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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Península Coreana não é, toda ela, problema da China


25/1/2013, Global Times, China, Editorial
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Não é ma-ra-vi-lho-so haver jornal e jornalistas que AJUDAM governo eleito e seus eleitores a entender o que realmente se passa? Não é lindo ler isso que aí vai, e NÃO LER O BESTEIROL PATÉTICO que se acumula nos editoriais de TOODOS os veículos do Grupo GAFE - Globo, Abril, Folha de SP, Estadão?!

Em resposta à Resolução n. 2.087 do Conselho de Segurança da ONU aprovada na 4ª-feira, a Coreia do Norte declarou que fará teste nuclear “de alto nível”. É possível que aí haja mais que palavras de indignação pela intromissão em seus assuntos, porque a Coreia do Sul diz que um novo teste nuclear estaria já em preparação na Coreia do Norte.

A Resolução da 4ª-feira condenou o lançamento pela Coreia do Norte, em dezembro, de um foguete nuclear; e expandiu as sanções. Depois de empreender amplos esforços para introduzir emendas no texto da Resolução, a China também votou a favor.

Parece que a Coreia do Norte não valoriza os esforços chineses. Criticou a China, sem citar-lhe o nome, na declaração distribuída ontem:

Esses grandes países, que são forçados a defender suas posições de liderança na construção de uma ordem mundial mais justa, já deixaram de lado sem hesitar até os princípios mais elementares, sob influência das práticas autoritárias e arbitrárias dos EUA. E tudo faz crer que ainda não caíram em si.

A China vive um dilema: estamos muito afastados do objetivo de desnuclearizar a Península Coreana, e não há o que possamos fazer para buscar um equilíbrio diplomático entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, Japão e os EUA.

A China deve relaxar e baixar as nossas próprias expectativas quanto ao efeito de nossas estratégias para a península. Temos de manter uma atitude pragmática para lidar com os problemas e buscar a proporção ótima entre nosso investimento de recursos e os ganhos estratégicos.

A China não pode nem assumir a defesa de um dos lados no conflito na Península, como fazem EUA e Japão; nem pode sonhar com ignorar tudo completamente. Temos de aceitar prontamente que a China está envolvida; e há risco de a China ofender um dos lados, ou ambos.

O papel e a posição da China são claros, na discussão da questão da Coreia do Norte no Conselho de Segurança da ONU. Se a Coreia do Norte insistir em fazer novos testes nucleares, a China reduzirá a assistência que dá ao país. Se os EUA, Japão e Coreia do Sul aplicarem sanções extremas à Coreia do Norte, a China os conterá com firmeza e os forçará a reformar aquelas resoluções.

Deixem que a Coreia do Norte dê sinais de “zanga”. Não podemos sentar de lado e nada fazer, só porque tememos que o caso tenha impacto na relação sino-norte-coreana. EUA, Japão e Coreia do Sul que resmunguem o quanto queiram sobre a China. Não temos nenhuma obrigação de aliviar as emoções tristes daqueles países.

Dada a força da China, e desde que mantenhamos atitude firme, a situação será, gradualmente, influenciada por nossos princípios e nossa firmeza.

A China é uma potência, muito próxima da Península Coreana. Implica que nossos interesses estratégicos são complexos e diversificados. A China deve perseverar para proteger e manter nosso interesse nacional em sua totalidade, não qualquer dos interesses de outros países.

A China aspira a ver uma península estável, mas não é o fim do mundo que haja tumultos ali. Essa deve ser a linha básica da posição da China.

A China é condenada a estar localizada no leste da Ásia, onde a situação hoje é muito caótica. Mas, felizmente, a China é o país mais poderoso dentre todos da região. Evidentemente, será influenciada, no mínimo, pela situação. A China deve manter a calma.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Manipular a realidade é atacar a democracia


21/2/2012, *Lawrence Davidson, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Fato é que os norte-americanos médios são MUITO dignos de pena.
É como se os coitados vivessem dia e noite sob as metralhadoras de trocentas redesglobo! Quem pensar que a Folha de S.Paulo é o pior jornal do mundo, não conhece o New York Times, o Wall Street Journal!
(E os americanos médios, aqueles infelizes, sempre ameaçados de serem mandados morrer à-toa no Vietnã, no Iraque, do Afeganistão, no Paquistão, no Irã...)

*Lawrence Davidson
Em meados de fevereiro, alguns dos principais comandantes da inteligência dos EUA compareceram ante a Comissão de Inteligência do Senado para apresentar seu relatório anual sobre “ameaças mundiais atuais e futuras” à segurança nacional dos EUA. Depuseram naquela Comissão, dentre outros, o diretor da CIA David Petraeus, o Diretor da Inteligência Nacional James Clapper, o diretor da Agência de Inteligência da Defesa tenente-general Ronald Burgess e o diretor do FBI Robert Mueller.

O que disseram sobre o que é e não é ameaça real aos EUA e a reação dos senadores daquela Comissão revelou-se exercício de pensamento unidimensional. O que é fato? Ora, o que concorde com o ponto de vista deles. Aqui, dois exemplos daqueles depoimentos:

1. Sobre o “inimigo interno” – Indivíduos renegados que operam “dentro das fileiras” da comunidade de inteligência e das forças armadas são hoje grave ameaça à segurança dos EUA. Segundo o tenente-general Burgess, são “lobos solitários autorradicalizados”  [1]. Falou sobre “vazamentos massivos pelo site WikiLeaks”. 

Todos os presentes envolvidos naquelas audiências concordaram, mesmo sabendo que é ideia baseada no pressoposto duvidoso, mas não questionado, de que o comportamento das forças do governo dos EUA seria modelo de comportamento aceitável normal de militares e agentes de inteligência. Os que trabalham para o governo, mas consideram inaceitável esse comportamento, os que o veem de fato como traição criminosa contra toda a decência humana, e, por isso, trabalham contra aquela pré-condenação, são perigos “autorradicalizados” à segurança nacional.

Mas e se o apoio a regimes opressores e racistas, a invasão de outros países baseada em mentiras, a matança de milhares e mais milhares de civis e o uso oficial de tortura e da prática das “entregas excepcionais” [prisioneiros entregues pelos EUA a outros governos, para serem torturados] for considerado comportamento radical e inadmisível? Nesse caso, os que denunciem esse extremismo não poderiam ser vistos como radicais. Seriam campeões da normalidade mais racional, seriam os heróis dos tempos que vivemos.

Entendo que se trate exatamente disso. A busca em que os EUA se empenham hoje por alegados interesses nacionais está sendo conduzida por uma gangue metida em ternos caros, que tomaram para eles a tarefa de definir como radicais os heróis cidadãos que denunciam aquela gangue e fatos conhecidos de muitos. A gangue teme que mais e mais norte-americanos vejam afinal a natureza bárbara das políticas da gangue e levantem-se contra ela e a acusem. Então, para impedir que assim seja, a gangue criminaliza (e demoniza) os que veem e dizem a verdade.

O Diretor da Inteligência Nacional (DIN) dos EUA, James Clapper
conversa com o Presidente Barack Obama no Salão Oval da Casa Branca.
Crédito da foto: Gabinete do DIN
2. A ameaça iraniana – Segundo James Clapper, diretor da Inteligência Nacional, “apesar do alarido que cerca os movimentos do Irã em busca de tecnologia nuclear, é baixa a probabilidade de os líderes iranianos desenvolverem armas nucleares, se não forem atacados”. E, além disso, disse também Clapper, “dificilmente os iranianos iniciarão ou provocarão intencionalmente um conflito”. 

Como os senadores da Comissão de Inteligência receberam essa opinião de especialista? A maioria deles recusou-se a acreditar, fazendo eco ao que a maioria do Congresso diz e praticamente toda a imprensa dos EUA repete. A norma, nesse caso, é a que o Sen. Lindsey Graham, Republicano da Carolina do Sul respondeu a “Pessoalmente, estou convencido de que os iranianos estão a caminho de desenvolver uma bomba atômica”. 

Calma lá! Isso, só o senhor e sua gangue, Sen. Graham. Como?! O senhor e sua gangue não vivem dizendo que os Serviços de Inteligência dos EUA são os melhores do mundo e sabem do que estão falando? E, de repente, o senhor não acredita no que dizem?! Por que não?! Que outras fontes de informação os senhores têm sobre o Irã, que os autoriza a dizer o que dizem? E é fonte mais confiável de informação que a CIA, a DIA, a NSA, etc.?

Ah! É o lobby sionista! A fonte de informação de Graham e dos senadores que o seguem, sobre qualquer coisa que tenha a ver com Israel (e assunto iraniano é caso exemplar, sempre, da paranóia dos israelenses) é a cartilha das declarações do AIPAC (American Israel Public Affairs Committee).

Esses políticos jamais discordarão desse lobby, nem quando o que dizem contradiz o que diz a inteligência dos EUA. Isso, porque o lobby contribui com dinheiro para suas campanhas eleitorais e ameaça impedir que se reelejam, se os senadores não obedecerem. A comunidade de inteligência dos EUA simplesmente não consegue fazer-se ouvir, contra o lobby.

Assim, mais uma vez, somos todos obrigados a ouvir “notícias” construídas para apoiar as ideias de um grupo. O que significa ser um perigoso “radical”? Ser um perigoso “radical” é denunciar os crimes do governo. E o que é “fato”, quando se trata de Irã? “Fato” será o que o comitê que financia a reeleição de um senador decida que seja “fato”.

E o que é “fato” para o resto dos norte-americanos?

Fato é o que cremos e vemos. E, em vários sentidos importantes, nós sabemos dos fatos. Sabemos que se alguém pula da janela de um prédio, a lei da gravidade cobra seu preço. Em termos gerais, muitos de nós conhecemos os fatos que nos cercam no ambiente imediato no qual vivemos todos os dias. O que quero dizer com isso?

Vivemos a vida de todos os dias em ambiente relativamente limitado, local. Nesse espaço temos experiências diretas, interativas, diárias, a partir das quais conseguimos saber razoavelmente o que esperar. Nossas experiências têm bom valor preditivo. Se alguém aparece dizendo sandices – que quem vive na cidade vizinha está fabricando uma bomba atômica que usará para nos explodir – sabemos imediatamente que é sandice, loucura.

Mas e quando nos falam de gente que vive longe? Quem de nós conhece o Irã, quantos viveram lá, quantos conversam com iranianos? Nada, na nossa vida diária, nos habilita a emitir julgamentos sobre o que é real é o que não é real, do que se passa por lá.

Fazemos o quê, nesse caso? Em geral, vivemos como se aqueles lugares distantes não existissem, a menos que haja motivo próximo para crer que o que aconteça por lá venha a ter algum impacto em nossas vidas. Para isso, muitos de nós confiam cegamente nos que nos são apresentados como “especialistas”: praticamente sempre são funcionários do estado ou “especialistas” de mídia, “cabeças falantes”.

Aí pode haver um grave problema. O que assegura que sejam especialistas e mereçam confiança? Como se pode saber que aqueles “especialistas” do governo ou da imprensa não trabalham por agendas próprias que nunca nos são expostas e que modelam todos os seus julgamentos? Como sugerem os dois exemplos acima, políticos eleitos também podem perfeitamente trabalhar a partir de pressupostos que, se olhados a frio, são pressupostos anti-humanos. Qualquer deles, aliado a interesses especiais e que jamais se vêem com clareza, é perfeitamente capaz de declarar que todas as informações dos Serviços de Inteligência dos EUA são falsas, não passam de bobagens. “Real” é o que já tinham na cabeça antes de os serviços de inteligência porem-se a trabalhar. E quanto a nós, os que dependemos, para viver, da nossa experiência diária, imediata, acreditaremos em quê, em quem? 

Quando não se consegue saber o que é fato e o que é opinião, o que é fato e o que é ficção, talvez possamos usar algumas regras simples, para assim forçar os políticos a agir de modo a minimizar (em vez de multiplicar por mil) os erros. Por exemplo, em caso de dúvida quanto a em quem ou em que acreditar, os cidadãos podemos começar por:

1. Duvidar sempre, o mais possível, em tudo que digam os políticos e a imprensa. Lembremos os últimos desastres, nos EUA (o maior dos quais foi a invasão do Iraque), quando o que nos diziam sobre o que seria “fato” não passou de mentiras e mais mentiras. Os cidadãos temos o dever, para conosco e para com nosso país, de buscar várias, muitas, fontes de informação.

2. Exigir que os políticos eleitos trabalhem a partir do melhor cenário possível, por mais que se preparem para o pior. Na maior parte das vezes, a opinião dos “especialistas” sobre o que seriam ameaças externas contra nós é opinião ideologicamente distorcida; muitas vezes é exagerada; muitas vezes, também, é simplesmente errada (por exemplo, o que tantos “especialistas” nos diziam sobre o Vietnã); ou é opinião que segue uma ou outra agenda específica, interesses especiais (por exemplo, no caso do Iraque, no caso do Irã e sempre que a imprensa fala sobre o “santificado” estado de Israel e o estado “terrorista” dos palestinos).

3. Exigir que, nas relações exteriores, tente-se primeiro e principalmente, a via diplomática. A guerra deve ser necessariamente o último recurso, recurso extremo, que poucos conhecem de perto e a maioria dos políticos só viu em livros ou no cinema. Se a conhecessem de perto, com certeza não seriam tão rápidos em mandar para o front, na imensa maioria das vezes, só os filhos dos outros.

4. Exigir punição exemplar aos que mintam sabendo que mentem e agridem leis internacionais e direitos humanos (como a Convenção de Genebra e as muitas leis que proíbem a tortura). Há várias boas razões para que aquelas leis existam. Atropelá-las é voltar ao estado de barbárie.

É estranho, mas nas democracias, os que não se empenhem nas discussões políticas, que não se esforcem para influenciar o curso dos acontecimentos, acabam por ser responsáveis por tudo que seus governos façam. É assim, porque, nas democracias, quem não participa abdica do direito potencial de atuar no mundo. 

Ninguém pode recolher-se completamente à existência privada. Quem o faça, logo verá que a gangue dos ternos caros ganha novas chances de o derrotar. E afinal, a gangue dos ternos caros lá estará, agindo também em nome dos que abdicam do direito de participar e influir.



Nota dos tradutores

[1] 7/2/2012, BBC, em: “'Lone wolf' terror threat warning


*Lawrence Davidson é professor de História na Universidade de West Chester, na Pensilvânia. É autor de: Foreign Policy Inc.: Privatizing America’s National Interest; America’s Palestine: Popular and Offical Perceptions from Balfour to Israeli Statehood; e Islamic Fundamentalism.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Um miogodainardi ataca em “Occupy”!


Andrew Breitbart

E pôs-se a berrar: “Comportem-se! Comportem-se! Parem de estuprar pessoas! Bixas! Animais! Estupradores imundos! Viaaados!” – contra manifestantes de “OccupyCPAC”, que protestavam à frente do hotel onde se realizava a “Conservative Political Action Conference” (CPAC).

Foi protegido pela polícia, que o levou de volta para o hotel – como se vê no vídeo a seguir: Andrew Breitbart loses control at “Occupy” protesters.


No vídeo que se segue ouve-se o discurso do mesmo Andrew Breitbart, na Conferência do CPAC: “De um lado estão os EUA. Do lado oposto, está Occupy!”


Mais um que, como os miogodainardis, pervalmereiras, augunesnustos e vários outros, fazem do jornalismo-lixeira e do frenesi fascistizante, meio de vida.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A mais recente foto de Lula



Publicado em 17/11/2011 por Urariano Motta

Recife (PE) - Ao ver as últimas fotos de Lula na imprensa, com os cabelos e barba raspados por dona Marisa, a primeira coisa que vem na gente é um choque. A intimidade de Lula com o povo brasileiro é de tal sorte,  que vê-lo neste estágio de luta contra o câncer é o mesmo que rever um amigo caído em um leito de hospital. Depois, quando a gente atenta bem para a sua face, a sorrir, brincalhão, como a nos dizer “eu ainda vou provar um caldinho de feijão em Pernambuco, não desesperem”, bate na gente uma simpatia por esse homem provado pela dificuldade desde a infância.

Mais adiante, a foto desperta a reflexão de que a partir dela muitos brasileiros vão retirar do câncer o seu aspecto macabro, definitivo e definidor, como até hoje todos o vemos. O colunista aqui bem conhece a doença, da juventude até hoje em parentes, amigos e numa pessoa próxima demais para o seu gosto. Em todos conhece a via-crúcis, que  vai do autoengano à desesperança, até a exclusão voluntária do mundo dos saudáveis. E, no entanto, Lula, na foto, está a nos sorrir e nos puxar para cima, “enfrentem, nada está definido, vamos adiante”. Não desse em nada, só a sua imagem deveria receber prêmio dos institutos de oncologia, porque deixa em todos a luz da esperança.

Por fim, é da natureza de uma foto de alguém em tratamento de câncer, dela vêm outras imagens, de Lula no Recife, em Água Fria, lembro:

Súbito houve um estouro, não de fogos, nem de boiada. Houve um rumor que cresceu, que se tornou incontrolável, que mais parecia um orgasmo coletivo. Sofrido, querido e esperado. 

É Lula! É Lula! Todos gritaram. Os berros se fizeram ouvir mais alto, ensurdecedores. 

Mulheres, meninos, homens chamavam a atenção do Presidente, queriam chamá-lo, e ele não sabia para que lado se dirigir. 

Na hora uma idéia tenebrosa me ocorreu: se caísse um raio aqui, todos morreriam felizes. Mas essa idéia não atingiu palavras. 

Lula veio para o nosso lado. 

Era ele que avançava para o círculo estreito onde todos lhe queriam tocar a mão. Aos gritos. Aos prantos. Aos empurrões.

A última vez em que vi algo semelhante em Água Fria foi em 1965, no último dia de carnaval. Tocou Vassourinhas e não havia força que contivesse o gozo da multidão em fúria.  Lembro. E mais lembro das coisas mais duras da sua vida. Por exemplo, quando o Lula menino pegou da boca de um colega o chiclete mascado. Ou a intensidade da dor de ver a mulher falecer de parto, como tantos pobres do Brasil vêem, e jamais têm a sua dor expressa.

Não sei por que, mas no sudeste e sul do país se perdem a dimensão de que Lula, o personagem, o político, é maior que o PT, é maior que o sindicalismo, porque ele vem com a força da história, como uma encarnação da força que o povo tem. Dos muitos severinos, joões, marias e lindus.

Daí que causa espanto o nível de comentários que na imprensa além Nordeste há para a notícia da sua mais recente foto:

·        “JAMAIS o povo isento desejou a morte de um ex-presidente até desejar a de Lula. Realmente o governo Lula foi um marco na história do Brasil.
·        Lula: a grande maioria dos brasileiros quer mais é que você vá para o inferno. Abrace o capeta porque Deus desistiu de você faz tempo. Você ferrou com a vida da maioria da população, só ricos se beneficiaram com seu governo... Quero ver você agora enganar o diabo!
·        O grande medo é que o câncer crie “vida” própria e inteligência, coisa que o hospedeiro não tem, e passe a dominar a situação, e daí a tchurma tem medo de perder a sua boquinha, pois ninguém sabe o que o câncer tem em mente, qual sua ideologia... O consolo é que a gente sabe que o câncer o evolui, mas o mula não...

·        Tenho pena mesmo é daquele cachorro arrastado pelo dono. Esse aí da foto teve o que merece...”

Ao ler esses comentários raivosos nos sites da imprensa no sudeste, vem na gente a vontade de deixar um conselho: não desejem tanto mal a Lula, porque se as suas pragas pegam, o mal lhes vem em triplo.

Quanto mais dramas, problemas ou pequenas tragédias ocorrem a esse homem, mais ele cresce como pessoa e político.

Respeitá-lo, gostar da sua história é mais sensato. Não sejam loucos de querer a sua morte morrida ou matada, entre dores, tragédia ou tiros. Pois se tal acontecer, vão ter que conviver o resto das suas vidas com São Lula.

Imaginem o que seria render-lhe graças em todos os terreiros e templos do Brasil. Os loucos e raivosos estariam preparados? Melhor desejar a Lula o que a maioria do povo agora deseja: força, eterno Presidente.

Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Propaganda de guerra pelos jornais e televisão: “Jornalistas devem ser julgados pela Justiça Internacional”


Thierry Meyssan

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

A propaganda de guerra entrou em nova fase, e hoje envolve ação coordenada de estações de TV por satélite. CNN, France24, a BBC e a rede al-Jazeera converteram-se em instrumentos de desinformação, usadas para demonizar governos e governantes e justificar agressões armadas. Essas práticas são crimes tipificados na legislação internacional. É preciso pôr fim à impunidade desses criminosos ‘midiáticos’.

A informação processada e distribuída sobre a Líbia e a Síria marca um ponto de virada na história da propaganda de guerra, e os meios usados tomaram de surpresa a opinião pública internacional.
Desenho de alunos, em Trípoli [no lixo, o logotipo da rede Al-Jazeera]

Quatro potências – EUA, França, Reino Unido e Qatar – somaram seus meios técnicos para intoxicar a “comunidade internacional”. Os principais canais usados foram a CNN (embora privada, interage com a unidade de guerra psicológica do Pentágono), France24, a BBC e a rede al-Jazeera.

Esses veículos estão sendo usados para atribuir aos governos da Líbia e da Síria crimes que não cometeram, ao mesmo tempo em que trabalham para encobrir os crimes que estão sendo cometidos pelos serviços secretos daquelas potências bélicas e pela OTAN.

Assistimos a golpe similar, em menor escala, em 2002, quando os canais Globovisión da Venezuela distribuíram imagens do que seria (mas não era) uma revolta popular contra o presidente eleito Hugo Chávez e imagens de ativistas armados, identificados por Globovisión como se fossem ativistas chavistas, atirando contra manifestantes. Essa encenação tornou-se necessária para mascarar um golpe militar orquestrado por Washington, com colaboração de Madrid. Em seguida, depois que levante popular legítimo fez abortar o golpe e reintegrou o presidente eleito, investigações conduzidas pela justiça venezuelana e por jornalistas sérios revelaram que a ‘revolução’ filmada e distribuída pelo canal Globovisión não passava de simulacro, criado por artifícios técnicos, e que nenhum chavista jamais atirara contra manifestantes; e que, isso sim, os manifestantes haviam sido vítimas de atiradores mercenários a serviço da CIA.

Vê-se acontecer o mesmo, novamente, agora, mas os criminosos são canais de televisão consorciados que distribuem imagens de eventos inexistentes na Líbia e na Síria. O objetivo é fazer-crer que a maioria dos líbios e dos sírios desejariam a destruição de suas instituições políticas e que Muammar Gaddafi e Bashar al-Assad teriam massacrado o próprio povo. A partir dessa intoxicação “midiática”, a OTAN atacou a Líbia e está em vias de também destruir a Síria.

Fato é que, depois da 2ª Guerra Mundial, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou legislação específica que proíbe e pune essas práticas “midiáticas”.

A Resolução n. 110, de 3/11/1947 criou “procedimentos a serem adotados contra a propaganda e incitadores de nova guerra”, condena “propaganda construída explicita ou implicitamente para provocar ou encorajar qualquer tipo de ameaça à paz, quebra de paz negociada ou ato de agressão."

A Resolução n. 381 de 17/11/1950 reforça aquela condenação e condena explicitamente qualquer censura a informação, como parte da propaganda contra a paz.

Finalmente, a Resolução n. 819 de 11/12/1954 sobre “remoção de barreiras que impeçam a livre troca de informação e ideias” reconhece a responsabilidade dos governantes no ato de remover barreiras que impeçam a livre troca de informação e ideias.

Ao fazê-lo, a Assembleia Geral desenvolveu doutrina própria sobre a liberdade de expressão: condenou todas as mentiras que levam à guerra; e impôs o livre fluxo de informações e ideias e o debate crítico, como armas a serem usadas necessariamente a favor da paz.

Palavras e, sobretudo, imagens, podem ser manipuladas de modo a servirem como “justificativa” para os piores crimes. Nesse sentido, a intoxicação da opinião pública provocada pelas falsas notícias distribuídas por CNN, France24, BBC e al-Jazeera pode ser definida como prática de “crime contra a paz”. 

Essas práticas criminosas ‘midiáticas’ devem ser vistas como mais sérias do que outros crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos pela OTAN na Líbia e por agências ocidentais de inteligência na Síria, na medida em que os crimes ‘midiáticos’ precederam e possibilitaram a prática dos demais crimes.

Todos os jornais, redes de televisão públicas e privadas e todos os jornalistas que operaram na propaganda de guerra – a favor dos ataques militares contra a Líbia (e, deve-se prever, em breve também contra a Síria) – devem ser julgados pela Corte Internacional de Justiça.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Síria: o caso de Hama e a imprensa


Como 10 mil manifestantes, de repente, viraram 500 mil

Pierre Piccinin

4/8/2011, Pierre Piccinin, Counterpunch 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Pierre Piccinin é Professor de História e  Ciência Política em Bruxelas

Durante o mês de julho, viajei pela Síria, com o objetivo de entender melhor, pessoalmente, a origem do atual conflito político.

Circulei livremente pelo país, a partir de Dera, por Damasco, Homs, Hama, Maraat-an-Numan, Jisr-al-Shigur, na fronteira com a Turquia, até Deir-ez-Sor, locais, todos esses, onde a imprensa noticiou irrupções de violência.

Testemunhei várias lutas internas, algumas das quais violentas, movidas por objetivos que absolutamente nada têm a ver com objetivos democráticos ou pacifistas. A Fraternidade Muçulmana, por exemplo, trabalha para fazer da Síria uma república islâmica, o que, por sua vez, aterroriza os cristãos e outras minorias.

Embora não fosse objetivo da minha pesquisa, surpreendeu-me o quanto a imagem que a imprensa tem oferecido da Síria, país que estaria vivendo processo revolucionário em grande escala, absolutamente não corresponde, de modo algum, à realidade em campo.

De fato, os movimentos de protesto em grande escala já estão esvaziados, devido em parte à repressão; hoje, os manifestantes não ultrapassam poucas centenas, concentrados em volta das mesquitas e, na maioria, com marcas claras da influência dos movimentos islâmicos.

Exatamente por isso, só na cidade de Hama, reduto cultural da Fraternidade Muçulmana e atualmente sob estado de sítio, ainda se veem protestos mais amplos.

Centro de violenta revolta em 1982, que foi esmagada por Hafez al-Assad, pai do atual presidente, Hama está hoje cercada pelo exército, pesadamente armado. Mas o governo optou por não atacar a cidade, o que geraria um banho de sangue, temeroso das repercussões e das críticas da comunidade internacional.

Entrei em Hama dia 15 de julho, 6ª-feira. Rapidamente, fui cercado por jovens que policiam a cidade. Mostrei-lhe meu passaporte belga, e a situação acalmou-se: “Belgicaa! Belgicaa!”. Como único observador estrangeiro na cidade, levaram-se até o centro das manifestações. De um ponto elevado da cidade, tirei várias fotos, que mostram a extensão da destruição da cidade.

Na Praça Asidi, ao final da grande avenida El-Alamein, as orações estavam para começar, e via-se muita gente aproximando-se da praça, vinda de todos os lados da cidade, aos gritos, desafiadores de “Allah Akbar!”.

Naquela mesma noite, 15 de julho, recebi o noticiário da AFP, que noticiava manifestações em toda a Síria, 500 mil só em Hama. Mas em Hama, como eu podia ver, não havia mais de 10 mil manifestantes.

Essa “informação” é ainda mais absurda, se se sabe, como qualquer um pode verificar, que a cidade de Hama tem população de apenas 370 mil habitantes.

Claro que há uma margem de variação razoável, conforme as fontes. Mas, nesse caso, não se tratava de estimativa: a AFP claramente desinformou – pura propaganda. Os números foram inventados para criar uma notícia: 500 mil manifestantes poderiam abalar qualquer governo; 10 mil, pouco significam. 

Além do mais, todas as “informações” sobre a situação na Síria têm sido distorcidas, sempre na mesma direção, já há vários meses.

Que fontes a Agência France Presse (AFP) cita?

A mesma fonte que sistematicamente é citada por toda a imprensa e que já tem hoje declarado monopólio da informação sobre os protestos na Síria: o Observatório Sírio para Direitos Humanos [orig. Syrian Observatory for Human Rights (SOHR)].

Sob verniz superficial de respeitabilidade e profissionalismo, esconde-se uma organização política com sede em Londres, presidida por ninguém menos que Rami Abdel Raman, declarado inimigo político do regime Baath, com laços com a Fraternidade Muçulmana.

Por isso, já há vários meses, a imprensa ocidental divulga uma realidade editada, colhida sempre de uma única fonte, cuja versão, pelo que se vê, nenhum jornal ou rede de televisão, e nenhum jornalista, achou necessário questionar ou confirmar.

A versão segundo a qual a Síria estaria em processo de revolução ampla, com o governo do partido Baath à beira do fim, absolutamente não corresponde à realidade. O governo sírio mantém-se plenamente no controle da situação e o que resta das manifestações está dividido em vários grupos, consideravelmente marginalizado.

Mas as consequências desse mais recente caso de desinformação pela imprensa têm consequências de longo alcance: parece que ainda não se aprenderam as lições de Timisoara, da Guerra do Golfo ou dos eventos na Iugoslávia. 

A imprensa europeia continua a deixar-se enganar por informações construídas a partir de notícias de segunda mão, mal sistematizadas e jamais conferidas. Assim, pouco faz além de criar uma realidade virtual, sem qualquer fundamento em fatos, que oferece como se fosse informação aos leitores/ telespectadores/ ouvintes.

Sempre que a imprensa falha e não cumpre seu dever de oferecer informação genuína e bem construída, por mais que toda a imprensa perca, o maior risco que se cria é contra a democracia. 

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Líbia: a morte do comandante “rebelde”

30/7/2011, Victor Kotsev, Asia Times Online 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu



Da discussão de pauta, na Vila Vudu:
“Acho que esse artigo é muito jornalístico – portanto não nos interessa. 
Ninguém aqui tem qualquer interesse por ou obrigação de ouvir/ler o que pense um ou outro jornalista ou um ou outro Murdoch, sobre seja lá o que for. 

Mas nenhum jornal ou jornalista brasileiro sabe porra-nenhuma sobre a Líbia. Por aqui, a única coisa que a imprensa oferece é o papim fraco dos mervais e uíliamvacks e demétriosmagnólias. E mesmo esse naaaaada nunca passa de repetição de releases do Departamento de Estado dos EUA, da CIA ou de agências de notícias que, idem, só fazem repetir releases etc. etc. etc., como o New York Times; ou é opinião fraca da USP udenista tucana golpista. 

Nós trabalhamos sempre pra dar voz clara a UM LADO – o nosso. Em matéria de “ouvir os dois lados” à moda do jornalismo que há, já nos bastam os dois lados do sempre mesmo Murdoch. Como todos sabemos, nunca houve, não há nem jamais haverá murdochs éticos, nem murdochs democráticos.

Mas acho que sim, podemos traduzir. Há aí melhor informação que em qualquer jornal brasileiro. E a seleção de matérias que há nas notas pode ser útil para quem esteja acompanhando o noticiário (nossa camaradinha Lica, que está fazendo exatamente isso, disse que os artigos selecionados nessas notas não são nenhuma Brastemp, mas são muito melhores que qualquer coisa que tenha sido publicada na ‘grande’ imprensa brasileira).

Metemos aspas de ironia em todos os “rebeldes” e “revolucionários” que o jornalista “isento” escreva com pompa e circunstância (e com lado, é claro, mas nunca declarado); e escrevemos uma nota, pra chamar a atenção para o fato de que o jornalista escreve de Telavive. 

Nenhum jornalista que tenha de trabalhar em Telavive JAMAIS escreverá matéria assinada em que informe, decentemente, que a guerra da Líbia foi INVENTADA e IMPOSTA à Líbia, por EUA-OTAN, interessados em destruir a Líbia de Gaddafi, porque Israel acha-que-sim. 

Na matéria abaixo, de fato, a única notícia que se lê é que o calorão, o jejum de Ramadã, as tempestades de areia e a “complexidade do conflito” venceram a guerra na Líbia. Gaddafi nem passou por lá, nem derrotou os EUA-OTAN. E os ‘rebeldes’ hoje, já em pleno salve-se-quem-puder, não temem mais pelos próprios pescoços, que por alguma democracia. 

De fato, pensando bem... fica-se sem saber o que, diabos, a CIA tanto espiona, que não sabia, sequer, da “complexidade do conflito” naquela parte do mundo! [gargalhadas e aplausos]. 

Se Obama – que estava ao lado da presidenta Dilma quando ordenou o ataque à Líbia – tivesse perguntado, a presidenta Dilma teria dito: “Não se meta lá. É fria.” Meteu-se Obama de pato do AIPAC a ganso do AIPAC, e levou um creu. Que utilidade teve a CIA?!

Se o que a CIA sabe fazer é “prever” que a Líbia corre risco de virar “mais uma Somália, dessa vez na costa Mediterrânea”, sinceramente, se a CIA trabalhasse pra mim, eu demitia por incompetência. E esse trecho do artigo, por absolutamente ridículo, a gente não traduz.

Não traduzimos tampouco os parágrafos em que o jornalista “informa” que a segurança do ocidente estará ameaçada se Gaddafi meter na cadeia (ou fuzilar) toooodos os “rebeldes”. Isso, o Estadão já (des)informa todos os dias. E, OK, aproveitamos, do artigo, o que presta. 

Melhor pra nós se, em breve, as notas introdutórias das nossas traduções trouxerem mais reflexão aproveitável que qquer coisa que a gente traduza de jornais. Só a luta ensina!

Contudo, claro, desde que todos os cidadãos consumidores de jornais sejam devidamente alertados para a péssima qualidade do jornalismo que lhes é impingido (e VENDIDO!), pode-se ler qualquer coisa. Claro. Liberdade TOTAL.

No Brasil, por exemplo, a Folha de S.Paulo, por exemplo, tem todo o direito de publicar o que dê na telha das danuzas. Mas a empresa deve ser obrigada por lei a trazer na primeira página, em espaço equivalente a no mínimo ¼ de página, como já se faz nos cigarros, o seguinte:

ALERTA AOS CONSUMIDORES:
A Folha de S.Paulo pressupõe que você seja perfeito idiota. Para o caso de você ainda não ser perfeito idiota, a Folha de S.Paulo dedica-se a torná-lo perfeito idiota. Assim, fica todo mundo avisado.
Se você, consumidor, não se incomodar com ser engambelado diariamente pela Folha de S.Paulo, pague, por favor, ao jornaleiro (ou por boleto, ou pelo cartão) o muito caro que a Folha de S.Paulo lhe cobra para imbecilizá-lo... e deixe-se imbecilizar à vontade.
O dinheiro é seu. A liberdade de informação, também.”

Por tudo isso, e sob as condições acima (o que não se traduz e CORTA-SE do artigo abaixo), voto a favor de traduzirmos o artigo abaixo. É o meu voto.”

[Voto aprovado por aclamação]

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O assassinato do comandante militar dos “rebeldes” líbios, general Abdel Fattah Younes pode levar a violenta cisão entre as forças de oposição a Gaddafi – que viria num momento em que a ofensiva da oposição já perde ímpeto, antes do início do mês do Ramadan, em agosto, quando o calor inclemente e o jejum obrigatório tornam os combates mais lentos e mais difíceis. 

A morte do general, cujo corpo, com os de dois de seus principais auxiliares foi encontrado queimado na 5ª-feira, traz à luz uma rede extensa e complexa de relações de poder e rivalidades que invade os dois lados em luta. É prova de o quanto é fluida a situação na Líbia, com camadas superpostas de lealdades, que se modificam a todo o momento.  

O espectro de uma invasão por terra, por forças da Aliança do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), já parece afastado. Já não se ouve o bravado do ocidente que se ouvia há apenas um mês – quando o exército britânico, além de outros, já preparava planos detalhados para uma Líbia de ‘depois de Gaddafi’ [1]. Esses planos saíram de cena, por uma combinação de fracassos em terra, falta de disposição política dos estados que enviaram soldados para a Líbia e os firmes protestos de Rússia, China dentre outros atores internacionais. (...) 

Notícias sobre a morte do general Younes começaram a aparecer imediatamente depois que os líderes rebeldes anunciaram que o general fora preso; em seguida, as notícias foram corrigidas: o general teria sido “chamado do front”, para ser interrogado sobre suspeitas de que teria ajudado Gaddafi secretamente. O assassinato teria ocorrido quando o general voltava ao front, e o líder do grupo que o matou teria sido preso. Mas na manhã de 6ª-feira não houve novas notícias, e começaram a surgir boatos sobre quem, de fato, seria responsável. 

Younes, que era tido como o segundo homem mais importante da Líbia, abaixo só de Gaddafi, antes de desertar em fevereiro, acompanha Gaddafi desde a revolução de 1969. Foi ministro do Interior, ativo várias vezes na repressão contra dissidentes, ao longo dos anos; muitos rebeldes, diz o noticiário, várias vezes manifestaram dúvidas sobre sua lealdade. 

O fracasso do recente ataque pelos ‘rebeldes’ aos poços de petróleo de Brega, que resultou em várias baixas, parece ter despertado nova onda de suspeitas contra o general. Os “rebeldes” atribuíram a derrota a uma “traição”, nas palavras de um comandante, em entrevista à rede al-Jazeera, há dez dias. [2] 

No início de abril, a filha de Gaddafi, Aisha, insinuou, em entrevista, que Younes continuaria leal a seu pai. Mas Gaddafi criou um prêmio pela cabeça de Younes. A entrevista, portanto, pode ter visado a desacreditar o general no campo “rebelde”. (...)

As defecções não são raras, no conflito líbio, dos dois lados. Nos primeiros protestos, jornalistas ocidentais surpreenderam-se ao ver gente que participava tanto dos protestos contra Gaddafi, quanto nas manifestações a favor. 

É possível que Younes tivesse várias lealdades. Isso também significa que, tão cedo, não saberemos exatamente quem esteve por trás do atentado que o matou. Os “rebeldes” dizem que o general teria sido assassinado por “uma célula” pro-Gaddafi [o New York Times também diz, igualzinho. O New York Times, além do mais, só faz advertir contra o risco de “grave violência tribal, como em outras partes da África” [3]. É informação tão acurada e isenta quanto o Estadão “informar” que haverá um desfile de moda na Vila Madá, em Sampa, “como em outras partes do Cone Sul”. Ninguém precisa saber o que o NYT pensa sobre coisa alguma. Quantos votos teve o NYT? (NTs)].

Há notícias sobre importante cisão dentro do campo “rebelde’’ entre atuais “rebeldes” que por muito tempo foram aliados de Gaddafi e revolucionários com passado limpo. [Como assim... “limpo”?! Cadê o jornalismo isento, sô?! Quem precisa saber o que pensa o jornalista?! Quem precisa desse jornalismo?! (NTs)].

Seja como for, não é fácil definir o que seja passado limpo na Líbia. [e onde, diabos, seria facílimo definir “passado limpo”?! Parece a cabeça da D. Danuza, sô! (NTs)]. 

Para aumentar a complexidade da situação, o principal chefe rival de Younes no campo rebelde era o general Khalifa Hifter, que desertou em 1987 e viveu durante décadas nos EUA, até voltar à Líbia, em março, para juntar-se aos “rebeldes”. 

Hifter, que goza da confiança dos “rebeldes” por ter passado limpo é, sabidamente, ligado à Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA. Daí nasceram suspeitas de que a agência norte-americana pode também estar implicada no assassinato. 

Além disso, os objetivos da guerra vão-se rapidamente centrando em obter dinheiro e conquistar recursos naturais. Não por acaso, a mais recente ofensiva dos “rebeldes” visou a cidade de Brega, no leste. “A batalha na Líbia vai aos poucos se transformando, de desejo de conquistar territórios, para desejo de controlar recursos” – noticiou Anita McNaught, da rede al-Jazeera, há uma semana [4].
Outro dos motivos que têm aparecido como centrais, nos movimentos diplomáticos dos “rebeldes” líbios, é obter acesso ao dinheiro. Para tanto, os “rebeldes” tentam conseguir que sejam reconhecidos como legítimo governo líbio por outros países. [5] Querem ter acesso a dezenas de bilhões de dólares que estão congelados no ocidente; querem também poder receber ajuda militar, de que os rebeldes carecem desesperadamente: armas, munição, salários, comida e remédios. 

Há fontes que dizem, até agora como pura especulação, que os ‘rebeldes’ têm planos de construir um exército mercenário para combater Gaddafi no futuro. A informação não foi confirmada, mas persistem muitas dúvidas quanto à identidade e o comportamento das forças “rebeldes”. Mesmo jornais simpáticos aos “rebeldes”, como al-Jazeera, já dizem que eles não seriam tão democráticos ou amantes da paz quanto querem fazer crer [6]. 

A ONU já acusou formalmente os dois lados por prática de crimes de guerra. [7] O assassinato de Younes, se foi crime de um dos lados em confronto, será exemplo claro das táticas brutais empregadas na Líbia, pelos dois lados. Se continuarem a surgir notícias sobre essas atrocidades, pode ser o fim de qualquer legitimidade da campanha das forças internacionais e da OTAN. 

Em qualquer caso, a OTAN, a única força militar que efetivamente ainda apóia os “rebeldes”, já trabalha pressionada num cronograma estrito, embora não o declare. Muitos países-membro já não demonstram qualquer empenho político ou disposição para consumir recursos (ou não têm, mesmo, recursos a desperdiçar), na guerra. E logo começará o outono, época de tempestades de areia na Líbia, quando o potencial bélico dos jatos da OTAN será drasticamente reduzido. 

Dado que já não se cogita de invasão por terra na Líbia, os dois cenários gêmeos, de colapso dos “rebeldes” e de vácuo de poder no país, tomam a cena. Em agosto, mês do Ramadã, não se deve esperar que os “rebeldes” derrotem Gaddafi pela força. E estão bem próximos de perder a OTAN, sua principal aliada. (...) 

Notas do autor
[1.] Libya after Gaddafi, Asia Times Online, 5/7/2011.
[2.] Libyan rebels pushed back from Brega, al-Jazeera, 19/7/2011.
[3.] Death of Rebel Leader Stirs Fears of Tribal Conflict, The New York Times, 28/7/2011 (registration required).
[4.] Libyan rebels fight for resources, al-Jazeera 21/7/2011.