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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Bem-vindo ao Ponto Crítico

13/4/2015, [*] Quincy SaulTruthout | Op-Ed
Traduzido por Emex (que nos ajuda do Canadá) 
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


Oh, esse querido e velho planeta! Tudo está claro agora. Nós nos conhecemos: sabemos do que somos capazes.
Albert Camus, A Queda


O derretimento das geleiras "eternas"
Em que lado do ponto crítico estamos? Entre o anseio de uma era dourada que nunca houve e a construção de uma era revolucionária, que ainda pode vir a ser?

É o pior e o melhor dos tempos; o fim e o começo do mundo. Os pontos críticos entre criação e extinção, entre apocalipse e revelação estão onde quer que olhemos. Como no lendário reino de Deus, os PONTOS CRÍTICOS estão dentro de você e à sua volta.

É fácil perder-se na era da informação, e um vago presságio de desgraça que confusamente paira sobre nós não é o melhor caminho para alcançar a paz e a justiça na turbulenta era que nos espera. Refletindo sobre o declínio e o desmoronamento do império, Edward Gibbon disse que:

(...) os ventos e as ondas sempre jogam a favor dos mais hábeis navegadores.

Assim sendo, devemos aprender a navegar. Um mapeamento dos PONTOS CRÍTICOS que definem nossos precários calendários e geografias pode nos ajudar a entender nosso mundo, a nos entendermos e a guiar-nos a portos mais seguros. 

Como disse Camus, tudo fica claro agora – sabemos que somos capazes dos atos mais belos e mais horrendos. Precisamos apenas olhar o mundo e depois o espelho, e decidir se vamos cumprir ou trair a missão que a história nos propôs; nós, que vivemos em PONTOS CRÍTICOS; nós que somos o PONTO CRÍTICO.

Tudo à sua volta: cada elemento tem sua própria dinâmica, mas todos os elementos convergem. Eles têm causas e efeitos distintos, mas todos se alimentam mutuamente e compartilham o fato de estarem acontecendo agora e o fato de que amanhã pode ser tarde demais.

Acidificação dos oceanos: Se já é difícil imaginar o teor do carbono da atmosfera em partes por milhão (PPM), e como isso vai afetar a vida na terra, tente então imaginar quanto ácido é jogado no oceano – cerca de 22 milhões de toneladas por dia. Com ou sem aquecimento global, a acidificação acelerada dos oceanos é uma das coisas mais mortais que ora acontecem no planeta, com suas mais extremas consequências. Trailer-vídeo a seguir:


Os PONTOS CRÍTICOS acontecem em diferentes eras para diferentes espécies – mas chega o ponto em que os organismos já não podem mais sobreviver. O primeiro grande PONTO CRÍTICO é o nível de acidez a partir do qual os recifes de coral já não podem se formar; estudos indicam que estamos hoje na iminência de ultrapassar esse ponto.

À morte dos recifes de coral seguir-se-á imediatamente o colapso de toda a cadeia alimentar oceânica. O segundo e ainda mais apocalíptico PONTO CRÍTICO acontecerá quando até mesmo o plâncton – também ameaçado pelo aquecimento das águas – não puder mais sobreviver. Há quem afirme que se o sistema econômico continuar como é, a extinção do plâncton poderá acontecer no final do presente século. Após o que, os pulmões do planeta entrarão em colapso, e as últimas palavras de Eric Garner (Não posso respirar) falarão pelo conjunto da raça humana.

O derretimento do gelo: Todos sabemos que o gelo está derretendo de um extremo a outro do planeta. Neste processo, dois PONTOS CRÍTICOS convergem. Um concerne ao coeficiente de reflexão, o EFEITO ALBEDO- a maneira como a energia solar é refletida ou absorvida ao contacto com a superfície da terra. Quando a energia solar atinge o gelo, ela volta ao espaço, mas quando a energia solar atinge águas escuras, ela é absorvida. Assim, quanto mais gelo derrete, mais calor é absorvido, e quanto mais calor é absorvido, mais gelo derrete – um efeito de retroalimentação que se acelera até atingir um PONTO CRÍTICO. Este aquecimento também precipita o colapso de gigantescas camadas de gelo, uma ameaça de rápida elevação dos níveis dos oceanos numa escala global. Mas outro efeito desse derretimento é outro PONTO CRÍTICO- a adição de mais águas frias provenientes do gelo recentemente derretido culminará no rompimento das correntes oceânicas. Correntes oceânicas como o Gulf Stream moldaram a civilização tal qual a conhecemos, e seu desaparecimento a reconfigurará.

Pergelissolo: Há uma bomba-relógio na Sibéria, cuja carga explosiva pode varrer a humanidade. Nada a ver com a guerra fria, mas com a guerra climática, e só recentemente começamos a entender o tique-taque do relógio do apocalipse. Há vários anos, começamos a notar colunas de metano provenientes do solo (vídeo no fim do parágrafo) e, em seguida, do fundo do oceano; pouco depois, por todo hemisfério norte, cidades inteiras começaram a afundar em seus solos que se tornaram pantanosos.


O metano que havia permanecido congelado durante milhares de anos no pergelissolo está sendo vaporizado nos céus- um gás de efeito estufa trinta vezes mais poderoso que o dióxido de carbono. Estima-se que só o pergelissolo siberiano contém mais de 70 bilhões de toneladas de metano (o equivalente a 1.7 trilhões de toneladas de dióxido de carbono). Também nesse caso, quanto mais quente fica, mais metano é liberado na atmosfera e mais quente fica. O aparecimento de crateras gigantes na península de Yamal indica que estamos nos aproximando do PONTO CRÍTICO que poderia literalmente desencadear o inferno na terra.

Desertificação: A Califórnia dispõe de reservas de água para apenas um ano. A China  perde para o deserto, a cada ano, 1000 milhas quadradas. E até a poderosa floresta Amazônica acerca-se ao PONTO CRÍTICO que a levaria a se tornar uma árida savana. A soma de tudo isso constitui que National Geographic chama holocausto florestal, lembrando ainda que mais de 80% das florestas do mundo já foram destruídas. As razões para a desertificação são várias e diversas, desde o desmatamento causado pelo agronegócio às mudanças climáticas. A grande questão é que cada floresta tem seu ponto crítico a partir do qual seu ecossistema deixa de ser autossustentável. Há outro ponto crítico implícito ao colapso do ecossistema florestal – a reversão dos sumidouros de carbono – ponto a partir do qual as florestas deixam de absorver dióxido de carbono e passam a emiti-lo. Os pulmões do planeta começam a lançar fumaça.

Temperatura global: o presente ano é crucial para o mais importante dos pontos críticos. Ele foi anunciado 2007, no Quarto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Com novas informações e novos modelos, o Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas reiterou desde então várias vezes a mesma advertência em termos cada vez mais lúgubres: se a temperatura média global ultrapassar 2 graus Celsius em relação à era pré-industrial, as portas estarão abertas para retroalimentações positivas perniciosas no sistema terra que vão além de qualquer possibilidade humana de mitigação. Exemplos disso são o derretimento de todo o pergelissolo siberiano e a reversão dos sumidouros de carbono nos oceanos e nas florestas. Para manter-nos dois graus abaixo desse limiar, o Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas deu-nos um prazo, que acaba de se esgotar: um pico de emissões de Carbono em 2015, seguido por um rápido e permanente declínio. Chegamos a esse momento!

Sendo assim, por que ainda não atingimos nosso PONTO CRÍTICO? Chegou a hora de atingirmos um PONTO CRÍTICO no movimento pela justiça climática. Movimentos pela justiça social e ambiental estão surgindo em todo o mundo, mas eles não acrescentam mais que a soma de suas partes. Não há boas perspectivas para os recifes de coral, para os ursos polares ou para as florestas nem quanto ao pico de emissões de carbono em 2015. Não precisamos de mais informação, mais financiamento ou maior número de membros. Precisamos sim é de avanços concretos. E é por isso que devemos olhar os PONTOS CRÍTICOS dentro de nós. Eles têm as chaves das portas de nosso futuro, que cedo ou tarde deveremos enfrentar.   

Dentro de você mesmo: Como escreveu Manasobu Fukuoka:

(...) os processos de revitalização do deserto e do coração humano são na verdade os mesmos.

Sabemos do quanto somos capazes. Mas em que lado do PONTO CRÍTICO estamos?

Entre negação e temeridade: Entre a negação diária da morte e o abraçar da vida quotidiana. Entre o medo de compartilhar em meio à dor e ao sofrimento, que saturam cada momento da modernidade, e a alegria de compartilhar em meio aos riscos e às recompensas da revolução, presente em cada momento de crise. Entre o temor à morte e o temor à falta de vida. Em meio à ignorância há também a felicidade e a coragem do primeiro beijo.

Entre nostalgia e não retorno: Entre o anseio por uma era dourada que nunca houve e a construção de uma era revolucionária, que ainda pode vir a ser. Entre onirismos sobre o passado e lutas contra os pesadelos do presente. Entre a calma democracia que nunca foi real e o estrondoso poder popular, que transforma a realidade. Entre o medo do futuro, disfarçado de amor pelo passado, e o amor pelo futuro que deixa todos os temores para trás.

Entre protesto e prefiguração: Entre falar a verdade ao poder e encarnar a verdade com poder. Entre discursos e ações não violentas, entre expectativas em relação aos poderosos e a construção da disciplina dos sem poderes. Entre mendigar por uma partilha de excedentes e a construção da subsistência – entre o controle de capital e a independência em relação ao capital. Entre melhores empregos e uma vida sustentável. Entre assinar petições e plantar o alimento, entre gritar palavras de ordem e curar o solo. Entre conferências e convergências, entre lamentar problemas e criar soluções. Entre amaldiçoar os inimigos e por as mãos na massa com os amigos, entre odiar o Império e amar-se a si mesmo como parte da alternativa, entre indignação e imaginação.

Entre Resistência e Revolução: Entre defesa e ataque, entre a guerra de posição e a guerra de manobras, entre manter a linha e fechar o círculo. Entre desafiar privilégios e desafiar a propriedade privada, entre cavar trincheiras e postos de comando, entre defender instituições da classe média e criar associações da classe trabalhadora. Entre feminismo e matriarcado, entre ambientalismo e ecossocialismo, entre antirracismo e liberação nacional. Entre sociedade civil e luta de classes, entre comércio justo de commodities e livre associação de criadores, entre resistir a cativeiros e construir o bem comum.

O ano de nosso PONTO CRÍTICO coincide com o oito centésimo aniversário da assinatura da Carta Magna. Aprender do passado para transformar o futuro; o século XXI está maduro para uma Nova Carta Magna, para dar expressão e coerência ao senso comum anticapitalista que está surgindo em todo o mundo. Uma nova Carta para uma nova era – a ser feita não apenas entre reis e nobres, estados ou corporações, mas um acordo com cada um, um pacto entre a natureza e a nossa natureza.

Um pacto entre o deserto e uma escritura de reflorestamento – uma promessa aos oceanos e glaciares, e uma oração ao pergelissolo- uma declaração de interdependência e uma promessa de fidelidade para todas as nossas relações: amanhã pode ser tarde demais. Use suas próprias palavras. Lance-as pela janela. O mundo está ouvindo. Você conseguiu.

Bem-vindo ao PONTO CRÍTICO.

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terça-feira, 21 de abril de 2015

As pegadas ecológicas – Quando a eco-economia assume o neoliberalismo

20/4/2015, [*] Robert Hunziker – Counterpunch
Traduzido por Emex (que nos ajuda do Canadá). 
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu



Milton Friedman, economista estadunidense (1912-2006), autoproclamado herdeiro de Adam Smith, usou o termo neoliberalismo num ensaio, “Neoliberalismo e suas perspectivas”, em 1951. Desde então, o mundo se inclinou neste sentido, a começar com o Chile, como experiência de laboratório de “Chicago Boys” sob o olho vigilante do infame ditador General Augusto José Ramón Pinochet Ugarte, presidente de 1974 a 1990. E o mundo nunca mais foi o mesmo.

Hoje em dia, o neoliberalismo reina supremo através dos oceanos, o controle dos fundamentos da economia passa do setor público para o setor privado com limitada interferência governamental, quanto menor melhor; impõem-se os livres mercados, o livre comércio geral, sucessivas desregulamentações bem como o regime de arrocho para as massas (Grécia e Espanha são os maiores movimentos de resistência a isso hoje em dia).

Com o neoliberalismo, o Mercado determina praticamente tudo. Visto de outro ângulo, o mundo se tornou uma gigantesca esfera mercantilizada girando em torno do sistema solar, enquanto o mercado determina preços para cada coisa, com exceção da biosfera, de fato, uma grande exceção.

Faz algum sentido, determinar preços para cada coisa, menos para a biosfera? Já que tudo, do trigo à viagem espacial, é determinado pelo mercado, por que não a atmosfera, os oceanos, o solo? O que deixa a biosfera fora do reino do mercado?

No fim das contas, a sobrevivência do mais apto é tão velha quanto a natureza, e o neoliberalismo, na prática, determina “a sobrevivência do mais apto econômico”, espelhando o comportamento da natureza. No entanto, o que acontece na vida real é que o neoliberalismo é o mais baixo abutre econômico, graças ao qual os ricos acumulam cada vez mais a custa dos que recebem cada vez mais baixos salários, cada vez menos benefícios e têm sua autoestima esmagada. O que poderia ser pior?

Há uma maneira melhor, um foco mais nítido encontrado dentro da economia ecológica, que amarra a imagem em seu conjunto, as externalidades destacadas dos mercados, bem como tudo dentro de mercados, integrando assim, importantes externalidades ao sistema de mercado, por exemplo, os limites biofísicos.

Neste ritmo, ao invés de contestar as tendências do capitalismo, que nunca cedem, é melhor juntar-se à festa reconfigurando o neoliberalismo como uma eco-economia em que o capital natural é um auxiliar do trabalho e do capital humanamente produzido.

A terra é um planeta finito com um capital natural finito; violar limites naturais pode trazer grandes transtornos, de grandes dimensões, levando a batalhas cruéis e guerras em larga escala.

A pegada ecológica

A pegada ecológica pode ser representada como a área agregada de terra e água em várias categorias ecológicas reivindicadas pelos participantes nesta economia para produzir todos os recursos de seu consumo, e para absorver todos os seus restos gerados numa base contínua, usando a tecnologia corrente. Mathis Wackernagel e William E. Rees, Perceptual and Structural Barriers to Investing in Natural Capital: Economics from an Ecological Footprint Perspective, Ecological Economics  20, May 28, 1996.

Economistas ecológicos reconhecem que as sociedades industriais dependem para sobreviver não apenas do trabalho e do capital humanamente produzido, mas também do capital natural. (Wackernagel and Rees).

Por exemplo, uma floresta ou uma indústria pesqueira podem ser capazes de fornecer uma colheita perpétua ano após ano. A floresta ou o estoque de peixes são o capital natural; a colheita sustentável é a renda natural.

No entanto, o capital natural não é simplesmente um inventário de recursos. Ele é constituído de todos os componentes da ecosfera, inclusive da cadeia estrutural de relações que torna a vida possível. O capital natural é definido por Sir John Richard Hicks, economista britânico, 1904-1989; o capital natural hicksiano produz a renda natural hicksiana, que é o nível de consumo que pode ser sustentado de um a outro período sem redução da riqueza natural, ou seja, constitui a chave do sucesso eco-econômico.

Nosso problema é que o capital que tanto nos esforçamos em manter intacto é apenas o capital humanamente produzido. A categoria “capital natural” não é levada em conta. De fato, essa categoria é excluída por definição na medida em que se define o capital como meios de produção (humanamente) produzidos. Herman E. Daly, et al, For the Common Good: Redirecting the Economy Toward Community, the Environment, and a Sustainable Future, Beacon Press Books, 1994.

Estudando a formação de capital natural, estimativas de suas pegadas ecológicas e sua apropriada capacidade de carga, podemos ter uma indicação da sustentabilidade do nível de consumo segundo a disponibilidade de produção ecológica.

Por exemplo, a média individual em um país industrializado requer o equivalente a 2-5 hectares (5-12 acres) de terra produtiva para sustentar o consumo de materiais derivados do fluxo de recursos contidos em bens e serviços. No entanto, há apenas 1.5 hectares per capita de terra produtiva no planeta (World Resources Institute).

Há pois um hiato de sustentabilidade, o qual ajuda a explicar porque em vez de um fluxo sustentável de capital natural temos em curso um esgotamento de capital natural. De fato, cálculos brutos

(...) sugerem que a pegada ecológica de todas as nações industriais conta por menos de 20% da população mundial, o que vai muito além da disponibilidade de terras ecologicamente produtivas no planeta Terra” (Wackernagel and Rees).

Em outras palavras, 20% da população mundial consomem 100% do capital ecologicamente produtivo do planeta, além do qual o capital natural entra em déficit. Isso ajuda a entender porque 2.7 bilhões de pessoas vivem com US$ 2 (dois dólares) por dia (fonte: Banco Mundial), o equivalente a uma ida diária ao Starbuck, ou quase isso.

Isso não é simplesmente possível… que cada pessoa continue a consumir nos atuais níveis industriais sem riscos de esgotamento irreversível de recursos e colapso da biosfera. (Wackernagel).

Globalização e interesses próprios, ambos consagrados e encorajados pelos princípios do neoliberalismo, são fatores dominantes no esgotamento do capital natural, pondo em evidência um defeito da economia de mercado, em que a “mão invisível” de Adam Smith efetivamente maximiza bem-estar material em um ambiente natural ilimitado, mas se torna uma força de destruição em um sistema finito como a ecosfera.

A "mão invisível" do mercado ROUBA o trabalhador
Como agravante, a “globalização” considera o mundo como infinito, o que ele não é. Além disso, infelizmente, a humanidade não pode socorrer o capital natural.

A eco-economia busca: (1) escala sustentável, (2) justa distribuição de recursos, e (3)eficiente alocação destes. (Robert Costanza, Gund Professor of Ecological Economics, Univ. of Vermont, at Yale School of Management, Interview, May 2010).

Mas o neoliberalismo não se mede pelos padrões de Costanza; ele antes instiga um modus operandi de terra arrasada, dirigido por implacáveis forças do lucro pelo lucro, esquecendo escalas sustentáveis ou justa distribuição de recursos, bem como sua eficiente alocação.

O resultado do padrão laser de focalização extrema nos lucros é que sempre há vitoriosos e vencidos, o que evidencia a falha do neoliberalismo em reconhecer a escala finita do planeta. Limites biofísicos deveriam restringir certas atividades, como por exemplo, a pesca industrial por arrasto (banida, mas ainda alternativamente praticada), já que as redes se estendem por mais de 30 milhas, apreendendo todo tipo de criatura do capital natural que encontram pela frente.

Além do mais, o neoliberalismo não leva em conta a justa distribuição da renda. Mas, como provam pesquisas, quanto mais desigual for a renda, menos produtiva será a economia. Quanto a isso, a teoria econômica dominante põe ênfase no “ter mais”, fiel à ideia de que há um “mais” a ser distribuído. No entanto, a teoria do efeito multiplicador da riqueza dos mais ricos não passa de um mito. Prova disso é o 1%, que captura e acumula montantes de capital desproporcionais (é por isso que eles são chamados o 1%), criando grupos concorrentes dentro da sociedade, colocando esta em conflito consigo mesma.

Um exemplo de externalidade social: a compra de uma grande casa para competir com outras grandes casas tem o efeito cascata de provocar outras compras de grandes casas (é preciso ter mais que o vizinho); um excesso leva a outro e logo precisa-se trabalhar duro para manter um nível de vida crescente que vai além dos limites naturais. Quando isso acontece, a qualidade de vida em geral piora, ao invés de melhorar.

CONSUMISMO
Para conter a compulsão ao consumismo insaciável da “compra pela glória”, uma externalidade social que esgota o capital natural, Robert Frank, um economista de Cornell, sugere um imposto progressivo sobre o consumo. Enquanto o luxo custaria mais, o investimento em itens socialmente produtivos seria isento de impostos.

Sob a teoria da sustentabilidade, por exemplo, a sustentabilidade, Wal-Mart consistiria em 100% de energias renováveis, zero desperdício e venda de produtos socialmente e ambientalmente sustentáveis. Imagine a quantidade de mercadorias inúteis que seriam eliminadas em lojas que adotassem essa redução de escalas.

Na natureza, as coisas não crescem para sempre, senão os girassóis cresceriam até as nuvens e teríamos porquinhos da índia de mais de 400 quilos. Muito pelo contrário, o crescimento alcança um “estado estacionário”, as coisas ficam pequenas. Se as economias seguissem o curso da natureza, a compensação aos estágios de crescimento seria alcançar o estado estacionário, como todos os sistemas naturais. Isso significaria o fim da competição impiedosa, o crescimento pelo crescimento; alternativamente, passar-se-ia da cooperação à colaboração para um estado estacionário de desenvolvimento, uma ecosfera sustentável.

Uma solução contra os princípios do neoliberalismo selvagem é a empresa pública de bens comuns, como imaginada por Elinor Ostrom, “Prêmio Nobel de economia” de 2009 (1933-2012), Governing the Commons, Cambridge University Press, 1990, que demonstra como a propriedade coletiva pode ser exitosamente administrada por associações de usuários, fazendo da atmosfera um bem com direitos de propriedade em favor da comunidade global. Quem quer que danificasse a propriedade global seria multado, o que forneceria justificação legal para taxas sobre o carbono, que seriam usadas para pagar dividendos a todos os proprietários (isso também foi defendido pelo doutor James Hansen, um líder da pesquisa sobre o aquecimento global), o que também ajudaria a resolver a questão da distribuição de recursos. Adicionalmente, criar-se-iam empresas públicas de oceanos, empresas públicas de bacias hidrográficas, etc..

Um interessante estudo de caso de comparação/contraste de alocação de recursos é o derretimento financeiro de 2008, quando trilhões foram gastos para salvar a finança, ou seja, Wall Street, bancos comerciais e grandes seguradoras. Por que não gastar trilhões em futuro sustentável, com uma taxa de consumo ecológico para complementar o imposto sobre a renda e promover um financiamento ecologicamente sustentável? Se gastamos trilhões provenientes dos impostos para salvar Wall Street, por que não fazemos o mesmo pela ecosfera, que é a estrutura básica, a única existente,  sobre a qual o neoliberalismo se desdobra para fazer seja o que for.

Ao final de tudo, acredita-se que num mundo em que a degradação da natureza não mais seja livre de taxas, em que cartões de crédito não garantam impunidade, os produtos sustentáveis vão custar menos, conquistar mercado e se tornar rentáveis. Ninguém deveria tirar proveito da degradação do capital natural. No entanto, é o que está acontecendo agora.
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[*] Robert Hunziker é mestre em História Econômica pela De Paul University; escreve artigos para várias publicações incluindo o Counterpunch; mora em Los Angeles e pode ser contactado no endereço: roberthunziker@icloud.com

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Porque o Ocidente está Perdendo a Guerra da Informação


Ucrânia: um museu criacionista?


27/3/2015, [*] Ivaylo Grouev, Counterpunch
Traduzido por Emex, que nos ajuda do Canadá
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu



Uma meia-verdade é a mais covarde das mentiras
Mark Twain



Museu Criacionista - Petersburg, Kentuky
Quando acompanho a cobertura da crise ucraniana em alguns dos mais respeitáveis e principais órgãos da empresa-mídia ocidental, tenho o estranho sentimento de estar passeando num museu de história natural. Não em qualquer um, mas num museu de história natural bastante incomum – um museu criacionista. Para quem talvez não saiba, aqui vai uma notinha de causar escândalo, espalhafatosa: há mais de 30 museus criacionistas nos Estados Unidos e dois na província canadense de Alberta – berço do Partido da Reforma, hoje Partido Conservador Progressista (dois nomes bastante enganosos), no poder desde 2006.

Um dos mais novos museus criacionistas dos Estados Unidos está em Petersburg, Kentucky, uma instalação com tecnologia de ponta, de 6.500 m². Uma verdadeira maravilha da robótica, comparável ao melhor que Hollywood possa oferecer: pterodátilos animatrônicos em tamanho natural, sons realistas dos rugidos do “rei dos lagartos” — Tyrannosaurus rex — cercado por jubilosos e despreocupados robôs de filhos de Adão e Eva.

Surpreendentemente, aquele empreendimento alucinado, de 27 milhões de dólares, não dá prejuízo, nem está atirado às traças; muito pelo contrário – o tal museu das obras de Deus, incluídos eu e você e tudo que existe, já atraiu até agora mais de 715 mil visitantes de todo o mundo, cada um dos quais pagou de muito bom grado 30 dólares por ingresso [1]

Mas que paralelo pode ser feito entre o tal museu dos feitos divinos e a cobertura da crise na Ucrânia? O primeiro paralelo está nos fatos, no empenho em mostrar fatos, a própria exposição. No geral, a impressionante exposição–comprovação da obra de Deus em Petersburg é consistente com as últimas descobertas da paleontologia moderna: estão corretos o tamanho e as dimensões dos fragmentos de ossos e esqueletos; e as representações dos majestosos dinossauros são bastante críveis; com certeza, todas essas peças poderiam ser orgulhosamente exibidas em qualquer museu de ciência natural. Além disso, os filhos de Adão e Eva parecem bastante realistas e teriam lugar assegurado numa ousada estratégia de curador de museu que quisesse representar os primórdios da sedentarização humana.

O único problema é que tudo naquele museu, embora verossímil, é falso. Todos nós sabemos que o mundo não tem 5.000 anos, mas 13,2 bilhões de anos; e que humanos, amebas, orcas e a bactéria causadora de disenteria não foram criados em seis dias antes do bem merecido descanso dominical de Deus.

E onde entra a Ucrânia nisso tudo?

Tanque T-64; fabricação russa, numeração ucraniana
Como já devem saber alguns leitores, foi recentemente inaugurada no centro de Kiev uma verdadeira exposição, ao ar livre, mostrando tanques, veículos blindados, metralhadoras e veículos queimados ou parcialmente derretidos, que ali estão exibidos como se fossem provas de uma invasão russa na Ucrânia Oriental. A autenticidade das peças expostas é inquestionável – de fato, os tanques são tanques, realmente blindados; as metralhadoras são realmente metralhadoras capazes de realmente metralhar; e os carros queimados, sim, são carros. Entretanto, exatamente como no museu criacionista, o contexto é fictício, foi integralmente inventado, ou foi integralmente apagado.

Com efeito, lemos, vemos, ouvimos e ficamos profundamente traumatizados por inúmeros fatos e evidências que nos são apresentadas na cobertura da crise ucraniana que a mídia-empresa ocidental está fazendo. Vemos fotos de homens armados, soldados, casas explodidas, carros destroçados e tanques, bem como escombros de um avião de passageiros, filas de refugiados, pessoas esfomeadas, idosos vivendo em porões sem comida nem eletricidade – diversas fotos horríveis de cadáveres inteiros ou em pedaços.

Tudo isso é verdadeiro e representativo da desoladora tragédia humana que ora acontece na Ucrânia. Mas nessa narrativa geral – assim como na narrativa dos criacionistas, que expõem dinossauros provavelmente gentis como babás, posto que não havia violência no Jardim do Éden – tudo que é mostrado pela mídia-empresa ocidental é, sempre, imagem distorcida do contexto real.

Seguindo a lógica da versão do “Gênesis” by Poroshenko, o regime dito democrático liberal pró-ocidental de Kiev vai resolver todas as questões sociais, econômicas e políticas do país atormentado pela corrupção. Portanto, segundo essa narrativa, todos os fatos e exposições devem ser cuidadosamente dispostos exatamente da mesma forma como faria o curador de um museu criacionista. E exatamente como no museu criacionista, essa exposição apresenta um insuperável desafio à lógica fundamental, que deixa sem resposta a maioria das perguntas, senão todas elas.

Berkut (Força Policial da Ucrânia)
Vejamos algumas dessas perguntas. Por que as Forças Ucranianas de Polícia, conhecidas como Berkut, mataram seus próprios soldados, dia 20/2/2014? Os fatos estão aí: 18 oficiais foram mortalmente baleados e mais de uma dúzia ficaram feridos [2].

Essa pergunta foi apagada da metanarrativa, bem como todas as perguntas em torno do “incêndio acidental” de 2/5/2014 em Odessa, em que 48 pessoas (outras fontes falam de um número ainda maior) foram queimadas vivas, enquanto outras, que conseguiram pular do prédio em chamas, foram mortas a pauladas por ativistas de Maidan, na frente da Polícia, que nada fez para impedir o massacre. Por que, quase um ano depois desses eventos, a mídia-empresa ocidental ainda não fez essas perguntas ao Procurador-Geral da República ucraniana? Por que o governo ucraniano recusou-se a permitir que o Tribunal Penal Internacional investigasse esses fatos? Por que tudo isso nunca foi questionado pelos bastiões do jornalismo-empresa ocidental?

E não é só isso: a mídia-empresa ocidental também prefere não cobrir fatos que contradigam a lógica desse “Gênesis” by Poroshenko. Permanecem cuidadosamente ocultados todos os nomes dos que ordenaram e admitiram e, pois, são responsáveis pelo bombardeio de grandes centros urbanos como Donesk, Luhansk, Mariopol, Kramatorsk, Slovyansk.

O assassinato de mais de 40 pessoas em Odessa
Como também não se sabe quem autorizou o uso de armas proibidas pela Convenção de Genebra, como fósforo branco e bombas de fragmentação. A mídia-empresa ocidental mostra pouco interesse em fazer as perguntas necessárias sobre a natureza da famosa Operação Antiterrorista (ATO, acrônimo em inglês), que usou artilharia pesada, aviação e tanques contra a população civil de Donetsk e Luhansk – 6,8 milhões de pessoas, população maior que a população total dos três estados Bálticos (Letônia, Estônia e Lituânia) [3].

Em vez de saudável jornalismo investigativo e respectivas boas respostas, oferecem-nos imagens dramáticas. Seja como for, a técnica é a mesma, para o “jornalismo” ocidental e para os criacionistas do Kentucky: apagar o contexto. Não apenas se publicam fotos de inexistentes tanques russos cruzando a fronteira ucraniana, tão inverossímeis quantos Adão e Eva no paraíso de bondosos dinossauros, mas, também, as tais fotos são longamente discutidas no plenário do Congresso dos EUA (as fotos mostram tanques russos, mas quando cruzaram a fronteira com a Geórgia, em 2008).

E o mesmo se vê sobre o avião holandês, mostrado em fotos em que Putin aparece ao lado de imagens das vítimas.

Mas silêncio total, e a empresa-mídia ocidental completamente apática, em tudo que tenha a ver com as gravações da caixa preta do MH17, divulgadas cinco dias depois do desastre. Em todos os casos, a resposta é sempre a mesma, não importa qual seja a pergunta: a culpa é de Putin.

Vladimir Putin, personalidade do ano 2007
De fato, Putin se tornou o “queridinho” da mídia ocidental: nos EUA, foi tema de 5.771 matérias; 8.929 na Alemanha, e 5.209 no Reino Unido, só em 2014 [4]. É grande cobertura, pela empresa-mídia. Nesse roteiro bíblico, o recentemente eleito presidente Poroshenko tem o papel do mocinho, e o presidente Putin é o bandido. De repente, Putin sofre da mais grave síndrome de múltipla personalidade jamais vista, reencarnando ao mesmo tempo Stálin, Hitler e o famoso “Jihad John” do ISIS (como se sabe, graças à CNN, o mistério foi esclarecido: o degolador máster é Putin) [5].

Mas a demonização sem precedentes do Presidente da Federação Russa não é evento isolado, sendo consistente com a difamação de Saddam Hussein (“O carniceiro de Baghdad”), de Muammar Gaddafi (“Homem-cão raivoso”), de Slobodan Milosevic (“O carniceiro dos Bálcãs”). Todas essas campanhas de demonização foram lançadas pouco antes do início das campanhas militares dos EUA no Iraque, na Líbia e na Iugoslávia.

Tanto para a empresa-mídia ocidental, apologista do Gênesis by Poroshenko, quanto para os criacionistas, espaço, tempo e lógica merecem pouca consideração. Os criacionistas comprimiram o Mesozoico, que começou há 252 milhões de anos e terminou 66 milhões de anos depois, em apenas alguns milhares de anos. A empresa-mídia serve-se da mesma técnica, para período muito mais curto. Em 2007, a personalidade do ano para a revista Timefoi Putin. Sete anos depois, o mesmo Putin virou Hitler [6].

Putin, personalidade do ano 2007 virou Hitler
O que é notável na atual “Guerra de informação” é o quanto o contexto-zero da empresa-mídia ocidental vem-se tornando violento e implacável em sua sempre desmentida fabulosa inventividade.

Para consolidar o mito–Putin, a mais recente manchete diabólica proclamando “Putin matou meu filho!” pode não ser suficientemente dramática. Logo inventarão algo mais espetacular, como “Putin matou o filho de Deus!”, plenamente aceitável no “ambiente criacionista” em que vegeta a empresa-mídia ocidental, quando longos períodos de tempo podem ser facilmente comprimidos sem nenhum questionamento.

Com efeito, Putin pode muito bem viajar no tempo para a Palestina do Ano 0, ir até o Gólgota montado num amigável pterodátilo, perfurar o desidratado corpo de Cristo, e no caminho de volta fazer uma parada em Munique em 1938 para tomar café da manhã com Hitler. Exagero? Claro que sim. Como são exageros a história dos pterodátilos gentis e a lógica do curador do museu ao ar livre de Kiev, que exibe tanques “russos”, mas com NIV (números de identificação de veículos) ucranianos.

A empresa-mídia ocidental tem dito meias- verdades e mentiras descaradas, mostrando o novo regime de Kiev como “democrático” e os “rebeldes” como terroristas. A natureza dessa “propaganda” mais parece pregação de um tele-pastor evangélico de San Antonio, Texas, que reportagem publicada por veículos tidos como respeitáveis da empresa–mídia, alguns dos quais de reconhecida tradição. Esta é uma das razões pelas quais toda essa empresa–mídia está rapidamente perdendo credibilidade, além de fatias de mercado.

Em contraste, a blogosfera vem bombando, quando o tema é a crise ucraniana, ao oferecer reportagens alternativas, vídeos, testemunhos do front e, mais importante ainda, análises de conteúdo alternativas e contexto.

Imprensa criacionista
Há nítido apetite por reportagens diferenciadas e por fatos crus em primeira mão, bem como por análises críticas que contradigam a metanarrativa oficializada. Agências midiáticas como RT estão visando especificamente a esse tipo de audiência que não para de crescer no Ocidente, na Europa e nos EUA. Não surpreende que RT seja hoje o segundo canal estrangeiro mais visto nos Estados Unidos (depois da BBC World News) e a rede social número um nas maiores metrópoles como Nova Iorque, Los Angeles, Chicago e Washington. Sua difusão global alcança a impressionante marca de 700 milhões de telespectadores [7].

Qual a razão para o repentino sucesso deste concorrente tão “jovem”? A explicação está na própria concepção da propaganda ocidental, que amiúde alcança níveis adequados para jovens e idosos infantilizados ou evangélicos autoiludidos.

Claro está que nada aí augura qualquer glória, e o panorama não é nada otimista, para os tradicionais bastiões do jornalismo produzido pela empresa–mídia ocidental, cuja popularidade está caindo, sobretudo entre as pessoas de menos de 35 anos.

Naturalmente, se algum dia alguns desses veículos e respectivas empresas–mídias forem extintas, como extintos foram os dinossauros, ninguém poderá culpar algum asteroide destrambelhado.

Há muitas razões para essa extinção: a velha e escandalosa complacência com a Grande Mentira; a rejeição pervertida ao exercício de qualquer moralidade profissional e pessoal. Não esqueçamos que o mote propagandístico de Fox News “Fatos podem ser desmentidos. Opiniões não!” aplica-se a alguns, mas definitivamente não serve a todos. Por quê? Para usar uma famosa frase de Bertolt Brecht: porque “o homem tem um defeito básico: ele pensa”. 

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Notas de rodapé

[1] Creation Museum – Petersburg, Kentucky

[2] Katchanovski, Ivan. The “Snipers’ Massacre” on the Maidan in Ukraine – 20/2/2015.

[3] Rothoct, Andred. Ukraine Used Cluster Bombs, Evidence IndicatesNew York Times, 20/10/2014.

[4] Khlebnikov, Alexey. Russia is now monitoring the world’s mass media for biasRussia Direct. 25/2/2015.

[5] Jalil, Justin e J.A. Gross. Vlad the beheader: CNN apologizes for Putin gaffeThe Times of Israel, 1/3/2015.

[6] Stengel, Richard. Person of the Year 2007: Choosing Order Before FreedomTime, 19/12/ 2007.

[7] RT reaches 700MN viewers worldwideRapid TV News. 11/9/2014.

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[*] Ivaylo Grouev ensina Ciência Política na Universidade de Ottawa.