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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

CHORAR SOBRE O LEITE DERRAMADO


Por Laerte Braga*

José Carlos Aleluia
Por ocasião da CPI do Mensalão o deputado José Carlos Aleluia, do então PFL, afirmou de forma enfática não acreditar que José Dirceu, à época ministro chefe do Gabinete Civil, tivesse praticado ato de corrupção em benefício próprio. Aleluia deixou claro que Dirceu era um político que jamais tiraria proveito em benefício próprio de qualquer cargo que ocupasse, mas citou a “causa”, como sendo o fator que gerou o mensalão.

Dirceu foi vítima de sua própria estratégia. Da obsessão de eleger Lula presidente a qualquer preço e esse preço começou a ficar impagável quando o candidato, em 2002, quis dar mostras de “responsabilidade” para os brasileiros, ao se comprometer com a carta de intenções do governo FHC junto ao Fundo Monetário Internacional.

O governo estava falido, liquidado, bastaria mostrar essa realidade que os brasileiros compreenderiam, a maioria tinha ciência do fracasso do ex-presidente, das mistificações tucanas.

Num País como o nosso são interessantes algumas contradições. A maioria dos brasileiros considera que bancos e governos internacionais saqueiam o País, mas votam em políticas que são ligadas a bancos e governos internacionais. Lula quando assinou o documento quis apenas dizer que ia continuar aceitando a chantagem do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, de governos e organizações financeiras em várias partes do mundo (EUA e Europa).

Esse procedimento levou o título de “candidato responsável”. Lula não entendeu, equivocadamente, que o momento não era de concessões, mas de ruptura e que essa percepção passiva pelos brasileiros se transformaria em indignação com FHC. Estava latente.

José Dirceu
O preço dessa irresponsabilidade de ter caído na armadilha das elites políticas e econômicas, no cinismo de FHC, se materializa, hoje, na decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) condenando desde Dirceu e Genoíno a outras figuras de destaque no PT (Partido dos Trabalhadores).  Sete dos onze ministros da suprema corte foram indicados por Lula (cinco) e Dilma (dois).

Lula imaginou que seria possível governar formando alianças com elites políticas e econômicas podres e depois de oito anos de um governo que, entre outras coisas, protagonizou um processo de desmanche do Brasil e o maior escândalo de corrupção de toda a nossa história, o golpe branco da reeleição.

Tancredo Neves costumava dizer que não se entra numa luta para perder, com consciência da derrota antecipada. Ou se garante o empate, no mínimo, ou a vitória. Lula entrou no escuro e amarrado numa carta de intenções que, hoje se percebe com clareza (muitos perceberam à época),  foi uma das mais perfeitas armadilhas do neoliberalismo.

Os dois mandatos que exerceu, o fez na corda bamba e enfrentando sucessivas tentativas de golpes dos mais variados matizes. Sobreviveu seja por seu carisma, seja pelas políticas assistencialistas que acabaram primeiro viabilizando sua reeleição e num segundo momento permitindo a eleição de Dilma Rousseff.

De lá para cá a descida da ladeira é uma realidade e a decisão do STF de julgar o caso do mensalão em cima de provas tênues ou indícios, o que cria sempre o benefício da dúvida e essa favorece aos réus, soa como golpe, a guilhotina pronta a cortar cabeças e todos de olhos postos nas eleições de 2014.

Tudo menos Lula são os propósitos das elites que governam o Brasil faz séculos.

E Lula nem é um homem de esquerda, ou um revolucionário. Sequer conseguiu ser reformista. Moldou o seu governo dentro das estruturas seculares do coronelismo político e no modelo traçado por FHC, aquele que Brizola dizia que “veio de longe”.

Ivan Pinheiro
O secretário geral do PCB – Partido Comunista Brasileiro – Ivan Pinheiro definiu com precisão os períodos presidenciais do ex-presidente: “capitalismo a brasileira”. Lembra a frase do jurista Sobral Pinto dita a um coronel da ditadura que falou sobre “democracia a brasileira”. Como respondeu Sobral, “democracia não é como peru, não existe a brasileira. Ou é democracia ou não é”.

Capitalismo não existe a brasileira, ou é capitalismo ou não é.

Lula manteve intocado o desenho neoliberal de FHC, pior, aprofundou-o em vários setores da economia brasileira e acreditou, por exemplo, como acredita Dilma, que Eike Batista está preocupado com o Brasil ou com os brasileiros. São meros detalhes no que o empresário chama de “kit de felicidade” ao referir-se ao pacote de meses atrás da presidente Dilma Rousseff sobre “concessões” de bens públicos à iniciativa privada.

O ex-presidente, antes mesmo de sua posse, recebeu sugestões de vários líderes do PT, seu partido, dentre eles o seu principal mentor político, o extraordinário Chico Oliveira, sobre como escapar da armadilha neoliberal sem provocar reações que pudessem colocar em risco seu mandato.

Roberto Jefferson
Desprezou a todas. Seguiu a cabeça “lógica” de Dirceu, acreditando que Roberto Jefferson  um homem da ditadura militar, que nasceu politicamente na ditadura militar, pudesse vir a ser um “aliado confiável”.

O que todos queriam, os tais “aliados” era a manutenção do esquema de compra e venda do governo FHC. Manteve e o resultado está aí. FHC impune e a campanha de desmoralização do ex-presidente e seu partido em curso acelerado, seja pela mídia podre, seja pela incompetência do PT e Lula. Não percebeu ainda o tamanho da armadilha e se debate preso às garras dessa armadilha na suposição que vencendo, se vencer, as eleições para a prefeitura de São Paulo tudo estará resolvido. Pode até ser. Mas dentro do modelo, sem mudar uma vírgula sequer do modelo e ampliando as políticas neoliberais de privatização e concentração de renda, um abismo entre a classe trabalhadora, a própria classe média (iludida por celulares que só faltam falar se é que já não falam).

O clube de amigos e inimigos cordiais. O faz de conta da política brasileira. De um mundo institucional falido.

A velha imagem de ligar a seta para a esquerda e virar o carro à direita. Caso do tratado de livre comércio assinado com Israel. Um cavalo de Troia que o complexo político, econômico e terrorista ISRAEL/EUA TERRORISMO S/A fez entrar em nosso País e hoje começa a fechar o cerco do que foi iniciado no governo FHC em torno dos setores estratégicos da economia brasileira.

Somos um País imenso, com dimensões continentais, mas somos um País manco. Capazes de gerar tecnologias de ponta indispensáveis no mundo contemporâneo, capazes de nos transformarmos em potência de verdade e não de ilusão, mas estamos abrindo mão dessas potencialidades.

O sucateamento da indústria nacional, os absurdos de um código florestal ao sabor dos interesses de latifundiários, o controle que o sistema financeiro exerce sobre o Banco Central e o Ministério da Fazenda (a ponto do ministro Guido Mantega afirmar que se o Brasil disponibilizar 10% do PIB para a educação quebra), todo o processo político e econômico que vem nos transformando de País líder da América Latina em parte do Plano Grande Colômbia.

Vamos a reboque de uma locomotiva onde os maquinistas já perceberam que Lula e Dilma não vão mudar o rumo. Nem diminuem a velocidade.

Nossas universidades (professores por extensão, óbvio) públicas transformadas em sucata, os hospitais universitários a ponto de serem privatizados na falácia de uma empresa estatal de direito privado (caminho para a privatização), os serviços públicos em franco desmanche (são servidores públicos que materializam os direitos básicos dos trabalhadores, da população) e dependentes nas tecnologias essenciais. Caso, para citar um exemplo, da EMBRAER (EMPRESA BRASILEIRA DE AERONÁUTICA). Ou dos arsenais da Marinha de Guerra.

Nem o governo Lula e nem o governo Dilma investem no Brasil. Aceitaram passivamente a realidade neoliberal e sobrevivem no populismo de programas assistencialistas que já começam a se perder e a encontrar becos sem saída. Em Pernambuco onde o PT tomou uma surra, ou no Amazonas, onde Arthur Virgílio renasce de escombros políticos/eleitorais numa ressurreição que nunca se podia imaginar.

E olha que os adversários são FHC. José Serra, Aécio Neves, contumazes corruptos, ou o governador Geraldo Alckmin, num estado onde a violência acorda, caminha e deita impune e brutal como sempre.

O fracasso é de Lula e do PT. Das alianças “mágicas” com as classes dominantes. Da falta de perspectiva revolucionária do ex-presidente e do partido.

Supremo Tribunal Federal

Já sabiam que o STF julgaria da forma que julgou e nem iria ou irá se preocupar com “A Privataria Tucana”. Nem a Corte e nem o Procurador Geral.

É o clube de amigos e inimigos cordiais e Lula agora, entra pela porta dos fundos, onde até um provável retorno, ou uma reeleição de Dilma, não muda e não altera nada. A ordem dos fatores capitalistas se mantém intacta e o produto vai ser sempre o mesmo.

Que a decisão, ou decisões do STF, se constituiu num golpe ninguém tem dúvida. Mas Gilmar Mendes, por exemplo, poderia estar fora da Corte desde episódios sobejamente conhecidos de corrupção. Lula preferiu ir conversar com ele num encontro arranjado por Nelson Jobim, figura chave de FHC para o processo de privatizações.

Por essas e outras Lula merece ir para o canto da sala e por lá ficar por horas a fio com o chapéu de burro. 

Não adianta chorar sobre o leite derramado.

Essa luta de mudanças vai ser construída pelas forças populares e nas ruas. O mundo institucional está falido. E Lula ou Dilma teimam em jogar o jogo dessa turma. Logo...

... Mais que nunca as forças populares precisam se mostrar diferentes do PT e do ex-presidente, de Dilma, pois no afã de manter o domínio real sobre o Brasil, jogam a todas no mesmo cesto. 

Algumas dessas forças, pelo menos, são diferentes.

Laerte Braga* foi o candidato do Partido Comunista Brasileiro (PCB) à Prefeitura de Juiz de Fora - MG. Afirmando que a importância nesta eleição, para o seu partido, foi o debate e a conscientização política do eleitor para a construção do socialismo. Julgando que Juiz de Fora perde sua história dia a dia, Laerte elaborou diversos projetos que dariam mais voz à população, o que ele chama de Poder Popular.

Enviado por Sílvio de Barros Pinheiro

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Venezuela [como no Brasil]: eleições limpas e mídia suja

“A direita sabe que não pode atacar os bons programas do governo, ou perde eleitores. Então ataca os métodos...”

9/10/2012, TM Scruggs, The Real News Network (entrevista traduzida)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


PAUL JAY, Editor Sênior, TRNN: Bem-vindo a The Real News Network. Sou Paul Jay em Baltimore. 

Domingo à noite, Hugo Chávez foi reeleito presidente da Venezuela. Conosco hoje, falando de Berkeley, Califórnia, está TM Scruggs. Scruggs é especialista em antropologia e música e ativista social. Estuda culturas musicais nas Américas, especialmente na América Latina. Deu aulas na University of Iowa de 1994 a 2009. Foi bolsista da Fundação Fulbright na Venezuela e deu aulas na Universidad de los Andes, onde pesquisou sobre música e mídias comunitárias. Também é da equipe de TRNN. Obrigado por conversar conosco, TM.

TM SCRUGGS: Obrigado a você.

Jay: Então, o que pensa sobre a eleições na Venezuela? Você viveu lá, conhece bem o país. O que tem a nos contar?

SCRUGGS: Bem, aconteceu mais ou menos o que já sabíamos que aconteceria. As pesquisas sempre mostraram Chávez à frente, com diferença que ia de 9 a 13%, ao longo de toda a campanha. Sabemos também que o sistema eleitoral é livre, limpo e transparente, motivo de inveja, aliás, não só para os EUA mas, de fato, para todo o mundo.

JAY: Você disse “já sabíamos”. Como sabíamos?

SCRUGGS: Porque aconteceu o que previram observadores que se deslocaram para a Venezuela, de governos conservadores da União Europeia, a OEA, o Centro Carter. Jimmy Carter, como se sabe (embora a notícia pouco tenha aparecido na imprensa-empresa), disse, há seis semanas, que as eleições na Venezuela são as mais livres do mundo. Eu estava na Venezuela nas eleições presidenciais de 2006, e passei o dia todo andando pela cidade onde morava, Mérida, conversando com as pessoas pela rua. E nunca ouvi uma única reclamação de que as eleições não seriam limpas.

JAY: Antes das eleições, esse ano, houve várias matérias na imprensa dos EUA, sobre as urnas, que não seriam confiáveis, nem o voto seria tão secreto, que as pessoas estariam sendo intimidadas para votar a favor de Chávez. Criou-se uma espécie de “clima”, inclusive no The New York Times, que levava a pensar que a oposição, se fosse derrotada, poderia contestar os resultados eleitorais. Foram derrotados e nada contestaram. O que você pensa disso?

SCRUGGS: De fato, espalharam-se, principalmente, dois boatos. O mais recente, publicado no Los Angeles Times, dizia que os eleitores estariam com medo de votar. Absoluta mentira. Ninguém, na Venezuela, teve qualquer medo de votar. Esse tipo de notícia visa só aos que nada sabem sobre a Venezuela. Quem conheça o país e as eleições na Venezuela sabe que é mentira.

O outro boato, lançado antes, foi uma pesquisa que a mídia promoveu. Todos os institutos de pesquisa são agências controladas por empresários conservadores, mas aquela pesquisa era particularmente doida. O dono do instituto resolveu que o candidato da direita, Capriles Radonski, teria tido um aumento repentino de votos, teria “subido”, repentinamente, algo como 15-20% na preferência dos eleitores. Tínhamos medo de golpes desse tipo, de que a imprensa tentasse criar “suspense” e ameaças, não só na Venezuela, mas – e talvez até mais perigoso – também fora da Venezuela, de que o vencedor teria sido Capriles, e que, se Chávez fosse declarado reeleito, seria “prova” de alguma espécie de fraude. Assim se criaria agitação no país, o que poderia justificar violência nas ruas. E sempre há o risco de... 

JAY: Felizmente, nada disso aconteceu. 

SCRUGGS: Felizmente. Fato é que não há qualquer prova de que tenha havido interferência dos EUA nem de que os EUA desejassem aquele tipo de desdobramento. Evidentemente os EUA sabem, há bastante tempo, que Chávez seria reeleito nas urnas. Todas as fontes de informação que os EUA mantêm na Venezuela já haviam informado que Chávez venceria as eleições. Na Venezuela, o presidente é eleito por seis anos. Quando eu estava lá, as eleições na Venezuela coincidiram com as eleições de meio de mandato, eleições de deputados e senadores, nos EUA. Mas, agora, em 2012, as eleições presidenciais quase coincidem.

Ora, a Venezuela não é Granada. Não seria como invadir, controlar um país pequeno por 24 horas, derrubar um governo e impor outro, e estaria tudo resolvido. Na Venezuela não existe a “solução Granada”...

JAY: Acho que ninguém esperava, se alguém esperava alguma coisa, que houvesse uma invasão. Acho que o plano seria, se houve plano, inventar alguma espécie de rejeição dos resultados, criando tumulto nas ruas...

SCRUGGS: Sim, mas ninguém jamais pode ter certeza sobre até que ponto essas coisas vão, quando há quem queira estimulá-las, não é? Penso em alguma coisa como inventarem uma zona aérea de exclusão, ou coisa do gênero. Mas a verdade é que o plano não era esse, porque o governo Obama não quer arranjar ainda mais confusão no front “externo”, sobretudo porque já há mais unidade na América Latina, vários governos democráticos apoiam o processo eleitoral na Venezuela e os venezuelanos também sabem que estão votando em absoluta liberdade democrática, que as eleições são livres e transparentes.

JAY: Pois nada disso impede a imprensa nos EUA de chamar Hugo Chávez de “ditador”. A linha geral da cobertura tem sido, sim, as eleições são limpas, as urnas eletrônicas funcionam, os votos são legítimos, mas... De fato, a imprensa nos EUA só faz noticiar que [aspas] Hugo Chávez usa o dinheiro do petróleo para comprar votos entre os pobres [aspas], que as eleições são democráticas, mas o governo é ditatorial, por exemplo, em termos da atitude de Chávez contra a imprensa. O que você pensa sobre isso? 

SCRUGGS: É cômico. Você sabe... Minha pesquisa não inclui a mídia, e o que digo, portanto, não é resultado de estudo, mas, só, minha opinião, de quem viveu lá e sempre pude ler tudo que quisesse. Pode-se entrar naquele site, Paperboy, por exemplo, e ler jornais do mundo inteiro. Se você lê espanhol, basta passar os olhos pelas manchetes dos principais jornais-empresa venezuelanos: todos publicam manchetes semelhantes, todos com viés da direita mais conservadora. Qualquer um vê isso. E o mesmo vale também para as quatro principais redes de televisão. Uma delas é praticamente um partido político, de tanto que interfere na discussão política local. Não é jornal como se supõe que deva ser um jornal: é máquina de propaganda do ideário da direita mais conservadora. Como, nos EUA, o canal Fox News. Eles inventam notícias, inventam manifestações de rua. Esse canal, na Venezuela chama-se Globovisión. E aquele mesmo pessoal – empresários e jornalistas – tiveram parte muito ativa no golpe de 2002, que conseguiu derrubar o governo Chávez e a Constituição, por 47 horas. Até que o povo tomou as ruas e reverteu o golpe. E devolveu o governo a Chávez.

Há na Venezuela mídia do governo, mas, como as estações comunitárias, tem pouca audiência, apelo mais local. E há a mídia estatal.

A verdade – e esse é um campo em que as forças progressistas na Venezuela ainda têm muito trabalho pela frente – as forças progressistas precisam organizar melhor mídia, aliada ao jornalismo investigativo. Na Venezuela não há uma única empresa-imprensa de alcance nacional que ofereça ao público consumidor jornalismo investigativo de boa qualidade, que noticie também os fatos que favorecem o governo de Chávez. Que façam mais jornalismo que campanha anti-Chávez. Há o Correo del Orinoco, que se pode ler online, mas é triunfalista e só faz repetir o que o governo diga. 

E vale o mesmo para as televisões. Jornalismo de melhor qualidade simplesmente não existe. Não estou dizendo que façam, a favor de Chávez, exatamente o que fazem contra. Não é isso. Isso também não interessa, porque as pessoas se fartam, tanto de ataques sem jornalismo, quanto de elogios sem jornalismo. 

Quando eu estava lá houve uma tentativa de melhor jornalismo. Mas, hoje, está pior que antes. Há na Venezuela leis que declaram que terras deixadas sem produzir por muito tempo podem ser expropriadas e entregues a trabalhadores rurais sem terra, para que as façam render e possam construir a própria sobrevivência, porque são terras boas. E o governo oferece algum apoio àqueles trabalhadores. Pois bem. Os ex-proprietários daquelas terras assassinam os novos proprietários, provavelmente usando milícias paramilitares que chegam pela fronteira com a Colômbia... Ou vêm de outros lugares, não sei. O que quero dizer é que os camponeses têm sido assassinados e esse processo já se arrasta há anos. O que se lê, vez ou outra, é notícia de um, outro, outro assassinato, mas só números. Ninguém sabe quem morreu e, muito menos, quem matou. Nada se investiga, nada se procura saber. 

É preciso que as forças progressistas comecem a cuidar de produzir melhor jornalismo, jornalismo mais sério do que o jornalismo das empresas político-comerciais que são as únicas que produzem jornais, televisão e rádio na Venezuela. Resultado é que a oposição começa a ganhar mais votos, porque a população não tem meios para discutir mais e melhor o que o governo Chávez está fazendo. Sem essa discussão, o governo Chávez começa a poder ser mostrado, pela mídia da oposição, como algo que se está ossificando, que se eterniza no poder.

JAY: Entendo. A verdade é que a oposição não é só de direita. Muita gente parece apoiar as políticas de Chávez, mas entendem que não estejam sendo implementadas como essas pessoas gostariam que fossem. A campanha de Capriles, de fato, tentou se firmar nessa linha. Embora, sim, a maioria tenha entendido que não passasse de estratégia de campanha: sem poder atacar as políticas de Chávez que estão realmente empoderando os mais pobres, Capriles atacou os métodos de Chávez, não a política de Chávez. Algo como: as políticas são ótimas, mas os meios para implantá-las não seriam democráticos ou não seriam éticos...

SCRUGGS: É ridículo, porque Capriles foi escolhido candidato pelo mesmo sistema eleitoral que, depois, ele passou a dizer que não seria confiável e teria sido “manipulado”. Então... nas primárias que o indicam candidato, o sistema é perfeito; nas eleições finais, que não o elegem, o sistema é pouco confiável?! É ridículo. 

Mas Capriles é como Paul Ryan nos EUA, da coalizão conservadora: todo o discurso de campanha é construído sobre mentiras: dizem que apoiam o sistema de saúde pública (só os meios para implementá-los é que são ruins...), dizem que apoiam a educação pública (só os meios para implementá-la é que são ruins...) É sempre assim: não podem defender abertamente a educação privada elitista (porque, se o fizessem, espantariam eleitores); não têm coragem para defender a saúde privada elitista (porque, se o fizessem, espantariam eleitores). Então se dizem a favor da ‘essência’ da educação pública e da saúde pública e da essência a natureza... e criticam os métodos: dizem que não seriam “éticos”, que não seriam “democráticos”, que não seriam “ecológicos”, etc., etc..

[Comentário da Vila Vudu e da redecastorphoto: No Brasil, fazem exatamente o mesmo. Por exemplo: a direita udenista-tucano-uspeana não se declara A FAVOR DA EDUCAÇÃO ELITISTA PRIVADA. Ela se declara contra as cotas, que, diz a direita, seriam “racistas”.
O problema da direita, evidentemente, não é o racismo, porque a direita é racista e sempre foi, no Brasil, há 500 anos, sem que se tenham ouvido protestos vindos da direita. 
O que interessa à direita é detonar a educação pública. As cotas viram então “um mote”, “uma entrada”, “um assunto”, a partir do qual a direita consegue trabalhar contra a educação pública, sem ter de declarar-se defensora da educação privada elitista e elitizante.] 

JAY: Entendo.

SCRUGGS: O que quero dizer é que a oposição de direita mente descaradamente. Fato é que não é fácil derrotar governos que tenham bons programas que melhorem a vida do povo, depois de o povo já ter convivido com os programas por tempo suficiente para saber que são bons. Hoje, as pessoas já veem os efeitos dos programas sociais de Chávez, já percebem que a vida delas realmente mudou para melhor. Nenhum candidato, hoje, se atreve a subir ao palanque ou a aparecer em debates e dizer que vai desmontar tudo que os governos Chávez já fizeram e cujos efeitos estão ali, à vista de todos.

Já se observava esse mesmo fenômeno desde 2006, quando eu estava lá. O candidato da direita, Manuel Rosales – assisti a vários comícios dele – e ele sempre começava a falar, fosse onde fosse, com a mesma declaração: não se preocupem, que nós não vamos extinguir as missiones...  

[Comentário da Vila Vudu e da redecastorphoto: No Brasil, e em São Paulo particularmente, é “vamos manter o bilhete único”, “vamos manter o SUS”, “vamos manter os CEUs”... O que estão dizendo é: “Votem em mim, que prometo fazer, pra vocês, o governo de vocês... só que quem manda sou eu!” Fora Serra-erra-erra. NINGUÉM MAIS CAIRÁ NESSE PAPIM FURADO. #HaddadPrefeito]

JAY: Foi praticamente o que vimos no debate nos EUA. Romney disse: não se preocupem que os novos planos de saúde não alterarão a situação existente hoje...

SCRUGGS: É que o povo sabe o que é bom para ele e, uma vez que tenha vivido sob condições melhores, o povo agarra-se ao que tenha conquistado e defende-se. A direita sabe disso. Por isso não pode atacar diretamente os governos populares.

[Comentário da Vila Vudu e da redecastorphoto: Daí, afinal, a importância da “malhação” midiática, sem jornalismo investigativo, só “malho” de propaganda incansavelmente repetido e impingido ao eleitor como se fosse jornalismo: porque esse “malho” midiático é o único meio que há para a direita tentar convencer o eleitor de que, se eleita dessa vez, a direita faria o que NUNCA fez nem quando foi eleita outras vezes, e jamais fará, porque, não quer fazer, não pode fazer e não sabe fazer].

JAY: OK, TM, muito obrigado.

SCRUGGS: Obrigado a você.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O futuro vereador Lula do Lava Jato




Publicado em 04/10/2012 por Urariano Motta*

Recife (PE) - Lula do Lava Jato, o homem de olhos inquietos que se apresentou a mim no último domingo, eu o conheci na eleição passada. Há quatro anos,  quando escrevi sobre ele para a Carta Capital, ele possuía o nome eleitoral de Lula. Ou Lula de Ibura, na versão que a revista publicou em agosto de 2008. Naquela vez, pude ver:

“Ele seria o vereador do Ibura, se a eleição fosse por subúrbio. Quando lhe pergunto se é nascido e criado ali, ele responde:

“Corretamente. Na mesma rua em que eu moro, eu nasci e sou criado na mesma comunidade”

Ele morava então com a mulher, dois filhos e a sogra em uma casinha de dois quartos. Era operário e ganhava um salário mínimo. De lá para cá, ele e o bairro mudaram para melhor. O Ibura agora tem ruas calçadas, serviço de microônibus, coleta de lixo, casas com carro na garagem. Não riam, porque não estou sendo irônico. O mundo dos bairros periféricos era muito quase sem nada, havia quatro anos. Lula também mudou, hoje é dono de um lava a jato, com pequena piscina ao fundo. Na margem da piscina, mesa com guarda-sol de praia. “O Lava a Jato foi a minha luz”, ele me fala.

Naquela eleição de 2008, teve “321 votos, fechados”. Desta vez, a sua esperança é maior:

Espero uma votação acima de 4.500 votos. Mas na Frente Popular, com mais de 3.000 a gente se elege. Espero conseguir votos no Ibura, Jordão, Dancing Days, Roda de Fogo, Ipsep, Casa Amarela. Tenho apoio de Geraldo Júlio, da comunidade e da família. Olhe como está hoje a quantidade de carros e de motos. Quem participa tem o prêmio de lavar o carro de graça em meu lava a jato. Da outra vez fui a pé.

É verdade, eu o acompanhei, com ele a estender à frente as páginas da revista aberta na seção Brasiliana.

Da primeira vez, me surpreenderam as suas ideias para um mandato. Anotei e publiquei na revista, como uma perturbadora revelação:

3º. Item: Vamos fundar uma sede, ou mais de uma sede, para o time ou os times do nosso bairro. E nessa vai ganhar uma mobília de uma geladeira ou freezer, um fogão a gás, mesas com cadeiras, uma sinuca, uma tábua de dominó com dominó, uma televisão de 20” com antena Sky. Para jogo marcado fora do bairro fornecerei o transporte, uniforme completo, água com gelo, em todos os jogos, laranjas, cartões vermelho e verde, bola. E para cada jogo em participação em torneios um presente para cada gol marcado por cada jogador, tipo um incentivo.

4º. Item: Aos peladeiros também ter totalmente apoio. Uniformes, bola, apito, cartões vermelho e verde, água e gelo, laranjas.

Seria fácil achar risível, ou ridículo, porque são ridículas assim as coisas essenciais. O bife de sapatos de Chaplin, na Corrida do Ouro, também poderia ser ridículo, mas ficou no limite. Como sempre acontece com as pessoas do povo, que não têm a experiência da expressão escrita, este candidato é melhor e mais eloquente quando fala.

Desta vez, ele tirou cópia do texto de 2008, ampliou, e exibe-o feliz em grande pôster no primeiro andar do seu comitê. Agora eu lhe peço o seu programa para estas eleições. Da primeira folha copio:

Manifesto

Eu, Lula do Lava Jato, venho assumir o compromisso moral com o povo do Jordão, Ibura e adjacência. Povo esse que conheço de suas necessidades e do descaso a qual são submetidos, por isso pretendo trabalhar para transformar estas comunidades em um lugar melhor em prol deste povo para que os nosso filhos tenham uma oportunidade de crescer com saúde, segurança, educação e que os nossos idosos tenham um lugar aonde possam viver com respeito e dignidade.

Mas, para isso, convido a você para unir-se a mim nesta luta, pois desejo ser o ouvido do povo na comunidade e a boca do povo na câmera dos vereadores. Aonde farei entoar o grito da nossa comunidade. Comunidade esta onde cresci, criei meus filhos e aprendi a amar.

Ass. Lula do Lava Jato

Na primeira vez em que o entrevistei, pude ver na sua expressão valores de ética, fraternidade, incomuns na maioria dos candidatos. Hoje noto que ele sonha. O registro dos seus sonhos é o seu projeto: ensino, saúde, toda infraestrutura necessária para o Ibura. Ou como ele chama, Projeto de Governo Presente.

No último domingo, na despedida, Lula do Lava Jato me abraçou entre lágrimas. Interpreto-as agora como lágrimas de esperança no poder das palavras. É como se a força deste artigo pudesse levá-lo para a Câmara do Recife. Eu nada falei, saí comovido e vim calado a suportar o peso dessa honra impossível. 
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Urariano Motta* é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Nada acontece no meu coração



“Não sou obrigado a apresentá-lo...”
Celso Russomanno, candidato à Prefeito da Capital do Estado de São Paulo, referindo-se ao seu plano administrativo.

Raul Longo


Na verdade, não é de hoje que nada acontece no meu coração a respeito da cidade de São Paulo.

Já há umas duas décadas a poluição daquela capital me provocou um escarro em plena Ipiranga com São João, justo no pico do horário de rush. Ao contrário de Augusto dos Anjos, senti-me sem um único abismo para filosofar sobre a queda daquela secreção. Acuado por tantos pés céleres a atravessar a esquina, segui até à Avenida Consolação onde, enfim, encontrei um canteiro para me livrar do horrível gosto de fuligem.

Fui em frente considerando a impossibilidade de voltar a viver numa cidade onde a sucessão de representantes dos interesses capitalistas, por puro descaso e desleixo amontoam as pessoas em tão densa concentração.

Terceira ou segunda maior cidade do mundo, São Paulo é o mais acabado exemplo da ausência de humanismo do sistema político/econômico em vertiginosa evolução desde os anos 50, quando ali fui educado pela família e pelo Instituto de Educação Caetano de Campos.

Colégio Caetano de Campos, Praça da República - SP
A família me ensinava a ser cordial com os mais velhos e às mulheres, proceder civilizadamente com todas as pessoas independente de gênero ou faixa etária. Por isso planejei a caminhada da São João à Consolação, evitando cuspir nos pés dos apressados transeuntes das 18 horas da Av. Ipiranga.

Já o Caetano de Campos me ensinou outras coisas, entre elas a importância histórica de São Paulo desde quando os Bandeirantes planejavam incursões pelos interiores, reunidos no ponto de partida lá na antiga bica do Largo da Memória. Os objetivos das Bandeiras eram dos mais deploráveis: prear indígenas e descobrir riquezas minerais a serem espoliadas pelos colonizadores. Mas no século XIX, já com o nome de Largo do Piques, atraindo moradores pela água da nascente, o local testemunhou os moradores do então pequeno vilarejo a planejar o cotidiano e viajantes a projetar o prosseguimento pelas longas trilhas ao sul, ao norte ou a oeste do país.

Ainda no começo daquele mesmo século se criou a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco que junto com a de Olinda é a mais antiga do Brasil e onde se planejou muitos dos principais versos da literatura romântica brasileira, como os de Castro Alves. Em São Paulo, ali se planejou a abolição da escravatura no país! A grande maioria das leis que hoje regulamentam a civilidade de toda a nação.

O verdadeiro Bauru do Ponto Chic
Até o sanduíche nacionalmente conhecido como “Bauru”, foi planejado por um estudante das Arcadas de São Francisco. Era diferente do que hoje se serve, mas quem for ao Ponto Chic, lá no Largo do Paissandu, poderá conhecer a versão original projetada por Casimiro Pinto Neto, natural da interiorana cidade que deu nome ao indevido pão com tomate, presunto e queijo. Projetado para se constituir em uma refeição, o verdadeiro bauru leva rosbife, queijo branco em pedaço grosso e dilatado no calor da chapa e, além do tomate, vem com rodelas de pepino.

As falsidades exportadas de São Paulo para o resto do país não se resumiram ao bauru. O mato-grossense Jânio Quadros, que renunciou aos 7 meses de presidência, foi outro. Mas o Ponto Chic chegou a ser frequentado pelos que planejaram a promoção da real cultura brasileira: a Semana de Arte Moderna de 1922.

Ponto Chic
Graças àquele movimento o Brasil descobriu-se em Oswald e Mário de Andrade, Villa-Lobos, Di Cavalcanti, Flávio de Carvalho e tantos outros.

Nasci em São Paulo, mas só tomei consciência da importância da cidade nos anos 60. Apesar de um dos mais corruptos políticos paulistas ter criado a Marcha de Deus com a Família que apoiou o mais longo e triste período da história da república, o da ditadura militar, naquele tempo planejava-se ali a resistência à opressão do país. Fosse pela UNE de Dirceu e Travassos, fosse pela luta armada de Lamarca ou Marighela.

Mesmo depois de deixar a cidade nos 70, o meu coração continuou batendo pela São Paulo que também resistia planejando muito do que melhor aconteceu no país na década através de Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, José Martinez Correa, Plínio Marcos e tantos outros do teatro, como os muitos dos festivais de música: Chico Buarque, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo. E de todas as artes: Leny Dale, Wesley Duke Lee, Rogério Sganzerla.
Esquina da Av. São João com Av. Ipiranga (Centro na madrugada)

Foi em São Paulo que Caetano Veloso e Gilberto Gil, unidos aos Mutantes, Tom Zé, Torquato Neto, Capinam e o Maestro Rogério Duprat planejaram o Tropicalismo.

Também em São Paulo se planejou o lançamento de fenômenos como Elis Regina e Milton Nascimento. Se algo batia no coração do Brasil é porque começara a pulsar em São Paulo.

Ainda no inicio dos anos 80, a cada vez que ia a São Paulo, um novo latejar, uma nova vertente: Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e tantos outros que planejaram o movimento dos artistas independentes.

Mas, então, a cada retorno a cidade me parecia mais mofina em uma suntuosidade de pouco conteúdo e total falta de planejamento a soterrar o sorriso por seu humor de Adoniran Barbosa e o lamento por suas tragédias cotidianas de um Paulo Vanzolini.

Rua Direita em 1954, final de tarde
Sofrendo decepções com a cidade onde nasci, cansei-me dela ao perceber que por pura falta de planejamento, falta de qualquer cuidado com as vidas humanas que a ocupam, tornou-se um lugar sem espaço sequer para cuspir.

Muitos shoppings, grandes restaurantes, casas de espetáculos, templos de consumo, mas tudo tão frio e artificial quanto à sobrevida em uma UTI onde se esqueceu de planejar a recuperação dos pacientes. Pacientes mantidos por sensação de vida, mas já sem reais emoções, sem real vontade, sem qualquer percepção e possibilidade de futuro, sem nenhum outro plano se não o de ir de lá pra cá, correndo atrás do que há muito perderam e já nem se recordam o que seja.

Rua Direita em 2009, meio da tarde
Tenho muita saudade dos amigos e das mulheres que ali amei, mas hoje, quando vou a São Paulo, fico tentando perceber o que planejam as pessoas além desse eterno e apressado ir e vir sem chegar a lugar algum. Fico tentando senti-los, mas, talvez com medo de que me cuspam nos pés, nada acontece no meu coração.

Texto enviado pelo autor

terça-feira, 10 de julho de 2012

Um caso emblemático




Publicado em 10/07/2012 por Mário Augusto Jakobskind*

No próximo dia 9 de outubro completam-se 22 anos da morte do cadete Márcio Lapoente da Silveira na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Por sugestão do Grupo Tortura Nunca Mais,  familiares de Márcio  entraram com uma ação na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA). Isso aconteceu em 2004.

Foi reconhecido então ter sido o cadete Márcio, de 19 anos, vítima de torturas e maus tratos que o levaram à morte. Um caso considerado pela OEA como grave violação aos direitos humanos.

Ficou decidido também que na AMAN, em Resende, será inaugurada uma placa em homenagem a Márcio e aos cadetes falecidos em atividade de instrução no decorrer do Curso de Formação de Oficiais. O Exército brasileiro reconheceu a sentença, mas alguns militares da reserva, em linguagem odiosa de sempre, não aceitam a decisão e alguns disseram que reagirão. A placa será fixada e permanentemente mantida nas instalações da Academia Militar das Agulhas Negras com os seguintes dizeres:

Homenagem do Exército Brasileiro e da Academia Militar das Agulhas Negras aos cadetes falecidos em atividade de instrução no decorrer do Curso de Formação de Oficiais. Homenagem do Exército Brasileiro e da Academia Militar das Agulhas Negras decorrente do Acordo de Solução Amistosa junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, referente ao Cadete Lapoente da Silveira.

O acordo entre a família do Cadete e o Exército ficou de ser divulgado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, no Diário Oficial e em um quarto de página em um jornal de ampla circulação nacional. A Advocacia-Geral da União e o Ministério da Defesa darão publicidade em seus sítios na Internet.

Aguarda-se a realização da cerimônia. Será uma forma também de demonstrar que o processo democrático avança no Brasil e que os defensores da democracia não se intimidam diante da linguagem de ódio dos militares da reserva, gênero óleo queimado da história.

Na OEA, o Estado brasileiro se comprometeu a ampliar o ensino de direitos humanos no currículo de formação militar, conforme previsão da Estratégia Nacional de Defesa, aprovada pelo Decreto n. 6.703, de 18 de dezembro de 2008. E também, por meio da Secretaria de Direitos Humanos, se comprometeu a solicitar ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) que analise 23 casos de supostas violações aos direitos humanos ocorridas no âmbito das Forças Armadas, conforme estudo elaborado pelo Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM/RJ).

Para complementar, os próprios militares deveriam aceitar as sugestões crescentes no sentido de reformar o currículo da Academia Militar das Agulhas Negras, adaptá-lo à realidade atual, totalmente diferente dos tempos hediondos da ditadura e da Guerra Fria.

Eleição na Líbia: uma farsa

Na área internacional, a farsa da semana ficou por conta da eleição na Líbia. Como comentou um cidadão líbio: "como se fazer eleições em um momento em que se vendem armas nas ruas, que existem mercados de armas em vez de mercados de alimentos (...)  em um país onde se vais ao banco não te dão teu próprio dinheiro, a comida está três vezes mais cara, saindo a rua com um carro te matam para roubá-lo,  se falas sobre o governo anterior te prendem, não podes deslocar-se de uma cidade a outra sem que grupos internacionais te parem para assaltar-te".

Como se tudo isso não bastasse, ocorrem constantes bombardeios em cidades onde o novo governo vem sendo questionado. Não se realizaram eleições nas cidades de Tarhuna, Ben Walit, Al-Kufrah. Na capital Trípoli muitos líbios ficaram em casa ou porque não podiam votar ou não queriam compactuar com a obra de teatro montada sob a proteção de milícias internacionais.

 E em meio a esse quadro, o presidente Barack Obama considerou a eleição líbia um avanço. É a continuidade do seu ponto de vista favorável aos bombardeios da OTAN.

O golpe contra Fernando Lugo

No Paraguai foi constatado oficialmente que os 17 mortos (11 camponeses e seis policiais) foram atingidos pelas mesmas balas. Neste caso, chega-se a uma verdade, qual seja, a de que ocorreu mesmo uma armadilha preparada exatamente para desestabilizar o governo de Fernando Lugo e derrubá-lo.

Neste caso, os países do MERCOSUL agora poderiam fazer mais exigências no sentido de acabar no Paraguai com o golpe parlamentar, considerado já por muitos países como algo definitivo.

E esperar a eleição de um novo presidente para tudo voltar à normalidade não resolverá o problema. Até porque, como será uma campanha eleitoral em um país em que o Congresso conservador fez o que fez.

Os integrantes do atual Congresso vão querer retornar e para isso vão remover tudo que estiver pela frente, para não falar dos gastos de campanha a serem financiados muitas vezes pelos protagonistas que armaram a deposição de Fernando Lugo.

Militares britânicos no interior da Síria

A se confirmar informação da mídia eletrônica israelense Debka, a crise na Síria pode estar entrando numa nova fase. Segundo a publicação, militares britânicos teriam avançado dez quilômetros no interior da Síria a partir da fronteira com a Turquia.

O objetivo seria tentar estabelecer uma zona de segurança naquela área dando início a uma intervenção militar do Ocidente que levaria a derrubada do Presidente Bashar al- Assad.

Ou seja, da mesma forma que na Líbia, o projeto dos países colonialistas seria levar a “democracia” à Síria..

Seria cômico se não fosse trágico.

Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

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