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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Como os sionistas manipularam e substituíram especialistas no Departamento de Defesa dos EUA


Breve História das Relações EUA-Israel


4/11/2014, [*] Embaixador Andrew I. KillgoreCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Alison Weir escreve, no início de seu livro Against Our Better Judgment: The hidden history of how the U.S. was used to create Israel, que, por mais que tantos sejam levados a crer que o apoio dos EUA a Israel seria comandado pelo establishment norte-americano e obraria a favor dos interesses nacionais dos EUA, não há qualquer fato histórico que comprove essa crença.

A realidade é que, durante décadas, praticamente todos os especialistas norte-americanos sempre se opuseram à criação daquele estado; mas foram derrotados e, na sequência, foram substituídos por sionistas nas várias instituições em que trabalhavam, o que prossegue até hoje.

Alison Weir
O sionismo político começou no final dos anos 1800s, como movimento internacional para criar um estado judeu em algum lugar do mundo. Em 1897, o movimento era dirigido pelo jornalista austríaco Theodor Herzl, que organizara o 1º Congresso Mundial Sionista em Basel, Suíça, naquele ano. O sionismo norte-americano começara nos anos 1880s. A Comissão de Delegados dos Israelitas Norte-americanos foi organizada em 1861. Na Guerra Civil norte-americana, o grupo já tinha força suficiente para impedir esforço que a União estava empreendendo, para declarar os EUA nação cristã.

Theodor Herzl
Em 1887, o presidente Grover Cleveland indicou um judeu para o posto de embaixador dos EUA à Turquia, criando o precedente de sempre nomear judeus para aquele posto, ao longo dos 30 anos seguintes. É sinal claro do crescente poder do movimento sionista. Mas em 1912, quando a Sociedade Literária Sionista pediu que o presidente William Taft se manifestasse a favor do sionismo, o Secretário de Estado, Philander Knox, conseguiu fazer abortar o movimento. Knox argumentou que o sionismo “só tinha a ver com interesses de outros países, não com interesses dos EUA”.

E depois de Knox, simplesmente todos os funcionários e representantes do governo dos EUA passaram a se opor a quaisquer esforços para envolver os EUA nos esforços da propaganda sionista, e sempre sob o mesmo argumento: eram esforços que operavam contra os interesses dos EUA. Os sionistas sabiam e até hoje sabem disso; então recorreram, a partir de então, sempre, ao máximo de clandestinidade possível para mascarar seus reais objetivos.

Em 1912, o conhecido advogado norte-americano Louis Brandeis assumiu a presidência da Central Sionista, que se mudara de Berlim, Alemanha, um pouco antes. Brandeis é mais conhecido como juiz da Suprema Corte, mas teve papel sinistro nos altos negócios sionistas. Recrutou jovens advogados, sobretudo de Harvard, para trabalhar a favor da causa sionista. Foi o líder de uma sociedade secreta chamada “Parushim [1] para trabalhar a favor do sionismo, sob uma fachada de irmandade civil. Todos os membros faziam um juramento que, na prática, era como um juramento de sangue, de servir clandestinamente à causa do sionismo.

Donald Neff
Quando Brandeis foi nomeado para a Suprema Corte pelo presidente Woodrow Wilson, oficialmente renunciou a todos os seus clubes e irmandades. Mas foi só encenação. Weir cita o historiador/ jornalista Donald Neff:

Mediante seus lugares-tenentes, ele continuava como o poder por trás do trono. Um daqueles lugares-tenentes foi o altamente respeitado juiz da Suprema Corte Felix Frankfurter, cujas atividades sionistas passaram praticamente sem jamais serem jamais descobertas.

Weir, muito inteligentemente, analisa com brilho a Iª Guerra Mundial e a Declaração de Balfour (a Grã-Bretanha comprometendo-se a apoiar um “lar nacional” para judeus na Palestina). A Declaração foi crítica para o sucesso do sionismo, ocultando, simultaneamente, a promessa de que os sionistas trabalhariam para pressionar os EUA a entrarem na guerra ao lado da Grã-Bretanha. A autora de Against Our Better Judgment escreve que embora o papel dos sionistas para conseguir empurrar os EUA para a guerra tenha sido muito importante, como dizem os sionistas e os britânicos acreditaram, não se sabe exatamente o que os sionistas fizeram.

Chaim Weizmann
Numa das referências que se encontram no livro de Weir, Chaim Weizmann, que adiante seria o primeiro presidente de Israel, reclama, em sua Biografia, do mito criado por britânicos e sionistas, de que ele teria inventado a dinamite, em troca de cuja fórmula teria sido assinada a Declaração de Balfour. Diz ali que não inventou o explosivo. A origem do mito da invenção da dinamite foi tentativa óbvia para encobrir a real razão pela qual aquela Declaração foi assinada, e que claramente só tinha a ver com os EUA serem empurrados para a guerra ao lado dos britânicos, porque, sem essa ajuda, os britânicos perderiam a guerra.

A autora de Against Our Better Judgment cobre também, com excelente cuidado, a Conferência de Paz em Paris, em 1919. A Conferência fervilhava de sionistas trabalhando a favor da criação do estado judeu. O mais importante norte-americano que se opôs a eles naquela ocasião foi o Dr. Howard Bliss, presidente do Colégio Protestante Sírio, que adiante se converteria na Universidade Norte-Americana de Beirute. O presidente Wilson enviara sua Comissão King-Crane, para estudar o que o pessoal do Oriente Médio desejava. Os dois enviados logo descobriram que os árabes estavam monoliticamente na oposição a qualquer ideia de “lar nacional” para os judeus. Já era evidente que os representantes judeus queriam total expulsão dos palestinos, com saque de terras palestinas, e que mobilizariam as forças armadas necessárias para fazer acontecer esse projeto e respectivos planos.

Sionistas, aliados dos nazistas, compunham
a Polícia Judaica no Gueto de Varsóvia
No livro, Alison Weir documenta fartamente a total falta de ética e moralidade, como se entendem esses conceitos, na ação dos sionistas. Por exemplo, inventaram histórias de terríveis ataques antissemitas na Polônia, para angariar simpatias. Quando o embaixador dos EUA na Polônia relatou que eram histórias falsas, Brandeis e Frankfurter declararam que o embaixador estaria boicotando a missão deles. Frankfurter ameaçou tentar impedir que o embaixador tomasse posse como senador eleito.

Os sionistas mantiveram campanha gigante de Relações Públicas e publicidade, tomando por alvo cada um e goros os setores da sociedade norte-americana, com especial atenção aos cristãos, que pouco conheciam da natureza e dos verdadeiros objetivos do sionismo. Assim os sionistas encenaram a tragédia do “suplício trágico de refugiados tentando fugir dos que os perseguiam, e sem ter casa para onde ir”.

Rabino Elmer Berger
Como diz em suas memórias do rabino antissionista Elmer Berger, houve

(...) campanha total de propaganda, que atingiu praticamente todos e cada um dos pontos de alavancagem política da vida nos EUA.

É importante enfatizar que essencialmente todo o funcionalismo e autoridades do governo dos EUA opunham-se aos sionistas. Evan Wilson, do Serviço Diplomático e cônsul geral dos EUA em Jerusalém opunha-se aos sionistas sob o argumento de que os EUA tinham de pensar, primeiro,  nos interesses do povo dos EUA.

Loy Henderson, diretor do Gabinete de Assuntos do Oriente Próximo e África, escreveu que apoiar a partição da Palestina “teria efeito fortemente adverso para os interesses dos EUA em todo o Oriente Próximo e Médio”. Quando Henderson insistiu em continuar a expor publicamente suas ideias, os sionistas o atacaram viciosamente, chamando-o de “antissemita”, exigindo que pedisse demissão e ameaçando a família de Henderson. O presidente Harry Truman transferiu Henderson para o posto de embaixador dos EUA no Nepal/Índia. É exemplo da realidade do que acontece a funcionários do serviço diplomático, até hoje, que critiquem Israel.

George F. Kennan
Outro que disse palavras de alerta a propósito do sionismo e o efeito danoso que tinha sobre os interesses nacionais dos EUA foi George F. Kennan, quando era diretor de Planejamento de Políticas do Departamento de Estado. Em 1947, escreveu que o plano da partição da Palestina já causara enorme dano aos EUA. O subsecretário de Estado, depois secretário, Dean Acheson, disse que transformar a Palestina em estado judeu poria em risco não só os interesses dos EUA, mas todos os interesses ocidentais no Oriente Próximo.

Judgment é prodigiosamente documentado, com bibliografia de mais de 200 livros e documentos citados. Weir cita duas fontes, uma delas um judeu iraquiano, que escreveu que os sionistas chantageavam-aterrorizavam judeus iraquianos para que pusessem bombas em sinagogas em Bagdá, para conseguir que mais judeus decidissem fugir para Israel, cuja população não estava aumentando. Judeus até mataram judeus para forçar a imigração para Israel.

Em 1948, houve uma batalha entre o Secretário de Estado (general) George Marshall e Clark Clifford, conselheiro político do presidente Harry Truman, em torno do apoio de Truman ao sionismo/Israel. Marshall argumentava a favor dos interesses dos EUA, Clifford pensava na política eleitoral. Marshall deixou de discutir essas diferenças, com Clifford.

Em abril de 1948, pouco antes de o estado de Israel ser criado, terroristas judeus atacaram a vila palestina de Deir Yassin, onde massacraram 175 homens, mulheres e crianças. Os fatos espalharam-se rapidamente pela Palestina, e 750 mil palestinos abandonaram as próprias casas, tornando-se refugiados. Os sionistas haviam previsto esse efeito, que deixou lugar para mais judeus nas cidades vazias com casas e sítios abandonados.

Dorothy Thompson
A crueldade dos sionistas aparece bem clara no destino de Dorothy Thompson, “uma das mais famosas jornalistas do século 20”, segundo a Enciclopaedia Britannica. Mantinha colunas em jornais em todo o país e um programa de rádio com audiência de milhões. Fora casada com um dos mais famosos romancistas dos EUA (Babbitt), Sinclair Lewis.

Thompson, no início, apoiara o sionismo. Mas mudou de posição depois de ver refugiados palestinos. Passou então a ser atacada como antissemita, as colunas foram excluídas dos jornais, o programa de rádio foi cancelado e acabaram os convites para palestras pelo país. Como diz Weir hoje, “já está praticamente apagada da história”.

Agora que Israel já existe há mais de 60 anos, com tantas virtudes cantadas pela imprensa-empresa norte-americana, é muito fácil esquecer, ou jamais, em toda a vida, ouvir dizer, que o país é um entrave grave aos interesses nacionais norte-americanos, e as políticas israelenses têm efeito destrutivo e perigoso para o bem-estar dos EUA. Também por isso, é preciso elogiar entusiasticamente o trabalho de Alison Weir, que lança luz tão brilhantemente iluminadora sobre o relacionamento entre os EUA e Israel.

Espero que esse livro maravilhoso receba toda a atenção que merece.
___________________

Nota dos tradutores
[1] Sobre a palavra ver a página da Opus Dei, em: 24. Quem eram os fariseus, saduceus, essénios e zelotes?
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[*] Embaixador Andrew I. Killgore é o editor do Washington Report on Middle East Affairs e diplomata aposentado que serviu como oficial de carreira do serviço estrangeiro dos EUA em Frankfurt, Londres, Beirute, Jerusalém, Aman, Bagdá, Dacca, Teerã, Manama, e Wellington e como oficial de embaixada em outras posições Escritório Regional do Oriente Médio e Sul da Ásia do Departamento de Estado em Washington antes de sua missão como Embaixador dos EUA em Doha. O Embaixador Killgore recebeu o “Foreign Service Cup”, em 1997, com a citação:

(Homenagem) por impressionantes contribuições para uma maior sensibilização e compreensão do Oriente Médio e as muitas dimensões da defesa dos interesses dos Estados Unidos da América na região.
(For impressive contributions to increased awareness and understanding of the Middle East and the many dimensions of United States’ interests in the area.)

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

AIPAC (lobby sionista nos EUA) perdeu a batalha do Irã, mas a guerra continua

23/1/2014, Jim Lobe, IPSnews, Washington
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O "lobby" sionista no Congresso dos EUA
Há oito anos, Jeffrey Goldberg, da revista New Yorker, perguntou a Stephen Rosen, então alto funcionário do Comitê para Assuntos Públicos EUA-Israel [orig. American Israel Public Affairs Committee (AIPAC)] e conhecido em Washington pela agressividade, pensamento conservador e violência política, se uma então recente publicidade negativa havia abalado o legendário controle que o lobby tinha sobre a política de Washington.

“Um semi-sorriso apareceu no rosto de Rosen” – escreveu Goldberg sobre aquela entrevista. – “Está vendo esse guardanapo?” – perguntou-me ele. – “Em menos de 24 horas podemos ter aqui a assinatura de 70 senadores, bem aqui, nesse guardanapo”. 

Oito anos depois, o mesmo funcionário, Stephen Rosen, que foi forçado a demitir-se do AIPAC depois de ter sido acusado – adiante, foi absolvido – de espionar a favor de Israel, disse a Ron Kampeas da Agência Telegráfica Judaica [orig. Jewish Telegraphic Agency (JTA)] que o AIPAC teve de abandonar a posição de confrontação contra o presidente Obama, depois de só ter conseguido 59 assinaturas de senadores – e quase todos, exceto 16, Republicanos – de apoio a uma nova lei de sanções contra o Irã que visava a fazer gorar completamente as negociações nucleares entre o Irã e o chamado grupo P5+1 (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia, China, mais Alemanha).

Eles não querem ser vistos em posição derrotada, nem como desistentes... Mas acho que a postura confrontacional não é sustentável – disse Rosen.

Chanceleres do Irã e P5 +1 após as negociações sobre as capacidades nucleares do Irã, celebrado em 24 de novembro de 2013, em Genebra. Crédito: EUA Depto de Estado, EUA
Se tivesse obtido as 70 assinaturas necessárias para aprovar novas sanções – as quais o governo argumentava que violariam um acordo provisório de 24/11 entre o Irã e o P5+1 (que congela o programa nuclear iraniano em troca do alívio em algumas sanções, por um período renovável de seis meses), o AIPAC teria três assinaturas a mais, além do número de votos necessários para derrubar o veto de Obama.

Mas, ao reunir os 59 co-patrocinadores da lei das novas sanções, depois do recesso de Natal, foi como se o AIPAC e os autores do projeto de lei, senadores Mark Kirk (Rep.) e Robert Menendez (Dem.), colidiram de frente contra uma muralha de resistência liderada por dez Democratas da Comissão e apoiada por uma Casa Branca surpreendentemente determinada, com discurso estranhamente muito firme.

Bernadette Meehan
Se alguns membros do Congresso desejam que os EUA ajam militarmente, eles que apareçam e digam claramente à opinião pública dos EUA – disse Bernadette Meehan, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional. Se nada dizem, fica-se sem saber por que algum membro do Congresso apoiaria uma lei que praticamente fecha as portas a qualquer diplomacia e põe os EUA muito mais próximos de ter de escolher entre ou a opção militar ou deixar que prossiga o programa nuclear do Irã.

Assim aconteceu que a Casa Branca venceu o AIPAC naquela queda-de-braço. E surgiu a questão de saber quanto poder o AIPAC ainda tenha. (...)

A incapacidade do AIPAC para mobilizar mais apoiadores entre os Democratas, principalmente, foi efeito de dois revezes que o grupo sionista sofreu ao longo do ano passado.

Embora o AIPAC não se tenha manifestado publicamente, sabe-se que o lobby trabalhou em silêncio contra a nomeação do ex-senador Republicano, Chuck Hagel, para o posto de Secretário da Defesa, por causa da atitude em geral crítica de Hagel contra a influência de Israel na política dos EUA para o Oriente Médio.

Vários grupos e indivíduos alinharam-se firmemente com o AIPAC, especialmente o Comitê Judeu-Norte-americano [orig. American Jewish Committee] e a Liga Antidifamação [orig. Anti-Defamation League (ADL) – dois grupos que se uniram ao AIPAC no lobbying a favor da lei de novas sanções contra o Irã – na oposição à indicação de Hagel. Mas, afinal, a indicação foi confirmada no Congresso, com 58 votos a favor e 41 contra, com a grande maioria dos Democratas votando a favor de Hagel.

Barack Obama (E) e "Chuck" Hagel (D) 
Na sequência, oito meses depois, o AIPAC e outros grupos judeus de direita fizeram lobby no Congresso a favor de uma resolução favorável ao uso de força militar contra a Síria – embora, dessa vez, o Congresso tenha sido acionado por Obama, mas com a aprovação do primeiro-ministro “Bibi” Netanyahu de Israel.

Mas o gigantesco protesto popular contra qualquer intervenção militar norte-americana em mais um conflito do Oriente Médio – além da aversão “automática” da extrema-direita Republicana a virtualmente qualquer iniciativa de Obama – fez gorar o movimento dos sionistas.

Nem Hagel, nem a Síria têm, sequer aproximadamente, a mesma importância que o AIPAC atribui ao Irã e ao programa nuclear iraniano, que dominam a agenda de política exterior do grupo há mais de uma década. Ao longo desse tempo, os sionistas norte-americanos habituaram-se a mandar e desmandar sobre amplas maiorias de senadores e deputados dos dois partidos, com a política de sanções e outras leis criadas para aumentar cada vez mais as tensões – e impedir qualquer movimento de reaproximação ou “aquecimento” nas relações entre Teerã e Washington.

Em julho do ano passado, por exemplo, a Câmara de Deputados aprovou, por 400 votos a favor e 20 contra, uma legislação de sanções para bloquear todas as exportações de petróleo do Irã. As medidas foram aprovadas apenas quatro dias antes da posse do presidente Hassan Rouhani em Teerã.

Hassan Rouhani em seu discurso de posse na Presidência do Irã
Durante todo o outono, o AIPAC trabalhou duro – mas, afinal, sem qualquer sucesso – para fazer aprovar a mesma lei também no Senado.

Agora, dois meses adiante, e incapaz de arregimentar sequer 60 votos (o mínimo indispensável para impedir a obstrução regimental [orig. filibuster]) no Senado, o AIPAC parece já ter engavetado o projeto de lei “Kirk-Menendez”, que, dentre outras provisões, teria imposto novas sanções ao Irã se o país violasse o acordo de 24/11 ou não alcançasse, no prazo máximo de um ano, acordo satisfatório com o P5+1, sobre seu programa nuclear.

“É perfeitamente visível que as coisas mudaram, e o AIPAC e outros grupos que fizeram lobby muito ativo [a favor de novas sanções contra o Irã] sofreram dura derrota” – escreveu Lara Friedman, militante do grupo judeu Americans for Peace Now, em seu blog; e outros comentaristas, entre os quais Rosen, alertam que o apoio muito predominantemente Republicano à lei do AIPAC ameaça a imagem de bipartidarismo tão cuidadosamente cultivada pelo grupo sionista, e pode afugentar políticos e principais doadores Democratas.

“O AIPAC perdeu, sim, sem dúvida, esse round; e essa derrota custou-lhe imensa quantidade de capital político e de prestígio dentro do governo e no cálculo de muitos Democratas” – disse um veterano observador do Capitólio. O mesmo observador comentou que “o AIPAC enfrentou tempestade quase perfeita”: o governo lutando por uma política que também tinha amplo apoio entre os mais altos quadros da elite da política exterior e, também, de grupos de ativistas e movimentos de base, que pressionaram seus senadores e deputados. “Os gabinetes dos senadores recebiam um ou dois telefonemas a favor [daquele projeto de lei], e centenas contra! Não há dúvida de que isso pesou muito”.

Stephen Walt
O AIPAC e outros grupos linha-dura continuam a ser poderosa força para assegurar generosa ajuda dos EUA a Israel, e para boicotar quaisquer esforços que os EUA façam na direção de uma solução de dois estados. Mas o poder do AIPAC diminui sempre que os sionistas põem-se a trabalhar na direção de mais guerras no Oriente Médio – escreveu-nos Stephen Walt, coautor de The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy, em mensagem de e-mail.

Os neoliberais e neoconservadores conseguiram empurrar Bush & Co. para a invasão do Iraque em 2003, mas o sucesso, naquele caso, contou com um conjunto excepcional de circunstâncias. O público norte-americano aprendeu muito, daquela experiência desastrosa – continuou Stephen Walt.

Mas ninguém crê que o AIPAC e seus aliados tenham desistido. Se as negociações do P5+1 derem em nada, a lei “Kirk-Menendez” será rapidamente reapresentada; de fato um influente senador Republicano já disse que a lei deve ser incluída na agenda de julho, seis meses depois do dia 20 de janeiro, data em que o acordo provisório de 24/11 entrou formalmente em vigência.

Lara Friedman
Tudo faz crer que [os defensores daquela lei] estão-se preparando para iniciar uma espécie de Plano B [o qual] (...), parece, será igual ao Plano A; mas, em vez de visar a fazer gorar as negociações usando mais sanções, o “novo” plano cuidará de impor condições sobre qualquer acordo final a que se chegue algum dia; condições que sejam impossível de satisfazer e, assim, sempre matarão qualquer possibilidade de acordo com o Irã – disse Friedman.

Entre essas condições impossíveis de satisfazer, há a exigência, como condição para levantar as sanções, de que o Irã ponha fim completo e total a qualquer tipo de enriquecimento de urânio em solo iraniano – condição a qual Netanyahu já se referiu várias vezes; que Teerã já rejeitou várias vezes; e que muitos especialistas entendem que poria fim a qualquer tipo ou possibilidade de acordo.




sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Bibi, o sociopata

3/10/2013, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Artigo novo, em Russia Today, sobre Bibi na ONU. Russia  Today suavizou o título, que era Bibi The Sociopath (3/10/2013, Pepe Escobar, Facebook).

Bibi, o "Sociopata"
Mísseis iranianos atingirão New York em “de três a quatro anos”. Um Irã nuclear é igual a “50 Coreias do Norte”.

Pode ser a fala de sociopata doido e perigoso, ou o discurso que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin “Bibi” Netanyahu fez à Assembleia Geral da ONU. Compare você mesmo: semana passada, o presidente o Irã, Hassan Rouhani, lá estava, convocando o mundo a surfar a onda contra a Violência e o Extremismo, no seu projeto WAVE [onda], sigla de World Against Violence and Extremism.

Semana seguinte, lá estava Bibi, na mesma tribuna, denunciando o projeto de Rouhani, que para Bibi não passaria de arapuca “cínica” e “totalmente hipócrita”.

No mundo segundo Netanyahu:

Ahmadinejad era lobo em pele de lobo. Rouhani é lobo em pele de cordeiro. Rouhani tenta se fazer passar por “pio”, mas sempre esteve envolvido no “estado de terror iraniano”. Não passa de serial killer que se veste de padre para ir ao tribunal e fazer-se passar por homem “ético” e “religioso”.

Sandices à parte, a verdade é que Bibi mudou de jogo. Agora, nada de cartolinas desenhadas e súplicas, praticamente todas as semanas, para que os EUA bombardeiem o Irã. Agora, é o “programa nuclear militar” do Irã que tem de ser extinto – programa que não existe, segundo toda aquela sopa de letrinhas que são as agências de inteligência dos EUA.

E, isso, depois de Netanyahu ter dito ao presidente Barack Obama dos EUA que esquecesse – para sempre – a resolução n. 242 do Conselho de Segurança da ONU, que ordena a retirada de israelenses de todas as terras ocupadas depois da guerra de 1967.

Que bomba

Assim sendo, deixemos bem claras algumas coisas.

O estado de Israel não tem fronteiras internacionalmente reconhecidas e não tem capital internacionalmente reconhecida. É estado em perpétua expansão.

Israel desrespeitou nada menos que 69 resoluções do Conselho de Segurança da ONU e foi “protegida” de nada menos que outras 29 resoluções, cortesia dos vetos norte-americanos.

Israel ocupa hoje território soberano do Líbano e da Síria, sem dar qualquer bola a qualquer resolução do Conselho de Segurança da ONU.

Roubo de terras palestinas por Israel (1946 a 2000). Nos últimos 13 anos Israel ROUBOU mais.
Israel assinou os Acordos de Oslo pelos quais prometeu parar de construir em terra palestina ocupada. Na sequência, construiu 270 novas colônias. É parte do movimento de limpeza étnica em câmara lenta, no qual Israel obra ao longo das últimas seis décadas.

Israel vive a ameaçar semanalmente que bombardeará o Irã, há, no mínimo, três décadas.

Israel é potência nuclear clandestina, com mais de 400 ogivas nucleares; recusa-se a assinar o Tratado de Não Proliferação; impede inspeções de inspetores internacionais; nunca ratificou o Tratado da Convenção das Armas Químicas; usou armas químicas em Gaza; e mantém o maior arsenal de armas químicas de todo o Oriente Médio, não declarado, quer dizer, clandestino.

O Irã, por sua vez, não tem ogivas nucleares. O Irã assinou o Tratado de Não Proliferação e recebe regularmente os inspetores. O Irã não invade nenhum país soberano há, no mínimo, 250 anos. O Iraque de Saddam Hussein invadiu o Irã em 1980, mas o Irã não ocupou território iraquiano.

O lobby de Israel em Washington e o Congresso dos EUA impuseram um bloqueio financeiro ao Irã, o qual, para todas as finalidades práticas, é uma declaração de guerra. Por causa do bloqueio, o rial iraniano sofreu grave depreciação – com consequências drásticas para a vida dos iranianos comuns. Apesar de tudo isso, na reunião com Obama, nessa 2ª-feira em Washington, Netanyahu não exigiu só mais sanções: também disse que Israel atacará unilateralmente o Irã, se as palavras de Rouhani não gerarem “ação”.

A verdadeira “comunidade internacional”, como a vasta maioria no mundo em desenvolvimento, incluindo as potências emergentes reunidas no grupo BRICS, conhecem esses dados como a própria palma da mão. Todos esses fatos ajudam a ver com clareza o jogo de Bibi.

Basta examinar o mapa

Para a direita israelense, a mera possibilidade de que haja diálogo entre EUA e Irã é a real “ameaça existencial”. Bibi não aceitará sequer que o Irã enriqueça urânio para propósitos civis, direito que o Irã tem, garantido a ele pelo Tratado de Não Proliferação.

Um acerto entre EUA e Irã é proposta de ganha-ganha para todos: não só para os dois diretamente envolvidos, mas também para os europeus sedentos de energia, para a economia global, para as empresas multinacionais, para tudo e todos. Exceto para Israel.

O pesadelo de Bibi é a República Islâmica do Irã, não apenas como ator independente no Sudoeste da Ásia – o que o Irã já é – mas também, como potência regional em ascensão; quanto a isso, a única via possível para o Irã é a via ascendente, se se considera sua vasta população de jovens e bem educados, os massivos recursos de energia, a localização privilegiada e os complexos laços que ligam o Irã à Ásia Central, do Sul e do Leste.

Para a direita israelense, o status quo é ideal. Os fantoches dos EUA, como as petromonarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), e as repúblicas árabes seculares vivem momentos de caos – com graus diferentes de “empurrão” dos israelenses – como o Iraque e especialmente a Síria.

É fácil para Israel manobrar entre esses atores; os israelenses podem, por exemplo, rejubilar-se com um golpe militar no Egito (porque militares egípcios não são ameaça) e com a parceria com a Arábia Saudita para tentar derrubar Assad na Síria. A balcanização do Oriente Médio dividido por linhas sectárias é, para Israel, doce como mel.

Mas o Irã como potência econômico-política emergente, com relações normalizadas com os EUA e a Europa Ocidental, é assunto muito mais sério, a ameaçar “existencialmente” a suposta hegemonia no Oriente Médio, que depende exclusivamente do músculo militar (além, é claro, da capacidade nuclear clandestina).

Isso explica a obsessão de Netanyahu com a mudança de regime em Teerã – ou, a segunda melhor opção, o total isolamento, bem distante do Ocidente (porque, no que tenha a ver com o Oriente, o Irã está firmando relações com todos os atores chave na Ásia).

O ponto crucial é que apresentar o Irã como “ameaça existencial” foi expediente extremamente útil para a direita israelense, como tática diversionista, que desvia a atenção geral para bem longe do que acontece na vida real: Israel, como estado ocupante militarizado está completamente, literalmente, terrivelmente, varrendo do mapa um povo inteiro – os palestinos. Quem ainda duvide que examine o mapa.

Eis assim onde estamos. Netanyahu é falcão/abutre de extrema direita que jura pela Eretz Israel – uma Israel “Expandida” com fronteiras móveis, sempre em expansão, e hegemonia incontrastável militar/nuclear no Oriente Médio. Tem aliados poderosos: a extrema direita e os neoconservadores nos EUA; Republicanos ensandecidos que apoiarão qualquer coisa, desde que seja contra Obama; grande parte do Congresso dos EUA manipulado pelos israelenses; vastas fatias do complexo de imprensa-empresa nos EUA e no mundo. Essa gente não parará ante coisa alguma. Farão todo o possível para ver gorar qualquer acordo entre Washington e Teerã.

A tentação, para a verdadeira comunidade internacional, é mandar Netanyahu calar a boca – e ir brincar com suas cartolinas desenhadas. Obama semana passada disse na ONU que suas prioridades, agora, são o Irã e mais esforço para resolver a questão e a tragédia dos palestinos. Quer dizer: a bola está no campo de Obama – não no campo do sociopata.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
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