Mostrando postagens com marcador Coreia do Sul. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Coreia do Sul. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Dinamismo da Ásia exige que EUA reformatem suas políticas anacrônicas

23/4/2014, Deng Yushan, Xinhua, Pequim
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama ladeado pelo PM Shinzo Abe do Japão e Park Geun-hye, Pres. da Coreia do Sul em 25/3/2014 (foto:  Pablo Martinez Monsivais)
Seis meses depois que um “fechamento” [1] forçado do Executivo dos EUA obrigou-o a improvisar uma visita à Ásia, o Presidente dos EUA, Barack Obama, volta ao continente que cresce, para consolidar o engajamento de Washington com a região do Pacífico Asiático.

A visita a quatro países acontece no contexto da política chamada de “reequilibramento [pivoteamento] para a Ásia” do governo Obama, que sugere uma disposição dos EUA para redirecionar prioridades e recursos para o outro lado do Oceano Pacífico.

Washington tem boa razão para pivotear-se na direção da Ásia. A Ásia é hoje a usina de energia da economia mundial; ali estão importantes aliados dos EUA e grande quantidade de significativos interesses dos EUA. País que não veja ou, mesmo, que desconsidere o papel da Ásia, sabe que as consequências pesarão sobre ele mesmo.

Mas isso não é tudo. Por trás da fachada de pragmatismo, há o fator China. Por mais que Washington repetidamente negue, a estratégia de pivoteamento/“reequilibramento” encobre esquema cuidadosamente calculado para engaiolar o gigante asiático que não para de crescer, reconvocando os aliados dos EUA e reforçando a presença norte-americana.

Se, por fora, a lógica de Washington sugere uma potência adaptável e de visão ampla, o que se vê por dentro é uma superpotência míope e esclerosada que deixou, ela mesma, se aprisionar pela história recente, numa posição de confrontação belicista, obnubliada por pseudo realismo falsificado e ultrapassado, que a impede de ver que a China orienta-se necessariamente para a paz, não para a guerra.

Esse traço de duas caras é perigoso e insustentável. Com a paisagem asiática já dramaticamente transformada, os EUA têm de libertar-se de suas algemas históricas e filosóficas e atualizar sua política para a Ásia; têm de alinhá-la com as novas realidades, seja para benefícios dos próprios EUA, seja para benefício da região e de todo o planeta.

Como primeiro e mais importante item dessa reformatação, que já virá atrasada, Washington que trate de respeitar os interesses centrais e legítimos da China; e que se dedique a trabalhar séria e genuinamente com Pequim para construir confiança mútua e melhorar nossas relações bilaterais.

A interação entre as duas maiores economias é o relacionamento bilateral mais importante, hoje, no mundo. Por isso, apesar de Obama ter ignorado a China nessa sua viagem, a China não ignora Obama em suas andanças com anfitriões japoneses, sul-coreanos, malaios e filipinos.

A dedicação dos dois pesos-pesados, para cultivar um novo tipo de relacionamento entre grandes potências, é estrategicamente estimulante. Mas Washington tem de fazer, em vez de só prometer.

O mínimo que Washington tem de fazer é parar de inflar a teoria lá mesmo inventada de que haveria uma “ameaça chinesa”; e que deixe de se imiscuir, sem qualquer direito ou legitimidade, em disputas marítimas e territoriais legítimas entre a China e alguns de seus vizinhos.

Paralelamente, os EUA que reavaliem seu sistema de hegemonia anacrônica de alianças; e que parem de insuflar parceiros seus, como Japão e Filipinas – que têm inflado as tensões regionais com movimentos de provocação.

Reforçadas pelo – ou, pelo menos, aproveitando-se do – pivoteamento dos EUA para a Ásia, Tóquio e Manila tornam-se mais agressivas e mais beligerantes nos contatos com Pequim nos mares do Leste e do Sul da China.

Em claro sinal do atraso desses malfadados aliados de Washington, o Primeiro-Ministro do Japão, Shinzo Abe e número alarmante de altas autoridades japonesas prestaram homenagens, nos últimos dias, no Santuário Yasukuni, à memória de 14 criminosos de guerra japoneses, julgados e condenados depois da IIª. Guerra Mundial.

Essas visitas e as homenagens, que ofendem China, Coreia do Sul e outras vítimas do Japão militarista, aconteceram na véspera da visita de Obama – e apesar de o governo dos EUA ter explicitamente suplicado a Tóquio que mantivesse as coisas bem separadas.

A bofetada que o Japão aplicou a Obama deve bastar para arrancar Washington das ilusões em que vive e trazer os EUA de volta à realidade. Esses efeitos colaterais de seu modus operandi na Ásia é que são a ameaça real; e devem ser o principal objetivo das preocupações dos EUA, a serem contidos.

É mais que hora de Obama enviar mensagem clara à Ásia e ao mundo: ele só terá feito por merecer o autoatribuído título de “Primeiro Presidente pacífico/do Pacífico dos EUA”, se reformatar seu país e o transformar em ator construtivo e responsável na região do Pacífico Asiático.




Notas dos tradutores

[1] Orig. government shutdown [lit. “trancamento” do Executivo, pelo Congresso]. Acontece quando o Congresso decide não aprovar ou rejeitar as leis necessárias para que as operações e agências do Executivo recebam os fundos necessários para operar. A Constituição dos EUA determina que, em caso de as leis do Orçamento não serem aprovadas no prazo fixado, o Executivo Federal tem de “trancar”, ou providenciar a extinção, das unidades/atividades afetadas.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O galo americano prepara-se para cocoricar de cima do lixão asiático

23/2/2014, [*] Peter Lee, Blog China Matters
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Este artigo é variante encurtada de um artigo publicado em 25/2/2014, pelo mesmo autor,  no Asia Times Online sob o título: Asia pivot comes back to bite the US


Em outras palavras: é hora de os EUA cacarejarem a plenos pulmões, na celebração do pivô para a Ásia. Isso, acho eu, é o que farão no tour “Fodam-se vocês” que o presidente Obama realizará pelas democracias asiáticas em abril de 2014.

A viagem exige mais que apenas rápido trabalho preliminar, dada a complicada situação na Ásia.

Não é só que a República Popular da China e o Japão estejam engalfinhados em furioso arranca-rabo, e que as Filipinas tenham declarado que o Mar do Sul da China é o novo Sudetenland [1], e que a República Popular da China enfrentará confrontação, não negociação. O caso é que os EUA estão menos que perfeitamente felizes com os pontiagudos cotovelos do primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe e as fraturas que causou na frente unida da pivotagem.

Houve fascinante eclosão de colunas publicadas nos veículos de prestígio dos EUA (Bloomberg, NY Times, Washington Post e Business Week), todas fortemente críticas contra Abe e a provocativa visita ao Santuário de Yasukuni...

Santuário Yasukuni
Mas a tal visita aconteceu em dezembro de 2013. E o soco no queixo, de “resposta”, só está aparecendo em fevereiro de 2014. Meio (muito) atrasado.

Ah! E deve-se considerar que o detalhe altamente insultante, de que o primeiro-ministro Abe ouviu as tolices de Joe Biden por uma hora, deu-lhe as costas e saiu para visitar o santuário, só vazou no final de janeiro.

Assim sendo, por que, sem mais nem menos, os EUA põem-se hoje a sapatear de fúria por causa da manifestação bem clara das inclinações históricas revisionistas de Abe... no ano passado?

Bem. Depois de examinar as vísceras divinatórias exclusivas para leitores (pagantes! Brincadeirinha!) de China Matters, acredito que aquele furor tem muito a ver com a anunciada viagem do presidente Obama à Ásia.

Até agora, a República Popular da China não está no itinerário. Mas Japão e Filipinas, sim. E também a Coreia do Sul (incluída, pelo que se sabe depois de muito lobbying).

A viagem está parecendo celebração da pivotagem para a Ásia – a tal estratégia para conter a China que não ousa dizer o próprio nome, mas tem o objetivo de garantir a posição de liderança dos EUA no Leste da Ásia, mediante o movimento de empurrar as relações da China com seus vizinhos para posição mais polarizada e confrontacional, o que combina melhor com a superioridade militar dos EUA.

Mais que isso, a viagem mascarará o terreno perdido no lamentável cancelamento de viagem anterior do presidente Obama à Ásia (por causa da farsa do teto da dívida dos EUA) e fará-crer, a um mundo em dúvida, que a verdade é o contrário do que parece: que os EUA estão no comando, plenos de decisão e coragem, senhores dos eventos, país-líder da coalizão das democracias asiáticas, de fato, sim, o universalmente saudado hegemon, amo e senhor, da Ásia.

Vejo a viagem do presidente Obama como uma daqueles tours imperiais que imperadores romanos e chineses empreendiam, para mostrar que o poder do império ainda era vigente até as regiões das fronteiras mais distantes.

O problema é, porém, que há uma democracia asiática que está visivelmente elevando as apostas, contra o dia em que os EUA mudem de ideia e decidam que seus reais interesses estão muito mais para o lado do temido eixo G2 (cooperação entre EUA e China para organizar os negócios, não necessariamente na direção que interesse a outras nações do Pacífico).

Shizo Abe
Essa nação, é claro, é o Japão.

O primeiro-ministro Abe, por sua linhagem e experiência pessoal, está em boa posição para recordar as muitas vezes que os EUA decidiram que interesses norte-americanos e japoneses não são necessariamente coincidentes.

Essas vezes vão desde o Tratado de Portsmouth (quando Teddy Roosevelt decidiu que o Japão era membro ainda não suficientemente maduro do clube imperial, para colher todos os frutos de sua vitória sobre a Rússia czarista); até a desagradável IIª Guerra Mundial (que o grupo revisionista de Abe considera ser culpa integral dos EUA), passando pelo inesperado reconhecimento da República Popular da China, o torpedeamento da economia japonesa pelo Acordo Plaza imposto pelos EUA e pela conversa enervante, sempre dissimulada, sobre o tal G2, que volta e meia reaparece na diplomacia dos EUA.

Num plano pessoal, o primeiro-ministro Abe com certeza recorda o quanto ele, pessoalmente, apoiou George W. Bush na sua política confrontacional contra a República Popular Democrática da Coreia (RPDC, “Coreia do Norte”) em 2005, para, na sequência, ver o Japão – e a questão da assinatura de Abe, dos sequestrados – apagados e deixados de lado, na pressa de Chris Hill & Condoleezza Rice para concluírem um acordo transitório com a RPDC.

Em clave mais feliz, o primeiro-ministro Abe provavelmente também recorda que a secretária Clinton sempre fez empenhada oposição ao G2 e sempre apoiou avidamente o “pivô para a Ásia”, com a estratégia subjacente de empregar a aliança com o Japão como principal pedra de toque de toda a política dos EUA na Ásia. Para contar toda essa história seria preciso escrever um livro inteiro, mas vale a pena recordar que se sabe que o presidente Obama estava pronto para declarar que as Senkakus não estão incluídas no tratado de segurança EUA-Japão – presumivelmente em resposta a algum gesto chinês de apaziguamento –, quando a secretária Clinton e o ministro Maehara passaram a explorar (ou, pela minha avaliação, inventaram tudo) o imbróglio das terras raras/capitão Zhan em 2010, o que levou a resultado diametralmente oposto: Obama declarou que as Senkakus estavam incluídas, sim, no tratado.

Ilhas  Diaoyu e Senkaku
Subsequentemente, se tornou claro que a secretária Clinton havia decidido impedir qualquer engajamento, e que tratava as questões marítimas com a República Popular da China como pretexto para fazer avançar uma política de confrontação contra a China, sempre se servindo da política como base para o pivô militarizado na direção da Ásia.

Mas a secretária Clinton foi-se, pelo menos por hora; e o decididamente muito menos confrontacional Kerry parece que tem tido capacidade para assumir as rédeas da diplomacia norte-americana.

O foco de Kerry dirigido para o Oriente Médio tem ocasionado resmungos nervosos/ressentidos de apoiadores do relacionamento com o Japão em Washington, pela razão declarada de que o foco de Kerry no Extremo Oriente é insuficiente, e o “pivô” estaria sendo deixando de lado. Uma razão não declarada talvez seja que a China, porque em vários sentidos seu papel é importante no Irã e na Síria, parece estar andando polegada a polegada na direção de um relacionamento quase-G2 com Kerry, o que pode ser resultado de alguns favores feitos à China, à custa das democracias do “pivô”.

Um desses favores, como especulei nesse blog, pode ter sido os EUA exigirem que o Japão fizesse prova de sua sinceridade contra a proliferação nuclear, devolvendo certa quantidade de plutônio baixo-enriquecido que recebeu dos EUA, há muito tempo.

John Kerry
Seja como for, sinto que era necessário para Kerry firmar as próprias credenciais de “durão contra a China”; e creio que foi o que ele fez, ao mandar Evan Madeiros fazer o maior barulho a respeito de os EUA absolutamente não admitirem uma ZAID (Zona Aérea de Identificação da Defesa) no Mar do Sul da China. E a China, a qual, creio, já desmentira que tivesse qualquer interesse em  ZAIDs no Mar do Sul da China, rapidamente respondeu que não estava considerando esse movimento; assim, permitiu que Kerry se mudasse, da desprezível casa-do-cachorro do apaziguamento à Chamberlain, para o prestigiado alto reino da força bruta à Churchill.

Agora, o presidente Obama pode ir à Ásia, amparado na ideia de que a credencial dos EUA, de ter metido “o dedo no olho da China”, seja relativamente segura.

Nesse contexto, afinal, o que concluir da campanha organizada para fazer chover sobre o primeiro-ministro Abe, justamente quando ele desfilava em Yasukuni?

Acho que é porque o presidente Obama deseja usar a viagem de abril para afirmar o pivô e, mais importante, para afirmar a indispensável liderança dos EUA no tal pivô.

Isso significa descer o chicote no Japão e demonstrar que os EUA não se deixarão prender nas esperanças e sonhos do governo Abe (de um governo que explora a aliança com os EUA como ferramenta dele para restaurar a soberania e o comando militar e diplomático do Japão em toda a Ásia).

Seria preciso uma modalidade especial de negação para ignorar o fato de que o primeiro-ministro Abe borbulha de planos para expandir a marca diplomática e de segurança do Japão em toda a Ásia, dos Kuriles a Myanmar e à Índia... Ou para não considerar o fato de que essas ambições absolutamente não se encaixam na estrutura hierárquica no topo da qual há o pivô dos EUA, com a aliança de segurança EUA-Japão na camada logo abaixo, e o relacionamento do Japão com outras democracias asiáticas guiadas pelo pivô, pela aliança de segurança, pelo poder e pela glória da visão estratégica... dos EUA!

Esse desagradável estado de coisas pode ser constatado no enigma que parece subjazer aos maus-tratos às canelas de Abe: a distância que não para de aumentar entre a Coreia do Sul e o Japão.

Um dos problemas mais renitentes do pivô sempre foi o rancor entre os governos de Abe e de Park; e, também a predileção marcadamente antipivotal da Coreia do Sul, sempre interessada em deslizar na direção do campo econômico e político da República Popular da China.

Abe, contrário à doutrina ostensiva da solidariedade pivotal, parece feliz por exacerbar sistematicamente e com determinação as rixas entre Japão e Coreia do Sul, não só com visitas ao santuário Yasukuni mas, também com comentários depreciativos, feitos por seus aliados, sobre as lições da IIª Guerra Mundial e as comfort women. E, contrário à ideia de que os EUA coordenem o pivô, Abe também não se cansa de falar em tom depreciativo contra os esforços dos EUA para se autoinserirem na disputa.

Segundo Peter Ennis do Japan Dispatch, os tumultos em torno da visita de Abe ao santuário Yasukuni tiveram um papel nos esforços dos EUA para mediar uma reaproximação entre Japão e Coreia do Sul.

Para Ennis, o vice-presidente Biden achava que Abe não visitaria Yasukuni; e comunicou esse seu palpite ao presidente Park. Quando transpirou que Abe, sim, visitaria Yasukuni, Biden fez aquele infeliz telefonema, para tentar persuadir Abe a não ir. Em termos essenciais, Abe mandou-o catar coquinhos.

Não satisfeito com mandar Biden catar coquinhos, Abe, ao que parece pessoalmente, “vazou” detalhes do telefonema para um de seus jornais favoritos, segundo Ennis:

Peter Ennis
Dia 12 de dezembro, Biden pessoalmente telefonou a Abe, e, em conversa tensa e demorada, pressionou o primeiro-ministro a não visitar Yasukuni. Sankei Shimbun do dia 30 de janeiro, citando “fontes não identificadas do governo”, publicou relato detalhado da conversa, relato que o gabinete do vice-presidente não desmentiu.

(Gente bem informada em Tóquio, citando os bem conhecidos laços que ligam o jornal Sankei e Abe, acredita que o relato da conversa partiu diretamente de Abe – avaliação com a qual concordam altos funcionários dos EUA).

Durante a conversa, Biden disse a Abe: “Eu disse ao presidente Park que ‘não creio que o presidente Abe visite o Santuário Yasukuni. Se o senhor der algum sinal de que não visitará o santuário, creio que o presidente Park concordará em reunir-se com o senhor.’”

Abe há muito tempo resiste contra o que considera arrogância e insolência dos norte-americanos que não respeitam suas convicções nacionalistas; e respondeu a Biden que tinha, sim, planos para visitar Yasukuni.

Imediatamente depois que Abe maliciosamente vazou a informação de que ignorara o apelo do vice-presidente Biden, o qual estaria dando satisfações ao presidente Park na questão do santuário, sobreveio uma onda de “colunistas” e “comentaristas” e “especialistas”, com o poder do fogo concentrado de Richard Armitage, Victor Cha e Michael Green no Washington Post, todos a exigir que o presidente Obama visitasse Seul...

... e pouco depois se anunciou que a Coreia do Sul fora acrescentada no roteiro da viagem, e que o Japão não seria o único anfitrião no norte da Ásia a ser honrado com uma visita de Obama.

Que coisa!

Agora, além do desejo de Abe se sapatear sobre os sentimentos de Biden e Park, para ostentar bem alta a bandeira do seu revisionismo nacionalista, creio que há também outras forças à vista.

Primeiro de tudo, como já escrevi noutro artigo, Abe não tem relação confortável com o governo Obama. Seu avatar sempre foi Dick Cheney, com quem Abe tentou coordenar uma política de contenção da China durante seu primeiro mandato; e seus aliados naturais são os Republicanos da direita norte-americana e falcões pró-Japão/contra-China nos establishments de segurança e defesa dos EUA.

Dick Cheney e Shinzo Abe na Casa Branca
Acho que a humilhação pública e direta de Biden foi sinal dado por Abe de que não está sob o tacão da Casa Branca, e que seus aliados nos EUA podem extrair vantagem do embaraço no governo Obama, para questionar a eficácia e a execução da política do governo para o Japão (e seus esforços para cavar uma rota intermediária entre a República Popular da China e o Japão); e para fazer lobby que empurre a política dos EUA na Ásia na direção da doutrina japão-cêntrica de contenção da, e confrontação contra, a República Popular da China.

Em segundo lugar, a República da Coreia (Coreia do Sul) e o Japão são concorrentes diretos na Ásia. Durante o governo do presidente Lee Myung-bak da Coreia do Sul, ele tentou abertamente roubar do Japão o trono da liderança na Ásia (e o lugar de aliado “n°1” dos EUA). Abe, com suas inclinações nacionalistas, é claramente hostil às pretensões da Coreia.

Se alguém quiser jogar o jogo profundo, é preciso saber que o Japão teme, tanto quanto a Coreia também as teme, a reunificação da Coreia e a emergência de uma democracia asiática que superará em muito o Japão no vigor nacional e econômico. Uma das histórias menos comentadas de Abe, é seu flerte com a Coreia do Norte, com encontros clandestinos entre diplomatas japoneses e da República Popular Democrática da Coreia e, além disso, o oferecimento que lhes fez a Suíça (e, desconfio, também a Índia), que pôs seus bons serviços de mediadora à disposição do Japão.

O contexto ostensivo desse ir-e-vir é ganhar blindagem na miserável questão dos reféns japoneses [orig. Japanese abductees]; mas suspeito que o real objetivo é obter algum tipo de aproximação direta com a Coreia do Norte, que dará ao Japão acesso direto ao país; passará a perna no regime das conversações dos Cinco Partidos lideradas pela China; desequilibrará EUA, China e Coreia do Sul no movimento em que estão empenhados para se aproximarem dos recursos humanos e minerais sempre subexplorados da Coreia do Norte; e ainda conseguirá manter viva a Coreia do Norte, e a península como está, confortavelmente dividida.

Em outras palavras, a Coreia do Sul é bem-vinda para testar suas opções como potência continental dentro da esfera de influência da República Popular da China, usando Shandong como fornecedor de trabalho barato, em vez da Coreia do Norte. O Japão muito apreciará comer o almoço sul-coreano numa Ásia marítima democrática, muito obrigado.

Joe Biden
Em terceiro, enquanto Abe trabalha para recuperar a plena soberania militar, de defesa e de segurança do Japão, ele não tem interesse algum em que os EUA se arroguem o privilégio de determinar a agenda diplomática regional do Japão. No mínimo, parece que Abe deseja engajamento extensivo com os EUA, mas no contexto de relações bilaterais entre pares, negociadas mediante mecanismos explícitos, como a aliança de segurança e o Tratado da Parceria Trans-Pacífico. Essa visão do relacionamento EUA-Japão com certeza não inclui ouvir, nem Joe Biden, nem os “especialistas” do governo Obama a pontificarem sobre a Ásia, sobretudo quando visem a demonstrar o credo dos EUA como parceiro confiável (enquanto tentam mostrar à Coreia do Sul que China e EUA podem, sim, muito significativamente, modelar o comportamento do Japão). (...)

Creio que, como previ no ano passado, as galinhas do movimento do “pivô na direção da Ásia” estão tendo inevitavelmente de voltar para os respectivos poleiros. A decisão de confrontar a ameaça marítima da República Popular da China encorajou as democracias asiáticas, especialmente o Japão, a tal ponto que a liderança norte-americana está a um passo de ser abertamente desafiada.

O Japão, a Coreia do Sul e a República Popular da China podem saber bem das intenções dos EUA, mas estão menos convencidos de que os EUA cumpram a promessa de uma estratégia de pivô modulada, unificada e cuidadosamente administrada que dê poder aos EUA mediante uma estratégia militarizada de contenção contra a República Popular da China, sem que os EUA comprometam a imagem de parceiro honesto e confiável... enquanto sufocam qualquer iniciativa independente de seus aliados da vanguarda do pivô.

Em vez disso, parece é que, especialmente o Japão, vai-se distanciando silenciosamente e fará o melhor para explorar o pivô para perseguir suas próprias agendas regionais, ao mesmo tempo em que recorre aos EUA em busca de apoio nos momentos difíceis, apoio o qual, como reza a teoria do pivô, os EUA são obrigados a dar.

Assim sendo, em vez de uma frente implacavelmente unida contra a República Popular da China – razão de ser do pivô! – tem-se agora uma aliança em fluxo, contenção equívoca e a ponto de ser testada pela China, e cada vez mais próxima de tensos encontros na zona marítima.

Aí está, em outras palavras, uma receita para...?  Não se vê muito bem o que seja, mas com certeza não é a paz, a estabilidade e a prosperidade partilhadas de que Hillary Clinton falava e que prometeu entregar graças ao “pivô”.

O Japão está suficientemente investido no relacionamento com os EUA e a aliança para suportar até o governo Obama, o qual em breve iniciará a longa mas inevitável decadência rumo ao status de pato manco.

Mas anúncios, iniciativas e viagens à Ásia podem obter tanto quanto o Japão; e os aliados asiáticos cada vez mais olham na direção do Japão como liderança regional, veem o que veem e descobrem a necessidade e a importância de continuar a andar cada um pela sua própria trilha.

Diz-se que o sol não nasce por que o galo cocorica. Mas nesse caso, sim, nasceu. Acho que o presidente Obama está aprendendo que o sol nasceu exatamente porque o galo cocoricou, vale dizer: a assertividade dos japoneses é consequência do empoderamento do establishment japonês mais linha dura, um dos efeitos da doutrina norte-americana do pivô.

Problema é que, agora que o sol nasceu e está subindo, parece que continuará subindo por conta própria. E quanto a isso não há o que o galo possa fazer.




Nota dos tradutores
[1] Sudetenland - Região histórica do norte da República Tcheca, ao longo da fronteira com a Polônia. Habitada por séculos por alemães étnicos, foi tomada pelos nazistas em setembro de 1938 e devolvida à Tchecoslováquia em 1945, depois de a população alemã ter sido expulsa. O nome faz referência às montanhas Sudetes
__________________________


[*] Peter Lee é jornalista norte americano de origem chinesa que escreve sobre assuntos dos países do sul e leste da Ásia e a intersecção de negócios entre essa região e os EUA. Além de articulista de várias publicações anima o blog China Matters.

sábado, 26 de outubro de 2013

O que a China pode aprender da “queda” da URSS

25/10/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mikhail Gorbachev - 2013
Os que viveram e trabalharam como diplomatas ou correspondentes estrangeiros na Moscou dos anos finais da era de Mikhail Gorbachev nos últimos anos da década dos 80s estão condenados a carregar, para sempre, na vida, uma curiosidade intelectual sobre a dialética da reforma e da transição democrática em sistemas políticos autoritários. No meu caso, pelo menos, isso explica a curiosidade que tenho sobre como a China operará nessa via.

Na própria China, a comparação que se ouve com mais frequência é, mesmo, com essa era Gorbachev da história soviética e a dissolução da União Soviética. Disse deliberadamente “dissolução”, porque se tratou de ato consciente, unilateral e pessoal de Boris Yeltsin, sem qualquer traço de inevitabilidade. A “dissolução” interessava a Yeltsin. Ponto. Parágrafo. Não consultou, seriamente, ninguém, nem seu grupo de seguidores nas repúblicas da então União Soviética concordaria.

Assim, para começar, a comparação com a experiência soviética é viciosa, se se fala em comparação de base empírica. Nunca houve qualquer “queda soviética”, como os discursos chineses insistem em imaginar que tenha havido.

No mais recente Congresso do Partido, a nova liderança chinesa falou abertamente sobre esse tema. O debate continua, sobretudo agora que o crucial 3º Pleno do Partido Comunista da China se aproxima, marcado para novembro, com foco na agenda de reformas do Partido.

Em agosto, Xinhua publicou um comentário sobre isso, [5/8/2013, “Soviet fiasco a lesson for China”] assinado por um Wang Xiaoshi (presumivelmente, pseudônimo), que provocou muita excitação na China e noutros pontos. O principal argumento é que Gorbachev oferecia liderança “fraca” e, assim, a reforma escapou a qualquer controle. Para o autor, o tumulto que se viu na Rússia pós-soviética no início dos anos 1990s deve servir como “sinal alarmante”, para a China, das coisas terríveis que pode acontecer, se a China entrar em tumultos ou cair em anarquia.

Interessante, pinta negativamente o legado de Yeltsin, que teria democratizado a Rússia pela primeira vez na história; e muito elogia as realizações de Vladimir Putin, que levou o país na direção da “prosperidade” sem perder muito sono com a “democratização”, embora como potência diminuída no cenário mundial.

Roy Medvedev
Também o jornal do Partido Comunista Chinês, Global Times, publicou hoje uma entrevista com o famoso dissidente soviético, historiador Roy Medvedev, a extrair “lições” da experiência soviética. Mais ou menos endossa o pensamento que parece ser o mais bem-sucedido na China hoje, a saber, que a China deve pisar com muita cautela no pedal da reforma política, e deve confinar-se às reformas econômicas.

Sim, sim, com certeza, foquem-se nas reformas econômicas, no próximo “Plenum”, mas, em nome de Deus, não se metam a “democratizar” coisa alguma! Deixem que o tempo e as marés operem nessa direção – isso é o resumo da entrevista de Medvedev. Disse o que a China quer ouvir.

Para mim, foi surpresa. Medvedev poderia e deveria ter destacado que a comparação entre União Soviética e China – exceto a comparação nocional, de os dois países serem nominalmente “socialistas” – absolutamente não cabe. Ainda se Gorbachev quisesse praticar o exemplo chinês de reforma econômica e deixasse a “glasnost” [ru. “transparência”] no forno, não teria funcionado. Essa é a simples, honesta verdade.

O ponto é que o crescimento econômico da China pode ser tão dinâmico porque pôde explorar a “globalização”; e a União Soviética existiu em mundo absolutamente diferente, desprezada pelo ocidente e desonrada em boa parte do oriente. Foi deixada em ostracismo.

Abertura do Jogos Olímpicos de Moscou em 1980
Não esqueçam que o ocidente boicotou os Jogos Olímpicos de Moscou em 1980. Os remanescentes da Emenda Jackson-Vanik ainda assombram as relações russo-norte-americanas. Assim sendo, a latitude que a “comunidade internacional” permitiu à China nos anos 1970s, 80s e 90s e já entrada a era pós guerra fria, para exploração ótima de sua economia, foi um luxo não acessível para Gorbachev.

Em segundo lugar, não havia meio pelo qual o estagnado sistema soviético pudesse energizar outras economias, além de agitar a fossa, que foi o objetivo da “glasnost” de Gorbachev. Como ele próprio disse, em tom de lamento, o gerente soviético era como um pássaro com medo de voar e empreender aos céus, mesmo depois de aberta a gaiola.

Medvedev, além disso, também foi parcial, ao dizer que a alienação do cidadão soviético, em relação ao sistema, começou com Gorbachev. No meu modo de ver, Gorbachev herdou a crise de credibilidade do partido comunista soviético.

Bem claramente, uma década inteira antes da era Gorbachev, em 1975, quando pela primeira vez cheguei à União Soviética para trabalhar na embaixada [da Índia] como diplomata, o que mais me chamou a atenção foi a profunda desconexão entre o sistema soviético e o cidadão soviético, e o modo como o cidadão se autoconfinava num mundo surreal, carregado de cinismo.

Para mim, francamente, foi um choque, porque não era o que esperava ver. (Não estou convencido de que o fenômeno do cinismo soviético tenha acabado, sequer depois de dissolvido o sistema soviético. Quem eram os “oligarcas”?).

Quando a URSS afundou salvaram-se todos
Uma terceira grande diferença é a natureza da economia chinesa, muitíssimo diferente da economia soviética (e russa) que depende criticamente da renda das exportações de petróleo. É útil lembrar que Gorbachev, provavelmente, jamais teria tido de ajoelhar-se e suplicar que o ocidente o “resgatasse”, se o petróleo estivesse sendo vendido, digamos, a $15 o barril, em vez dos $8 daquele momento crítico.

Além disso, a União Soviética não tinha indústria de manufaturas fazendo jorrar produtos exportados para o mercado mundial. Para piorar, a União Soviética carregava o peso do “internacionalismo proletário” – farinha de trigo e petróleo para o governo socialista de Najibullah no Afeganistão, por exemplo.

A China, por sua vez, preferiu chamar-se ela própria de “país emergente”, o que a absolve da necessidade de operar como rede de providência para toda a humanidade. A China tampouco está promovendo o socialismo pelo mundo. De fato, a China cuida clinicamente de garantir que praticamente todo o seu dinheiro excedente seja posto só onde se vejam feitos e efeitos que a China deseja obter do que a China faz [1]... Seja na África ou no Sri Lanka.

Mais uma vez, é preciso falar sobre a “formação social”. A URSS esteve muito à frente da China em termos de desenvolvimento social, e mesmo hoje a Rússia tem padrão de vida muitíssimo superior ao do povo chinês, em termos per capita. A questão é que a mente humana precisa ser motivada.

Os cidadãos soviéticos bem letrados, bem educados e intelectualmente lúcidos jamais teriam aceitado o que hoje passa por “reforma econômica”. Esse é o ponto no qual a China tem uma vantagem. Mas o que acontece quando o desenvolvimento social chinês avançar, fizer crescer as expectativas e, claro, no caso de o mercado ser real e genuinamente desamarrado?

Massacre de Gwangiu - milhares de manifestantes foram mortos e feridos pela repressão na Coreia do Sul em maio de 1980
Por acaso, eu morava e trabalhava em Seul no final dos anos 1970s e início dos anos 1980s. Com a sociedade ganhando melhor educação, tornando-se mais próspera, mais dona de suas opiniões, o velho paradigma deixou de funcionar – em outras palavras, enquanto o regime saiu-se bem no front econômico, e enquanto funcionou bem a estratégia de crescimento orientado para a exportação, a política foi irrelevante.

Eu estava lá quando do assassinato do presidente Park Chung-hee em outubro de 1979 (pai do atual presidente democraticamente eleito Park Geun-hye) e do sangrento caso Gwangju em maio de 1980. Vistos em retrospecto, foram as dores do parto da democracia na Coreia do Sul.

A China não tem muito a ganhar com estudar a “queda” da União Soviética – exceto, talvez, sobre os perigos de uma nova Guerra Fria. A União Soviética foi parte da tradição intelectual ocidental; e, a consciência histórica da China e os pontos de atracação cultural são vastamente diferentes. Pode-se dizer que esse é o motivo pelo qual o ocidente põe a barra democrática num ponto muito mais alto para a Rússia, hoje, do que parece interessado em demarcar para a China. 

Considerando que é historiador, a entrevista de Medvedev desaponta.



Nota dos tradutores
[1] Orig. put your money where your mouth is: “mostrar, por ações e não só por palavras, que você apoia ou defende alguma coisa”.
__________________________


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online, Strategic Culture, Global Research e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.