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sábado, 11 de abril de 2015

Guerras do “ocidente” já mataram 4 milhões de muçulmanos desde 1990


10/4/2015, [*] Nafeez Ahmed, FiredogLake (de Middle East Eye)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

GENOCÍDIO DOS EUA NO IRAQUE
1.200.000 assassinados desde 2003
3.000.000 de mortos por 13 anos de Sanções
5.000.000 de exilados desde 2003
Mês passado, a organização Médicos pela Responsabilidade Social [orig. Physicians for Social Responsibility (PRS)] que tem sede em Washington divulgou estudo crucialmente importante, no qual a organização conclui que o número de mortos nos dez anos da “Guerra ao Terror” desde os ataques de 11/9 é de no mínimo 1,3 milhões de pessoas e pode ultrapassar os dois milhões.

O relatório de 97 páginas, distribuído pela organização de médicos que já recebeu um Prêmio Nobel é o primeiro estudo dedicado a estimar o número de civis mortos nas intervenções de contraterrorismo comandadas pelos EUA no Iraque, Afeganistão e Paquistão.

O relatório da PSR é assinado por uma equipe interdisciplinar de especialistas, entre os quais o Dr. Robert Gould, Diretor de Formação e Educação Profissional Médica no Centro Médico da University of Califórnia, San Francisco; e o professor Tim Takaro, da Faculdade de Ciências da Saúde na Simon Fraser University.

Até aqui completamente apagado de todos os veículos da mídia-empresa comercial em língua inglesa, trata-se de estudo histórico revolucionário e primeira tentativa, realizada por organização de saúde pública de renome mundial, para produzir informação confiável sobre o número de vítimas civis, assassinadas na “guerra ao terror” comandada por EUA e Reino Unido.

Corrigir números e preencher lacunas

O relatório da PSR é apresentado pelo Dr. Hans von Sponeck, ex-Vice-Secretário-Geral da ONU, como “contribuição significativa para diminuir o fosso que separa estimativas confiáveis do número de vítimas da guerra, especialmente civis no Iraque, Afeganistão e Paquistão, e números tendenciosos, manipulados e até fraudulentos”.

O relatório faz uma revisão de estimativas anteriores do número de mortes da “guerra ao terror”. E é duramente crítico do número mais frequentemente citado pela mídia-empresa comercial como número confiável, a saber o índice Iraq Body Count (IBC) que notifica 110 mil mortos. Esse número é construído a partir de outras “estimativas” publicadas pelos veículos da mídia-empresa comercial, mas o estudo da organização PSR identifica graves lacunas e erros de metodologia nesse tipo de abordagem.

Por exemplo, apesar de 40 mil cadáveres terem sido sepultados em Najaf desde o início da guerra, o índice jornalístico IBC só registrou, para o mesmo período, 1.354 mortes em Najaf. Esse exemplo mostra como é grande a diferença entre os números jornalísticos do IBC e o número real de mortos – neste caso o número de mortos que a mídia-empresa comercial está divulgando é 30 vezes menor que o número real.

As maiores vítimas dos EUA são as crianças
Esse tipo de discrepância é encontrável em todo o banco de dados do índice IBC com o qual trabalha a mídia-empresa comercial. Noutro campo, o índice IBC registrou apenas três ataques aéreos num período em 2005, quando o número de ataques realmente cresceu de 25 para 120 naquele ano. Dessa vez, o número que a mídia-empresa comercial está divulgando é 40 vezes menor que o número real.

Segundo o estudo da PSR, até o muito discutível estudo publicado pela revista Lancet, que estimava em 655 mil o número de mortos no Iraque até 2006 (e mais de um milhão até hoje, por extrapolação) estava mais próximo da realidade que os números jornalísticos do índice IBC. De fato, o relatório recém lançado confirma o que já é consensual entre os epidemiologistas quanto à confiabilidade do estudo publicado em Lancet. Mas, apesar de algumas críticas bem fundamentadas, a metodologia estatística ali aplicada é a mesma universalmente reconhecida para determinar números de mortos em zonas de conflito, usadas pelas agências internacionais e por governos.

Negação politicamente motivada

A organização PSR também examinou a metodologia e a arquitetura de outros estudos que mostram números muito baixos de mortos, como um deles, publicado no New England Journal of Medicine e que também mostrou graves limitações.

Esse estudo simplesmente ignorou as áreas submetidas a violência mais pesada, a saber, Bagdá, Anbar e Nineveh, confiando nos dados muito precários do IBC, para extrapolar para essas regiões. Além disso, o estudo também assumiu “restrições politicamente motivadas” para a coleta e análise dos dados – entrevistas conduzidas pelo Ministério da Saúde do Iraque, que era “totalmente dependente da potência ocupante” e que, sob pressão dos EUA, se recusara a fornecer dados sobre registros de mortes de civis iraquianos.

Em particular, a organização PSR avaliou o que disseram Michael Spaget, John Sloboda e outros, que questionaram a coleta dos dados para o estudo da revista Lancet e os declararam potencialmente fraudulentos. Para a organização PSR essas acusações não têm fundamento.

As poucas “críticas justificadas”, concluíram os médicos da PSR, “não põem em dúvida os resultados dos estudos da Lancet como um todo. Aqueles números ainda representam a melhor estimativa atualmente acessível”. Os achados da Lancet são também corroborados pelos dados de um novo estudo publicado em PLOS Medicine, que fala de 500 mil mortos no Iraque, como consequência da guerra. No geral, o estudo da organização PSR conclui que o número mais provável para o total de mortos civis no Iraque, desde 2003 até hoje, se aproxima de 1 milhão.

A esse número, o estudo da PSR acrescenta pelo menos mais 220 mil mortes no Afeganistão e 80 mil mortos no Paquistão, mortos em consequência direta ou indireta da guerra dos norte-americanos naqueles países: assim se chega a um total “conservador” de 1,3 milhões de vítimas civis, mas “o número real pode facilmente ultrapassar os 2 milhões”.

Mas também o estudo da PSR sofre limitações. Para começar, a “guerra ao terror” pós 11/9 não foi novidade, mas simples expansão de políticas intervencionistas anteriores dos EUA no Iraque e no Afeganistão.

Iraque, 655.000 civis mortos entre 2003-2006
Em segundo lugar, a carência absoluta de dados sobre o Afeganistão sugere fortemente que o estudo da PSR muito provavelmente subestimou o número de vítimas da guerra norte-americana contra os afegãos.

Iraque

A guerra contra o Iraque não começou em 2003, mas em 1991 com a Iª Guerra do Golfo, depois da qual começou no país o regime de sanções da ONU.

Estudo anterior feito pela PSR por Beth Daponte, que então trabalhava como especialista em demografia no Gabinete do Censo do governo dos EUA, determinou que o número de mortes de civis no Iraque, causadas por impacto direto ou indireto da Iª Guerra do Golfo, chegava bem próximo de 200 mil iraquianos, a maioria dos quais civis. Na sequência, o estudo de Daponte, feito para uso interno do governo dos EUA, foi tirado de circulação.

Depois que as forças norte-americanas saíram de lá, a guerra contra o Iraque prosseguiu na modalidade de guerra econômica, mediante as sanções que EUA e Reino Unido impuseram ao país, sob o pretexto de não dar a Saddam Hussein os materiais necessários para a produção de armas de destruição em massa. Na lista dos itens banidos do Iraque sob esse pretexto, entraram inúmeros produtos necessários para a sobrevivência diária.

Números da ONU, não contestados, mostram que 1,7 milhões de civis iraquianos, metade dos quais crianças, morreram por efeito do brutal regime de sanções impostas pelo “ocidente” ao Iraque.

Esse efeito de matança em massa parece ter sido efeito planejado e buscado. Dentre os itens banidos pelas sanções que a ONU impôs ao Iraque estavam produtos químicos e equipamentos essenciais para a manutenção e o bom funcionamento do sistema de tratamento de água nacional iraquiano. Um documento secreto da Agência de Inteligência da Defesa dos EUA [orig. US Defence Intelligence Agency (DIA)] encontrado pelo professor Thomas Nagy da Escola de Negócios da George Washington University equivalia, nas palavras do professor, a um “rascunho inicial de um plano de genocídio contra a população do Iraque ”.

No documento que redigiu para a Associação dos Analistas de Genocídios da Universidade de Manitoba, o professor Nagi explicou que o documento da DIA revelava

(...) detalhes minuciosos de um método perfeitamente operacionalizável para “degradar completamente o sistema para tratamento de água” de uma nação inteira por um período de mais de dez anos.

A política de sanções criaria

(...) as condições para ampla disseminação de doenças, inclusive epidemias em grande escala, que liquidariam quantidade significativa de habitantes do Iraque.

Significa que só no Iraque, a guerra dos EUA de 1991 a 2003 matou 1,9 milhões de iraquianos; depois, de 2003 em diante, cerca de 1 milhão, o que totaliza pouco menos de 3 milhões de iraquianos mortos ao longo de duas décadas.

Afeganistão

No Afeganistão, a estimativa de número de mortos apresentada pela organização PSR pode ser também muito conservadora. Seis meses depois da campanha de bombardeio de 2001, Jonathan Steele, do Guardian, revelou que número entre 1.300 e 8.000 afegãos haviam morrido em consequência direta dos bombardeios norte-americanos, e que, sem sombra de dúvida, algo bem próximo de 50 mil pessoas haviam morrido por efeitos indiretos da guerra.

A al-Qaeda ainda é atuante no Afeganistão
Em seu livro Body Count: Global Avoidable Mortality Since 1950 [Contando cadáveres: a inegável mortalidade global desde 1950] (2007), o professor Gideon Polya aplicou a mesma metodologia usada pelo Guardian aos dados anuais da ONU, de mortalidade por populações, para gerar explicação plausível para o número excessivo de mortos. Bioquímico aposentado da La Trobe University em Melbourne, Polya concluiu que o total de mortes evitáveis de afegãos desde 2001, sob as privações impostas pela guerra e pela ocupação em curso, alcançava 3 milhões de pessoas, 900 mil das quais crianças com menos de cinco anos.

Embora os achados do professor Polya não tenham sido publicados em periódico de acadêmicos especialistas, seu estudo de 2007 Body Count tem sido recomendado pela professora Jacqueline Carrigan, socióloga da California State University, como “um perfil rico em dados, da situação da mortalidade global”, em resenha publicada no periódico da editora Routledge, Socialism and Democracy.

Como também no caso do Iraque, a intervenção norte-americana no Afeganistão começou muito antes do 11/9, sob a forma de ajuda clandestina aos Talibã (militar, logística e financeira) , a partir de 1992. Essa contribuição dos EUA serviu de propulsão para a violenta conquista, pelos Talibã, de quase 90% do território afegão.

Em relatório de 2001 da Academia Nacional de Ciências,  Forced Migration and Mortality, o destacado epidemiologista Steven Hansch, um dos diretores da ONG Relief International, observou que o aumento na mortalidade no Afeganistão devida a impactos indiretos da guerra ao longo dos anos 1990s pode estar entre 200 mil e 2 milhões.

Tudo isso sugere que o número total de mortos afegãos por efeito direto ou indireto da invasão pelos EUA desde o início dos anos 1990s até o presente esteja entre 3-5 milhões de pessoas.

Negar sempre

Segundo os números aqui explorados, o total de mortes causadas direta ou indiretamente pelas intervenções norte-americanas no Iraque e no Afeganistão desde os anos 1990s – sejam os assassinatos diretos, sejam os impactos das privações e dificuldades impostas pela guerra – está bem próximo de 4 milhões de pessoas (2 milhões no Iraque, de 1991 a 2003, mais 2 milhões de vítimas da “guerra ao terror”), mas talvez chegue a 6-8 milhões de pessoas, se se considera que o número de vítimas no Afeganistão é certamente maior do que o aqui computado.

Médicos pela Responsabilidade Social
Talvez sejam números exagerados, mas ninguém jamais saberá com certeza. As forças armadas de EUA e do Reio Unido, por opção política, não mantêm qualquer registro do número de civis mortos em operações militares, considerados uma inconveniência sem importância.

Dada a severa carência de dados no Iraque , a quase total inexistência de registros no Afeganistão e a indiferença dos governos “ocidentais” ante mortes de civis, é literalmente impossível determinar a verdadeira extensão do massacre de seres humanos não militares.

Ante a impossibilidade até de corroborar qualquer número, aí fica uma estimativa plausível, baseada em metodologia estatística padrão, que considera a melhor evidência encontrável. Ajudam a oferecer alguma indicação sobre a escala da destruição, embora sem detalhes precisos.

Muitas desses mortos tombaram no contexto da luta contra a tirania e o terrorismo. Mas, porque a mídia-empresa mantém o mais impenetrável segredo sobre os fatos reais dessa luta, praticamente ninguém tem qualquer ideia da verdadeira escala do inenarrável terror que a tirania de EUA e Reino Unido promove, em nome dos cidadãos, no Iraque e no Afeganistão.
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[*] Nafeez Ahmed é jornalista investigativo, especialista em segurança internacional e autor de best-sellers em que acompanha o que chama de a “crise da civilização”.  Colabora nos jornais The Independent, Sydney Morning Herald, The Age, The Scotsman, Foreign Policy, The Atlantic, Quartz, Prospect, New Statesman, Le Monde diplomatique, New Internationalist. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Nouriel Roubini em Davos: Governo dos EUA opera com “corrupção legalizada”

21/1/2015, DSWrightFiredoglake
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Embora possa haver confusão entre alguns nos EUA sobre como opera o sistema político norte-americano, tudo indica que os participantes do Fórum Econômico Mundial que se reúne em Davos, Suíça, já sabem que a política nos EUA feita à base de propinas e corrupção.

Numa entrevista em Davos à rede Bloomberg News relacionada a preocupações com a desigualdade crescente e a influência no sentido de corrupção também crescente, que essa desigualdade gera na política dos EUA, o economista e professor de negócios na New York University Nouriel Roubini disse, sem pestanejar nem qualquer hesitação, que será muito difícil para os EUA superarem a desigualdade entre ricos e pobres, porque o sistema político nos EUA opera baseado na “corrupção legalizada”, o que significa que os ricos, sempre com mais recursos para subornar políticos [e a imprensa-empresa], prevalecerão sempre.

Tom Keene, Bloomberg: Que dimensões terá o efeito plutocracia em 2015?

Nouriel Roubini: Significativo, porque estamos numa democracia na qual supostamente seria “um homem, um voto”, mas a realidade é que os bilionários, os que têm poder econômico e financeiro, podem afetar a legislação sobre impostos, sobre ganhos de capital, sobre interesses distorcidos pelos que têm aquele poder político.
Nos EUA, se se pensa bem, temos um sistema de corrupção legalizada. K Street [1] e os grandes lobbies alteram as leis, com o dinheiro que distribuem entre os políticos; é assim que quem tem recursos financeiros tem impacto maior sobre o sistema político que os que quem não têm. Por isso não é verdadeira democracia: é uma plutocracia.

Não que seja novidade, para quem preste atenção. Na verdade, a Universidade de Princeton produziu estudo exaustivo que andou pelas manchetes, no qual demonstra que a riqueza determina a forma final das leis (o que o estudo chama de “resultados legislativos”) no Congresso dos EUA.

Acrescente-se a isso um experimento do grupo progressista CREDO e de UC Berkeley no qual os pesquisadores ofereciam aos deputados encontros com eleitores reais e com doadores não eleitores; e os deputados sempre escolheram com mais frequência os doadores, e você com certeza terá o retrato de um sistema cínico, comandado pelo dinheiro.

De novidade, só, que a coisa já seja tão óbvia a ponto de intelectuais e especialistas importantes como Roubini concluírem que “corrupção legalizada” é a melhor expressão para descrever o sistema político nos EUA.

O pessoal já nem tenta enganar. Nunca caímos tão baixo.
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Nota dos tradutores
[1] K street - Rua, em Washington, onde se localizam os principais escritórios de lobbyingthink tanks, advogados e grupos de pressão [com informações da Wikipedia].
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[*] Nouriel Roubini (nasceu em Istambul, Turquia em 29/3/1959) é um economista estadunidense, de origem de judeus iranianos da Stern School of Business da Universidade de Nova York, desde 2009. É também presidente do grupo de consultoria RGE Monitor, especializado em análise financeira.
No início dos anos 2000, Roubini foi apelidado Dr. Doom ou Doutor Catástrofe em razão das suas previsões econômicas catastróficas - ou, pelo menos, muito mais pessimistas do que as da maioria dos economistas, na época.
Em 2005, segundo a revista Fortune, Roubini afirmou que “o preço dos imóveis residenciais surfava em uma onda especulativa, que brevemente faria afundar a economia”. Naquela época, foi qualificado de Cassandra. Agora, é considerado um sábio. Suas previsões atuais são igualmente apocalípticas: uma recessão persistente, com mais de dois trilhões de dólares de perdas em créditos e uma crise bancária sistêmica. “O FDIC gastou 10% das suas reservas para socorrer IndyMac, e esta foi a primeira onda de falências”,  diz Roubini.

quinta-feira, 21 de março de 2013

E a crise econômica não larga o nosso pé


19/3/2013, cmaukonen, Firedoglake
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

cmaukonen
Quer dizer... Como é possível que uma pequena ilha como Chipre e seus bancos estejam provocando tanta consternação e pressão alta em toda a Europa e por que todos se preocupam tanto? Richard Wolff oferece uma boa explicação. A entrevista foi ao ar pela rádio KPFA [1], da qual gravei um clip de áudio que subi para a minha página para quem quiser ouvir todo o programa [em inglês].

Ofereço aqui um resumão da entrevista.

A Eurozona é um desenvolvimento do Mercado Comum Europeu (MCE), também chamado Comunidade Econômica Europeia [Na Wikipedia há entradas que explicam o que são, em português. Procure e leia lá, se quiser saber mais (NTs)].

A Comunidade Econômica Europeia (CEE) foi organização internacional criada pelo Tratado de Roma em 1957. Tinha o objetivo de fazer a integração econômica, incluindo um mercado comum, entre os seis países fundadores: Bélgica, França, Itália, Luxemburgo, Países Baixos e Alemanha Ocidental. A CEE ficou também conhecida como Mercado Comum, no mundo de língua inglesa; às vezes também chamada de Comunidade Europeia, mesmo antes de receber esse segundo nome oficialmente, em 1993.

A CEE herdou um conjunto de instituições já existentes: a Comunidade Europeia de Carvão e Aço [orig. European Coal and Steel Community (ECSC)] e a Comunidade Europeia de Energia Atômica [orig. European Atomic Energy Community (EURATOM)] as duas primeiras comunidades europeias criadas, nos termos do Tratado de Bruxelas, de 1965.

Quando se aprovou e passou a viger o Tratado de Maastricht, em 1993, a Comunidade Econômica Europeia recebeu o novo nome de Comunidade Europeia, para evidenciar que cobria campo mais amplo de países e políticas. Foi quando as três comunidades europeias (as duas acima e a Comunidade Europeia) passaram a constituir o primeiro dos três pilares da União Europeia – fundada pelo Tratado de Maastricht. A Comunidade Europeia existiu nesse formato até ser abolida em 2009 pelo Tratado de Lisboa, que misturou os três pilares anteriormente existentes e declarou que a União Europeia “sucedia e substituía a Comunidade Europeia”.

O Monstro da Lagoa Negra da Eurozona
É. A coisa começou assim. Para permitir o livre comércio entre os vários países reunidos em comunidade, houve algumas novidades, entre as quais uma moeda comum. Em teoria, parecia tudo muito bem, mas havia várias falhas. Por exemplo, criou-se um banco central, mas não se criou governo central. A CE só tem poder, de fato, para imprimir dinheiro. Não tem meios para interferir na política dos estados membros. Sequer pode influir nos bancos dos estados membros. Os estados permaneceram autônomos. Quando a nova moeda entrou em circulação, tinha o objetivo – mais ou menos – de substituir as moedas nacionais, à base de 1:1, apesar de o câmbio, em vários momentos não seguir essa “ordem”.

Estavam reunidos todos os ingredientes de um inevitável desastre. Como hoje se sabe, o frenesi em que entraram os bancos, e os riscos que assumiram nos EUA e na Europa, geraram dívidas monstruosas. As dívidas venceram, como se deveria prever que venceriam, mas ninguém previu, e os devedores não tinham como pagar.

O que tudo isso tem a ver com os bancos de Chipre? Afinal, não podem ser bancos assim tão gigantescos a ponto de que, se eles quebrarem, quebram as finanças planetárias... Não poderiam ser, mas... como Richard Wolff explica na entrevista, eles são. Os bancos de Chipre são muito maiores que esse minúsculo país que vive de turismo e de uns poucos barcos os quais, é claro, jamais poderiam gerar tais bancos, nem tais dívidas.

Durante os anos de fantasia e delírio econômico dos anos 1990s, aqueles bancos trataram de atrair a maior quantidade de negócios e de dinheiro que pudessem. Queriam participar também daquela orgia. Para isso, atraíram grandes depositantes da Rússia e da Europa e também dos EUA. E passaram também a emprestar dinheiro a gente e a governos que, adiante, já não tiveram como pagar os empréstimos. Evidentemente, aqueles bancos também especularam contra os empréstimos que eles mesmos faziam – exatamente como fizeram também nos EUA.

Assim, lá, como nos EUA e na Europa, banqueiros e especuladores fizeram apostas tresloucadas, assumiram riscos grandes demais e, agora, estão à beira de quebrarem. E, dessa vez, ninguém – nenhum outro banco, nenhum outro governo, nenhum outro especulador – dá qualquer sinal de interesse em “resgatá-los”. Ao contrário, parecem interessados em fazer os bancos de Chipre pagarem por todos os pecados e falhas do capitalismo.

De fato, todos eles se autoencurralaram. Trancaram-se num contêiner furado, no qual está entrando água. Porque, se deixarem que os bancos quebrem, fatias cada vez maiores da economia ir-se-ão também por água abaixo, o que causará mais desemprego, mais agitação social e depositantes e acionistas carregados de ações e papeis desses bancos e desses países verão todos os seus papéis derreterem como papéis podres. E se continuarem a jogar mais e mais dinheiro nesse poço sem fundo devorador de moedas, o movimento pode facilmente levar a inflação massiva e desvalorização do euro, o que acabará por matar o comércio (livre, mas morto). O que, por sua vez, ferirá fundamente a Alemanha, cuja economia depende de exportações.

Mas se os banqueiros insistirem em apertar os devedores, o consumo continuará a cair, o que também não interessa ao comércio (livre, mas inexistente). Assim, como Richard Wolff explica, temos uma crise que está fugindo a qualquer controle e ninguém sabe o que fazer.

Agora, resolveram tentar uma “solução” recém inventada, e Chipre é a cobaia. Os bancos vão confiscar diretamente o dinheiro dos depositantes – cidadãos dos países e os grandes depositantes que têm dinheiro depositado naqueles bancos de Chipre – para tentar conter a maré. O risco, nesse caso, é gerar uma corrida aos bancos, com todos tentando arrancar dali o próprio dinheiro e transferi-lo para outro lugar onde esteja mais seguro. Nesse caso, os bancos quebram, não aos poucos, mas muito, muito, muito rapidamente.

Como isso nos afetará aqui nos EUA? Ora... Não estão percebendo?

Richard Wolff
Já cortaram os serviços públicos de assistência social, Medicare, Medicaid, Segurança Social. O que sobrou? E se os bancos de Chipre falirem, o que vocês acham que acontecerá aos bancos norte-americanos que ainda têm dinheiro depositado lá? Dinheiro da Grécia, da Itália, da Espanha, de Portugal, de... E têm dinheiro investido nas bolsas e têm dinheiro aplicado em papéis desses países?

É típica situação de Catch 22 (“se você se declarar louco, para escapar de ser mandado para a guerra, o Exército conclui que, nesse caso, você está perfeitamente lúcido... e o manda para a guerra”).

Ainda que consigam controlar a situação em Chipre, quem será o próximo? [2] Como Richard Wolff explica, o problema é o sistema capitalista. Não um ou outro “estado-membro”.



Notas dos tradutores

[1] KPFA (94.1 FM) é uma emissora de rádio mantida pelos ouvintes, de orientação progressista, operada de Berkeley, California, que transmite para a Área da Baía de San Francisco.

[2] “Deus é nosso pastor e nada nos faltará... mas, por via das dúvidas, os EUA temos a bomba atômica”; Vídeo de Tom Lehrer a seguir: