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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Porque o Ocidente está Perdendo a Guerra da Informação


Ucrânia: um museu criacionista?


27/3/2015, [*] Ivaylo Grouev, Counterpunch
Traduzido por Emex, que nos ajuda do Canadá
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu



Uma meia-verdade é a mais covarde das mentiras
Mark Twain



Museu Criacionista - Petersburg, Kentuky
Quando acompanho a cobertura da crise ucraniana em alguns dos mais respeitáveis e principais órgãos da empresa-mídia ocidental, tenho o estranho sentimento de estar passeando num museu de história natural. Não em qualquer um, mas num museu de história natural bastante incomum – um museu criacionista. Para quem talvez não saiba, aqui vai uma notinha de causar escândalo, espalhafatosa: há mais de 30 museus criacionistas nos Estados Unidos e dois na província canadense de Alberta – berço do Partido da Reforma, hoje Partido Conservador Progressista (dois nomes bastante enganosos), no poder desde 2006.

Um dos mais novos museus criacionistas dos Estados Unidos está em Petersburg, Kentucky, uma instalação com tecnologia de ponta, de 6.500 m². Uma verdadeira maravilha da robótica, comparável ao melhor que Hollywood possa oferecer: pterodátilos animatrônicos em tamanho natural, sons realistas dos rugidos do “rei dos lagartos” — Tyrannosaurus rex — cercado por jubilosos e despreocupados robôs de filhos de Adão e Eva.

Surpreendentemente, aquele empreendimento alucinado, de 27 milhões de dólares, não dá prejuízo, nem está atirado às traças; muito pelo contrário – o tal museu das obras de Deus, incluídos eu e você e tudo que existe, já atraiu até agora mais de 715 mil visitantes de todo o mundo, cada um dos quais pagou de muito bom grado 30 dólares por ingresso [1]

Mas que paralelo pode ser feito entre o tal museu dos feitos divinos e a cobertura da crise na Ucrânia? O primeiro paralelo está nos fatos, no empenho em mostrar fatos, a própria exposição. No geral, a impressionante exposição–comprovação da obra de Deus em Petersburg é consistente com as últimas descobertas da paleontologia moderna: estão corretos o tamanho e as dimensões dos fragmentos de ossos e esqueletos; e as representações dos majestosos dinossauros são bastante críveis; com certeza, todas essas peças poderiam ser orgulhosamente exibidas em qualquer museu de ciência natural. Além disso, os filhos de Adão e Eva parecem bastante realistas e teriam lugar assegurado numa ousada estratégia de curador de museu que quisesse representar os primórdios da sedentarização humana.

O único problema é que tudo naquele museu, embora verossímil, é falso. Todos nós sabemos que o mundo não tem 5.000 anos, mas 13,2 bilhões de anos; e que humanos, amebas, orcas e a bactéria causadora de disenteria não foram criados em seis dias antes do bem merecido descanso dominical de Deus.

E onde entra a Ucrânia nisso tudo?

Tanque T-64; fabricação russa, numeração ucraniana
Como já devem saber alguns leitores, foi recentemente inaugurada no centro de Kiev uma verdadeira exposição, ao ar livre, mostrando tanques, veículos blindados, metralhadoras e veículos queimados ou parcialmente derretidos, que ali estão exibidos como se fossem provas de uma invasão russa na Ucrânia Oriental. A autenticidade das peças expostas é inquestionável – de fato, os tanques são tanques, realmente blindados; as metralhadoras são realmente metralhadoras capazes de realmente metralhar; e os carros queimados, sim, são carros. Entretanto, exatamente como no museu criacionista, o contexto é fictício, foi integralmente inventado, ou foi integralmente apagado.

Com efeito, lemos, vemos, ouvimos e ficamos profundamente traumatizados por inúmeros fatos e evidências que nos são apresentadas na cobertura da crise ucraniana que a mídia-empresa ocidental está fazendo. Vemos fotos de homens armados, soldados, casas explodidas, carros destroçados e tanques, bem como escombros de um avião de passageiros, filas de refugiados, pessoas esfomeadas, idosos vivendo em porões sem comida nem eletricidade – diversas fotos horríveis de cadáveres inteiros ou em pedaços.

Tudo isso é verdadeiro e representativo da desoladora tragédia humana que ora acontece na Ucrânia. Mas nessa narrativa geral – assim como na narrativa dos criacionistas, que expõem dinossauros provavelmente gentis como babás, posto que não havia violência no Jardim do Éden – tudo que é mostrado pela mídia-empresa ocidental é, sempre, imagem distorcida do contexto real.

Seguindo a lógica da versão do “Gênesis” by Poroshenko, o regime dito democrático liberal pró-ocidental de Kiev vai resolver todas as questões sociais, econômicas e políticas do país atormentado pela corrupção. Portanto, segundo essa narrativa, todos os fatos e exposições devem ser cuidadosamente dispostos exatamente da mesma forma como faria o curador de um museu criacionista. E exatamente como no museu criacionista, essa exposição apresenta um insuperável desafio à lógica fundamental, que deixa sem resposta a maioria das perguntas, senão todas elas.

Berkut (Força Policial da Ucrânia)
Vejamos algumas dessas perguntas. Por que as Forças Ucranianas de Polícia, conhecidas como Berkut, mataram seus próprios soldados, dia 20/2/2014? Os fatos estão aí: 18 oficiais foram mortalmente baleados e mais de uma dúzia ficaram feridos [2].

Essa pergunta foi apagada da metanarrativa, bem como todas as perguntas em torno do “incêndio acidental” de 2/5/2014 em Odessa, em que 48 pessoas (outras fontes falam de um número ainda maior) foram queimadas vivas, enquanto outras, que conseguiram pular do prédio em chamas, foram mortas a pauladas por ativistas de Maidan, na frente da Polícia, que nada fez para impedir o massacre. Por que, quase um ano depois desses eventos, a mídia-empresa ocidental ainda não fez essas perguntas ao Procurador-Geral da República ucraniana? Por que o governo ucraniano recusou-se a permitir que o Tribunal Penal Internacional investigasse esses fatos? Por que tudo isso nunca foi questionado pelos bastiões do jornalismo-empresa ocidental?

E não é só isso: a mídia-empresa ocidental também prefere não cobrir fatos que contradigam a lógica desse “Gênesis” by Poroshenko. Permanecem cuidadosamente ocultados todos os nomes dos que ordenaram e admitiram e, pois, são responsáveis pelo bombardeio de grandes centros urbanos como Donesk, Luhansk, Mariopol, Kramatorsk, Slovyansk.

O assassinato de mais de 40 pessoas em Odessa
Como também não se sabe quem autorizou o uso de armas proibidas pela Convenção de Genebra, como fósforo branco e bombas de fragmentação. A mídia-empresa ocidental mostra pouco interesse em fazer as perguntas necessárias sobre a natureza da famosa Operação Antiterrorista (ATO, acrônimo em inglês), que usou artilharia pesada, aviação e tanques contra a população civil de Donetsk e Luhansk – 6,8 milhões de pessoas, população maior que a população total dos três estados Bálticos (Letônia, Estônia e Lituânia) [3].

Em vez de saudável jornalismo investigativo e respectivas boas respostas, oferecem-nos imagens dramáticas. Seja como for, a técnica é a mesma, para o “jornalismo” ocidental e para os criacionistas do Kentucky: apagar o contexto. Não apenas se publicam fotos de inexistentes tanques russos cruzando a fronteira ucraniana, tão inverossímeis quantos Adão e Eva no paraíso de bondosos dinossauros, mas, também, as tais fotos são longamente discutidas no plenário do Congresso dos EUA (as fotos mostram tanques russos, mas quando cruzaram a fronteira com a Geórgia, em 2008).

E o mesmo se vê sobre o avião holandês, mostrado em fotos em que Putin aparece ao lado de imagens das vítimas.

Mas silêncio total, e a empresa-mídia ocidental completamente apática, em tudo que tenha a ver com as gravações da caixa preta do MH17, divulgadas cinco dias depois do desastre. Em todos os casos, a resposta é sempre a mesma, não importa qual seja a pergunta: a culpa é de Putin.

Vladimir Putin, personalidade do ano 2007
De fato, Putin se tornou o “queridinho” da mídia ocidental: nos EUA, foi tema de 5.771 matérias; 8.929 na Alemanha, e 5.209 no Reino Unido, só em 2014 [4]. É grande cobertura, pela empresa-mídia. Nesse roteiro bíblico, o recentemente eleito presidente Poroshenko tem o papel do mocinho, e o presidente Putin é o bandido. De repente, Putin sofre da mais grave síndrome de múltipla personalidade jamais vista, reencarnando ao mesmo tempo Stálin, Hitler e o famoso “Jihad John” do ISIS (como se sabe, graças à CNN, o mistério foi esclarecido: o degolador máster é Putin) [5].

Mas a demonização sem precedentes do Presidente da Federação Russa não é evento isolado, sendo consistente com a difamação de Saddam Hussein (“O carniceiro de Baghdad”), de Muammar Gaddafi (“Homem-cão raivoso”), de Slobodan Milosevic (“O carniceiro dos Bálcãs”). Todas essas campanhas de demonização foram lançadas pouco antes do início das campanhas militares dos EUA no Iraque, na Líbia e na Iugoslávia.

Tanto para a empresa-mídia ocidental, apologista do Gênesis by Poroshenko, quanto para os criacionistas, espaço, tempo e lógica merecem pouca consideração. Os criacionistas comprimiram o Mesozoico, que começou há 252 milhões de anos e terminou 66 milhões de anos depois, em apenas alguns milhares de anos. A empresa-mídia serve-se da mesma técnica, para período muito mais curto. Em 2007, a personalidade do ano para a revista Timefoi Putin. Sete anos depois, o mesmo Putin virou Hitler [6].

Putin, personalidade do ano 2007 virou Hitler
O que é notável na atual “Guerra de informação” é o quanto o contexto-zero da empresa-mídia ocidental vem-se tornando violento e implacável em sua sempre desmentida fabulosa inventividade.

Para consolidar o mito–Putin, a mais recente manchete diabólica proclamando “Putin matou meu filho!” pode não ser suficientemente dramática. Logo inventarão algo mais espetacular, como “Putin matou o filho de Deus!”, plenamente aceitável no “ambiente criacionista” em que vegeta a empresa-mídia ocidental, quando longos períodos de tempo podem ser facilmente comprimidos sem nenhum questionamento.

Com efeito, Putin pode muito bem viajar no tempo para a Palestina do Ano 0, ir até o Gólgota montado num amigável pterodátilo, perfurar o desidratado corpo de Cristo, e no caminho de volta fazer uma parada em Munique em 1938 para tomar café da manhã com Hitler. Exagero? Claro que sim. Como são exageros a história dos pterodátilos gentis e a lógica do curador do museu ao ar livre de Kiev, que exibe tanques “russos”, mas com NIV (números de identificação de veículos) ucranianos.

A empresa-mídia ocidental tem dito meias- verdades e mentiras descaradas, mostrando o novo regime de Kiev como “democrático” e os “rebeldes” como terroristas. A natureza dessa “propaganda” mais parece pregação de um tele-pastor evangélico de San Antonio, Texas, que reportagem publicada por veículos tidos como respeitáveis da empresa–mídia, alguns dos quais de reconhecida tradição. Esta é uma das razões pelas quais toda essa empresa–mídia está rapidamente perdendo credibilidade, além de fatias de mercado.

Em contraste, a blogosfera vem bombando, quando o tema é a crise ucraniana, ao oferecer reportagens alternativas, vídeos, testemunhos do front e, mais importante ainda, análises de conteúdo alternativas e contexto.

Imprensa criacionista
Há nítido apetite por reportagens diferenciadas e por fatos crus em primeira mão, bem como por análises críticas que contradigam a metanarrativa oficializada. Agências midiáticas como RT estão visando especificamente a esse tipo de audiência que não para de crescer no Ocidente, na Europa e nos EUA. Não surpreende que RT seja hoje o segundo canal estrangeiro mais visto nos Estados Unidos (depois da BBC World News) e a rede social número um nas maiores metrópoles como Nova Iorque, Los Angeles, Chicago e Washington. Sua difusão global alcança a impressionante marca de 700 milhões de telespectadores [7].

Qual a razão para o repentino sucesso deste concorrente tão “jovem”? A explicação está na própria concepção da propaganda ocidental, que amiúde alcança níveis adequados para jovens e idosos infantilizados ou evangélicos autoiludidos.

Claro está que nada aí augura qualquer glória, e o panorama não é nada otimista, para os tradicionais bastiões do jornalismo produzido pela empresa–mídia ocidental, cuja popularidade está caindo, sobretudo entre as pessoas de menos de 35 anos.

Naturalmente, se algum dia alguns desses veículos e respectivas empresas–mídias forem extintas, como extintos foram os dinossauros, ninguém poderá culpar algum asteroide destrambelhado.

Há muitas razões para essa extinção: a velha e escandalosa complacência com a Grande Mentira; a rejeição pervertida ao exercício de qualquer moralidade profissional e pessoal. Não esqueçamos que o mote propagandístico de Fox News “Fatos podem ser desmentidos. Opiniões não!” aplica-se a alguns, mas definitivamente não serve a todos. Por quê? Para usar uma famosa frase de Bertolt Brecht: porque “o homem tem um defeito básico: ele pensa”. 

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Notas de rodapé

[1] Creation Museum – Petersburg, Kentucky

[2] Katchanovski, Ivan. The “Snipers’ Massacre” on the Maidan in Ukraine – 20/2/2015.

[3] Rothoct, Andred. Ukraine Used Cluster Bombs, Evidence IndicatesNew York Times, 20/10/2014.

[4] Khlebnikov, Alexey. Russia is now monitoring the world’s mass media for biasRussia Direct. 25/2/2015.

[5] Jalil, Justin e J.A. Gross. Vlad the beheader: CNN apologizes for Putin gaffeThe Times of Israel, 1/3/2015.

[6] Stengel, Richard. Person of the Year 2007: Choosing Order Before FreedomTime, 19/12/ 2007.

[7] RT reaches 700MN viewers worldwideRapid TV News. 11/9/2014.

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[*] Ivaylo Grouev ensina Ciência Política na Universidade de Ottawa.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Consenso a golpes de malho “jornalístico” − A ilusão do debate “midiático”

2/12/2014, [*] Jason HirthlerCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A “ordem” dos dois partidos que rege a “democracia” nos EUA impede que a sociedade norte-americana discuta temas sobre os quais os dois partidos concordam integralmente: sobre manter estrutura monstro de estado militar; exceto no que tenha a ver com manter e ampliar o estado militar, o resto do estado tem de ser encolhido até ser tornado totalmente impotente; sobre a prioridade absoluta assegurada às empresas, contra os cidadãos; sobre restringir liberdades civis, para assegurar que nada ameace as estruturas do status quo do poder militar.


Debate RIDÍCULO: McCain e Carney estão do mesmo "lado"... São "falcões"!
Em artigo recente, a organização Fairness & Accuracy in Reporting, FAIR, revisou todos os achados de pesquisa de seus estudos anteriores sobre a qualidade do “debate” político levado ao ar pelas redes de difusão da imprensa-empresa dominante. Estudou o processo pelo qual foram levadas à opinião pública as intervenções militares, pelos EUA, contra Iraque e Síria. A ideia daqueles jornalistas talvez fosse mostrar o que os EUA aprendemos desde a guerra fraudulenta de que o Iraque foi vítima, em 2003. Pois... parece que aprendemos nada, coisa alguma.

FAIR trabalhou ao longo de pesadas e dolorosas muitas horas, absorvendo toda a desinformação e a informação desimportante pisada e repisada pelos soníferos shows dos domingos, como State of the Union [Estado da União], no canal CNN; Face the Nation [Cara a cara com a Nação], no CBS; Meet the Press [Mesa Redonda com a Imprensa], no NBC; eThis Week [Esta Semana], no ABC, além de alguns dos programas de comentário político mais populares, incluindo Situation Room [Sala de Situação], do canal CNN, perigosíssimo, porque pode induzir surtos de hiperatividade pela Síndrome do Déficit de Atenção [ing.ADHD]; o Special Report do canal Fox News; o venerável sedativo News Hour [Hora da Notícia] do canal PBS; e Hardball [Jogo Duro] do canal MSNBC. Todos conhecemos o elenco que jamais varia: o hiper falante George Stephanopoulos, a direta Candy Crowly, o eternamente sofredor Wolf Blitzer e o esbravejante Chris Matthews. Imagens dessas bocarras que ganem estão implantadas no hipocampo nacional.

No total, 205 porta-vozes repetidores da Casa Branca foram convidados para repetir ante os cidadãos telespectadores nos EUA as respectivas “ideias” espertamente construídas frase a frase para “elevação” da “informação” do público norte-americano. Desses, o espetacular número de 3 (três!) manifestaram-se contra a ação militar dos EUA na Síria e no Iraque. Reles 125 especialistas alinharam argumentos “de especialista” a favor de ação agressiva contra aqueles dois países.

Se se contam só os “especialistas” atuantes nos programas dominicais, 89 “especialistas” convidados foram bem remunerados para educar a obtusa população norte-americana de sofá-e-batata-frita de domingo. Um deles (1!) sugeriu que ninguém fosse à guerra. Ausentes, totalmente ou quase, por difícil que seja acreditar, de lá, estiveram todos os argumentos de lei contra aquelas intervenções ilegais. Alguém “enviesado” a favor do respeito à lei? Não, não, ninguém.

O consenso “midiático” sobre Síria e Iraque não é instância isolada de pensamento-de-grupo. Longe disso. Na verdade, corresponde a um padrão bem claro, cujo núcleo é deliberada desatenção e desapego à lei internacional e a qualquer esforço para fazer valer tratados transnacionais legais e vigentes e leis sobre ação militar. (Mas as leis que regulam o comércio transnacional essas, por razões óbvias, são consideradas importantíssimas e merecedoras de muita consideração e muito respeito, por motivos óbvios).


New York Times, cegamente, sem qualquer investigação ou pesquisa, sem crítica, repete o número que Israel divulgou, de mortos no recente ataque do estado judeu contra Gaza. A jornalista, Jodi Rudoren, considera fontes igualmente dignas e legítimas tanto Telavive (que fala, fala, mas prova, é nenhuma) e a ONU e o vasto trabalho de pesquisa e coleta de informações que fez, bem como organizações palestinas independentes, de direitos humanos, em Gaza. Ela adota uma “definição” israelense, sem qualquer fundamento, do que seja “combatente”, ignorando todo um vasto e rico consenso internacional que contradiz a “definição” israelense. Mistura, suspeitosamente, menores e adultos, e faz sumir o número de crianças mortas por Israel. E por aí vai. Tudo a serviço da posição pró-Israel da empresa-imprensa que publica o NYTimes.

Em 2010, Israel atacou uma flotilha de barcos que levavam ajuda humanitária a ser entregue a palestinos na Faixa de Gaza que Israel bloqueara. Anthony DiMaggio, escritor e analista político coordenou as pesquisas Lexis Nexus, que demonstram como a imprensa-empresa nos EUA em geral, e o NYTimes em especial, evitam cuidadosa e atentamente qualquer tema que faça lembrar a lei internacional, sempre que discutem ações de Israel. Numa análise de artigos do Times e do Washington Post sobre Israel entre 31 de maio e 2 de junho de 2014, apenas cinco textos faziam referência à lei internacional relacionada seja à flotilha humanitária, seja ao bloqueio ilegal.

DiMaggio disseca vários dos meios pelos quais Israel frauda a Carta das Nações Unidas. Diz que Israel já violou mais de 90 resoluções do Conselho de Segurança da ONU relacionadas à ocupação de terras palestinas. Nada disso – nada – aparece publicado na “grande mídia” dominante. Essa omissão é típica: é a regra. A imprensa-empresa norte-americana dedica-se atenta e cuidadosamente a privilegiar a narrativa israelense, não o ponto de vista dos árabes e praticamente ignora a existência de dúzias de resoluções da ONU que condenam as ações criminosas dos israelenses.

O mesmo se constata no “jornalismo” sobre o Irã. Já há anos, Washington alerta o mundo, teatralmente, espalhafatosamente, que o Irã quer construir sua bomba atômica e ameaça com ela todo o Oriente Médio. Para começar, implica “esquecer” que seria suicídio. Todas as agências de inteligência norte-americanas, e muitas outras que acompanham os eventos na região, sabem que a política externa do Irã é política de contenção e que o programa nuclear iraniano tem finalidades pacíficas. Nada e ninguém consegue impedir que o “jornalismo” do canal MSM apresente Teerã como ninho e forno de onde não param de sair os mais ensandecidos terroristas.

Figure 1: New York Times and Washington Post Editorials on Iran’s Nuclear Program
March 16, 2010, through March 15, 2012
New York Times
(18 total)
Washington Post
(22 total)
Considered International Law Implications of US/Israeli Actions and Threats
0
0
Considered Effects of Sanctions on Iranian People
1
2a
Considered Iranian Civilians’ Views on Sanctions
0
0
Recognized Iran’s Right to Pursue Civilian Nuclear Program
1b
0
Mentioned Israel’s Nuclear Weapons
0
0
Supported US/UN Sanctions
17
17
Said or Implied That Iran Is Seeking Nuclear Weapons
17
17


Kevin Young investigou artigos “jornalísticos” sobre as negociações nucleares entre EUA e Irã, com resultados espantosos. Foram analisados cerca de 40 editoriais publicados peloNYTimes e pelo WPost. Precisamente zero editoriais, zero, nenhum, reconhecia as implicações contra a lei internacional, de os EUA viverem a repetir ameaças e a apoiar atos subversivos praticados por Israel – como assassinar cientistas iranianos, e fazer ciberataques, nos dois casos modalidades “inovadoras” da violação padrão de soberania de outros países. Impressionantemente, 34 das tais peças de “informação jornalística” “diziam ou deixavam implícito” que o Irã está trabalhando para construir sua bomba atômica. Esqueçam todos tudo o que disseram 16 agências norte-americanas de inteligência (que o Irã não mantém programa ativo de produção de armas nucleares). Esse “jornalismo” já fez a escolha crucial de operar no campo do boato, da intriga, do ouvir-dizer. Portanto, nada muda, mesmo que haja estudos sérios e/ou crítica ativa que façam-saber que o fato é outro. Mais de 80% dos artigos publicados eram favoráveis às sanções incapacitantes que os EUA insistem em manter contra o Irã – e cuja única justificativa é o fato inventado por esse “jornalismo”, de que o Irã estaria construindo a tal bomba.

Antes do trabalho de Young, Edward Hermann e David Peterson analisaram 276 artigos publicados sobre o programa nuclear iraniano entre 2003 e 2009. O número em si já é espantoso. Mais espantoso ainda se torna, se se o compara ao número de artigos publicados no mesmo período, sobre o programa nuclear israelense: míseros três. [1]

É interessante, se se considera a postura dos dois países em relação a tratados internacionais. Israel armazena livremente pilhas e pilhas de bombas atômicas e mantêm “política de ambiguidade deliberada” sobre as próprias capacidades atômicas, apesar dos frequentes esforços de países árabes para persuadir Israel e reconhecer a existência de seu arsenal atômico (estimado hoje em várias centenas de ogivas nucleares). Israel ainda não assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas, já firmado por 190 países em todo o mundo [inclusive pelo Irã]. Essa posição intransigente é empecilho sempre ativo contra todos que trabalham para implantar uma zona desnuclearizada naquela região.

Imagem do Google Earth do local (branco, no centro) das instalações nucleares de Fordow, Irã
Compare-se, então, o comportamento de Israel e do próprio Irã – que permitiu inspeções extensivas em suas instalações nucleares. Até o Times  observou recentemente que as principais instalações nucleares iranianas estavam “lotadas de inspetores”.Além de ser signatário do TNP, o Irã é também membro pleno da Associação Internacional de Energia Atômica (AIEA). E o Irã continua a trabalhar em busca de solução racional com o Ocidente, apesar da sanções que os EUA impuseram ao país. O EUA também pressionaram ilegalmente e indevidamente a AIEA para que adotasse outros protocolos, segundo os quais o Irã teria de satisfazer exigências ainda maiores, o que tornou a possibilidade de solução negociada cada dia mais (confortavelmente, do ponto de vista dos EUA) distante. (Aquelas demandas adicionais incluíam, pelo que se soube, que o Irã aceitasse ser vigiado por drones, que “fiscalizariam” desde a origem até o destino, todas as centrífugas que viessem a ser construídas no país, além de aceitar também que os EUA instalassem escutas no palácio do governo. Pois nada disso mereceu sequer uma linha de comentário “objetivo”, dos nossos “especialistas” ou dos nossos “jornalistas”).

A cobertura do Iraque não é diferente, sobretudo o que se viu e vê-se novamente, antes de cada nova guerra periódica ilegal de agressão, pelos EUA, contra aquele país. O ex-Relator Especial da ONU para a Palestina, Richard Falk, e o escritor Howard Friel realizaram, em 2004, pesquisa para avaliar a cobertura pré-guerra do Iraque, que o jornal New York Times ofereceu em 2003. Em mais de 70 artigos, o Times jamais mencionou as expressões “Carta da ONU” ou “lei internacional”. A pesquisa também demonstrou que “Não há qualquer espaço assegurado para divulgação da grande quantidade de argumentos em invocam a lei internacional ou que pregam a preservação da paz mundial, em oposição à guerra”. Mas são argumentos que só se ouvem longe dos corredores ocidentais do poder em Washington, Londres, Paris e Telavive – e que nossos “especialistas” “midiáticos” e jornalistas em geral ignoram completamente.

Isso não é debate, muito menos é debate democrático. A “ordem” dos dois partidos que rege a “democracia” nos EUA impede que a sociedade norte-americana discuta temas sobre os quais os dois partidos concordam integralmente: sobre manter estrutura monstro de estado militar; exceto no que tenha a ver com ampliar o estado militar, o resto do estado tem de ser encolhido até ser tornado totalmente impotente; sobre a prioridade absoluta assegurada às empresas, contra os cidadãos; sobre restringir liberdades civis, para assegurar que nada ameace as estruturas do status quo do poder militar.

Eric Prince - Chefe da gangue Blackwater (hoje Academi)

Assim sendo, no que tenha a ver com Irã, Iraque, Síria e outros casos assemelhados, a questão nunca é se se vai ou não à guerra: a questão é só o tipo de guerra a ser inventada. Falcões querem bombas. Pombos, sanções. A linha mais dura quer pôr os Marines lá. Os Democratas querem um exército de jihadis alugados. Todos querem os mercenários da empresa Academi. (Obama contratou a gangue antes conhecida como Blackwater, para trabalhar como se fosse a CIA, por, secos, US$250 milhões). E quando tivermos dado cabo do Estado Islâmico...

  • A questão não será alguma estratégia de retirada. Não!
  • A questão, então, será se os coturnos norte-americanos [no solo, no ar ou no mar] devem tomar o rumo oeste, para Damasco; ou leste, para Teerã.
  • A questão não é se os EUA devem cortar a ajuda que dão a Israel – por causa dos assassinatos de palestinos em massa, em Gaza e na Cisjordânia – ou se devem manter a ajuda.
  • A questão é quanto de terra os condomínios podem continuar a roubar dos palestinos, no Vale do Jordão, sem gerar incontrolável desprezo contra Israel. (De aplicar a lei internacional, outra vez, nem se cogita).
No front doméstico,

  • a questão não é se haverá pagador único ou assistência médica privada à saúde; a questão é se os cidadãos devem ser obrigados à força & malho, a comprar planos privados, ou se devem ser só aconselhados a comprar os mesmos planos.
  • A questão não é se se mantêm ou não as conquistas do New Deal: a questão é como fazer para destripá-las em tempo recorde.
  • A questão não é se os cidadãos devem ou não poder fiscalizar a ação dos políticos: a questão é onde armazenar os dados e se se roubam metadados de two-hop ou de three-hop.
  • A questão não é se se prendem ou não torturadores conhecidos: a questão é como redigir os relatórios dos ‘eventos’, de modo que os torturadores escapem de qualquer acusação.
  • A questão não é se se regulam ou não os doidos de Wall Street. A questão é, como disse o viscoso advogado Bennett Holiday, da indústria do petróleo, em Syriana, criar “a ilusão do devido processo legal”.
Nada disso implica dizer que os meios de jornalismo de massa não conheçam pontos de vista diferentes dos deles. Eles conhecem, mas só os reconhecem como pontos de vista possíveis se podem ser usados para ‘comprovar’ conclusão já definida. Ao longo do ano que está terminando, os jornais e televisões do noticiário de massa quase cansou a audiência, de tanto que falaram e falaram a favor do respeito à lei internacional.

Ucrânia -Bombardeio de um "check-point" próximo de Lugansk por forças da junta-de-Kiev
Howard Friel rastreou os registros de respostas ao fiasco ucraniano nas páginas do NYTimes. E o que descobriu? Quando a Crimeia, em plebiscito, pediu a reintegração à Rússia, e a Rússia aceitou a reintegração da Crimeia, o  NYTimes investiu furiosamente contra a tal “invasão”, agarrado ao argumento de que seria violação da lei internacional. Oito diferentes editoriais em apenas poucos meses, em tom frenético, para “detonar” o presidente Vladimir Putin da Rússia por causa da tal violação “ilegal” de direitos dos crimeanos, e o “desprezo”, o “pouco caso”, a “flagrante transgressão”, o ataque frontal... à lei internacional. Conclamações sem fim para que se tomassem medidas contra tal desconsideração do consenso global, cínica, descabida. Os aliados ocidentais que tratassem de agir para “reafirmar a lei internacional” e aplicar pesadas penalidades à Rússia, por  “atropelar sem qualquer cuidado” preceito sagrado, hiper-super sagrado, tipo “a soberania ucraniana”.

Em outras palavras, Washington apoia golpes contra governos eleitos em Kiev, na Síria e em Tegucigalpa, envia drones para “atropelar sem qualquer cuidado” fronteiras iemenitas, paquistanesas, somalis e outras fronteiras fracamente protegidas; e manda milhares de soldados, conselheiros e jihadistas armados pelos EUA para proteger os buracos negros onde operam os torturadores da CIA no Iraque e no Afeganistão. Mas melhor não nos metermos nessas contas. Debitemos todos os mortos por conta das brumas da guerra.

Afinal, a única lei que os EUA respeitam é a lei do excepcionalismo autoproclamado, definida em termos claros por Richard Falk como “transparência e prestação de contas à força para os fracos e vulneráveis; e sombras, as mais protetoras e discretas, para os fortes e os poderosos”.
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[*] Jason Hirthler é escritor, estrategista, e articulista com 15 anos de experiência na indústria de comunicações sociais. escreve usualmente para CounterpunchWorld Can not Wait, e outras comunidades políticas. Vive e trabalha em Nova York.
Recebe e-mails em  jasonhirthler@gmail.com
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Nota dos tradutores
[1] O “jornalismo” de O Estado de S.Paulo, que é o pior DO MUNDO, aproveita e “noticia”, logo de vez, a opinião de Israel sobre a bomba atômica do Irã :-D))))) . Totalmente de morrer de rir. Quem duvidar, confira em: Projeto atômico iraniano está mais imprevisível, diz Israel

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

“A ilusão da diversidade de opinião na empresa-imprensa”


Grande dica do Prof. Antoun:
22/11/2011, Frugal Dad [vários infográficos]
Traduzido e enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Aqui, alguns exemplos:

  • -- Em 1983, 90% das empresas de imprensa (jornais, revistas, redes de TV) eram propriedade de 50 grandes empresas nos EUA;

  • -- em 2011, os mesmos 90% de todas as empresas-imprensa nos EUA pertencem a SEIS hiper, mega, tera-empresas-grupos.

  • -- Em 2011, 232 diretores de jornalismo controlam 90% de todas as notícias distribuídas para 277 milhões de norte-americanos!
As opiniõezinhas de 1 (um) diretor de jornalismo empregado da mega-empresa-imprensa são impingidas, como se fossem opiniões equilibradas, a 850 mil ASSINANTES QUE PAGAM PRA RECEBER INFORMAÇÃO PRESTÁVEL! 

IMPERDÍVEL! (em inglês)

Source: Frugal dad