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quinta-feira, 21 de junho de 2012

SYRIZA triunfa e… perde as eleições. Mas a luta continua...


21 de Junho, Yorgos Mitralias
Extraído do sítio CADTM  
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Yorgos Mitralias
Faltaram uns escassos 2,77% dos votos para a Coligação de Esquerda Radical (SYRIZA) ganhar as eleições gregas e coroar triunfalmente a ascensão em flecha do seu resultado eleitoral, que passou de 4,5% a quase 27% em menos de 3 anos! Contudo, a coligação de direita Nova Democracia e seus acólitos de todas as proveniências (os velhos sociais-liberais do PASOK e os aprendizes de social-democratas da Esquerda Democrática) têm todas as razões para suspirar de alívio: a ameaça de formação de um governo de esquerda que aboliria as medidas de austeridade está afastada, por enquanto...

O alívio é, aliás, geral entre os de cima que nos governam e nos fazem passar fome. O Euro safa-se, os mercados respiram, a senhora Merkel exulta e a Internacional dita “Socialista” dos Papandreou e Hollande felicita-se com a “derrota” destes empecilhos chamados Tsipras & Co.

E então, acabou-se o pesadelo de ver as cobaias gregas revoltar-se e ocupar o “laboratório Grécia”? A resposta é um Não categórico.

O pesadelo promete continuar e tudo indica que o novo governo grego será frágil e fraco, minado por contradições internas, pela crise que não controla e, sobretudo, pela resistência crescente do povo grego...

Aliás, uma análise uma pouco mais aprofundada dos resultados eleitorais do SYRIZA aponta para amanhãs pouco encantadores para os partidários dos planos de austeridade.

Gráfico da distribuição das cadeiras no Parlamento grego
SYRIZA teve o apoio majoritário nas escalões etários de 18 a 45 anos e conseguiu um verdadeiro triunfo nos centros urbanos como a grande Atenas, o Pireu ou Patras, onde vive e trabalha mais de metade da população grega.

Em suma, SYRIZA tem assegurado o apoio da população ativa e jovem, enquanto os partidários da Troika e da austeridade (a Nova Democracia e o PASOK) sobrevivem graças ao apoio da grande maioria das pessoas de idade (mais de 65 anos) e das regiões rurais.

Uma realidade social e política que não augura nada de bom para a reação grega e seus patrões internacionais, se pensarmos que são precisamente estas idades e estas populações urbanas que tradicionalmente fazem a história dos países do Norte...

Se há uma lição a tirar destas eleições gregas, é que SYRIZA tem o apoio garantido dos trabalhadores e dos desempregados, da juventude e dos bairros populares, bastiões históricos da esquerda comunista, onde o PC grego (KKE) tinha... Continue lendo =>

Texto completo publicado em:

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Alexis Tsipras: “Manteremos a Grécia na Eurozona”


12/6/2012, *Alexis Tsipras, Financial Times, Londres
Traduzidopelo pessoal da Vila Vudu


Alexis Tsipras
Para que não reste qualquer dúvida: nosso movimento – Syriza – compromete-se a manter a Grécia na eurozona.

O presidente Barack Obama acertou, quando disse, 6ª-feira passada: “Agora, faremos todo o possível para crescer, ao mesmo tempo em que nos engajamos num plano de longo prazo para estabilizar nossa dívida e nossos déficits, e começamos a forçá-los para baixo, de modo sensível, continuado”. O mesmo se aplica à Grécia. A necessidade de dar à Grécia uma chance de crescimento real e um novo futuro é hoje mais amplamente reconhecida do que jamais antes.

Creio firmemente que receberemos um claro aval democrático do povo da República Helênica, no próximo domingo. Com esse aval, entraremos em ação imediatamente para por fim à corrupção e às ineficiências dos sistemas político e regulatórios que devastam nossa economia há décadas. O povo grego também espera que assumamos imediatamente plena responsabilidade por tirar o país da crescente crise humanitária que nos assola.

A Coalizão Syriza é hoje, na Grécia, o único movimento político que pode oferecer estabilidade econômica, social e política ao nosso país. A estabilização da Grécia, no curto prazo, trará benefícios para a Eurozona, num momento crítico na evolução da moeda única. Se não alterarmos nosso rumo, a austeridade, ela sim, acabará por nos jogar para fora do euro.

Coalizão Syriza - Logo
Só a Coalizão Syriza pode garantir a estabilidade grega, porque não temos de carregar a pesada carga política dos partidos do establishment que arrastaram a Grécia até a beira da ruína. Por isso os eleitores apoiam nosso compromisso de salvar nosso país da destruição. Veremos a Grécia seguir nova trilha rumo ao desenvolvimento, com governo transparente. Uma Grécia renovada contribuirá para dar novas bases a uma Europa mais solidamente unificada. Os acontecimentos do fim de semana na Espanha confirmam que a crise é pan-europeia, e o modo como vem sendo conduzida até agora absolutamente não produziu qualquer bom resultado.

O povo grego quer substituir o fracassado Memorando de Entendimento (assinado em março com a União Europeia e o FMI), por um “plano nacional para reconstrução e crescimento”. É indispensável fazê-lo, para, simultaneamente, impedir que se alastre a crise humanitária na Grécia e salvar a moeda comum.

Os problemas fiscais sistêmicos da Grécia são, em larga parte, problema de não haver recursos públicos. Milhões em isenções de impostos e renúncia fiscal concedidos por governos anteriores para favorecer alguns interesses especiais, somados a impostos mal distribuídos sobre a renda pessoal e o capital, explicam grande parte do problema. E os problemas de arrecadação ineficiente explicam outra parte.

Segundo Eurostat, a Grécia está 4% abaixo da média da eurozona na relação recursos públicos/PIB. O sistema político bipartidário desperdiçou décadas ignorando, para sua conveniência, a grave necessidade de promover reforma fiscal profunda e efetiva. Concentrou-se em esforços para arrancar impostos de uma única fonte, limitada e exaurível: as famílias de renda média e baixa.

Nos termos do nosso plano de reconstrução e crescimento, a Coalizão Syriza compromete-se a seguir um programa de estabilização fiscal pragmático e socialmente justo. A estrutura desse programa implica estabilizar o gasto público em aproximadamente 44% do PIB e reorientar os gastos públicos para que sejam socialmente mais justos; aumentar a arrecadação com impostos diretos que acompanhem os níveis médios na Eurozona (cerca de mais de 4% do PIB), num período de quatro anos; e reformar o regime de impostos de modo a equalizar a riqueza e a renda de todos os cidadãos; e distribuir equitativamente a carga tributária.

A  Troika (FMI, BCE e CE)

Continua a faltar transparência financeira, mesmo que os bancos gregos sejam recapitalizados com empréstimos recebidos da Troika (União Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu). Garantiremos que os bancos viáveis sejam recapitalizados de modo transparente e compatível com o interesse público. Só assim será possível garantir que todo o sistema financeiro recupere plena estabilidade.

Arthur Miller escreveu que “uma era pode ser considerada acabada, quando se esgotaram todas as suas ilusões básicas”. A ilusão básica de bom governo na Grécia sob o antigo regime de dois partido esgotou-se. O sistema velho é hoje absolutamente incapaz de assegurar que a Grécia volte a crescer e possa integrar-se plenamente à Eurozona.

No domingo, começaremos a construir novos tempos de crescimento e prosperidade. Segunda-feira, a Grécia entra em uma nova era.

*O autor deste artigo é candidato a presidente  da Grécia pela Coalizão Syriza, principal grupo da atual oposição grega.


domingo, 3 de junho de 2012

Alexis Tsipras: “Os povos estão em guerra contra o capitalismo”


19/5/2012, Helena Smith - The Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Helena Smith é correspondente do The Guardian na Turquia, Grécia e Chipre

Alexis Tsipras em seu escritório no edifício do Parlamento grego nesta sexta-feira

O destino da Grécia e da Eurozona pode estar agora nas mãos de um jovem de 37 anos de idade e de seu partido Syriza

“A Grécia está sendo usada como cobaia, para um experimento do capitalismo”.

“Não acredito em heróis ou salvadores da pátria”, diz Alexis Tsipras, “mas acredito na luta por direitos. Ninguém tem o direito de reduzir gente honrada a esse estado de miséria e indignidade”.

O homem que tem nas mãos o destino do euro – o líder do partido grego que quer rasgar o acordo de “resgate” do país, de €130 bilhões – diz que a Grécia é hoje a linha de frente de uma guerra que se espalha por toda a Europa.

Longo bombardeio pelas armas de um “choque neoliberal” – aumentos draconianos nos impostos e impiedosos cortes de gastos públicos – provocou imenso dano colateral. “Nunca estivemos em pior posição”, diz ele, mangas arregaçadas, olhos postos num ponto médio entre a sala e o horizonte, por trás da mesa que divide no seu pequeno gabinete no Parlamento. “Depois de dois anos e meio de catástrofe, os gregos estamos de joelhos. O estado social está em colapso; um, de cada dois jovens está desempregado há emigração em massa; o clima psicológico é de pessimismo, depressão, suicídio em massa.”

Mas, apesar de exausto e em frangalhos, o país que está em pior situação na escalada da dívida, na Europa, e à beira da falência, também amadureceu e endureceu. E cada vez mais caminha na direção de Tsipras, para liderá-lo em sua luta.

“Só se perde luta que não se combate”, diz o jovem político, que, quase da noite para o dia, viu seu partido da Coalizão da Esquerda Radical, Syriza, saltar da posição de representante de menos de 5% dos gregos, para mais de 25% dos votos nas urnas.

“Você pergunta se tenho medo... Teria medo, isso sim, se continuássemos naquele caminho, que leva diretamente ao inferno social. Se se luta, sempre há chances de vencer. Estamos lutando para vencer”.

Antes de os gregos terem ido às urnas, dia 6/5, nem Tsipras nem seu partido eram nomes dos quais se ouvia falar muito. Havia quem os visse como uma espécie de caricatura: um ex-estudante comunista de rabo-de-cavalo, liderando um bando de esfarrapados ex-trotskyistas, maoístas, socialistas-caviar e verdes. Os assessores de Tsipras rapidamente admitem que seja vistos por muitos ainda como “militantes” e, sobretudo, da causa da antiglobalização.

Mas, hoje, os jornalistas do Guardian foram o terceiro item na agenda de Tsipras, que nos recebeu em seu gabinete no segundo piso do prédio do Parlamento. Antes de receber o Guardian, Tsipras já recebeu o embaixador da Alemanha na Grécia e o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz. Com os gregos preparando-se para voltar às urnas dia 17/6, e candidato que lidera as principais pesquisas de intenção de voto no país – depois que sua Coalizão Syriza chegou em segundo lugar nas eleições desse mês, em que nenhum dos vitoriosos alcançou maioria que lhe permitisse compor um governo – Tsipras é o homem que todos querem ver e ouvir.

“Não me pareceu tão perigoso, pessoalmente, como quando fala pela televisão, mas tem posições arriscadas”, diz Schulz, saindo da audiência com Tsipras.

“A [próxima] votação na Grécia decidirá não só o que acontece aqui, mas o que acontecerá internacionalmente”, acrescenta o alemão, antes de dizer o que realmente quer dizer: “Se o Memorando [o acordo de empréstimo da União Europeia e do FMI, para ‘'resgate'’ do país] é posto em dúvida, os pagamentos [empréstimos] para a Grécia também são postos em dúvida”.

Tsipras, que completará 38 anos em julho, insiste em deixar claro que a guerra não é pessoal. O inimigo não é Berlin, até agora o principal provedor dos fundos para o monumental “resgate” que deve manter à tona a economia grega, afundada em dívidas. “Não se trata de confronto entre nações ou povos”, diz ele. “De um lado, estão os trabalhadores e grandes maiorias da população; de outro lado, estão os capitalistas globais, banqueiros globais, financistas que lucram nas bolsas de valores, os grandes fundos. Os povos estão em guerra contra o capitalismo... e, como em todas as guerras, o que acontece na linha de frente define a batalha. O que acontecer aqui será decisivo para a guerra em outros pontos”.

A Grécia, diz Tsipras, tornou-se “caso exemplar” para o resto da Europa, porque foi o primeiro país a cair, vítima das políticas neoliberais violentas de “crescimento a qualquer custo”, implantadas em nome de superar a crise.

“A Grécia foi escolhida como cobaia de um experimento: a aplicação de políticas neoliberais de choque. O povo grego entrou aí como porcos-da-Índia”.

“Se o experimento puder continuar, será considerado bem-sucedido; e políticas semelhantes serão aplicadas em outros países. Por isso é tão importante dar por encerrado, aqui, o experimento. Não será vitória da Grécia. Será vitória de todos os povos da Europa”.

Sob as condições do atual plano de “resgate”, que submeteu a Grécia a violentíssima “austeridade” – o poder de compra médio na Grécia já caiu cerca de 35% – e o sistema financeiro internacional, e sobretudo os bancos, são os únicos vencedores, diz Tsipras. “Quem está sobrevivendo?” pergunta ele. “Não são os gregos. Os empréstimos vão diretamente para pagar juros e para pagar bancos”.

Outro ponto que Tsipras quer deixar claro é que não está contra o euro nem contra a união monetária. Para ele, o medo de que a Grécia deixaria a Eurozona está sendo disseminado para aterrorizar as pessoas e manter o status quo. Por causa dos boatos, o país assistiu a saques de “mais de €75 bilhões”, euros sacados dos bancos gregos desde o início da crise em Atenas, em dezembro de 2009.

Na próxima semana, Tsipras estará reunido com representantes do governo alemão em Berlim. Diz que “Angela Merkel deve saber que tem hoje imensa responsabilidade histórica”.

“Não nos opomos à Europa unificada ou à união monetária”, ele insiste. “Não queremos chantagear ninguém. Queremos persuadir nossos parceiros europeus de que o modo como escolheram fazer da Grécia um “caso exemplar” para o resto da Europa e nos desafiar, nessa disputa de vida ou morte, é atitude contraproducente. Os empréstimos que estão propondo à Grécia, ou são negócios acertados entre banqueiros, à custa da sobrevivência dos gregos, ou é jogar dinheiro num poço sem fundo”.

Nos últimos dois anos, Atenas recebeu dois grandes empréstimos da União Europeia e do FMI: €110 bilhões em maio de 2010 e, em março de 2012, mais €130 bilhões, mas os duros programas de ajuste fiscal exigidos como contrapartida, evidentemente não estão funcionando, diz Tsipras.

Se não se cuida agora de reenergizar a mais moribunda das várias economias europeias moribundas, com um empurrão no desenvolvimento, “em seis meses estaremos obrigados a discutir um terceiro pacote de empréstimos e, logo depois, um quarto pacote”, ele prevê.

“Os contribuintes europeus devem saber que, se dão dinheiro à Grécia, deveria haver algum resultado. O dinheiro deveria ser encaminhado sob a forma de investimentos, em projetos, para que se pudesse realmente cogitar de superar as dificuldades e a Grécia pudesse enfrentar, de fato, a questão da dívida. Com a fórmula que está sendo aplicada, e o dinheiro dos novos empréstimos consumido integralmente para pagar dívidas antigas aos mesmos banqueiros, não há meios pelos quais a Grécia possa sair da situação em que está”.

Tudo isso soa em tom notavelmente mais moderado que a retórica furibunda à qual Tsipras estava associado, antes de seu partido emergir como força com possibilidade de chegar à maioria, num Parlamento sitiado.  

A primeira medida da Coalizão Syriza no poder será anular o controverso “memorando de entendimento” que a Grécia assinou com os credores, no qual se detalham as onerosas condições sob as quais o país recebe parcelas semestrais de injeções de dinheiro.

O memorando, diz Tsipras, foi assinado sem consulta aos eleitores gregos. E agora, depois das eleições de 6/5, quando mais de 70% dos eleitores deixaram claro que se opõem àquelas políticas e votaram em partidos “anti-resgate”, é evidente que o memorando já perdeu qualquer legitimidade que tivesse.

É jogo de apostas altíssimas, mas, ele argumenta, a Europa é quem menos tem chances de vencer, porque, diz Tsipras, nos termos da lei europeia, a Grécia não pode ser ‘expulsa’ do bloco de 17 países da União Europeia.

“Os europeus têm de entender que não temos nenhuma intenção de adotar qualquer espécie de movimento unilateral. Só agiremos se formos obrigados a agir, se, antes, eles optarem por algum movimento unilateral”, diz ele. “Se o dinheiro não vier, a Grécia não terá como pagar os credores. Nada disso é muito difícil de entender”.

E se a Grécia parar de pagar os credores, o problema, então sim, sim, mudará de direção. A posição da Grécia é muito mais forte do que tantos supõem.

“Keynes já explicou isso, há muitos anos. Nem sempre o devedor está em posição mais fraca que o credor. A posição do credor também pode ser extremamente difícil. Se você deve £5.000 ao banco, o problema é seu. Mas se você deve £500.000, o problema é do banco. O problema hoje não é da Grécia: é problema de Merkel. É problema europeu. É problema global”.

Bem apessoado, cabelos e olhos castanhos, e competente com as palavras, seja na oratória candente seja na oratória moderada, Tsipras parece mais uma “celebridade” (que é como parte da população grega o vê) do que um salvador, que é como o veem muitos outros gregos.

Seus assessores acrescentam que um de seus heróis é o presidente Hugo Chávez da Venezuela, que faz aniversário também dia 28/7. E que Tsipras não acredita em rótulos político-partidários, “nesses tempos de crise”. Mas Tsipras, embora pareça estar-se preparando para governar e tenha moderado o tom dos discursos, diz que “a luta continua”. 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A Europa e os gregos: Deus nos salve dos salvadores!


28/5/2012, Slavoj Žižek, London Review of Books (online)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“O sujeito que odeia os progressistas em Londres, apresenta-se como progressista na África”
Chesterton, 1808, loc. cit. [1]

Slavoj Žižek
Imagine uma cena de um filme distópico que mostre nossa sociedade num futuro próximo. Guardas uniformizados patrulham ruas semivazias dos centros das cidades, à caça de imigrados, criminosos e desocupados. Os que encontram, os guardas espancam. O que parece fantasia de Hollywood já é realidade hoje, na Grécia.

Durante a noite, vigilantes uniformizados com as camisas negras do partido neofascista Golden Dawn [Aurora Dourada], de negadores do Holocausto –, que receberam 7% dos votos no segundo turno das eleições gregas e que contam com o apoio, como ouve-se pela cidade, de 50% da Polícia de Atenas – patrulham as ruas, espancando todos os imigrados que cruzem seu caminho: afegãos, paquistaneses, argelinos. É como a Europa defende-se hoje, na primavera de 2012.

O problema de defender a civilização europeia contra a ameaça dos imigrantes é que a ferocidade com que os defensores europeus defendem-se é ameaça muito maior a qualquer ‘civilização’, que qualquer tipo de invasão de muçulmanos, e ainda que todos os muçulmanos decidissem mudar-se para a Europa. Com defensores como esses, a Europa não precisa de inimigos. 

Há cem anos, G.K. Chesterton deu forma articulada ao impasse em que se metem todos os que criticam a religião:

“Homens que se ponham a combater igrejas em nome da liberdade e da humanidade espantam de si mesmos a liberdade e a humanidade, no momento em que atacam a primeira igreja (...). Os secularistas não provocaram o naufrágio das coisas divinas; só fizeram naufragar coisas seculares... se isso lhes serve de consolo”[1]

Gilbert K. Charleston
Tantos guerreiros liberais andam tão furiosamente decididos a combater o fundamentalismo não democrático, que acabam esquecendo qualquer liberdade e qualquer democracia, tudo em nome de combater o terror. Se os “terroristas” só pensam e fazer naufragar esse nosso mundo por amor pelo outro mundo, os nossos guerreiros antiterror só pensam em por a pique qualquer democracia, por ódio ao próximo muçulmano. Alguns deles são tão perdidamente apaixonados, fanatizados pela dignidade humana [e, no Brasil, pela chamada “ética”], que chegam a legalizar a tortura... para defender a dignidade humana. É a inversão do processo pelo qual os fanáticos defensores da religião começaram por atacar a cultura secular contemporânea e acabaram por sacrificar até as próprias credenciais religiosas, na ânsia de erradicar todos os aspectos que odeiam no secularismo.

Mas os defensores que insistem em defender a Grécia contra imigrantes não são o principal perigo: não passam de subproduto do perigo muito maior, da ameaça mãe de todas as ameaças: a política de “austeridade” que causou a desgraça da Grécia. As próximas eleições na Grécia estão marcadas para dia 17 de junho.

O establishment europeu alerta que são eleições cruciais: não estaria em jogo só o destino da Grécia, mas o destino de toda a Europa. Um resultado – o correto, segundo eles – levará ao processo doloroso,. mas necessário de recuperação, pela austeridade, para continuar. A alternativa – no caso de vitória do Partido Syriza, de “extrema esquerda” – seria votar pelo caos, pelo fim do mundo (europeu) como o conhecemos.

Syriza
Os profetas do apocalipse estão corretos, mas não como supõem ou pretendem. Críticos dos arranjos democráticos hoje vigentes reclamam que as eleições não oferecem opção real: votamos para escolher apenas entre uma centro-direita e uma centro-esquerda cujos programas são quase absolutamente idênticos. Mas dia 17 de junho, afinal, haverá escolha significativa: de um lado o establishment (Nova Democracia e Pasok); do outro lado, a Coalizão Syriza. E, como acontece quase sempre em que haja escolhas reais no mercado eleitoral, o establishment está em pânico: caos, pobreza e violência eclodirão imediatamente, dizem, se os eleitores escolherem “errado”. A mera possibilidade de vitória da Coalizão Syriza, como se ouve, já dispara convulsões de medo nos mercados. A prosopopéia ideológica é rampante: os mercados falam como se fossem gente, manifestam “preocupação” pelo que acontecerá se as eleições não produzirem governo com mandato para manter o programa de austeridade e reformas estruturais de UE-FMI. Os cidadãos gregos não têm tempo para pensar nas preocupações “dos mercados”: mal conseguem ter tempo para preocupar-se com a sobrevivência diária, numa vida que já alcança graus de miséria que não se viam na Europa há décadas.

Todas essas são previsões enunciadas para se autocumprirem, causar mais pânico e, assim, forçar as coisas a andarem na direção “prevista”. Se a Coalizão Syriza vencer, o establishment europeu ficará à espera de que nós aprendamos com nossos erros o que acontece quando alguém tenta interromper, por via democrática, o ciclo vicioso de cumplicidade bandida, entre os tecnocratas de Bruxelas e a demagogia suicida do populismo anti-imigrantes.

Alexis Tsipras
Foi exatamente o que disse Alexis Tsipras, candidato da Coalizão Syriza, em entrevista recente: que sua prioridade absoluta, no caso de sua coalizão vencer as eleições, será conter o pânico: “Os gregos derrotarão o medo. Não sucumbirão. Não se deixarão chantagear.”

A tarefa da Coalizão Syriza é quase impossível. A coalizão não traz a voz da “loucura” da extrema esquerda, mas a voz do falar racional contra a loucura da ideologia dos mercados. No movimento de prontidão para assumir o governo da Grécia, já derrotaram o medo de governar, tão característico do “esquerdismo”; já mostraram que não temem fazer a faxina do quadro confuso que herdarão. Terão de mostrar-se capazes de montar e cumprir uma formidável combinação de princípios e pragmatismo; de compromisso democrático e presteza para intervir com firmeza onde seja preciso. Para que tenham uma mínima chance de sucesso, precisarão de toda a solidariedade dos povos europeus; não só de respeito e tratamento decente pelos demais países europeus, mas, também, de ideias mais criativas – como a de um “turismo solidário” nesse verão, que já propuseram.

T. S. Eliot
Em suas Notes towards the Definition of Culture, T.S. Eliot [2] observou que há momentos em que a única escolha é entre a heresia e o não crer – i.é, quando o único meio para manter viva uma religião é promover uma divisão de seitas. Essa é, hoje, a posição em que está a Europa. Só uma nova “heresia” – representada hoje pela Coalizão Syriza – pode salvar o que valha a pena salvar do legado europeu: a democracia, a confiança no voto do povo, a solidariedade igualitária etc.. A Europa que haverá para nós, se a Coalizão Syriza for descartada, é uma “Europa com valores asiáticos” – os quais, é claro, nada têm a ver com a Ásia, e tem tudo a ver com a tendência do capitalismo contemporâneo, para suspender a democracia.

Eis o paradoxo que mantém o “voto livre” nas sociedades democráticas: cada um é livre para escolher, desde que faça a escolha certa. Por isso, quando se faz a escolha errada (como quando a Irlanda rejeitou a Constituição da União Europeia), a escolha é tratada como erro; e o establishment imediatamente exige que se repita o processo “democrático”, para que o erro seja reparado.

Quando George Papandreou, então primeiro-ministro grego, propôs um referendum sobre a proposta de resgate que a Eurozona apresentara no final do ano passado, até o referendum foi descartado como falsa escolha.

Há duas principais narrativas na mídia, sobre a crise grega: a narrativa alemã-europeia (os gregos são irresponsáveis, preguiçosos, gastadores, não pagam impostos, etc.; e têm de ser postos sob controle, com aulas de disciplina financeira); e a narrativa grega (nossa soberania nacional está ameaçada pelo tecnologia neoliberal imposta por Bruxelas).

Quando se tornou impossível ignorar o suplício do povo grego, emergiu uma terceira narrativa: os gregos estão sendo apresentados hoje como vítimas de desastre humanitário, carentes de ajuda, como se alguma guerra ou catástrofe natural tivesse atingido o país.

As três são falsas narrativas, mas a terceira parece ser a mais repugnante. Os gregos não são vítimas passivas. Os gregos estão em guerra contra o establishment econômico europeu. Precisam de solidariedade nessa luta, porque a luta dos gregos é a luta de todos nós.

A Grécia não é exceção. É mais uma, dentre várias pistas de testes de um novo modelo socioeconômico de aplicação quase ilimitada: uma tecnocracia despolitizada, na qual banqueiros e outros especialistas ganham carta branca para demolir a democracia.

Ao salvar a Grécia de seus ditos “salvadores”, salvaremos também a Europa.



Notas dos tradutores

[1]  CHESTERTON, Gilbert K., Orthodoxy [1908], “VIII: The Romance of Orthodoxy”, em inglês.

[2] ELIOT, T. S. - Notas para uma definição de cultura. Lisboa: Século XXI, 1996.

Imagens colhidas na internet pela redecastorphoto

segunda-feira, 21 de maio de 2012

SYRIZA: o avanço magistral de uma experiência original de unidade


19/5/2012, Yorgos Mitralias Γιώργος Μητραλιάς – Rede Tlaxcala 
Traduzido do francês pelo pessoal da Vila Vudu

Yorgos Mitralias  é membro fundador do Comitê contra a Dívida Grega, organização afiliada do Comitê para a Anulação da Dívida dos Países do Terceiro Mundo (CADTM) .

Yorgos Mistralias
Espantalho para “os de cima”, esperança para “os de baixo”, a Coalizão SYRIZA faz entrada triunfal no cenário político dessa Europa em crise profunda. Tendo quadruplicado a própria força eleitoral dia 6/5, SYRIZA ambiciona agora, não só se tornar o primeiro partido nas eleições gregas de 17/6, mas, sobretudo, formar governo de esquerda que cancelará as medidas de “austeridade”, repudiará a dívida e expulsará, do país, a Troika. Não é surpresa, portanto, que SYRIZA intrigue tanto também fora da Grécia, e que praticamente todo o mundo interrogue-se sobre sua origem e verdadeira natureza, objetivos, ambições.

Mas SYRIZA não é assim tão plena novidade, na esquerda europeia. Formada em 2004, a Coalizão da Esquerda Radical (SYRIZA) já atrairia a atenção dos politólogos e da imprensa internacionais, porque, desde o surgimento, é formação política completamente inédita e original, na paisagem da esquerda grega, europeia e mundial. Para começar, por sua composição. 

Formada da aliança do partido Synaspismos (“coalizão”), partido reformista de esquerda, de vaga origem eurocomunista e com representantes no Parlamento, com uma dezena de organizações de extrema esquerda – que cobre praticamente todo o espectro, trotskistas, ex-maoístas e do “movimentismo” – a Coalizão da Esquerda Radical já era, desde o surgimento, rara exceção à regra que fazia crer – e continua a fazê-lo – que os partidos mais ou menos tradicionais, postados à esquerda da social-democracia, jamais se aliariam a organizações de extrema esquerda.

Coalizão Syriza (logo)
Mas a originalidade de SYRIZA não para aí. Concebida como aliança sobretudo conjuntural e eleitoral (foi fundada pouco antes das eleições de 2004), a Coalizão SYRIZA resistiu ao tempo e soube sobreviver aos altos e baixos, aos sucessos e principalmente aos fracassos e crises, para tornar-se grande exemplo de uma realidade que a esquerda radical internacional sofre para alcançar: a convivência de diferentes sensibilidades, correntes e até organizações, numa mesma formação política da esquerda radical.

Oito anos depois do nascimento da Coalizão SYRIZA, a lição a extrair salta aos olhos: sim, essa convivência não só é possível, como é também produtiva e frutuosa e, no longo prazo, autoriza a esperar por sucessos ainda maiores.

Mas, pode-se perguntar, como essa dúzia de “componentes” tão heteróclitos da Coalizão SYRIZA puderam encontrar-se e, em seguida, por-se de acordo e conseguir convivência organizacional tão original e tão duradoura? É pergunta pertinente e merece resposta detalhada e aprofundada. Não, o “milagre” de SYRIZA não caiu do céu nem aconteceu por acaso. O grupo amadureceu durante longo tempo e, principalmente, germinou nas melhores condições possíveis, nos movimentos sociais e alteromundistas dos últimos 15 anos.

Pode-se dizer que tudo começou há 15 anos, em 1997, com a constituição do ramo grego do movimento das Marchas Europeias [orig. Marches Européennes] contra o desemprego. Não foi apenas um primeiro passo na direção do que adiante se conheceria como o movimento altermundista dos Fóruns Sociais. Mais especialmente na Grécia, as Marchas Europeias tiveram outra função, talvez mais importante, de fazer algo que, até ali, parecia impensável: unificar a esquerda, na ação. Nas Marchas Europeias, viam-se sindicatos, movimentos sociais, partidos e organizações da esquerda grega (inclusive o KKE, pelo menos, durante algum tempo!), que jamais antes se haviam encontrado e que, em muitos casos, ignoravam-se uns os outros, ali postos lado a lado, para participar de um movimento europeu absolutamente sem precedentes, ombro a ombro com sindicatos, movimentos sociais e correntes políticas de outros países, a maioria dos quais absolutamente desconhecidos na Grécia.

Não é acaso, portanto, que esse primeiro golpe assestado contra o sectarismo visceral que sempre caracterizou a esquerda grega tenha gerado cenas emocionantes de reencontros, em alguns casos, quase sessões de psicodrama, entre militantes que, até ali, absolutamente não sabiam uns da existência dos demais e que, de repente, descobriam que “o outro” nem era muito diferente deles mesmos. A mistura claramente estava ‘dando liga’, com cada vez mais militantes gregos que saíam do país e descobriam a realidade de militantes europeus em carne e osso, os quais, antes, para os gregos, não existiam.

Fortalecidos nessa primeira aproximação pela ação, tanto mais firme, porque acontecia dentro de um novo tipo de movimento social, a maioria dos diferentes elementos políticos que compunham as Marchas Europeias gregas participaram, desde 1999, de uma segunda experiência original, que viria a aprofundar a necessidade de que todos se unissem. Foi o Espaço de Diálogo e Ação Comum [orig. Espace de Dialogue et d’Action Commune] que, ao aprofundar o necessário debate político e programático, preparava os espíritos para a experiência seguinte, unitária e movimentista – o Fórum Social, que marcaria profundamente a evolução da esquerda grega.

Com o enorme sucesso do Fórum Social, abriu-se caminho para a constituição da Coalizão da Esquerda Radical, caminho que foi percorrido quase espontaneamente, na onda de entusiasmo dos anos 2003-4. Os militantes dos vários grupos que constituíram a Coalizão SYRIZA, que se haviam conhecido nas lutas, que haviam viajado e participado juntos das manifestações, aos milhares, em Amsterdam (1997) e Colônia (1999), em Nice (2000) e em Gênova (2001), em Florença (2002), em Paris (2003) etc., não haviam construído só laços políticos, mas também laços humanos. Tudo isso levou à fundação de sua Coalizão da Esquerda Radical. E a Coalizão andava no contrapelo do que se via em outros pontos da Europa, nos quais uma aliança entre um partido reformista de esquerda e grupos da extrema esquerda ainda era, simplesmente, impensável...

Apesar do nascimento tão bem-sucedido, o andamento da aventura de SYRIZA nem sempre foi tranquilo, longe disso; em vários momentos, a coalizão foi interrompida. Evidentemente, houve crises de confiança entre o ramo da SYRIZA formado pelo partido Synaspismos e os parceiros de extrema-esquerda, o que, afinal, era ‘lógico’ e esperado. Mas, com o tempo, a coalizão SYRIZA foi-se homogeneizando, e a homogeneização trouxe, como efeito, que as crises – como também os debates – não só atravessavam praticamente toda a Coalizão e cada um dos componentes, mas também se manifestavam... no interior do próprio partido Synaspismos, ao qual enfurecia ver as próprias tendências afrontadas e em permanente recomposição.

Mas afinal a Coalizão SYRIZA encontrou certa paz interna, depois que, em 2010, separaram-se da coalizão a ala social-democrata do partido Synaspismos (da qual nascera a Esquerda Democrática) e seu ex-presidente Alecos Alavanos. Alavanos, depois de ter “entronizado” seu sucessor, o jovem Alexis Tsipras, converteu-se em seu mais feroz inimigo. Com isso, a linha política da Coalizão tornou-se mais clara (e mais à esquerda). E o jovem Alexis Tsipras instalou-se em autoridade, começou a mostrar serviço e a acumular os primeiros sucessos que dariam a uma SYRIZA cada vez mais radicalizada, a credibilidade necessária para poder beneficiar-se das circunstâncias excepcionais criadas pela crise da dívida. SYRIZA estava então pronta para assumir o papel da formação política que mais bem encarnaria as esperanças e anseios de fatias inteiras da sociedade grega em revolta contra as políticas de ‘austeridade, a Troika, os partidos burgueses e o próprio sistema capitalista.

A lição a extrair dessa história quase exemplar é clara: feitas as contas, a história da Coalizão SYRIZA é história de sucesso que só os sectários impenitentes (e há muitos, na Grécia) ainda tentam negar. Mas a história da Coalizão SYRIZA está longe de terminar, e a parte séria está apenas começando. Em resumo, o saldo que se extrai hoje é provisório. Mas infeliz quem disser, já esperando impacientemente a primeira falta grave ou “traição” de SYRIZA: “Eu bem que avisei”. Não. O saldo, embora até aqui provisório e inacabado, tem de ser calculado com rigor, nos (duros) tempos que correm. Ninguém pode dar-se o luxo, na esquerda radical europeia, de deixar de aproveitar as experiências, sucessos e fracassos, uns dos outros.

Formação política cujo programa é marcado sempre por um... toque artístico, a Coalizão da Esquerda Radical praticamente sempre se equilibrou entre o reformismo de esquerda e um anticapitalismo consequente. E é possível que tenha extraído sua força, precisamente, desse oscilar eterno. Mesmo assim, é preciso ser claro: o que funcionou quase sempre positivamente nos períodos “normais” pode revelar-se como handicap, ou, mesmo, virar bumerangue, em períodos de crise aguda e de exacerbamento da luta de classes. Em termos mais simples, a Coalizão SYRIZA, que conseguiu magistralmente avançar até aqui, se vê transformada, no período de poucas semanas (!), de pequeno partido minoritário na esquerda grega já minoritária, em partido dominante, com pretensões de chegar a ser governo. E, isso, não em um país qualquer, em um momento qualquer, mas nessa Grécia “laboratório” e caso-teste para essa Europa da ‘austeridade’ em pleno ataque de nervos...

A mudança de escala é tão abrupta, que quase dá vertigens. Convertida, em tempo recorde, de espantalho para os grandes, em esperança dos pobres e sem voz na Grécia e, mesmo, em toda a Europa, a Coalizão SYRIZA é convocada hoje a assumir tarefas absolutamente gigantescas e históricas, para as quais não está preparada, nem politicamente, nem em termos de organização. Assim sendo, que fazer?

A resposta tem de ser categórica e clara: Temos, sim, de ajudar SYRIZA! Por todos os meios. E, desde já, não a deixar só. Nem na Grécia nem na Europa. Em termos simples, temos de fazer exatamente o oposto do que fazem os que não conseguem casar suas críticas à Coalizão SYRIZA com a solidariedade e o apoio que temos de dar à SYRIZA, na sua luta contra o inimigo de classe que é inimigo de toda a esquerda, em todo o mundo. Apoio crítico, que seja, mas desde que seja apoio firme. E não para amanhã, mas hoje. Porque, além de divergências de táticas ou outras, o combate que a Coalizão SYRIZA combate hoje é o combate que todos combatemos. Abster-se equivalerá ao crime de omissão de socorro, a alguém em situação de perigo iminente. Ou, melhor dito, a populações e a países inteiros que estão hoje em situação de perigo iminente, sob grave risco!

Grécia: o fim da linha da “austeridade”


15/5/2012, James Meadway, New Economics Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

James Meadway
Essa crise não é grega. É crise europeia, em duas partes. Primeiro, o crash financeiro de 2008 provocou recessão global excepcionalmente severa. Combinado com os resgates dos bancos, o crash levou a aumento acentuado das dívidas e dos déficits em muitas das grandes economias – inclusive em economias da Eurozona.

Com a arrecadação em queda e o desemprego subindo em 2008-9, os déficits dos governos aumentaram. Para tapar o buraco, os governos tomaram empréstimos, o que os endividou ainda mais. Para países da Eurozona, muitos desses empréstimos vieram de bancos europeus. Os bancos gostaram do arranjo, porque assumiram que seria impossível que algum país-membro da Eurozona lhes aplicasse um calote e, assim, seriam empréstimos de baixo risco. Os governos também gostaram, porque parecia que estivessem conseguindo financiamento barato.

Marcha contra a "austeridade" e a TROIKA
Mas havia um problema. Na década de existência do euro, as taxas de câmbio foram efetivamente fixas entre os países membros, cada um em relação aos demais. Já não havia a opção de uma moeda ser valorizada dentro da Eurozona. A Alemanha, com baixo crescimento de produtividade, fez encolher os salários dos seus trabalhadores – com queda da renda média real durante sete anos. Resultado: a Alemanha tornou-se mais competitiva em relação a outros membros do euro. Normalmente, teria acontecido um aumento na taxa de câmbio. Mas o próprio euro impediu que acontecesse.

O que aconteceu foi que as exportações alemãs pareceram muito baratas para países do sul da Europa. Passaram a importar mais da Alemanha (e do norte da Europa em geral), do que vendiam. Abriu-se um fosso no fluxo do comércio: déficits cada vez maiores no sul, e superávits cada vez maiores no norte – e tudo isso dentro da Eurozona. Déficits têm de ser financiados. E essa é a segunda – e crítica – parte da crise. Para financiar os déficits, os países tomaram empréstimos, explorando o novo sistema financeiro europeu recentemente reforçado. Para Espanha e Portugal, esses empréstimos apareceram como dívidas privadas, ajudando a financiar uma enorme bolha de propriedade, enquanto o aumento dos preços levava endividamento cada vez maior. Para a Grécia, apareceram como níveis altíssimos de endividamento público – os lares gregos pouparam, em vez de endividarem-se, durante o boom. Mas em todos os casos, o total da dívida na economia começou a crescer rapidamente.

O crash financeiro, com suas crescentes demandas de empréstimos, correu diretamente para esse desequilíbrio existente. A fagulha que incendiou a crise foi a revelação, em outubro de 2009, pelo novo governo do PASOK, de que a dívida pública grega era muitíssimo maior do que o governo anterior divulgara. Não é crise de gastos públicos. Espanha e Portugal acumularam superávits consideráveis, gastando menos do que arrecadaram em impostos, até que a crise – diferente do que se via na Alemanha e na França, que continuavam deficitárias. A Grécia gastou menos, em proporção do PIB, no setor público, que Alemanha ou França – apesar de padecer evasão crônica dos impostos dos mais ricos.

Trata-se de crise do sistema financeiro, e do próprio euro. Sem resolver os dois lados desse pareamento perverso, a crise não terá fim.

Dois anos de fracassos

As grandes potências, em tentativas sucessivas para resolver a crise, fracassaram redondamente. Seguiram um padrão definido: com os fundos de resgate, que já chegam a €240 bilhões, destinados a permitir que o estado grego pague seus credores, vem a insistência em medidas de austeridade cada vez mais severas. Sob supervisão da Troika UE/BCE/FMI, sucessivos governos gregos jogaram montanhas sempre crescentes de dinheiro nos cofres dos credores internacionais, ao mesmo tempo em que impunham ao povo grego sacrifícios cada vez mais pesados. O impacto sobre a sociedade foi devastador. Para lembrar apenas um exemplo, a Grécia sempre teve o mais baixo índice de suicídios da Europa. No último ano, o número de suicídios subiu 40%.
 
Os planos da Troika jamais tiveram qualquer possibilidade de funcionar. A austeridade é projeto que se autoderrota. Os cortes nos gastos do governo – e fortes aumentos nos impostos – sugam qualquer potencial de demanda que haja em qualquer economia. Se a economia é fraca – e a grega está muito seriamente fraca – tende a enfraquecer ainda mais, porque demanda baixa leva a vendas cada vez mais fracas, cada vez menos gente empregada e salários cada vez menores. Fixa-se um ciclo vicioso de declínio, como aconteceu quando os governos tentaram a mesma via, nos anos 1930s. A economia grega já encolheu 16% em cinco anos, e o desemprego já chega à estratosfera. E o peso da dívida, em vez de diminuir, só aumenta: dos 130% do PIB no final de 2009, já chega hoje aos 160%.

O único modo de remover uma dívida é pagá-la ou cancelá-la. Os tais “resgates” não fazem nem uma coisa, nem a outra. Eles simplesmente mantêm o fluxo de pagamentos, com juros, com os gregos respondendo ao que exigem os credores. Com a economia em colapso – resultado direto da “austeridade” – esse mecanismo foi-se tornando cada dia mais obsceno: um país posto à míngua, morrendo de fone, mantido vivo pelo artifício dos “resgates” e em exclusivo benefício dos credores. Não surpreende que tantos gregos tenham votado contra os partidos da “austeridade”. Não há absolutamente motivo algum para que algum grego aceite esse arranjo miserável.

Syriza (logotipo)
Syriza, a Coalizão da Esquerda Radical, emergiu vitoriosa, em segundo lugar no 1º turno [das eleições do início de maio] e com 27% dos votos, no 2º turno [6 de maio]. Nas áreas urbanas e de classe operária, Syriza já suplantou o Pasok. A coalizão de esquerda fala de suspender todos os pagamentos da dívida e pôr fim às medidas de “austeridade”, como condição para aceitar participar de qualquer futuro governo de coalizão.

As próximas semanas

Finalmente, se começa a por fim a dois anos de fracasso escandaloso da Troika. A situação é complexa. Sujeito a alta incerteza para os próximos meses, o quadro parece ser o seguinte. A tabela adiante mostra as quantias que a Grécia tem a pagar aos credores até o final do ano.


Pagamentos da dívida grega, 2012 (em milhões de euros)
Maio
Junho  
Julho 
Agosto
Setembro
Outubro
 Novembr
Dezembr
11.546  
  2.991
3.030
9.676
     1.019
    1.171
        85
    2.324
(Fonte: Bloomberg)

A maior parcela inclui os €3,1bilhões devidos ao Banco Central Europeu, a serem pagos dia 20 de agosto. Mas qualquer pagamento antes disso, que deixe de ser feito na data prevista, caracterizará (e desencadeará) o calote.

Hoje, é impossível para o estado grego fazer esses pagamentos e, simultaneamente, pagar os funcionários públicos. Se saldar as dívidas nas datas previstas, o estado grego deve continuar a receber novos fundos de resgate da União Europeia. Até agora, a União Europeia tem insistido em que, para receber os fundos de resgate, a Grécia terá de honrar o Memorando de Entendimento assinado ano passado e que obriga o país a tomar medidas de austeridade muito estritas. Se aquelas medidas não forem tomadas, os fundos não serão liberados, o que forçará a “falência”. É possível, mas está longe de confirmado, embora a União Europeia já dê sinais nessa direção – o primeiro-ministro de Luxemburgo e presidente do Euro Group, Jean-Claude Juncker, na 2ª-feira – que se admitirá algum “afrouxamento”.

Se entrar em situação falimentar, não fará sentido algum que a Grécia permaneça na zona do euro. Os bancos internacionais, ao longo do ano passado, livraram-se dos papéis gregos, repassados para bancos oficiais (como o Banco Central Europeu) e bancos gregos; e fundos hedge “viciados” em papeis de risco são hoje os últimos compradores que restam.

O calote não atingirá com muita força bancos de fora da Grécia; e o Banco Central Europeu pode aguentar as perdas. Mas os bancos que operam dentro da Grécia serão varridos. Terão de ser recapitalizados – stocking up com novos fundos – provavelmente sob estrito controle governamental. Não será possível recapitalizar bancos em euros, se não houver nova oferta de euros – e nem o Banco Central Europeu nem os demais bancos terão qualquer interesse em ofertá-los. A recapitalização em alguma nova moeda, sim, é uma possibilidade, se o Banco Central efetivamente imprimir papel-moeda. Um colapso bancário na Grécia pode levar rapidamente a uma fuga de euros.

As eleições estão previstas para entre 10 e 17 de junho. A Alemanha tem repetido que se, depois disso, a Grécia não conseguir formar um governo, ficará sem receber a próxima parcela de ajuda da União Europeia, marcada para ser paga em junho. Isso, também, levaria a Grécia rapidamente à falência e à porta de saída do euro.


Mas qualquer governo que pague o que deve nos termos e condições previstos – se se conseguir formar algum governo – será, em todos os casos, governo vulnerável, de estado extremamente vulnerável. Será terminalmente dependente de novas subvenções que lhe dê a União Europeia. O déficit primário da Grécia – a diferença entre a arrecadação e os gastos, menos os juros – equivale a 1% do PIB. Não é muito, mas, mesmo assim, precisa ser coberto. Se esse déficit não for coberto, seja como for, o estado, em pouco tempo, ficará sem dinheiro para pagar os funcionários, provavelmente, já em julho próximo. Talvez seja obrigado a emitir promissórias – prometendo pagar em euros, em data posterior – e essas promissórias, por sua vez, começarão, de certo modo, a assumir algumas das funções do dinheiro, passando a ser aceitas em lojas etc. Os euros desaparecerão de circulação, tornados valiosos demais seja para trocar por outras moedas, seja para depositar nos bancos gregos. Assim, como pode acontecer, a Grécia sairia do euro quase por acidente, uma saída de facto. 

São baixas as probabilidades de, nos próximos poucos meses, todos os lados conseguirem negociar meios para sair do imbróglio, de modo a que a Grécia possa permanecer integrada à Eurozona. Apesar de o resultado ser ainda incerto e depender de processos políticos, mesmo que a Grécia saia dos próximos poucos meses e das próximas eleições ainda como membro da Eurozona, nem por isso a crise estará resolvida. A dívida pública impor-se-á acima de qualquer outra consideração; sem esperança realista de que seja paga e com a economia em colapso, a questão de integrar-se ao euro, ou não, simplesmente, reaparecerá.

Contágio e colapso

Em teoria, é possível “conter” a Grécia. A UE e o BCE, entre eles, passaram dois anos construindo uma série de “muros corta-fogo” para bloquear a crise e impedir que se espalhasse para fora das fronteiras gregas, com €750 bilhões teoricamente disponíveis. Os credores privados de antes livraram-se dos papéis gregos, reduzindo ao mínimo a própria exposição. Em teoria, a crise na Grécia poderia ser cercada lá mesmo.

50 centavos de Dracma (moeda grega anterior ao Euro)
Mas essa crise não é crise grega. Espanha, Portugal e Itália são também eles parte do mesmo mecanismo de criação de endividamento, gerado pelas desigualdades do euro. Nos anos do boom do euro, o setor privado na Espanha e em Portugal mergulharam em gigantescas dívidas. Um gigantesca bolha desviou o dinheiro dos financiamentos para a propriedade imobiliária, o que fez subirem os preços – até que, num dado momento, mais de 20% da força de trabalho espanhola estava empregada na construção civil. As dívidas privadas incharam. Quando sobreveio o crash, aquelas dívidas tornaram-se impagáveis.

Os bancos espanhóis estão à beira do colapso; o terceiro maior banco espanhol, Bankia, foi discretamente encampado pelo estado, semana passada. A Itália, enquanto isso, padece as dores do baixo crescimento crônico e de uma dívida do setor público de €1,3 trilhão. Também já caiu na arapuca.

Uma erupção na Grécia pode alastrar-se rapidamente para esses três países – em especial, para a Espanha. Pode começar uma corrida aos bancos, se depositantes em pânico convencerem-se de que os governos não terão como resgatar bancos falidos e decidirem sacar o dinheiro depositado. Ou o mercado de ações convencer-se-á de que nas economias mais endividadas os grandes bancos quebrarão sem que os governos possam salvá-los, o que fará subir as taxas de juro e obrigará também os estados a buscar resgate. Ou investidores privados e especuladores, convencidos de que esses estados não têm como garantir os próprios bancos, tratarão de levar seus capitais para outros pontos do mundo, o que implica fuga de capitais e colapso dos bancos.

Ou, de fato, alguma combinação dessas três possibilidades. As taxas de juro cobradas sobre os papeis dos governos espanhol e italiano já começaram a subir muito, com os corretores começando a temer os efeitos do colapso geral. A agência Fitch, de análise de riscos, anunciou que rebaixará todos os países-membros do euro, se a Grécia sair da Eurozona. As “portas corta-fogo” da União Europeia, o temporário Instrumento Europeu de Estabilidade Financeira [orig. European Financial Stability Facility] e o permanente Mecanismo Europeu de Estabilidade [orig. European Stability Mechanism], parecem capazes de conter a enxurrada – pelo menos, no papel. Na prática, contam, não com fundos reais, mas só com a promessa, dos membros signatários, de que pagarão, se for necessário. Ter em caixa uma promissória não é o mesmo que ter dinheiro em caixa – sobretudo se os que prometeram pagar, como a Espanha, também terão de ser resgatados. Ambos, o instrumento e o mecanismo podem acabar sendo detonados na conflagração geral. Há riscos significativos de que sobrevenha uma segunda e severa recessão.

Os próximos passos

Há duas trilhas principais pelas quais se sai de um crash. Uma é esforçar-se o mais possível para manter-se ligados às formas antigas de trabalhar. É a trilha que a Troika escolheu. Não funcionou, até agora; e jamais funcionará.

A outra é impor ruptura total com o passado que tenha levado ao fracasso. A coligação Syriza está absolutamente certa quando insiste no cancelamento de qualquer novo pagamento da dívida e em que se esqueçam as tais metas de “austeridade”. Nenhuma dessas ideias jamais trouxe qualquer benefício aos gregos comuns, ou à sociedade europeia em geral.

Syriza também acerta ao propor modalidades não ortodoxas de financiamento, como os empréstimos compulsórios, dos que possam emprestar, com juros fixados em níveis baixos. Para impedir o contágio e conter a crise financeira, é absolutamente necessário impor controles sobre o capital – restrições ao livre movimento do capital, diretas ou indiretas, para impedir que o pânico se alastre. Atualmente, até o FMI já aceita que essas medidas sejam eficazes em momentos de crise. Os ricos têm de ser taxados de modo efetivo para cobrir custos; e os bancos têm de ser administrados para atender as necessidades e interesses da sociedade, não do lucro privado.

Em outras palavras, os passos mais urgentemente necessários hoje são os que mais afastem a Grécia, de seu velho sistema econômico falido. O movimento contra a “austeridade” cresce em toda a Europa. A Grécia pode estar bem próxima de começar a empreender esses primeiros passos que a salvarão do naufrágio. Se se constituir ali um governo novo e firmemente anti-“austeridade”, será atacado por todos os lados e sofrerá pressão terrível. Nossa solidariedade é crucial.