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domingo, 21 de abril de 2013

“Dias de Deus”: Khomeini e a revolução islâmica


Adam Shatz, London Review of Books, vol. 35, n. 8, 25/4/2013
Traduzida pelo pessoal da Vila Vudu

Resenha de BUCHAN, James, Days of God: The Revolution in Iran and Its Consequences [Dias de Deus: a revolução no Irã e suas consequências], John Murray, 482 pp, £25.00, Nov. 2012, ISBN 978 1 84854 066 8

Adam Shatz
Ao final da 2ª Guerra Mundial, um panfleto anônimo começou a circular nos seminários de Qom, bastião de estudos e de intelectuais muçulmanos xiitas. “Segredos Revelados” [orig. The Unveiling of Secrets] acusava a monarquia iraniana de traição: “Sob chapéus europeus, vocês flanam pelos boulevards, espiam meninas despidas e veem-se como gente finíssima, sem perceber que estrangeiros estão saqueando o patrimônio e os recursos do país”. O panfleto pregava que o Irã fosse governado por uma assembleia de juristas islâmicos, comandada por um sábio. Nesse novo Estado, não seriam necessárias eleições nem Parlamento, nem, sequer, seria necessário qualquer exército: uma milícia de religiosos (basij) garantiria o respeito à lei.

Aiatolá Ruhollah Khomeini, lider e iniciador da revolução islâmica do Irã 
É pouco provável que alguém, fora de Qom, tenha lido “Segredos Revelados”; mesmo nos seminários, poucos teriam abraçado aquele programa. Mesmo assim, trinta anos depois, o autor do panfleto, Ruhollah Khomeini, ajudou a lançar uma revolução que derrubou a monarquia e estabeleceu-se como Líder Supremo do Irã, com poderes que o xá teria invejado. A paisagem política foi transformada: os xiitas do Irã, uma minoria na Casa do Islã, haviam re-escrito o roteiro da revolução no Oriente Médio.

James Buchan
“Dias de Deus” [orig. Days of God], de James Buchan, mostra o processo pelo qual um clericato radical assumiu o controle de um levante popular contra uma ditadura apoiada pelo Ocidente e implantou ali a primeira e até agora única República Islâmica do mundo. Buchan acompanha fielmente os fatos, mas “Dias de Deus” é também uma reflexão erudita sobre três importantes questões: por que houve uma revolução; por que foi revolução islamista; e qual o legado daquela revolução.

A Revolução Islâmica foi, argumenta Buchan, revolução contra uma modernização imposta pelo Ocidente que favorecia um suposto caminho rápido para a modernidade. Tinha um objetivo espiritual brotado diretamente da história do xiismo, com seus temas de martírio e redenção, mas a tentativa de impor a autoridade divina ao governo político acabou por expandir – e, de fato, por santificar – o estado autoritário que os clérigos herdaram do xá. “Na revolta contra o pahlavismo” – escreve Buchan –“a República Islâmica também é a continuação dele, em turbante e túnica”.

Reza Khan Pahlavi
A dinastia Pahlavi começou em 1926, quando Reza Khan – soldado da Brigada Iraniana de Cossacos, que chegara ao poder cinco anos antes, por golpe apoiado pelos britânicos contra a monarquia Qajar – se autocoroou xá. Embora ele e seu filho Mohammed se apresentassem como herdeiros de Ciro, o Grande, a dinastia jamais passou de operação “de pai-para-filho”, dependente de patrocínio estrangeiro, contra o qual rugiam, mas do qual jamais se separaram. Reza foi modernizador autoritário do molde de Ataturk, que forçou nômades a se fixar; disciplinou minorias étnicas rebeldes; construiu rodovias e ferrovias; e criou exército e burocracias modernas. Mas seu projeto ocidentalizante, sobretudo os ataques ao véu, arregimentaram contra ele a oposição dos clérigos; além disso, Reza jamais conseguiu apagar da opinião pública a certeza de que não passava de lacaio dos britânicos. Na verdade, resistiu a interferências estrangeiras e tentou renegociar o famigerado acordo de 1919 com a empresa Anglo-Persian Oil Company, mas nada conseguiu. Afinal, depois de declarar o Irã neutro na 2ª Guerra Mundial, foi deposto por tropas soviéticas e britânicas, em setembro de 1941.

Mohammed, o filho mimado, frágil, tampouco gostava muito dos patrões ocidentais, mas rapidamente aprendeu a não os desafiar, sobretudo depois do golpe orquestrado pela CIA contra seu primeiro-ministro, Mossadegh, em 1953. Sedutor, fluente em francês e inglês, com a sofisticação mundana que adquiriu nos anos de estudo em colégios suíços, Mohammed era também nacionalista, mas cometeu o erro de supor que obteria apoio popular sem jamais cogitar de assegurar independência nacional. Depois do golpe de 1953, assinou melhor acordo com a British Petroleum, que garantia ao Irã 50% dos lucros. Embora ainda estivesse longe dos planos de nacionalização de Mossadegh, o acordo gerou um boom de progresso, com projetos grandiosos que seu pai muito teria admirado: barragens, hidrelétricas, uma imensa fábrica de aço financiada e construída pelos soviéticos – uma quase declaração de independência que lhe fez bem ao ego. A população do Irã cresceu, de 19 a 30 milhões; Teerã tornou-se metrópole moderna.

Mossadegh, patriota iraniano, preso após golpe EUA-Inglaterra de 1953 por contrariar interesses anglo-americanos no petróleo do Irã
O crescimento econômico gerou elogios e aplausos do ocidente ao xá, mas não lhe valeu o amor do povo iraniano, que ele julgava merecer; e o povo acabou por virar-se contra a própria modernização. Os iranianos viram a modernização como uma modalidade de imperialismo, ameaça existencial às próprias tradições do Irã. Obcecado com conspirações contra o trono, o xá foi-se tornando cada vez mais dependente do Savak, seus serviços de inteligência, que a CIA, o Mossad e o MI6 britânico haviam treinado, especializados em vigilância e interrogatórios. Os que se opusessem à amizade entre o xá e EUA, Israel e a África do Sul do apartheid podiam escolher entre exílio em Berlim ou Paris e os cárceres do Savak.

Mohammed Reza Pahlavi
O xá tentou cooptar a esquerda com sua “revolução branca”, ambicioso programa de reforma agrária lançado no início dos anos 1960s, mas cujo único feito foi destroçar a vida tradicional no interior do país e provocar um êxodo de migrantes, do interior para as favelas de Teerã, que cresceram e converteram-se em território da oposição.

Buchan testemunhou os efeitos deletérios da “revolução branca” no início dos anos 1970s, quando viveu como professor inglês em Isfahan, cidade de palácios que pareciam “tão leves que se podiam erguer do chão com um sopro”. O pahlavismo, aos olhos dele, foi como “serra cega, tentando cortar o núcleo mais duro da iraneidade”. Sugere que o xá foi derrubado tanto pelo “estilo Pahlavi de governar” quanto por suas políticas: o desavergonhado anseio de agradar ao Ocidente com sua “grande civilização”; a cruel indiferença à tragédia da migração interna provocada por suas políticas; o mal disfarçado desprezo pela fé xiita e pelo bazaar, que o xá via como sinais de atraso e ignorância.

Jalal Al-e-Ahmad
Jalal Al-e Ahmad, um dos profetas intelectuais da Revolução reclamava que os iranianos já não sabiam quem eram, que haviam sucumbido a uma praga que ele chamava de gharbzadegi: “Ocidentite” ou “Ocidentose”. Em 1971, na celebração ostentatória, em Persépolis, em que o xá comemorou 2.500 anos da monarquia com 69 chefes de Estado e serviço importado diretamente do restaurante Maxim’s de Paris (“orgia de glutonaria bestial”, nas palavras de Khomeini), o xá praticamente empurrava o povo a derrubá-lo.

Mas, quando a revolução veio, não foi o levante comunista que o xá e seus patrões ocidentais tanto haviam temido, mas uma revolução islâmica que proibiu o álcool, obrigou as mulheres a cobrirem cabeça e corpo e deu todo o poder aos clérigos. A explicação usual para essa reviravolta é que o xá, ao envolver-se na derrubada de Mossadegh e reprimir a esquerda, criou um vácuo que o clericato conseguiu ocupar. Mas isso não explica como o clericato, que sempre vira a política como atividade suja, passou, de repente, a ver-se como ator político e movimentou-se para tomar o poder.

A desconfiança contra o poder do Estado tem raízes profundas na fé xiita. Para os xiitas, qualquer esforço para legislar ou governar, “no melhor dos casos, tem de ser atividade provisória; no pior, é usurpação”, até o retorno do 12º imã, desaparecido em Samarra em 874. Outra razão, mais secular, para que o clericato se mantivesse afastado do poder político é que esse afastamento interessava aos clérigos, no plano material.

Ao longo do século 19, os clérigos enriqueceram, graças à aliança com o bazaar, que canalizava os lucros – além de ¼ dos lucros do comércio do ópio – para as mesquitas e seminários. Embora o clericato se tivesse unido ao bazaar para oporem-se às concessões comerciais a estrangeiros e para pregar a discrição no trajar, em todos os demais assuntos viviam separados e distanciados.

Hossein Borujerdi
O aiatolá Hossein Borujerdi, marja-e taqlid (“fonte de força e emulação”) sênior em Qom durante os anos 1940s e 1950s, proibira que os clérigos tivessem qualquer envolvimento na política. Mas o ciclo virtuoso de dinheiro-mesquitas construídas tinha de ser protegido contra a intrusão do Estado – sobretudo quando o xá pôs-se a falar de reforma agrária no interior do país, exatamente onde os clérigos eram mais fortes. Para que houvesse revolução islâmica, teria de haver, antes, uma revolução dentro do próprio Islã.

Durante a era Borujerdi, Khomeini foi figura marginal, que vivia quase em ostracismo em Qom, conhecido quase exclusivamente pelo estilo austero de vida e por seus conhecimentos de erfan (misticismo). Suas palestras atraíam bom público, mas também levantavam suspeitas de que fosse “infiel”, talvez, até, sunita. Cultivava linguagem erudita e um ar de superioridade que contagiava seus seguidores; e desdenhava colegas “mulás estúpidos e reacionários”, como dizia. Admirava homens de ação, sobretudo os que executavam membros do governo, por dever religioso. Borujerdi mantinha Khomeini à distância, temendo que seu radicalismo tornasse o seminário vulnerável à perseguição pelos serviços de segurança do xá. Mas depois da morte de Borujerdi, em 1961, Khomeini começou a erguer a voz contra o xá.

Aiatolá Khomeini (jovem)
Seu primeiro alvo foi a “revolução branca”, que o xá levou a referendo popular em 1963. Khomeini acreditava que, por dar voto a “grande quantidade de mulheres ignorantes”, o referendo gerava grave ameaça de “extirpar o Islã”. Mas instruiu seus seguidores a não atacar o conteúdo do que estaria sendo votado, um pacote de algumas normas de reforma agrária e nacionalização de florestas, que muitos iranianos (principalmente a classe média urbana e nacionalista) apoiava. Em vez de atacar o conteúdo, atacou o próprio referendo, acusando o xá de violar a Constituição. Forças da monarquia atacaram o seminário de Faizieh e, nos confrontos, morreu um estudante. Khomeini e seus apoiadores converteram a cerimônia dos 40 dias de luto em manifestação política, exatamente como fariam depois, nos “dias de Deus” da Revolução. Em discurso furioso, Khomeini chamou o xá de “escombro sem valor”; disse que ele tratasse de “aprender a lição do destino de seu pai”. Quando Khomeini foi preso, explodiram levantes em todo o país; as forças do xá atiraram contra uma multidão de manifestantes que cantavam: “Khomeini ou morte!”.

Hassan Pakravan
“Por que não deixam a política para nós?”, perguntou a Khomeini o chefe do Savak, Hassan Pakravan, que convencera o xá a libertá-lo, “política é vilania, mentiras, hipocrisia. Não se deixe contaminar pela política”. Era conversa que talvez funcionasse com Borujerdi, mas Khomeini era homem de outro tipo. (Ao assumir o poder, Khomeini mandou executar Pakravan). O prestígio de Khomeini crescia enormemente. O establishment religioso em Qom já o promovera ao posto de marja-e taqlid, única via possível para tirá-lo da prisão.

Mas nem o novo título serviu de proteção quando, em 1964, Khomeini denunciou a imunidade diplomática que protegia, no Irã, todos os militares norte-americanos.

Se um norte-americano, digamos, um cozinheiro norte-americano, assassinar nosso marja no meio do bazaar, ou se esmagá-lo com o coturno, a polícia do Irã não o prenderá. Mas se um iraniano atropelar um cachorro que pertença a um militar norte-americano, será processado – trovejava Khomeini.

Abol Hassan Bani-Sadr
Uma semana depois disso, Khomeini foi expulso para a Turquia. Um ano depois, foi transferido para um seminário em Najaf, no Iraque. Ali se organizou uma rede de estudantes iranianos revolucionários, trabalhando em íntima associação com Abol Hassan Bani-Sadr, jovem e rico militante terceiro-mundista, que vivera em Paris e que viria a ser o primeiro presidente da República Islâmica.

Religioso, de hábitos severos, de turbante, Khomeini pouco tinha que o qualificasse como líder de estudantes. Mas valente oposição que fez contra o Xá e a aproximação que construiu entre o xiismo e a luta anti-imperialista ressoou entre os jovens leitores de Al-e Ahmad e Ali Shariati, os pais espirituais da Revolução Islâmica. Gharbzadegi de Al-e Ahmad e A Volta a Nós Mesmos [orig. Return to Ourselves] de Shariati ofereciam uma mistura hipnótica, encantatória de marxismo, misticismo xiita e [Frantz] Fanonismo. Falavam a um sentimento comum e disseminado, de que a cultura iraniana estava sob ameaça de ser atropelada, até destruída, pela cultura ocidental do consumismo.

O esquerdismo islamista de Al-e Ahmad e Shariati era, ele próprio, uma mistura complexa de ideias ocidentais e muçulmanas, que tinha de vital o que tinha de impreciso e indefinido, mas manifestava claramente uma ânsia por alguma modernidade alternativa, um estilo de vontade radical que era – ou pelo menos foi intensamente sentida como tal – autenticamente iraniana. A solução para os problemas do Irã, diziam eles, não será jamais encontrada em modelos ocidentais, mas no “verdadeiro” Islã de libertação nacional e justiça social, como o conceberam os velhos sábios de Qom. O Islã nunca foi um código fixo de regras e proibições, mas uma religião de liberdade, uma espécie de existencialismo persa, e vivia na consciência individual, nas mesquitas. “O Imã pelo qual todos nós esperamos já vive dentro de cada um de nós” – escreveu Al-e Ahmad.

Aiatolá Khomeini
(velho)
Khomeini foi pressionado por Qom para que excomungasse Shariati como “desviante”, por causa de seus ataques à poligamia e ao véu. Mas mais uma vez “e não seria a última” – como escreve Buchan – “Khomeini provou ser homem sutil e paciente”. Pouco teria a ganhar com ataques ao ídolo dos estudantes; além disso, a crítica de Shariati contra o clericato fazia dele excelente aliado tático de Khomeini, em luta contra o establishment religioso conservador em Qom. Khomeini viu que a fusão que Shariati construíra, de motivos islâmicos e marxistas, poderia ser poderosa ferramenta de mobilização.

Os slogans dos khomeinistas durante a Revolução – “O Islã pertence aos oprimidos, não aos opressores” / “O Islã manifesta os que vivem em barracos, não os que vivem em palácios” – muito devem a Shariati, que morreu no exílio, na Inglaterra, em 1977. Milhares de seguidores de Shariati – especialmente os guerrilheiros da esquerda islâmica dos “Mujahedin do Povo”, que ajudaram a disparar a Revolução, mas depois romperam violentamente com a República Islâmica – acabariam prisioneiros nas prisões de Khomeini; mas naquele momento, como escreve Buchan, “a reconciliação com os Shariatistas teria de esperar.”

Enquanto Shariati falava de libertação, Khomeini cuidava do que aconteceria depois da libertação. A questão de quem governaria depois do xá era a única que realmente o ocupava. Em uma série de palestras que deu em Najaf em 1970, publicadas um ano depois como Islamic Government [Governo Islâmico], Khomeini dizia que a concepção corânica de velayat-e faqih, “o governo dos jurisconsultos/juristas (islâmicos)”, não se aplicava só a viúvas e órfãos (como muitos clérigos acreditavam e ensinavam), mas à sociedade como um todo: o estado islâmico deve ser governado por um grupo de clérigos; até mesmo “por um único homem”, mas não poderia ser jamais algum tipo de monarca, porque o islamismo é inerentemente hostil à monarquia. Deve ter soado como espantosa novidade para clérigos que haviam apoiado monarcas iranianos desde a fundação da dinastia safavida no século 16. Apesar do tom escritural da elocução, esse velayat-e faqih já soava, para muitos, como interpretação fantasiosa do Corão.

*****

Quando jornalistas ocidentais o visitaram em Neauphle-le-Château, a vila nos arredores de Paris onde passou os últimos quatro meses de exílio, Khomeini não falou do governo dos jurisconsultos/juristas islâmicos. Sem saber do que ele dissera em Islamic Government, os ocidentais que se sentaram com ele sob aquela macieira, dos quais o mais famoso foi Michel Foucault, reproduziram o que Khomeini lhes dissera ali, que não tinha interesse pessoal pelo poder e que as mulheres seriam livres na República Islâmica. 

Aiatolá Khomeini na entrevista em Neauphle-le-Château
Poucos iranianos algum dia haviam ouvido falar de “governo dos jurisconsultos/juristas (islâmicos)”; para muitos, a simplicidade e a sobriedade de Khomeini encarnavam não só a oposição ao xá, mas a própria honra nacional do Irã. O espetáculo de Khomeini na França, escreve Buchan, “reforçou nos iranianos a noção de que eles próprios eram também vulneráveis e preciosos”. Até os comunistas exilados do Partido Tudeh alinharam-se a Khomeini. (Em 1983, o líder do Tudeh pediu desculpas, transmitidas por televisão e extraídas sob tortura, por ter “traído” a Revolução). Mas, apesar de sua serena indiferença ao que pensasse ou dissesse o Ocidente, Khomeini já se deixara contaminar pela gharbzadegi, a “Ocidentite”, ou “Ocidentose”, dos Pahlavis, que Al-e Ahmad definira tão claramente.

A fagulha que desencadeou os primeiros embates da Revolução Iraniana foi um ataque a Khomeini, publicado sob pseudônimo, num jornal iraniano, três dias depois da visita de Jimmy Carter a Teerã, no Ano Novo de 1978. Mas o xá e seus patrões continuavam a supor que a ameaça real viria da esquerda. A CIA diagnosticara, ainda em agosto daquele ano, que o Irã “não estava em situação revolucionária nem de pré-revolução”.

Restos do incêndio do Cinema Rex em Abadan
Mas depois que um incêndio, dia 19 de agosto, no Rex Cinema, na cidade petroleira de Abadan, matou mais de 400 pessoas, já se sabia, sem sombra de dúvida, que os dias do xá estavam contados. Não porque o governo do xá tenha tido algo a ver com o incêndio; mas porque nenhum iraniano acreditaria que não tivera.

Depois da Revolução, um ex-traficante de drogas confessou que iniciara o incêndio no cinema, com um grupo de ativistas islamistas. Disse esperar que o incêndio atraísse apoio para “o pessoal que estava fazendo a Revolução”. Khomeini era conhecido por dizer que cinemas eram “ninhos de iniquidade”, mas, ali, ele viu de onde extrair boa vantagem estratégica. Declarou que o incêndio “contrariava todas as leis do Islã” e, portanto, tinha sido, obviamente, serviço dos homens do xá.

Em setembro, aconteceria o massacre dos manifestantes da Praça Zhaleh, que ficaria conhecido como o massacre da Sexta-feira Negra. Em outubro e novembro, houve ataques selvagens à refinaria de Abadan e bancos foram incendiados. A terceira esposa do xá, Farah Diba, descreveu esses eventos como “um pequeno feu de joie [fr. no orig., “tiros para o ar”] popular. O xá dissolveu o estado de partido único e introduziu o que chamou de “democracia responsável”, o que só conseguiu fazê-lo aparecer como ainda mais fraco. Multidões desarmadas clamavam, nas ruas, pelo fim da monarquia, e o xá, diferente do pai, não manifestou qualquer vontade de resistir. Em dezembro, foi Khomeini, não o xá, quem convenceu petroleiros em greve a refinar petróleo suficiente para o consumo do país. Em meados de janeiro 1979, o xá fugiu do Irã, com a rainha, levando na bagagem uma caixinha com terra do Irã.

Shapour Bakhtiar
Nas duas semanas entre a partida do xá e a volta de Khomeini, não se sabia com certeza quem governava. O primeiro-ministro Shapour Bakhtiar, funcionário da era Mossadegh e ex-prisioneiro do xá, dissolveu o Savak, libertou prisioneiros políticos, proibiu por lei a venda de petróleo para Israel e a África do Sul e pôs fim à censura à imprensa. As reformas de Bakhtiar podem ter agradado muitos iranianos – mas antes de desembarcar em Teerã, Khomeini exigiu que renunciasse. O governo americano estava dividido entre os que insistiam em um golpe militar e os que, como William Sullivan, embaixador dos EUA em Teerã, viam Khomeini como figura assemelhada a Gandhi e aliado potencial na luta contra o comunismo.

Os soviéticos assumiram que o que os americanos perdessem seria ganho para os soviéticos, e que os gritos de “Deus é grande!” e o mar de turbantes e chadors que tomava as ruas de Teerã não passava de fachada para uma revolução socialista. Mas o slogan de Khomeini era “nem Leste nem Oeste”, e significava que os iranianos haviam feito sua revolução para romper com a história da interferência estrangeira, não para trocar de superpotência patroa – muito menos uma nova encarnação da Rússia Imperial, sua velha inimiga. “Esse não é governo igual a todos” – disse Khomeini em Teerã, dia 5/2/1979, quatro dias depois que milhões de iranianos saíram às ruas para recebê-lo de volta. Menos de uma semana depois disso, civis invadiam instalações militares, soldados desertavam, e Bakhtiar, disfarçado como empresário francês, fugiu para a França.

Mehdi Bazargan
Um mês depois, em referendo, avassaladora maioria aprovou uma República Islâmica. O primeiro-ministro de Khomeini, Mehdi Bazargan, nacionalista liberal cauteloso, que comandara a indústria do petróleo sob Mossadegh, preferiria que os iranianos tivessem escolhido uma “República Islâmica Democrática”, mas Khomeini vetou a fórmula: “O Islã dispensa adjetivos do tipo “democrático”. Para nós, nenhum adjetivo acrescenta qualidades ao Islã, que é perfeito”. Mas conformou-se ante alguns ocidentalismos que detestava, inclusive um parlamento eleito e direito de voto assegurado às mulheres. O estado que resultou disso, apoiado por Khomeini, seria um híbrido de governo dos jurisconsultos (juristas) islâmicos (velayat-e faqih) e da república à francesa. Mas a Assembleia dos Especialistas, de 73 membros, todos homens, dominada por seguidores de Khomeini, a maioria dos quais clérigos, controlava tudo. E acima de todos ficava o próprio Líder Supremo, o próprio Khomeini, com mandato vitalício. Khomeini implantou também um shadow government [lit. governo nas sombras], pelo qual consolidou o próprio poder sobre o Estado, composto do Corpo de Guardas Revolucionários, do Partido da República Islâmica e da milícia IRP, à qual foram entregues os campi universitários, em violenta “revolução cultural” contra a esquerda, antigos aliados de Khomeini. Monarquistas e outros suspeitos de “semear a corrupção sobre a terra” logo se viram objetos de julgamentos em tribunais revolucionários, nos quais Sadegh Khalkhali, clérigo sem expressão nacional, que Khomeini nomeou para a Corte Suprema, supervisionou milhares de execuções. O objetivo aí não era apenas punir, mas, nas palavras do locutor da rádio estatal, “injetar sangue novo nas veias da Revolução”.

Invasão de estudantes à embaixada dos EUA em Teerã (1979)
A decisão de Khomeini de apoiar os “Seguidores da Linha do Imã” [orig. Followers of the Line of the Imam] – os estudantes que invadiram a Embaixada dos EUA em novembro de 1979, pouco depois de o xá ter chegado ao New York Hospital para tratar-se de um câncer – foi tomada com objetivo semelhante. O alvo real nem era tanto os EUA quanto os nacionalistas moderados que o ajudaram a chegar ao poder: homens como Bazargan, cujas formação universitária e esperança de que o Irã re-estabelecesse relações com o ocidente convertiam em perigosos suspeitos de “liberalismo”. Os “Seguidores da Linha do Imã” diziam que tratavam de impedir que se repetisse o golpe de 1953, mas os americanos, agora, tentavam uma reaproximação – e Khomeini sabia perfeitamente disso.

Zbigniew Brzezinski
Quando os estudantes escalavam os muros da embaixada [momento que se vê com precisão fotográfica em Argo, o filme, do qual contudo se apagam todas as pistas que permitiriam considerar o contexto em que aconteceu a operação (NTs)], Bazargan, com a aprovação de Khomeini, estava reunido em Argel com o principal Assessor de Segurança Nacional dos EUA, Zbigniew Brzezinski. Bazargan denunciou os estudantes pela violação da lei internacional e das regras da diplomacia, mas o Supremo Líder apoiou-os, colhendo a oportunidade de pintar qualquer oposição à invasão da Embaixada como covarde rendição ao Grande Satã. Bazargan demitiu-se. Quando afinal os reféns foram soltos, em janeiro de 1981, o líder espiritual dos que os haviam sequestrado, Mohammad Khoeiniha, declarou que “a árvore da revolução cresceu e ganhou força”.

Na verdade, a árvore da revolução perdera parte considerável de sua força: a República Islâmica recebeu apenas $2,88 bilhões, dos $12 bilhões do patrimônio iraniano que lhe era devido e foi congelado; praticamente todo o restante foi consumido para pagar o serviço das dívidas do xá. Para Buchan, “não se pode dizer com certeza quem era refém de quem”. Mas as perdas financeiras foram mais do que recompensadas pela derrota imposta aos “liberais” e pela vitória psicológica sobre os norte-americanos e também, o que não significava pouco, sobre os aliados pré-revolucionários. Numa das mais fantasmáticas imagens da Revolução, jovens cujas avós haviam “tecidos tapetes nos anos 1920s”, agora se dedicavam a colar fragmentos de documentos recolhidos no “ninho dos espiões” [imagem que se vê no filme Argo, das poucas informações realmente interessantes, do ponto de vista histórico, do filme (NTs)]. Com o Irã no pleno controle, afinal, do próprio destino, o isolamento internacional, a dívida e as sanções pareciam pequeno preço a pagar. E a República Islâmica podia assumir a própria rota de desafio, porque o petróleo iraniano estava, afinal, sob comando dos iranianos.

A crise dos reféns reforçou o radicalismo da revolução de Khomeini; a guerra contra o Iraque deu resiliência e legitimidade popular à sua República. Começou em setembro de 1980, quando o Iraque atacou de surpresa, na esperança de redelimitar a fronteira no rio Shatt al-Arab. Os americanos e os franceses apoiaram o Iraque, e até os soviéticos tenderam na direção de Saddam. Os únicos apoiadores do Irã na região foram a Síria e, por pouco tempo, os israelenses, que esperavam que Khomeini viesse a aliar-se a eles, como o xá se alinhara. Em julho de 1982, o Irã expulsara o exército do Iraque do sudoeste do país. Khomeini deixou a vitória escapar-lhe entre os dedos, ao rejeitar a proposta de armistício de Saddam. Os israelenses acabavam de invadir o Líbano, e Saddam sugeriu a Khomeini que seus países pusessem de lado as diferenças, para combater “o inimigo sionista”. Mas Khomeini suspeitava que a invasão israelense fosse uma armadilha, construída pelo ocidente, para proteger o Iraque contra um castigo a ser-lhe imposto pelo Irã, que descobrira um “pulmão” no leste árabe: a organização guerrilheira xiita “Hezbollah”, organizada pelo Corpo de Guardas Revolucionários no Vale do Bekaa, no verão de 1982, que é hoje o mais importante e precioso aliado da República Islâmica na região, um escudo contra qualquer ataque israelense às suas instalações nucleares.

A continuação da guerra contra o Iraque condenou o Irã a mais seis anos de imenso sofrimento, incluindo os ataques com armas químicas que lhe foram impostos por Saddam. Adolescentes iranianos, mal chegados à puberdade, recebiam “uma rama e vinte balas e eram mandados combater uma posição de artilharia”, informados de que combatiam contra soldados israelenses. Então, o objetivo da guerra já era derrubar o regime do Partido Baath e expandir a Revolução Islâmica. Bem mais de 100 mil soldados iranianos morreram antes que, no final de 1988, Khomeini afinal aceitasse um acordo de cessar-fogo da ONU. Aceitou beber “do cálice envenenado”, como disse, depois que o porta-aviões norte-americano USS Vincennes derrubou um avião carregado de civis iranianos, confundido com um F-14.

Local do ataque dos EUA ao voo 655 da Iran Airlines 
Quase 300 passageiros e a tripulação morreram, em ação que, para Khomeini, foi ataque deliberado: uma mensagem dos EUA, para que o Irã entendesse que jamais, em caso algum, lhe concederiam vencer aquela guerra. Khomeini interpretou corretamente as intenções dos EUA. E a derrota ante a maior potência bélica do planeta garantiu-lhe saída honrosa. A redenção pelo martírio dos iranianos viria 14 anos depois, quando o Iraque caiu no colo do Irã, cortesia dos militares norte-americanos.

Hossein-Ali Montazeri
Terminada aquela guerra, Khomeini começou a preocupar-se com o futuro de sua revolução; e lançou nova onda de expurgos. Começou por executar quase 3.000 membros dos Mujahedin do Povo, que haviam lutado nas tropas de Saddam. A seguir, na fila, vieram os condenados por “guerrear contra Deus”: entre as vítimas, uma filha de 13 anos de um clérigo aliado, o aiatolá Hossein-Ali Montazeri, protegido de Khomeini e cogitado para sucedê-lo. Montazeri escreveu a Khomeini para protestar contra “esse ato de vingança e desprezo” e para lembrá-lo da crença muçulmana no perdão; Khomeini ignorou-o. No 10º aniversário da Revolução, Montazeri escreveu novamente a Khomeini, denunciando as restrições à liberdade. Dessa vez, Khomeini respondeu. Disse-lhe que jamais seria Líder Supremo; e avisou-o de que, se não calasse a boca “Serei obrigado a tomar alguma providência contra você. E você sabe que jamais descuido do meu dever”. Montazeri refugiou-se em Qom. Khomeini convocou uma assembleia constitucional especial, de membros que, praticamente todos, haviam sido nomeados por ele, e reformaram a Constituição, que deixou de exigir que o Supremo Líder tivesse ocupado a posição de marja-e-taqlid.

Assim se abriu ostensivamente o caminho para que Ali Hosseini Khamenei, que não era marja, mas sempre foi renomado khomeinista, substituísse o líder depois de sua morte. Bastou esse movimento de mão do próprio autor, para que o fundamento escolástico do governo dos jurisconsultos/juristas (islâmicos) [velayat-e faqih] fosse abolido.

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Mohammed Khatami
Todos os esforços para democratizar a República Islâmica na era Khamenei deram em nada. O presidente reformista Mohammed Khatami, ex-discípulo e aluno de Montazeri, foi minado por dentro do próprio governo por clérigos linha-dura, e por fora pelo governo Bush, que agradeceu ao Irã por sua ajuda no Afeganistão depois de 2001, pondo fim às aberturas pró-paz e incluindo o Irã, com Coreia do Norte e Iraque, no mesmo “eixo do mal”.

As manifestações em 2009 do “Movimento Verde”, reação a uma suposta fraude nas eleições presidenciais, foram reprimidas por milícias basij, com as bênçãos de Khamenei. O aparato de estado já estava constituído de clérigos linha-dura liderados por Khamenei e islamistas anticlericais no Corpo de Guardas Revolucionários; os dois grupos detestavam-se entre eles, mas estavam unidos contra os reformadores.

O Islã ainda assegura à República fonte mais local e profunda de legitimidade do que o comunismo assegurou à União Soviética, mas número crescente de clérigos vêm-se unindo à oposição ou recolhem-se ao quietismo da geração anterior. A intelligentsia iraniana apenas tolera, quando não despreza, a República Islâmica.

Seja como for, os iranianos não anseiam por outra revolução, nem aceitarão “mudança de regime” que lhes venha do exterior. Há uma diferença crucial entre a tirania da dinastia Pahlavi e a República Islâmica: a República Islâmica é produto de revolução local e tem raízes mais profundas. Ridicularizados pelos monarcas Pahlavi, como atrasistas e supersticiosos, Khomeini e os clérigos seus aliados acabaram por realizar o sonho que Reza Shah e seu filho nunca conseguiram realizar: criar um Irã moderno e independente, com status e prestígio de potência regional, cujo alcance já chegou ao Líbano, Afeganistão, Iraque, Síria e Palestina. A grande baixa da Revolução foi a visão de liberdade que Al-e Ahmad e Shariati trouxeram à tona, a mesma que Khomeini tanto elogiou, só da boca para fora, em Neauphle-le-Château.

Aiatolá Ali Hosseini Khamenei
Desde o colapso da reforma de Khatami, o estado tornou-se mais autoritário, mais paranoico e mais brutal no tratamento aos dissidentes. A juventude, atingida pela ferocidade da repressão pelos basij, já descrê da possibilidade de qualquer reforma e deu as costas à política. Sua principal preocupação é conseguir pagar as contas no fim do mês, em tempos de sanções punitivas.

As sanções visam oficialmente a impedir que o Irã continue a trabalhar em seu programa nuclear, que o país insiste que só tem finalidades pacíficas. Mas as sanções dificilmente funcionarão. O Irã tem inimigos armados com bombas atômicas e memória recente de ter sido atacado com armas químicas, enquanto o mundo dava-lhe as costas e fingia que não estava vendo. E, seja como for, a decisão de jamais ceder ante qualquer pressão externa é um dos princípios basilares da República Islâmica. Por mais que anseie pelo reconhecimento internacional, o país já sobreviveu ao isolamento e, em vários sentidos, o isolamento não assusta os iranianos. (Nisso, o Irã não é diferente de Israel, estado que também diz representar uma minoria perseguida e justifica a atitude de desafio contra tudo e contra todos, inclusive o desacato à lei internacional, com retórica de nacionalismo religioso fundamentalista e arrogante vitimismo). O isolamento fez aumentar a autoconfiança e estimulou o sacrifício, e o sacrifício é visto como prova de virtude.

A tenacidade da República Islâmica durante a guerra contra o Iraque fortalece a crença de que ela também resistirá às sanções – como já resiste ao assassinato, por Israel, de seus cientistas nucleares.

Programa nuclear iraniano em andamento
O programa nuclear goza de alta popularidade na opinião pública, que o vê como fator de contenção e absolutamente não entende por que Israel, Paquistão e Índia são autorizados a ter arsenal atômico, mas não o Irã. A resistência a pressões que lhe vieram do Ocidente já define o nacionalismo iraniano há mais de um século, e ainda é das poucas cartas com que um regime, pouco popular sob inúmeros outros critérios, ainda pode jogar, a seu favor.

Buchan conclui seu estudo, com a esperança de que o Irã se mostre menos intransigente do que em 1953, quando Mossadegh foi derrubado por ter nacionalizado a Anglo-Iranian Oil Company. Mas Khamenei e seus clérigos podem extrair outra lição, diferente, dos eventos de 1953, sobretudo hoje, se compararem o destino de Gaddafi, que extinguiu seu programa nuclear nacional, e o destino do regime da Coreia do Norte, que não o fez. Eles são xiitas, sim, mas isso não implica que desejem ser mártires.  

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Egito: notas sobre a arte da revolução


25/2/2013, Rasha Sadek, Al-Ahram Weekly, Cairo
Traduzido p[elo pessoal da Vila Vudu


Praça Tahrir durante o Ramadã em setembro de 2012
TAHRIR

A Praça Tahrir, no Cairo, foi o lar icônico da Revolução desde que irrompeu, dia 25/1/2011. Durante os 18 dias de revolta, antes da deposição do ex-presidente Hosni Mubarak, Tahrir deu voz às demandas de todos os grupos da opinião pública revolucionária, que pediam pão, liberdade, justiça social e o fim de um regime que se arrastava por 30 anos, já decadente. Gente de todo o espectro social, político e econômico acorreu ao epicentro da cidade do Cairo, às vezes, aos milhões. Estavam decididos. Eram unidos.

Durante os últimos dois anos, Tahrir viveu dias de celebração e dias de luto. Muitos foram mortos ali pelas forças de segurança de Mubarak. Montaram-se hospitais de campanha na praça e em torno da praça para tratar manifestantes contra os quais se lançavam bombas lacrimogêneas, canhões de água e tiros de munição real, ou feridos pela polícia ou por soldados do exército. Os funerais dos mártires da Revolução – os mortos nos sangrentos eventos da Batalha do Camelo, nos confrontos na rua Mohamed Mahmoud e diante do prédio do Gabinete – também várias vezes cruzaram a praça. Tahrir foi o centro de uma nação tomada de euforia quando Mubarak foi afinal expulso da presidência, dia 11/2/2011.

Durante 18 dias, até que Mubarak afinal partisse, Tahrir mostrou uma face do Egito que o mundo jamais vira. Durante o dia, a multidão enfrentava os ataques das forças de segurança; à noite, as pessoas sentavam-se em círculos, discutindo o futuro e as mudanças que a revolução teria de trazer. Cozinhavam, lavavam as panelas e tomavam banho na praça. Cantavam, às vezes a capella, às vezes acompanhando um violão, ou assistiam a concertos improvisados de Rami Essam, que ficou conhecido como “o cantor da Revolução”. Recitavam poemas em que denunciavam a injustiça e a corrupção do governo Mubarak, o assassinato de companheiros, ou que pintavam um futuro risonho, otimista, do amanhã, já sem Mubarak.

Praça Tahrir em 11/2/2013 no segundo aniversário da Revolução
A Praça Tahrir realmente conquistou a imaginação do mundo, ainda mais depois que os revolucionários, em gesto civilizado, limparam e repintaram a praça antes de, afinal, partirem, dia 12/2/ 2011. Contudo, poucos meses depois, já surgiam fissuras entre os revolucionários. Começaram as divisões políticas, e Tahrir nunca mais ecoou demandas unificadas. Passou a manifestar, isso sim, o grito de uma nação dividida entre, de um lado, um governo de religiosos, da Fraternidade Muçulmana, dos salafistas e de outras forças islamistas e de militares do Conselho Supremo das Forças Armadas [orig. Supreme Council of the Armed Forces (SCAF), que estava encarregado da fase de transição, mas que, de fato, era a continuação de 60 anos de governo militar; e, de outro lado, um governo civil. E todos, sempre, sob ameaças de que o país despencava num abismo econômico. Cada um desses dois grandes blocos organizou seus comícios e “marchas de milhões” na Praça Tahrir, os dois lados decididos a mostrar que era o mais forte.

A “Sexta-feira da Reunião”, dia 29/7/2011 foi organizada para unir todas as forças, sob plataforma única de demandas. Mas, naquele dia, desde cedo, centenas de milhares de afiliados das forças islamistas tomaram a praça, cercando-a e impedindo a entrada dos demais grupos. Ergueram bandeiras negras e chamaram de ateus os que falavam de democracia e os liberais em geral. O dia terminou com a mídia falando de uma “Sexta-feira de Kandahar” – cidade afegã governadas por islamistas conservadores, e para onde convergiam, atraídos como por um imã, organizações como a Al-Qaeda e os Talibã. Dia 2/11/2011, aconteceu o segundo ato organizado pelos islamistas, sob o mote de “6ª-feira de aplicar a Xaria”, que outros chamaram de “Kandahar II”.

No primeiro aniversário da Revolução, a Praça Tahrir viu chegar mais marchas organizadas por forças revolucionárias. Repetiram os cantos da Revolução, a qual ainda não atendera nenhuma das demandas revolucionárias. Do outro lado da praça, forças islamistas celebravam uma recente vitória no número de eleitos para o Parlamento. E, organizados pelos militares do SCAF, outros manifestantes exigiam, também na Praça Tahrir, a antecipação das eleições presidenciais, com muitos ainda sem terem definido o que queriam que viesse antes, as eleições, ou a redação de uma nova Constituição.

Mohamed Mursi
Quando o candidato da Fraternidade Muçulmana, Mohamed Mursi, foi anunciado presidente, dia 24/6/2012, com pequena margem de 49% dos votos, os islamistas acorreram à Praça Tahrir para celebrar. O próprio Mursi lá esteve, foi empossado à vista do povo e anunciou que “os objetivos da Revolução foram, afinal, conquistados”. As forças revolucionárias, liberais em geral e outras, deixaram-se ficar à margem da cena, chorando o que chamavam de “a morte da Revolução”.

Dia 22/11/2012, a Praça Tahrir voltou a brilhar. As pessoas outra vez convergiram para o ponto onde a Revolução nascera, para rejeitar furiosamente a declaração constitucional, assinada por Mursi, que lhe dava poderes ditatoriais e o punha acima da lei. A declaração também blindava a Assembleia Constituinte, super recheada de islamistas, encarregada de redigir a nova Constituição, e o Conselho da Shura, contra qualquer processo judicial que contestasse sua legitimidade; e expulsava ilegalmente o Procurador-Geral do país, Abdel-Meguid Mahmoud; para seu lugar foi nomeado Tallat Abdallah, da Fraternidade Muçulmana.

Organizou-se imediatamente um sit-in, ou acampamento: montaram-se cerca de 250 tendas, na praça e em torno da praça. Mais de 30 partidos políticos, além de grupos civis e movimentos revolucionários e sindicatos de todos os governoratos egípcios integraram-se à manifestação. Havia ali até indivíduos e grupos sem qualquer filiação política. Eram pelo menos 1.500 manifestantes acampados na Praça Tahrir; o número dobrou depois que se intensificaram os ataques das forças de segurança; e ultrapassou 1 milhão de manifestantes em ocasiões especiais, como, dia 30/11, na “Sexta-feira do Sonho do Mártir”.

Os protestos cresceram quando Mursi deu à Assembleia Constituinte – da qual já se haviam retirado representantes da sociedade civil e da mesquita de Al-Azhar, em sinal de protesto contra a dominação pelos islamistas – prazo de dois meses para acabar de redigir a nova Constituição, para dar tempo de os partidos renitentes reconsiderarem e voltarem à Assembleia. Mas passadas apenas 48 horas, a Assembleia Constituinte deu por concluídos os seus trabalhos e exibiu projeto de Constituição, de 236 artigos, pondo fim a qualquer esperança de outras forças, além dos islamistas, participassem do trabalho de redigir a nova Constituição do Egito. Mursi, imediatamente, convocou um referendo, para dia 15/12, ignorando todas as demandas de grupos não islâmicos, que contavam com adiar o referendo até que fosse possível construir algum consenso popular.

Esse clima político foi o combustível que voltou a energizar os protestos em Tahrir. Dessa vez, havia unidade nas demandas: ou Mursi revogava a declaração constitucional e adiava o referendo, ou “Fora Mursi”. Mas nada aconteceu. O referendo foi realizado na data prevista, e a Constituição foi aprovada com 63,8% de votos a favor.

Hoje, os manifestantes continuam na Praça. E Mursi continua de costas viradas para eles.

O PALÁCIO PRESIDENCIAL AL-ITTIHADIYA

Localizado na rua Al-Mirghani, no elegante bairro de Heliópolis, o palácio presidencial Al-Ittihadiya não havia sido local de protestos até recentemente (na noite em que Mubarak foi deposto, houve celebrações frente ao palácio), quando já haviam fracassado todas as demais tentativas de chamar a atenção do presidente.

A controversa declaração constitucional que Mursi assinou dia 22/11 incomodou muita gente, fora dos círculos islamistas. Houve uma primeira manifestação, exigindo que Mursi anulasse o decreto. Duas semanas depois, nada mudara. Estava acabando o tempo, sobretudo depois que Mursi marcou para 15/12 o referendo para aprovar a nova Constituição.

Dia 4/11, várias marchas, de vários pontos do Cairo, dirigiram-se para o palácio presidencial. Esperavam-se poucas centenas de manifestantes. Mas às 20h, quando todas as marchas já haviam chegado, a cena era impressionante. Operadores de celulares informaram que registraram mais de 700 mil chamadas da região próxima ao palácio. Homens, mulheres, jovens e velhos, ricos, pobres, maltrapilhos, de todo o espectro social e econômica estavam à frente de Al-Ittihadiya. Já não cantavam nem exigiam a revogação da declaração constitucional: pediam o fim do governo Mursi e da Fraternidade Muçulmana.

Protesto em frente o palácio de Al-Ittihadiya (sede do governo egípcio) em 4/12/2012
As forças de segurança, a polícia antitumultos, a Guarda Presidencial e funcionários do Ministério do Interior estavam no palácio. O palácio estava muito fortemente protegido, com rolos de arame farpado que mantinham os manifestantes à distância. Correndo grave risco, jovens manifestantes puseram-se a empurrar os rolos de arame farpado; as forças de segurança responderam com bombas de gás lacrimogêneo. Por um momento, o país prendeu a respiração, vendo delinear-se ali um cenário dos mais desastrosos. A multidão recuou, procurando abrigo nas ruelas estreitas em volta de Al-Mirghani. Na cabeça de todos havia medo e morte.

Aos poucos, com a fumaça das bombas já dispersa no ar, ouviram-se gritos de que já era possível voltar à frente do palácio. Para surpresa geral, as forças de segurança haviam sumido, deixando o palácio presidencial sem qualquer proteção. A multidão festejou, aos gritos, a notícia de que Mursi, aparentemente, escapulira pela porta dos fundos, realmente assustado ante a ameaça daquela enorme multidão. Em minutos, os manifestantes formaram uma corrente humana em torno do palácio Al-Ittihadiya. Quisessem, poderiam ter invadido e ocupado o palácio, mas decidiram não fazê-lo. Em vez disso, grafitaram as paredes externas com imagens dos mártires e slogans contra Mursi e seu grupo.

Enquanto parte dos manifestantes anunciavam que permaneceriam acampados em frente ao palácio até que Mursi respondesse suas exigências, a Frente de Salvação Nacional, de oposição, deu um ultimato ao presidente: 48 horas para anular a declaração constitucional.

No dia seguinte, às 3h da tarde, com dezenas manifestantes pacificamente acampados à frente do palácio, as milícias islamistas atacaram. Rasgaram as tendas e espancaram os manifestantes, inclusive mulheres. No início da noite, o número de islamista aumentara; e também aumentara o número de manifestantes. As milícias portavam facas, porretes, pistolas e munição real e gás lacrimogêneo. Os manifestantes portavam pedras. As Forças da Segurança Central foram chamadas, mas não intervieram. Lá ficaram, assistindo a uma batalha sangrenta entre os dois grupos, que continuou até as primeiras horas do dia seguinte. Houve oito mortos e mais de 750 feridos.
Batalha Campal entre manifestantes e FFAA, em frente ao Ministério da Defesa
Dia 7/12, os manifestantes voltaram, dessa vez em maior número. Outra vez, grafitaram as paredes externas do palácio – que haviam sido pintadas pelos islamistas, não por funcionários municipais –, com slogans contra Mursi. E outra vez acamparam frente ao palácio, erguendo cartazes que diziam “fora a Fraternidade Muçulmana” e “fora o supremo líder”. Esse acampamento lá está, frente ao palácio presidencial, até hoje.

O JUDICIÁRIO

O prédio da Suprema Corte Constitucional [orig. Supreme Constitutional Court (SCC)] dá frente para a Corniche Maadi. Como a mais alta autoridade judicial no Egito, a SCC é respeitada em todo o mundo, mas é vista pelos islamistas egípcios como instituição que se mantém fiel a Mubarak. A SCC deu posse a Mursi na presidência dia 30/6/2012, mas, para grande desgosto dos islamistas, logo no mês seguinte ordenou que o Parlamento, no qual os islamistas são maioria, fosse desconstituído. Desde então, os islamistas vivem às turras com o SCC. Começou na noite de 1º/12, quando Mursi marcou o referendo da nova Constituição.

Durante a manifestação que os islamistas chamam de “protesto de um milhão” na praça Al-Nahda em Gizé – espaço onde não cabem nem 50 mil pessoas, segundo o governador de Gizé – e que não passou de manifestação de força, sob o pretexto de apoio ao presidente e às suas decisões, líderes islamistas convocaram seus seguidores para uma manifestação em frente ao prédio da SCC, dia seguinte, antes de a Corte dar seu veredicto em dois processos muito discutidos: um contestava a constitucionalidade da lei sobre eleições para o Conselho da Shura – dominado pelos islamistas; o outro contestava a legitimidade da Assembleia Constituinte que, dia 29/11, havia atropeladamente aprovado o projeto de nova Constituição (depois que forças civis, cristãs e da mesquita Al-Azhar desligaram-se da Assembleia , em protesto contra a dominação pelos islamistas.

Dezenas de islamistas partiram imediatamente para o prédio da SCC; mas, na manhã seguinte, na manhã de 2/12, já eram milhares. Apesar da presença de forças policiais, os juízes da SCC nem conseguiram entrar no prédio, cujas entradas foram bloqueadas pelos islamistas, alguns dos quais escalaram as cercas externas e pularam para dentro do pátio de entrada. A SCC descreveu aquele domingo como “o pior dia de toda a história do judiciário”. Pela primeira vez na história, a Corte Suprema egípcia decidiu suspender seus trabalhos por tempo indefinido; disseram que “não voltaremos a trabalhar até que os juízes possam julgar sem pressões psicológicas ou materiais”. 

Na calçada, em frente ao prédio, os islamistas celebraram sua “vitória”, com cantos e slogans em que atacavam os juízes e as forças de oposição. Um desses cantos dizia “Mursi nos deu a pista. Vamos levar p’rá vocês, num caixão”. Exibindo fotos do presidente, descreviam-se como “os verdadeiros revolucionários” e Mursi, seu legítimo representante. Para os islamistas, a Corte Suprema deveria ter encerrado os dois processos imediatamente depois de Mursi assinar o decreto constitucional que tornava imunes a qualquer contestação judicial o Conselho da Shura e a Assembleia Constituinte.

Manifestantes islamistas em frente à Suprema Corte no Cairo em 12/2/2013
Os juízes entraram em greve, seguindo o exemplo de outros juízes e procuradores que pararam de trabalhar em protesto contra o decreto de Mursi que, para eles, “mina a autoridade judicial”. O Clube dos Juízes, sindicato com 9.500 membros, solidarizou-se com os demais juízes e anunciou que não supervisionaria o referendo constitucional. Os círculos judiciais já enfrentavam forte turbulência nesse front, sobretudo depois que forças islamistas organizaram manifestações em frente Supremo Tribunal Judicial, exigindo a demissão do Procurador-Geral, Abdel-Meguid Mahmoud, indicado por Mubarak, o qual, afinal, foi demitido pela declaração de 22/11. Comentando as manifestações contra a Corte Suprema, o pesquisador político Amr Hamzawy disse que “o presidente e seu grupo estão arrastando o Egito para um período par excellence de obscurantismo (...) Tomou uma decisão ditatorial de fazer um referendo para legalizar um projeto ilegal de constituição que divide a sociedade. E, agora, pôs o Judiciário sob sítio, para aterrorizá-lo”.

Apesar de os islamistas terem, em boa parte, conseguido o que queriam, nem por isso desocuparam a área que cerca o prédio da Corte Suprema. Havia barracas em torno do cordão de segurança instalado pela Polícia, e algumas centenas de islamistas permaneceram lá, para garantir que a Corte Suprema não voltasse a reunir-se. Depois de 24 dias de manifestações, o resultado do referendo sobre a Constituição foi afinal anunciado: 63,8% dos votantes votaram “sim”. Só depois disso, e depois de terem comemorado o resultado in situ, os islamistas afinal levantaram acampamento.

A última vez que os juízes egípcios declararam-se em greve geral foi durante a Revolução de 1919, quando se uniram ao levante popular contra o governo colonial britânico.

A MÍDIA

Dia 6/12/2012, centenas de islamistas fizeram uma manifestação na Media Production City [aprox. “Cidade de Produção”], localizada nos arredores da cidade do Cairo. Foram 17 grupos fundamentalistas comandados pelo movimento Hazemoun, de seguidores do salafista Hazem Salah Abu Ismail, derrotado nas eleições presidenciais de março. Os islamistas declararam que a manifestação era “protesto contra a corrupção da mídia atéia”, e exigiram “o expurgo dos veículos hostis, sem razão compreensível, aos islamistas”, nas palavras do próprio Abu Ismail. Os manifestantes anunciaram que não deixariam o local até que a nova Constituição estivesse confirmada pelo referendo.

As manhãs dos islamistas ali reunidos começavam com rezas e citações do Corão; e as tardes eram dedicadas a cantos contra a mídia, não raras vezes insultantes. Figuras de destaque a imprensa egípcia como Ibrahim Eissa, Lamis Al-Hadidi e Amr Adib receberam a parte mais substanciosa das ameaças e insultos. E à noite os manifestantes matavam ovelhas e camelos; um dos camelos mortos fora usado num filme de publicidade e havia queixa de que teria sido roubado de dentro da Cidade de Produção.

A manifestação e acampamento dos islamistas provocou fúria entre jornalistas e figuras da mídia, que os denunciaram como “tentativa de intimidar a mídia e fazê-la calar”. Denunciaram-nos também como ameaça direta à segurança de jornalistas, no trajeto de chegar e sair do trabalho. Os islamistas insistiram que a manifestação seria pacífica, apesar de o carro do diretor Khaled Youssef ter sido apedrejado, no percurso para chegar à Cidade de Produção.

Entrada da Egyptian Media  Production City
Poucos dias depois de iniciada a manifestação dos islamistas na Cidade de Produção, um dos canais por satélite que transmitem de lá recebeu um telefonema – retransmitido ao vivo – de um líder islamista que participava da manifestação. A voz ameaçava que as forças islamistas “atacarão a Cidade de Produção, se canais privados continuarem a divulgar ideias enviesadas contra os islamistas”. Dia seguinte, Gamal Saber, organizador do movimento Hazemoun e porta-voz dos manifestantes disse ao jornal Al-Masry Al-Youm que “não passou de ameaça. Não planejamos qualquer ataque. Só queremos encostar a espada do medo e do terror no pescoço dos corruptos da mídia, essa gente que escreve contra o presidente Mursi e os islamistas”.

Manifestantes em frente ao EMPC
Dia 14/12, e contra os planos iniciais, os islamistas decidiram pôr fim à manifestação e ao acampamento, para votar, dia seguinte, a favor do projeto de Constituição. Por ironia, o dia em que os islamistas acamparam à entrada da Cidade de Produção de Mídia foi o mesmo dia em que Essam Al-Amir, presidente da televisão estatal, renunciava ao posto, em protesto contra “a islamização da mídia”. Um dia antes da renúncia, houvera confrontos violentos no palácio presidencial, depois que islamistas atacaram manifestantes pacíficos. Al-Amir disse que “a televisão estatal apresentou um lado da história, claramente enviesada a favor dos islamistas, o que não surpreende ninguém, dado que o Ministro da Informação, Salah Abdel-Maksoud, é membro da Fraternidade Muçulmana”.

CIDADE DE MAHALLA

Mahalla, localizada no governadorato de Gharbiya, é considerada um dos núcleos da revolta, hoje, no Egito. Cidade industrial, com vasta população de trabalhadores nas indústrias têxteis, Mahalla teve e tem papel de destaque no Egito pré e pós-revolucionário.

Trabalhadores téxteis em Mahalla "enterram" Mursi
Dia 27/11/2012, 5.000 trabalhadores da empresa de fiação e tecelagem Misr Spinning & Weaving Company marcharam até a Praça Shon em Mahalla em protesto contra “a declaração ditatorial de Mursi do dia 22 de novembro, seguida, três dias depois, por seu decreto de intervenção no trabalho” – disse Sayed Habib, ativista da defesa de direitos trabalhistas do Centro Sindical dos Trabalhadores em Mahalla. “O decreto relativo ao trabalho favorece a hegemonia da Fraternidade, acima dos sindicatos. Esse é o objetivo da ordem para que sindicalistas com idade superior a 60 anos sejam demitidos da Federação dos Sindicatos, para serem substituídos por novos membros indicados”.

Esse era o contexto sob o qual os trabalhadores de Mahalla marcharam para a Praça Shon, cantando “Mursi, espere! Mahalla cavará sua sepultura” e “Fora o governo do supremo líder”. Foram recebidos por apoiadores dos islamistas armados com coquetéis molotov, tiros e pedradas.

Os trabalhadores de Mahalla revidaram, e houve batalha feroz, com coquetéis molotov jogados pelos islamistas e jogados de volta, sobre os islamistas, pelos operários. Nem a chuva de granadas de gás lacrimogêneo, colaboração das forças de segurança que acorreram ao local, conseguiu dispersar os grupos em luta. A batalha durou toda a noite e fez, pelo menos, 400 feridos.

Dia 7/12, algumas poucas centenas de operários sindicalizados de Mahalla marcharam até o prédio do conselho municipal e declararam “a independência de Mahalla”. A “República Independente da Grande Mahalla” foi uma reação aos sangrentos confrontos do dia 5/12 no palácio presidencial Al-Ittihadiya. A independência de Mahalla, que não é vista como movimento secessionista, foi gesto que manifestou oposição ao regime de Mursi e da Fraternidade Muçulmana.

Dois dias depois, sindicatos e moradores de Mahalla reuniram-se na Praça Shon para celebrar seu novo estado autônomo e denunciar o regime reinante. Cantavam “Levante a cabeça! Você é de Mahalla!” e “Fora o governo da Fraternidade Muçulmana”. A praça vibrava. A mensagem, clara, era que “não nos deixaremos aterrorizar pelas milícias da Fraternidade”. Em discurso à multidão, Fathi Abdel-Hamid da Federação Independente de Aposentados, disse que “cá estamos para declarara que não toleraremos governantes que nos sangrem para manter-se no poder”. George Ishak, ex-líder do Movimento Kifaya, acrescentou que “a Fraternidade Muçulmana está arrastando o Egito na direção de converter-se em estado fascista. Não toleraremos nenhum fascismo.” Pelas paredes da cidade surgiram grafittis, desenhados por furiosos moradores da cidade, nos quais se lia “Mahalla, território livre. Aqui a Fraternidade não manda”.

Esse ato nominal de independência nasceu em cidade que tem longa tradição de dissidência. Mahalla é considerada cidade na qual predomina uma cultura já histórica de revolta contra a injustiça e a corrupção. Em dezembro de 2006 e em abril de 2008, dezenas de milhares de operários do setor têxtil conduziram uma intifada contra os baixos salários e as terríveis condições em que viviam. A intifada alastrou-se, com mais de 650 manifestações e acampadas ao longo de 2007, dos quais participaram quase 200 mil trabalhadores de praticamente todos os setores da economia da região. É opinião amplamente difundida e aceita no Egito, que as rebeliões de Mahalla estão na raiz da Revolução de 25 de janeiro, consideradas precursoras.

BAIRRO DE ABBASIYA

O bairro de Abbasiya, no Cairo, foi cenário de vários eventos graves. Em novembro de 2011, aconteceram em Abbasiya as manifestações pró-SCAF, promovidas pelo jornalista e âncora de noticiários de televisão Tawfik Okasha, do canal Faraeen de TV por satélite. Um mês depois, durante outra manifestação pró-SCAF, os altofalantes tocavam música e grupos dançavam em círculo, enquanto, no mesmo momento, em outro ponto do bairro, na rua Qasr Al-Aini, aconteciam confrontos mortais entre manifestantes e forças do exército.

Abbasiya, no Cairo, foi cenário de vários eventos graves
Dia 27/4/2012, Abbasiya encaminhava-se para mais um confronto sangrento, o qual, contudo, só aconteceria uma semana depois. Apoiadores de Hazem Salah Abu Ismail, islamista e candidato à presidência, e outras forças islamistas e de esquerda haviam-se reunido aos milhares em Abbasiya, próximos de onde está localizado o Ministério da Defesa, sempre pesadamente fortificado, para protestar contra o fim da candidatura de Abu Ismail à presidência. Exigiam a dissolução da Comissão para Eleições Presidenciais (PEC); e a anulação do artigo 28 da declaração constitucional provisória, do SCAF, que proibira qualquer tipo de recurso judicial contra decisões da PEC.

No início da manifestação e acampada, instalada sem data para terminar, os manifestantes de Abbasiya atraíram algumas simpatias, mas não dos moradores e residentes da área. Houve inúmeros confrontos entre grupos, praticamente todos os dias. Mas ao amanhecer do dia 1º de maio, grupos de milicianos armados com facas, punhais e armas de vários calibres, atacaram os manifestantes: houve 11 mortos. O clamor entre os manifestantes aumentou, convocando para a “6ª-feira da Grande Marcha” sobre o Ministério da Defesa, agendada para o dia 4 de maio. E os generais do SCAF, que até aí se haviam limitado a observar à distância, lançaram dura declaração, na qual ameaçavam contra qualquer tentativa de alguém se aproximar daquela “toca dos leões”.

Na 6ª-feira, o número de manifestantes reunidos em Abbasiya havia aumentado. Cantavam slogans a favor da derrubada do SCAF e de seu líder Hussein Tantawi. Um manifestante pulou a cerca de arame farpado que cercava o prédio do Ministério da Defesa. Era o que os soldados esperavam, para atacar. Usaram canhões de água e granadas de gás lacrimogêneo. Os manifestantes reagiram com pedradas. Cerca de 300 manifestantes foram presos; outros foram caçados na fuga pela rua Ramsés até a mesquita Nour, e espancados; e, segundo relatos dos militares, um soldado foi morto a tiros e centenas de policiais militares e das forças antitumultos foram feridos.

RUA MOHAMED MAHMOUD

Dia 19/11/2011, eclodiram os confrontos na rua Mohamed Mahmoud, uma das ruas que partem da Praça Tahrir, depois que forças de segurança tentaram evacuar a praça à força. Os combates arrastaram-se por cinco dias; resultaram daí 42 manifestantes  mortos e centenas de feridos. Todos foram atacados com gás lacrimogêneo, porretes, balas revestidas de borracha e munição real. Os combates da rua Mohamed Mahmoud foram particularmente terríveis por causa de atiradores instalados pelas forças de segurança em pontos estratégicos e que, ao que parece, atiravam contra os olhos dos manifestantes, usando balas de borracha. O Comando Superior das Forças Armadas, SCAF, justificou a violência, anunciando que “todos, na Praça Tahrir, são agitadores e criminosos, não são manifestantes pacíficos”. 

Confrontos na rua Mohamed Mahmoud
Um ano depois desses confrontos, as feridas permaneciam abertas no coração e na mente dos manifestantes. Organizaram manifestação para a rua Mohamed Mahmoud, que aconteceu dia 19/11/ 2012, para homenagear os mártires e sua contribuição para a Revolução, e para exigir punição para os agressores. Os agressores do ano anterior, novamente se posicionaram. Um dos manifestantes, de 17 anos, Gaber Salah, conhecido como “Jika”, recebeu um tiro na cabeça, nos combates que imediatamente se reiniciaram contra as forças de segurança; morreu alguns dias adiante. A morte de Jika foi prova, para muitos, de que, fosse em governo de Mubarak ou em governo de Mursi, nada mudara nem no SCAF nem no Egito.

O GABINETE

Depois dos combates na rua Mohamed Mahmoud em 2011, manifestantes reuniram-se em nova acampada frente ao prédio do Gabinete, na rua Qasr Al-Aini, para protestar contra a nomeação de Kamal Al-Ganzouri para o cargo de primeiro-ministro, pelo SCAF. Na terceira semana dessas manifestações, na madrugada do dia 16/12, um manifestante foi espancado por forças militares dentro do prédio do Gabinete, ação que reacendeu a ira dos manifestantes.

Milhares de manifestantes convergiram para a entrada do prédio, exigindo a deposição do SCAF. Seguiu-se batalha feroz entre soldados armados e manifestantes. A violência do exército provocou a morte de quatro manifestantes, entre os quais o Xeique Emad Effat, clérigo de Dar Al-Iftaa, e ferimentos em mais de 250. Nesse dia, a brutalidade do exército contra os manifestantes ficou manifesta quando soldados arrastaram uma mulher pela rua, de modo que ela teve expostas partes de seu corpo e roupas íntimas, para os que lá estavam e, também, para as câmeras de televisão.

Praça Tahrir, protestos contra o Presidente Mohamed Mursi em 23/12/2012
Os combates à frente do prédio do Gabinete continuaram por uma semana, com o exército perseguindo manifestantes pela rua Rihan, na praça Tahrir e em Qasr Al-Aini e destruindo e incendiando vários hospitais de campanha. Nesses combates morreram 17 manifestantes e houve mais de 1.000 feridos. No curso desses eventos, o Instituto Egípcio de Ciências, que tem importante biblioteca de livros raros, foi incendiado. O SCAF acusou manifestantes, pelo incêndio; e os manifestantes, que se declararam inocentes, acusaram as milícias islamistas também ativas naqueles confrontos.

Na 6ª-feira, 23/12, dezenas de milhares de manifestantes reuniram-se na praça, para uma manifestação que chamaram de “6ª-feira das Mulheres Livres”, para denunciar crimes contra as mulheres e contra manifestantes em geral, praticados por soldados do exército. Levavam esquifes simbólicos, como homenagem aos mártires.

Simultaneamente, no bairro de Abbasiya, realizava-se comício de apoio ao Conselho Superior das Forças Armadas.

MASPERO

Maspero é a região do Cairo onde se localizam a sede da rádio e televisão estatais. Mas, depois da Revolução, passou a ser local de protesto dos coptas contra ataques às suas comunidades, inclusive as bombas que explodiram na Igreja dos Dois Santos, em Alexandria, nos primeiros minutos de 2011; o incêndio na Igreja do Sol em Muqattam; e a profanação da Igreja de Mar Mina, em Imbaba, em maio do mesmo ano. Os coptas sentiram ameaçada a sua liberdade de culto e protestavam contra a erosão de seus direitos civis.

Maspero Building
Obtiveram imediatamente algum consolo, porque muçulmanos logo se aliaram a eles. Ergueram cruzes em Maspero e cartazes em que se lia “com muçulmanos e coptas, de mãos dadas, construiremos um Egito grande e forte”.

O mais sangrento dos confrontos em Maspero aconteceu dia 9/10/2011, quando uma passeata quase exclusivamente de cristãos acabou encurralada entre grupos de milícias islamistas e de soldados. Atacados com porretes e à bala, os manifestantes, como sempre, reagiram com pedradas. Um blindado do exército avançou em alta velocidade contra a multidão, soldados incendiaram carros e manifestantes incendiaram veículos do exército.

Enquanto isso, em transmissões ao vivo, a rádio e a televisão estatal exortavam os “cidadãos a acorrer a Maspero, para proteger os soldados que estavam sendo atacados pelos coptas.” Naquela noite morrera 27 coptas.

No primeiro aniversário da Revolução, aconteceram em Maspero várias manifestações anti-SCAF. A Praça Tahrir estava lotada de islamistas que celebravam a vitória nas eleições parlamentares, sem espaço para quem não estivesse convencido de que a Revolução alcançara seus objetivos. Para reanimar o ímpeto revolucionário, a esses só restou rumar para Maspero, onde acamparam por duas semanas, a exigir o fim do conselho militar superior; indenização para as famílias dos mortos; e antecipação das eleições presidenciais, marcadas para junho de 2012.

Os manifestantes também exigiam “o expurgo dos veículos de mídia, que só fazem obedecer ao que lhes ordena o governo e não passam de porta-vozes dos militares”. No quinto dia desse acampamento, os manifestantes foram atacados por milícias com pedras, porretes e garrafas de água; houve grande número de feridos. Vários grupos foram acusados dessas agressões, mas até hoje não se conhece o verdadeiro responsável.

PRAÇA MUSTAFA MAHMOUD E ROXY

Aí se realizaram comícios pró-Mubarak ou manifestações de apoio ao SCAF em 2011-2012. A praça Mustafa Mahmoud em Mohandessin foi onde se reuniram grupos antirrevolucionários dia 28/1/2011. Autodenominavam-se “Filhos de Mubarak” e desejavam que seu “pai espiritual” permanecesse no poder, pelo menos até concluir o mandato, em setembro de 2011.

Manifestação pró-Mursi na Praça Mahmoud
Mas seus hinos de aviso contra a instabilidade e o caos que viriam se Mubarak partisse acabaram sufocados pelas vozes que vinham da praça Tahrir, exigiam mudanças. Durante alguns dias, uns poucos milhares de pessoas reunidas na Praça Mustafa Mahmoud mantiveram agenda leve: apareciam ao meio dia e partiam no final da tarde. Mas, depois, a Praça Mustafa Mahmoud tornou-se ponto de encontro das forças revolucionárias, antes de partirem para as passeatas ou manifestações em outros pontos da cidade.

Os apoiadores de Mubarak sumiram da Praça Mustafa Mahmoud. Só reapareceram no verão, num bairro residencial de classe alta em Heliópolis, na Praça Roxy. Nessa ressurreição, já não eram apoiadores de Mubarak, mas do SCAF. Embora não passassem de poucas dúzias, diziam falar por toda “a maioria silenciosa”. Carregavam faixas exigindo estabilidade e discursavam em termos nostálgicos sobre a era Mubarak. Durante algumas semanas, apareceram regularmente na Praça Roxy às sextas-feiras. Em seguida, calaram-se ou a voz deles desapareceu no alarido das vozes revolucionárias.

ALEXANDRIA

Alexandria, cidade mediterrânea, desempenhou papel central desde os primeiros momentos da Revolução. A Praça Al-Qaed Ibrahim, na Corniche, fazia eco aos cantos que vinham da Praça Tahrir, e repetia as mesmas demandas. Mantiveram ativo ali o espírito revolucionário por dois anos, sem se deixar dominar por um ou outro grupo. Na Praça Al-Qaed só se ouviam, incansáveis, os objetivos da Revolução, com cuidado para preservar um equilíbrio moderado. E assim foi, até que, há dois meses, grupos islamistas realizaram ali um comício de apoio ao decreto de Mursi.

Passeata de 1 milhão de pessoas na Praça Al-Qaed Ibrahim em Alexandria em 2/12/2012
Alexandria teve sua cota de escaramuças contra as forças de segurança, contra islamistas e contra mercenários armados. Dia 1/12/2012, na Praça Sidi Gaber, milícias mercenárias, armadas com punhais, pedras e garrafas quebradas, atacaram comício organizado por movimentos civis solidários às acampadas da Praça Tahrir e contra a Constituição islamista. As Forças Centrais de Segurança conseguiram conter os tumultos. O partido Liberdade e Justiça, da Fraternidade Muçulmana, negou que tivesse enviado apoiadores para aquele local.

Dia 5/12, enquanto os que protestavam à frente do palácio presidencial no Cairo eram atacados por milícias islamistas, em Alexandria vários grupos reuniram-se rapidamente na Praça Sidi Gaber, para denunciar a violência dos islamistas, quando se tratava de enfrentar diferenças políticas. A bandeira, em Alexandria, era “o povo quer verdadeira democracia. Pão, liberdade e o fim da Assembleia Constituinte”.

Dia 21/12, irromperam confrontos à frente da mesquita Al-Qaed Ibrahim, na Corniche, entre apoiadores e opositores do projeto de Constituição. A luta começou depois que o pregador Ahmed Al-Mahalawi conclamou os fiéis a votar “sim” no referendo sobre a Constituição; disse que “assim alcançaremos a estabilidade tão longamente almejada”.

Segundo relato de testemunhas presentes na mesquita, um dos fiéis levantou-se e cantou “abaixo o governo do supremo líder”. Pelo que se pôde ver, foi cercado, espancado e arrastado, com dois que o acompanhavam, para dentro da mesquita, por membros da Fraternidade Muçulmana. Do lado de fora da mesquita, barbudos afiliados a grupos islamistas armados com espadas, punhais, coquetéis molotov e pedras lutavam contra opositores. Morreram nove, e houve centenas de feridos.

Na 6ª-feira seguinte, declarada “Sexta-feira de Proteger Mesquitas e Pregadores”, islamistas de vários governadoratos chegaram à mesquita Al-Qaed Ibrahim, em Alexandria, para reforçar a defesa contra os inimigos. Impediram que pessoas sem ligação com os grupos islamistas entrassem na mesquita para orar. Depois das orações, a luta irrompeu. Mas os islamistas, quase todos do grupo salafista Hazemoun estavam em minoria. As batalhas de rua prosseguiram até o dia seguinte. À noite, quando os islamistas escaparam para ruas laterais, os manifestantes locais incendiaram seus ônibus.

Até a semana passada ainda havia combates em Alexandria. Dia 19 de janeiro, manifestantes anti-Fraternidade Muçulmana e familiares dos mártires enfrentaram a polícia em frente ao prédio da Corte Judicial em Manshiya, durante o julgamento de alguns acusados da morte de revolucionários em Alexandria. Bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas contra os manifestantes. Até agora, a indenização às famílias dos que morreram durante a Revolução Egípcia continua a ser demanda sempre repetida e jamais atendida.

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