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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Celso Amorim: As Hienas e os Viralatas

7/4/2015, ex-Ministro da Defesa Celso AmorimCarta Maior
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu


Os patriotas
Aproveitando o momento de vulnerabilidade política e econômica do nosso país, os defensores de uma integração dependente do Brasil na economia internacional estão lançando uma nova ofensiva, facilitada pelas agruras do ajuste fiscal, com queda nos investimentos governamentais e o descrédito – convenientemente estimulado – das empresas estatais, na esteira do escândalo da Petrobrás.

Em vez de atacar a raiz desses ilícitos, que é o financiamento empresarial das campanhas eleitorais (o que não diminui a responsabilidade dos transgressores da lei), os pós-neoliberais preferem investir contra os poucos instrumentos de política industrial que o Estado brasileiro ainda detém. A estratégia é ampla e não se limita a aspectos internos da economia. Incide diretamente sobre a forma pela qual o Brasil se insere na economia mundial.

Três linhas de ação têm sido perseguidas. Uma já faz parte do antigo receituário de boa parte dos comentaristas em matéria econômica: o Brasil deveria abandonar a sua preferência pelo sistema multilateral (representado pela Organização Mundial do Comércio) e dar mais atenção a acordos bilaterais com economias desenvolvidas, seja com a União Europeia, seja com os Estados Unidos da América.

As hienas...
O refinamento, não totalmente novo, é o de que, para chegar a esses acordos, o Brasil deve buscar a “flexibilização” do MERCOSUL, privando-o de sua característica essencial de uma união aduaneira. Sem perceber que a motivação principal da integração é política – já que a Paz é o maior bem a ser preservado – os arautos da liberalização, sob o pretexto de aumentar nossa autonomia em relação aos nossos vizinhos, facilitando a abertura do mercado brasileiro, na verdade empurrarão os sócios menores (não em importância, mas em tamanho) para os braços das grandes potências.

É de esperar que não venham a reclamar quando bases militares estrangeiras surgirem próximo das nossas fronteiras.

O segundo pilar do tripé, que está sendo gestado em gabinetes de peritos desprovidos de visão estratégica, consiste em tornar o Brasil membro pleno da OCDE, a organização que congrega primordialmente economias desenvolvidas.

Essa atitude contraria a posição de aproximação cautelosa seguida até aqui e que nos tem permitido participar de vários grupos, sem tolher nossa liberdade de ação. A lógica para a busca ansiosa pelo status de membro pleno residiria na melhoria do nosso rating junto às agências de risco, decorrente do nosso compromisso com políticas de investimentos, compras governamentais e propriedade intelectual (entre outras) estranhas ao modelo de crescimento defendido por sucessivos governos brasileiros, independentemente de partidos ou de ideologias.

Os anglo-viralatas...
O ganho no curto prazo se limitaria, se tanto, a um aspecto de marketing, e seria muito pequeno quando comparado com o custo real, representado pela perda de latitude de escolha de nossas políticas (industrial, ambiental, de saúde, etc.).

Finalmente – e esse é o aspecto mais recente da ofensiva pós-neoliberal – há quem já fale em ressuscitar a Área de Livre Comércio das Américas, cujas negociações chegaram a um impasse entre 2003 e 2004, quando ficou claro que os EUA não abandonariam suas exigências em patentes farmacêuticas (inclusive no que tange ao método para a solução de controvérsias) e pouco ou nada nos ofereceriam em agricultura.

A ALCA, tal como proposta, previa não apenas uma ampla abertura comercial em matéria de bens e serviços, de efeitos danosos para nosso parque industrial, mas também regras muito mais estritas e desfavoráveis aos nossos interesses do que as que haviam sido negociadas multilateralmente (i.e., no sistema GATT/OMC), inclusive por governos que antecederam ao do Presidente Lula. Tudo isso, sob a hegemonia da maior potência econômica do continente americano (e por enquanto, pelo menos, do mundo).

Medidas desse tipo não constituem ajustes passageiros. São mudanças estruturais, que, caso adotadas, alterariam profundamente o caminho de desenvolvimento que, com maior ou menor ênfase, sucessivos governos escolheram trilhar.

E os franco-viralatas.
Os que propugnam por esse redirecionamento de nossa inserção no mundo parecem ignorar que mudanças desse porte, sem um mandato popular expresso nas urnas, seriam não só prejudiciais economicamente, mas constituiriam uma violência contra a democracia.

Evidentemente nosso governo não se deixará levar por pressões midiáticas, mas até alguns ardorosos defensores de um Brasil independente e soberano podem não ser de todo infensos a influências de intelectuais que granjearam alguma respeitabilidade pela obra passada. Daí a necessidade do alerta: “intelectuais progressistas, preparai-vos para o debate”. Ele vai ser duro e não se dará somente nos salões acadêmicos ou nos corredores palacianos. Terá que ir às ruas, às praças e às portas de fábrica.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Brasil distancia-se dos EUA

20/10/2013, [*] Darío Pignotti, Pagina/12, Buenos Aires
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Campos do pré-sal nas bacias de Santos e Rio de Janeiro
As edições eletrônicas do Wall Street Journal e do Financial Times dedicarão amanhã uma cobertura agitada, recolhendo repercussões minuto a minuto do leilão a realizar-se no Brasil, do campo de petróleo Libra, de 1.500 km2, com cerca de 12 milhões de barris em águas profundas a 183 km da costa do Rio de Janeiro, e que, em alguns anos, pode estar produzindo 1,4 milhões de barris/dia, volume equivalente a 70% do que o país produz hoje.

Petrobrás e três petroleiras chinesas (não se descarta a formação de um consórcio sino-brasileiro, à última hora) aparecem entre as onze empresas que participarão da disputa pelo campo de Libra, da qual não participarão as “grandes irmãs” norte-americanas, por causa do estresse diplomático surgido entre Brasília e Washington, depois que se revelaram os atos de espionagem perpetrados pela Agência de Segurança Nacional dos EUA contra a Petrobrás e a presidenta Dilma Rousseff, dentre outros alvos sensíveis.

Por baixo e por trás das notícias em tempo real que já sufocam e mais ainda sufocarão amanhã, de índices da Bolsa e corretores e ‘'especialistas'’ com opiniões de curtíssimo prazo, há uma história de que pouco se falará, transcorrida nos últimos anos, e que permite compreender realmente o que está em jogo: uma reacomodação de forças na geopolítica do petróleo.

Celso Amorim
Celso Amorim era chanceler, em julho de 2008, quando recebeu um telefonema de sua contraparte norte-americana Condoleezza Rice, que lhe sugeria que recebesse sem alarme a notícia de que seria reativada a 4ª Frota, sob jurisdição do Comando Sul dos EUA, anunciada alguns meses depois de que foram descobertas, em 2007, grandiosas reservas de petróleo no litoral de Campos e de Santos, nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Nem o chanceler Amorim, nem seu chefe, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, levaram a sério a retórica de tranquilização da serventuária de George W. Bush. Aliás, foi exatamente o contrário: houve alarme no Palácio do Planalto. Lula, Amorim e a então ministra Dilma Rousseff, que começava a aparecer como candidata à presidência, compreenderam imediatamente que a presença da Marinha dos EUA nas costas cariocas seria uma ostentação de poderio militar sobre os 50 bilhões de cru de boa qualidade ali guardados, a mais de 5.000 metros de profundidade, numa zona geológica conhecida como “pré-sal”.

Mas, à parte os questionamentos em foros internacionais, especialmente latino- americanos, pouco o Palácio do Planalto pôde fazer naquele momento, contra a ostentação de supremacia militar dos EUA e sua decisão de que a 4ª Frota – braço armado das petroleiras de bandeira norte-americana Exxon e Chevron no hemisfério – viraria a proa na direção sul.

Camadas do sub-solo marinho

Lula e sua conselheira em assuntos de energia, Dilma Rousseff, viram-se num dilema: ou adotar uma saída à mexicana, como a do atual presidente Enrique Peña Nieto, que se mostrou disposto a privatizar a Pemex, embora o termo empregado tenha sido “modernização”; ou injetar dinheiro e mística nacionalista para fortalecer a Petrobrás como vetor de uma estratégia destinada a salvaguardar a soberania energética. Por fim, o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) optou pela segunda via, e implantou-a, mediante uma bateria de medidas de amplo espectro.

Capitalizou a Petrobrás, com o objetivo de reverter o efeito de esvaziamento da empresa herdado do governo do PSDB, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002); e conseguiu aprovar, ao final de 2010, uma lei “estatizante e intervencionista” para o petróleo – na opinião de políticos neoliberais e do lobby britânico-EUA, sempre ampliada e repercutida infinitas vezes pelos jornalistas das principais empresas de jornalismo no Brasil.

Ressuscitou o projeto de construir um submarino atômico com a França, país com o qual o Brasil assinou em 2009 um acordo militar (que avançou menos que o prometido); exigiu nos organismos internacionais a expansão da plataforma marinha, para assegurar que ninguém aparecesse para disputar a titularidade dos campos de petróleo submarino, e promoveu o Conselho de Defesa da UNASUL, com apoio de Argentina e Venezuela e indefinição dos colombianos.

Como braço auxiliar dessa linha de ação governamental, o PT operou uma perseverante aproximação com o Partido Comunista Chinês, antessala para estabelecer laços de confiança política com a nomenclatura do Estado asiático, com cujo Banco de Desenvolvimento o Brasil assinaria afinal, em 2010, uma série de pré-acordos para concessão e empréstimos de dezenas de milhões de dólares à Petrobrás.

Paralelamente aos movimentos brasileiros para salvaguardar seu interesse nacional e para alcançar um lugar para o Brasil entre as potências do petróleo, a Agência de Segurança Nacional dos EUA dedicava-se a roubar informações estratégicas do Ministério de Minas e Energia, e os diplomatas norte-americanos que operavam em Brasília [e em outras capitais] enviavam telegramas secretos a Washington, nos quais o chanceler Amorim era pintado como “diplomata antiamericano”.

Dilma Rousseff
Há três meses, quando Dilma Rousseff foi informada sobre as manobras da Agência de Segurança Nacional dos EUA, uma fonte do Planalto disse a Página/12 que a presidenta evitaria “radicalizar” a situação, porque confiava numa conciliação com os EUA, em visita oficial marcada para dia 23 de outubro. Mas, em setembro, Dilma se tornou irredutível, ao saber que os espiões norte-americanos haviam violado até as comunicações da Petrobrás.

A decisão de suspender a visita de estado a Washington, mesmo depois de Barack Obama ter renovado pessoalmente o convite, não deve ser interpretada como gesto impensado, que não foi; e suas consequências afetaram decisões cruciais.

O fato de que não haja inscrita nenhuma petroleira dos EUA, para participar do leilão de amanhã do megacampo de Libra, e de que três poderosas empresas chinesas, duas das quais são empresas estatais, estejam na disputa, é sinal claro de que a colisão diplomática teve, sim, repercussão prática.

Que fontes próximas do governo tenham deixado transparecer que há a possibilidade de que se constitua um consórcio entre a Petrobrás e alguma empresa chinesa, revela que a geopolítica de Brasília para o petróleo inclina-se para Pequim – que já é seu principal sócio comercial. E se isso tudo já não bastasse para demarcar o distanciamento estratégico entre o Planalto e a Casa Branca, semana passada o indigesto (para Washington) ministro Celso Amorim, agora no posto de Ministro da Defesa, iniciou conversações com a Rússia, para analisar a compra de caças-bombardeiros Sukoi.

Foi só uma sondagem, mas se essa compra for formalizada, será considerável revés para a corporação industrial-militar dos EUA, que imaginava vender seus caças Super Hornet ao Brasil, durante a visita que Dilma já não fará.
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[*] Darío Pignotti é correspondente do jornal argentino Página 12, da  agência de notícias ANSA e colaborador do informativo dos veículos  Le Monde Diplomatique (França) e Milênio do México. Doutorado em Comunicações pela Universidade de São Paulo-Brasil. 

sábado, 6 de abril de 2013

Pepe Escobar: “Raia o sul!”


4/4/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
Não seria delírio imaginar que o Anjo da História de Walter Benjamin rende-se e sucumbe à tentação de declarar que raiou afinal o dia do Sul Global.

Ah, sim, sim. Será estrada longa e sinuosa. [1] Mas se a geração Google/Facebook precisar só de um manual que explique a coisa dos sonhos, tentativas, atribulações do mundo em desenvolvimento no início do século 21, o manual será o recém-publicado The Poorer Nations [As nações mais pobres], [2] de Vijay Prashad. Podem considerá-lo sequência digital, pós-moderna, do clássico Os Condenados da Terra, [3] de Frantz Fanon.

Frantz Fanon
É livro absolutamente essencial, a ser lido simultaneamente, com outra maravilha escrita por um asiático global, Pankaj Mishra, From the Ruins of Empire: The Revolt Against the West and the Remaking of Ásia [Das ruínas do Império: A revolta contra o Ocidente e a reconstrução da Ásia], [4] que se serve de figuras chaves, como Jamal al-Din al-Afghani, Liang Qichao e Rabindranath Tagore para contar uma história extraordinária.

Os fundadores do MNA converteram-se em ícones do mundo pós-colonial: Jawaharlal Nehru, na Índia; Gamal Abdel Nasser, no Egito; Sukarno, na Indonésia; Josip Broz Tito, na Iugoslávia. Mas todos sabiam que seria combate morro acima. Como Prashad observa,

... a ONU fora sequestrada pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial haviam sido capturados pelas potências atlânticas; e o GATT (General Agreement on Tariffs and Trade [Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio]), precursor da Organização Mundial do Comércio (OMC), foi constituído para minar qualquer esforço que as novas nações tentassem na direção de revisar a ordem econômica internacional.

Henry Kissinger
Quanto ao Projeto Atlântico, basta citar uma frase de Henry Kissinger, de 1969. Kissinger – codestruidor do Camboja; agente que capacitou o líder chileno Augusto Pinochet; aliado, embora contra-vontade, dos sauditas (“os mais incompetentes, preguiçosos e covardes dos árabes”) e elogiador-em-chefe do Xá iraniano (“sujeito durão, que sabe o que quer”):

Nada de importante pode vir do sul. O eixo da história começa em Moscou, vai a Bonn, salta por cima de Washington e vai a Tóquio. O que acontece no sul não tem importância.

Os atlanticistas empenharam-se ferozmente contra o (“sem importância”) Projeto Terceiro Mundo, mas também contra a democracia social e o comunismo. O Santo Graal deles era mergulhar fundo em quaisquer lucros de brotassem de uma nova geografia de produção, “mudanças tecnológicas que capacitaram as empresas a extrair vantagem máxima de diferentes padrões salariais” – sobretudo dos salários muito baixos pagos em todo o leste da Ásia.

Vijay Prashad
Estava pronto, pois, o cenário para a emergência do neoliberalismo. Aqui, Prashad acompanha o indispensável David Harvey, detalhando o modo como o Sul Global chegou ao ponto de ser plenamente (re)explorado: bye bye libertação nacional e ideias de bem coletivo.

Manter os bárbaros à distância

Com o FMI sendo parte, hoje, da troika que dita austeridade à maior parte da Europa Ocidental (junto com a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu), é fácil esquecer que, em 1944, as coisas já estavam bem amarradas. O mundo em desenvolvimento não falou em Bretton Woods, muito menos deu palpite nos vários tipos de controle impostos ao Conselho de Segurança. Foi o silêncio dos cordeiros. Os lobos disseram o que quiseram, e a desigualdade virou cláusula pétrea.

Prashad oferece os detalhes indispensáveis de como o dólar norte-americano tornou-se moeda mundial efetiva, com os EUA fazendo dançar o preço do dólar, por todo o planeta, sem medir consequências: formou-se o Grupo dos Sete, como mecanismo mundial essencialmente antidesenvolvimentista (e não anti-Soviético); e, claro a muito temida Comissão Trilateral, criada por David Rockfeller do Chase Manhattan para impor a vontade do norte, contra o sul.

Zbigniew Brzezinski
E adivinhem quem foi o arquiteto intelectual da Comissão Trilateral? O inefável Zbigniew Brzezinski, adiante consigliere do presidente Jimmy Carter. O Dr. Zbig queria “conter” a “ameaça contagiosa da anarquia global”. Dividir para governar, mais uma vez. A periferia tinha de ser posta no seu lugar.

Deve-se lembrar, quanto a isso, que em seu épico de 1997, The Grand Chessboard [O Grande Tabuleiro de Xadrez], o Dr. Zbig, que seria feito conselheiro para política externa de Barack Obama em 2008, escreveu:

Os três grandes imperativos da geoestratégia imperial são impedir a colusão e manter a dependência em segurança entre os vassalos; manter os tributários dóceis e protegidos; e impedir que os bárbaros se unam.

David Harvey
Por muito tempo os “vassalos” foram facilmente contidos; mas o Dr. Zbig, um passo à frente de Kissinger, já planejava um modo para conter os dois “bárbaros” chaves, as duas potências euroasiáticas ascendentes: Rússia e China.

O Grupo dos Sete, seja como for, foi estrondoso sucesso, levando sua “teoria da governança” para todo canto, implementada pela máfia de Bretton Woods – e quem mais seria? Prashad define claramente:

O que recebeu o nome de “neoliberalismo” foi menos uma doutrina econômica coerente, que uma campanha muito direta, posta em andamento pelas classes proprietárias, para manter ou restaurar sua posição de dominação” – mediante a “acumulação por despossessão” (termo cunhado por David Harvey), também bem conhecida de milhões de europeus sob o codinome de “austeridade.

Os números contam a história. Em 1981, o fluxo líquido de capitais para o Terceiro Mundo foi de $35,2 bilhões. Em 1987, $30,7 bilhões deixaram o Terceiro Mundo, para bancos ocidentais. Por graça de Deus e sua lei escrita em pedra, também chamada “Ajuste Estrutural”, baseada em “condicionalidades” (privatização selvagem, desregulação, destruição dos serviços sociais, “liberalização” das finanças).

Bob Dylan
Parafraseando (Bob) Dylan, quando você tem nada, você ainda tem esse nada, a perder. Jamais houve qualquer estratégia política, do norte, para negociar a crise da dívida dos anos 1980s. Os cordeiros do Sul Global só foram autorizados a desfilar, em triste procissão, para receber o ajuste estrutural consagrado, um a um.

Mas nem tudo isso bastaria. Com o fim da URSS, Washington ficou livre para desenvolver a Dominação de Pleno Espectro. Os que não se submeteram completamente foram rotulados “estados delinquentes” – como Cuba, Irã, Iraque, Líbia, República Popular Democrática da Coreia e até, por certo tempo, a Malásia (porque resistia ao FMI).

Mas então lenta, mas firmemente, o Sul Global começou a erguer-se. Prashad detalha as razões – o boom de commodities puxado pela China; lucros advindos da venda de commodities que fizeram renascer as finanças latino-americanas; mais investimentos estrangeiros diretos correndo mundo. O Sul Global começou a negociar mais dentro do próprio Sul Global.

Celso Amorim
Então, em junho de 2003, à margem da reunião do Grupo dos Oito em Evian, França, emergiu algo chamado IBSA (“Diálogo Índia-Brasil-África do Sul). O IBSA estava apto a “maximizar os benefícios da globalização” e a promover crescimento econômico sustentado. O Ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, definiu-o naquele momento como “uma ideologia no melhor sentido da palavra: ideologia de democracia, diversidade, tolerância e busca de cooperação”.

Paralelamente, a China estava – como teria de estar – crescendo. É essencial lembrar aqui, a viagem, crucialmente decisiva, que Deng Xiaoping fez a Cingapura, em novembro de 1978, quando foi recebido por Lee Kuan Yew. Sobre essa visita, Prashad poderia ter escrito um capítulo inteiro. Foi o “gancho” de suspense, para o capítulo seguinte. Deng entendeu que podia mobilizar as guanxi (“conexões”) da diáspora chinesa, com todo o seu potencial. Nunca esquecerei minha primeiríssima viagem a Shenzhen, apenas um mês depois do famosíssimo tour de Deng pelo sul, em janeiro de 1992. Foi quando o boom realmente começou. Naquele momento, senti que estava mergulhado, até o pescoço, na China maoísta.

Donald Kaberuka
Façam avançar a fita até hoje, com a China ajudando a desenvolver a África. Vastas porções do mundo em desenvolvimento jamais sequer considerariam a possibilidade de abraçar cegamente o azhongguo moshi – o Modelo Chinês. A coisa se passa mais como Prashad faz, começando com essa maravilhosamente clara frase de Donald Kaberuka, um ex-ministro das finanças de Rwanda e atual presidente do Banco Africano de Desenvolvimento:

Podemos aprender [dos chineses] como organizar nossa política comercial, como sair do status de baixa renda, para um status de renda média, como educar nossas crianças em setores e habilidades que, em poucos anos, pagarão o próprio custo.

BRIC a BRIC [*]

O que nos traz aos BRICS, criados como grupo em 2009, da união BRIC-IBSA e que são hoje a principal locomotiva do Sul Global.

Àquela altura, “Culpem a China” já se tornara uma das Belas Artes, em Washington; era absolutamente imperativo que todos os chineses se convertessem em consumidores. Eles são e serão – mas ao ritmo deles e seguindo o seu próprio modelo político. [6]

Até o FMI já admite que, por volta de 2016, os EUA já terão deixado de ser a maior economia do mundo. Tinha razão portanto o grande Fernand Braudel, quando escreveu Civilização material, economia e capitalismo, séculos XV-XVIII  [7] (Le temps du monde [1979, 3 volumes]); (ing.) The Perspective of the World: Civilization and Capitalism, Fifteenth- Eighteenth Century, em que diz que esse seria o “sinal do outono” para a hegemonia atlântica.

Claro que os BRICS enfrentam problemas imensos, como Prashad detalha. As respectivas políticas domésticas podem, sim, ser interpretadas como uma espécie de “neoliberalismo com características do Sul Global”. Estão ainda longe de ter construído ou de ser alternativa ideológica para o neoliberalismo. Não têm nem qualquer mínima condição de defesa contra a arrasadora hegemonia militar dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN (basta ver o fiasco na Líbia). E não são o embrião de mudança revolucionária na ordem mundial.

Mas, pelo menos, trazem “uma lufada de ar fresco para oxigenar o mundo estagnado do imperialismo neoliberal”.

O ar fresco circulará sob a forma de um novo banco de desenvolvimento, um Banco BRICS do Sul, versão do Banco del Sur sulamericano fundado em 2009 (para conhecer a leitura de Prashad, veja “Os grandes BRICS: a China afinal encontra seu nicho” [8]. China e Brasil já definiram uma conta de $30 bilhões em moeda própria para pagar contas comerciais, deixando de lado o dólar norte-americano. Pequim e Moscou aprofundam a parceria estratégica (ver “BRICS conseguem furar o cerco”  [9]).

Os BRICS como são hoje – três grandes consumidores de commodities e dois grandes produtores de commodities tentando abrir uma picada que os salve do desastre para o qual o ocidente dirige o mundo – são só um começo. Já começam a movimentar-se como poderoso ator geopolítico, o que destaca a multipolaridade. Logo haverá novos BRICS – os países MIST (México, Indonésia, [South] Coreia (do Sul) e Turquia). E não esqueçam o Irã. Será hora, já, para os BRICS MIIST?

Peter Sellers
Dr. Fantástico
O que se vê, como que desenhadamente claro, é que o Sul Global já sofreu demais –dos saques que sofre do turbo-capitalismo de cassino, à OTAN fazendo-se de Robocop, do norte da África ao sudeste da Ásia, para nem falar da Eurásia, que vai sendo cercada por aquela quimera de Dr. Fantástico – um escudo de mísseis.

O Sul Global ainda padece sob muitos absurdos. Basta pensar nas petro-gás-monarquias do Conselho de Cooperação do Golfo – aqueles exemplares de “democracia” – já configurados como anexo da OTAN. Poucos eventos recentes foram tão espantosamente assustadores, quanto a Liga Árabe, a lamber as botas de seus senhores na OTAN e desrespeitando todas as leis internacionais, para pôr os tresloucados “rebeldes” sírios na cadeira que, por direito, cabe à Síria, estado soberano e membro fundador da própria Liga.

Cenas estranhas na mina de ouro[10]

Prabhat Patnaik
A queda do neoliberalismo será sangrenta – e demorada. Prashad tenta uma análise objetiva da unidade do Sul Global, seguindo a trilha do pensamento de um marxista indiano, Prabhat Patnaik.

Patnaik é pensador consistente. Ele sabe que “não se vê no horizonte qualquer resistência coordenada global”. Mas considera “a centralidade de construir a resistência dentro do estado-nação, e sua análise pode ser facilmente estendida a regiões (escreve prioritariamente sobre a Índia, mas produz análise aplicável aos experimentos bolivarianos na América Latina)”.

Assim sendo, o mapa do caminho sugere que se enfrente a “questão camponesa” – que envolve, essencialmente, terra e direitos; e que nos concentremos em lutas imediatas para melhorar as condições de vida e de trabalho das pessoas. Inevitavelmente, Prashad teria de fazer, e faz, referência ao vice-presidente da Bolívia, Alvaro Garcia Linera, um dos mais importantes intelectuais latino-americanos contemporâneos.

Sob vários aspectos, é em partes da América Latina que o processo de emancipação está mais avançado. Fiquei imensamente impressionado quando visitei a Bolívia, no início de 2008. Prashad praticamente resume as análises de Linera, de como se desenvolve o processo.

Alvaro Garcia Linera
Tudo começa com uma crise do estado, que permite que “um bloco social dissidente” mobilize o povo para um projeto político. Desenvolve-se um “embate catastrófico” entre o bloco do poder e o bloco do povo, o qual, no caso da América Latina, pôde resolver-se, pelo menos por hora, a favor do povo.

O novo governo tem, então, de “converter o que foram demandas da oposição, em atos de Estado” e construir hegemonia mais profunda e mais ampla, “combinando as ideias da sociedade mobilizada e recursos materiais oferecidos ou pelo Estado, ou através do Estado”. O ponto de virada (“ponto de bifurcação”), para Garcia Linera, vem mediante “séries de confrontações” entre os blocos, que se resolvem de modos inesperados, ou com a consolidação da nova situação, ou com a reconstituição da situação velha.

Estamos no ponto de bifurcação, ou bem próximos. O que virá não é previsível.

O que as melhores cabeças na Ásia, África e América Latina já sabem, até agora, é que nunca houve qualquer fim da história, como papagueavam patéticos órfãos de Hegel; e tampouco houve algum fim da geografia, como papagueavam os panacas dançantes da globalização, para os quais “a Terra é plana”. Está finalmente em curso a libertação do pensamento do Sul Global, que se vai livrando do pensamento do Norte. Esse é processo sem volta, irreversível. Não há retorno possível à velha ordem. Se fosse um filme, seria 1968, repetido sempre, sempre, sempre, em tempo integral, sem parar. Sejamos realistas: exijamos e implementemos o impossível.



Notas de tradução

[* Há aqui um trocadilho intraduzível. A palavra brick (ing.) significa “tijolo”. Com mínima diferença de grafia e nenhuma de pronúncia, quem diga “BRIC by BRIC” (ing.) diz também “brick by brick” (ing.), “tijolo a tijolo”. Tentamos “BRIC a BRIC”, como tradução possível, para salvar pelo menos uma parte da metáfora. Há outras possibilidades [NTs].

[1]  Orig. ...a long, arduous and winding road. De verso dos Beatles em “The Long And Winding Road”. Assiste-se/ouve-se a seguir: 


[2]  PRASHAD, Vijay.  The Poorer Nations: A Possible History of the Global South, 2013, New York: Verso, 300 p.

[3]  FANON, Franz. Os Condenados da Terra [1961, pref. Jean-Paul Sartre], Juiz de Fora: Ed. Universidade Federal de Juiz de Fora, 2006 


[5] PRASHAD, Vijay. The darker nations: a people's history of the Third - World Perseus Distribution Services, Abril,1, 2008 - 364 pg.

[6]  Primavera, 2013, Europe’s world,  Zhang WeiWei em: Why China prefers its own political model  [Por que a China prefere seu próprio modelo político].

[7] BRAUDEL, Fernand e COSTA, Telma. Civilização material, economia e capitalismo, séculos XV-XVIII – Livraria do GOOGLE.

[8] 27/3/2013, redecastorphoto, Visay Prashad em: Os grandes BRICS: a China afinal encontra seu nicho, [em port.]

[9] 26/3/2013, redecastorphoto, Pepe Escobar: “BRICS conseguem furar o cerco”, [em port.]

[10]  É subtítulo de um livro: BOXALL, Fiona Vivien, The New Age of Corporate Management: Weird Scenes Inside the Goldmine [A nova era da gestão corporativa: cenas estranhas na mina de ouro], Ed. Macquarie University (Division of Society, Culture, Media & Philosophy, Department of Anthropology), 2003, 742 p.. 


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dupla derrota da Casa Branca e do Pentágono*


12/10/2012, Raúl Zibechi, Programa de las Américas
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Veja também:
6/10/2012, Rick Rozoff,  Stop NATO, redecastorphoto em: Depois do Afeganistão, os EUA mudam-se para a América Latina

Raúl Zibechi
Em menos de uma semana, a política dos EUA para a América Latina sofreu duas derrotas, em dois temas estreitamente associados: a vitória eleitoral de Hugo Chávez e o fracasso na tentativa de impor os critérios do Pentágono na X Conferência de Ministros de Defesa.

Venezuela: eleição decisiva

Poucas vezes alguma eleição dividiu a região de modo tão nítido como a eleição, dia 7 de outubro, na Venezuela. Tanto os governantes como boa parte da população sabiam que do resultado daquelas eleições dependiam não só a continuidade do processo bolivariano, mas, também, o aprofundamento da integração regional, a ampliação do MERCOSUL e, provavelmente as relações pacíficas entre os vizinhos.

“Das 92 eleições que monitoramos, eu diria que o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”, disse Jimmy Carter, dia 11/9, ao celebrar os 30 anos do Carter Center [1]. Dias antes das eleições e Caracas, o embaixador dos EUA, Patrick Duddy sugeriu que, se a eleição fosse “aceitavelmente livre e justa”, seu país deveria “resetar” as relações bilaterais, com vistas a uma eventual renovação de comunicações de alto nível em áreas de interesse mútuo”. [2]

Houve reações esperadas e outras quase surpreendentes. O fervor de Cristina Fernández, presidenta argentina, e a cálida felicitação do colombiano Juan Manuel Santos eram esperados. O chanceler chileno Alfredo Moreno, membro do governo conservador de Sebastián Piñera, destacou que as eleições venezuelanas foram um “exercício democrático impecável”. O porta-voz do Departamento de Estado, William Ostick, felicitou “o povo venezuelano”, mas não o presidente, e conclamou o vencedor a levar em conta “as mais de 6 milhões de pessoas que votaram pela oposição”. A União Europeia disse mais ou menos o mesmo [3].

A oposição aceitou o resultado e ninguém falou em fraude, motivo pelo qual houve quem supusesse que Washington tivesse modificado sua habitual hostilidade contra o governo Hugo Chávez [A]. Nada disso. No mesmo dia daquelas eleições cruciais na Venezuela, o secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta, partia para seu segundo giro pela região, dessa vez ao Peru e ao Uruguai, levando debaixo do braço um documento de 12 páginas, “A Política de Defesa para o Hemisfério Ocidental” que o Departamento de Defesa dos EUA havia divulgado na 4ª-feira, 3/10 [B].

China: da cautela à euforia

Hugo Chávez Frias
Com a vitória de Chávez, o primeiro inimigo estratégico dos EUA consolida sua presença na região. O papel da China na Venezuela é chave. O intercâmbio comercial bilateral passou, de 1,9 bilhão, para 10,272 bilhões de dólares, o que fez da China o principal parceiro comercial de Caracas. A China aportou 52 bilhões de dólares em “fundos de financiamento conjunto” à Venezuela, a qual paga com petróleo, à razão de 640 mil barris/dia [4].

Para 2014, a sucateada indústria petroleira venezuelana espera produzir 4 milhões de barris diários, dos quais 1 milhão serão exportados para a China. No final de novembro passado, os presidentes de Venezuela e Colômbia assinaram vários acordos de cooperação, entre os quais o Projeto Binacional Oleoduto Venezuela-Colômbia, para exportar 500 mil barris de cru diários pela costa do Pacífico até a China, que seria o “sócio estratégico” num projeto que prevê investimento de 8 bilhões de dólares [5].

A Venezuela vem reorientando suas exportações de petróleo, que representam 90% de suas exportações totais. Em 1999, quando Chávez assumiu a presidência, os EUA compraram da Venezuela 1,5 milhões de barris/dia, cifra que caiu para 764 mil barris/dia em novembro de 2011, a menor em nove anos [6]. Como se pode ver, o mercado chinês está progressivamente substituindo o mercado norte-americano.

Dia 16/9/2010 assinou-se um acordo entre os governos de Venezuela e China sobre cooperação para financiamento em longo prazo. Chávez disse que o volume do investimento chinês na Venezuela é o maior de toda a história dos 60 anos da República Popular e concluiu: “Todo o petróleo de que a China possa necessitar para consolidar-se como grande potência encontrará na Venezuela” [7]. Vale lembrar que as reservas venezuelanas de petróleo já ultrapassaram as da Arábia Saudita e são hoje as maiores do mundo.

Mas nem tudo é petróleo. A China tem 430 projetos de desenvolvimento na Venezuela, em setores de eletricidade, transporte, mineração, moradias, finanças, gás, petróleo e petroquímica. Está contribuindo para o desenvolvimento das vias férreas, e há 50 projetos para exploração de alumínio, bauxita, carvão, ferro e ouro [8]. A cooperação binacional intensificou-se nos últimos cinco anos. Desde 2007, o Banco de Desenvolvimento da China emprestou 42 bilhões de dólares à Venezuela, 23% de todos os empréstimos internacionais do banco estatal chinês e praticamente o dobro de tudo que os EUA investiram, entre 2003 e 2006, para reconstruir o Iraque (29 bilhões) [9].

Sem dúvida, o dinheiro chinês é fundamental para a economia de um país que quase não recebe investimentos estrangeiros diretos. Mesmo os investimentos chineses chegam devagar: só 240 milhões de dólares entre 1990 e 2009 [10]. Talvez por essa razão, o governo chinês, que manifestara certa cautela nas semanas que antecederam a reeleição, não escondeu seu entusiasmo com os resultados, com Chávez reeleito para mais seis anos, e prometeu conduzir as relações entre os dois países “para um novo nível”. [11]

Dinheiro novo, em troca de petróleo

A Venezuela paga a metade dos juros de mercado (6%, não 12%) e com esse dinheiro pode planejar obras como as 33 mil moradias que a empresa Citic constrói na China e atender aos crescentes investimentos do Estado. Em troca, Chávez oferece aos chineses participação na exploração do petróleo pesado da Faixa do Orinoco e no projeto das minas Las Cristinas, das maiores reservas de ouro do mundo [12]. Também assinou com a empresa Citic um acordo para mapear todas as jazidas minerais do país [13].

Graças à cooperação chinesa, a Venezuela já pôs em órbita dois satélites; o primeiro “Simón Bolívar”, em 2008, atende as telecomunicações; e o “Miranda”, em 2012, que será usado no planejamento urbano, em operações militares e na luta contra exploração ilegal de minas e plantios ilegais. Segundo o governo Chávez, os satélites permitirão “planejar a ocupação do território, cuidar melhor do meio ambiente, de nossas fronteiras, de nossos recursos naturais e de nosso povo” [14].

Ígor Korotchenko
As relações com a Rússia também serão fortalecidas, mas são vínculos basicamente diplomáticos e militares. A indústria de armamentos russa está incrementando suas exportações, embora continue muito atrás da norte-americana. Entre 2012 e 2015, o principal comprador de armas russas será novamente a Índia, com 14 bilhões de dólares; mas a Venezuela já aparecerá em 2º lugar, deslocando assim a Argélia e a China, com compras projetadas de 3,2 bilhões de dólares segundo Ígor Korotchenko, diretor do Centro de Análise do Comércio Mundial de Armas [15].

A segunda viagem de Leon Panettta

Dia 7 de outubro, antes que se abrissem as urnas na Venezuela, o Secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta iniciou seu segundo giro pela região em apenas cinco meses [16]. Dessa vez veio armado com um documento de 12 páginas, “A Política de Defesa para o Hemisfério Ocidental” [17]. O texto é continuação do que foi elaborado em janeiro sobre as prioridades para a Defesa. Nos dois documentos, o objetivo é “manter a liderança mundial dos EUA”.

A política desenhada pelo Pentágono e pela Casa Branca para a região leva em conta dois novos fatos: as mudanças no mundo, entre as quais o novo papel da América do Sul, e o que lá se chama “a limitação de recursos”, como consequência do endividamento e da crise econômica que impõem restrições no orçamento militar.

Em consequência, o Pentágono já não pretende que seu principal modo de operar continue a ser o deslocamento militar direto na região; espera manter sua “liderança” mediante “enfoques inovadores, econômicos e praticamente sem ter de pôr os pés fora de casa. E espera, para conseguir isso, obter “esforços de cooperação” para “alianças bilaterais e regionais” à base do que entende que sejam “interesses comuns de segurança” [18].

Como os EUA encontram-se num “ponto estratégico de inflexão” pelo qual suas forças de concentrarão no Pacífico Asiático trata-se, na América Latina, de encontrar “sócios” que se convertam em “exportadores de segurança”. O documento cita dois casos: o da Colômbia, cujas forças de segurança partilham “conhecimentos técnicos nos campos da aviação, antissequestro e luta contra o narcotráfico”, e o de San Salvador cujos “capacitadores” trabalham no Afeganistão e no Iraque. (São algumas das consequências ou sucessos do “Plan Colombia”, aspecto que Panetta no menciona).

Com base nessas alianças, o Pentágono defende que “começa a aflorar uma rede interconectada: um sistema de cooperação para a defesa”, a partir de alianças “flexíveis e ágeis, capazes de responder aos desejos do país amigo e de mudar conforme aumenta a capacidade das forças militares dos países”.

Mas, apesar das aparentes boas intenções, os objetivos e os meios serão unilateralmente definidos pelo Departamento do Defesa. “As ameaças atuais à estabilidade e à paz regionais emanam da difusão do narcotráfico e outras formas de tráficos ilícitos, agitações e terrorismo, cujos efeitos podem resultar acentuados pelos desastres naturais e por uma oportunidade econômica desigual”. E acrescenta às ameaças atuais também novas ameaças no ciberespaço”.

Apesar de propor alianças “inovadoras”, o documento ainda aposta no que denomina “instituições de defesa maduras e profissionais” – entre as quais a Conferência de Ministros de Defesa das Américas que se faz a cada dois anos e a Junta Interamericana de Defesa (JID), no marco da OEA.

Panetta divulgou o documento pouco antes de participar da X Conferência, aberta na 2ª-feira, 8/10 em Punta del Este, Uruguai.

Horacio Verbitsky
Como assinalou o analista argentino Horacio Verbitsky, o documento de Panetta utiliza indistintamente “segurança” e “defesa” – o que não está sendo bem visto por boa parte dos países sul-americanos [19]. Verbitsky recorda que o MERCOSUL “rejeita o conceito de desastre natural, que substituiu por desastre socionatural”, o que pressupõe entender esses desastres como situação complexa e sobre tudo só agir no caso de haver pedido expresso “não entre forças armadas, mas pedido feito pelo governo do país afetado”.

A proposta do Pentágono

A proposta feita pelo Pentágono através do Chile, um dos sócios destacados na região, consiste em que as forças armadas coordenem as respostas aos “desastres”, acrescentando que, nessas “respostas” devem usar “unidades ou meios que tenham capacidade mínima de sete dias de operação com autossuficiência”.

Esse parágrafo alarmou várias chancelarias, entre elas a Argentina, dado que a maioria dos países da região não têm a tal capacidade “técnica”, o que deixaria o Pentágono na posição de único protagonista, como já aconteceu no caso do terremoto no Haiti em janeiro de 2010.

Por outro lado, para o mesmo Verbitsky, “os EUA tentam reformular a Junta Interamericana de Defesa (JID), para não perder uma ferramenta de controle sobre as forças armadas e de segurança na região”.

Vários países questionam a vigência das instituições multilaterais hemisféricas de defesa criadas durante a Guerra Fria, entre elas o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), criado em 1947. O mesmo se pode dizer da Junta Interamericana de Defesa (JID), entidade criada pela OEA, constituída em 1942.

O fracasso da “diplomacia militar” dos EUA

Sinal dos novos tempos, vários países da Aliança Bolivariana da Américas (ALBA) chegaram à X Conferência de Ministros de Defesa, esse mês, depois de terem decidido, em junho passado, separar-se da TIAR, que entendem já ferida de morte depois do conflito das Malvinas, em 1982 – quando os EUA apoiaram a Inglaterra, potência extra hemisférica, e não apoiaram a Argentina [20]. Trata-se aqui de Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua.

Eleutério Fernández 
Somam-se a esses países as reticências de Brasil e Uruguai, contra a JID. O ministro uruguaio de Defesa, Eleutério Fernández Huidobro, disse em seu discurso na Conferência de Ministros que a JID tem 70 anos, que está “velha”, que nasceu quando, no mundo “aconteciam coisas muito feias” [21]. Acrescentou que a desigualdade “é o grande problema que subjaz ou sobrevoa todos os outros problemas” e que “nem todos os militares do mundo algum dia darão conta de resolvê-lo”. E disparou:

“...durante esses anos, sofremos a ação de organizações criminosas internacionais piores que as do tráfico de drogas, armas e terrorismo. Falo, em boa parte, do sistema financeiro internacional que, mediante saques, assaltos, batendo carteiras e com roubos de todos os tipos provocou estragos até nos países mais ricos do mundo, mas, sobretudo entre as populações daqueles países. E, esses, andam pelo mundo soltos, um bando de criminosos transnacionais altamente perigosos que não podem ser excluídos de nossa lista de ameaças e riscos”.

Panetta ouviu em silêncio.

Mas a intervenção que mais bem refletiu o clima na região foi a do ex-chanceler do Brasil, atual ministro da Defesa, Celso Amorim. Sua fala foi a primeira na Conferência de Punta del Este. Disse que:

“...um sistema interamericano de Defesa como foi pensado imediatamente depois da 2ª Guerra Mundial é coisa que já nada tem a ver com o mundo de hoje, mundo multipolar, onde não há ameaça única nem continentes homogêneos” [22] [C].

Defendeu a cooperação em temas de saúde, defesa e desastres naturais, mas “sempre que haja autoridades civis à frente”. E fez mais: questionou o papel das potências no Oriente Médio, a composição do Conselho de Segurança da ONU, disse que a prioridade do Brasil é a UNASUL e o Conselho de Defesa Sul-Americano, apoiou a defesa da soberania argentina sobre as ilhas Malvinas, defendeu um Atlântico Sul livre de armas nucleares e ainda acrescentou:

“Nosso problema não é de proliferação: é de desarmamento. Que as grandes potências desmontem todos os seus arsenais nucleares”.

Tudo isso, em apenas 22 minutos!

Celso Amorim
Os 29 países que participaram da Conferência de Ministros da Defesa discutiram durante 48 horas os temos do documento final.

Aprovaram a criação de um Sistema Cooperativo de assistência humanitária de caráter voluntário “que respeitará a legislação de cada país e cuja coordenação e direção ficarão a cargo das autoridades civis” – como explicou o ministro argentino de Defesa, Andrés Allamand.

Argentina, Brasil, Bolívia, Equador, Nicarágua, Surinam e Venezuela votaram contra os termos do documento final; Guyana e Uruguai abstiveram-se. “Foi a primeira vez, na história desse fórum continental, que se realiza desde 1995, que foi preciso votar, ante a falsa de consenso” (AFP, 10/10/2012).

A declaração final da X Conferência de Ministros de Defesa não acolhe as principais inquietações do Pentágono – principalmente a intenção de fazer acordos diretamente com as forças armadas de cada país, sem considerar os governos políticos, que tem sido criticada como uma modalidade de “diplomacia militar”.

Bem diferente disso, a Declaração de Punta del Este “inclui o respaldo aos direitos soberanos da Argentina sobre as ilhas Malvinas” (item inicialmente rechaçado pelo Canadá e EUA) e recomenda muito vagamente que se continue e estudar o “sistema interamericano de Defesa”. Os países da UNASUL, exceto Chile e Colômbia, que apoiaram a Argentina em outros termos, “manifestaram sua preocupação com a crescente militarização do Atlântico Sul e com exercícios armamentistas que se realizam nas ilhas Malvinas” [23].

O que os países latino-americanos rechaçam cada dia mais claramente é o estilo do Pentágono de manter relações diretas “militares-militares” só com as forças armadas de cada país, desconsiderando os governos – exatamente o que sempre fez a Junta Interamericana de Defesa (JID) e faz agora o Comando Sul.

O relato de Verbitsky sobre como funciona o Grupo Militar dos Estados Unidos na Argentina, o qual, durante décadas, manteve escritórios e gabinetes em instalações do exército argentino, numa “interação horizontal e direta só com as forças armadas, sem pedir autorização e sequer sem informar o Ministério da Defesa argentino” [24], ilustra um modo de operar que já não é aceito, na nova correlação de forças.

A continuidade do processo bolivariano e talvez o aprofundamento nos anos futuros potencializarão a crescente autonomia política, econômica e militar da região em relação aos EUA.
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Notas de rodapé

[1] Citado por Mark Weisbrot, The Guardian, 3/10/2012. Ouve-se a conferência completa. Em 44, a referência à Venezuela.
[2] Citado por Clovis Rossi, Folha de São Paulo, 9/10/2012.
[3] “EEUU no felicita a Chávez pro valora votación de la oposición”, AFP, 8/10/2012.
[4] Agência Xinghua, 27/9/2012.
[6] Associated Press, 2/2/2012
[7] La Jornada, 26/9/2010
[8] Idem.
[9] “China financia Chávez, em troca de petróleo, e ajuda na sua reeleição”, Valor, 1/10/2012.
[10] “China, no tan cerca como busca Chávez”, La Nación, 7/10/2012.
[11] Agencia Telam, 8/10/2012.
[12] Valor, 1/10/2012.
[14] El Universal.mx, 29/9/2012, em: Venezuela lanza satélite desde China 
[15] Gazeta Russa, 9/10/2012.
[16] Sobre a primeira visita, ver em: 20/5/2012, Programa de las Américas, Raúl Zibechi, em: “El Pentágono busca recuperar la iniciativa en Sudamérica,
[17] 10/2012, Department of Defense, em: La política de defensa para El Hemisfério Occidental (em .pdf e em espanhol).  
[18] Todas as citações são extraídas do Documento do Departamento de Defesa.
[19] Página 12, 8/10/2012.
[20] “Continente debatirá pertinencia del sistema interamericano de defensa”, AFP, 6/10/2012. 
[21] El País, 9/10/2012.
[22] “Multiplicidad de percepciones impide sistema continental de defensa”, AFP, 8/10/2012.
[23] 10/10/2012, Presidência da República Oriental del Uruguay no: Documento final de la Conferencia de Ministros de Defensa incluyó todos los temas
[24] “Las cartas sobre la mesa”, Página 12, 30/9/2012.



*Fontes:
  • Agência Xinghua, “Relaciones con Mercosur y China marcarán próximos seis años de Venezuela”, 27/9/2012  
  • Departament of Defense, “La política de Defensa para el Hemisferio Occidental, out. 2012
  • Horacio Verbitsky, “Los nuevos desafíos”, Página 12, 8/10/2012
  • Mark Weisbrot, “Why the US demonises Venezuela’s democracy”, The Guardian, 3/10/2012.
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Notas dos tradutores
[A] A revista Carta Capital, São Paulo, 17/10/2012, ano XVIII, n. 719, em matéria de Claudia Jardim, de Caracas, tem outra explicação para Capriles não ter contestado o resultado: “O opositor Capriles aceitou a derrota, de olho na disputa dos governos estaduais em dezembro” (p. 41).
[B]Sobre a viagem de Panetta, ver também 6/10/2012, Rick Rozoff,  Stop NATO, redecastorphoto em: Depois do Afeganistão, os EUA mudam-se para a América Latina 
[C]14/10/2012, redecastorphoto, em: “Intervenção do Ministro da Defesa do Brasil, Celso Amorim, na X Conferência dos Ministros de Defesa das Américas