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quinta-feira, 21 de março de 2013

E a crise econômica não larga o nosso pé


19/3/2013, cmaukonen, Firedoglake
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

cmaukonen
Quer dizer... Como é possível que uma pequena ilha como Chipre e seus bancos estejam provocando tanta consternação e pressão alta em toda a Europa e por que todos se preocupam tanto? Richard Wolff oferece uma boa explicação. A entrevista foi ao ar pela rádio KPFA [1], da qual gravei um clip de áudio que subi para a minha página para quem quiser ouvir todo o programa [em inglês].

Ofereço aqui um resumão da entrevista.

A Eurozona é um desenvolvimento do Mercado Comum Europeu (MCE), também chamado Comunidade Econômica Europeia [Na Wikipedia há entradas que explicam o que são, em português. Procure e leia lá, se quiser saber mais (NTs)].

A Comunidade Econômica Europeia (CEE) foi organização internacional criada pelo Tratado de Roma em 1957. Tinha o objetivo de fazer a integração econômica, incluindo um mercado comum, entre os seis países fundadores: Bélgica, França, Itália, Luxemburgo, Países Baixos e Alemanha Ocidental. A CEE ficou também conhecida como Mercado Comum, no mundo de língua inglesa; às vezes também chamada de Comunidade Europeia, mesmo antes de receber esse segundo nome oficialmente, em 1993.

A CEE herdou um conjunto de instituições já existentes: a Comunidade Europeia de Carvão e Aço [orig. European Coal and Steel Community (ECSC)] e a Comunidade Europeia de Energia Atômica [orig. European Atomic Energy Community (EURATOM)] as duas primeiras comunidades europeias criadas, nos termos do Tratado de Bruxelas, de 1965.

Quando se aprovou e passou a viger o Tratado de Maastricht, em 1993, a Comunidade Econômica Europeia recebeu o novo nome de Comunidade Europeia, para evidenciar que cobria campo mais amplo de países e políticas. Foi quando as três comunidades europeias (as duas acima e a Comunidade Europeia) passaram a constituir o primeiro dos três pilares da União Europeia – fundada pelo Tratado de Maastricht. A Comunidade Europeia existiu nesse formato até ser abolida em 2009 pelo Tratado de Lisboa, que misturou os três pilares anteriormente existentes e declarou que a União Europeia “sucedia e substituía a Comunidade Europeia”.

O Monstro da Lagoa Negra da Eurozona
É. A coisa começou assim. Para permitir o livre comércio entre os vários países reunidos em comunidade, houve algumas novidades, entre as quais uma moeda comum. Em teoria, parecia tudo muito bem, mas havia várias falhas. Por exemplo, criou-se um banco central, mas não se criou governo central. A CE só tem poder, de fato, para imprimir dinheiro. Não tem meios para interferir na política dos estados membros. Sequer pode influir nos bancos dos estados membros. Os estados permaneceram autônomos. Quando a nova moeda entrou em circulação, tinha o objetivo – mais ou menos – de substituir as moedas nacionais, à base de 1:1, apesar de o câmbio, em vários momentos não seguir essa “ordem”.

Estavam reunidos todos os ingredientes de um inevitável desastre. Como hoje se sabe, o frenesi em que entraram os bancos, e os riscos que assumiram nos EUA e na Europa, geraram dívidas monstruosas. As dívidas venceram, como se deveria prever que venceriam, mas ninguém previu, e os devedores não tinham como pagar.

O que tudo isso tem a ver com os bancos de Chipre? Afinal, não podem ser bancos assim tão gigantescos a ponto de que, se eles quebrarem, quebram as finanças planetárias... Não poderiam ser, mas... como Richard Wolff explica na entrevista, eles são. Os bancos de Chipre são muito maiores que esse minúsculo país que vive de turismo e de uns poucos barcos os quais, é claro, jamais poderiam gerar tais bancos, nem tais dívidas.

Durante os anos de fantasia e delírio econômico dos anos 1990s, aqueles bancos trataram de atrair a maior quantidade de negócios e de dinheiro que pudessem. Queriam participar também daquela orgia. Para isso, atraíram grandes depositantes da Rússia e da Europa e também dos EUA. E passaram também a emprestar dinheiro a gente e a governos que, adiante, já não tiveram como pagar os empréstimos. Evidentemente, aqueles bancos também especularam contra os empréstimos que eles mesmos faziam – exatamente como fizeram também nos EUA.

Assim, lá, como nos EUA e na Europa, banqueiros e especuladores fizeram apostas tresloucadas, assumiram riscos grandes demais e, agora, estão à beira de quebrarem. E, dessa vez, ninguém – nenhum outro banco, nenhum outro governo, nenhum outro especulador – dá qualquer sinal de interesse em “resgatá-los”. Ao contrário, parecem interessados em fazer os bancos de Chipre pagarem por todos os pecados e falhas do capitalismo.

De fato, todos eles se autoencurralaram. Trancaram-se num contêiner furado, no qual está entrando água. Porque, se deixarem que os bancos quebrem, fatias cada vez maiores da economia ir-se-ão também por água abaixo, o que causará mais desemprego, mais agitação social e depositantes e acionistas carregados de ações e papeis desses bancos e desses países verão todos os seus papéis derreterem como papéis podres. E se continuarem a jogar mais e mais dinheiro nesse poço sem fundo devorador de moedas, o movimento pode facilmente levar a inflação massiva e desvalorização do euro, o que acabará por matar o comércio (livre, mas morto). O que, por sua vez, ferirá fundamente a Alemanha, cuja economia depende de exportações.

Mas se os banqueiros insistirem em apertar os devedores, o consumo continuará a cair, o que também não interessa ao comércio (livre, mas inexistente). Assim, como Richard Wolff explica, temos uma crise que está fugindo a qualquer controle e ninguém sabe o que fazer.

Agora, resolveram tentar uma “solução” recém inventada, e Chipre é a cobaia. Os bancos vão confiscar diretamente o dinheiro dos depositantes – cidadãos dos países e os grandes depositantes que têm dinheiro depositado naqueles bancos de Chipre – para tentar conter a maré. O risco, nesse caso, é gerar uma corrida aos bancos, com todos tentando arrancar dali o próprio dinheiro e transferi-lo para outro lugar onde esteja mais seguro. Nesse caso, os bancos quebram, não aos poucos, mas muito, muito, muito rapidamente.

Como isso nos afetará aqui nos EUA? Ora... Não estão percebendo?

Richard Wolff
Já cortaram os serviços públicos de assistência social, Medicare, Medicaid, Segurança Social. O que sobrou? E se os bancos de Chipre falirem, o que vocês acham que acontecerá aos bancos norte-americanos que ainda têm dinheiro depositado lá? Dinheiro da Grécia, da Itália, da Espanha, de Portugal, de... E têm dinheiro investido nas bolsas e têm dinheiro aplicado em papéis desses países?

É típica situação de Catch 22 (“se você se declarar louco, para escapar de ser mandado para a guerra, o Exército conclui que, nesse caso, você está perfeitamente lúcido... e o manda para a guerra”).

Ainda que consigam controlar a situação em Chipre, quem será o próximo? [2] Como Richard Wolff explica, o problema é o sistema capitalista. Não um ou outro “estado-membro”.



Notas dos tradutores

[1] KPFA (94.1 FM) é uma emissora de rádio mantida pelos ouvintes, de orientação progressista, operada de Berkeley, California, que transmite para a Área da Baía de San Francisco.

[2] “Deus é nosso pastor e nada nos faltará... mas, por via das dúvidas, os EUA temos a bomba atômica”; Vídeo de Tom Lehrer a seguir:

sábado, 28 de abril de 2012

O que o capitalismo proporciona



O capitalismo não está funcionando (faixa)
A maior parte dos presidentes atravessam um ou mais períodos econômicos maus (recessões, depressões, crises, etc.). Todo presidente desde pelo menos Franklin Dellano Roosevelt gerou um “programa para responder ao período mau – tal como era pedido pelos cidadãos e os negócios. FDR e todo presidente posterior prometiam que o seu programa iria “não só livrar os EUA das perturbações econômicas atuais como também garantiria que nem nós nem os nossos filhos precisarão enfrentar tais períodos maus no futuro”. Obama foi apenas o mais recente a dizer isso.

Nenhum presidente foi capaz de manter tal promessa. A atual crise capitalista, agora a meio caminho no seu quinto ano sem fim à vista, prova que o impedir de futuros períodos de baixa capitalista iludiu todo presidente do passado e todos os seus prestigiosos e bem pagos conselheiros econômicos. Uma vez que o programa do presidente Obama não é basicamente diferente dos anteriores programas presidenciais, não há razão para esperar que ele tenha êxito.

O fracasso em impedir crises capitalistas condenou milhões dos nossos companheiros cidadãos a repetidas devastações de perdas de empregos, benefícios e segurança além de lares arrestados e perspectivas negras para os nossos filhos. Os custos familiares e econômicos do fracasso em lidar com crises capitalistas são estarrecedores. Hoje dezenas de milhões de americanos ou não têm trabalho ou devem aceitar empregos em tempo parcial quando precisam e querem trabalho em tempo integral. De acordo com o governo dos EUA, aproximadamente 30% das ferramentas, equipamentos, fábricas, escritórios, espaço comercial e matérias-primas permanecem ociosos. Este sistema capitalista priva-nos da produção e riqueza que podia ser produzida se os empregos negados ao povo fossem combinados com os meios de produção ociosos.

Essa produção poderia reconstruir nossas indústrias e cidades, poderia convertê-las em instituições ambientalmente respeitáveis e poderia aliviar a pobreza nos EUA e mais além. Se empregados, aqueles agora sem empregos podiam ter vidas melhores, manter seus lares e ser produtivos. Todos nós poderíamos beneficiar-nos enormemente se não fosse o fracasso abjeto do capitalismo para combinar as pessoas que querem trabalhar com meios de produção não utilizados para o que precisamos.

O problema básico tampouco tem a ver com políticas e programas governamentais. Afinal de contas, os principais partidos políticos, os políticos, lobistas e seus aliados na imprensa e nas universidades cantam todos em uníssono para celebrar o capitalismo. Eles têm insistido ao longo dos últimos cinquenta anos em que a crítica ao capitalismo, não importa quão fraco seja o seu desempenho, era tola, sem fundamento, absurda, desleal ou pior. A sua lenga-lenga tem sido “o capitalismo cumpre as promessas” (capitalism delivers the goods).

Por trás da cobertura protetora de uma proibição da crítica quase total, o sistema capitalista estadunidense deteriorou-se (o resultado habitual quando é proscrita a crítica pública de uma instituição social). Desde o desencadeamento desta crise em 2007, o capitalismo tem está “proporcionando dificuldades” à maior parte de nós. Ele ameaça, de modo crescente, proporcionar dificuldades ainda maiores nos anos vindouros. Promotores acríticos do capitalismo estão agora pressionando o governo a reduzir serviços públicos exatamente quando a massa de americanos os necessita mais do que nunca. O seu slogan e programa básico insistem: “recuperação” econômica para poucos e austeridade para muitos.

Nas décadas de 1950 e 1960, o escalão de rendimento individual que tributava os americanos mais ricos era de 91%, ao passo que hoje é de 35%. Em 1977, o imposto que as pessoas pagavam sobre “ganhos de capital” (ao venderem ativos como ações e títulos a preços superiores aos pagos por eles) era de 40%. Hoje aquela taxa é de 15%. A massa do povo nunca desfrutou de cortes fiscais tão maciços. Estes cortes fizeram os ricos ainda mais ricos enquanto forçavam o governo a tomar dinheiro emprestado para substituir o que já não podia ser obtido através dos impostos sobre os ricos. Como é grotesco que os ricos agora utilizem dívidas do governo como desculpa para eliminar serviços públicos para a massa dos americanos!

A solução para crises capitalistas como aquela que hoje nos aflige não é que o presidente promova outro programa de reformas, regulamentações, estímulos econômicos e orçamentos deficitários. Já passamos por isso e já o fizemos. Isso nunca funcionou para impedir este sistema econômico de condenar o povo a “tempos difíceis” infinitamente repetidos. Há muito que se deve sujeitar o capitalismo à crítica séria, aberta e pública e debater o que nunca deveria ter sido reprimido. Precisamos examinar se e como os EUA podem fazer algo melhor do que o capitalismo.

Os sistemas econômicos nascem, evoluem no tempo e morrem – como todas as instituições humanas. Em resultado do fim da escravidão e do feudalismo, nasceu o capitalismo. Ele prometia, nas palavras dos revolucionários franceses, “liberdade, igualdade e fraternidade”. Fez alguns progressos genuínos rumo àqueles objetivos. Contudo, também ergueu alguns graves obstáculos para alguma vez alcançá-los. O principal deles foi a organização da produção no interior das empresas capitalistas.

Nas empresas corporativas capitalistas que hoje dominam a economia, os seus grandes acionistas e os conselhos de administração que eles selecionam estão na não democrática posição exclusiva de tomarem todas as decisões chave.

Os grandes acionistas e conselhos de administração constituem uma pequena minoria daqueles diretamente ligados a empresas capitalistas. A maioria é de trabalhadores das empresas e as populações de comunidades dependentes das mesmas. Mas as decisões da minoria (acerca do que, como e onde produzir e o que fazer com os lucros) impactam a maioria – incluindo provocar crises – sem permitir à maioria qualquer papel direto na tomada de tais decisões. É então dificilmente surpreendente que a minoria exija e esteja em posição de tomar para si própria a riqueza e a fatia de rendimento do leão. Ela igualmente compra o controle da política a fim de impedir a maioria de utilizar o governo para retificar as suas desvantagens e privações econômicas. Eis porque agora temos salvamentos governamentais para os ricos e austeridade para o resto de nós.

A menos que a sociedade se movimente para além da organização capitalista da produção, as crises econômicas continuarão a acontecer e a gerar falsas promessas de políticos de que as impedirão. É ingênuo esperar que a minoria responsável por um sistema que para ela ainda funciona bem democratize a economia e a política. Esta é a tarefa central dos 99%.


Rudolph D. Wolff* é professor emérito da Universidade de Massachusetts-Amherst e professor visitante no Programa de Graduação em Assuntos Internacionais da New School University, New York. Autor de New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006) e do filme documentário Capitalism Hits the Fan.

O artigo original, em inglês,  encontra-se em: “What Capitalism Delivers”. 
Esta tradução foi extraída do sítio Resistir e adaptada ao português do Brasil pela redecastorphoto.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A crise em curso e a cegueira liberal

 Richard D. Wolff
por Richard D. Wolff*

O “W” [1] desta crise está em cima de nós. Os dados mais recentes corroboram: o mercado habitacional esteve em pleno modo W durante cinco meses, pois os preços das casas continuaram a declinar. O desastre dos arrestos continua a agravar a combinação de famílias sem lar com casas vazias. Pense na eficiência capitalista. A taxa de desemprego subiu outra vez acima dos 9%. A duração média do desemprego é agora de 39,7 semanas, a mais longa desde que estes registos começaram a ser feitos em 1948. Os investimentos das empresas estão a desacelerar e governos continuam a despedir trabalhadores.

Mais de 20 milhões de trabalhadores estão desempregados ou subempregados. Mais de um quarto da capacidade produtiva do país permanece inutilizada, ganhando ferrugem e pó. A produção anual perdida com este desperdício de recursos é de US$1 trilhão (dólares). Pense outra vez na eficiência capitalista.

A chamada “recuperação” beneficiou bancos estadunidenses, grandes corporações e o mercado de ações. Ela ultrapassou toda a gente e agora está acabada. É notável que os atingidos, vítimas da crise – a massa de trabalhadores – agora se defrontem com o pagamento daquela recuperação. O “seu” governo emprestou maciçamente para salvar as corporações. Isso promoveu o aumento da dívida nacional. E isso agora “exige” cortes nos gastos governamentais através de reduções “absolutamente necessárias” em empregos no governo, serviços, segurança social, Medicaid e Medicare. Aquilo que o governo poupa ao cortar serviços públicos pode entregar às corporações, aos ricos, e a governos estrangeiros (a começar pela China) que emprestaram os fundos para produzir aquela recuperação (para eles) de vida curta.

Paul Krugman é melhor do que a maior parte dos economistas da corrente dominante. Ele promove as suas visões liberais [2] contra a maior parte daqueles da corrente dominante. Mas Krugman partilha a cegueira liberal clássica. A responsabilidade pela ruína econômica de hoje, aflige-se ele, cabe ao “fatalismo”. O problema para ele é subjetivo. As pessoas – Krugman gosta de apagar diferenças com essa palavra – aceitam que “a recuperação da crise financeira habitualmente é lenta”. Krugman admite que governos anteriores analogamente responderam às crises vagarosamente devido ao seu “fatalismo e sensação de impotência”. O que ele propõe em contrapartida é o habitual conjunto liberal de soluções econômicas “óbvias”: política fiscal agressiva (déficits maiores), redução agressiva da dívida hipotecária (mecanismo não especificado) e assim por diante. As pessoas deveriam fazer estas coisas porque não fazê-las é "simplesmente louco" e porque "o fatalismo... é o principal inimigo da prosperidade".

Paul Krugman
Krugman argumenta que a grotesca injustiça da resposta do governo à crise é causada por uma disposição psicológica – fatalismo – das pessoas. Isso é como atribuir a culpa das crises capitalistas de Keynes ao problema de tomar decisões de investimentos quando confrontados com incerteza acerca do futuro – todos nós enfrentamos a incerteza, não é? Liberais como Krugman evitam localizar problemas económicos no cerne da estrutura de produção capitalista – nas lutas entre patrões e empregados.

Krugman não se preocupa em explicar porque o “fatalismo” mantém crises sucessivas. Ele não pergunta, e muito menos responde, que fatores estruturais podem explicar tal fenômeno. Ao invés disso ele quer que pessoas inteligentes corrijam o erro do fatalismo que aflige mentes de menor envergadura. Os ares superiores em relação àqueles de que discorda reforçam a sua tese de que a falta de talento explica o fatalismo. Respostas vagarosas de governos a crises capitalistas revelam estupidez.

Eis a explicação que falta a Krugman. O capitalismo sempre foi instável. Os governos nunca impediram os ciclos de ascensão e queda apesar de quase todo líder o ter prometido, quando a cada baixa do ciclo não só [promete] atravessá-la "como também assegura impedir a seguinte". Naturalmente, os governos podiam antecipar-se e compensar ciclos com programas maciços de emprego público, investimento público, etc. Os liberais muitas vezes pressionam nesse sentido. Mas os governos recusam a menos que pressões maciças de sindicatos de trabalhadores e de partidos socialistas e comunistas a partir de baixo forcem passos parciais e temporários naquela direção (como aconteceu com FDR após 1933).

A instabilidade do capitalismo decorre em grande parte das lutas entre o patronato e os empregados. As crises surgem quando os lucros da empresa não satisfazem o patronato e os seus acionistas. Eles então reduzem a produção, despedem trabalhadores, cortam suas compras de matérias-primas. Estes passos reduzem lucros de outros patrões os quais reagem da mesma forma. Segue-se a espiral na recessão. O capitalismo desenvolveu há muito tempo um modo de administrar a sua instabilidade inerente. Quando o desemprego cresce e perdura, os desempregados tornam-se dispostos a trabalharem por menos do que antes, o que deita abaixo os salários. Quando os negócios afundam, a resultante inundação de maquinaria e equipamento em segunda mão, fábricas e espaço de escritórios vazios, etc reduz os custos daqueles negócios. Finalmente, quando o trabalho e os custos materiais tiverem afundado bastante, os empregadores vêem suficientes possibilidades de lucros. Seus investimentos retomam e com isto a fase de declínio dá lugar à fase de ascensão.

Por que o governo deveria intervir no método do capitalismo de auto sanar a sua interminável aflição de instabilidade? Afinal de contas, para a maior parte dos capitalistas o declínio dos custos de negócio constitui um método atraente de enfrentar crises. Da mesma forma, a maior parte dos capitalistas não dá boas vindas ao precedente de governos intervirem para resgatar as massas da disfunção do sistema. E a maior parte dos capitalistas certamente não quer pagar os custos de tais intervenções governamentais.

Assim, os capitalistas têm boas razões estruturais – fundamentadas nas suas posições dentro das empresas que dirigem – para se oporem a soluções liberais [2] aos imensos custos sociais de crises capitalistas. A causa do problema não é o fatalismo. Ele é meramente a face externa, superficial, do sistema político não desejoso de contestar a mensagem que vem dos seus principais patrões, os empregadores capitalistas.

Quanto o sofrimento em massa por depressões prolongadas ameaça mover-se rumo ao ataque do próprio sistema, os empregadores capitalistas – e, portanto o seu governo – por vezes reconhecem a necessidade de uma dose pequena e temporária da solução liberal [2] . Mesmo assim, a ação do governo tem menos a vez com o estímulo fiscal que os liberais endossam e mais com uma tarefa diferente: afastar o sofrimento em massa e a ira para longe do anti-capitalismo e rumo à celebração do governo benevolente. Foi o que FDR fez ao estabelecer a Segurança Social e o seguro de desemprego na década de 1930.

A antipatia ultrapassada do liberalismo para com o marxismo – e a ignorância dos novos desenvolvimentos nos pensamento marxista das últimas décadas – e o problema chave, um legado debilitante da Guerra Fria. Essa antipatia e ignorância minam a capacidade do liberalismo para pensar as suas propostas, para fundamentá-las na teoria econômica e na história, e para explicar os “porquês” chaves necessários para escorar os seus argumentos acerca do que está a acontecer, o que deveria estar a acontecer e porque as dois coisas divergem.

Notas de tradução

[1] Abreviadamente diz-se que as crises podem ser em "L" (estagnação prolongada), em "V" (recuperação rápida), em "U" (recuperação lenta), ou em "W" (recuperação rápida seguida de outra queda).
[2] O autor usa a palavra liberal no sentido corrente nos EUA (diferente do europeu): de progressista.

*Professor Emérito da Universidade de Massachusetts – Amherst e Professor Visitante no Programa de Graduação em Assuntos Internacionais da New School University in New York. Autor de New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006) dentre muitas outras publicações. Assista seu filme documentário sobre a crise econômica atual, Capitalism Hits the Fan. O livro Capitalism Hits the Fan: The Global Economic Meltdown and What to Do about It pode ser encomendado no seu sítio web.

O original encontra-se em:Ongoing Crisis and Liberal Blindness
Esta tradução encontra-se em: Resistir.  

quarta-feira, 11 de maio de 2011

As ameaças dos negócios e o negócio das ameaças


Professor Richard D. Wolff

por Richard D. Wolff [*]

Introdução
Este artigo foi destacado pela redecastorphoto para exemplificar as chantagens a que são submetidos os governos pelas empresas transnacionais.
Recentemente uma dessas “multis” (grande montadora de automóveis) ameaçou deixar o Brasil caso não tivesse aprovado um financiamento do BNDES.
Caso recente é uma transnacional fabricante de “i-pods” que exigiu isenção de impostos e financiamento governamental (dinheiro público, óbvio) para construir fábrica no Brasil.
Faço notar que o governo chantageado pelo exemplo do Prof. Wolff é o governo dos EUA, tido como o mais poderoso do mundo...

Ouvimos cada vez mais que nada pode ser feito para tributar as grandes corporações devido à ameaça de como responderiam. Da mesma forma, não poderíamos travar suas altas nos preços ou mesmo os subsídios governamentais e os benesses fiscais de que desfrutam. Por exemplo: como as grandes companhias de petróleo colhem lucros espantosos com os altos preços do óleo e do gás, dizem-nos ser impossível tributar os seus lucros inesperados ou travar os bilhões que elas obtêm em subsídios do governo e em benesses fiscais. Parece não haver meio para que o governo assegure preços de energia mais baixos ou imponha e aplique seriamente leis de proteção ambiental. Analogamente, apesar da alta e rápida ascensão nos preços dos medicamentos, dizem-nos que é impossível aumentar impostos sobre companhias farmacêuticas ou fazer com que o governo assegure preços de farmacêuticos mais baixos. E assim por diante.

Dizem que tais passos do “nosso” governo são impossíveis ou não aconselháveis. A razão: as corporações, então, relocalizariam a produção no exterior ou reduziriam suas atividades nos EUA ou ambos. E isso privaria os EUA de impostos e empregos. Em bom inglês, as grandes corporações estão nos ameaçando. Temos de ajoelhar-nos e cortar programas sociais que beneficiam milhões de pessoas (programas de empréstimos à educação superior, Medicaid, Medicare, segurança social, programas nutricionais e assim por diante). Não podemos pedir impostos mais altos ou subsídios mais baixos ou menos benesses fiscais para as corporações. Não podemos pedir ação governamental para reduzir seus preços em ascensão. E se o fizermos, as corporações nos punirão.
.
Há três grupos que nos fazem essas ameaças dos negócios:

1.      Primeiro, porta-vozes das corporações, os seus servis relações-públicas pagos, transmissores das palavras do alto (as salas dos concelhos de administração das corporações).
2.      Segundo, políticos receosos de ofenderem seus patrocinadores corporativos repetem publicamente o que os porta-vozes das corporações lhes enviaram por email.
3.      Finalmente, vários comentaristas explicam as ameaças para nós. Isto inclui os jornalistas perdidos naquele nevoeiro ideológico que sempre traduzem o que as corporações querem no “senso comum”. Os comentaristas também incluem os professores que “traduzem” o que querem as corporações em “ciência econômica”.

Como se sabe, há sempre duas respostas possíveis a toda e qualquer ameaça. Uma é dobrar-se, ser intimidado. É a que mais frequentemente tem sido a “escolha política” dominante do governo dos EUA. Esta é a razão porque existem tantos benefícios fiscais, porque o governo faz tão pouco para limitar aumentos de preços, porque o governo não constrange decisões corporativas de relocalização, etc. Não há surpresa aqui, uma vez que as corporações gastaram generosamente no apoio às carreiras políticas de tantos líderes atuais. Elas esperam que estes políticos façam o que os seus patrocinadores corporativos desejam. Tão importante quanto isso, elas também esperam que estes políticos persuadam o povo de que é “melhor para todos nós” ceder quando corporações nos ameaçam.

E quanto à outra resposta possível às ameaças? O governo podia fazer uma escolha política diferente, definir de outra maneira o que é “melhor para todos nós”. Em bom inglês, podia aguentar-se face a ameaças e, ao assim fazer, podia contra-ameaçar as corporações. Quando grandes corporações ameaçam cortar ou relocalizar produção no estrangeiro em resposta a ameaças nos seus impostos e subsídios ou pedidos de cortes nos seus preços ou aplicação a sério de regras de proteção ambiental, o governo dos EUA podia prometer retaliação. Aqui está uma lista breve e parcial de como pode fazer isso (com exemplos ilustrativos para as indústrias da energia e farmacêuticas):

  • Informar tais negócios que ameaçam que o governo dos EUA transferirá as suas compras para outras empresas.
  • Informá-las que altos responsáveis viajarão pelos EUA a fim de urgir cidadãos a seguirem o exemplo do governo e alterarem também as suas compras.
  • Informá-las que o governo passará a financiar e organizar companhias operadas pelo estado para competirem diretamente com negócios ameaçadores.
  • De imediato e com rigor impor todas as regras aplicáveis referentes às condições de saúde e segurança de trabalhadores, leis de proteção ambiental, contratação igual e oportunidade de avanço, etc.
  • Apresentar e promover a aprovação de novas leis respeitantes à relocalização de empresas (dando a autoridades locais, regionais e nacional o poder de veto sobre decisões de corporativas de relocalização).
  • Comprar produtos energéticos e farmacêuticos no atacado para revenda em massa ao público estadunidense, transferindo todas as poupanças das compras em grande escala.
  • Tomar ativos de empresas que procurem evadir-se ou frustrar aumentos de impostos ou subsídios reduzidos.

Leis que permitem tais ações já existem nos EUA ou podiam ser aprovadas. Atualmente em outros países existem modelos de tais leis que fizeram bom trabalho, frequentemente por muitos anos. Elas podiam ser utilizadas e ajustadas às condições dos EUA.

Naturalmente, é possível criar uma base muito melhor do que a ameaça e contra-ameaça para partilhar os custos do governo entre indivíduos e negócios. Essa base seria estabelecida por uma transição para um sistema econômico em que trabalhadores em cada empresa funcionariam coletivamente e democraticamente como o seu próprio conselho de administração. Tais empresas dirigidas pelos trabalhadores eliminam a divisão e o conflito básico no interior das corporações capitalistas entre aqueles que tomam as decisões chave do negócio (o que, como e onde produzir, por exemplo) e aqueles que devem viver com isso e dependem mais imediatamente dos resultados daquelas decisões (a massa de empregados).

Um exemplo concreto pode ilustrar os benefícios desta alternativa ao cenário ameaça-contra-ameaça. Corporações têm efetuado ameaças reiteradas (cortar ou deslocalizar produção) como meio de impedir aumentos de impostos e assegurar reduções dos mesmos. Fizeram igualmente as mesmas ameaças para assegurar os gastos desejados do governo federal (despesas militares, estradas federais e projetos de construção de portos, subsídios, apoios financeiros e assim por diante). Com efeito, conselhos de administração corporativos e grandes acionistas procuram transferir encargos fiscais para empregados. O seu êxito ao longo do último meio século é claro. As receitas fiscais do governo estadunidense têm vindo cada vez mais (1) de indivíduos ao invés de impostos sobre rendimentos corporativos e (2) do rendimento individual dos grupos das camadas médias e baixa ao invés de virem dos ricos. Em empresas dirigidas pelos trabalhadores, o incentivo para tais mudanças desapareceria porque as pessoas que estariam pagando impostos empresariais são as mesmas pessoas que estariam pagando impostos sobre o rendimento individual. A tributação tornar-se-ia finalmente genuinamente democrática. O povo decidiria coletivamente como distribuir impostos sobre o que seriam genuinamente os seus próprios e os próprios rendimentos individuais.

10/Maio/2011

[*] Professor Emérito da Universidde de Massachusetts – Amherst e Professor Visitante no Programa de Graduação em Assuntos Internacionais da New School University in New York. Autor de New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006) dentre muitas outras publicações. Pode-se assistir seu filme-documentário sobre a crise econômica atual, Capitalism Hits the Fan. O livro Capitalism Hits the Fan: The Global Economic Meltdown and What to Do about It pode ser encomendado no sítio da web: Professor Richard D. Wolff .

O artigo original, em inglês, encontra-se em: The threats of Business and the Business of Threats
Esta traduçãofoi extraída de: Resistir

domingo, 2 de janeiro de 2011

Rumores de recuperação e tabus políticos


por Richard D. Wolff [*]

O fim de 2010 trouxe uma retórica renovada da parte de Washington, de alardes do media e também de declarações acadêmicas acerca da "recuperação" da economia estadunidense. Nós já as ouvimos antes, desde que fomos atingidos pela crise em 2007. E elas sempre se demonstraram erradas. Mas os rumores acerca de uma recuperação são úteis para alguns. Os republicanos afirmam que o governo deveria fazer menos uma vez que a recuperação está a caminho (para eles, naturalmente, a ação do governo é sempre contraproducente). Da mesma forma, republicanos e muitos democratas centristas afirmam que não são mais necessárias políticas de distribuição do rendimento porque recuperação significa crescimento, o qual faz com que todos obtenham uma fatia maior de um bolo em expansão econômica. O alarde acerca de uma recuperação também ajuda a administração Obama a dizer que as suas políticas estão a ter êxito. 


Mas isto é mais fantasia do que realidade. Afinal de contas, cerca de 20% da força de trabalho dos EUA que ficou desempregada ou subempregada em 2009 permanece assim quando entramos em 2011. Não há recuperação aí. Pior ainda, um quarto daqueles que encontraram trabalho desde que a crise começou obtém apenas empregos temporários sem benefícios. Em segundo lugar, as acções de arrestos por parte dos bancos – incluindo aqueles bancos que obtiveram a maior parte dos salvamentos do governo – continuam a expulsar milhões das suas casas. Nenhuma recuperação aqui, tampouco (exceto para os maiores bancos). Em terceiro lugar, considere porque (1) o Federal Reserve no mês passado decidiu criar mais US$600 mil milhões de dinheiro novo e (2) o Congresso e o presidente acordaram este mês num estímulo fiscal adicional (estendendo os cortes fiscais de Bush, reduzindo retenções da segurança social em 2011, etc). Eles dão esses passos porque todos os salvamentos anteriores, facilidades monetárias, isenções fiscais e estímulos fiscais do governo fracassaram em finalizar esta crise. Estão imunes ao reconhecimento de que mais das mesmas políticas que fracassaram antes podem fracassar outra vez. 


Ainda mais importante é que o ruído acerca da recuperação desvia a atenção de um fracasso mais básico do nosso sistema econômico: a sua instabilidade fundamental. "Períodos de baixa" recorrentes – que nem as actuações privadas nem as do governo alguma vez conseguiram impedir – impõem custos maciços à sociedade. Eles mergulham milhões de trabalhadores efetivos e produtivos no desemprego, com os resultantes desastres pessoais, familiares e de comunidades. Os governos espremem os bolsos colectivos dos seus países, sobretudo para resgatar apenas os capitalistas privados que foram os grandes contribuidores para as crises e cuja riqueza os isola dos piores efeitos das mesmas. Portanto os governos voltam-se para os seus povos a fim de impor as medidas de austeridade (cortes em programas sociais, na segurança social, etc) necessárias para restaurar orçamentos do estado arruinados por estes enormes custos de recuperação. Tal como alguém condenado pelo assassínio dos seus pais a pedir clemência por ser órfão, a América corporativa pede governo conservador e austeridade devido ao déficit orçamentário excessivo. 


O último meio século sugere uma análise da crise muito diferente e consequentemente uma resposta diferente para 2011. Desde o princípio da década de 1970, os aumentos de salários dos trabalhadores acabaram, os seus benefícios e segurança de emprego recuaram e os apoios do governo para a média das pessoas caiu sob o ataque conservador. Estes aumentos do fardo foram justificados como absolutamente necessários para permitir mais investimento e, portanto maior crescimento econômico. Um bolo econômico maior proporcionaria portanto mais para toda a gente, incluindo trabalhadores. De fato, o crescimento nos EUA e na Europa reduziu-se constantemente ao longo daqueles anos (ver gráfico abaixo do Prof. Pasquale Tridico, da Universidade de Roma). 

PIB per capita, 1961-2009.
Enquanto as condições dos trabalhadores deterioravam-se, os excedentes e os lucros capitalistas aumentavam e o mercado de ações disparava. O rendimento e a riqueza foram redistribuídos dos pobres e das camadas médias para os ricos. Mas os resultados prometidos nunca se materializaram: nem mais investimento nem maior crescimento econômico. Como mostra o gráfico, o crescimento realmente enfraqueceu e a seguir todo o sistema implodiu numa crise catastrófica. 

Os rumores atuais acerca de recuperação acompanham ações governamentais que em 2011 repetirão mais salvamentos, facilidades monetárias e estímulos fiscais que desde 2007 se demonstraram insuficientes. Nenhuma destas ações ousa questionar, e muito menos tratar, de como o capitalismo redistribuiu rendimento e riqueza nas décadas que conduziram à crise ou como aquela redistribuição contribuiu para a crise. A recuperação que está a ser planeada e alardeada objetiva um retorno à economia dos EUA anterior ao crash. Contudo, aquele capitalismo era como um comboio correndo rumo à muralha de pedra da crise. Retornar a um capitalismo pré-crise é um risco de retomarmos nossos lugares num comboio semelhante destinado a um crash semelhante.
Os políticos republicanos e os seus sósias democratas não ousam ligar esta crise a um sistema econômico que nunca cessou de produzir estas "baixas econômicas" que custam regulamente tantos milhões de empregos, desperdícios de recursos, produções perdidas e vidas prejudicadas. Para eles, o sistema econômico está para além do questionamento. Eles curvam-se diante do tabu inconfesso: nunca criticar o sistema do qual dependem as suas carreiras. 

Portanto, esta crise e o seu fardo continuarão até que os capitalistas vejam oportunidades de lucro suficientemente atraentes para retomar o investimento e contratar pessoas nos EUA e alhures. A liberdade de os capitalistas dos EUA ganharem um apoio governamental tão imenso quanto o necessário e ainda de investirem só quando, onde e como puderem maximizar os seus lucros privados está acima de tudo: é a primeira obrigação do governo. A liberdade para combater a penúria e insegurança do povo americano permanecerá uma distante segunda prioridade até que a ação política de massa altere isso.
Tanto nos bons tempos como nos maus, o capitalismo é um sistema que coloca uma pequena minoria de pessoas com um conjunto de objetivos (lucros, rendimentos desproporcionadamente elevados, poder político dominante, etc.) nas posições em que podem receber e distribuir enorme riqueza. Estas pessoas incluem os conselhos de administração que concentram nas suas mãos os rendimentos líquidos dos negócios e decidem, junto com os principais acionistas desses negócios, como distribuir aquela riqueza. Não surpreendentemente, eles utilizam-nos para atingirem os seus objetivos e conseguirem que os governos assegurem suas posições. 

Nenhuma política monetária ou fiscal keynesiana trata, e muito menos muda, o funcionamento desse sistema e quem utiliza a sua riqueza para que fim. Tampouco nenhuma das reformas ou regulamentações aprovadas ou mesmo propostas sob Obama faria isso. Evitar a instabilidade do capitalismo e os seus enormes custos sociais exige mudar o sistema. Esta permanece a questão básica para o novo ano e a nova geração. Será que romperão a versão de hoje de um velho e perigoso tabu: nunca questionar o sistema existente?

[*] Richard D Wolff - Professor de Economia na Universidade de Massachusetts – Amherst e professor visitante na New School University em Nova York . Autor de livros e artigos , incluíndo (c/ Stephen Resnick) Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR (Routledge, 2002) e (c/ Stephen Resnick) New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006), Capitalism Hits the Fan: The Global Economic Meltdown and What to Do about It .

O original encontra-se em: Recovery Noises and Political Taboos  
Tradução de JF. 
Esta tradução encontra-se em: Resistir