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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Michael Hudson: “Operação Abutre” na Ucrânia e protestos trabalhistas


28/5/2015, [*]  Michael Hudson, Naked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Entreouvido no Porãozinho da Macumba na Vila Vudu: O procedimento que aqui se denuncia é/foi padrão em todas as ditaduras implantadas pelos EUA, para “mudar regimes” não subservientes. Aconteceu também no Brasil: o mais importante líder político surgido das lutas históricas da sociedade brasileira contra a ditadura desde os anos 1970, o Ministro José Dirceu, candidato óbvio à presidência do Brasil, agora, por exemplo, na sucessão da presidenta Dilma... foi a primeira vítima do ataque ensandecido do “JUDICIÁRIO”, “jornalistas”, empresas comerciais de “mídia”, políticos etc., a serviço dos interesses norte-americanos.

Ucrânia - Colapso Econômico, Social e Financeiro
O colapso da Ucrânia depois do golpe de fevereiro de 2014 converteu-se num guarda-chuva que protege uma “operação” de “roube-o-que-puder-ização” [1] galopante.
Dano colateral nessa condição de assalto generalizado, tem sido o trabalho. Muitos trabalhadores simplesmente não são pagos, e o que recebem é quase sempre ilegalmente baixo. Os empregadores retiram das contas das empresas o que lá encontrem e transferem tudo – preferencialmente para o ocidente ou, no mínimo para alguma moeda estrangeira.
€Os atrasos salariais são cada dia maiores, porque, com a Ucrânia aproximando-se da véspera de dar calote nos mais de € 10 bilhões que deve a Londres, os cleptocratas e empresários começam a abandonar o navio. Já viram que os empréstimos externos secaram, e que a taxa de câmbio só despencará cada vez mais. O anúncio, pelo Parlamento, semana passada, de que subtraiu € 8 bilhões d da reserva para pagar o serviço da dívida, para usar o dinheiro em mais um ataque militar na região exportadora ocidental do país foi a gota d’água para os credores externos, e até para o FMI. Esses empréstimos ajudaram a sustentar a taxa de câmbio da hryvnia (moeda ucraniana) por tempo suficiente para que banqueiros, empresários e outros “agentes econômicos” tirassem do país a quantidade possível de ativos, o máximo de euros e de US dólares que pudessem, antes do iminente colapso que virá, em junho ou julho.
Nessa situação de pré-bancarrota, esvaziar as prateleiras significa não pagar empregados nem outras contas. Há notícias de que os salários em atraso já alcançariam 2 bilhões de hryvnias, devidas a meio milhão de trabalhadores. Essa situação levou a Federação dos Sindicatos da Ucrânia a organizar um protesto contra o Gabinete de Ministros ontem, 4ª-feira, 27/5/2015. E mais protestos estão marcados para as próximas duas 4ªs-feiras, dias 3 e 10 de junho/2015. Segundo o vice-presidente da Federação Serhiy Kondratiuk,
(...) o atual salário de subsistência de 1.218 hryvnias ucranianas é 60% inferior ao que determina a lei ucraniana, cálculo confirmado também pelo Ministério de Política Social (...). O salário mínimo no país é de 3.500 hryvnias ucranianas mensais. Mas o governo recusa-se a manter diálogo com a sociedade, para revisar os padrões.
O cenário que vem por aí
Esvaziar de vez os bancos comerciais ucranianos deixará prateleiras vazias. Com a economia ucraniana já quebrada, os únicos compradores existentes são milionários europeus e norte-americanos. Vender a estrangeiros é, pois, o único modo de gerentes e proprietários obterem algum retorno significativo – e compras pagas em moeda garantida depositada em contas no exterior, bem longe das futuras taxas e multas ucranianas. Privatização e fuga de capitais andam juntas.
DÍVIDA da Ucrânia - Algum dia tudo isso será de vocês.
E o mesmo se dá no campo do trabalho. Os novos compradores reorganizarão os ativos que compram, declaram a falência das empresas antigas e apagam os salários atrasados, junto com qualquer outra dívida incômoda que os empregados imaginem ter a receber. As empresas reestruturadas declararão que a falência apagou qualquer coisa que os ex-proprietários (ou as empresas públicas) devessem aos empregados. É praticamente o que os fazem nos EUA os compradores da massa falida de empresas, para apagar quaisquer obrigações que haja com pensões ou outras dívidas. Lá como cá, esses abutres declararão que “salvaram” a economia ucraniana e a tornaram “competitiva”.
Operação Abutre
O golpe do general Pinochet no Chile foi ensaio geral para o que hoje se vê em todo o mundo e também na Ucrânia. No Chile, a junta militar golpista apoiada pelos EUA atacou furiosamente líderes sindicais, jornalistas, acadêmicos e líderes políticos potenciais. No Chile, foram extintos todos os Departamentos de Economia nas universidades, exceto os que recebiam “especialistas” em “livre-mercado” vindos de Chicago, e que se concentraram na Universidade Católica. Ninguém pode ter “livre-mercado” à moda Chicago, sem tomar essas medidas totalitárias.
Os estrategistas norte-americanos gostam de dar nomes de aves míticas a esses seus golpes: Operação Fênix, no Vietnã; Operação Condor, na América Latina. Hoje, está em andamento programa semelhante contra falantes de russo que vivem na Ucrânia. Não sei que nome-código darão a mais esse “golpe padrão”. Sugiro chamá-lo Operação Abutre.
Para os sindicalistas, o problema não é só receber salários atrasados mas, também, conseguir algum salário mínimo necessário que permita sobreviver. Se não saírem às ruas e protestarem, simplesmente não serão pagos. Por isso estão organizando uma manifestação “neo-Maidan” a favor, declaradamente, dos direitos dos trabalhadores da Ucrânia – tentando assim que os pistoleiros-atiradores ocultos que matam a serviço do Setor Direita (Pravy Sektor e os neo-nazis do Svoboda [Nrc]) não os tomem por manifestantes pró-Rússia. Os sindicatos estão tentando proteger-se buscando o apoio da Organização Internacional do Trabalho e da Confederação Internacional de Sindicatos em Bruxelas.
A tática mais efetiva para enfrentar a corrupção que está permitindo o não pagamento de salários e aposentadorias, é focar o ataque sobre o apoio externo que o atual regime na Ucrânia recebe, sobretudo do FMI e da União Europeia.
Usar os sofrimentos dos trabalhadores como manto de proteção, para exigir outras reformas. Essas outras reformas podem incluir advertências bem explícitas de que qualquer venda a estrangeiros, de terras, matérias primas, aparelhos de infraestrutura e outros itens do patrimônio público ucraniano são negócios que serão desfeitos no futuro, quando houver na Ucrânia governos menos corruptos.
A favor dos sindicalistas, está o fato de que o FMI já violou suas próprias “Regras para Acordos de Empréstimos”, ao emprestar dinheiro para finalidades militares. No momento em que esse último empréstimo chegou às mãos de Poroshenko, ele anunciou que estava escalando sua guerra contra o leste do país. Esse movimento põe o empréstimo feito pelo FMI bem próximo do que os teóricos de Direito Comercial chamam de “Dívida Odiosa”: dívidas assumidas por junta que toma o poder à força, saqueia o Tesouro e faz dívidas, que deixa para algum futuro governo pagar pelo que a junta tenha roubado.
Operação Abutre
A luta dos sindicatos por salário digno não visa só a saldar dívidas sociais passadas: visa também a pôr em prática um plano de recuperação que proteja a economia ucraniana de ser tratada como a da Grécia ou da Letônia, à moda dos neoliberais.
Estrategistas norte-americanos vem tentando classificar como “Dívida Odiosa” – para escapar da obrigação de saldá-la – os US$ 3 bilhões que a Ucrânia deve à Rússia, que vencem em dezembro. Tentam também classificar essa dívida como “ajuda externa”, o que a tornaria não cobrável. Por irônico que pareça, o Peterson Institute of International Economics, George Soros e outros Guerreiros da Guerra Fria, têm fornecido aos futuros governos ucranianos um vasto repertório de razões plenamente legais, para safarem-se da dívida externa que sufoca o país – e liberar recursos para pagarem salários e aposentadorias em atraso.
Se não for isso, só resta aos credores internacionais pensarem primeiro no FMI, na União Europeia e nos acionistas externos, e deixarem “prá depois” a defesa de direitos soberanos capaz de impedir a autodestruição da Ucrânia.
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Nota dos tradutores
[1] Orig. Grabitization. “A peça central do programa ocidental de rápida privatização do sistema comunista de produção em pouco tempo passou a ser conhecida na Rússia pelo termo grabitization: a apropriação ilegal de patrimônio do estado e da população soviética, por apparatchiks do partido, que logo se tornaram oligarcas com preciosas conexões dentro do poder”.
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[*] Michael Hudson (nascido em 1939, Chicago, Illinois, EUA) é pesquisador emérito e professor de Economia da Universidade do Missouri, em Kansas City. e pesquisador associado do Bard College. É ex-analista e consultor em Wall Street; presidente do “Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Termo” (Institute for the Study of Long-term Economic Trends − ISLET) e um membro-fundador da “Conferência Internacional de Pesquisadores de Economias do Antigo Oriente Próximo” (International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies − (ISCANEE). 
Seus dois livros mais recentes são: The Bubble and Beyond e Finance Capitalism and its Discontents. O próximo livro tem o título de Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy.

sábado, 10 de novembro de 2012

A Cara da Justiça

Raul Longo

Raul Longo

Dizer que a Justiça Brasileira tem duas caras seria impróprio, apesar de permitir a fuga de escroques e estupradores enquanto se faz zelosa com os que se esforçam pela construção de um país.

A Justiça Brasileira não encara o país e o mundo com cara alguma e não adianta tentar cogitar com que cara vai ficar perante os anais da história.

A Justiça Brasileira nunca poderá tomar vergonha na cara e não é pela falta de pejo, de dignidade, ou qualquer outro senso.

Pelo acinte a qualquer senso que lhe justifique a função, a Justiça Brasileira não pode sequer ser apontada como cara de pau.

Não há possibilidade de ficar ruborizada e também não faz cara de safada. Apenas reflete o policrômico poder de seus donos. A Justiça Brasileira se mija de medo de seus donos aos quais abana-se como animalzinho de corda ou de pilha.

No Brasil só se age e se comporta corretamente, de acordo com a civilidade e as leis, por decisão pessoal, por caráter próprio ou foro íntimo. Pois o que erra, o criminoso, o fraudador não tem a quem ou o que encarar.

A Justiça Brasileira não tem venda nos olhos e não há carapuça que lhe sirva.

Vejam a declaração do jornalista Raimundo Pereira no vídeo abaixo. A seguir leiam o texto do cronista Lula Miranda e tentem imaginar que cara a Justiça Brasileira tem.

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Condenado, sem passaporte e prestes a ser sentenciado a uma das mais duras penas da história judicial brasileira, José Dirceu não tem alternativa a não ser exibir, com orgulho, as algemas preparadas por Joaquim Barbosa, assim como fez quando foi preso pelo regime militar; leia o texto inédito do poeta Lula Miranda.

9 de Novembro de 2012 às 19:03  - por Lula Miranda*


Mostre as algemas, Zé!

Foi o que teria dito a José Dirceu, em Setembro de 1969, um dos presos políticos naquele histórico momento de resistência à ditadura militar em que 15 prisioneiros do regime de exceção e arbítrio, que se instaurara no Brasil, foram libertados em troca do embaixador americano – na fotografia aparecem 13, apenas uma mulher.

Ficheiro:Herc 03.jpg

Exceção e arbítrio. Palavras malditas. Palavras-emblema de tempos sombrios.


Segundo relato de Flavio Tavares, hoje jornalista e escritor, ele teria sussurrado aos companheiros na ocasião: “Vamos mostrar as algemas”. Fez isso num insight “de momento” ao notar que os presos que estavam ali perfilados, alguns agachados, como um time de futebol campeão, numa forçada pose para uma foto que viria a se tornar histórica, escondiam as algemas. E por que escondiam as algemas aqueles jovens? Talvez por vergonha. Talvez porque estivessem preocupados em como aquela imagem poderia machucar ainda mais seus familiares e parentes mais próximos. Ou talvez, simplesmente, porque já estavam por demais combalidos e abalados moral e emocionalmente para se preocuparem com aquele peculiar adereço do arbítrio. Não se sabe ao certo, tampouco importa. Mas, insistiu Tavares, naquele “insight” que, ao contrário,em vez de esconder, as exibisse.

Mostre as algemas, Zé! Exorto-lhe nos dias que correm hoje. Dias de incipiente e vilipendiada democracia.

Na foto, podem verificar, percebe-se nitidamente o Zé Dirceu exibindo, intrépido, as malditas algemas.

Eu que não fui amigo daquele jovem idealista algemado de outrora, tampouco conheci o suposto homem “todo-poderoso” do governo; logo eu que o combati na disputa política, até com palavras duras, eu que nunca o vi mais magro, ouso lhe fazer a mesma súplica: Mostre as algemas, José Dirceu!

Não tenha vergonha de nada; tenha orgulho. Você ainda será, por vias transversas, um preso político. Sim, orgulho! Em que pese a maledicência covarde daqueles que, assim como naqueles dias sombrios de 1969, hoje lhe apontam o dedo, xingam e condenam. São os mesmos – “imortais”, “eternos” porta-bandeiras da (falsa?) moral. Ora se são!

Mostre as algemas, Zé!

Exiba a todos, daqui e para o resto do mundo! Mostre a todos o que se faz aqui no Brasil a homens como você, que prestaram valorosos serviços à pátria; que lutaram com destemor contra a ditadura; que ajudaram a eleger o Lula; que empenharam a sua vida e juventude no afã de mudar um pouco a feia face desse país tão injusto com seus filhos, ajudando a implantar políticas públicas que tiraram milhões da miséria e do desalento.

Mostre a p* dessas algemas, cara! Para o bem e para o mal. Para o orgulho dos amigos e regozijo dos inimigos.

Confesso que esperava que o julgamento do STF fosse “emblemático”, justo. Não “justo” pelo mesmo metro, critério ou “premissas” com que a imprensa insuflou e ensandeceu as galerias. Mas justo “de verdade”: que fossem condenados os culpados, aqueles que tivessem suas culpas efetivamente comprovadas. Sim, que fosse uma firme sinalização rumo ao fim da impunidade no Brasil. Mas não foi isso exatamente o que se viu. Não foi isso que testemunhamos. Houve erro e exagero. Do Supremo. Da mídia grande em geral. Uma caricatura. Entre erros e acertos, a injustiça foi soberana.

Os ministros demonstraram-se, desgraçadamente, um tanto tíbios, vaidosos e suscetíveis à pressão e clamor da turba, de modo irresponsável manipulada e insuflada pela opinião publicada.

Você foi condenado sem provas. Isso é fato, irretorquível. Foi condenado sem provas, repito. Foi condenado com base em suposições e suspeitas, com bases em capciosos “artifícios” jurídicos, tais como a hoje célebre “teoria do domínio do fato”. Uma excrescência, uma espécie de “licença poética” do golpismo – com o perdão dos poetas, por aqui aproximar as palavras “poética” e “golpismo”.

Eu poderia “achar” que você era culpado. O meu vizinho poderia achar que você era culpado. O taxista poderia achar. Todo mundo poderia “achar” que Zé Dirceu era culpado. Mas um juiz, seja do Supremo ou de 1ª instância, não pode, em absoluto, “achar” que você ou qualquer outro é culpado. Isso é uma ignomínia – como você tem se cansado de dizer, reiteradas vezes, em suas manifestações. Não nos cansemos de, indignados, exclamar: uma excrescência, uma ignomínia!

Zé,mostre as algemas! Elas são o espúrio troféu que lhe ofertam os verdugos!

Nunca pensei em sair do meu país, Zé, agora já penso com carinho e desconforto nessa possibilidade. Como posso viver num país em que minhas garantias fundamentais de cidadão não são respeitadas?!

Que país é esse?! Que Justiça é essa?!

Quebrou-se a pedra fundamental de toda nossa estruturação jurídica: a presunção da inocência. Em seu lugar colocaram a presunção da culpa. Parece piada, de mau gosto, decerto, mas não é. Como já disse antes, repito: não se é permitido fazer graça com a desgraça alheia. E sua vida foi desgraçada, Zé.

Mostre as algemas!

Veja bem, se você – insisto, reitero – um homem que tantos serviços prestou ao país, um homem respeitado por intelectuais, políticos e autoridades do mundo todo foi enxovalhado dessa maneira, submetido à execração pública pela mídia. Desonrado, chamado de “quadrilheiro”, “mensaleiro”, “ladrão”, o que fariam com um “poeta marginal” como eu? Um homem qualquer, sem galardão algum, sem cânone, sem mérito.  Parafraseando certa atriz de cenho angelical, “namoradinha” desse mesmo Brasil: tenho medo.

Não sei que monstro o STF e a grande imprensa estão ajudando a criar. Mas uma coisa eu lhe asseguro: é assustador.

Para aqueles que, sem questionar, acham justa a sua condenação e prisão eu pergunto; para os “inocentes úteis” que aceitam sem titubear esses consensos forjados e essas verdades absolutas que a grande mídia sopra, todos os dias, em nossas consciências nos telejornais e nas manchetes dos jornais estampadas nas bancas; faço-lhes a pergunta que não quer calar: porque criminalizam e prendem somente os petistas e mais alguns “mequetrefes” da chamada “base aliada” do governo Lula? 

Por que essas práticas de sempre na política, hipocrisia à parte, agora “ilícitas” e “criminosas”, só são permitidas aos “de sempre”? Por que os sessenta e tantos investigados no chamado “mensalão mineiro” [não é tucano?!] não foram acusados/denunciados? E não serão jamais – pois para estes o crime é eleitoral; é caixa 2, já prescreveu [“Dois pesos, dois mensalões” – by Jânio de Fritas]. Já quando são petistas os agentes da ação... é corrupção; é “golpe”; são “práticas espúrias”, “criminosas” de um partido, digo de uma “quadrilha”, em “sua sanha de se perpetuar ad eternum no poder”. Não, essas palavras não vieram da tribuna do Senado ou da Câmara dos Deputados, não saíram da boca de algum político da oposição, mas – pasmem! – foram proferidas por ministros do Supremo. Por ministros do Supremo, repito! Juízes na Ação Penal nº 470. Vejam a que ponto chegamos!!!

Mostre as algemas, Zé! Mostre as algemas!

Essas tais “práticas ilícitas” ou “criminosas” não deviam ser permitidas a ninguém - não é mesmo? A Justiça não deveria ser igual para todos?!

Qual a resposta a esse singelo por quê?

Por que só os petistas são condenados, execrados e presos?

A resposta também é simples: para que o poder permaneça nas mãos dos “de sempre”, nas mãos dos eternos “donos do poder”. As chamadas “regras do jogo”, até as bastardas, servem apenas para a parte podre das nossas elites; quando é para os “do lado de cá” aí deixa de ser “regra do jogo”, passa a ser crime; “práticas espúrias”; “compra de voto”.

Faço um singelo convite a todos: vamos pensar o país, no qual a gente vive, um pouco além da hipocrisia, do partidarismo, do “falso moralismo” e dos “manchetismos grandiloqüentes” de uma imprensa que serve aos interesses de determinada classe social e ideologia. Mais temperança e equilíbrio aos juízes Supremos e nem tão supremos assim, o chamado “cidadão comum”.

Não podemos nos dobrar a esse estado de coisas. Não podemos nos calar e assim sermos cúmplices e testemunhos silentes dos erros dos tribunais. Repito: o Supremo exagerou; a mídia exagerou.

Quadrilha?! Onde? Compra de votos?! Penas de reclusão superiores a 30 anos! Há aí um nítido erro na tipificação dos crimes, nas condenações e exagero na dosimetria das penas. O que é uma pena.

Pois isso poderá até favorecer aos condenados, pois essas condenações injustas e essas penas exageradas certamente serão revistas algum dia, por esse ou por outro tribunal. Espero, sinceramente, que sejam revistas por esse mesmo colegiado, pois ali também estão homens de valor. E que essa vergonha, esse grave equívoco não se perpetue.

Nesse momento, só me resta dizer...

Mostre, com orgulho, as algemas, José Dirceu!

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Lula Miranda* é poeta, cronista e Economista. Foi um dos nomes da poesia marginal na Bahia na década de 1980. Publica artigos em veículos da chamada imprensa alternativa, tais como Carta Maior, Caros Amigos, Observatório da Imprensa, Fazendo Média e blogs de esquerda

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

José Dirceu no julgamento de Alice



Zé Dirceu e Fidel

Publicado em 11/10/2012 por Urariano Motta*

Recife (PE) - Não se enganem os leitores. O mensalão no STF é, na essência, um julgamento político. E se ainda têm dúvida, observem a mídia massificada, o abuso de imagens na televisão, a telenovela em que se tornou o tribunal cuja chamada é punição aos corruptos para um novo Brasil.

Um leitor calejado diria que as notícias se fabricam como as salsichas, com sangue e gordura fartos em ambiente de náusea. No entanto, o que há de mais pedagógico nesse julgamento é o fim das ilusões de como age o Supremo Tribunal Federal. Ali também se produzem salsichas, a saber, votos e juízos se fazem em obediência à sociedade de classes, na feroz luta política.

Se ainda têm dúvida, observem que o conceito de prova foi reinventado. Indícios, que possuem a natureza, por definição, de serem hipóteses, viraram fatos, sob o especioso argumento de “é impossível que ele não soubesse”.

Houve provas como deduções de retórica, digna de sofistas, na base do se isso, então aquilo. O elementar de qualquer tribunal do mundo civilizado, do não basta supor, não basta desconfiar, não basta ter como provável, foi jogado às favas. E por que ministros tão ilustres, pelo menos no brilho de suas ideais funções, sepultaram as nossas melhores ilusões de justiça acima de classes?
O alvo do julgamento é Lula.

O alvo são as conquistas de um governo de esquerda, que se trouxe ganhos maiores para o capital, também redistribuiu renda, e no que tem de pior, ameaça uma permanência no poder que pode gerar insuportável democracia: leis de regulação da mídia, perdas irreparáveis de privilégios.

Daí que foi dado o passo necessário para a condenação do ex-presidente Lula: a punição de José Dirceu.

Falta só mais um degrau.

Na verdade, muito antes desta semana, o julgamento de Zé Dirceu estava escrito desde o século dezenove. Em escrita criadora, o seu julgamento já havia sido feito desde 1865. Mais precisamente, sob a pena de Lewis Carrol, em “Alice no País das Maravilhas”. O leitor por favor acompanhe estas linhas de Alice.  

- Não, não! - berrou a Rainha. - Primeiro a sentença, depois o veredicto.

Se substituímos a Rainha pelo conjunto imprensa e tribunal do Brasil, perceberemos que aqui também a condenação estava antes sentenciada. Mas continuemos com Alice:
   
Neste momento o Rei, que estivera ocupado por algum tempo escrevendo em seu caderno de notas, gritou:

- Silêncio! - e leu: “Artigo Quarenta e Dois: Todas as pessoas com mais de um quilômetro e meio de altura devem deixar o tribunal”.

Todo o mundo olhou para Alice.

- E não irei de jeito nenhum - disse Alice; - além do mais, este artigo não é legal: você acabou de inventá-lo.

O Rei empalideceu e fechou apressadamente seu caderno de notas. “Façam o seu veredicto”, disse ao júri, com voz baixa e trêmula.

Se fazemos a diferença de que no Brasil os ministros do Supremo não empalideceram, os procedimentos criados pelo STF para esse julgamento repetem à perfeição Alice. Mas continuemos com o julgamento de José Dirceu, agora de modo mais claro:

- Com licença de Vossa Majestade, ainda há provas a examinar - disse o Coelho Branco dando um salto: - este documento acaba de ser encontrado.

- Do que se trata? - indagou a Rainha.

- Ainda não abri - respondeu o Coelho Branco. - Mas parece ser uma carta, escrita pelo prisioneiro para alguém.

- Só pode ser isso - disse o Rei, -a menos que tenha sido escrita para ninguém, o que não é muito usual.

- A quem é endereçada? - perguntou um dos ministros.

- Não é propriamente endereçada...- disse o Coelho Branco - na verdade, não há nada escrito do lado de fora. Enquanto falava, desdobrou o papel, acrescentando:

- Nem é uma carta, afinal de contas: são versos.

- Estão escritos com a caligrafia do prisioneiro? – perguntou outro.

- Não, não estão - respondeu o Coelho Branco - e isso é o mais estranho de tudo. (Todos pareciam perplexos.)

- Ele deve ter imitado a caligrafia de outra pessoa – disse o Rei. (Todos animaram-se outra vez.)

- Com licença de Vossa Majestade - disse o réu, - eu não escrevi isso, e ninguém poderá provar o contrário: não há nenhum nome assinado embaixo.

- Se você não assinou - disse o Rei - isso só piora a situação. Você certamente deve ter feito algo de errado, ou então teria assinado seu nome como qualquer pessoa honesta...

- Isso prova a sua culpa, é claro - disse a Rainha: - Logo, cortem a sua cabeça!

O logo acima foi conjunção para Lula e advérbio de tempo, urgente, em uma só palavra. Logo, cortem a cabeça da esquerda, foi, é a sentença. Provas para quê?  
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Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Não e não! Nunca, D. Hildegard! Dirceu vive!


O Brasil riremos por último, de vocês todos, até dos “cães de guerra” (by Shakespeare), do STF-2012!

Ainda sob o impacto da cena detestável montada pela jornalista Hildegard Angel [1], não se sabe se por ingenuidade, mas prova de que não se podem misturar jornalismo e política, nos sentimos na obrigação de lembrar algumas coisas.

Há zilhões de zilhões de coisas que se têm de lembrar. Não conseguiremos lembrar muitas, nem há tempo. Mas lembraremos aqui, pelo menos, uma:

-- o contexto narrativo, discursivo em que, na peça de Shakespeare, acontece o discurso que a jornalista Hildegard Angel desossou e subutilizou.

Evidentemente, o discurso do “vim enterrar Cesar, não vim elogiar Cesar” não é toda a conversa. Se fosse, nem Shakespeare seria Shakespeare! [risos, risos]

Antes daquele discurso, Marco Antonio chegara ao Senado, momentos depois do assassinato de Cesar, resultado de complô de cuja armação Marco Antônio tinha conhecimento. Em vários sentidos, Marco Antônio é cúmplice dos assassinos; num mínimo por não ter impedido o assassinato; noutro mínimo, por ser amigo de césares. Sempre fora amigo daquele Cesar e sabia o quanto Cesar não acreditara nos muitos sinais prévios de que o complô estava em marcha. (Daí, aliás, a surpresa de Cesar, já convertida em dito popular: “Até tu, Brutus?!”). Exatamente por Marco Antônio ser notório amigo de Cesar, a multidão o recebe mal, supondo que ele viesse “elogiar o ditador”, uma das falas que se ouvem “da massa” fascistizada, antes de a massa ser conduzida/persuadida pelo discurso de Marco Antônio a começar a desconfiar mais dos senadores que de Cesar. Por isso, para explicar a que veio e ganhar alguma confiança da massa, Marco Antônio abre seu discurso com uma justificativa:

“vim enterrar, não elogiar”.

Mas, antes disso, na cena anterior, chegado ao Senado, Marco Antônio conversara com os senadores assassinos. Todos ali se conhecem muito bem. Marco Antonio pede licença aos senadores assassinos para falar à assembleia, fazer uma espécie de “encomendação” do morto. Os senadores lhe dizem que sim, que pode falar, mas que tenha cuidado com o que vai dizer. Que nada diga contra os assassinos. Que meça as palavras. Mas que, sim, tem autorização para falar à assembleia. De lado, entre eles, os senadores comentam que será bom, mesmo, que fale, como “prova” de que o Senado (para a jornalista Hildegard Angel, o STF) seria “isento”.

Então, os senadores assassinos saem para a praça (não sem antes examinarem as túnicas: que não aparecessem eles, lá, ainda respingados de sangue!). Marco Antônio fica a sós com o morto. E ali, então, sim, antes de ir à praça, ele fala, de fato, pelo morto.

Essa fala é muito mais politicamente significativa, do que o discurso posterior, à multidão.

De fato, nem se pode entender corretamente o discurso à multidão, senão no contexto narrativo da peça.

Marco Antônio sabe que aquele assassinato põe Roma sob grave risco. Não se trata, absolutamente não, de pedir que algum Senado/STF “faça justiça”.

Trata-se, isso sim, no discurso de Marco Antônio do “vim enterrar (etc.)”, de ele conseguir-fazer-ver – conseguir mostrar! – à multidão, um Senado/STF que, das duas, uma ou ambas: (a) ou o Senado/STF se deixou conversar pela baboseira moralista, justiceira, vingancista, metida a “ética” do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) udenista e eternamente golpista no Brasil há mais de 60 anos; ou trata-se de Marco Antônio conseguir mostrar à assembleia (b) que o próprio Senado romano/STF é, ele mesmo, uma desgraçante fonte desdemocratizatória de mal “legalizado”.

Porque, se Marco Antônio não conseguir mostra (a) ou (b) acima, ou (a) e (b), e o povo for mantido engambelado, duas desgraças acontecerão:

(c) O Senado/STF desmoraliza-se, de vez; além de assassino, terá também fracassado no servicinho, reles, sujinho, mas ainda importante, de manter a aparência de grandeza de Roma (ou de manter ativa a reles democracia que há no Brasil; que é reles, mas que, pelo menos, arremedo de democracia e reles, que seja, ainda tem de manter algum ar de democracia, porque, se não mantiver, nem a luta pela real redemocratização do Brasil conseguirá avançar). E, segundo,

(d), se o Senado/STF desmoralizar-se de vez, Roma se torna ingovernável. E se acaba. E babaus pré-redemocratização engatinhante, hoje em curso no Brasil.

Exatamente porque Marco Antônio sabe de tudo isso é que ele sabe que tem o dever político (não algum “dever de amigo”! Que besteira é essa, D. Hildegard?! Numa hora dessas?! Faça-me o favor!) de falar à Assembleia: para impedir que a multidão deseducada, desdemocratizada, manipulada-conduzida-enlouquecida-fascistizada pelo gesto assassino dos senadores/STF, decida julgar, ela mesma, todos os crimes de todos os senadores e degolá-los na praça, operação na qual o primeiro degolado seria, só pra começar, o império romano. Ou, no caso, Brasília inteira, o STF e toda a frágil, reles, fragilíssima quase-democracia brasileira.

O discurso de Marco Antônio, portanto, não é discurso para “falar a favor” do morto, ou falar “como amigo” do morto, nem, muito menos, ocasião para “explicar o morto”. Marco Antônio sabe que nenhum morto jamais será despido, pela morte ou pelo amor dos amigos, da própria história e papel político – nem por sentença de algum STF! É o contrário disso! A assembleia tem de despertar para a consciência do próprio poder: cabe a ela democratizar o senado romano e o STF-2012 em Brasília. Trata-se disso.

Mais uma: o discurso de Marco Antônio não é, de modo algum, “emotivo” ou “emocional” – o que o xororô da jornalista Hildegard Angel é e só é. É, outra vez, o contrário disso, e mais um traço que a jornalista Hildegard Angel não soube ler em Shakespeare.

O discurso de Marco Antônio é discurso milimetricamente construído como peça pensadíssima de oratória política com objetivo claro: Marco Antônio fala, exclusivamente, para fazer reverter a loucura da multidão que, naquele momento, quer mais sangue. Evidentemente, nem Marco Antônio nem Shakespeare cometem a temeridade tola de supor que seria possível persuadir senadores assassinos/STF, assim, só no gogó!

Como se os senadores assassinos/STF não soubessem da longa, potente, bela história política do ministro José Dirceu!

Como se estivessem fazendo o que estão fazendo porque não soubessem da importância histórica e das capacidades do ministro José Dirceu!

Como se não soubessem que o ministro José Dirceu é o ÚNICO sobrevivente da resistência à ditadura que sobreviveu, até hoje, como está -- e felizmente para o Brasil -- ainda próximo, aliado, ombro a ombro, do poder brasileiro democrático.

O ministro José Dirceu está sendo julgado PRECISAMENTE porque aqueles ministros do STF são manifestação de todas as forças mais reacionárias que jamais houve no Brasil, apenas que, hoje, mais “civilizadas”. As mesmas forças, em estado mais “bruto”, mataram Getúlio. Mas o Brasil avançou muito! Hoje, aquelas mesmas forças reacionárias já não têm poder para matar o ministro José Dirceu, o presidente Lula, a presidenta Dilma e os votos da maioria dos brasileiros que são avalistas da democracia brasileira, hoje, mais poderosos, os nossos votos, do que jamais foram, em 500 anos. Então aqueles ministros, que vestem a toga como se usassem cetro e coroa -- ou o pelourinho e o tronco! -- lá ficam, consumindo tardes e tardes e tardes infindáveis naquela patética “leitura de votos”... Como se a extensão dos votos lidos, as pilhas de páginas engordadas com detalhes de inquérito policial, com raras linhas de consideração ao que determina a lei, bastasse para acrescentar conteúdo democratizatório aos tais “votos”!

E desde quando, por falar nisso, o fato de algum daqueles ratos do PP terem recebido dinheiro no dia de uma ou outra votação prova(ria) que houve compra de votos?! Desde quaaaaaaaaaando, ministro Joaquim Barbosa?! No mesmo dia em que recebeu dinheiro, um daqueles ratos do PP teve um filho. Está(ria) provado que recebeu dinheiro para ter um filho?! Não fosse tão doentio ridículo, seria de rolar de rir.

Aqueles ministros conhecem todas as capacidades do ministro José Dirceu!

Nenhum “mensalão” (que nunca existiu) poderia algum dia ter sido mais corrompedor que o movimento pelo qual o governo de FHC comprou a própria reeleição. Nenhum “mensalão” (que nunca existiu) foi algum dia mais corrompedor que as operações pelas quais todo o dinheiro das privatizações foi “desaparecido” -- e jamais buscado!

A Privataria Tucana aí está, um catatau de provas suuuuuuuuper probatórias e já reunidas e publicadas, mas ainda à espera da atenção do ministro Joaquim Barbosa... Mas o STF, agora, tem de fazer o diabo, pra tentar enterrar Dirceu vivo! É a lei. Como repete a jornalista Hildegard Angel. E a jornalista Hildegard Angel é jornalista honrada.

O que Marco Antônio e Shakespeare sabem e fazem por aquele discurso é coisa muito diferente disso. Os dois sabem que têm de tentar persuadir a multidão e impedir que a loucura assassina que vem “de cima” se alastre, sem controle possível, para “baixo”. E basta saber disso, para ver que a jornalista Hildegard Angel cometeu uma temeridade (no mínimo), naquela “paráfrase” arrogante.

O que nos interessa lembrar é que, antes do discurso do “não vim elogiar, vim enterrar” famosésimo, há, em Shakespeare, do mesmo Marco Antônio, sozinho com o corpo de Cesar assassinado, dentro do Senado, o também muito conhecido, embora menos citado por jornalistas e outros re-citadores de repetição – e não por acaso!

É conhecido como o “discurso contra os cães da guerra”. E esse, sim, é Shakespeare a ser recordado aos ministros do STF e ao Brasil em geral, hoje.

Aqui vai esse outro discurso, em tradução de trabalho, que fazemos agora, na correria.

É nossa contribuição para tentar impor alguma racionalidade ao chilique jornalístico-espetaculoso da jornalista Hildegard Angel.

Julio Cesar, Shakespeare, ato 3, cena 1 (em português, mas a tradução é HORRENDA). Fiquem, pelo menos prá começar, com a nossa tradução, abaixo. Todas as correções são bem-vindas.)

BRUTO — Marco Antônio, aqui tens o corpo. No discurso fúnebre, não deves lançar nenhuma censura sobre nós. Dize de César todo o bem que quiserdes, explicando que nós te demos permissão para falar. A não ser isso, ficareis excluído das cerimônias fúnebres. E ainda: tu falarás da mesma tribuna em que eu falar, depois de mim.

ANTÔNIO — É o que desejo. Está bem.

BRUTO — Prepara, então, o corpo e vem conosco.
(Saem todos, com exceção de Antônio.)

ANTÔNIO, ao cadáver — Meu amigo, pedaço de terra a verter sangue, perdoa que me mostre humilde e brando com estes carniceiros! Fizeram de ti a ruína do mais nobre homem que jamais viveu na corrente do tempo. Ai, ai da mão que fez correr tão precioso sangue! Mas aqui vaticino, ante tuas feridas. Falo pelas bocas mudas, que me pedem língua, voz e fala:

Sobre os teus assassinos e sobre os homens que se calaram, a maldição desabará. Lutas internas sem fim. A mais terrível das guerras civis encherá cada canto dessa Roma. O sangue e a destruição de tal maneira ficarão familiares, vulgares, que até as mães acabarão por sorrir à vista dos filhos massacrados pela guerra. A honra será asfixiada, pelo hábito do crime. O espírito do César assassinado – porque nenhum complô assassina o espírito de um homem que se alimentou do melhor que havia no povo – clamará seu quinhão. E voltará, rubro ainda do inferno, para gritar em tom de mando contra a injustiça: “Luta sem quartel!” Este assassinato horrível empesteará Roma de cadáveres que reclamarão honra e sepultura. E assim se soltarão os cães da guerra.

Então, entra um criado, que ajudará Marco Antônio a preparar o corpo para ser levado a cerimônia, à frente do Senado, onde Marco Antônio fará o discurso do “vim enterrar” etc. etc., que a jornalista Hildegard Angel meteu-se a parafrasear. Mas cujo argumento ela inverte!

Muito estranhamente, a jornalista Hildegard Angel pré-mata. Quer dizer: ela primeiro mata e enterra, preventivamente, um homem vivo! Para, então, por-se a elogiá-lo, em perfeita segurança. Digamos que é movimento tolo. Digamos que não passou disso.

Felizmente, o nosso ministro José Dirceu está e segue vivíssimo, graças a deus, para o bem do Brasil. E nem de longe corre algum risco de ser morto por sentença do STF.

O Brasil é infinitamente complexo. Dessa complexidade, vem nossa força. A força que nos trouxe até 2012, e que nos levará adiante.

O ministro Joaquim Barbosa não fará história. Nós e o ministro José Dirceu, sim, fizemos, fazemos e faremos a história do Brasil.

Fato é que nem Shakespeare, em toda a sua glória, daria conta da tragicomédia que o STF-2012, que aprende leis, justiça e democracia nos jornais do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão), está escrevendo em Brasília!

Pois que se lixem! Pois inventem lá o que queiram! Façam lá o que lhes dê na telha! Vocês são patéticos! O Brasil é mais! O Brasil riremos por último, de vocês todos.

Também riremos muito desse patético “jornalismo” que desgraça o Brasil, até quando é bem intencionado!

Dirceu vive! No pasarán! Venceremos! Só a luta ensina! Viva o Brasil!

São Paulo, 18/9/2012
Coletivo Vila Vudu de Tradutores/redecastorphoto



Notas da redecastorphoto e do pessoal da Vila Vudu

[1] Pode ser visto, como referência, a seguir, mas não se recomenda: é HOR-RÍ-VEL.


[2 Marco Antônio by Shakespeare, como nós e Shakespeare, conhecemos bem os riscos de, naquelas/atuais circunstâncias, deixar falar também o coração, risco aliás idêntico a deixar falar só o coração. Às tantas, Marco Antônio diz: “Permitam-me que me cale, porque meu coração desceu ao túmulo com Cesar. Peço tempo para reencontrá-lo”, fala que é perfeita formação, em discurso, da consciência política clara de que política se faz também com o coração; que se pode fazer até sem coração; mas que nunca, nunca, em nenhum caso, se pode fazer só com o coração (Lênin vive!). Isso a jornalista Hildegard Angel também não soube ler em Shakespeare.