Mostrando postagens com marcador Susan Rice. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Susan Rice. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Hagel demitido sugere mais e mais guerra

25/11/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Susan Rice
(por Rob Bates)
Ontem, a Conselheira de Segurança Nacional dos EUA Susan Rice demitiu o Secretário de Defesa, Chuck Hagel. Foi erro terrível, do presidente Obama, ter concordado com a jogada. Há muitos problemas na política externa, que a Casa Branca criou. Nenhum deles foi criado por culpa de Hagel, e praticamente todos eles podem ser rastreados até a própria Susan Rice e seu estilo surreal de administrar:

No início deste ano, a decisão sobre quantos soldados norte-americanos permaneceriam no Afeganistão em 2015 foi objeto de 14 reuniões de membros do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, quatro reuniões de secretários do gabinete e outros “figurões” do CSN, e duas sessões do CSN com o presidente, como informou um ex-alto funcionário da administração.

Consequência dessas reuniões foi que o número de soldados a permanecer no Afeganistão caiu de 10.500 para 9.800: 700 soldados a menos.

Ilustração distribuída pelo Daily Mail (UK)
Depois que Obama e Rice, contra todas as promessas feitas, prorrogaram secretamente o combate dos EUA no Afeganistão, o número de soldados a ficar lá, decidido depois de 20 reuniões do CSN, já está outra vez em discussão, e deve aumentar. Esse processo de decisão mostra o sistema ensandecido de governar de Susan Rice – não de Hagel.

Rice exigiu que Hagel fosse demitido, porque ela enlouqueceu quando Hagel recomendou que os EUA deixassem de lado, para sempre, a (não)política perfeitamente enlouquecida que Rice desenvolvera contra o Estado Islâmico e para a Síria. Homem realista, Hagel sabe que os EUA precisarão do exército sírio, comandado pelo presidente Assad, para devolver o Estado Islâmico ao fundo dos infernos. Contra todos os conselhos dos militares, Rice, que é “intervencionista democrática” insiste em [continuar a esfalfar-se, tentando] derrubar Assad.

Michèle Flournoy
Os neoconservadores, inclusive os redatores das páginas de piadas que Fred Hiatt edita no Washington Post, querem ver Michèle Flournoy no lugar de Hagel. Ela é ativa propagandista das Operações de Contra-insurgência [COIN], sempre em campanha a favor das duas”‘avançadas’, no Iraque e no Afeganistão. As duas avançadas e toda a COIN fracassaram e não chegaram nem perto dos resultados que Flournoy e outros tanto prometeram.

O ato de nomear Flournoy, que só acrescentará mais incompetência e sandice à política externa dos EUA, não favorecerá a paz no mundo: só favorecerá guerra e mais guerra.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como  “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

“Protestos” assassinaram a democracia − Ucrânia derrotada pela intriga e pela violência

23/2/2014, [*] Paul Craig Roberts – Institute for Political Economy
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Manifestantes moderados estendem bandeira da UE em Kiev (24/11/2014)
Quem manda lá? Não, com certeza, os moderados alugados e bem pagos que Washington e a União Europeia sonhavam pôr lá, como novo governo da Ucrânia. O acordo que a oposição sustentada por Washington e pela União Europeia fizeram com o presidente Yanukovich para pôr fim à crise não durou meia hora.

Até o ex-campeão de boxe, Vitali Klitschko, que fazia pose de líder da oposição há apenas poucas horas, foi vaiado pelos vândalos e terroristas, e descartado. O agora nomeado presidente por algo que parece ser um Parlamento irrelevante, Oleksandr Turchynov, não tem apoio algum entre os que derrubaram o governo.

Como a BBC noticiou,

(...) como todos os políticos da oposição, Turchynov não goza da confiança nem do respeito dos reunidos na Praça Independencia em Kiev.

Oleksander
Turchynov
No leste da Ucrânia, a única força armada e organizada é o ultranacionalista “Pravy Sektor” − Setor Direita. Pelo modo como os “líderes” desse grupo estão falando, vê-se que se sentem instalados no poder. Um deles, Aleksandr Muzychko, já jurou lutar “até a morte contra judeus e russos”.

Afirmando a autoridade do Pravy Sektor (Setor Direita) sobre a situação, Muzychko declarou que agora que o governo democraticamente eleito foi derrubado, “teremos ordem e disciplina” e “esquadrões do Pravy Sektor (Setor Direita) matarão os bastardos, onde forem encontrados”.

Os “bastardos” são qualquer manifestante que ouse protestar contra o Pravy Sektor (Setor Direita).

Muzychko declarou que “o próximo presidente da Ucrânia será do Pravy Sektor (Setor Direita)”.

Outro líder do Pravy Sektor (Setor Direita), Dmitry Yarosh, declarou:

(...) o Pravy Sektor não vai depor armas.  

Disse que o acordo feito entre a oposição e o presidente é “inaceitável” e exigiu a extinção do partido político do presidente Yanukovich.

Dmitry Yarosh
Esse Setor Direita tem raízes que remontam aos ucranianos que lutaram ao lado de Adolf Hitler contra a União Soviética durante a IIª Guerra Mundial. Foi o Setor Direita que introduziu na praça os vândalos armados que converteram as manifestações pacíficas em Kiev, a favor de o país aproximar-se da União Europeia, em ataques violentos contra a Polícia, com o objetivo de derrubar governo democraticamente eleito – o que o Setor Direita afinal conseguiu.

O Setor Direita não derrubou o governo da Ucrânia para entregá-lo nas mãos da “oposição” alugada e paga por Washington e pela União Europeia.

Há uma tendência a apresentar o Setor Direita como pequeno grupo marginal. E o Setor Direita não só tomou o controle dos protestos, retirando-o dos moderados apoiados pelo Ocidente – como os próprios tais moderados já admitiram, eles mesmos – mas o Setor Direita também encontrou apoio público suficiente para destruir o monumento nacional aos soldados do Exército Vermelho que morreram para libertar a Ucrânia da ocupação pelos nazistas alemães.

Diferente da destruição encenada pelos EUA da estátua de Saddam Hussein, que foi evento de propaganda montado pelos EUA para que os representantes da imprensa-empresa press-tituta fotografassem, a destruição, pela extrema direita ucraniana, do monumento comemorativo da libertação da Ucrânia pelo Exército Vermelho teve, sim, apoio popular.

O Setor Direita odeia os russos por terem derrotado Hitler, mas, pela mesma razão, também odeia os EUA, a França e a Inglaterra. De modo algum o Setor Direita será o partido político que integrará a Ucrânia à União Europeia.

Susan Rice
As partes russas da Ucrânia compreendem claramente que a destruição, pela extrema direita, do monumento que homenageia a vitória do Exército Vermelho sobre as tropas nazistas é ameaça direta contra a população russa que vive na Ucrânia. Governos provinciais no leste e no sul da Ucrânia que já foram parte da Rússia estão organizando milícias para resistir à ameaça de nazistas ultranacionalistas criada pela estupidez e pela incompetência de Washington, e pela ignorância e ingenuidade patéticas dos “manifestantes” de Kiev.

Tendo interferido em assuntos internos da Ucrânia e perdido em seguida o controle sobre os eventos, Washington põe-se agora a lançar “ultimatos” à Rússia para que não interfira na Ucrânia.

Será que a perfeitamente idiota Susan Rice, conselheira de segurança nacional neoconservadora de Obama, pensa que Putin dará alguma (qualquer, mínima) atenção aos “ultimatos” dela, ou a “instruções” de um governo militarmente tão incompetente que não consegue sequer ocupar Bagdá, depois de oito anos de tentativas, nem consegue derrotar uns poucos milhares de Talibãs armados só com armas leves, depois de doze anos?

As tropas russas precisaram só de algumas horas para destruir o exército georgiano treinado e armado por EUA e Israel, que Washington mandou lá, para invadir Ossétia Sul.

Victoria Nuland
Onde será que Obama descobre nulidades como Susan Rice e Victoria Nuland? Deviam ser postas num sanatório para mulheres portadoras de necessidades (muito) especiais, nunca no governo de uma superpotência, onde a ignorância e a arrogância da dupla pode iniciar a IIIª Guerra Mundial.

A Ucrânia é muito mais importante para a Rússia que para os EUA ou a União Europeia. Se a situação na Ucrânia descambar completamente, e os extremistas de direita assumirem o controle, a intervenção russa é certa. O arrogante, estúpido governo Obama, tolamente, temerariamente, imbecilmente, criou uma ameaça estratégica direta contra a existência da Rússia.

Segundo o Moscow Times, eis o que um alto funcionário do governo russo tem a dizer:

Se a Ucrânia rachar, haverá guerra. A Ucrânia perderá, primeiro, a Crimeia, porque a Rússia irá para lá, como fizemos na Georgia.

Outro funcionário russo disse:

Não permitiremos que Europa e EUA nos tomem a Ucrânia. Todos os estados da ex-União Soviética são, para nós, uma família. Pensam que a Rússia está ainda fraca, como no início dos anos 1990s. Não estamos.

A extrema direita ucraniana está hoje em posição mais forte que os fantoches ucranianos pagos por Washington, gente absolutamente fraca e irrelevante que vendeu o próprio país pelo dinheiro de Washington. O Setor Direita é organizado. Está armado. É local. Não depende de dinheiro pago a ele por Washington, nem de ONGs pagas pela União Europeia. Têm ideologia e é focado. O Setor Direita não precisa pagar manifestantes para encher ruas, como Washington teve de fazer.

O mais grave: “manifestantes” bem intencionados, mas estúpidos – sobretudo os estudantes de Kiev – e um parlamento ucraniano jogando para os “manifestantes” destruíram a democracia ucraniana. O Parlamento controlado pela oposição tirou do governo, sem eleições, um presidente eleito: não há dúvida alguma de que é ação ilegal e antidemocrática óbvia. O Parlamento controlado pela oposição emitiu mandados de prisão ilegais contra membros do governos do presidente. O Parlamento controlado pela oposição tirou da cadeia criminosos legalmente condenados.

Parlamento controlado pela oposição, na abertura da sessão de 27/1/2014
Assim, com a oposição criando um regime de ilegalidade, para substituir os procedimentos legais e constitucionais, o campo ficou aberto para ser ocupado pelo Setor Direita. Podem esperar: tudo que a oposição fez a Yanukovich o Setor Direita fará à oposição. Por suas ações ilegais e inconstitucionais, a oposição criou o precedente para ser, ela também, e logo, derrubada.

Assim como a revolução de fevereiro de 1917 contra o czar russo preparou o cenário para a Revolução Bolchevique de outubro de 1917, colhendo de surpresa os estúpidos “reformadores”, a derrubada da ordem política na Ucrânia preparou o cenário para o Setor Direita. Resta esperar, só, que o Setor Direita deixe escapar a chance.

Viktor Yanukovich
A imprensa-empresa norte-americana, como fonte de informação, é imprestável. Opera como um Ministério para Mentiras do Governo. Jornalistas propagandistas corruptos estão pintando a derrubada antidemocrática de Yanukovich como se fosse vitória da liberdade e da democracia. Quando tudo começar a vir abaixo e já não conseguirem esconder os fatos, os/as press-tituto(a)s culparão a Rússia e Putin. A imprensa-empresa ocidental é uma praga que desabou sobre a humanidade.

Os norte-americanos não têm nem ideia de que o governo neoconservador do Doido da Casa Branca os está levando para uma grande confrontação.

Que ironia! O “primeiro presidente negro”, o homem que os liberais imaginaram que restauraria a justiça, a moralidade e a razão para toda a civilização ocidental, aparece aí, hoje, como o homem que, ou aceitará uma derrota humilhante, ou arriscará todos nós, numa guerra que pode destruir a vida na Terra.
___________________________

[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics.  Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica.

Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em  Counterpunch, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Apoio de Irã e Rússia a Assad beneficia os sírios

16/2/2014, [*] Musa al-Gharbi, Press TV, Teerã
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bashar al-Assad
Na segunda rodada das conversações de Genebra-2, o governo aceitou um cessar-fogo temporário em Homs, e a suspensão do bloqueio, para permitir a saída dos cidadãos que quisessem sair e para a entrada de provisões para os que permanecessem.

Imediatamente depois dessa concessão feita pelo governo sírio, os EUA e seus aliados tentaram fazer aprovar uma resolução, pretensamente baseada no Cap. 7º, no Conselho de Segurança da ONU. Sob o pretexto de implantar esse acordo com o governo sírio, aquela Resolução teria declarado que toda a culpa pelo conflito e por todas as atrocidades cometidas na Síria caberia integralmente ao governo sírio. Assim se pavimentaria o caminho para “mudar o equilíbrio de poder em campo”.

Rússia e China declararam o projeto de Resolução morto ainda no ovo. Lavrov acusou os EUA de estarem obstruindo o processo de paz na Síria, com sua insistência em que o único fim aceitável para o conflito teria de implicar a renúncia de al-Assad; e que os EUA repetidamente levantavam a ameaça de intervenção militar.

Impossível não ter, aí, uma sensação de déjà vu:

Em março de 2012, a ONU envolveu-se nas tentativas para negociar um acordo de paz na Síria. Entre março e junho o enviado de paz da ONU, Kofi Annan, trabalhou como intermediário entre o governo e as oposições e conseguiu negociar vários acordos de cessar-fogo e obteve concessões dos lados em guerra. Aqueles esforços foram minados em parte pelo fato de que o chamado Exército Sírio Livre e o chamado Conselho Nacional Sírio absolutamente não tinham controle sobre as milícias, o que tornava difícil fazer valer os acordos de cessar-fogo.

Kofi Annan, Bashar al-Assad, membros da Liga Árabe e das Nações Unidas em 10/3/2012
Mas Annan percebeu claramente que o principal incentivo à continuação dos conflitos na Síria vinha de potências que operavam de fora, especialmente os EUA, sempre insistindo em que a única solução aceitável para o conflito seria a renúncia de al-Assad – que essa sempre seria precondição para qualquer acordo negociado – sempre deixando aberta a ameaça de intervenção militar (através da Líbia) para assegurar uma mudança de regime, se as negociações falhassem.

Em junho de 2012, Annan redigiu o Comunicado de Genebra, no qual se consolidavam as concessões que os dois lados haviam feito nas negociações até ali e traçava-se um mapa do caminho para um processo de reconciliação nacional na Síria.

Importante: apesar de o Comunicado obrigar o governo a transferir a autoridade executiva para um corpo transicional executivo, não impedia que o presidente al-Assad participasse desse corpo, nem o impedia de participar em governos posteriores ou nas eleições.

Além disso, o Comunicado, explícita e claramente, atribuía a responsabilidade pelos conflitos aos grupos de oposição, embora dissesse que ao governo, como ator mais forte, cabia a maior responsabilidade por ajudar a restaurar a ordem. Annan conseguiu que alguns agentes internacionais ativos no conflito sírio assinassem esse acordo (estranhamente, com exceção do Irã) – os quais, contudo, não compreenderam que o alvo do acordo eram eles mesmos, não o governo sírio ou os militantes. O objetivo do Comunicado de Annan era conseguir que a comunidade internacional parasse de intervir nas negociações ou que perpetuasse a guerra.

Pois... já no dia seguinte, depois de assinado o Comunicado, os EUA e seus aliados já tentavam empurrar ao Conselho de Segurança uma Resolução baseada no Capítulo 7º, a qual, em declarado desrespeito e desafio ao Comunicado “declarava” que toda a culpa pelos conflitos cabia ao governo do presidente al-Assad, o que daria motivo para intervenção militar, se as condições que a Resolução impunha não fossem imediata e suficientemente satisfeitas.

Kofi Annan, enviado de paz da ONU, sentiu-se ultrajado por essa jogada dos norte-americanos, que ele viu como traição ao acordo que as potências ocidentais acabavam de assinar – e a jogada dos EUA matou as negociações do processo de paz.

Susan Rice
Ante o fracasso de sua tentativa no Conselho de Segurança da ONU, uma Susan Rice enlouquecida de fúria declarou que, assim sendo, os EUA e seus aliados regionais e da União Europeia teriam de “trabalhar por fora da ONU” para alcançar o objetivo ao qual visavam (vale observar que a maioria dos tais aliados regionais são monarquias, quase todas repressivas; o desejo daqueles aliados de levar “democracia” à Síria sempre seria, de saída, altamente questionável).

Imediatamente, esses estados passaram a financiar, armar, alimentar e treinar milícias rebeldes; mas, como no caso da Líbia, a maioria dos recursos encaminhados para aquelas milícias acabaram em mãos de pessoal de baixa confiabilidade, que passou a acorrer em ondas à Síria, à caça, precisamente, do influxo de recursos e da possibilidade de alguma “mudança de regime” ao estilo do que haviam visto na Líbia.

Incensados pela renovada oferta de recursos e pela reacendida possibilidade de intervenção internacional, além do grande número de combatentes que passaram a chegar à Síria e que, num primeiro momento, fizeram os combates pender a seu favor em algumas áreas, os chamados Exército Sírio Livre e Conselho Nacional Sírio absolutamente recusaram-se a continuar quaisquer negociações ou a respeitar quaisquer cessar-fogos, a menos que al-Assad renunciasse – repetindo, como papagaios, o que diziam seus apoiadores estrangeiros.

Na sequência dessa remontada de dinheiro, armas e homens pagos por potências estrangeiras, a situação na Síria rapidamente se deteriorou. A ONU teve de retirar de lá seus observadores, e Annan renunciou ao cargo, profundamente decepcionado.

Desde então, a ONU repetidas vezes pediu aos EUA e seus aliados que parem de financiar e armar a oposição, porque essas ações só fazem prolongar o conflito e tornam cada dia mais difícil implantar qualquer tipo de acordo (sobretudo porque já ninguém controla as armas que chegam à Síria, nem a ação dos grupos locais; é o que se vê hoje, quando já há uma dramática guerra civil dentro da guerra civil, que está tomando o norte da Síria. Os norte-americanos foram absolutamente surdos a todos os pedidos da ONU.

Milícia terrorista armada pelos EUA e aliados contra a Síria (foto 17/6/2013)
É falso o argumento que os apologistas das “milícias” usam hoje, sugerindo que Rússia e Irã estariam fazendo “a mesma coisa” ao fornecer armas, suprimentos e dinheiro ao governo de al-Assad. Há importante diferença legal e filosófica entre (a) garantir apoio a um governo que enfrenta assalto financiado por potências externas e (b) armar, pagar e treinar grupos não estatais privados, que fazem guerra a um estado e a um governo.

Há outra assimetria nisso, crítica, porque é absolutamente indispensável que o estado sírio permaneça viável: se o governo sírio entrar em colapso desordenado, o desastre será amplíssimo, e só exacerbará radicalmente, em vez de mitigar, o conflito.

Até EUA e a oposição tiveram de admitir isso, a contragosto, pelo menos oficialmente. Mas ainda falta que reconheçam que a ajuda que está mantendo intacto o governo sírio, tanto militarmente como noutros campos, tem de ser reconhecida como crítica para a estabilidade da Síria – componente importante para tornar possível e aplicável em campo qualquer acordo que se venha a alcançar.

Já se vê bem claramente que a ideia divulgada por “cientistas” políticos, de levar o governo sírio à beira do colapso, para arrancar dele um “melhor” acordo, é perfeita loucura – em boa parte porque essa ideia pressupõe que a coalizão liderada pelos EUA conseguirá arrancar a Síria da beira do abismo e evitar o caos total.

Ao longo de todo o conflito, os políticos norte-americanos já mostraram que absolutamente não têm, sequer, compreensão clara da dinâmica na Síria. A ideia de que eles, sabe-se lá como, conseguiriam controlar uma situação complexa e fluida que sequer conhecem, muito menos compreendem, ou que conseguiriam administrar essa estratégia, é ridícula.

Tampouco é claro o que significaria um “melhor” acordo nesse contexto. Melhor, em que sentido? E melhor para quem?

Com certeza, não estão buscando qualquer “melhor” acordo para o povo sírio, que estão em massa a favor do governo de al-Assad contra os terroristas, como o demonstram todas as evidências e todas as pesquisas. A favor dos militantes só se ouvem bobagens, retórica e propaganda oca.

Assim sendo, a mais importante diferença entre o apoio que Rússia e Irã dão ao governo sírio e o apoio que os EUA e as monarquias do Golfo Persa dão aos terroristas é que, sem dúvida possível, Rússia e Irã estão promovendo o desejo e os interesses do povo sírio.

Independente de se o governo sírio alcançará ou não algum acordo com a “oposição”, ou de se a Conferência Genebra-2 poderá fazer com que as potências ocidentais e seus aliados afinal aceitem o que determina o Comunicado de Genebra, fazendo cessar a ação deles que prolonga e perpetua o conflito – esse sempre será o melhor resultado concebível, para ajudar a pôr fim à crise na Síria. Isso, precisamente, era o que se desejava que o Comunicado conseguisse fazer.


[*] Musa al-Gharbi é pesquisador adjunto da Southwest Initiative for the Study of Mideast Conflicts (SISMEC). É mestre em Filosofia pela University of Arizona. Pode ser acompanhado pelo Twitter, em @Musa_alGharbi.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

EUA defendem Israel: “Reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU”


16/11/2012, Vijay Prashad, The Real News Network, TRNN
 Vídeo-entrevista traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


JESSICA DESVARIEUX (produtora da TRNN): Bem-vindos à The Real News Network. Sou Jessica Desvarieux, em Baltimore.
Semana muito importante para a ONU e os EUA. Temos hoje conosco Vijay Prashad, professor de Estudos Internacionais no Trinity College em Hartford, Connecticut. Dentre seus livros mais recentes estão Uncle Swami: South Asians in America e Arab Spring, Libyan Winter. Vijay é colaborador regular das revistas Frontline eCounterPunch. Obrigada por nos receber, Vijay.

VIJAY PRASHAD: Obrigado a vocês.

DESVARIEUX: Então, Vijay, fale-nos sobre a reunião do Conselho de Segurança da ONU, que aconteceu dia 14/11.

PRASHAD: Dia 14 de novembro, à noite, os representantes de Marrocos e do Egito convocaram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para discutir o ataque israelense contra Gaza. Você sabe, a questão de Gaza é sempre sensível. Houve várias discussões na ONU, não só sobre Gaza, mas também sobre a política das colônias de Israel na Cisjordânia. Recentemente, dia 6/11, houve uma reunião importante, na qual a ONU alertou Israel sobre o que foi apresentado como flagrante violação em áreas cultivadas na Cisjordânia. Você sabe, Israel iniciou e, de fato, nunca parou, de arrancar oliveiras, mas, dessa vez, a ação aconteceu em época de colheita das azeitonas. Quero dizer: a ONU várias vezes tentou levantar questões sobre a ação dos israelenses nos Territórios Ocupados e em Gaza.

Fato é que essas áreas estão sob ocupação israelense. Não há nação palestina soberana. Gaza não tem soberania. Não existe Gaza soberana. Assim, quando o ataque acontece contra Gaza, não se trata de um país atacando outro país ou em disputa contra outro país. O que há ali é uma potência ocupante que usa força desproporcional contra uma região mantida sob ocupação desde 1967.

Hardeep Singh Puri
Nesse contexto, Egito e Marrocos e outros países convocaram uma sessão de emergência do Conselho de Segurança. Nessa sessão de emergência, vários países, os 15 membros do Conselho, dessa vez, todos disseram que alguma coisa tem de ser feita. O presidente do Conselho de Segurança, atualmente, é o representante da Índia e membro permanente, Hardeep Singh Puri. Depois da reunião, ele disse que houve unanimidade no Conselho de Segurança, que todos concordam que é preciso fazer alguma coisa, que a situação dos palestinos é atroz.

O problema foi que não houve acordo sobre o que fazer. E o Conselho de Segurança ficou paralisado. Em outras palavras, a maioria dos 15 membros disseram que Israel tem de ser condenado por usar força desproporcional, não só pelo assassinato premeditado de membros do Hamás, mas, também, pela prática de bombardear estações de tratamento de água e outras instalações indispensáveis à sobrevivência da população palestina. O que uma estação de tratamento de água em Khan Yunis teria a ver com foguetes lançados de Gaza, contra Israel? Por que destruir uma caixa d’água? As questões levantadas lá foram desse tipo.

Susan Rice
Mas os EUA bloquearam qualquer tentativa de tentar redigir algum tipo de Resolução. A embaixadora Susan Rice insistiu e deixou bem claro que os únicos culpados de tudo são os membros do Hamás, não o governo de Israel.

É muito estranho, porque ela fala do conflito como se fosse guerra entre dois governos, entre dois Estados soberanos e, portanto, a ONU teria de interferir e condenar os dois “estados”. O que ela quer é alguma espécie de “proporcionalidade” na condenação, apesar de todos saberem que se trata de guerra fundamentalmente desproporcional. Isso, aliás, foi o que disseram s representantes do Egito.

Mas Susan Rice segue uma doutrina criada em 2002, chamada de “Doutrina Negroponte”. Leva o nome do embaixador John Negroponte, o qual, quando estava na ONU, estabeleceu bem claramente que os EUA sempre bloqueariam qualquer ação da ONU que implicasse qualquer tipo de crítica a Israel. Essa posição é conhecida como “Doutrina Negroponte”. E desde 2002, de fato desde antes de 2002, isso é exatamente o que os EUA fazem.

Sempre que houve qualquer tentativa de censurar Israel, fosse pela invasão do Líbano em 2006, pela Operação Chumbo Derretido contra Gaza em 2009, ou agora, dia 14 de novembro, pela Operação Pilar de Nuvens, que depois passou a ser chamada Pilar de Defesa, [1] em cada momento desses, os EUA bloquearam qualquer possibilidade de discussão séria sobre a ocupação israelense de terras palestinas e sobre a violência dos ataques israelenses – os jatos F-16s, os helicópteros Apache, violência sempre altamente desproporcional.

A verdade é que, quando se fala em “foguetes” palestinos, fala-se de canos de chumbo disparados pela combustão de um produto feito com esterco; e a bomba propriamente dita é feita de TNT e ureia, quer dizer, de mais esterco. Nada disso se compara aos jatos F-16 super equipados, à frota de barcos de guerra atracados ao largo e que bombardeiam Gaza, ou aos helicópteros Apache.

Fato é que a reunião do Conselho de Segurança deu em nada, porque a reunião foi paralisada. É importante lembrar os discursos moralistas da Embaixadora Susan Rice, quando russos e chineses bloquearam a resolução que os EUA desejavam ver aprovada, em fevereiro de 2012, contra o governo da Síria. Ela esbravejava que o sangue derramado na Síria estaria manchando as mãos de chineses e russos. Se se acredita nela, pode-se dizer que o sangue derramado em Gaza a partir de 14 de novembro mancha, hoje, as mãos do governo Obama. Parece-me muito grave, mas, de fato, é raciocínio que os EUA inventaram.

Comandante Ahmed al-Jaabari, do Hamás, ferido, 14/11/2012 
(Haaretz, Israel)
DESVARIEUX: Vijay, e sobre o líder do Hamás que foi assassinado? A mídia o apresenta como comandante militar, Ahmed al-Jaabari. Você tem melhor informação, de fontes que não sejam norte-americanas?

PRASHAD: Não há qualquer dúvida de que Jaabari era comandante da ala militar do Hamás. Isso é verdade. Mas muito mais importante é uma matéria publicada dia 15 de novembro, matéria de capa do jornal Haaretz  [2], que é jornal liberal publicado em Israel, em que se diz que, algumas horas antes de ser assassinado, o comandante Jaabari recebera a mais recente versão de um documento a ser negociado, o que sugere que o Hamás e alguns setores do governo de Israel já estavam em negociações por canais paralelos ao governo de Netanyahu, para construir um acordo de paz.

Ahmed al Jaabari
A matéria do Haaretz foi a primeira vez que ouvi falar sobre essa negociação “paralela” é um desenvolvimento, de fato, surpreendente. Se o comandante Jaabari estava, de fato, trabalhando com vistas a algum tipo de acordo de paz e nesse preciso momento é assassinado pelo governo Netanyahu... o que se deve pensar sobre a seriedade ou sobre a confiabilidade de quem quer que, dentro do governo israelense, estivesse negociando alguma paz com o Hamás?

Deve-se lembrar também que, em 2006, quando o Hamás venceu as eleições no setor Gaza dos Territórios Palestinos Ocupados, quando o Hamás foi eleito, o líder do Hamás escreveu ao presidente George W. Bush dos EUA e declarou que o seu grupo estava pronto a assinar uma trégua com Israel, desde que Israel devolvesse os Territórios Ocupados e retornasse às fronteiras de 1967.

Na mesma carta, tratou-se também de outros assuntos. E aquela carta, que era simples movimento para começar a abrir negociações, jamais obteve resposta. O governo Bush jogou a carta no lixo e declarou o Hamás “organização terrorista”. Esses fato, a carta sem resposta, de 2006, e, se é verdade que o comandante Jaabari estava trabalhando em algum tipo de negociação de paz, e é assassinado... Tudo isso obriga a desconfiar muito da honestidade dos EUA como negociadores; e obriga a desconfiar também de qualquer suposta agenda de paz que envolva Israel. De fato, tudo isso mostra que Israel não tem interesse algum em fazer paz alguma com o povo palestino, e só se interessa por manter a atual ocupação, sempre modificando os fatos em campo, sempre sufocando Gaza, até que, como por milagre Israel consiga fazer sumir o problema palestino...

DESVARIEUX: Vamos continuar cobrindo os eventos na Palestina, pelo The Real News. Muito obrigado, Vijay, por nos receber.



Notas dos tradutores
[1] Sobre o nome que Israel deu à operação de ataque contra Gaza, ver 16/11/2012, “O fanatismo religioso de Israel”.
[2] 15/11/2012, Haaretz, “Israeli peace activist: Hamas leader Jabari killed amid talks on long-term truce” [Líder do Hamás assassinado no início das negociações para uma paz de longo prazo].