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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Celso Amorim: As Hienas e os Viralatas

7/4/2015, ex-Ministro da Defesa Celso AmorimCarta Maior
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


Os patriotas
Aproveitando o momento de vulnerabilidade política e econômica do nosso país, os defensores de uma integração dependente do Brasil na economia internacional estão lançando uma nova ofensiva, facilitada pelas agruras do ajuste fiscal, com queda nos investimentos governamentais e o descrédito – convenientemente estimulado – das empresas estatais, na esteira do escândalo da Petrobrás.

Em vez de atacar a raiz desses ilícitos, que é o financiamento empresarial das campanhas eleitorais (o que não diminui a responsabilidade dos transgressores da lei), os pós-neoliberais preferem investir contra os poucos instrumentos de política industrial que o Estado brasileiro ainda detém. A estratégia é ampla e não se limita a aspectos internos da economia. Incide diretamente sobre a forma pela qual o Brasil se insere na economia mundial.

Três linhas de ação têm sido perseguidas. Uma já faz parte do antigo receituário de boa parte dos comentaristas em matéria econômica: o Brasil deveria abandonar a sua preferência pelo sistema multilateral (representado pela Organização Mundial do Comércio) e dar mais atenção a acordos bilaterais com economias desenvolvidas, seja com a União Europeia, seja com os Estados Unidos da América.

As hienas...
O refinamento, não totalmente novo, é o de que, para chegar a esses acordos, o Brasil deve buscar a “flexibilização” do MERCOSUL, privando-o de sua característica essencial de uma união aduaneira. Sem perceber que a motivação principal da integração é política – já que a Paz é o maior bem a ser preservado – os arautos da liberalização, sob o pretexto de aumentar nossa autonomia em relação aos nossos vizinhos, facilitando a abertura do mercado brasileiro, na verdade empurrarão os sócios menores (não em importância, mas em tamanho) para os braços das grandes potências.

É de esperar que não venham a reclamar quando bases militares estrangeiras surgirem próximo das nossas fronteiras.

O segundo pilar do tripé, que está sendo gestado em gabinetes de peritos desprovidos de visão estratégica, consiste em tornar o Brasil membro pleno da OCDE, a organização que congrega primordialmente economias desenvolvidas.

Essa atitude contraria a posição de aproximação cautelosa seguida até aqui e que nos tem permitido participar de vários grupos, sem tolher nossa liberdade de ação. A lógica para a busca ansiosa pelo status de membro pleno residiria na melhoria do nosso rating junto às agências de risco, decorrente do nosso compromisso com políticas de investimentos, compras governamentais e propriedade intelectual (entre outras) estranhas ao modelo de crescimento defendido por sucessivos governos brasileiros, independentemente de partidos ou de ideologias.

Os anglo-viralatas...
O ganho no curto prazo se limitaria, se tanto, a um aspecto de marketing, e seria muito pequeno quando comparado com o custo real, representado pela perda de latitude de escolha de nossas políticas (industrial, ambiental, de saúde, etc.).

Finalmente – e esse é o aspecto mais recente da ofensiva pós-neoliberal – há quem já fale em ressuscitar a Área de Livre Comércio das Américas, cujas negociações chegaram a um impasse entre 2003 e 2004, quando ficou claro que os EUA não abandonariam suas exigências em patentes farmacêuticas (inclusive no que tange ao método para a solução de controvérsias) e pouco ou nada nos ofereceriam em agricultura.

A ALCA, tal como proposta, previa não apenas uma ampla abertura comercial em matéria de bens e serviços, de efeitos danosos para nosso parque industrial, mas também regras muito mais estritas e desfavoráveis aos nossos interesses do que as que haviam sido negociadas multilateralmente (i.e., no sistema GATT/OMC), inclusive por governos que antecederam ao do Presidente Lula. Tudo isso, sob a hegemonia da maior potência econômica do continente americano (e por enquanto, pelo menos, do mundo).

Medidas desse tipo não constituem ajustes passageiros. São mudanças estruturais, que, caso adotadas, alterariam profundamente o caminho de desenvolvimento que, com maior ou menor ênfase, sucessivos governos escolheram trilhar.

E os franco-viralatas.
Os que propugnam por esse redirecionamento de nossa inserção no mundo parecem ignorar que mudanças desse porte, sem um mandato popular expresso nas urnas, seriam não só prejudiciais economicamente, mas constituiriam uma violência contra a democracia.

Evidentemente nosso governo não se deixará levar por pressões midiáticas, mas até alguns ardorosos defensores de um Brasil independente e soberano podem não ser de todo infensos a influências de intelectuais que granjearam alguma respeitabilidade pela obra passada. Daí a necessidade do alerta: “intelectuais progressistas, preparai-vos para o debate”. Ele vai ser duro e não se dará somente nos salões acadêmicos ou nos corredores palacianos. Terá que ir às ruas, às praças e às portas de fábrica.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Ucrânia e Rússia 21/9/2014: Mini-Relatório de Situação (mini-SITREP)


21/9/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker

“Manifestações” na Rússia:

Segundo RT (“Moscou: milhares marcham pela paz na Ucrânia” [ing.]), número entre 5 mil e 26 mil pessoas marcharam pelas ruas de Moscou exigindo a paz na Ucrânia.

Segundo Vzgliad20 pessoas fizeram um comício em Petrozavodsk e Saratov, 50 em Perm, mais de 100 em Ekaterinburg, 10 em Novosibirsk, 15 em Syktyvkar e uns poucos em Barnaul.

Importante aqui não são os números verdadeiros, mas a ordem de grandeza: são manifestação muito pequenas, pelo menos para os padrões de russos. E se Anissa Naouai do jornal RT noticia que o “comparecimento de pessoas” foi “muito alto”, ela, simplesmente, informa erradamente. Além disso e não menos importante, é preciso prestar sempre muita atenção aos “slogans” dessas “manifestações”: qualquer um, exceto uma meia dúzia de doidos, sempre será “pela paz na Ucrânia” e “contra a guerra”. Com esse tipo de “slogan” vagamente “do bem em geral”, até refugiados de Donetsk bombardeada (e talvez até principalmente esses) concordariam.


O que se vê aí é movimento típico de propaganda: ponha gente na rua para “manifestar-se'’ a favor da paz-amor-felicidade (ou da Tradição, Família e Propriedade, como se viu no Brasil-64; ou contra a "kurrupção" ou algum "kurrupto", como se vê no Brasil-2014 [NTs]) em todo o planeta, e, na sequência, exiba a coisa como “protesto” feito por alguma “oposição” contra qualquer “governo” a ser derrubado.

Ora bolas... Fala sério-aê! Quem quer guerra na Ucrânia? O Kremlin, quem sabe?

Outro ponto importante é o seguinte: ainda que se aceite, para argumentar, que 100% dos manifestantes fossem ferozes opositores de Putin ou das políticas russas para a Ucrânia, toda a tal “manifestação” ainda é insignificante comparada aos 80% de aprovação que Putin continua a merecer da opinião pública russa.

Assim sendo, o que foi que NÃO aconteceu nas “manifestações” de Moscou?

O que NÃO aconteceu foi a “Maidan russa” prevista por Evgenii Fedorov e seus apoiadores. Vídeo a seguir com legendas em inglês:



Escolheram São Petersburgo como ponto inicial. O processo já começou. O processo está sendo ajudado: toda a história, como “inauguração” em São Petersburgo não é acaso! (...) Enviarão pra Petersburg o mesmo pessoal jovem treinado e os combatentes armados que já foram preparados na Ucrânia. Se necessário, receberão passaportes russos. O número total de combatentes na Rússia, preparados pelos EUA está entre 50 mil e 100 mil. A base é a Ucrânia. Claro, ninguém vai saber quem são eles: são russos, em perfeita forma. Eles irão para Petersburg, alugam apartamentos. A tarefa deles será gerar provocações, se necessário, provocações militares. O que significa tudo isso? Significa atividade terrorista! O Setor Direita, como vocês sabem, não têm nenhum problema com atividades terroristas.

E o que, disso tudo, realmente aconteceu? Nada de nada

Onde está a tal Maidan Nacionalista?  Não apareceu

Como está o regime russo? Tão estável como sempre.

Em Perm o painel foi maior que o número (50) de pessoas 
Fedorov não parou aí. No mesmo artigo (por favor, leia toda a entrevista), ele até disse o seguinte:

Primeiro, há um novo fator ucraniano: mais de 100 mil cérebros submetidos à devida lavagem cerebral. A propaganda está operando a todo o vapor, convertendo gente em bicho adestrado. As posições foram reforçadas (caso você não tenha percebido). Você sabe, as pessoas estão assistindo a tudo e muitas estão gostando dos avanços na Ucrânia. Mas não há avanço algum, nem vitória alguma! Só algums ganhos táticos, não são vitórias. Há apenas seis meses, tínhamos um país vizinho neutro. Agora, temos um país de 40 milhões de pessoas e absolutamente hostil, em termos militares, contra a Rússia! Que tipo de vitória seria essa? Além do mais, há a população de russos que vivem lá. A Ucrânia é pais que pode muito bem servir como base para invadirem a Rússia, esses invasores “laranjas” modernos... Nada disso era assim há apenas seis meses! Significa que o balanço de poder aqui em torno da Rússia mudou. Sofremos enorme derrota no sentido geopolítico. Ontem não tínhamos inimigo, hoje nossos inimigos estão bem próximos. De fato, é clara vitória da 5ª coluna. Conseguiram vitória política, militar e, daí, se aproximam de invadir militarmente a Rússia.

Nada mais, nada menos, que invadir militarmente a Rússia!

Evgenii Fedorov é ótimo sujeito e tem ótimas ideias. Sinceramente, gosto dele. Mas, como analista, vive firmemente plantado no campo da “desgraça, tragédia, horror e total pânico” e, francamente, nada do que ele diga faz sentido para mim. Até que tentei alertar contra esse tipo de posição, mas fui ou ignorado ou atacado. Espero que agora, depois do total fracasso da tal “Maidan Russa” do sábado, as pessoas vejam que Fedorov tem de ser ouvido com muita cautela, com extremo, extremo cuidado.

Banderastão: Poroshenko suando com a situação em Kiev

Estratégia russa na Ucrânia

Vários leitores protestaram contra a aparente contradição entre o que eu disse sobre o real objetivo da Rússia na Ucrânia (mudança de regime) enquanto, ao mesmo tempo, a Rússia mantém-se fora da Ucrânia e deixa o peso da libertação e da des-nazificação sobre as costas do povo ucraniano. A contradição aí, se existe, é só aparente. Eis o que a Rússia pode fazer (e provavelmente fará):

1) Opor-se politicamente ao regime ucraniano: na ONU, na mídia, para a opinião pública, etc..
2) Expressar apoio político à Novorrússia e à oposição ucraniana.
3) Continuar a guerra de informação (a mídia russa faz excelente serviço).
4) Impedir que a Novorrússia caia (ajuda militar secreta).
5) Manter, sem alívio, a pressão econômica sobre a Ucrânia.
6) Bloquear, o mais possível, o “eixo de gentilezas” de EUA-União Europeia.
7) Ajudar a Crimeia e a Novorrússia a prosperar econômica e financeiramente.

Em outras palavras: dar a impressão de que está fora, enquanto está MUITO dentro.

A chave aqui é criar as condições que tornem possível que o povo ucraniano derrube os nazistas que estão hoje no poder, mande passear o pró-cônsul da CIA em Kiev e comecem, os próprios ucranianos, a des-nazificação do país. Ah, sim, é tarefa difícil, de longo prazo, mas a Rússia não tem outras opções viáveis. Jamais haverá estabilidade ou segurança para a Rússia, se houver nazistas no poder em Kiev. Claro, um cessar-fogo temporário, alguma trégua ou até algum tratado, podem vir a ser assinados com os nazistas, mas nada será jamais viável e no máximo garantirá algum tempo, curto, para respirar. Repito, mais uma vez e sempre: a mudança de regime e a des-nazificação na Ucrânia são objetivo estratégico vital para a Rússia. Só isso interessa e nada menos que isso.

Em conclusão, alguns itens aqui listados:


O time de basquete do Banderastão tão camuflado que ninguém viu...
O time de basquete de Kiev jogou na Lituânia usando uniforme de jogo feito em tecido de camuflagem usado para uniformes militares.   
Perderam, 77 a 102:-))

E aqui, por fim, mas não menos importantes, as notícias realmente ótimas!!

Mikhail Khodorkovksy
(quando em "cana") 
Segundo noticia Yahoo, o conhecido oligarca judeu, capo  mafioso, arqui-inimigo icônico de Putin, Mikhail Khodorkovksy, apresentou-se para liderar a oposição anti-Putin, e considera, inclusive, candidatar-se pessoalmente à presidência da Rússia. É notícia absolutamente sensacional, porque, agora que Berezovsky está morto, Khodorkovsky pode reivindicar legitimamente o título de oligarca mais detestado na Rússia. Conseguir que ele declare que quer “comandar” (leia-se: financiar) a oposição russa “não sistêmica” (que sequer obteve votos para ter representantes no Parlamento) é sonho que se torna realidade do pessoal das “relações públicas’ de Putin. Vão se divertir muito, doravante, apresentando a oposição pró-EUA como “agentes de Khodorkovsky”. Claro que é boa notícia!

Saudações,

The Saker

terça-feira, 8 de abril de 2014

Sergey Lavrov: “Não é a Rússia quem está desestabilizando a Ucrânia”

7/4/2014, [*] Sergey Lavrov, Min. Rel. Exteriores da Rússia, Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sergey Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia
A crise profunda e generalizada na Ucrânia é tema de grave preocupação para a Rússia. Entendemos perfeitamente bem a posição de um país que se tornou independente há apenas 20 anos e que ainda tem pela frente tarefas complexas na construção de um estado soberano. Dentre elas, a busca de algum equilíbrio entre os interesses de suas várias regiões, de povos que têm raízes históricas e culturais diferentes, falam línguas diferentes e têm diferentes perspectivas sobre o próprio passado e presente, e sobre o lugar futuro de seu país no mundo.

Dadas essas circunstâncias, o papel de forças externas deve ser ajudar os ucranianos a proteger as fundações da paz civil e do desenvolvimento sustentável, que ainda são frágeis.

A Rússia fez mais que qualquer outro país para apoiar o estado ucraniano independente, incluindo subsidiar por muitos anos a economia ucraniana mediante baixos preços da energia. Em novembro passado, no início da atual crise, apoiamos o desejo de Kiev, de consultas urgentes entre Ucrânia, Rússia e a União Europeia, para discutir a harmonização do processo de integração. Bruxelas rejeitou completamente a ideia. Essa atitude refletiu a linha perigosa e improdutiva já tomada pela União Europeia e pelos EUA, há muito tempo. Tentavam já forçar a Ucrânia a fazer uma dolorosa escolha entre leste e oeste, o que agravou as diferenças internas.

Manifestantes pró-Rússia lotam a Praça Lênin em Donetsk, Ucrânia em 6/4/2014
Sem considerar as realidades na Ucrânia, foi fornecido apoio massivo a movimentos políticos que promoviam a influência ocidental, e isso foi feito em direta violação da Constituição da Ucrânia. Foi o que aconteceu em 2004, quando o presidente Viktor Yushchenko venceu um terceiro turno inconstitucional das eleições, introduzido sob pressão da União Europeia. Agora, o poder em Kiev foi tomado por vias não democráticas, mediante violentas ações de rua das quais participaram diretamente ministros e outros altos funcionários dos EUA e de países da União Europeia.

Afirmativas de que a Rússia tivesse empreendido qualquer esforço para minar parcerias dentro do continente europeu são falsas, não correspondem aos fatos. Ao contrário, nosso país promoveu com constância um sistema de segurança igual e indivisível na área euro-atlântica. Propusemos assinar um tratado para esse efeito, e defendemos a criação de um espaço econômico e humano comum do Atlântico ao Pacífico, que seria também aberto aos países pós-soviéticos.

Simultaneamente, estados ocidentais, apesar de repetidamente garantir que não, promoveram sucessivas ondas de expansão da OTAN, moveram a infraestrutura militar da aliança para o leste e puseram-se a implementar planos de defesa antimísseis. O programa da Parceria Ocidental da União Europeia está desenhado para amarrar fortemente à Europa os chamados estados-foco, vedando-lhes a possibilidade de cooperação com a Rússia.

Os esforços, pelos que encenaram a secessão do Kossovo, hoje separado da Sérvia, e de Mayotte, hoje separado de Comoros, para questionar a livre vontade dos crimeanos só podem ser interpretados como flagrante manifestação de duplicidade de padrões. Não menos estranha é a ação de fingir que não sabe que o principal perigo a ameaçar o futuro da Ucrânia é que o caos gerado por extremistas e neonazistas se espalhe.

Manifestação pró-Russia em Donetsk exige referendo igual ao da Crimeia
A Rússia está fazendo tudo que pode para promover a rápida estabilização na Ucrânia. Estamos firmemente convencidos de que ela pode ser alcançada, mediante, dentre outros passos: uma verdadeira reforma constitucional, que assegure os direitos legítimos de todas as regiões da Ucrânia e responda às demandas da região sudeste, de fazer do idioma russo a segunda língua oficial do estado; firmes garantias de que o status de estado não alinhado da Ucrânia seja consagrado na lei do país, consagrando assim o seu papel de elo de conexão numa arquitetura de segurança indivisível para toda a Europa; e medidas urgentes para pôr fim às formações armadas ilegais do Setor Direita e de outros grupos ultranacionalistas.

Não estamos impondo coisa alguma a ninguém. Apenas vemos que, se isso não for feito, a Ucrânia continuará em espiral rumo à crise, com consequências imprevisíveis. Permanecemos prontos a nos somar aos esforços internacionais que visam a alcançar esses objetivos. Apoiamos o apelo feito pelos ministros de Relações Exteriores de Alemanha, França e Polônia, para que seja implementado o acordo de 21 de fevereiro. A proposta deles – de fazerem-se conversações Rússia-União Europeia, com a participação da Ucrânia e de outros estados da Parceria Ocidental, sobre as consequências de acordos de associação com a União Europeia – corresponde à posição da Rússia.

O mundo de hoje não é escola primitiva, na qual os professores distribuam castigos à vontade. Declarações beligerantes, como as que se ouviram na reunião de ministros da OTAN em Bruxelas, dia 1º de abril, não correspondem a demandas por uma desescalada. A desescalada deve começar por desescalar-se a retórica. É hora de pôr fim ao aumento infundado da tensão, e de voltar ao trabalho conjunto, sério.  
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[*] Sergey Viktorovich Lavrov (russo : Сергей Викторович Лавров, nasceu em 21 de março de 1950) é diplomata e desde 2004 ocupa o cargo de Ministro das Relações Exteriores da Rússia . Sua nomeação foi aprovada por dois presidentes da Rússia , em 2008 por Dmitry Medvedev e em 2012 por Vladimir Putin. Antes disso, Lavrov atuou na diplomacia como embaixador da Rússia à Organização das Nações Unidas (1994-2004). Além de seu russo nativo, Lavrov fala inglês, francês e cingalês.


sexta-feira, 14 de março de 2014

O desprezo incessante dos EUA pelo povo da Venezuela

Medo do efeito dominó NUNCA vai acabar

11/3/2014, [*] Jason Hirthler, Counterpunch
Traduzido por João Aroldo

Marcha bolivariana de Caracas, quando da vitória eleitoral do PSUV em 2013 
Algumas coisas não mudam nunca. A petulante e não democrática oposição venezuelana está de volta, com o total apoio e endossamento de cheques pelo governo americano.

Recentes protestos inflamaram as ruas de Caracas, enquanto grupos de oposição, como os existentes na Ucrânia, pedem a saída do presidente atual. Suponho que seja desnecessário notar que Nicolás Maduro é o presidente democraticamente eleito da Venezuela, e que ele venceu por uma alta margem de vantagem em uma eleição mais limpa que a de Barack Obama em 2012.

Também não vale a pena perguntar, supõe-se, que se um país inteiro é tomado por protestos, como o New York Times insidiosamente sugere ao alegar que “Os protestos expressam o descontentamento geral com o governo do Presidente Nicolás Maduro, um socialista…”, então por que o partido de Maduro, o Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), teve maioria nas eleições municipais em dezembro? Ou por que esses protestos “generalizados” estão em grande parte confinados às áreas da classe média e de estudantes de Caracas e não em áreas muito maiores da população de baixa renda? Ou se um governo tem o direito de prender líderes da oposição (neste caso, Leopoldo Lopez, o último ideólogo raivoso) por incitar a violência

Virtude Pública, Vício Privado

O Secretário de Estado John Kerry aumentou a histeria, dizendo estar “alarmado” por relatos de que Maduro “prendeu multidões de manifestantes antigoverno” e de que a repressão teria um “efeito inibidor” na liberdade de expressão. Um pouco rico vindo de um homem cujo próprio governo tem inibido a liberdade de expressão desde as revelações de Snowden. Kerry não menciona que os milhões de dólares dos contribuintes norte-americanos sendo enviados para a oposição venezuelana estão por trás da violência.

O grupo GAFE (Globo, Abril, FSP, Estado) e repete o que a imprensa internacional manda
O The Los Angeles Times descreveu a administração Maduro como um “governo autocrático”. O líder de oposição, Henrique Caprilles, demolido por Maduro na eleição esmagadora do ano passado, rejeitou o convite de Maduro para conversas e afirmou que um dos partidos mais populares da América Latina era um “governo morrendo”.  

Por sua parte, o MERCOSUL, a aliança dos países do cone sul da América do Sul, denunciou a violência como uma tentativa de "desestabilizar" o governo democrático. É claro que o comportamento do governo de Maduro, em resposta a estas provocações de rua, deve ser vigiado de perto, já que este é o primeiro teste real do novo presidente em um cenário internacional ao lidar com as intrigas de uma pequena, mas virulenta oposição neoliberal.

muito a sugerir que isso é, como na Ucrânia, outra tentativa externa de derrubar um governo democraticamente eleito através de um coquetel volátil de agitação e violência internas somadas à difamação do governo atual pela mídia global. Não seria surpresa.

Como uma criança frustrada e petulante, os EUA têm tentado repetidamente sabotar a Revolução Bolivariana lançada pelo ex-presidente Hugo Chávez no final dos anos 1990, como Mark Weisbrot do CEPR notou.

Os EUA apoiaram um golpe antidemocrático pelas elites financeiras em 2002 que de fato durou alguns dias e alegremente dissolveu o Congresso antes de Chávez ganhar o poder.

Os EUA apoiaram uma greve de petróleo para tentar desestabilizar a economia e, talvez, derrubar o governo. Encorajaram membros do congresso da oposição a pedirem recontagens (fracassadas) e boicotarem as eleições da Assembleia Nacional (em vão) e declarar incessantemente que a eleição presidencial do ano passado foi fraudada (falso).

É claro, apesar de ser considerado um processo eleitoral superior ao dos EUA, Kerry foi humilhado ao reconhecer a legitimidade da eleição muito depois do resto do mundo

Motociclistas abrem a Marcha Bolivariana de 24/2/2014
Os EUA enviaram anualmente milhões para as atividades da oposição desde o golpe fracassado de 2002. (ONGs são destinos convenientes para este dinheiro, já que as contribuições estrangeiras a partidos políticos são ilegais em ambos os países).

Basta olhar para 2013 apenas. Washington dificilmente aceitaria interferências deste tipo da China, digamos. Ou melhor, da própria Venezuela. Apesar disso, Kerry, em seu papel com Secretário de Estado, acabou por se revelar um mímico magistral capaz de registrar a indignação mofada em curto prazo, especialmente quanto às violações das liberdades civis. Curioso, já que a violação incessante das liberdades civis por seu próprio Partido Democrata não provocou nada neste porta-bandeira dos valores democráticos.

Dólares e Bolívares

Isso não quer dizer que a Venezuela não tem problemas dignos de protesto. A inflação tem sido crônica desde os tempos pré-Chávez. Agora a escassez de alimentos está testando a paciência da população. E, em certo sentido, essas faltas são autoinfligidas.

De acordo com Gregory Wilpert, da VenezuelAnalysis.org, os controles cambiais do governo têm sido minados por um mercado negro demasiado previsível. Enquanto o governo estabelece critérios rigorosos sobre a capacidade dos cidadãos para comprar dólares com bolívares, o mercado negro permite aos cidadãos comprar dólares sem qualquer critério de qualquer natureza. A taxa de câmbio do governo é igualmente controlada e, com o tempo, começou a distorcer o valor real do bolívar.

A taxa de câmbio do mercado negro, por outro lado, reflete o valor externo da moeda. A diferença entre estas taxas de câmbio tem crescido rapidamente, de modo que há agora grandes incentivos para que os cidadãos façam arbitragem de divisas.

Presidentes dos países da UNASUL/MERCOSUL na reunião de 2013 
Se atenderem a critérios federais, tais como a necessidade de dólares para viajar ou para importação de bens - os venezuelanos podem comprar dólares mais baratos usando a taxa de câmbio do governo.

Eles podem pagar com esses dólares para importar mercadorias e, em seguida, exportar os bens em troca dos dólares que acabaram de gastar com as importações. Daí é apenas um passo para o mercado negro, onde eles podem vender esses dólares por valores maiores do que eles pagaram com a cotação oficial do governo, conseguindo um bom lucro para si.

Se eles forem antissocialistas raivosos, eles podem desfrutar da emoção de gerar escassez de alimentos que pode ser atribuída ao governo.

Ah, a magia atemporal da importação/exportação.

Estas são queixas legítimas, assim como as estatísticas do crime, que lideram a tabela regional.

No entanto, a questão é, será que eles merecem a derrubada de um governo legítimo apoiado por uma ampla maioria da população, a mando de uma pequena, mas feroz facção oposicionista financiada abertamente por um poder imperial comprometido com sua derrubada? 

Fazê-lo seria arriscar o absurdo de satisfazer as exigências estridentes de uns poucos em detrimento de muitos. Isso também não estaria longe do recente episódio em Watertown, New York, onde a prefeitura proibiu os moradores de ter companheiros de quarto com base na queixa de um único cidadão. (Isto lembra ainda a oposição de Ambrose Bierce ao conceito de oração, já que para Bierce, os devotos pediam que “as leis do universo sejam anuladas em nome de um único requerente confessadamente indigno”)

O fato é que, apesar da inflação e escassez, a população continua apoiando a Revolução Bolivariana por causa de suas realizações − reduções enormes na pobreza, eliminação da pobreza extrema e do analfabetismo. O crescimento significativo do PIB per capita e outras métricas importantes.

Uma Doutrina em Declínio

Estamos vendo em imagens claras a crueldade com que facções neoliberais se ressentem da perda de poder e buscam restaurá-lo por qualquer meio necessário.

A democracia é a menor de suas preocupações. Mas esta tem sido a história de fundo da América Latina por séculos.

Grande parte da atividade dos EUA na América Latina parece um último esforço frenético e desesperado para preservar a Doutrina Monroe, segundo a qual declaramos essencialmente que a América Latina era o nosso próprio quintal, inacessível para os impérios europeus.

Quadro/Resumo das eleições municipais da Venezuela em 2013. Vitória estrondosa de Maduro(PSUV)  nas principais cidades. Clique na imagem para vizualizar.
O que era ostensivamente um chamado para respeitar o desenvolvimento independente no Hemisfério Sul, em vez disso, previsivelmente evoluiu para uma desculpa para intervenção com interesses próprios.

Mas agora, pela primeira vez em séculos, a América Latina reagiu por conta própria, escapando das garras da águia para formar organizações como o MERCOSUL e CELAC , PETROCARIBE e PETROSUL, UNASUL, Banco do Sul, bem como a Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA).

Apesar da Colômbia, um posto avançado implacável da influência norte-americana, a região tem evitado um maior envolvimento dos EUA, e começou a ver seus acordos comerciais com muito mais desconfiança, particularmente na sequência do NAFTA, o garoto propaganda para tratados de comércio assimétricos e economicamente destrutivos.

Se os EUA vão eventualmente ter sucesso em uma manobra cínica para derrubar Maduro, ainda veremos. Se os acontecimentos recentes na Ucrânia são uma indicação, isso pode ter sido um teste para a Venezuela, como Peter Lee sugere.

Também não ajuda que, em praticamente todos os países que nos vêm à mente, uma elite de ideólogos neoliberais são os donos da grande mídia. As ferramentas de propaganda raramente foram mais fortemente utilizadas desde que Chávez iniciou sua revolução socialista. E, no entanto, desde então, praticamente todo o continente experimentou lideranças com tendências de esquerda: Rafael Correa no Equador, Evo Morales na Bolívia, Nicanor Duarte, no Paraguai, Tabaré Vázquez no Uruguai, até certo ponto, Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, e Maduro na Venezuela.

Também não devemos esquecer do presidente hondurenho exilado, Manuel Zelaya. Estes personagens saíram coletivamente da beira da integração duvidosa com a América do Norte e buscam laços regionais mais fortes e autonomia continental.

Os EUA tem respondido com uma mistura previsível de ameaças, mentiras e sacos de dinheiro para os elementos ferozmente antidemocráticos.

Nicolás Maduro na Assembleia em 15/1/2014
Talvez o que mais temem seja o mau karma gerado com a Operação Condor, que em 11 setembro de 1973 derrubou e assassinou o líder socialista do Chile, Salvador Allende e substituiu-o com um covarde sádico, Augusto Pinochet. Pinochet - um militarista repressor – alegremente instituiu as medidas não testadas do guru de poltrona da Chicago School of Economics, Milton Friedman, com resultados previsíveis.

Agora, Maduro, carregando o manto de Chávez e seu manifesto Bolivariano, é, sem dúvida, a vanguarda espiritual da esquerda socialista na América do Sul.

Os esforços da Venezuela para continuar a criar a sua própria independência na próxima década certamente irão influenciar o estado de espírito e a coragem de outros esquerdistas na região.

As apostas são obviamente altas. Daí o esforço americano incansável para desestabilizar e desacreditar publicamente o PSUV. O destino da esquerda global está, em um sentido muito real, sendo testado no cadinho de Caracas.
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[*] Jason Hirthler é escritor, estrategista com 15 anos veterano da indústria de comunicações e jornalismo. Escreve para Counterpunch, World Can't Wait, e de outras comunidades políticas. Vive e trabalha em New York.