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terça-feira, 24 de abril de 2012

Por que Buenos Aires enlouquece a mídia?


Mark Weisbrot



Tradução: Antonio Martins para Outras Palavras



Fracassarão novamente os que preveem derrota da nacionalização do petróleo. Há nove anos, a Argentina avança – exatamente por desprezar o neoliberalismo

Cristina Fernández de Kirchner - Presidenta da Argentina

A decisão do governo argentino, de re-nacionalizar a YPF, antiga empresa estatal de petróleo e gás, foi recebida na mídia internacional com brados de ultraje, ameaças, presságios de tormenta e ruína e até xingamentos.

Já vimos este filme antes. Quando o governo argentino entrou em moratória da dívida externa, no final de 2001, e desvalorizou sua moeda algumas semanas depois, choveram lamentos e condenações na imprensa. A medida provocaria inflação descontrolada, fecharia o crédito internacional à Argentina e provocaria ao final escassez de divisas. A economia iria mergulhar numa espiral de recessão.

Nove anos depois, o PIB de Argentina cresceu cerca de 90%, o índice mais alto no hemisfério. Os índices de desemprego estão no patamar mais baixo de todos os tempos; tanto a pobreza quando a “pobreza extrema” foram reduzidas em dois terços. Os investimentos sociais, já corrigidos pela inflação, quase triplicaram. Provavelmente por isso, Cristina Kirchner foi reeleita em outubro, numa vitória arrasadora.

Esta história de sucesso raramente é contada, em especial porque implicou reverter muitas das políticas neoliberais fracassadas que... continue lendo...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Líbia: o ditador desmascarado

ANTONIO MARTINS – 22 DE FEVEREIRO DE 2011

Vendaval árabe abala Muamar Gaddafi, o coronel que foi aliado do “socialismo real”, estimulou atentados e terminou nos braços de Bush, Blair e Silvio Berlusconi

O país está quase isolado do mundo: a ditadura controla rádio, TV e jornais; cortou internet, celulares e telefones fixos. Raras notícias e imagens furam o muro de silêncio. São dramáticas. A aviação disparou contra a população rebelde. Há pelo menos 300 mortos, num país cuja população equivale à da cidade do Rio de Janeiro. Mercenários substituem os soldados que desertam. Percorrem as ruas da capital (Tripoli) armados, para reprimir manifestações. O aeroporto de Benghazi, onde começaram os protestos, foi bombardeado. O filho do ditador anunciou domingo que o regime resistirá “até o último homem” e ameaçou iniciar uma guerra civil.


Ainda assim, a revolução não recua. A população teria assumido o controle de diversas cidades. Em sequência ao banho de sangue, diversos ministros e muitos diplomatas desertaram. O embaixador adjunto do país na ONU pediu ao Conselho de Segurança (que está reunido nesta tarde de terça-feira, 22/2). As últimas notícias falam de barricadas em Tripoli — e de chamas em edifícios que simbolizam o regime. Mais uma vez, quem conduz a luta são os jovens.

Novo epicentro (depois da Tunísia e Egito) do terremoto desencadeado pelas multidões árabes, a Líbia é crucial por dois motivos. É o primeiro grande produtor de petróleo atingido pelos protestos. Além disso, há um componente simbólico destacado. O regime agora pendurado por um fio flertou, ao longo de seus 41 anos, com os dois grandes projetos políticos que marcaram o século 20: “socialismo real” e sociedades de mercado. Em ambos os casos, as multidões foram mantidas à margem, reprimidas, privadas de direitos políticos e de qualquer participação importante sobre seu futuro coletivo. Agora, tateiam em busca de uma alternativa.


Subjugada sucessivamente por romanos, islâmicos, otomanos e italianos, a Líbia tornou-se independente em 1949, por resolução das Nações Unidas. Foi governada a partir de 1951 pelo rei Idris, cujos laços com Inglaterra e França eram notórios. Em 1959, descobriram-se seus vastos campos de petróleo. Dez anos mais tarde, na esteira do nacionalismo árabe que tinha no egípcio Abdel Nasser sua principal referência, um grupo de jovens coronéis tomou o poder. Seu líder mais poderoso era Muamar Gaddafi, então com 27 anos.

À frente de um país rico e pouco habitado, Gaddafi alcançou avanços importantes, no terreno das condições de vida. O IDH da Líbia (0,755) é o maior da África e bem superior ao do Brasil (0,699). Montado nestas conquistas, o governante sentiu-se capaz de conduzir o Estado líbio, no cenário internacional, pelos caminhos que sua vaidade julgasse convenientes.


Entre a década de 1960 e o final do século passado, alinhou-se com o “socialismo real” e os nacionalismos de esquerda — inclusive suas correntes mais radicais. Considerou-se um parceiro de Fidel Castro e Yasser Arafat. Apoiou movimentos separatistas como o IRA irlandês e os radicais islâmicos das Filipinas. Advogou, em palavras, a unidade árabe. Na vida real, perseguiu os dissidentes na Líbia e os que se refugiavam no exterior, em muitos casos com assassinatos.

Em 1977, considerando-se inspirado por Nasser (que escrevera A Filosofia da Revolução) e Mao (autor do Livro Vermelho), redigiu, traduziu em múltiplos idiomas e publicou em grandes tiragens O Livro Verde (ler em inglês), uma obra tosca de política e filosofia.  Julgou-se líder de uma revolução cultural. Mudou o nome de seu país para Grande Jamahyria [Estado de massas, em árabe] Socialista Árabe da Líbia.

O declínio do “socialismo real” levou-o a posições mais extremadas. No início dos anos 1980, rompeu com Arafat, fechou os escritórios da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em Trípoli e expulsou milhares de refugiados palestinos de “seu” país. Em abril de 1986, surgiram indícios de que a embaixada líbia em Berlim Oriental ajudara a articular um atentado a bomba numa boate em Berlim Ocidental, que provocou três mortes e 230 feridos — entre eles, dezenas de soldados norte-americanos. Em resposta, o então presidente dos EUA, Ronald Reagan, mostrou que era capaz de selvageria muito maior. Dias depois, aviões norte-americanos bombardearam Tripoli e outras cidades, provocando a morte de centenas de civis — entre eles, Hanna, filha adotiva de Gaddafi.

A ação não ficaria sem troco — mais uma vez, tendo como alvo civis inocentes. Em 1988, um avião de passageiros da empresa norte-americana Pan Am (falida em 1991) foi abatido por uma bomba, quando sobrevoava a cidade de Lockerbie, na Escócia. Morreram 270 pessoas, dentre as quais 189 estadunidenses. Acusado pelo crime, Gaddafi negou responsabilidade.

Iria assumi-la anos mais tarde, em 2003, como parte de uma guinada radical — agora ao encontro dos governos mais identificados com a política imperial do então presidente dos EUA, George Bush. Em agosto, o ditador líbio enviou carta às Nações Unidas admitindo a responsabilidade de seu país pelo crime e se propondo a pagar indenização de 2,7 bilhões de dólares às famílias das vítimas. Num gesto ainda mais eloquente, abriu a exploração das reservas de óleo líbias a empresas como a British Petroleum e a ENI, italiana.

Foi o suficiente para que também os governantes ocidentais o cobrissem de mesuras. Puxou a fila o então primeiro-ministro inglês Tony Blair. Famoso por seu alinhamento total às politicas de Bush, ele manteve com Gaddafi um “encontro histórico”, consumado numa tenda beduína, montada nos arredores de Tripoli. Seguiram-no o francês Nicolas Sarkozy (julho de 2007), o italiano Silvio Berlusconi (agosto de 2008) e, finalmente, a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice (setembro de 2008).

Num artigo publicado hoje, Gideon Rachman, principal analista internacional do diário londrino (e pró-capitalista) Financial Times, reconhece: “nos últimos anos, o líder líbio foi recaracterizado como sendo um pecador reformado, aliado na ‘guerra ao terror’ e valioso parceiro de negócios (…) As mudanças de atitude em relação a Gaddafi evidenciam a forma como as preocupações ocidentais em relação aos direitos humanos são quase sempre tingidas pela conveniência”.

Mas, seja qual for seu desfecho, a revolução líbia convida a própria esquerda a uma reflexão autocrítica. O caráter de um governo não está no que ele diz de si próprio, nem apenas nas políticas que conduz, mas também — e cada vez mais — no grau de participação e horizontalidade que é capaz de manter com as multidões. Ao escancarar este fato, o vendaval árabe oferece mais um presente inestimável à nova cultura política que está em construção

Extraído do Blog Outras Palavras do Antonio Martins
Os vídeos da Al Jazeera foram colocados pelo pessoal da redecastorphoto