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domingo, 26 de janeiro de 2014

Pepe Escobar: “Rouhani e 1914 remix”

24/1/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Hassan Rouhani, Presidente da República Islâmica do Irã
O presidente Hassan Rouhani do Irã é, hoje, o homem que mais trabalha no show business geopolítico. Agora, entrou na toca do leão – ou rede para apanhar peixinhos dourados – o Fórum Econômico Mundial de Davos. E enfeitiçou eles todos, só com sua estratégia de “moderação prudente”, que diz o que todos os Patrões do Universo, verdadeiros ou falsificados, realmente querem ouvir: o Irã está aberto aos negócios.

Jim O'Neill
Rouhani destacou o que até o inventor dos BRICS, Jim O'Neill, já reconheceu: o Irã tem potencial para ser uma das economias Top Tem do mundo, antes de 2040. Sua estratégia para chegar lá é extremamente sólida: política externa muito equilibrada subordinada à promoção do desenvolvimento econômico. Começa com acordo definitivo com o P5+1 – os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha – até o final de 2014; fim de todas as sanções; e, então, fluxo sustentado de investimentos que virão do ocidente.

Rouhani não vê “obstáculos intransponíveis” na trilha de um acordo nuclear permanente e amplo – “a menos que outras partes não mostrem vontade suficientemente séria”. Sanções, disse ele, “só fazem exacerbar” a instabilidade, em vez de criar alguma paz.

Rouhani não poderia ter sido mais equilibrado, no movimento para “engajar a comunidade mundial numa base justa”. Voltou a dizer que o programa nuclear do Irã visa exclusivamente a finalidades pacíficas:

Não temos qualquer ambição de criar uma arma nuclear (...). Firmemente declaro que armas nucleares não têm lugar em nossa estratégia de segurança. Mas o povo do Irã não está disposto a desistir de sua tecnologia pacífica. Continuaremos a desenvolver o uso pacífico da energia nuclear.

Por isso, quando perguntado sobre duplo uso de tecnologia nuclear, ele respondeu: “40 países fazem duplo uso da tecnologia nuclear. O Irã não aceitará ser discriminado”.

Rouhani destacou que o Irã está construindo laços comerciais mais fortes com seus vizinhos – a longa lista inclui Rússia, Turquia e Paquistão – e nada quer além de normalizar os negócios com os europeus. Para tanto, faz a corte a líderes comerciais ocidentais. Conversou com o Big Oil ocidental, num “quadro de mútuos interesses”. E que grande negócio está, potencialmente, sobre a mesa: se você investir em nossa indústria de energia – e eles estão babando para fazer exatamente isso – ajudaremos no seu crescimento econômico, e isso é bom para a paz mundial.

Jamie Dimon
Disse que a crise financeira provou que as nações não se podem trancar dentro delas mesmas. Até elogiou o tema de Davos, esse ano: economias bem sucedidas têm também de ser éticas. Contem essa para Jamie Dimon, do JP Morgan.

Segundo Rouhani,

Os últimos seis anos nos ensinaram que nenhum país sozinho pode ser bem-sucedido (...) Nenhum país pode considerar permanente a sua dominação. E todos estamos ligados mediante a globalização. Se não escolhermos pilotos sábios, a tempestade nos afogará, todos.

Contem essa para a claque barulhenta que não poupará esforços para bombardear qualquer possibilidade de qualquer entente com o Irã.

Sua posição sobre a Síria foi, mais uma vez, firme.

Matadores sanguinários chegam aos milhares à Síria, e fazem guerra – até uns contra os outros (...) Temos de trabalhar juntos para ajudar a Síria e para expulsar da Síria aqueles matadores. Em seguida, temos de reunir a oposição em torno da mesa, e organizar eleições gerais e justas na Síria.

Contem essa à Casa de Saud e à Casa de Thani, do Qatar.

A gangue de 1914

Só porque Rouhani não incluiu Israel na lista dos países com os quais o Irã está construindo laços mais próximos – falou de paz “com todos os países (...) que reconhecemos oficialmente” – os leões-de-chácara de sempre, no lobby pró-Israel, já entraram em surto. Teerã não precisa reconhecer um regime bandido em Telavive que, há anos, todos os dias, ameaça atacar o Irã, com ou sem o escudo dos EUA. Por falar nisso, os renomados democratas da Casa de Saud tampouco reconhecem o estado de Israel. Mas... são os “nossos” filhos da puta.

Manifestação em Davos (2014)
Tudo isso teria, necessariamente, de misturar-se com uma das obsessões chaves em Davos esse ano – a ideia de que se trata, tudo outra vez, de 1914. Para os que ainda não saibam, Davos não prima pela capacidade de antevisão: demoraram anos para admitir, afinal, que a desigualdade de renda e o desemprego são ameaças mortais contra a economia global. Empresários e altos executivos, com seus gordos “bônus”, não tendem ao igualitarismo; só quando é bom p’rôs negócios.

No que tenha a ver com a desigualdade, esse relatório da Oxfam, distribuído na 2ª-feira (20/1/2014), diz o que é: “as 85 pessoas mais ricas do mundo concentram riqueza equivalente a tudo que a metade mais pobre da população mundial possui”.


Outro relatório distribuído na 2ª-feira (20/1/2014) pela Organização Internacional do Trabalho, OIT [orig. International Labor Organization (ILO)] mostra que o desemprego, em nível mundial, afetou nada menos que 202 milhões de seres humanos, em 2013; e em 2018 serão 215 milhões. O desemprego está crescendo no sudeste da Ásia, no sul da Ásia e, em menor escala, no Oriente Médio, Norte da África e Europa Central. Para nem falar do desemprego entre os jovens, que cresce rapidamente no sul da Europa – Grécia, Espanha, Itália –e na Irlanda.

E adivinhem quem a OIT responsabiliza? Os Patrões do Universo, os mesmos que estão reunidos em Davos; as corporações preferiram manter o dinheiro em caixa ou comprar ações delas mesmas, em vez de investir em maior capacidade de produção ou para criar empregos.

Shinzo Abe
Coube principalmente ao Primeiro-Ministro do Japão, Shinzo Abe, mexer nas brasas do 1914 remix – com seu balãozinho de história em quadrinhos de demonização da China, onde se lê que a “expansão militar” na Ásia pode sair de controle. (Ver Cowbells, or how Davos saves the worldAsia Times Online, 23/1/2014).

Mas o homem da hora do 1914 remix é o economista Nouriel Roubini. OK. Exatamente como há um século, a desigualdade de renda está alta (agora, foi provocada pelos negócios turvos do turbocapitalismo que a maioria dos Patrões do Universo abraçaram). Estamos numa “era dourada de desigualdade” (Roubini). E há obviamente um revide disseminado contra a globalização – por causa dos lucros ilimitados que as corporações arrancam do mercadeamento de tudo.

Quanto a “tensões geopolíticas crescentes”, ninguém em Davos parece ter colhões para dizer de onde elas vêm: do declínio do Império Americano com todas as suas convulsões centrífugas e centrípetas; do medo de muitos no ocidente e especialmente o Japão no leste, de um crescimento imparável, da China; e da nada-santa aliança entre Israel e a Casa de Saud para conservar o Oriente Médio expandido sempre a chafurdar em conflito sectário. Essas são as verdadeiras “tensões geopolíticas” que podem reciclar 1914; não as estratégias de política exterior de Irã, China ou Rússia.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive quase sempre entre São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Que interesses servem os BRICS?


1/5/2013, Immanuel Wallerstein, Esquerda.net
Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

BRICS - Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul

Na atual situação em que existem cerca de 8-10-12 protagonistas de poder geopolítico significativo, os BRICS são definitivamente parte da nova estrutura geopolítica multipolar.

Por Immanuel Wallerstein [*]

Jim O'Neill
Em 2001, Jim O’Neill, então presidente de Gestão de Ativos do Goldman Sachs, escreveu um artigo aos seus assinantes intitulado “O Mundo precisa de melhores BRICs econômicos”. O’Neill inventou o acrônimo para descrever as chamadas economias emergentes do Brasil, Rússia, Índia e China, e para recomendá-las aos investidores como o “futuro” econômico da economia-mundo.

O termo pegou, e os BRICs tornaram-se na verdade um grupo que se reúne regularmente e mais tarde incluiu a África do Sul, mudando o “s” minúsculo para maiúsculo. Desde 2001, os BRICS floresceram economicamente, pelo menos em relação a outros estados no sistema-mundo. Tornaram-se também um assunto muito controverso. Há os que veem os BRICS como a vanguarda da luta anti-imperialista. Há os que, muito pelo contrário, consideram os BRICS agentes subimperialistas do verdadeiro Norte (América do Norte, Europa ocidental, e Japão). E há os que acham que são ambas as coisas.

Na sequência do declínio pós-hegemônico do poder, do prestígio e da autoridade dos Estados Unidos, o mundo parece ter estabelecido uma estrutura geopolítica multipolar.

Na atual situação em que existem cerca de 8-10-12 protagonistas de poder geopolítico significativo, os BRICS são definitivamente parte deste novo quadro. Pelos seus esforços de forjar novas estruturas no cenário mundial, tais como a estrutura interbancária que procuram criar para substituir o Fundo Monetário Internacional (FMI), estão certamente a enfraquecer ainda mais o poder dos Estados Unidos e de outros segmentos do velho Norte a favor do Sul, ou pelo menos dos próprios BRICS.

Se a nossa definição de anti-imperialismo é reduzir o poder dos Estados Unidos, então os BRICS certamente representam uma força anti-imperialista.

A geopolítica, contudo, não é a única coisa que conta. Também queremos saber algo sobre a luta de classes no interior dos países BRICS, as relações desses países uns com os outros, e as relações dos países BRICS com os países não-BRICS no Sul. Nestes três aspetos, o registo dos BRICS é, no mínimo, sombrio.

Como podemos avaliar a luta de classes no interior dos países BRICS? Uma forma comum é observar o grau de polarização, tal como indica o índice GINI que mede a desigualdade.

Outra forma é ver quanto dinheiro estatal é utilizado para reduzir o grau de pobreza entre os estratos mais pobres.

Dos cinco países BRICS, apenas o Brasil melhorou significativamente os seus índices no que respeita a esta questão.

Nalguns casos, apesar de haver um aumento do PNB, as estatísticas são piores que, digamos, há 20 anos.

Banco dos BRICS - para concorrer com o FMI e Banco Mundial
Se olharmos para as relações econômicas entre os próprios países BRICS, a China ofusca os outros em crescimento do PNB e em acumulação de ativos. A Índia e a Rússia parecem sentir a necessidade de proteger-se contra a força da China. O Brasil e a África do Sul parecem sofrer com o atual e potencial investimento da China em arenas chave.

Se olharmos para as relações dos BRICS com outros países do Sul, ouvimos queixas crescentes em relação à forma como estes países se relacionam com os seus vizinhos imediatos (e não tão próximos) que se parece demasiado com as relações que os Estados Unidos e o velho Norte mantinham com eles. São acusados por vezes não de serem “subimperiais”, mas sim simplesmente “imperiais”.

O que faz os BRICS parecerem tão importantes hoje são os seus altos índices de crescimento desde por volta de 2000, índices esses que foram significativamente mais altos que os do velho Norte. Mas será que isto vai continuar?

As suas taxas de crescimento já começaram a escorregar. Alguns outros países do Sul – México, Indonésia, Coreia (do Sul), Turquia – parecem estar a corresponder ao crescimento deles.

Porém, dada a depressão mundial, na qual continuamos a viver, e a baixa probabilidade de haver uma recuperação significativa na próxima década, a possibilidade de, numa década, um futuro analista do Goldman Sachs continuar a projetar os BRICS como o futuro (econômico) é bastante duvidosa.

Na verdade, a probabilidade de os BRICS continuarem a ser um grupo que se reúne regularmente, com políticas presumivelmente comuns, parece remota.

A crise estrutural do sistema-mundo está a evoluir demasiado rapidamente e, de formas demasiado incertas, para assumir uma estabilidade relativa suficiente que permita que os BRICS, como tais, continuem a desempenhar um papel especial, tanto geopolítica quanto economicamente.

Tal como o próprio conceito da globalização, os BRICS podem-se revelar como um fenômeno passageiro.

_______________________________________

Sociólogo e professor universitário norte-americano.
Wallerstein interessou-se pela política internacional quando ainda era adolescente, acompanhando a atuação do movimento anticolonialista na Índia. Obteve os graus de B.A. (1951), M.A. (1954) e Ph.D. (1959) na Universidade de Columbia, Nova Iorque, onde ensinou até 1971. Tornou-se depois professor de Sociologia na Universidade McGill, Montreal, até 1976, e na Universidade de Binghamton, Nova York, de 1976 a 1999. Foi também professor visitante em várias universidades do mundo.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Já deu (até) na “The Economist”!


30/3/2013, The Economist
World GDP
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido numa tendinha da Vila Vudu: Será o benedito?! Será que os sardembergs, waacks, cantanhedes, miriamsleitões & coisa-e-tal já não leem NEM a The Economist?! [risos, risos]
Pois deu na The Economist de 30/3 e é notícia muuuuuito diferente do BESTEIROL que eles - e o Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) - andam dizendo...

O gráfico a seguir é desses que até os sardembergs acima entenderão...


Os cinco países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) reuniram-se essa semana em Durban para discutir os interesses que, a cada dia mais, esses países partilham. A sigla, que hoje já corre mundo, foi cunhada por Jim O’Neill, estrategista do banco Goldman Sachs [1]. Desde então, o grupo tornou-se grupo formal de nações incluindo a África do Sul, que não estava no grupo pensado por O’Neill. Graças a essas grandes economias em desenvolvimento, o PIB mundial cresceu 2,5% no último trimestre do ano passado. Só os BRICS geraram 55% do crescimento mundial, a partir do final de 2009. Obrigadas a arrastar às costas as próprias dívidas e muita austeridade, os 23 demais países do mundo dito desenvolvido geraram apenas 20% do crescimento mundial.



Nota dos tradutores

Jim O'Neill
[1] Dia 26/3/2013 a revista alemã Der Spiegel publicou interessante entrevista, em que o mesmo O’Neill declara-se muito feliz da vida, com o desempenho dos BRICS, hoje:

“Os BRICS ultrapassaram todas as expectativas” (...) “A China, quando cresce pouco – com crescimento contido para bloquear a inflação, depois de longo período de crescimento acelerado, como se viu – ainda assim gera riqueza equivalente a uma economia grega inteira (...)”.

É informação interessante, se se sabe que, para os “especialistas” do Grupo GAFE, do “jornalismo” brasileiro, os investidores estariam abandonando “os emergentes” em favor “da América”.

A entrevista de Jim O’Neill completa e traduzida pode ser lida em:

terça-feira, 26 de março de 2013

Jim O’Neill, do banco Goldman Sachs: “Os BRICS ultrapassaram todas as expectativas”


21/3/2013, Erich Follath, Der Spiegel Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Erich Follath
O’Neill, 55, tornou-se mundialmente conhecido em 2001, por artigo no qual cunhou e usou pela primeira vez a sigla BRIC – os países em desenvolvimento naquele momento, Brasil, Rússia, Índia e China, os quais ele previu que seriam as futuras grandes potências econômicas. Mais recentemente, a África do Sul tem aparecido frequentemente incluída no mesmo grupo.

O quinteto, agora chamado BRICS, tem, acumulada, cerca de 40% da população mundial (...). No final de março, líderes dos BRICS vão-se reunir em Durban, África do Sul, como parte do trabalho para encontrar uma nova ordem mundial e definir seu papel dentro dela.


Jim O'Neill
SPIEGEL: Sr. O’Neill, administrar mais de $800 bilhões em ativos parece ser trabalho desafiador. Por que o senhor anunciou que vai deixar seu posto? Deixou de gostar do que faz?

O’Neill: Nada disso. Gosto muito do que faço. Mas depois de mais de 17 anos como sócio em Goldman Sachs, decidi sair. E cheguei à conclusão de que é hora de sair e tentar uma nova vida lá fora.

SPIEGEL: O que quer dizer com isso? Vai-se aposentar e viajar pelo mundo? Ou vai associar-se à diretoria de outro banco, quem sabe... o Deutsche Bank?

O’Neill: Você está só provocando. Mas não, não posso me estender sobre isso. De qualquer modo, não penso em me retirar completamente dos negócios.

SPIEGEL: Sua aposentadoria terá algo a ver com a péssima imagem do Goldman Sachs, nos últimos tempos? Recentemente, o grupo Greenpeace “premiou” sua empresa com o Troféu “Na Mira da Opinião Pública [orig. Public Eye Award], como “a pior empresa do ano”, porque Goldman Sachs ajudou a Grécia a ocultar o volume das dívidas e, assim, é também responsável pela crise financeira. E agora, outra vez, o Goldman Sachs está voltando a práticas não transparentes.

O’Neill: Nada disso tem qualquer coisa a ver com minha decisão pessoal. Talvez seja surpresa para você, mas, de fato, concordo com essas críticas em vários sentidos. Vários de nós não agiram de forma responsável em alguns pontos. Alguns não conseguiram entender que nossos negócios afetam toda a humanidade. Agiram como se fosse possível operar à parte, fora do mundo real. Agora, estão sendo acertadamente criticados por isso.

SPIEGEL: O senhor poderia iniciar uma segunda carreira, como secretário-geral dos países BRICS.

O’Neill: Nos últimos dias, de fato, recebi algumas ofertas de emprego, e essa, com certeza, seria das mais interessantes! Mas não sei se os países BRICS cogitam de criar esse posto e, se cogitarem, se se interessariam por me dar o emprego. Por outro lado, esse clube de países deve a própria existência a mim – digo-o com toda a modéstia. OK. Esperarei que me convidem, antes de discutir o assunto.

SPIEGEL: Ano passado, na reunião em Delhi, os líderes dos países BRICS já discutiram algumas ações conjuntas bem específicas, como criar o “Banco do Sul”, para competir com o Banco Mundial, controlado por países ocidentais...

O’Neill: ... ideia que me parece fascinante e que está sendo defendida pela Índia, talvez também, provavelmente, pelo Brasil. Mas ainda falta ver se os chineses realmente aprovam o plano. Agora, para os países BRICS seria importante lançar projetos concretos, se querem mesmo ser mais que um clube, unido por laços pouco firmes. Já definiram algumas medidas para facilitar o comércio entre eles e têm demandas conjuntas em alguns tópicos de política exterior e políticas para o meio ambiente. Podem fazer muito mais.

SPIEGEL: Os países BRICS não são diferentes demais entre eles, para constituir grupo realmente poderoso? Quando o senhor cunhou a sigla e o conceito, já supunha que os BRICS teriam tal impacto na política mundial?

O’Neill: Não, claro que não! Tente imaginar a minha situação naquele momento. Foi pouco depois do 11/9. Os ataques terroristas contra New York e Washington fortaleceram minha ideia de que era hora de ultrapassar a dominação dos países ocidentais sobre o mundo, ou, no mínimo, que era preciso complementar aquela dominação, acrescentando alguma outra força. Se a globalização devesse prosseguir e ser bem-sucedida, seria necessário abandonar o barco dos EUA e passar a navegar sob outra bandeira. Ocorreu-me que, pelas dimensões territoriais e grandes populações, China, Índia, Rússia e Brasil teriam potencial econômico. O que as economias emergentes têm em comum – além de todas elas desconfiarem do ocidente – é o futuro promissor e brilhante. Mas, fora isso, dificilmente se conseguiria grupo mais heterogêneo em termos políticos e, também, quanto aos respectivos sistemas econômicos.

SPIEGEL: Economicamente, os BRICs desenvolveram-se como o senhor esperava?

O’Neill: Os BRICS ultrapassaram todas as minhas expectativas. Em pouco mais de uma década, o PIB do grupo saltou de aproximadamente $3 trilhões, para $13 trilhões. Os países BRIC têm potencial para passar ao largo da recessão mundial e crescer mais depressa que o resto do mundo e nos arrastar, todos nós, com eles como um motor de crescimento.

SPIEGEL: É o que o senhor tem dito. Mas China, Índia, Rússia e Brasil também enfrentam crises significativas. Ruchir Sharma, seu colega e presidente do Morgan Stanley Investment Management, até já anunciou o fim do milagre. Em artigo intitulado “BRICS quebrados”, escreveu que “os novos BRICS da economia mundial estão quebrados”...

O’Neill:... e parte da imprensa não faz outra coisa além de repetir essa tolice. É ideia tão totalmente errada que eu, conforme o dia e o estado do meu humor, às vezes me irrito, às vezes dou risada.

SPIEGEL: Mas o senhor não pode negar que, ano passado, os BRICS causaram desapontamento considerável e o desempenho da economia daqueles países foi, ano passado, bem menos que esplêndido.

O’Neill: Quanto a isso, há diferentes opiniões. Ano passado, a economia da China cresceu 7,7%. Portanto, em 2012, o país, outra vez, criou riqueza equivalente a toda a econmia grega a cada 11 semanas e meia. É baixo crescimento para os padrões chineses. Mas o importante, aí, são as razões que explicar o crescimento menor da China: e são razões estruturais e cíclicas. Foi desaceleração planejada, porque os chineses tratavam de evitar superaquecimento e inflação. No último trimestre a China novamente deu-se bem, e já saiu da área de turbulência.

SPIEGEL: O senhor não vê nenhum sinal de alarme no grande número de greves, na corrupção e no aumento da diferença entre ricos e pobres? O senhor está vendendo participação em fundos chineses nesse momento?

O’Neill: Nas minhas visitas à China, sempre me chama a atenção o quanto o partido governante é maleável e não dogmático em tudo que tenha a ver com tomar decisões de política econômica. Nos últimos dois anos, encurtaram bastante as rédeas das finanças, porque a liderança chinesa tentava proteger-se contra a inflação. Pelo que se vê, parece que deu certo. Não espero movimentos dramáticos da nova liderança política. Só espero que prossigam cautelosamente, no processo de reformas já iniciado com o objetivo de melhorar os padrões de vida e de reduzir a distância, ainda grande, que separa ricos e pobres.

SPIEGEL: E o senhor é igualmente otimista quanto a Rússia, Brasil e Índia?

O’Neill: Nem tanto. A Rússia tem de livrar-se da dependência das exportações de petróleo e gás, mas, sim, tem boa chance de alcançar crescimento contínuo anual ligeiramente acima de 4%. E o Brasil tem de acelerar o crescimento, com grandes oportunidades adiante, para aquele país, no longo prazo, graças às matérias primas e ao desempenho das indústrias. Deixando de lado a África do Sul, que não foi incluída inicialmente no grupo BRIC, o país que enfrenta os maiores desafios é a Índia. O governo em Delhi terá de fazer mais para apoiar o investimento externo direto, e (a economia indiana) carece urgentemente de algum estímulo. Na Índia, há governo de menos. Os políticos indianos acreditam que as coisas podem melhorar por elas mesmas e que nada teriam a fazer para ajudar. Seja como for, o país continua altamente atraente. Além do mais, com população muito jovem, a Índia tem uma forte vantagem demográfica.

SPIEGEL: Muitos investidores sentem que os mercados BRICS já não oferecem o mesmo tipo de retorno dos investimentos que os investidores buscam. O senhor vê outros países emergentes, que possam substituir os BRICS?

O’Neill: Quando identifiquei México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia, como novos mercados em crescimento, houve quem os definisse como “MIST” [1]...

SPIEGEL: ... há investidores que falam desses quatro países, hoje, como “SMIT” [2]...

O’Neill: Chamem como quiserem. Esses países estão despertos e andando.

SPIEGEL: E quanto à indústria na qual o senhor sempre trabalhou? O que o senhor pensa da questão que está sendo acaloradamente debatida na Alemanha nesse momento, de separarem-se bancos de investimento e bancos comerciais, para proteger os pequenos investidores do risco de possíveis perdas em transações especulativas?

O’Neill: É uma separação que, em princípio, faz sentido. A banqueiragem [orig. banking] de investimento é muito diferente da banqueiragem comercial. E quanto aos bônus, sou contra aumentos variáveis anuais. A antiga modalidade de sociedade funcionava muito bem. Nesse modelo, o dinheiro ia para uma conta de capital na qual se acumulavam os ganhos, até a aposentadoria. É preciso combater os exageros.

SPIEGEL: Agora, o senhor falou quase como ativista do movimento Occupy.

O’Neill: Em alguns aspectos, sou mesmo marginal, na minha profissão. Seja como for, não faço parte do establishment. O que muito me alegra. Muitos, nessa indústria, são apanhados pelo motorista de manhã, almoçam com pessoas iguais a eles, sempre em restaurantes caríssimos, e o motorista os leva de volta para casa depois de 14 horas no escritório. É gente que simplesmente não sabe que há vida fora do trabalho e além do que fazem, em dinheiro. Eu ando de metrô em Londres e passo horas com amigos e gente de outras profissões. Sempre achei importante conhecer todos os tipos de pessoas. Gosto de futebol e tenho amigos com os quais me reúno regularmente em pubs.

SPIEGEL: Por que tanta abertura?

O’Neill: Com certeza tem a ver com o lugar de onde venho. Meu pai teve de deixar os estudos aos 14 anos e trabalhou como carteiro. Minha irmã e eu crescemos num subúrbio pobre de Manchester. Tudo que nossos pais ganhavam, até o último penny, foi economizado para que pudéssemos frequentar a universidade.



Notas dos tradutores
[1] Em inglês, mist é uma espécie de nevoeiro fino, que atrapalha a visão. O adjetivo misty significa “obscuro, vago, até misterioso”  
[2] Em inglês, smit é uma espécie de golpe , pancada.  

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Jim O’Neill (Goldman Sachs): “Só os BRICS emergentes estão crescendo”


2/1/2013, Jim O’Neill, Diretor de Investimentos do Banco Goldman Sachs
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário entreouvido num beco da Vila Vudu: Alô, alô, D. Mirian Leitão: A senhora só sabe entrevistar economistas tucanos reacionários golpistas merrecas, de “consultorias” merrecas quebráveis?! Será o Benedito?!
A senhora NÃO SABE ENTREVISTAR economistas reacionários golpistas GRANDES DEMAIS PRA QUEBRAR?!
Não que os inquebráveis sejam mais lúcidos ou progressistas que os quebráveis – porque não são! Mas, pelo menos, os inquebráveis NÃO SÃO UDENISTAS GOLPISTAS OBCECADOS, quer dizer: os inquebráveis veem adequadamente, objetivamente, pelo menos, o mundo dos mercados, né-não?!
E o que, me digam, veem aqueles sempre os mesmos professores da FGV, da Economia-USP ou os “consultores” da Consultoria Tendências, ou o ex-Malan, sub-do-sub do ex-FHC e atual NADA... Ou outros udenistas golpistas ortodoxos, feito o professor Bolívar Lamounier?! [risos, porque essa foi booooooooooooa! O que, diabos, vê(ria) o Boli?!]

Jim O'Neill - Economista reacionário, mas GRANDE DEMAIS PRA QUEBRAR
Pergunta: Como ficará a paisagem da economia em 2013?

Economista reacionário, mas GRANDE DEMAIS PRA QUEBRAR: Agora que já se definiram as posições na liderança política de EUA e China, pode-se finalmente delinear o quadro da economia para 2013, já conhecendo quem estará no comando das duas maiores economias do mundo.

Pergunta: E o que farão – e, talvez mais importante, o que as forças econômicas farão a eles?

Economista reacionário, mas GRANDE DEMAIS PRA QUEBRAR: Para começar, os EUA continuarão a enfrentar repetidas dificuldades com o ‘'despenhadeiro fiscal'’, até que os mercados financeiros pressionem os políticos e obtenham cortes significativos nos gastos e redução radical no déficit. Mas, apesar disso, e associado a crescimentos frustrantes, 2013 será ano mais forte para a economia global do que muitos esperam.

Em 2011, a China acrescentou ao mundo $1,3 trilhões de Produto Interno Bruto (PIB). Equivale a criar outra Grécia a cada 12,5 semanas; quase uma Espanha por ano. Juntos os quatro países BRIC, (Brasil, Rússia, Índia e China acrescentaram à economia do planeta cerca de $2,2 trilhões em 2012. Equivale a criar uma Itália por ano. (Apesar dos problemas, a Itália ainda é a oitava maior economia do mundo e assim continuará nos próximos anos, até que Rússia e Índia superem, como se prevê, a Itália).

As oito economias de mercado em crescimento – os BRIC plus Coreia do Sul, Indonésia, México e Turquia – criaram cerca de $3 trilhões em 2011, mais do que o Reino Unido em um ano. Essas economias somadas têm já tamanho bem próximo da economia dos EUA, alcançando $15-16 trilhões, cerca de 25% do PIB global. A menos que essas taxas de crescimento caiam muito, a contribuição desses países para a riqueza global crescerá dramaticamente, e o crescimento global ultrapassará as previsões sinistras que, parece, analistas ocidentais assustadiços parecem prestigiar. Se as economias desse ‘'grupo C-8'’, “Crescimento Oito” crescerem em média 10% em dólares norte-americanos, acrescentarão $1,5 trilhão ao PIB global, ano que vem.

O crescimento chinês diminuiu em 2011-2012 por decisão dos (excelentes!) economistas do Partido Comunista da China.

Para a década iniciada em 2011, nós, da Diretoria de Investimentos do Banco Goldman Sachs, estimamos que a China, responsável por metade da riqueza produzida pelo grupo C-8 (prováveis $8,3 trilhões ao final de 2012), crescerá a taxas anuais de 7-8% em termos reais, com inflação em torno de 3%. A menos que o renminbi perca valor, corresponde a crescimento nominal médio de, pelo menos, 10-11% calculados em dólares.

A China crescerá em torno de 7-8%, em parte porque é o que os dirigentes do Partido Comunista Chinês que governa a China decidiram que é o crescimento desejável. No final de 2009, já com um ano de política chinesa de estímulos, como resposta à crise global de crédito, o Partido Comunista Chinês, a liderança chinesa, me parece, decidiu que já não havia serventia alguma em fazer o país crescer 10% ao ano (crescimento real). A desigualdade de renda crescia dramaticamente, o dano ambiental crescia perigosamente, e a inflação estava comendo, em vez de os mais pobres comerem, o crescimento real.

Verdade é que o crescimento chinês foi contido em 2011-2012, por decisão do Partido Comunista Chinês: fizeram o que decidiram fazer. Embora a taxa de crescimento real do PIB definida no 12º Plano Quinquenal não deva ser tomada como fato consumado, fato é que o crescimento real previsto no Plano foi encolhido para 7%: é sinal claro de orientação decidida pelo Partido Comunista Chinês.

Com vistas ao futuro, por mais importante que seja a troca de comando na liderança política, os líderes não decidem tão livremente quanto alguns supõem. Tornam-se líderes, em boa parte, porque se comprometem a fazer cumprir o plano que encontram já construído. Líder que se desvie muito, não permanece por muito tempo na liderança – o que vimos acontecer, no caso chinês, em 2012, com o expurgo de Bo Xilai.

O crescimento-alvo da China, definido em 7%, embora exposto a grandes desafios, visa a manter o crescimento do consumo privado em torno de 8% (também implica reconhecer que as exportações e o investimento não crescerão tão fortemente quanto antes); e admite-se aumento na participação do consumo, na formação do PIB.

Mais foco em inovação e criatividade será acompanhado de forte aumento real nos salários, mais direitos e garantias para migrantes urbanos e aumento nas pensões, aposentadorias e na assistência à saúde. Se a China crescer 7-8% outra vez em 2013, terá crescimento mais equilibrado que em 2012.

Além da China, os demais BRIC – Brasil, Rússia e Índia – todos enfrentam desafios que os governantes terão de enfrentar para promover crescimento mais forte. Mas por todos os lados observam-se desenvolvimentos interessantes, inclusive na Indonésia, nas Filipinas, Bangladesh, Nigéria e México; membros do que chamo de “os Próximos 11” [orig. “Next 11”], Coreia do Sul e Turquia, continuam a crescer razoavelmente bem, embora não com o momentum dos outros; são dois outros grandes membros desse grupo.

O mais provável é que, pelo menos antes das eleições na Alemanha, no outono de 2013, todas as decisões chaves sejam descartadas ou adiadas

Os quinze países BRICs e os “Próximos 11” têm, somados, mais de quatro bilhões de habitantes, mais de 2/3 da população do planeta. Continuando a crescer, a contribuição dessas economias para a economia mundial continuará a crescer, o que empurrará o crescimento global para bem além do que alcançaria, sem o crescimento deles.

Mas a economia global pode ficar mais fraca em 2013 do que em 2012, se o pior continuar a acontecer na Europa e nos EUA, especialmente se o novo Congresso nos EUA não conseguir trabalhar com o presidente Obama reeleito, para encontrar algum arranjo para o orçamento que melhore a credibilidade de médio prazo da posição fiscal dos EUA. É equilíbrio difícil de alcançar (...).

Quanto à Europa, muitos investidores ainda assumem que chegará um momento em que se poderá concluir definitivamente que a União Monetária Europeia está ou salva ou acabada, de vez. Mas o mais provável é que, pelo menos até depois das eleições na Alemanha, no outono de 2013, as decisões chaves sejam descartadas ou adiadas.

Significa que a Europa, muito provavelmente, enfrentará mais um ano difícil.

Mas, repito, o crescimento dos BRICs continuará a gerar, em termos de riqueza, uma Itália por ano. A menos que o ambiente europeu deteriore-se muito, muito rapidamente, a Europa não será assunto importante para a economia global em 2013.