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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Como se constrói a encenação de “protestos” anti-governo na Venezuela

Galeria de fotos

16/2/2014, Dawgs Blog, Global Research
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Manifestantes anti-governo jogam pedras (Venezuela em 12/2/2014)

A política polarizada da Venezuela está outra vez nos veículos da imprensa-empresa, com manifestações pró (primeira foto abaixo) e antigoverno, com, até agora, quatro mortos: um apoiador do governo; um manifestante da oposição; um policial; e um morto cuja origem não está determinada.

Manifestação pró-governo em 14/2/2014
Mas a imprensa está noticiando como se TUDO fosse “prova” da repressão por forças do governo.

Praticamente TODAS as imagens que estão sendo exibidas são imagens repetidas, de outros “eventos”. A atual “crise” está sendo integralmente inventada pelo “jornalismo”.

Não há quem não lembre as manifestações/contramanifestações no Palácio Miraflores em 2002, no início do golpe, que teve vida curta, contra Hugo Chávez.

Houve 19 mortos, naquele dia. Sete deles estavam na manifestação pró-Chávez; sete na manifestação anti-Chávez; e cinco eram passantes. Houve também no total 69 feridos, naquele dia. 38 na manifestação pró-Chávez, 17 na manifestação da oposição, e 14 eram repórteres ou passantes.

TODOS esses mortos e feridos foram apresentados como vítimas de Chávez – pela oposição e por quase a totalidade dos veículos da imprensa-empresa internacional. Como se Chávez tivesse ordenado aos militares e a militantes pró-Chavez que atirassem contra os comícios da oposição. Como se vê acontecer novamente hoje, a única coisa que se prova é que, então, o lado do governo é campeão de errar o alvo.

No que tenha a ver com a Venezuela, a imprensa-empresa internacional sequer se dá ao trabalho de fingir alguma “objetividade”.

A Venezuela é ameaça direta e declarada contra a ordem hegemônica, caracterizada hoje por estados latino-americanos domesticados, ditaduras emergentes apoiadas pelos EUA os quais, todos, aceitam como bons meninos e boas meninas as políticas econômicas neoliberais.

Com petróleo suficiente para poder dizer “não” a tudo isso, a Venezuela criou sua própria parceria contra-hegemônica, a ALBA-TCP. E domesticamente, enquanto só se ouve falar de racionamento de papel higiênico e inflação, estão acontecendo avanços substanciais em várias frentes, já há vários anos – a pobreza continua a diminuir, há avanços notáveis na educação, na redução da mortalidade infantil, e veem-se passos rápidos na direção da igualdade de gênero, saúde materna e infantil, e proteção ao meio ambiente.

Ninguém lerá palavra sobre isso, na imprensa-empresa estrangeira que opera na Venezuela.

Só se ouve falar e lê-se sobre os sofrimentos da oposição. Imagens horríveis são diariamente repetidas em centenas de veículos, pelo Twitter, não raras vezes repetidas também em veículos considerados mais “sérios”, como a CNN (só rindo [Nrc]).

Aqui se veem alguns policiais brutais, com belos chapéus e colarinho de pele, provavelmente para se proteger do frio de 30ºC de Caracas. 



E policiais búlgaros (provavelmente em visita a Caracas). 

(clique na imagem para aumentar)

E uma baixa:

(clique na imagem para aumentar)
Mas a vítima é um manifestante chavista. E a foto foi feita ano passado.

Aqui, a foto republicada, tirada, de fato, na Argentina:
  
(clique na imagem para aumentar)
E aqui uma foto feita no Chile: 



Aqui, um coitado, realmente muito azarado; foi atingido por tiros em abril e novamente, ferimento idêntico, no mesmo lugar, nos “atuais protestos”:

(clique na imagem para aumentar)

Essa é um ícone! Mas a CNN teve de admitir que a foto foi feita, na verdade, em Cingapura: 



Essa foto foi feita na Grécia: 


Aqui, os “jornalistas” anti-Chávez roubaram, desavergonhadamente, um jornal egípcio. Essa foto correu mundo durante a Primavera Árabe: 
(Clique na imagem para aumentar)

Aqui, imagem de partir o coração, de bebês em cestas de lavanderia, com a manchete “Que revolução é essa?” A foto foi tirada em Honduras: 


Aqui, uma das minhas preferidas: uma procissão religiosa, “noticiada” como protesto anti-governo na Venezuela: 
(Clique na imagem para aumentar)


As mídias sociais, que viralizam e denunciam essa loucura, e às vezes até seduzem grandes veículos da grande imprensa-empresa, como a CNN, são também os meios pelos quais os farsantes são rapidamente desmascarados.

Os leitores considerem-se convidados a indicar mais links que comprovem a grande farsa que “a mídia” está construindo, para um país que a mesma “mídia” está inventando e que só tem em comum com o país que existe, o nome: também se chama “Venezuela”. Mas não é a Venezuela real.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Mídia em parafuso


2 January 2012

O Cafezinho inicia o ano com mudanças. Agora todos os posts têm algum conteúdo livre. A primeira análise de mídia vem mais concisa e publicada cedo, por volta das 7 horas. Os outros posts serão publicados até o meio dia.

Nas últimas semanas do ano passado, os jornais publicaram alguns textos pesadamente oposicionistas, a maior parte deles ainda refletindo as emoções despertadas com a publicação do livro A Privataria Tucana. Refiro-me, especificamente… Continue lendo…

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

“A ilusão da diversidade de opinião na empresa-imprensa”


Grande dica do Prof. Antoun:
22/11/2011, Frugal Dad [vários infográficos]
Traduzido e enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Aqui, alguns exemplos:

  • -- Em 1983, 90% das empresas de imprensa (jornais, revistas, redes de TV) eram propriedade de 50 grandes empresas nos EUA;

  • -- em 2011, os mesmos 90% de todas as empresas-imprensa nos EUA pertencem a SEIS hiper, mega, tera-empresas-grupos.

  • -- Em 2011, 232 diretores de jornalismo controlam 90% de todas as notícias distribuídas para 277 milhões de norte-americanos!
As opiniõezinhas de 1 (um) diretor de jornalismo empregado da mega-empresa-imprensa são impingidas, como se fossem opiniões equilibradas, a 850 mil ASSINANTES QUE PAGAM PRA RECEBER INFORMAÇÃO PRESTÁVEL! 

IMPERDÍVEL! (em inglês)

Source: Frugal dad



quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Uma política de pensamento para a Era da Internet? O perigoso culto pró “Guardian”

Jonathan Cook

28/9/2011, Jonathan Cook, Counterpunch
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Não há melhor prova da revolução que a internet está fazendo, oferecendo acesso à melhor informação e a comentários-interpretações bem informados, que a reação da imprensa-empresa da “mídia” dominante.

Pela primeira vez, públicos ocidentais – ou, pelo menos, os que podem comprar computadores – encontram meios para escapar à vigilância dos cães de guarda de nossas infelizes democracias “midiáticas”. Dados que em outros tempos foram mantidos cuidadosamente secretos podem hoje ser lidos e pesquisados por gente que não é paga para não deixar ver a hipocrisia ocidental. Wikileaks, sobretudo, rapidamente demoliu os sistemas hierárquicos tradicionais de distribuir informação.

A imprensa – pelo menos o componente de esquerda que se supõe que haja na imprensa – deveria estar comemorando essa revolução; deveria, também, é claro, estar trabalhando para viabilizar essas novas conquistas. Mas, não. Praticamente todas as empresas de comunicação e jornalismo trabalham só para cooptar as conquistas, para domá-las ou subvertê-las. Como se pode ver, jornalistas e colunistas considerados progressistas cada vez mais usam suas plataformas na imprensa dominante para desacreditar e ridicularizar os arautos dos novos tempos.

Bom objeto de estudo, quanto a isso, é o jornal britânico Guardian, considerado o jornal mais decididamente à esquerda da Grã-Bretanha, que rapidamente vai ganhando status e culto de “jornal cult” nos EUA, onde muitos leitores tendem a assumir que, naquelas páginas, encontrarão a mais límpida verdade, em amostra de todo o campo do pensamento crítico de esquerda.

É verdade que o Guardian oferece bom material de reportagem e, vez ou outra, algum comentário mais aprofundado. Talvez por estar mais longe do coração do império, o jornal ofereça antídoto parcial à cobertura acovardada da imprensa-empresa nos EUA.

Mesmo assim, nada aconselha crer que o Guardian seria algum tipo de livre mercado para ideias progressistas ou para os dissidentes de esquerda. Aliás, longe disso: o jornal policia rigorosamente o que se pode e não se pode dizer em suas páginas, por razões bem pouco nobres, como examinamos adiante.

Até há pouco tempo, os leitores ainda podiam viver na confortável ignorância de que vários autores e pensadores, interessantes ou provocadores, são, sim, terminantemente proibidos para citação ou menção nas páginas do Guardian. Antes das versões online, o Guardian ainda podia alegar as dificuldades de espaço, para não incluir mais amplo espectro de vozes. Esse motivo, é claro, desapareceu, com o crescimento da Internet.

Desde o primeiro momento, o Guardian viu tanto o potencial de crescimento quanto a potencial ameaça que lhe vieram com a revolução da Internet. Respondeu com a criação de um blog aparentemente aberto a todos (Comment is Free), no qual contava domesticar parte da energia bruta liberada pela internet. Arregimentou um exército de escritores, ativistas e propagandistas, a maioria sem qualquer remuneração, dos dois lados do Atlântico, para ajudar a reposicionar a marca Guardian como o suprassumo da imprensa-empresa democrática e pluralista.

Mas nunca, desde o início, o blog Comment is Free (CiF) foi tão livre quanto se dizia – senão no sentido de que a empresa Guardian sempre se sentiu livre para não pagar salário aos “colaboradores” que trabalham no blog. Inúmeros autores da esquerda, sobretudo os considerados “fora do esquema” [orig. “beyond the pale”] no contexto da velha imprensa-empresa, continuaram, como antes, sem acesso à tal nova plataforma “democrática”. Outros, dentre os quais eu mesmo, logo descobrimos que havia limites aparentemente inexplicáveis, mas sempre intransponíveis, para o que se podia escrever no blog CiF (e limites que nada tinham a ver com moral ou bons costumes).

Nada disso deveria ser questão importante. Afinal, há muitos outros lugares onde publicar, além do Blog CiF do Guardian, para fazer-se ouvir. Por toda a rede há dissidentes distribuindo análises alternativas dos eventos atuais e chamando a atenção para a informação que a imprensa-empresa não publica ou publica como notícia sem importância.

Mas, em vez de acolher esse tipo de concorrência, ou de resignar-se ao surgimento de imprensa realmente pluralista, o Guardian reverteu à imagem-tipo de antes. Voltou a autoapresentar-se como “a política de pensamento” da esquerda.

De novidade que, dessa vez, nada garante que algum jornal-empresa consiga silenciar completamente a “esquerda que contesta”. A internet acabou com a fácil solução de antes, quando os jornais-empresas silenciavam, por exclusão absoluta, as vozes de contestação. Pelo que se vê hoje, o Guardian adotou a tática de desqualificar os autores que, por serem realmente provocadores ou por suas ideias realmente avançadas, possam fazer-ver a covarde política conformista, enquadrada, do Guardian.

E o Guardian passou a desacreditar “a esquerda” – que nenhum dos jornalistas e colunistas do jornal jamais define – em campanha que nada tem a ver com algum tipo democrático de luta de ideias. E, sempre, o Guardian encontra amparo nos imensos recursos das empresas e corporações proprietárias do jornal. Quando ataca autores e pensadores dissidentes, os atacados só muito raramente, e na maioria das vezes nunca, encontram plataforma “com igual espaço e destaque” para defenderem-se. E já se viu que o Guardian é sempre muito relutante, e resiste o mais que consiga, a garantir justo direito de resposta a quem o jornal-empresa calunia.

Além do quê, e quase imperceptivelmente, o Guardian praticamente nunca encampa as ideias desses autores ou jornalistas “não alinhados”. Em termos populares, o Guardian marca a canela do jogador, não marca a bola. Cria e distribui calúnias, que vão das apenas absurdas às claramente difamatórias, que empurram aqueles autores ou jornalistas ou pensadores para o território do absurdo, do não razoável, ou do sórdido inadmissível.

Exemplo típico da nova estratégia do Guardian viu-se essa semana, em artigo impresso nas páginas de editoriais e colunistas do próprio jornal – disponíveis também online, e espaço muitíssimo mais prestigioso que o Blog Comment is Free –  que o jornal encomendou a autor socialista, Andy Newman [1], com instruções expressas para que dissesse que o músico judeu israelense Gilad Atzmon [2] seria antissemita, de uma tendência de antissemitismo discernível na esquerda.

Jonathan Freedland, colunista empregado “star” do Guardian e obcecado na perseguição a antissemitas, tuitou para seus seguidores que o artigo de Newman seria “importante”, porque “conclama a esquerda a começar a atacar o antissemitismo também em suas fileiras.” [3]

Não tenho notícia de Atzmon ter algum dia manifestado ideias antissemitas – nem antes nem depois de ler o artigo de Newman.

Como já se tornou rotina nessa nova modalidade de assassinato de reputação pelo Guardian, o artigo não faz qualquer esforço para provar que Atzmon seria antissemita ou para mostrar que haveria qualquer motivo para pôr em evidência essa sua pressuposta falha de caráter. (Diga-se, de passagem, que no artigo de Newman há idêntica acusação de antissemitismo contra Alison Weir, do blog “If Americans Knew” e também contra nossa página [Counterpunch] na internet, por termos publicado artigo assinado por Weir, sobre o papel de Israel no tráfico de órgãos [4]).

Atzmon acaba de publicar um livro sobre a identidade judaica, The Wandering Who? [“Errante”, quem?], já elogiado por figuras respeitadas como Richard Falk, professor emérito da escola de Direito em Princeton, e por John Mearsheimer, conhecido professor de política da Chicago University.

Mas Newman não critica o livro nem extrai dele qualquer citação. De fato, tudo sugere que sequer tenha lido o livro de Atzmon ou tenha qualquer ideia do que contém.

Newman abre o artigo com elogios ao talento e à mestria musicais de Atzmon, com uma referência muito vaga a escritos seus, pressupostos “antissemitas”. Em seguida, algumas longas frases extraídas de escritos de Atzmon, suficientemente longas para sugerir alguma suspeita (não se sabe exatamente do quê); e curtas demais e por demais afastadas de qualquer contexto para provar qualquer coisa, inclusive um pressuposto antissemitismo – mas prova suficiente, talvez, para atender à política de pensamento do Guardian e de seus leitores menos críticos e mais subservientes. Nada, na coluna publicada, comprova que Atzmon algum dia tenha sido antissemita: o jornal assume que ele é antissemita, o colunista escreve que ele é antissemita, ninguém comprova ou demonstra coisa alguma. E assassina-se mais uma reputação. (...)

Apesar disso, o Guardian garante seu imprimatur à difamação assinada por Newman, contra Atzmon (apresentado ali como “teórico da conspiração, pingando de desprezo por judeus”), não oferece qualquer prova de coisa alguma e tudo fica por isso mesmo. Jornalismo digno do Pravda, nos dias de glória de Stálin! (...)

O Guardian, como várias outras grandes corporações de imprensa-empresa, recebe fortes investimentos – em termos financeiros e também em termos ideológicos – para dar irrestrito apoio à atual ordem mundial. Em tempos de jornais impressos, o Guardian tinha meios para excluir e silenciar – e hoje, em tempos de internet –, dedica-se a demonizar as vozes da esquerda que se arriscam a questionar um sistema de poder e controle por grandes empresas, poder e controle dos quais o Guardian é uma das peças chave.

Quem leia o Guardian é rapidamente levado a crer que uma meia dúzia de dissidentes dispersos e os intelectuais de esquerda seriam dos principais problemas que nossa sociedade enfrenta – problema comparável, em magnitude, à ação de nossas elites moralmente comprometidas, autoridades policiais corrompidas e sistema financeiro depravado.

Atzmon e algum seu pressuposto antissemitismo seria talvez problema mais grave que a ação do AIPAC (America-Israel Public Affairs Comittee)? (...) Assange e WikiLeaks seriam mais grave ameaça ao futuro do planeta que o presidente Barack Obama dos EUA? Leitores do Guardian são diariamente induzidos a crer que sim.



Notas dos tradutores
[1] 25/9/2011, Andy Newman, “Gilad Atzmon, antisemitism and the left” [Gilad Atzmon, antissemitismo e a esquerda],  (em inglês).
[2] Ver 19/9/2011, Gilad Atzmon, 19/9/2011, “Obama, o estado palestino e a esquizofrenia sionista”, em português; e  Gilad Atzmon, 23/9/2011 “Tragédia Americana”, em português.
[4] Allison Weir, “Israeli Organ Harvesting”, Counterpunch, ed. fim de semana, 29-30/8/2009, (em inglês).

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Aqui jaz uma revista



Publicado em 31/08/2011 por Mair Pena Neto

Veja colocou a pá de cal em sua decadente trajetória com a matéria publicada na última edição, na qual se valeu de todos os métodos, inclusive criminosos, para corroborar uma de suas teses, desta vez a de que o ex-ministro José Dirceu conspira contra o governo de Dilma Rousseff.

A matéria não se sustenta jornalisticamente, com uma série de ilações e conclusões frágeis, porém o mais grave foi o seu método de apuração, com recurso à espionagem, invasão de privacidade e outros delitos, o que levou seu repórter a ser denunciado pelo hotel em que José Dirceu estava hospedado por tentativa de violação de domicílio. Para quem não leu a matéria ou o que já foi escrito sobre ela, o repórter da Veja hospedou-se no mesmo hotel de Dirceu, em Brasília, e tentou por duas vezes entrar no quarto do ex-ministro, primeiro passando-se por hóspede do apartamento que tinha esquecido as chaves, e, depois, por assessor da prefeitura de Varginha que fazia questão de deixar no quarto "documentos relevantes".

O que pretendia o repórter caso fosse bem sucedido em sua empreitada? Fuçar papéis e documentos do investigado? Roubá-los caso encontrasse algo que fosse ao encontro da tese da reportagem? Quem o orientou a agir dessa maneira? Seu chefe imediato, os editores da revista, o dono da editora que a publica? As perguntas são muitas e todas complicam ainda mais a situação de Veja e sua forma de fazer jornalismo.

A revista foi além e publicou imagens gravadas no corredor do andar do hotel em que Dirceu se encontrava, que mostram o ex-ministro com outras figuras da política brasileira. Veja não esclarece como obteve as imagens, mas parece pouco provável que as tenha conseguido com o próprio hotel, o que reforça as suspeitas de que tenha instalado algum equipamento por conta própria, o que aumenta a gravidade do delito. Trata-se, primeiro, de um caso de polícia. Depois, de grave atentado à ética jornalística.

A desfaçatez de Veja impressiona ainda mais, pois ocorre pouco após o escândalo do comportamento criminoso e, consequentemente, desprovido de ética do tablóide News of the World, do império midiático de Rupert Murdoch, que espionava personagens da vida pública inglesa como procedimento editorial assumido. O caso do jornal londrino não só está fresco em nossa memória, como ainda ocupa os tribunais ingleses, com jornalistas presos e respondendo a processos.

Há um bom tempo, Veja perdeu credibilidade perante boa parte dos leitores com capacidade crítica e de observadores do comportamento midiático. A recente reportagem pode ter sido o passo final para sua sentença de morte. A revista semanal não deve ser extinta, como o News of the World, mas tende a se tornar cada vez mais leitura ligeira de sala de espera de consultórios médicos, sem o prestígio outrora desfrutado.

A matéria de Veja colocou jornalistas e toda a imprensa perante a necessidade de responder à sociedade sobre que tipo de ofício praticamos. Somos todos imprensa marrom? Não temos limites nas nossas apurações? Vale tudo na busca de uma informação? Compactuamos com este tipo de jornalismo? Creio que jornalistas, empresas jornalísticas, sindicatos e associações precisam se manifestar claramente, repudiando o procedimento da revista. Do contrário, nos locupletamos.


terça-feira, 26 de julho de 2011

O dilema institucional da mídia ocidental

25/7/2011, Wang Fang, People’s Daily Online, Pequim, China
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário entreouvido na Vila Vudu
Depois de eeeeeeras ouvindo asneiras metidas a “éticas” e “democráticas” sobre a importância da “liberdade de imprensa” para a salvação da democracia (com eleições em que as empresas de comunicação elegem e deselegem quem bem entendam -- ou quase!), a China, agora, deita e rola. Muito bom! 
Agora, só não vê quem não queira: “liberdade de imprensa” pro grupo GAFE (Globo, Abril, Folha & Estadão), só engendra monstruosidades como, dentre muuuuuuitas outras monstruosidades, elianes, mervais, waacks, miriansleitões, donasdanuzas, korasdramers, magnollis & outros murdochs (pooobres), por aí! [risos, risos] Ótimo!

A verdade é que NADA no mundo, nem algum jornalismo controlado pelo Partido Comunista Chinês, pode ser PIOR que o jornalismo controlado pelo grupo GAFE & murdochs em geral. A luta continua. Só a luta ensina!

O escândalo de telefones grampeados por jornalistas de News of the World, jornal britânico, desencadeou um efeito-dominó: outros jornais ligados à empresa-mãe News Corporation começam a ser acusados também de participação ativa em novos escândalos que não param de ser descobertos. Afinal, começam a ouvir-se vozes até nos EUA, na Austrália e em outros países, que exigem ampla investigação e reavaliação dos princípios éticos do jornalismo e imposição de medidas para supervisionar jornalistas e jornais. O escândalo já ultrapassou os limites da imprensa e causou reações em cadeia nos círculos policiais e políticos; o premiêr britânico David Cameron enfrenta a maior crise política desde que assumiu o governo.

O escândalo dos telefones grampeados não é aberração provocada por uma ou outra empresa jornalística ou um ou outro jornalista que esquece a própria responsabilidade social e abusa, individualmente, da liberdade de imprensa. O escândalo reflete o dilema institucional em que a imprensa ocidental e o sistema democrático representativo enfrentam desde sempre, em seu processo de desenvolvimento.

Na história do jornalismo ocidental, os meios massivos sempre falam muito da “liberdade” e batem tambor a favor do estabelecimento e desenvolvimento do sistema democrático capitalista. A imprensa ocidental sempre se apresenta como “o Quatro Estado”, que seria independente do executivo, do judiciário e do legislativo, e que seria “um príncipe não coroado”, que distribuiria fatos e verdades e protegeria a justiça e a sociedade.

Contudo, quando subiu a maré dos monopólios e da fusão de empresas, as empresas de comunicação de massa sempre foram parte interessada no processo. Nos anos 1980s, 50 grandes empresas controlavam praticamente todo o jornalismo de massa nos EUA. Em meados dos anos 1990s, esse número já estava reduzido e todo o poder já estava concentrado em apenas dez empresas.

Hoje, no século 21. a imprensa está praticamente monopolizada nos EUA, controlada por apenas cinco grupos financeiros, entre os quais Time Warner, Walt Disney e News Corporation. A empresa News Corporation, de Rupert Murdoch, alcança vários continentes e é proprietária de 40% dos jornais do mundo, entre os quais o Times e News of the World. Nos EUA, a mesma empresa controla vários veículos, todos de grande circulação ou audiência, entre os quais o Wall Street Journal, a rede Fox de televisão, Movie.com e dúzias de estações de televisão. Além disso, mais de 70% de todos os jornais com sede na Austrália pertencem à mesma empresa. É absolutamente impossível falar de liberdade de imprensa, senão em sentido absolutamente superficial e oco, ante o processo de fusão de megaempresas que leva, exclusivamente, ao monopólio do direito de expressão.

Artigo recentemente publicado, intitulado “o capital é mais forte que a liberdade: Murdoch venceu”, diz que os jornalistas dos EUA têm de enfrentar a triste realidade de que rezam pela mão do único deus que efetivamente reconhecem; e que não se chama “liberdade de imprensa”; chama-se “capital”.

W. Lance Bennett, professor norte-americano, disse que todos os políticos e grupos políticos, inclusive o presidente, os senadores, grupos de interesse e radicais, conhecem ou deveriam conhecer a importância da imprensa para suas carreiras políticas. Grupos multinacionais de comunicações já controlam completamente não só os veículos, como empresas, mas também já constituíram poderosíssimos grupos de interesses, nos quais se interconectam os negócios, a política, veículos e profissionais que, todos esses, constituem uma elite que existe exclusivamente para proteger os interesses dessa elite.

Agências governamentais e as corporações de comunicações cooperam, mais do que se interfiscalizam. Os políticos acabam por aprender a usar a imprensa e algumas vezes têm, mesmo, de render-se à imprensa – quando não a subornam diretamente – para aumentar o próprio poder ou ganhar status graças ao auxílio da imprensa.

Segundo matérias publicadas na imprensa britânica, Andy Coulson, ex-editor-chefe do jornal News of the World e ex-principal assessor de comunicações do primeiro-ministro britânico David Cameron, foi preso, há algumas semanas, acusado de participar no grampeamento ilegal de telefones. Ligado por laços fortes com todo o mundo dos jornalistas ingleses, Coulson teve papel decisivo na campanha eleitoral que levou Cameron ao poder, como candidato dos Conservadores, nas eleições do ano passado. Peter Oborne, principal editor de política do jornal Daily Telegraph, disse que, nos últimos 20 anos, o fator decisivo para qualquer candidato que desejasse alavancar sua carreira política foi aproximar-se de Murdoch e conquistar sua simpatia.

Para maximizar interesses comerciais, vários jornais e jornalistas sempre usaram meios ilegais – escutas e grampos clandestinos e ilegais, suborno e chantagem – para obter informações exclusivas e a proteção de políticos e policiais. Agências governamentais, às quais deveria caber fiscalizar e coibir esse comportamento de jornais e jornalistas, mantiveram-se cegas, para não se indispor com jornalistas e jornais – o que foi como autorizar e legitimar os crimes ‘da mídia’. O escândalo das escutas clandestinas, agora, afinal, expôs completamente as relações complexas e obscuras que há entre jornais, jornalistas, policiais e outros funcionários corruptos.

O que ainda se chama no ocidente “liberdade de imprensa” acabou por condenar grandes países ocidentais democráticos à degradação de um círculo vicioso no qual “a imprensa modela a opinião pública; a opinião pública pressiona os políticos; e os políticos, em colusão com jornais e jornalistas, trabalham a favor de seus próprios interesses” – sempre privados, jamais públicos.

Nos estágios iniciais das guerras no Iraque e na Líbia, todos os grandes jornais do Reino Unido e dos EUA deram massiva divulgação a vitórias da coalizão, e sempre ignoraram o trágico grande número de civis mortos e a brutalidade da guerra. Indústrias que fabricam armas, empresas de comunicação e agências do governo constituíram comunidades de interesses, usando todos os meios possíveis para manipular, modelar e controlar a opinião de seus cidadãos.

O monopólio é o predador natural da liberdade. Os grupos globais de televisão e jornais, beneficiários, hoje, dos sistemas de comunicação de massa e, agregados a esses, também os sistemas da democracia ocidental, não têm medido esforços para homogeneizar as necessidades de alguns grupos domésticos, oferecendo sempre informação limitada e enviesada; e também se dedicam a reforçar estereótipos negativos contra outros povos e outros países. 

Há muito tempo, a voz dos países pobres e emergentes foi suprimida das discussões sociais no ocidente, pela influente indústria da mídia ocidental. A mídia ocidental é responsável pela abissal desigualdade de informação entre países ricos e países pobres – e essa desigualdade construída inevitavelmente fez aumentar as desigualdades políticas e econômicas.

A indústria da mídia modela a opinião pública, mas não escapa da influência do poder político e da economia. No seu último editorial, antes de o jornal ser fechado, News of the World admitiu: “Nós perdemos o rumo”. Mas há outra pergunta no ar, a espera de resposta:

“O que mais toda a imprensa ocidental perdeu?”