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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Política à moda Lula do Brasil: como derrotar os “anti-Presidente”


20/2/2012, *M. K. Bhadrakumar, Russia & India Report
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Luiz Ignácio Lula da Silva e Manmohan Singh. Foto: Reuters
Para governo que esteja no poder em democracia que funcione, o momento mais aterrorizante acontece quando se trata de tentar a reeleição, ao final de um primeiro mandato. Até políticos de nervos de aço tremem. A mística da democracia está em que não há jamais garantia alguma do rumo que tomará o veredicto das urnas.

Se chega ao final do mandato carregando o peso de maus resultados, o governo que aspire à reeleição se torna particularmente vulnerável. As estimativas podem provar-se completamente erradas – como se viu, por exemplo, quando o governo da Aliança Democrática Nacional que estava no poder na Índia antecipou as eleições parlamentares em 2004, certo de que venceria, empurrado por intensíssima campanha de mídia, que repetia incansavelmente que “a Índia brilha”. Terminou triturado nas urnas e despachado para o ponto mais escuro do mato político.

Rafael Correa, Presidente do Equador
Tudo isso torna absolutamente emocionante a reeleição de Rafael Correa à presidência do Equador, para um segundo mandado de seis anos.

Eleger-se para um segundo mandato, derrotando o peso das forças “antigoverno” e “anti-Presidente”, e com maioria ainda mais ampla que antes – e, além do mais, alcançando 58% dos votos logo no primeiro turno das eleições – não é coisa fácil em nenhuma democracia. Na Índia, ao que me recorde, só aconteceu uma vez desde a independência, quando Indira Gandhi beneficiou-se da euforia nacional que se seguiu à “criação”, por ela, de Bangladesh, em 1972.

Mas o novo mandato de Correa não está ancorado a qualquer nacionalismo inflado, que ele deliberadamente afastou, quando renegou as tradições regressivas do populismo demagógico sob líder carismático. A conquista de Correa é resultado de sólidas realizações no processo de transformar a economia política de seu país.

Até a revista Forbes teve de reconhecer, embora sem entusiasmo, que “seus programas sociais foram aclamados”. Em termos simples, Correa assumiu o controle sobre a fabulosa riqueza do petróleo equatoriano, arrancando-a das mãos de empresas estrangeiras predatórias e, pode-se dizer, obsessivamente se dedicou a usar melhor os recursos para criar melhores condições de vida para os milhões de seus compatriotas pobres e despossuídos. O que Correa conseguiu fazer é fácil de ver: assistência pública gratuita à saúde, educação para os pobres. E, isso, em apenas seis anos. Não surpreende que os equatorianos o adorem. Quem disse que o socialismo morreu?

Vários sindicatos indianos estão iniciando uma greve nacional de dois dias, sem precedentes, a partir da 4ª-feira, para pressionar na direção de suas reivindicações, entre as quais assistência médica e salário mínimo. O Wall Street Journal observa que “as greves nacionais chamam a atenção para o descontentamento entre os trabalhadores que se sentem marginalizados da prosperidade econômica da Índia ao longo da última década”. A magnífica vitória de Correa deve servir para abrir os olhos do Congress Party que governa a Índia e que luta contra uma onda de “antigoverno”, “anti-Primeiro Ministro” e “anti-Presidente” que, sim, talvez já se tenha esvaziado até as eleições parlamentares de 2014.

Como derrotar os “anti-Presidente” em democracia que funcione e manter o poder político em eleições livres e justas?

Hugo Chávez
As democracias latino-americanas oferecem chave muito útil para responder essa pergunta. Primeiro, foi Hugo Chávez, que mostrou o caminho na Venezuela. E agora Correa, no Equador.

Mas, de fato, não há qualquer grande segredo. Ambos, Chávez e Correa, recorreram a políticas econômicas que nunca perdem de vista que a maioria do povo em seus países era desesperadamente pobre; os dois líderes jamais perderam de vista a evidência de que tinham de governar para o povo. Ambos construíram e executaram políticas de maior investimento para melhorar a vida da sociedade, e o Equador, em especial, conseguiu diminuição notável nos índices de pobreza, de quase cinco pontos percentuais nos primeiros quatro anos da presidência de Correa.

Mas, poder-se-ia dizer, Venezuela e Equador são países pequenos, comparados à Índia, país de dimensões continentais. A analogia com esses dois países faria algum sentido para a Índia? Em minha opinião, sim. De comum a todos é que a questão do desenvolvimento, nesses três países, está intimamente ligada à questão da pobreza. E democracia de melhor qualidade terá, necessariamente, de atacar esse problema.

Foi também a experiência de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil. Em certo sentido, a analogia com os governos Lula é mais interessante para a Índia. Lula também foi eleito em 2002 com plataforma popular/populista – variante da campanha que o Congress Party conduziu na Índia para vencer as eleições parlamentares de 2009, projetando-se assertivamente como partido da causa dos pobres. Depois de eleito, Lula aplicou políticas neoliberais dirigidas a estimular a taxa de crescimento da economia brasileira, cortando déficits de orçamento e abandonando subsídios sociais. A inflação subiu e a corrupção cresceu aos saltos, quase na mesma escala em que se viram os mesmos fenômenos na Índia em anos recentes.

O Brasil foi tomado por onda de descrença e cinismo, em tudo semelhante ao que se viu também na Índia. Mas Lula farejou, a tempo, o perigo. Quando viu que havia risco de seu governo ter tomado rumo errado, tão errado que comprometeria toda a sua massiva popularidade e a continuação de seu projeto político, Lula mudou o curso de seu governo.

Perry Anderson
Claro: aí está a real diferença, em relação às elites que governam a Índia. Para Lula, a mudança de curso foi processo natural, porque é político essencialmente comprometido com os mais pobres. Como Perry Anderson explicou a correção de rumo, em ensaio magnífico intitulado “O Brasil de Lula” (excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu) publicado na London Review of Books (Lula's Brazil) há dois anos:

Combinados, o rápido crescimento econômico e a forte transferência de renda conseguiram a maior redução na pobreza de toda a história do Brasil. Segundo algumas estimativas, o número de pobres caiu, de cerca de 50 para cerca de 30 milhões em apenas seis anos; a pobreza foi reduzida em 50%. Metade dessa transformação dramática pode ser atribuída ao crescimento, metade aos programas sociais – financiados pelos maiores ganhos, advindos do crescimento.

Para encurtar essa história, sob todos os aspectos, emocionante, Lula obteve a mesma maioria na reeleição de 2006, que obtivera quatro anos antes: 61% no segundo turno eleitoral. Mas, nessa reeleição, havia diferença essencial na alquimia da vitória eleitoral. Explica Anderson:  

Dessa vez a composição social do eleitorado era outra. Afastados por causa do “mensalão”, grande parte dos eleitores de classe média que se haviam reunido em torno de Lula em 2002 desertaram; e os pobres e os brasileiros de mais idade votaram em Lula, em maior número do que antes.
O Congress Party da Índia ainda tem muito o que aprender da história épica de Lula no governo do Brasil.


*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e seu blog Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Financial Times tranquiliza a “CRASSE MÉRDIA” brasileira



Escrito por Raul Longo
Enviado por Sílvio de Barros Pinheiro
Alterações e correções: redecastorphoto



Com o passar dos anos, desde 2003 reduziram-se os setores da “crasse mérdia” brasileira preocupada com o enriquecimento do ex operário Luís Ignácio Lula da Silva.

Antes de 2003 a preocupação era ainda maior. Alguns até imaginavam que se virasse presidente do país Lula compraria todos os aparelhos “3 em 1” do mercado, desfalcando os lares de consumidores da, então, maravilha acústica. Previsões menos modestas acreditavam que monopolizaria a produção de ternos Armani e o próprio presidente da FIESP cogitou que expulsaria todos os empresários do país para não sofrer concorrência.

Mesmo assim Lula virou presidente e a cada de seus dois mandatos aqueles setores “crasse mérdia” foram se reduzindo -- a despeito ou graças às previsões dos especialistas em economia do Grupo GAFE: Rede Globo, Editora Abril, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo -- por tanto afamados como os 4 cavaleiros do Apocalipse que não veio.

Ainda que se reduzissem os setores preocupados, ampliaram-se as preocupações dos renitentes e se chegou a anunciar que o filho do ex-operário – vejam que acinte – haveria adquirido a fazenda do maior criador de gado nelore do Brasil. Um descalabro que descabelou muita gente preocupada com o continuar daquela roubalheira que não deixaria sobrar nada para ninguém quando os de sempre retornassem ao poder. Felizmente o proprietário e suposto vendedor da tal fazenda tranquilizou todo mundo avisando que aquilo não passava de boato e sequer fora consultado sobre a inexistente possibilidade de suas terras estarem a venda.

Então se aventou um “aerolula” folheado a ouro. Isso revoltou muitos da “crasse mérdia”, pois nem o luxo do IFHC, ainda maior que o do apartamento de Paris do mesmo FHC, chegara a tanto. Mas em 2011 Lula voltou para casa e não levou o avião e caso alguém da alta “crasse mérdia” brasileira torne a ocupar o poder, poderá brincar com a aeronave.

Eis então que o jornalista Amaury Ribeiro lança um livro onde comprova documentalmente os desvios da filha do Serra, do genro do Serra, do primo do Serra, do cunhado do Serra e dos amigos do Serra. São cifras astronômicas e se o Serra sequer foi presidente do Brasil por ter perdido do ex-operário e até de uma mulher, o que esses dois não haverão roubado na presidência? Imaginem vocês: um ex-operário e uma mulher!

O Genoíno, por exemplo, foi só presidente do PT e roubou tanto que foi condenado pelo Joaquim Barbosa e seus comparsas (Houaiss, 1) do showmício no STF. Nem Barbosa nem Gurgel conseguiram provar que o Genoíno roubou, mas ’tá na cara que o Genoíno roubou! Não se encontrou nada: nem documento, nem dinheiro, nem propriedade ou qualquer outra coisa, mas o Genoíno roubou. Roubou porque a revista Veja e o Roberto Jefferson viram. Quer dizer, ver não viram... Mas garantem! E se a Veja garante, como é que o Barbosa e seus comparsas (Houaiss, 1) no showmício do STF não iam condenar, não é mesmo?

Tudo o que se comprova que o Genoíno possua é uma casa de periferia que não deve valer nem R$ 100 mil, mas a "crasse mérdia" preocupada com o regresso de seus representantes ao poder, delira com fortunas incalculáveis. Se delira com a fortuna inexistente do ex presidente do PT o que não delirará com a do ex Presidente do Brasil? Tanto que alguém fez circular pela internet uma capa de edição da revista Forbes apontando Lula como um dos bilionários do mundo.

Mas aí veio um gaiato e estragou o prazer masoquista da “crasse mérdia” preocupada com a possibilidade de que Lula roube tudo antes que voltem ao poder, revelando esta montagem:



Nem assim o setor Masoch [1] da classe média brasileira - a "crasse mérdia" - se deu por vencida e continua vibrando de gozo ao acusar Lula de ladrão. São os velhos especuladores, as viúvas de FHC, os MILICANALHAS saudosistas da ditadura que os acoitava, os contrabandistas e demais rufiões tratados injustamente pela democracia que os impossibilita de voltar ao poder e, na falta de atividade mental, entregam-se à lascívia de distribuir preocupações sobre o quanto Lula terá roubado do país.

Com isso enlouquecem a “crasse mérdia” que, por sua vez, se sempre sentiu o maior prazer em ser roubada por acadêmicos, poliglotas, professores, doutores, playboys, médicos, engenheiros, generais e todos os que possam ser considerados gente-de-bem, jamais, nem imaginar, poderia admitir ser roubada por um ex-operário. Muito menos nordestino! É uma afronta!

Mas neste endereço da Financial Times, Lula’s ‘loot’: not much to look at, veio o tranquilizante. Ninguém mais precisa se preocupar. Ao contrário do que faz entender o Grupo GAFE - Rede Globo, a revista Veja da editora Abril, a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, Lula não ficou rico.

Os muito preocupados que não leem inglês podem pedir pela tradução da página ao Google ou a alguém alfabetizado neste idioma para saber o que os britânicos deduziram da suposta fortuna de Lula. Dou uma forcinha aqui: o Financial Times, conhecido informativo capitalista inconfundivelmente neoliberal, conclui que com 30 anos de vida pública os poucos bens que Lula possui são modestíssimos. Conforme o informante da FT, um hacker contratado por um político da oposição, até deprecia as propriedades do ex-operário dizendo-as mal conservadas e mal localizadas.

Já quanto ao apartamento do FHC a Financial Times não diz nada. Também não sobre a mansão do Serra nos Jardins em São Paulo. Tampouco sobre apartamento milionário acusado pela filha não reconhecida do Álvaro Dias ou sobre os imóveis em BH e Nova Lima e os apartamentos do Leblon e de Ipanema do Aécio Neves. Mas para os masoquistas da “crasse mérdia”, isso é de bom tom e só comprovam o bom gosto de seus ídolos políticos.

Nota do autor
[1] Leopold von Sacher-Masoch – escritor austríaco autor do romance A Vênus de Peles onde um dos personagens atinge o orgasmo quando surrado pelo amante da esposa. Daí que se deu a origem aos termos masoquismo e masoquista; no Brasil também versado para eleitor de candidato tucano.