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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Se tivesse realmente vencido, Mandela não seria apresentado como herói universal


“A papai-noel-ização de Nelson Mandela” [1]

9/12/2013, [*] Slavoj Žižek, The Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nelson Mandela
Nas últimas duas décadas da vida, Nelson Mandela foi festejado como modelo de como libertar um país do jugo colonial sem sucumbir à tentação do poder ditatorial a sem postura anticapitalista. Em resumo, Mandela não foi Robert Mugabe, e a África do Sul permaneceu democracia multipartidária com imprensa livre e vibrante economia bem integrada no mercado global e imune a horríveis experimentos socialistas. Agora, com a morte dele, sua estatura de sábio santificado parece confirmada para toda a eternidade: há filmes sobre ele (com Morgan Freeman no papel de Mandela; o mesmo Freeman, aliás, que, noutro filme, encarnou Deus em pessoa). Rock stars e líderes religiosos, esportistas e políticos, de Bill Clinton a Fidel Castro, todos dedicados a beatificar Mandela.

Mas será essa a história completa? Dois fatos são sistematicamente apagados nessa visão celebratória. Na África do Sul, a maioria pobre continua a viver praticamente como vivia nos tempos do apartheid, e a ‘conquista’ de direitos civis e políticos é contrabalançada por violência, insegurança e crime crescentes. A única mudança é que onde havia só a velha classe governante branca há agora também a nova elite negra. Em segundo lugar, as pessoas já quase nem lembram que o velho Congresso Nacional Africano não prometera só o fim do apartheid; também prometeu mais justiça social e, até, um tipo de socialismo. Esse CNA muito mais radical do passado está sendo gradualmente varrido da lembrança. Não surpreende que a fúria outra vez esteja crescendo entre os sul-africanos pretos e pobres.

Nelson Mandela e Fidel Castro
A África do Sul, quanto a isso, é só a mesma versão repetida da esquerda contemporânea. Um líder ou partido é eleito com entusiasmo universal prometendo “um novo mundo” – mas então, mais cedo ou mais tarde, tropeçam no dilema chave: quem se atreve a tocar nos mecanismos capitalistas? Ou prevalecerá a decisão de “jogar o jogo”? Se alguém perturba esse mecanismo, é rapidamente “punido” com perturbações de mercado, caos econômico e o resto todo. Por isso parece tão simples criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid. Mas ele chegou realmente a ter alguma escolha? Andar na direção do socialismo seria possibilidade real?

(...) Marx disse (...) em sua fórmula bem conhecida que, no universo da mercadoria, “as relações entre pessoas assumem o disfarce de relações entre coisas”.

Na economia de mercado, acontece de relações entre pessoas aparecerem sob disfarces que os dois lados reconhecem como liberdade e igualdade: a dominação já não é diretamente exercida e deixa de ser visível como tal. (...) É preciso ter em mente que a grande lição do socialismo de estado foi, sim, que a abolição direta da propriedade privada e a regulação das trocas pelo mercado, se não vierem acompanhadas de formas concretas de regulação social do processo de produção, acabam sempre, necessariamente, por ressuscitar relações diretas de servidão e dominação.

Se apenas se extingue o mercado (inclusive a exploração do mercado), sem substituí-lo por uma forma própria de organização comunista da produção e das trocas, a dominação volta como uma vingança, e com a exploração direta pelo mercado.

A regra geral é que, quando começa uma revolta contra regime opressor semidemocrático, como aconteceu no Oriente Médio em 2011, é fácil mobilizar grandes multidões com slogans que só se podem descrever como “formadores de massa”: pela democracia, contra a corrupção, por exemplo.

Mas adiante, quando nos vamos aproximando das escolhas mais difíceis, quando nossa revolta é vitoriosa e alcança o objetivo direto, logo nos damos conta de que o que realmente nos atormentava (a falta de liberdade pessoal, a humilhação, a corrupção das autoridades, a falta de perspectiva de, algum dia, chegar a ter uma vida decente) rapidamente troca de roupa e reaparece sob um novo disfarce.

Presidentes Lula e Mandela
A ideologia governante mobiliza aqui todo o seu arsenal para nos impedir de chegar àquela conclusão radical. Põem-se logo a dizer que a liberdade democrática implica responsabilidades; que a liberdade democrática tem seu preço; que ainda não estamos plenamente amadurecidos, se esperamos demais da democracia.

Assim, rapidamente, passam a nos culpar, nós mesmos, pelo nosso fracasso: numa sociedade livre – é o que nos dizem – todos somos capitalistas que investimos na nossa própria vida; e temos de alocar mais dinheiro para a educação do que para nossas festas e noitadas e lazer. Que se não fizermos assim, nossa democracia não terá sucesso.

Num plano diretamente mais político, a política externa dos EUA elaborou detalhada estratégia para controle de danos: basta converter o levante popular em restrições capitalistas-parlamentares palatáveis. Isso, precisamente, foi feito com sucesso na África do Sul, depois do fim do regime de apartheid; foi feito nas Filipinas depois da queda de Marcos; foi feito na Indonésia depois da queda de Suharto e foi feito também em outros lugares

No Brasil, o que a CIA, amancebada com as empresas-imprensa locais, fez/fizeram foi converter os pré-levantes populares de 1954... Em restrições-parlamentares IMPALATÁVEIS [:-)], processo que se conhece como “a redemocratização de Sarney” e que a tucanaria da privataria saudou, eufórica, e na qual mamou durante quase 50 anos. Até que, em 2001, começou a perder eleições presidenciais (NTs).

Nessa precisa conjuntura, as políticas radicais de emancipação enfrentam o seu maior desafio: como fazer avançar as coisas depois de acabado o primeiro estágio de entusiasmo, como dar o passo seguinte sem sucumbir à catástrofe da tentação “totalitária”, em resumo: como avançar além de Mandela, sem se converter num Mugabe.

Se quisermos permanecer fiéis ao legado de Mandela, temos de deixar de lado as lágrimas de crocodilo das celebrações e nos focar em todas as promessas não cumpridas infladas sob sua liderança e por causa dela. Assim se verá facilmente que, apesar de sua indiscutível grandeza política e moral, Mandela, no fim da vida, era também um velho triste, bem consciente de que seu triunfo político e sua consagração como herói universal não passavam de máscara para esconder derrota muito amarga. A glória universal de Mandela é também prova de que ele não perturbou a ordem global do poder.




Nota dos tradutores
[1] Ver também sobre vários aspectos da crítica à papai-noel-ização de Mandela:

(a) We Are Witnessing the “Santa Claus-ification” of Nelson Mandela [Estamos assistindo à papai-noel-ização de Nelson Mandela], 7/12/2013, Cornel West, Breibart TV.

(b) “Converteram Mandela numa espécie de princesa Diana (em 7/12/2013, Jonathan Cook, Information Clearing House).

(c) “O sequestro do legado de Mandela [The hijacking of Mandela's legacy], 8/12/2013, Pepe Escobar, Russia Today

(d) “Manifesto sobre o Camarada Mandela, Partido Comunista da África do Sul, 6/12/2013, Workers World, redecastorphoto (traduzido).

(e) “Libertem Mandela (das grades da mentira), 20/7/2005, Tony Karon, em Moon of Alabama, (traduzido em redecastorphoto).
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[*] Slavoj Žižek (esloveno) Liubliana, 21 de Março de 1949) é um filósofo e teórico crítico esloveno, professor da European Graduate School e pesquisador sênior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. É também professor visitante em várias universidades estadunidenses, entre as quais estão a Universidade de Columbia, Princeton, a New School for Social Research, de Nova Iorque, e a Universidade de Michigan.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Sobre o camarada Mandela


6/12/2013, Partido Comunista da África do Sul, Workers World
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nelson Mandela
Ontem à noite, milhões do povo da África do Sul, a maioria do qual são trabalhadores e pobres, e bilhões, dos povos do mundo, perderam um verdadeiro revolucionário – presidente Nelson Rolihlahla Mandela, Tata Madiba.

O Partido Comunista da África do Sul (PCAS) une-se ao povo da África do Sul e de todo o mundo, e manifesta suas mais sinceras condolência à Sra. Graça Machel e à família Mandela, pela perda do homem que o presidente Zuma descreveu corretamente como o maior filho da África do Sul, camarada Mandela.

Queremos também nessa ocasião manifestar nossa solidariedade com o Congresso Nacional Africano, organização que produziu o camarada Mandela e à qual ele também serviu com honra, e a todos nossos companheiros e camaradas do nosso tão amplo movimento de libertação. Como disse Tata Madiba, “Não são os reis e os generais que fazem a história, mas o povo, os trabalhadores, os camponeses”.

O falecimento do camarada Mandela marca o fim da vida de um dos maiores revolucionários do século 20, que lutou pela liberdade e contra todas as formas de opressão, no seu país e globalmente. Como elemento das massas que fazem a história, a contribuição do camarada Mandela na luta pela liberdade nasceu e consolidou-se, tanto como membro quanto como comandante de nosso movimento revolucionário nacional de libertação conduzido pelo Congresso Nacional Africano – porque Mandela nunca foi uma ilha.

No camarada Mandela tivemos um soldado bravo, corajoso; patriota e internacionalista que, tomando emprestada a frase de Che Guevara, foi “um verdadeiro revolucionário guiado por profundo sentimento de amor” [1] por seu povo, traço marcante em todos os genuínos revolucionários do povo.

Quando foi preso em agosto de 1962, Nelson Mandela não era apenas membro do então clandestino PCAS; era também membro do Comitê Central do PCAS.

Para nós, comunistas sul-africanos, o camarada Mandela simbolizará para sempre a monumental contribuição do PCAS em nossa luta de libertação. A contribuição dos comunistas na luta pela liberdade da África do Sul tem raros paralelos na história de nosso país. Ao deixar a prisão, em 1990, o camarada continuou grande e próximo amigo dos comunistas, até seus últimos dias.

A maior lição que temos de aprender de Mandela e daquela geração de líderes é seu compromisso, por princípio, com a unidade dentro de cada uma das formações que constituem nossas formações em aliança, elas mesmas, e dentro de todo o movimento democrático de massas. Aquela geração lutou para construir e cimentar a unidade de nossa Aliança e nós devemos hoje, à memória do camarada Madiba, preservar a unidade de nossa Aliança. Os que não sabem quanto sangue foi derramado para manter a unidade da Aliança, que aprendam, para que não enlameiem o legado e a memória de homens como Madiba. Que não brinquem nem sejam levianos, no que tenha a ver com a unidade de nossa Aliança.

O Partido Comunista da África do Sul apoiou Madiba em sua luta pela reconciliação nacional. Mas, para ele, reconciliação nacional jamais significou fazer-se de cego ante as desigualdades sociais, de classe, que há em nossa sociedade, como há quem insista em fazer hoje.

Para Madiba, a reconciliação nacional sempre foi uma plataforma a partir da qual insistir no objetivo de construir uma sociedade sul-africana mais igualitária, livre da desgraça do racismo, do patriarcado e de terríveis desigualdades. E nenhuma verdadeira reconciliação nacional será jamais alcançada numa sociedade ainda marcada por desigualdades e pela exploração capitalista.

Em honra a esse grande combatente, o PCAS intensificará sua luta contra todas as formas de desigualdade e pelo socialismo, como única solução política e econômica para os problemas que a humanidade enfrenta.

O PCAS entende que a morte de Madiba deve ser – para todos os sul-africanos que ainda não abraçaram plenamente a causa de uma África do Sul democrática, e que ainda, de um modo ou de outro, vivem na nostalgia da era da dominação branca – como uma segunda chance para que se aproximem da causa de uma África do Sul democrática fundada sobre o princípio do governo da maioria.

Conclamamos todos os sul-africanos a seguir o exemplo que Madiba nos deixa, de desapego, desprendimento, autossacrifício, compromisso e disposição para servir ao seu povo.

Hamba kahle Mkhonto. [“Siga bem, bravo guerreiro”]



Nota dos tradutores
[1] Che Guevara, 12/3/1965, em artigo escrito na Argélia, sob o título El socialismo y el hombre en Cuba:
Com o risco de parecer ridículo, permitam-me dizer que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Libertem Mandela (das grades da mentira)!

20/7/2005, [*] Tony Karon (nos 87 anos de Nelson Mandela) [excertos]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na Vila Vudu: Muito bom que Moon of Alabama, que é voz respeitada (“A luta tem de continuar”) tenha distribuído esse artigo de 2005. Porque ontem, na roda de conversa, a Verinha-de-Lúcia disse assim:
Não entendi. Mandela nunca foi feminista, nem “verde”, nem “ético”. Nunca foi pacifista. Nunca disse que os operários pedalarem 40 km pra ir trabalhar de bicicleta seria solução “ecológica”. Nunca lhe passou pela cabeça que a “kurrupção” fosse o pior dos crimes. Pregou que os negros sul-africanos se armassem. Foi comandante de grupos armados. Foi declarado “terrorista” pelos EUA. Passou 28 anos na cadeia, porque os EUA e os sionistas lá o meteram e lá o queriam.
E agora... virou santo? Na primeira página do Estadão, como herói? Até o Trigo, aquela besta da GloboNews, parece compungidíssimo?! Como assim?!
Por pouco a Verinha-de-Lúcia não apanhou na bunda, porque o pessoal estava no clima do luto pautado pela TV.
Agora, tá tudo explicado: a Verinha-de-Lúcia é da tribo dos verdadeiros revolucionários mandelistas!
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Winnie Mandela (E), Nelson Mandela (C) e Joe Slovo (D)
2ª-feira (18/7/2005), Nelson Mandela completou 87 anos e, cá nessas praias, eu às vezes sinto que ele continua preso, precisando de que o libertem de algumas fantasias bizarras que nada têm a ver com a história ou a política de Mandela.

Declaro aqui, para que todos saibam desde já: Nelson Mandela é o único político no qual algum dia votei; que o celebro como um gigante de nosso tempo e que mil vezes o declarei meu comandante (quase sempre, cantando, desafinado, cantos xhosa), ao longo dos dez anos durante os quais lutei no movimento de libertação dos negros na África do Sul. Por isso, provavelmente, o “Mandela” que tantas vezes encontrei nas fábulas da mitologia norte-americana me parece absolutamente irreconhecível. Comento aqui as duas das mais repetidas versões dessas fábulas:

Mandela inventado #1: “Como Gandhi, Martlin Luther King e Nelson Mandela…”

Quantas vezes ouviu-se essa frase, aplicada a algum político que, em algum canto do mundo, pregue o pacifismo contra regime assassino! Quem duvide, que pesquise no Google a exata frase (em inglês).

Compreendo a compulsão de associar figuras de grande autoridade moral, mas, aí, há erro importante. Nelson Mandela jamais foi pacifista. Quando a via da desobediência civil não violenta de Ghandi só gerou mais violência do estado, Mandela declarou:

Chega hora, na vida de qualquer nação, quando só há duas escolhas – submeter-se ou lutar. Essa hora chegou para a África do Sul. Não nos submeteremos e não nos resta escolha além de responder, pelos meios que haja, na defesa de nosso povo, nosso futuro e nossa liberdade.

Mandela teve papel de liderança na construção do braço armado do Congresso Nacional Africano, [1] e viajou pelo mundo para obter apoio e recursos; ele próprio recebeu treinamento para guerra de guerrilhas na Argélia, de comandantes da FLN que, pouco tempo antes, despachara de lá os franceses colonialistas.

Fidel Castro e Nelson Mandela
Mas Mandela nunca foi terrorista: sob o comando dele, o braço armado do movimento só atacou símbolos e estruturas do governo da minoria branca e soldados de suas forças de segurança. Jamais atacou civis brancos ou outros não combatentes. E, o mais importante, Mandela sempre viu a ala armada do movimento como diretamente e essencialmente subordinada à liderança política.

Permaneceu, consistente e orgulhoso, sempre fiel a essas ideias. Mesmo quando oposição não violenta de massas tornou-se dominante, como orientação do Congresso Nacional Africano, nos anos 1980s, Mandela reafirmou sua conexão com a ala armada. Escreveu, de uma mensagem enviada clandestinamente de dentro da prisão, que: 

(...) entre o martelo da luta armada e a bigorna da ação de massas, o inimigo será esmagado.

(Claro que nem sempre funcionou assim – a luta armada jamais foi muito efetiva, e a ação de massas, combinada com sanções internacionais fizeram mais, para derrubar o regime do apartheid).

E Mandela, como as demais lideranças do movimento, nunca deixaram passar qualquer oportunidade de adotar solução política, para benefício de todos os sul-africanos. Mas esse era o mesmo espírito com o qual embarcou em sua luta armada, como disse à corte:

Durante minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano. Combati contra a dominação dos brancos, e contra a dominação dos negros. Sempre acalentei o ideal de uma sociedade democrática e livre na qual todos vivessem em harmonia e com oportunidades iguais. É ideal pelo qual espero viver e que espero alcançar. Mas também estou preparado para morrer por ele.

Nelson Mandela e Luiz Ignácio Lula da Silva
Mandela e sua organização só suspenderam a luta armada depois que o regime do apartheid cedeu à democracia. Mas, não: nunca foi pacifista. Bem diferente disso, jamais hesitou ao pegar em armas, quando percebeu que seu povo estava obrigado a escolher entre a submissão à tirania e a resistência armada. Contudo, jamais foi militarista: sempre que pôde, preferiu a via política. Quanto a isso, também, tem muito a ensinar ao mundo.

Mandela inventado #2: O “Milagre Mandela”

Junte na pesquisa pelo Google “Mandela” e “milagre”: há pelo menos 86 mil citações. [2] Essa ideia entrou no imaginário norte-americano na seguinte versão: a África do Sul teria explodido numa guerra racial, e os brancos teriam sido afogados no mar, não fosse a “miraculosa” generosidade de espírito de Nelson Mandela, que supostamente teria contido as hordas vingativas.

Ah... Por onde começar?!

A ideia de que negros vingam-se da violência que sofram nas mãos de brancos é horrivelmente racista. (Lembrem-se da resposta demolidora de Gandhi, quando um jornalista perguntou-lhe o que pensava da civilização ocidental: “É uma boa ideia...”, mais ou menos nessas palavras).

Mas nem precisa tanto. Essa mentira racista ignora a cultura política do Congresso Nacional Africano, que Mandela ajudou a formar e que também o formou, que jamais dependeu só de Mandela ou de qualquer outro indivíduo, por mais força de caráter que tivesse.

Nelson Mandela , o ativista guerreiro
A arquitetura política básica do processo de reconciliação sempre esteve inscrita na política interna do Congresso Nacional Africano, que sempre foi movimento não racial, do qual participavam inúmeros brancos, e cujas políticas distinguiam claramente entre a minoria branca governante e os sul-africanos brancos.

Nenhum historiador de respeito poderá jamais subestimar o papel do Partido Comunista da África do Sul na constituição e no aprofundamento dessa cultura.

Já várias vezes escrevi contra o Partido Comunista da África do Sul, mas ninguém pode negar que os comunistas foram a primeira, e por muito tempo a única, organização na África do Sul, que pregava um governo da maioria negra; dentro do Congresso Nacional Africano, os comunistas tiveram papel chave na análise e na modelagem do não-racialismo e de incluir brancos na luta contra o governo colonialista da minoria branca.

Quando alguns jovens furiosos, que se haviam juntado às forças da guerrilha armada, quiseram responder com ataques terroristas aos ataques cada vez mais sangrentos do regime contra favelas e guetos da maioria negra nos anos 1980s, foram os comunistas – liderados por Chris Hani, comandante do braço militar do Congresso Nacional Africano e, depois, presidente do Partido Comunista da África do Sul – que conseguiram resgatar o Congresso Nacional Africano, então já muito próximo da beira do abismo.

Chris Hani (1942-1993) e Nelson Mandela (1918-2013) em Johannesburg, 1991
E, por paradoxal que pareça a muitos, foram os intelectuais comunistas do Congresso Nacional Africano e sua realpolitik leninista, que conseguiram encaminhar o movimento na direção de uma solução política negociada; a crítica de que seriam “rejeicionistas” foi muito fraca, praticamente desprezível. (...)

O que realmente interessa destacar aqui é que não foi alguma epifania que se teria manifestado pela boca de Nelson Mandela, o que levou a África do Sul para o bom rumo que tomou. Não havia massas de negros clamando por vingança. Todos entendiam o que significa a liberdade, e que liberdade nada teria jamais a ver com vingança. Pretender que teria acontecido outra coisa é insultar os milhões de sul-africanos do povo, que lutaram e sacrificaram-se para libertar Mandela e, depois, o levaram ao poder. (...)



Notas dos tradutores

[1] “O Congresso Nacional Africano é uma aliança entre o Partido Comunista da África do Sul (PCAS) e o Congresso dos Sindicatos da África do Sul [orig. South African Trade Unions (COSATU)]. Cada membro dessa aliança é organização independente, com estatutos, membros e programas próprios. A Aliança baseia-se no compromisso de todos com os objetivos da Revolução Nacional Democrática e na necessidade de reunir a maior frente possível de sul-africanos, alinhados com aqueles objetivos”.
O Congresso Nacional Africano foi declarado organização terrorista pelo presidente Reagan, dos EUA, em 1986.

[2] Hoje, 6/12/2013, oito anos depois desse artigo, a mesma pesquisa oferece “Aproximadamente 37.900.000 resultados (0,48 segundos)”, muitas das quais relacionadas ao filme Reconciliation: Mandela Miracle.
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[*] Tony Karon é um jornalista sulafricano e ativista pioneiro na luta anti-apartheid. Originário da Cidade do Cabo, África do Sul, vive em Nova York desde 1993. Estudou na Universidade da Cidade do Cabo e, na década de 1980, foi ativista de destaque no movimento estudantil NUSAS. Ingressou no grupo Time em 1997, onde trabalhou até o ano 2000 como comentarista internacional de política. Foi ativista dedicado do Congresso Nacional Africano na África do Sul. Em abril de 2013, passou a trabalhar como produtor executivo sênior da equipe digital da Al Jazeera América. 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Jacob Appelbaum, sobre Assange


18/8/2012, Jacob Appelbaum* - Pastebin
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Um dos traços mais inspiradores de Julian [Assange] é que ele sempre soube dos riscos & fez o que fez em benefício de toda a *humanidade* #wikileaks

Jacob Appelbaum
As ações de Julian não são baseadas em egoísmo ou megalomania – são baseadas em princípios de justiça universal, que depende de as pessoas conhecerem a verdade.

A disposição de Julian para aparecer na arena pública só é desqualificada como “dispensável” por gente que ainda terá de demonstrar que basta(ria) o anonimato para fazer todo o serviço.

Daniel Ellsberg tampouco é sujeito egoísta – poderia ter vazado anonimamente os Pentagon Papers, mas quis que se conhecesse seu nome, porque nunca acreditou que bastaria o anonimato.

Gente inspirada pela coragem das ações de Assange/Ellsberg inspiram outros e outros a, pelo menos, fazer alguma coisa protegido pelo anonimato, enquanto não se decide a fazê-lo também publicamente.

Não temos de criar e cultuar ídolos, mas não podemos deixar que os que assumem plenamente os seus riscos sejam desmoralizados, apenas porque se conhecem sua identidade e sua história pessoal.

Nem podemos desacreditar a ação positiva, apenas porque os valentes também têm defeitos, como todos nós temos.

Nelson Mandela
Nelson Mandela é grande exemplo de sujeito que, embora não seja perfeito, provocou mudanças profundas que merecem elogios, e não pode ser acusado de ter ego/id doentes.

Tanta gente tão sensacional, que trabalha por melhor justiça, é tão cheia de defeitos... E é bem fácil esquecer o quanto de intriga, ofensas, agressões, eles enfrentam na luta que fazem.

Tome qualquer um dos que lutam por justiça social, contra as guerras injustas, contra forças de opressão de, praticamente, todos os tipos – como são tão duramente atacados, sem alívio!

Esses ataques, ainda que haja na motivação alguns traços de verdade, não podem ser usados para desqualificar a luta que eles lutam, os objetivos positivos pelos quais lutam e os objetivos que as lutas buscam alcançar.

Alguns dos pais fundadores dos EUA foram racistas, mas lá estavam, lutando contra a tirania dos britânicos. Temos de tocar adiante a luta.

Nelson Mandela usou táticas que podem ser melhoradas, como fizeram os revolucionários norte-americanos contra os ingleses. E #wikileaks jamais recorreu à violência.

O fato de que #wikileaks obteve todo o impacto que se vê, trabalhando sobre as lições de lutas passadas, é a causa, precisamente, de tantos atacarem tanto o movimento e Assange.

Sem disparar um tiro, #wikileaks alterou resultados de eleições, expôs assassinos, mostrou corrupção massiva – expôs e impediu um sem número de ações de violência e de corrupção.

#wikileaks não seria #wikileaks sem Julian Assange e toda a equipe envolvida com ele, que assumiram riscos bem conhecidos, em nome de um mundo melhor.

Mesmo que alguém não goste de Julian em termos pessoais, ninguém pode permitir que seja enforcado. A humanidade ganhou muito, com o trabalho de #wikileaks. Assange não fez mal a ninguém, nem expôs alguém que não merecesse ser exposto [e só expôs gente que já estaria exposta há muito tempo, não fosse a grande empresa-imprensa, em todo mundo, o que é]. Assange ajudou o mundo.

Há os que dizem que #wikileaks não precisa de Assange e que Assange é um risco para #wikileaks, mas essa é, exatamente, a conclusão mais errada. Ninguém tem o direito de não ajudar Assange a conseguir o que quer conseguir para todos.

Quando falei a HOPE, substituindo Julian, citei Solzhenitsyn:

“E a única salvação possível para a humanidade depende de cada um fazer de todas as questões, assunto seu, e de o povo do ocidente tornar-se vitalmente envolvido em tudo que se pensa no ocidente, e de o povo do ocidente envolver-se vitalmente com o que acontece no oriente”.

Aleksandr Solzhenitsyn
Isso precisamente é o que #wikileaks e Julian Assange fizeram: tornaram possível, para nós, fazer exatamente o que Aleksandr Solzhenitsyn esperava que se fizesse.

Hoje sabemos muito mais sobre quanta gente o Estado assassinou com as próprias mãos – apesar de o Estado não se deixar julgar e condenar por suas guerras e mentiras.

Conhecemos muito mais, hoje, sobre as táticas de corrupção do Quênia ao Iraque; da Líbia, da Tunísia – do ocidente, do oriente e do Sul Global.

A ação de Julian com #wikileaks não foi pensada para acabar morta, nem exilada, nem famosa. Suas ações criaram oportunidade para que todos nós também entremos em ação.

Quando Howard Zinn falava sobre democracia, mostrava que é muito mais do que apenas votar, é conhecimento, cultura, discussões, informação transparente.

Quando Julian fala sobre democracia, ele age para criar condições melhores para o conhecimento, a cultura, para que as discussões melhorem, para abrir avenidas que levam à transparência.

Ninguém tem o direito de esquecer que Julian empreendeu ações de luta contra o autoritarismo que há em todas as estruturas exploráveis de governo.

No “ocidente”, falamos hoje de dissidentes e ativistas, como os do Bahrain, que praticamente não tem voz alguma. Até o departamento de Estado fala deles!

Ninguém tem o direito de esquecer que o povo oprimido do Bahrain merece liberdade, não porque seja povo do Bahrain, mas porque é gente que vive e sofre.

Por todo o mundo, Julian e muitos outros viabilizaram muitas lutas porque as conectaram a fatos há muito tempo conhecidos, mas que não se podiam provar.

O que está vindo e vira depois, terá de vir de nós, se não desperdiçarmos nossa geração. Não haverá mártires e, tampouco, não nos deixaremos ser esmagados pelo Estado.

Nunca mais poderemos esquecer que o Estado mente – todos os estados que se envolveram na caçada contra Assange mentiram e mentem aos seus cidadãos. Essa é uma questão estrutural.

A estrutura dos governos modernos pega gente boa e os mete em situações impossíveis. Uma corrente de realimentação que nós podemos alterar. 

A estrutura desses governos é uma melhora em relação ao que havia antes, mas temos de melhorar a estrutura, para melhorar os resultados.

Muitos dos governos modernos, em parte como efeito de escala, perderam a confiança das pessoas, que já não confiam que façam a coisa certa, no exercício da representação.

Temos de lembrar a todos que vivem nas estruturas dos governos, que a justiça não é coisa que só apareça para gente que ocupa o centro do palco, como Julian.

Como faremos isso? Como comunicar esses objetivos? Como comunicaremos nossas ideias partilhadas de unidade e nossos objetivos de justiça?

Faremos o que fizermos, com ações. Ações individuais e ações tomadas em conjunto, como um todo, na busca para alcançar aqueles pontos de unidade, aqueles objetivos.

Temos de começar por fazer ver a todos que estejam em posição de poder que: acreditamos firmemente que o que acontece a Julian acontecerá a TODOS nós, mais dia, menos dia.

Julian Assange
Temos de convencê-los também de que, se o que se teme acontecer a Julian, acontecerá, exatamente igual, a eles, antes que aconteça a todos nós.

Temos de descobrir nomes e cargos de todos os responsáveis e impedir, a todo custo, que escapem. Iniciem ações judiciais, tranquem as portas, imprimam panfletos.

Temos de descobrir quem sabe o quê, quem sabia, quem não se manifestou – dos assassinatos com drones à caçada/perseguição contra Julian Assange – todos terão de responder pelo que tenham feito ou deixado de fazer.

Eu, que sou cidadão norte-americano, fui preso pelo exército dos EUA/ICE/DHS em solo norte-americano – roubaram-me os objetos que eu carregava, impediram que procurasse um advogado, ameaçaram me matar – é esse o mundo que queremos?

Nada disso representa qualquer avanço na direção da justiça , quando a polícia é protegida e tem o direito de mentir – e quando os militares não têm nenhum limite.

Todos esses são exemplos de tirania, de injustiça, de sistemas estruturalmente falhados.

#wikileaks trabalhou e trabalha para nos informar sobre, precisamente, esses sistemas. Não podemos perder essa chance. Não podemos permitir que o mundo desperdice Julian!

Cada um, cada pessoa impactada por ação do Grande Júri nos EUA deve vir a público e falar de suas experiências. Não podemos permitir que continuem a dizer que o que está acontecendo não está acontecendo.

Cada um, cada pessoa, que tenha o que dizer contra o artigo 1021 da NDAA [1] que se manifeste. Nenhuma prisão sem tempo definido e sem julgamento, em lugar algum, nunca.

Temos de falar alto e falar forte, temos de escrever sempre que virmos mentiras impressas no New York Times ou no Washington Post.

Não podemos deixar nos esmagar pelo medo ou pelo medo de represálias – temos de nos recusar a nos deixar silenciar. Temos de expor os que nos pressionem e tentem nos ferir.

Quando alguém disser que Julian é irracional e paranoico – temos de responder e mostrar que os EUA estão rompendo todas as suas regras, nossas regras, na perseguição que move contra ele.

Em poucos anos, se não consertarmos os vícios e problemas estruturais que vemos hoje, nós já encontraremos a total tecnologia para o totalitarismo total, aí, à nossa espera, à nossa espreita.

O silêncio não nos protegerá – só estaremos protegidos se nos mantivermos unidos e fortes, apesar de todas as nossas fraquezas e defeitos, contra a injustiça, qualquer injustiça, todas as injustiças.

Enviem um amicus brief  [2] ao processo Jewel vs NSA para lutar contra a tirania dos mandados genéricos de prisão. Enviem um amicus brief à ação contra o artigo n. 1.021, sectário.

Registrem manifestação a favor do FOIA [Freedom of Information Act], a propósito de tudo, qualquer causa – agitem, usem a verdade como instrumento de agitação social, forcem os desgraçados a prestar contas de tudo que façam de errado, sempre que usarem contra nós o poder que têm.

Se você está em Londres, a hora agora é de ocupar a Embaixada do Equador – sejam os olhos do mundo contra a tirania do Reino Unido.

Para cada um semelhante a Julian ou Bradley Manning, há dúzias cujos nomes não sabemos – temos de apoiar todos eles, em sua luta.

Não desesperem, se não conseguirmos ganhar todas as lutas. O importante é não nos deixar desanimar. A luta moral é lutada em nome da moral, não da chance de vencer.

Não desanimem, porque encontrem alguns covardes. Mostrem a cada covarde que eles podem mudar de ideia e, quando o covarde, afinal, estiver pronto, ajudem-no, na luta dele.

Nossa geração pode vencer a apatia e todos os fracassos das últimas décadas. Rejeitamos a noção de que o Estado seria perfeito ou honesto.

O destino de Julian Assange está em nossas mãos; agora, é hora de agir! Vamos à luta antes que seja tarde demais, para Julian e para nós.



Nota dos tradutores
*Os que não conheçam Jacob Applebaum, podem vê-lo em entrevista a Assange, no programa “The World Tomorrow”,Russia Today, transcrita e traduzida na redecastorphoto em: - “Assange entrevista n. 6: Cypherpunks” (partes 1 e 2).

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Notas de rodapé
[1] National Defense Authorization Act” é a lei de segurança nacional dos EUA. A seção 1.021 (do subtítulo D – “Contraterrorismo”), autoriza as forças armadas dos EUA a prender qualquer pessoa suspeita de ação terrorista, com uso de força militar.
[2] Amicus brief [lat.: amicus curiae] é o documento jurídico pela qual qualquer cidadão que tenha conhecimento de informação relevante para causa que esteja sendo julgada pode apresentar-se espontaneamente ao juiz para dizer o que sabe. Cabe à corte, em cada caso, aceitar ou não a contribuição espontânea do amicus curiae, literalmente, “amigo do tribunal”.