diziam, compungidas: “nossa, que coisa horrível!”. Só o faziam porque foram treinadas para reagir dessa forma. Mas não havia qualquer determinação para mudar essas coisas nem qualquer sentimento real.
Para onde quer que eu fosse, me sentia fora do lugar. Esperava-se que eu “me adequasse”. Foi-me dito que não mostrasse tantas imagens chocantes, porque as pessoas eram “muito sensíveis”! Eventualmente, decidi não mostrar mais nada, nem imagens nem filmes. Estabeleceu-se que eu deveria ser educado. Enquanto isso, tudo o que eu queria era gritar insultos na face daquelas pessoas cheias de direitos, homens e mulheres, que nada mais faziam que seguir uma odiosa tradição cristã: ignorar o mal real, fazer alguma coisinha de bom, tudo para que pudessem ter algum crédito para enfrentar uma suposta eternidade.
Enquanto isso continuei a ouvir os mesmos velhos clichês sobre a paz e a democracia. Alguns esperavam a justiça e o fim das guerras, mas agarrando-se desesperadamente aos símbolos do Império, ao legado de seus colaboradores, como Vaclav Havel, o Papa João Paulo II, o Dalai Lama e Madre Teresa...
Eu não só não podia respirar, mas tinha perdido também a capacidade de escrever. A raiva crescia como um edifício dentro de mim. A raiva era sufocante, me estrangulava. Era uma raiva insalubre, improdutiva, misturada com frustração! Não era como a raiva sagrada que sente aquela pessoa que parte para uma luta contra o mal. A raiva se estabelecia de uma forma também mesquinha, indescritível e patética. Ela me sufocava e humilhava ao extremo.
Terminei odiando a luta que enfrentava ali.
***
Tentei olhar para a realidade que me cercava com olhos diferentes, mas para onde quer que olhasse, via apenas uma cultura e um país em colapso, triste e disfuncional.

Estrada na California

Dirigi por estradas esburacadas, cheia de solavancos, embarquei em um sistema ferroviário primitivo. Encontrei as pessoas, as quais não estavam absolutamente interessadas em trabalhar ou em melhorar o país. Fui confrontado com o individualismo, com o egoísmo. Vi pessoas que claramente se odiavam profundamente, mas pretendiam ser cheias de cortesia e preocupação uns com os outros.
Mas bastava que se fizesse um movimento errado. A explosão viria a seguir.
Vi um país onde não mais existiam os valores positivos e sentimentos humanos mais básicos.
***
Estar inserido neste tipo de sociedade é extremamente humilhante. Tentei mandar uma caixa pelo correio. No posto dos Correios de Clermont, fui obrigado a refazer a embalagem por três vezes, porque nas duas vezes anteriores, a caixa não era a correta (só o chefe do posto dos Correios de Clermont sabia qual era a caixa correta, mas ele jamais se daria ao trabalho de me explicar). Na estação ferroviária, uma mulher que estava parada, apenas batucando em seu Smartfone me explicou que os bilhetes para a viagem de trem não são vendidos na estação. Tive que sair para o sol inclemente, tentando comprar de uma máquina automática de vendas de bilhetes. O sol não me deixou ver nada e voltei para dentro da estação e pedi novamente. “Se quiser, você pode ligar para a Companhia e reclamar”, me disseram. “Nesse caso, posso comprar o bilhete a bordo do trem?” “Não!” “E tem mais: se você embarcar no trem sem o bilhete, você pode ser preso”.
Tudo começou já na minha chegada. Depois de viajar durante 48 horas desde a África do Sul para o sul da Califórnia, carregado com filmes e livros para a conferência, não havia ninguém me esperando no aeroporto. Então, tive que tomar um táxi. Acontece que no lugar onde eu deveria supostamente ficar, também não havia ninguém esperando. Tive que ficar na rua esperando por mais de uma hora. Dias depois, tendo viajado para outro lugar, a pessoa que deveria estar me esperando para me pegar só chegou duas horas depois. Quando comentei o fato em voz normal, ele começou a gritar: “quem sabe você quer ir a pé?”.
Não que eu esperasse qualquer coisa de bom dos habitantes de um país que esta neste mesmo instante assassinando milhões de pessoas, mas a arrogância que encontrei foi uma coisa alucinante. Pior: não se trata apenas da arrogância já conhecida do pessoal da segurança nos aeroportos. Estou falando da arrogância que vem de cidadãos comuns dos Estados Unidos.
Sou Branca!

Foi fácil detectar também uma inacreditável perda de disciplina. Na China ou no Vietnã, assim como na Índia, as pessoas seriam demitidas apenas por usar o tom de voz e as posturas adotadas pelos empregados norte-americanos. Ouvi muitas vezes coisas como “não queremos acabar tratados como os trabalhadores asiáticos”. “Ótimo!” respondi eu. “Muito bem! Mas não espere que os trabalhadores pelo mundo afora que trabalham muitas horas extras se guiem pela sua moleza”. Tal atitude, que beleza, um luxo!
Ao partir dos Estados Unidos para o Equador, tentei fazer o check-in da bagagem para meu destino final. A funcionária da companhia Delta sequer fazia ideia de onde fica Quito, e era visível que às 5h 20’ ela não fazia questão nenhuma de aprender. Assim ela fez a checagem da bagagem apenas até o México, e quando eu protestei (afinal de contas, eu teria que fazer outra checagem da bagagem na alfândega mexicana, arrastando as malas para lá e para cá) ela começou a vomitar um monte de normas, inventadas na hora. Insisti. Ela chamou o supervisor. Este determinou que ela fizesse a checagem até meu destino final, Quito. Ocorre que ela não tinha a menor ideia de como fazer isso. Tornou-se apologética? Nem pensar. Quanto mais tempo demorou, mais implicante e teimosa ela se ficou.
Obviamente, a única coisa que o Império aprendeu foi como matar “não pessoas” a longa distância, e como ficar no controle remotamente.
Os cidadãos do Império dos Estados Unidos passam o tempo a reclamar que seus privilégios estão desaparecendo. Bem, na realidade eles estão evanescendo, mas grande parte deles ainda está lá. Fora dos Estados Unidos, nenhum país poderia sobreviver com trabalhadores tão sem ética e de tão baixa performance.
No ocidente, “ser de esquerda” significa sacrificar ainda mais os trabalhadores já brutalmente explorados lá fora, para manter os privilégios absurdos dos ocidentais.
Para nós, em vez disso, a esquerda significa “internacionalismo”.
Essas duas visões não só não se complementam, como são antagônicas. As metas da esquerda no Equador ou na Venezuela sofreriam grande prejuízo, se as esquerdas dos Estados Unidos e Europa tivessem sucesso.
O colonialismo nunca morre!
O apartheid nunca foi desmantelado. Apenas se tornou global. A escravidão continua, embora com outros nomes.
Se assim não fosse, como poderiam os Estados Unidos sobreviver na sua forma hoje em dia?
***
Nestas duas semanas em que estive nos EUA, conheci alguns dos maiores pensadores que aqui vivem: Michael Parenti e John Cobb. Tempos atrás, eu trabalhava juntamente com Michael em dois livros, um dele e outro meu, mas era a primeira vez em que o via face a face. Discuti o cristianismo com John Cobb, tentando definir onde se encontra escondida a codificação que permite as mais horríveis atrocidades que são cometidas em nome da cruz. Foi uma discussão filosófica profunda que deveremos converter brevemente em um novo livro.

Andre Vltchek e Michael Parenti (D)

Tive ainda o prazer de passar uma tarde prazerosa em Los Angeles, com o editor do CounterPunch. Joshua Frank e sua companheira Chelsea, pessoas de bom coração e que sabem ser divertidos para os convidados.
Viajei e trabalhei em conjunto com Dan Yaseen, um ativista dedicado do rádio, e sua parceira Camille.
Sim, é claro que existem pessoas brilhantes, boas e devotadas vivendo nos Estados Unidos. Mas mesmo eles sabem e admitem que seu grupo é muito pequeno frente o tamanho do país, e também pequeno para fazer parar os crimes que o Império continua a cometer.
***
Deixei o país muitos anos atrás. Saí de New York, que foi a minha casa por mais de uma década. Nunca retornei, a não ser para o lançamento de maus livros e filmes, e para ver alguns amigos. Nunca fiquei por longo tempo. Desta vez, por duas semanas, foi a mais longa estadia por anos.
Esta visita me quebrou. Fiquei fortemente deprimido e exausto.
Pude ver claramente como uma grotesca pseudo-moralidade, conceitos religiosos repugnantes e a hipocrisia que influenciou e arruinou estados clientes e nações inteiras, no mundo inteiro, especialmente na Ásia e na África.
Sim, acredito em culpa coletiva. Como tenho cidadania norte-americana, carrego esta culpa. Portanto, trabalho sem parar, não para deixar minha consciência limpa, mas para tentar estancar a loucura.
Estou convencido de que o ocidente, a raça branca e seus lacaios no estrangeiro, não tem o direito de governar este planeta. Vi o suficiente para cristalizar minha convicção.
Tristeza em Los Angeles

O ocidente acabou e sua cultura está morta. O que ainda resta, além de não atrair, é realmente horrível. Não há coração, não existe compaixão nem criatividade. Aqueles bilhões de pessoas fora do território ocidental não deveriam estar morrendo enquanto são forçados a apoiar o individualismo agressivo pós cristão, pós cruzadas colonialistas além do fascismo dos Estados Unidos e da Europa.
***
Durante aquelas duas semanas horríveis, a minha habilidade de escrever entrou em colapso, mas apenas até o momento em que o trem de pouso do avião em que eu me encontrava viajando para o sul, em direção à América Latina perdeu o contato com a pista de decolagem do aeroporto de Salt Lake City.
Em seguida, tudo voltou ao normal. Os motores rugiam e eu abri meu Mac e comecei a teclar. Até o momento de desembarcar na Cidade do México, fui capaz de escrever a metade deste ensaio. Em Quito, cercado pelo calor e pela bondade das pessoas locais, na maioria indígenas, me senti mais uma vez forte e feliz. Comecei então a escrever; mais uma vez, eu era capaz de escrever.
Sobrevivi.
O pesadelo tinha chegado ao fim.
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[*] Andre Vltchek é romancista, cineasta e repórter. Cobriu guerras e conflitos em dúzias de países. Seu livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul, Oceania foi publicado pela editora Lulu (VLTCHEK, André. Oceania, 2010. Sobre o livro, que tem prefácio de Noam Chomsky, ver em: Oceania by Andre Vltchek - Book Review by Jim Miles). É autor também de Indonesia – The Archipelago of Fear (Pluto), sobre a Indonésia pós-Suharto e o modelo de livre mercado fundamentalista. Depois de viver e trabalhar por muitos anos na América Latina e Oceania, Vltchek vive e trabalha atualmente no Leste da Ásia e África. Pode ser encontrado por sua página na Internet.

domingo, 21 de junho de 2015

Os Sauditas farão a Putin “uma oferta que ele não poderá recusar”?


19/6/2015, [*] Ulson GunnarLand Destroyer Report- original NEO
Traduzido por mberublue

Relatos da grande mídia dão conta que a Arábia Saudita enviará uma delegação até Moscou com o objetivo de, mais uma vez, tentar atrair a Rússia a desistir de seus interesses no Oriente Médio e alinhar-se ao lado de Riad e seus subscritores em Washington.


Vladimir Putin e Abdulrahman Al-Rassi, embaixador Arábia Saudita na Rússia fazem um brinde em Moscou (19/6/2015)


No entanto, oscilando no passado entre ameaças vazias e acordos econômicos mirabolantes os sauditas conseguiram até agora apenas uma coisa em sua série de manobras diplomáticas: dar demonstração de uma imensa fraqueza e desesperação antes de sua próxima visita.
De fato, se existe no planeta uma nação que precisa muito da ajuda russa, esta pode ser a Arábia Saudita. Por outro lado, no entanto, se existe uma nação com a qual a Rússia não desejaria jamais entabular negociações, esta também pode ser a Arábia Saudita. Um estado cliente (vassalo - NT) primeiro do Império Britânico e depois do império dos Estados Unidos, que sempre se permitiu ser facilmente usado como intermediário em cada vez mais crescente e perigosa Guerra por procuração (ing. proxy war) envolvendo Síria, Iraque, Irã, Iêmen e até certo ponto, Líbano, Egito e até mesmo a Líbia.
Mesmo levando em consideração que o staff do Departamento de Estado dos EUA tenha explicado minuciosamente que jamais permitirá que nada de ruim aconteça com a sua autocracia regional favorita, a guerra lançada por Riad, por ordem de Washington, contra o Iêmen lentamente transborda através das fronteiras sauditas e as armas e os guerreiros remanescentes destas batalhas podem ainda conectar-se e aproveitar as antigas tensões latentes no leste da Arábia Saudita.
Ao norte, a Arábia Saudita tem contribuído ativamente na destruição do Iraque e da Síria, para não falar do continente africano, onde os sauditas desempenharam papel decisivo na desestabilização tanto do Egito quanto da Líbia, neste caso em ainda maior medida. Caso as coisas mudem em qualquer destes teatros da atuação maléfica da Arábia Saudita, a tentação das vítimas em retribuir espalhando o caos pela península arábica será muito, muito forte.
Se afirmarmos que a Arábia Saudita é um país que necessita urgentemente de amigos, estaríamos usando de eufemismos, e Riad começa a perceber com certa facilidade que Washington vê a sua “autocracia favorita” do mesmo modo que vê qualquer um de seus países/clientes. Como perfeitamente dispensável. No entanto, a desfiguração – tanto sociopolítica, econômica e geopoliticamente – do país que foi permitida por seus governantes o tornou quase irrelevante no desempenho no papel de coordenador regional para Londres e Washington e colocando-se numa posição onde não vêem alternativas.
O “acordo”
A Arábia Saudita empregou o melhor de seus esforços na destruição de seus vizinhos no Oriente Médio e Norte da África (original: Middle East and North Africa – MENA – NT), mas também desempenha papel importante na aplicação de pressão sobre países que não fazem parte da região, mas que têm significante influência em todo o Oriente Médio. Isso inclui a Rússia. Na realidade, o papel desestabilizador e destruidor da Arábia Saudita na região do MENA faz parte de um esforço geopolítico de maior escala, destinado, em princípio, a prejudicar a Rússia, entre outros países.
Os sauditas têm, ao mesmo tempo, no passado, feito promessas de riqueza e/ou ameaçado Moscou abertamente com terrorismo, na intenção de pressionar a Rússia para que abandone seus aliados em Damasco, Bagdá e Teerã.

Bandar bin Sultan e Vladimir Putin em 8/2013 em Moscou quando da primeira oferta-ameaça saudita

Isso foi relatado em agosto de 2013 pelo The London Telegraph em seu artigo intitulado “Sauditas oferecem à Rússia um acordo secreto de energia se a Rússia desistir da Síria”, que seja:
A Arábia Saudita ofereceu secretamente para a Rússia um acordo completo para controlar o mercado mundial de petróleo, resguardando os contratos russos para comércio de gás, se o Kremlin deixar o regime de Assad entregue à própria sorte.
Porém, o relato informa ainda que, dentro da oferta, havia uma ameaça implícita:
O príncipe saudita Bandar comprometeu-se com a manutenção incólume da base naval russa na Síria caso o regime de Assad fosse derrubado, mas também deixou implícito nas entrelinhas a possibilidade de ataques de terroristas chechenos quando da realização dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, caso não houvesse acordo. “Posso garantir para você a proteção dos Jogos de Inverno do próximo ano. Os grupos chechenos de terroristas que ameaçam a segurança dos jogos são controlados por nós”, teria afirmado o príncipe saudita.
Incrivelmente, o príncipe Bandar acabou por dizer que os chechenos que operam na Síria não passam de um instrumento de pressão que pode ser dispensado a qualquer momento. “Não tememos estes grupos. Nós os usamos em face do regime sírio, mas eles não terão qualquer papel no futuro político da Síria.
Tais declarações fazem entender perfeitamente porque a Arábia Saudita, por boas razões, é carente de aliados confiáveis. A arrogância com a qual Bandar se jactou da criação e controle pelos sauditas de uma das mais cruéis organizações terroristas na face da Terra vem confirmar os relatos já existentes não só na mídia institucional como na imprensa alternativa. Também confirma que enquanto Londres, Washington e Bruxelas desonestamente esfregam as mãos ao falar sobre a “ameaça islâmica”, estão ombro a ombro com a nação que é, na verdade, responsável pela única ameaça real.
Porque Putin pode recusar
O renascimento da Rússia como potência global não é sustentada pelo petróleo da Arábia Saudita ou pelo fracasso do terrorismo na região do Cáucaso, mas, em vez disso, no crescimento de seu relacionamento com os demais membros do grupo BRICS, assim como com outras nações em todo o mundo em desenvolvimento que rapidamente ganham terreno ante o poder global tradicional em declínio.

BRICS - Reunião em Fortaleza, CE em julho de 2014


Brasil, China, Índia e África do Sul, todos por sua vez receberam a mesma pressão sofrida pela Rússia, seja exercida por Washington ou por Londres, embora essa pressão não tenha a magnitude da pressão sofrida pela Rússia. Suas populações e economias combinadas proporcionam, em conjunto, um Mercado para o qual a Rússia está gradualmente fazendo uma transição, para escapar da extorsão imposta a qualquer país que se disponha a entabular acordos comerciais com o ocidente. Da mesma forma, outras nações pelo mundo em desenvolvimento já estão se tornando cientes dessa já visível mudança no pêndulo do poder global e buscam por sua vez, meios de escapar e aplacar os interesses estrangeiros que podem destruir qualquer país como já aconteceu com o Iraque, a Síria e a Líbia.
Além do mais, apesar das pressões impostas pelo ocidente e do preço do petróleo artificialmente derrubado pela Arábia Saudita, e enquanto tenta incrementar uma política de auto sustentação, a Rússia continua com a mão estendida para as nações europeias, na esperança de trabalhar na reformulação de acordos para implantação de gasodutos, objetos de prejuízos intencionalmente criados e visando prejudicar a Rússia. Nesta missão, os russos tem tido relativo sucesso.
Ironicamente, a União Europeia tem sofrido muito com as sanções impostas contra a Rússia, e muitas nações do grupo já tentam trabalhar junto com a Rússia sub-repticiamente, para bordejar as sanções, no objetivo de voltar a ter os benefícios confiscados alegremente por Bruxelas, que com nada se importa, a não ser com a própria agenda.
Na realidade, o presidente Putin pode tranquilamente dizer “não!” para a Arábia Saudita e seus acordos, especificamente porque, de fato, não é a Rússia quem precisa da Arábia Saudita, e sim o contrário. O papel desempenhado pela Arábia Saudita como procurador de Washington no Oriente Médio como meio de impulsionar sua importância no palco do teatro global, acabou por levar o país para a beira de um abismo. Neste abismo, os Estados Unidos inevitavelmente cairão, mas não sem antes empurrar para as profundezas todos os seus “procuradores”.

Vladimir Putin (D) e Rei Salman no tempo em que este último era governador de Riad

Analisando estas inegáveis realidades, talvez tenha chegado o tempo em que a próxima delegação de Riad para Moscou deixe de lado as ameaças vazias e promessas igualmente inúteis e conversar sobre um caminho verdadeiro para o futuro. É o futuro de Riad, e não o de Moscou que depende disso.
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Nota do tradutor
[1] O autor faz referência a um diálogo presente no filme “O Poderoso Chefão”, onde o personagem Don Corleone, afirma que fará ao seu adversário, ou àqueles com quem esteja negociando “uma oferta que ele não poderá recusar” – A afirmação, além de uma oferta contém, nas entrelinhas, uma ameaça. Trecho com a cena do filme, a seguir:
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[*] Ulson Gunnar – é analista de geopolítica e escritor baseado em Nova Yorque. Escreve especialmente para a revista online “New Eastern Outlook – NEO”