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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Rir de dó

Raul Longo

Escrito e enviado por Raul Longo

Um novo correspondente cumprimentou-me pelo humor empregado em uma análise que lhe fiz sobre o emprenhamento pelo ouvido da mídia britânica ao se deixar engravidar pela mesma osmose com que nossa mídia engravida o que ainda resta de classe média brasileira estupidificada (a “crasse mérdia”).

Otimista, comentei que ao longo dos últimos anos a gravidez prematura e oitiva entre nossa classe média se reduziu sensível e proporcionalmente à ascensão da miséria social das décadas anteriores. Mas lembrei que com essa crise internacional a afetar os rendimentos especulativos das finanças inglesas, a Ilha Britânica tem importado as barrigas de aluguel que empurram nossa imprensa.

A "barriga"do Financial Times corroborada pela imprensa-empresa brasileira
E assim o Financial Times deixou crescer o rotundo ventre da notícia sobre a fortuna do Lula. Mesmo reconhecendo ser modesto o que lhe venderam como aferição dessa fortuna do ex presidente, agora o FT se vê obrigado a praticar um aborto, caso queira manter a imagem de casta donzela ludibriada pelo sedutor e irresponsável hacker contratado pela política de oposição do Brasil, liderada pelo Grupo GAFE – Globo, Abril, Folha e Estado de São Paulo, que conferiu ao Lula o que Lula nunca possuiu.

Eliane inspirada
Expliquei ao correspondente que os ingleses adquiriram sêmen tão gorado quanto os que inflam as barrigas de Eliane Cantanhêde, Carlos Sardenberg, Mirian Leitão e demais donzelas dos peitos caídos da mídia brasileira.

O correspondente diz ter rido muito, mas achei que seria mais honesto demonstrar as origens e verdadeiras razões do meu humor, talvez não tão nobres quanto se as possa imaginar. Contrito, compartilho essas explicações com os demais. Me desculpem, mas é isso:   

Acho que essa coisa do humor aprendemos quando a ditadura militar transformou o país num cárcere. Se chorasse apanharia, se desesperasse apanharia, se enlouquecesse apanharia, se mantivesse a sobriedade apanharia e se risse apanharia também. Daí muita gente resolveu apanhar rindo. De tanto rir, também houve quem morresse ou desaparecesse. Não morreram propriamente de rir, mas ao menos morreram rindo. O que não muda em nada o que há de tétrico na morte em mãos de uma ditadura, mas pelo ao menos era uma opção e naqueles tempo haviam poucas.

Sardenberg trabalhando
Hoje, sob os tacões da ditadura midiática exercida pelas 4 famílias do Apocalipse Now que nunca chega, mas se alardeia a cada edição de diários, semanários, mensários e outros bestiários; mantemos ainda a herança daqueles tempos em que se criou e se desenvolveu os poderes dessas “famiglias”.

Poderia aqui tergiversar por analogias e a coincidência do mesmo Francis Coppola que dirigiu “O Poderoso Chefão” ter dirigido o “Apocalipse Now”, mas fiquemos em minhas heranças da ditadura.

Digo herança, mas às vezes me pergunto se não seria uma doença contraída naqueles tempos? Uma dessas doenças psicossomáticas com as quais se tem de conviver pelo resto da existência. Uma doença sem cura como a de um meu personagem, baseado em um amigo real da Bahia. Homônimos, assim como seu modelo o personagem também ri em momentos de nervoso e é rindo que, no conto, explica para alguém que testemunha uma briga de capoeira o que nessas ocasiões ocorria ao Jair Dantas real: “Não gosto de violência e fico nervoso só de ver briga de cachorro. E quando fico nervoso não consigo segurar a risada”. Depois de desferir uma pancada num adversário que imaginou aproveitar o momento de distração, o Jair do conto arremata a explicação pra moça: “Rio de dó”!  

Míriam Leitão sorrindo
Muitas vezes é o que acontece a esse meu humor e o considero doentio por resultar de motivações doentias.

Veja uma coisa: conseguirias imaginar algum governante que cumprisse dois mandatos sem cometer erro algum, nenhuma falha, fazendo exclusivamente o melhor para um povo, um município, um estado ou um país? Impossível! Esse super-homem não existe e é evidente que ao longo de seus 8 anos de governo, Lula cometeu erros, sim. Mesmo que não intencionais, mesmo que involuntários.

Se Lula não houvesse cometido nenhum erro, hoje não teríamos qualquer miséria, nenhum lavrador sem terra, nenhum trabalhador desempregado, nenhum menino sem escola, nenhum doente sem atendimento ou em atendimento deficitário.

Evidente que, nem Lula, nem qualquer outro seriam capazes de em dois ou quatro mandatos resolver todos esses problemas para os quais se fazem necessárias décadas de sucessivos bons governos até que, num país desse tamanho e secularmente espoliado, atinjamos níveis escandinavos. Mas são os problemas que sobraram a ser resolvidos pelos sucessores do ex-operário.

E o que deveria fazer sua oposição política que praticamente não mais existe ou a jornalística que substitui aquela com idêntica incompetência? Como o Lobo Bobo do clássico da Bossa Nova emprenham desavisadas chapeuzinhos vermelhos da mídia inglesa, ao invés de conquistar quem mais interessa num processo político democrático expondo a seus leitores e eleitores como resolverão esses problemas se reconduzidos ao poder.


Insistem na inócua e estéril tentativa de convencer que Lula teria feito o que todos os governos anteriores ao dele fizeram: roubar e permitir roubar o patrimônio e os recursos financeiros públicos.

FHC por Fraga
Ora! Que coisa mais estúpida! Como podem não enxergar o que seus próprios institutos de pesquisa como o IBOPE da Globo ou da Datafolha da Folha de São Paulo demonstram: mais de 90% de aprovação ao final do 2º mandato, um feito único na história universal da democracia, admirado por todos os governantes do mundo conforme expresso pelos presidentes dos Estados Unidos e da Austrália.

O que pretendem acusando Lula de ter roubado? O máximo a que conseguem chegar é à conclusão de um meu vizinho que até 2003 foi antilulista militante por não confiar na capacidade de um “semianalfabeto” para dirigir sequer grêmio recreativo. De tanto falarem que o Mensalão foi o maior esquema de corrupção política da história, desde aquela manipulação da mídia acabou considerando Lula um gênio, baseando-se na comparação dos 8 anos anteriores ao 2003 quando com todo o arrecadado pelas maiores privatizações já promovidas no país, o governo FHC ainda triplicou nossa dívida externa com empréstimos trilhardários ao FMI. E, embora tenha recebido um fundo de caixa do Tesouro Nacional com significativo salvo positivo, o entregou com o maior déficit de sua história, deixando o Brasil com a pecha de um dos maiores riscos de investimento no mundo e com progressivos e alarmantes índices de aumento de juros, inflação e desemprego.

E Lula se diverte!
Diz o vizinho em sua lógica insofismável:

Se esse cara pagou as astronômicas dívidas internacionais, repôs os prejuízos, recuperou grande parte da sucateada infraestrutura, elevou as reservas nacionais a valores jamais atingidos, resgatou ao país uma imagem internacional que nunca teve e ainda elevou à classe média a maioria da população miserável, reduzindo o desemprego a níveis recordes; prefiro um presidente semianalfabeto do que o mais destacado acadêmico a ocupar o Palácio do Planalto. Agora, se além disso tudo ainda me provarem que ele roubou, vou criar uma nova igreja, pois mais do que gênio Lula é um milagre vivo. Algo como seria Jesus se além de repartir o pão, ainda levasse um saco cheio para casa.

A lógica do meu vizinho é tão evidente e simples, que por mais mal humorado fosse, só rindo desses apocalípticos da mídia que tentando ser trágicos insistem indefinidamente no gênero comédia pastelão.

E desses que contrataram o hacker para tentar descobrir o butim do roubo do Lula e acabaram encontrando o contrário do que procuravam, como acontecia ao Jair, rio de dó!

sábado, 12 de janeiro de 2013

Financial Times tranquiliza a “CRASSE MÉRDIA” brasileira



Escrito por Raul Longo
Enviado por Sílvio de Barros Pinheiro
Alterações e correções: redecastorphoto



Com o passar dos anos, desde 2003 reduziram-se os setores da “crasse mérdia” brasileira preocupada com o enriquecimento do ex operário Luís Ignácio Lula da Silva.

Antes de 2003 a preocupação era ainda maior. Alguns até imaginavam que se virasse presidente do país Lula compraria todos os aparelhos “3 em 1” do mercado, desfalcando os lares de consumidores da, então, maravilha acústica. Previsões menos modestas acreditavam que monopolizaria a produção de ternos Armani e o próprio presidente da FIESP cogitou que expulsaria todos os empresários do país para não sofrer concorrência.

Mesmo assim Lula virou presidente e a cada de seus dois mandatos aqueles setores “crasse mérdia” foram se reduzindo -- a despeito ou graças às previsões dos especialistas em economia do Grupo GAFE: Rede Globo, Editora Abril, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo -- por tanto afamados como os 4 cavaleiros do Apocalipse que não veio.

Ainda que se reduzissem os setores preocupados, ampliaram-se as preocupações dos renitentes e se chegou a anunciar que o filho do ex-operário – vejam que acinte – haveria adquirido a fazenda do maior criador de gado nelore do Brasil. Um descalabro que descabelou muita gente preocupada com o continuar daquela roubalheira que não deixaria sobrar nada para ninguém quando os de sempre retornassem ao poder. Felizmente o proprietário e suposto vendedor da tal fazenda tranquilizou todo mundo avisando que aquilo não passava de boato e sequer fora consultado sobre a inexistente possibilidade de suas terras estarem a venda.

Então se aventou um “aerolula” folheado a ouro. Isso revoltou muitos da “crasse mérdia”, pois nem o luxo do IFHC, ainda maior que o do apartamento de Paris do mesmo FHC, chegara a tanto. Mas em 2011 Lula voltou para casa e não levou o avião e caso alguém da alta “crasse mérdia” brasileira torne a ocupar o poder, poderá brincar com a aeronave.

Eis então que o jornalista Amaury Ribeiro lança um livro onde comprova documentalmente os desvios da filha do Serra, do genro do Serra, do primo do Serra, do cunhado do Serra e dos amigos do Serra. São cifras astronômicas e se o Serra sequer foi presidente do Brasil por ter perdido do ex-operário e até de uma mulher, o que esses dois não haverão roubado na presidência? Imaginem vocês: um ex-operário e uma mulher!

O Genoíno, por exemplo, foi só presidente do PT e roubou tanto que foi condenado pelo Joaquim Barbosa e seus comparsas (Houaiss, 1) do showmício no STF. Nem Barbosa nem Gurgel conseguiram provar que o Genoíno roubou, mas ’tá na cara que o Genoíno roubou! Não se encontrou nada: nem documento, nem dinheiro, nem propriedade ou qualquer outra coisa, mas o Genoíno roubou. Roubou porque a revista Veja e o Roberto Jefferson viram. Quer dizer, ver não viram... Mas garantem! E se a Veja garante, como é que o Barbosa e seus comparsas (Houaiss, 1) no showmício do STF não iam condenar, não é mesmo?

Tudo o que se comprova que o Genoíno possua é uma casa de periferia que não deve valer nem R$ 100 mil, mas a "crasse mérdia" preocupada com o regresso de seus representantes ao poder, delira com fortunas incalculáveis. Se delira com a fortuna inexistente do ex presidente do PT o que não delirará com a do ex Presidente do Brasil? Tanto que alguém fez circular pela internet uma capa de edição da revista Forbes apontando Lula como um dos bilionários do mundo.

Mas aí veio um gaiato e estragou o prazer masoquista da “crasse mérdia” preocupada com a possibilidade de que Lula roube tudo antes que voltem ao poder, revelando esta montagem:



Nem assim o setor Masoch [1] da classe média brasileira - a "crasse mérdia" - se deu por vencida e continua vibrando de gozo ao acusar Lula de ladrão. São os velhos especuladores, as viúvas de FHC, os MILICANALHAS saudosistas da ditadura que os acoitava, os contrabandistas e demais rufiões tratados injustamente pela democracia que os impossibilita de voltar ao poder e, na falta de atividade mental, entregam-se à lascívia de distribuir preocupações sobre o quanto Lula terá roubado do país.

Com isso enlouquecem a “crasse mérdia” que, por sua vez, se sempre sentiu o maior prazer em ser roubada por acadêmicos, poliglotas, professores, doutores, playboys, médicos, engenheiros, generais e todos os que possam ser considerados gente-de-bem, jamais, nem imaginar, poderia admitir ser roubada por um ex-operário. Muito menos nordestino! É uma afronta!

Mas neste endereço da Financial Times, Lula’s ‘loot’: not much to look at, veio o tranquilizante. Ninguém mais precisa se preocupar. Ao contrário do que faz entender o Grupo GAFE - Rede Globo, a revista Veja da editora Abril, a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, Lula não ficou rico.

Os muito preocupados que não leem inglês podem pedir pela tradução da página ao Google ou a alguém alfabetizado neste idioma para saber o que os britânicos deduziram da suposta fortuna de Lula. Dou uma forcinha aqui: o Financial Times, conhecido informativo capitalista inconfundivelmente neoliberal, conclui que com 30 anos de vida pública os poucos bens que Lula possui são modestíssimos. Conforme o informante da FT, um hacker contratado por um político da oposição, até deprecia as propriedades do ex-operário dizendo-as mal conservadas e mal localizadas.

Já quanto ao apartamento do FHC a Financial Times não diz nada. Também não sobre a mansão do Serra nos Jardins em São Paulo. Tampouco sobre apartamento milionário acusado pela filha não reconhecida do Álvaro Dias ou sobre os imóveis em BH e Nova Lima e os apartamentos do Leblon e de Ipanema do Aécio Neves. Mas para os masoquistas da “crasse mérdia”, isso é de bom tom e só comprovam o bom gosto de seus ídolos políticos.

Nota do autor
[1] Leopold von Sacher-Masoch – escritor austríaco autor do romance A Vênus de Peles onde um dos personagens atinge o orgasmo quando surrado pelo amante da esposa. Daí que se deu a origem aos termos masoquismo e masoquista; no Brasil também versado para eleitor de candidato tucano. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Alexis Tsipras: “Manteremos a Grécia na Eurozona”


12/6/2012, *Alexis Tsipras, Financial Times, Londres
Traduzidopelo pessoal da Vila Vudu


Alexis Tsipras
Para que não reste qualquer dúvida: nosso movimento – Syriza – compromete-se a manter a Grécia na eurozona.

O presidente Barack Obama acertou, quando disse, 6ª-feira passada: “Agora, faremos todo o possível para crescer, ao mesmo tempo em que nos engajamos num plano de longo prazo para estabilizar nossa dívida e nossos déficits, e começamos a forçá-los para baixo, de modo sensível, continuado”. O mesmo se aplica à Grécia. A necessidade de dar à Grécia uma chance de crescimento real e um novo futuro é hoje mais amplamente reconhecida do que jamais antes.

Creio firmemente que receberemos um claro aval democrático do povo da República Helênica, no próximo domingo. Com esse aval, entraremos em ação imediatamente para por fim à corrupção e às ineficiências dos sistemas político e regulatórios que devastam nossa economia há décadas. O povo grego também espera que assumamos imediatamente plena responsabilidade por tirar o país da crescente crise humanitária que nos assola.

A Coalizão Syriza é hoje, na Grécia, o único movimento político que pode oferecer estabilidade econômica, social e política ao nosso país. A estabilização da Grécia, no curto prazo, trará benefícios para a Eurozona, num momento crítico na evolução da moeda única. Se não alterarmos nosso rumo, a austeridade, ela sim, acabará por nos jogar para fora do euro.

Coalizão Syriza - Logo
Só a Coalizão Syriza pode garantir a estabilidade grega, porque não temos de carregar a pesada carga política dos partidos do establishment que arrastaram a Grécia até a beira da ruína. Por isso os eleitores apoiam nosso compromisso de salvar nosso país da destruição. Veremos a Grécia seguir nova trilha rumo ao desenvolvimento, com governo transparente. Uma Grécia renovada contribuirá para dar novas bases a uma Europa mais solidamente unificada. Os acontecimentos do fim de semana na Espanha confirmam que a crise é pan-europeia, e o modo como vem sendo conduzida até agora absolutamente não produziu qualquer bom resultado.

O povo grego quer substituir o fracassado Memorando de Entendimento (assinado em março com a União Europeia e o FMI), por um “plano nacional para reconstrução e crescimento”. É indispensável fazê-lo, para, simultaneamente, impedir que se alastre a crise humanitária na Grécia e salvar a moeda comum.

Os problemas fiscais sistêmicos da Grécia são, em larga parte, problema de não haver recursos públicos. Milhões em isenções de impostos e renúncia fiscal concedidos por governos anteriores para favorecer alguns interesses especiais, somados a impostos mal distribuídos sobre a renda pessoal e o capital, explicam grande parte do problema. E os problemas de arrecadação ineficiente explicam outra parte.

Segundo Eurostat, a Grécia está 4% abaixo da média da eurozona na relação recursos públicos/PIB. O sistema político bipartidário desperdiçou décadas ignorando, para sua conveniência, a grave necessidade de promover reforma fiscal profunda e efetiva. Concentrou-se em esforços para arrancar impostos de uma única fonte, limitada e exaurível: as famílias de renda média e baixa.

Nos termos do nosso plano de reconstrução e crescimento, a Coalizão Syriza compromete-se a seguir um programa de estabilização fiscal pragmático e socialmente justo. A estrutura desse programa implica estabilizar o gasto público em aproximadamente 44% do PIB e reorientar os gastos públicos para que sejam socialmente mais justos; aumentar a arrecadação com impostos diretos que acompanhem os níveis médios na Eurozona (cerca de mais de 4% do PIB), num período de quatro anos; e reformar o regime de impostos de modo a equalizar a riqueza e a renda de todos os cidadãos; e distribuir equitativamente a carga tributária.

A  Troika (FMI, BCE e CE)

Continua a faltar transparência financeira, mesmo que os bancos gregos sejam recapitalizados com empréstimos recebidos da Troika (União Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu). Garantiremos que os bancos viáveis sejam recapitalizados de modo transparente e compatível com o interesse público. Só assim será possível garantir que todo o sistema financeiro recupere plena estabilidade.

Arthur Miller escreveu que “uma era pode ser considerada acabada, quando se esgotaram todas as suas ilusões básicas”. A ilusão básica de bom governo na Grécia sob o antigo regime de dois partido esgotou-se. O sistema velho é hoje absolutamente incapaz de assegurar que a Grécia volte a crescer e possa integrar-se plenamente à Eurozona.

No domingo, começaremos a construir novos tempos de crescimento e prosperidade. Segunda-feira, a Grécia entra em uma nova era.

*O autor deste artigo é candidato a presidente  da Grécia pela Coalizão Syriza, principal grupo da atual oposição grega.


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Murdoch, como Napoleão, é um grande homem mau

Conrad Black

14/7/2011, Conrad Black, Financial Times, Londres
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Conrad Black foi diretor e editor-chefe dos Telegraph Newspapers e de vários outros jornais. Foi condenado em cinco processos por fraude e obstrução da justiça em 2007. Cumpriu 29 meses de prisão, até que a Suprema Corte o absolveu. Uma corte de apelação restaurou duas das condenações e Black deverá cumprir mais 7½ meses de prisão. Ele continua a jurar inocência. Escreve coluna semanais para a National Review.


Rupert Murdoch é, provavelmente, o mais bem-sucedido proprietário e operador de empresa de comunicação da história. Não há o que dizer contra sua firmeza, visão e capacidade para fazer, na conquista do mercado britânico de tablóides, na liderança da integração vertical da mídia, unindo estúdios de cinema e estações de televisão, na quebra do monopólio dos EUA na televisão britânica, e é um dos mais notáveis pioneiros da televisão por satélite e na criação de uma rede conservadora-populista de notícias. (Foi para reduzir a dependência da News Corp, do Tea Party de Roger Ailes, que Murdoch tanto insistiu em gastar $13,3 bilhões de dólares para comprar o controle acionário da BSkyB.) Também é preciso admitir que o Wall St Journal é o único produto de qualidade que Mr. Murdoch algum dia comprou e, de fato, aprimorou.

Teve sorte algumas vezes, sobretudo quando Margaret Thatcher isentou de qualquer regulação seu satellite telecasting (apesar de ela só estar retribuindo os favores que recebeu do Sun); quando perdeu o leilão para comprar MGM, pouco antes da crise financeira quase mortal de 1990; e quando a British Satellite Broadcasting foi gerida com tal inépcia por Granada e outros, que morreu em seus braços há vinte anos. Mas sorte é parte pequena, na explicação de seu sucesso.

É pouco provável que Mr. Murdoch, seu filho James, ou Les Hinton tenham cometido crimes (Mr. Hinton é homem muito decente). Gente de discernimento não se deve deixar impressionar pelo processo, que conheço tão bem, como o conhecem outras vítimas dele, de uma mídia hostil que vive de solenemente citar professores de Direito e fontes que se escondem no anonimato (quase sempre mera expressão de fantasias tendenciosas pessoais dos próprios jornalistas), em comentários sobre as dificuldades que os Murdochs enfrentam hoje com a justiça. Ninguém deve invejar The Guardian, a BBC, a CNN, o New York Times e outros que se divertem à custa dessas dificuldades, nem levar excessivamente a sério o que dizem. Mr. Murdoch é, como Clarendon disse de Cromwell e o historiador britânico David Chandler atualizou para Napoleão, “um grande homem mau”. É errado lançar dúvidas sobre sua grandeza, a partir do que nele é mau.

Denegrir Murdoch tem sido, até bem recentemente, suja atividade na qual se empenham, principalmente, os invejosos, a extrema esquerda e os comercialmente não competitivos, comentaristas incapazes de leitura não interessada, quase sempre – mas nem sempre. Quanto a isso, pelo menos, essa é a hora da verdade. 

Por décadas, o establishment britânico professou desprezo por Mr. Murdoch mas não o contrariou e sempre lhe foi servil (“Desaprovo Rupert profundamente, mas até que gosto dele” foi o refrão mais tedioso), como quando se viu bem claramente que boa parte da Londres ‘que pensa’ esperava que ele derrotasse o Daily Telegraph na guerra de preços que lançou em 1993. É motivo de algum orgulho para nós, do Telegraph que, então, não tenhamos sido derrotados. Por mais que queira responder resposta robusta aos britânicos, nem por isso preciso praticar o desarmamento verbal unilateral.

Surpresa será se alguns dos empregados da News International não se envolveram em crimes, revelando o clima de imunidade que regeu o modus operandi do grupo ao longo de décadas. Sucessivos governos na Grã-Bretanha submeteram-se de modo supinamente obsequioso a ele. Quanto mais os títulos de livros de jornalistas do grupo vituperavam a família real, mais seus livros apareciam resenhados no Sunday Times.

Apesar de ser homem de personalidade em geral bem agradável, Mr. Murdoch não é leal a nada e a ninguém, exceto ao seu negócio. Tem dificuldade para cultivar amizades; raramente mantém a palavra por muito tempo; é especialista em explorar o desconforto dos outros; e traiu todos os líderes políticos que algum dia o ajudaram em vários países do mundo, exceto Ronald Reagan e talvez Tony Blair. Todos os seus instintos apelam aos mercados populares: não é apenas sensacionalista de tablóides; é mal intencionado fazedor de mitos, assassino da dignidade dos outros e de instituições respeitáveis, tudo sob a máscara do antielitismo. Finge-se de pilar do populismo contemporâneo ilustrado na Grã-Bretanha; e de conservador sensível nos EUA – mas há anos lambe botas em Pequim. 

Sua noção de entretenimento público e valores civis são os mesmos do seriado de televisão “The Simpsons”: todos os funcionários públicos são escroques e o público é um lumpenproletariat ignorante. Nada há de ilegal nisso, e tem aspectos engraçados, mas é inadequado em alguém que tem sido alvo de tanta reverência e favorecimento oficial.

Antes de a empresa News Corp desistir da proposta para comprar o controle acionário da BSkyB, eu ainda acreditava que, se se tratasse apenas de alguns jornalistas que subornaram alguns policiais e invadiram algumas privacidades, as autoridades deveriam aplicar-lhes as devidas palmadas e deixar que o negócio se consumasse. Que seria coisa pequena. Ninguém precisa de intrusões regulatórias tolas, e tudo acabaria como mais uma das trapaças camufladas de Rupert, que voltaria com oferta para comprar por melhor preço.

De fato, não vejo qualquer diferença prática, no que tenha a ver com interesse público, que Mr. Murdoch já controle, como controla, a BSkyB, ou que venha a ser único proprietário da empresa. Se, mas só nesse caso, a empresa News Corp for considerada legalmente culpada de crimes institucionais – e os réus têm sempre a seu favor a presunção de inocência (por mais que esse direito só muito raramente seja respeitado) – a licença da empresa para transmitir por satélite deve ser cassada.

Trata-se de recuperar a integridade das elites inglesas governantes, e nada conseguirão com as frágeis racionalizações de Alastair Campbell que o Financial Times publicou na 2ª-feira, nem com o pouco convincente recurso a princípios, de Ed Miliband.

É preciso resgatar o que sobre de décadas de covardia do establishment, frente a alguém cuja natureza todos conheceram sempre muito bem. Errou o establishment britânico. E não pode deixar-se seduzir e intimidar tão profundamente e por tanto tempo, outra vez.