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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sim, podemos: pensadores e filósofos não europeus


19/2/2013, Walter Mignolo, Al-Jazeera, Qatar 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Walter D. Mignolo
Os artigos de Santiago Zabala e Hamid Dabashi publicados em Al Jazeera trazem à discussão uma das questões cruciais do século 21: a revisão dos processos de re-ocidentalização (com a volta de modos ocidentais de pensar, do Cristianismo ao Liberalismo e ao Marxismo) e de desocidentalização e descolonização em todas as esferas da vida, da política, economia, religiões, estética, conhecimento e subjetividade.

A discussão concentra-se, principalmente, nas duas últimas questões. Começou com o artigo de Zabala sobre o papel do filósofo, no qual celebrava Slavov Zizek. Em resposta, Dabashi tratou do significado diferencial entre os nomes de filósofos ocidentais e os países nos quais filósofos não europeus ou vivem ou “estudaram em academias dos EUA ou da Europa”.

As respostas de Zabala a Dabashi enfatizaram o renovado, refrescante comunismo de Zizek. De minha parte – afinal, sou pensador descolonial limítrofe – concentro-me em questões que emergem nas fronteiras da discussão.

A crença nas hierarquias

Hamid Dabashi
A resposta de Hamid Dabashi ao artigo de Zabala sobre o papel do filósofo contribuiu para a circulação do texto em áreas da opinião pública nas quais, sem aquela resposta, o texto não teria circulado. A resposta de Dabashi foi uma reflexão sobre o parágrafo inicial do artigo sobre Zizek que Zabala publicou:

Há hoje muitos filósofos ativos e importantes: Judith Butler nos EUA; Simon Critchley na Inglaterra; Victoria Camps na Espanha; Jean-Luc Nancy na França; Chantal Mouffe na Bélgica; Gianni Vattimo na Itália; Peter Sloterdijk na Alemanha; e, na Eslovênia, Slavoj Zizek, para não falar de outros que trabalham hoje no Brasil, Austrália e China.

Santiago Zabala
A estratégia de Dabashi acompanha seu argumento: não menciona os nomes dos autores dos artigos. Esse silêncio de Dabashi traz para o procênio o significado dos nomes. Sua resposta é um signo, dentre muitos, de que nós, no planeta, vivemos uma mudança de época, mais que uma mudança a mais numa época de mudanças. A mudança de época é anunciada, na esfera do conhecimento, no processo de desencadear-se de uma cadeia de efeitos longamente duradouros, de diferenças epistêmicas coloniais e imperiais.

Nesse quadro, os nativos norte-americanos têm sabedoria, os anglo-americanos, ciência; os africanos têm experiência, os europeus, filosofia; o Terceiro Mundo tem Cultura e o Primeiro Mundo tem Ciências Sociais, inclusive antropologia que estuda as culturas do Terceiro Mundo; chineses e indianos têm tradições, os europeus, modernidade; o Islã vive em mundo de religião; os europeus, no secularismo.

Essas crenças já se foram, para número crescente de intelectuais, pensadores e ativistas não europeus. Para mim, essa é a principal afirmativa implícita no artigo de Dabashi.

O que pensadores não europeus pensam

Slavoj Zizek
Li o artigo de Zabala sobre o papel do filósofo, não porque estivesse interessado em Zizek (que não me interessa), mas porque era artigo de Santiago. Participamos de várias conferências nos últimos três anos, assistimos às falas um do outro, conversamos, mantemos ativa correspondência por e-mail e trocamos artigos.

O que leio, da filosofia continental, não leio à procura de luzes que me auxiliem a enfrentar questões de histórias não europeias, mas porque me interessa saber o que “eles” estão pensando, quais as preocupações “deles”, em que “eles” andam envolvidos.

Consumo a maior parte do meu tempo envolvido com pensadores não europeus. É a partir da orientação e da luz desses pensadores que, quando necessário, aproximo-me de filósofos europeus. Exemplo desse relacionamento é meu contato com A leftist Plea For “eurocentrism”  (1998).

Li esse artigo, não porque tivesse sido escrito por Zizek, mas porque tratava de eurocentrismo. É problema que me interessa sempre e profundamente; em segundo lugar, interessa-me o que tenham a dizer as pessoas que enfrentem a questão do eurocentrismo. Como pensador não europeu, meus sentidos reagiram logo à primeira frase do artigo de Zizek: 

Quando alguém diz eurocentrismo, qualquer intelectual pós-modernista de esquerda que se autorrespeite tem reação tão violenta quanto a de Joseph Goebbels quando ouvia a palavra cultura – pega logo a pistola, urrando acusações de imperialismo cultural eurocentrista proto-fascista. Mas será possível imaginar uma apropriação, pela esquerda, do legado político europeu?

Discuti esse artigo com mais detalhe noutro lugar. Aqui, me interessa destacar um só ponto. Minha resposta àquele parágrafo, publicada, é a seguinte: 

Quando alguém diz Eurocentrismo, nenhum intelectual descolonizante que se autorrespeite tem reação violenta como a de Joseph Goebbels à cultura – de pegar uma pistola urrando acusações de imperialismo cultural eurocentrista proto-fascista.

Intelectual descolonizante que se autorrespeite, recorrerá a Frantz Fanon: “Agora, camaradas, é chegada a hora de decidir mudar de lado. Tirar de nossas costas a imensa sombra noturna que nos envolveu e sair para a luz. Que o novo dia que está raiando nos encontre determinados, ilustrados e resolutos. Nesses termos, meus irmãos, como não compreender que temos coisa melhor a fazer, que seguir os passos da Europa?”

Com esse comentário, não quero discutir a avaliação de Zizek, como filósofo, feita por Zabala. O que estou dizendo é que nós, intelectuais descolonizantes, mesmo que não sejamos filósofos, “temos coisa melhor a fazer” como diria Fanon, que nos deixar envolver nas questões debatidas pelos filósofos europeus.

Relevância não é universal 

A questão levantada por Dabashi não é nova entre nós, pensadores do ex-Terceiro Mundo (ainda que muitos de nós baseados nos EUA). Ao dizer que não é questão nova, não digo, por implicação, que a resposta de Dabashi seja ultrapassada. Quero dizer que as questões de que hoje se trata foram debatidas na África, no Caribe e na América do Sul, no final dos anos 50s e nos anos 60s. Mas foram discutidas “entre nós”, não “com eles”.

Kishore Mahbubani
Agora, o diferencial de potência epistêmica começou a ser discutido entre todos “nós”, filósofos não europeus e filósofos europeus. A exceção no domínio da diplomacia foi Kishore Mahbubani, que levantou a questão em seu polêmico Can Asians Think? [Asiáticos pensam?] (1999).

Contudo, se queremos usar o termo “filosofia” para identificar pensadores, sejam europeus ou não europeus, devo dizer que, ainda que Zizek possa ser o mais importante filósofo contemporâneo, seu trabalho é menos relevante para muitos que o trabalho do filósofo jamaicano Lewis Ricardo Gordon; ou do filósofo iraniano Seyyed Hossein Nasr; ou do filósofo chinês Wang Hui; ou do egípcio Nawal El Saadawi ou do filósofo latino-americano Enrique Dussel.

E se por trás de Zizek há Derrida na filosofia continental, por trás de Gordon há Fanon na filosofia africana; por trás de Seyyed Hossein Nasr há Ali Shariati na filosofia muçulmana; por trás de Wang Hui há Liu Xun na filosofia chinesa; por trás de El Sadawi, o legado da falsafa muçulmana. E por trás de Dussel há Rodolfo Kusch na filosofia latino-americana.

A relevância não é universal; depende do universo de significação e do sistema de crenças sob o qual se determina a relevância. Temos aqui um mundo diverso de pensadores e filósofos no processo de desocidentalizar e descolonizar o legado imperial da filosofia ocidental.

A questão da filosofia no mundo não europeu jamais foi fácil. Pensadores africanos e latino-americanos com formação e treinamento em filosofia debateram, nos anos 1970s, essa questão crucial: “Há filosofia africana/latino-americana?” Seria pergunta impensável na Alemanha, nos mesmos anos.

Robert Bernasconi
Robert Bernasconi, escrevendo sobre o filósofo afro-americano Lucius T Outlaw, resumiu o dilema nos seguintes termos:

A filosofia ocidental captura a filosofia africana numa dupla armadilha: ou a filosofia africana é tão semelhante à filosofia ocidental, que não faz contribuição significativa e, efetivamente, desaparece; ou é tão diferente que suas credenciais para ser definida como genuína filosofia sempre estarão sob suspeita (Bernasconi 1998, 188; Postcolonial African Philosophy: A Critical Reader)

É o gargalo e o quebra-cabeça que atormenta pensadores com formação e treinamento acadêmico em filosofia na África, na América do Sul e no Caribe.

Comunismo é uma opção

Tudo o que acima ficou dito leva-me à questão do comunismo, foco da resposta de Zabala, e dos quatro poderosos antagonismos que – segundo Zizek – poderiam impedir a infinita reprodução do capitalismo:

1. “A ameaça sempre crescente da catástrofe ecológica”.
2. “A apropriação indevida da noção de propriedade privada, para a chamada “propriedade intelectual”.
3. “As implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos técnico-científicos (especialmente na biogenética)”.
4. “Novas formas de apartheid, novos muros, novas favelas”.

Nas últimas duas décadas, muito tenho ouvido sobre esses quatro pontos mencionados por várias pessoas, não só filósofos mas também pensadores e militantes sérios. Não estou dizendo que Zabala estaria dizendo que Zizek seria o primeiro a pensar sobre essas questões, nem que seria muito importante que Zizek tivesse trazido essas questões para o debate filosófico europeu. De fato, seria desnecessária arrogância supor que o mundo, particularmente o mundo não europeu, careceria de que Zizek nos informasse de que o mundo está pegando fogo.

Para Zabala, “Ser comunista em 2012 não é escolha política, mas questão existencial. Os níveis globais de desigualdade política, econômica e social aos quais chegaremos esse ano, por causa da lógica capitalista de produção, não são só “muito graves”: eles ameaçam nossa existência”.

Ora, reconhecer os problemas não significa que o único meio para avançar seja o comunismo. E, como a história nos ensina, identificar o problema tampouco significa que só haja uma solução. Ou, dito ainda de outro modo: vários podem coincidir na prospectiva de um futuro global desejável; o que não implica que o comunismo seria o único modo de andar até lá.

Não há uma única solução, simplesmente porque há muitos modos de ser, o que significa diferentes meios de pensar e de fazer. O comunismo é escolha. O comunismo não é um universal abstrato.

Tariq Ramadan
Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que o comunismo é escolha forte, na Europa. Talvez não seja opção para migrantes da Ásia e da África (talvez seja escolha para migrantes da América Latina, sobretudo os que tenham ascendência europeia), ou talvez seja ideia a ser promovida por Tariq Ramadan (europeu muçulmano e filósofo muçulmano).

Mas na Europa, com certeza, é escolha inescapável. Afinal, o comunismo nasceu na Europa.

No mundo não europeu, o comunismo é mais parte do problema, que parte da solução. O que não significa que, se você não é comunista, no mundo não europeu, você é capitalista.

O ponto de referência nesse debate foi e continua a ser a Conferência de Bandung, convocada por Sukarno em 1955. O legado de Bandung não é nem o capitalismo nem o comunismo, mas a descolonialidade e a desocidentalização (o que significa distanciar-se tanto do comunismo quanto do capitalismo).

Caso a observar, hoje, pode ser a Bolívia. A fórmula “socialismo comunitarista” do Estado da Bolívia é rejeitada pelo CONAMAQ (Conselho Nacional de Ayllus e Markas do Qullasuyu), organização liderada por aimaras e quechuas, que trabalham para a reorganização dos ayllus e markas de Tawantinsuyu.

Não há espaço aqui para explicar o que significa tudo isso (e esse, precisamente, é problema do eurocentrismo: gastar espaço, sem explicar o que não se encaixe no interesse dos europeus, de esquerda ou de direita), mas significa, basicamente que há modo de ser baseado no comunal, a partir da perspectiva de harmonia baseada  na história das civilizações andinas, não na da civilização europeia.

Assim sendo, o fato de que Zizek e outros intelectuais europeus estejam repensando seriamente o comunismo significa que abraçam uma opção (reorientar a esquerda) dentre várias que, hoje, marcham na direção de uma ideia de harmonia que sobrepassa a necessidade de guerra; sobrepassa o sucesso e a competição que gera corrupção e egoísmo, e promove a plenitude da vida, sobre o desenvolvimento e a morte.

Frantz Fanon
Construindo um futuro harmonioso

Em resumo, a troca de ideias – nessa publicação – entre Santiago Zabala e Hamid Dabashi lança luz sobre uma questão fundamental na construção global de futuros harmoniosos. Há um paralelo entre a crescente convicção quanto ao fracasso do neoliberalismo no mundo não europeu, que acompanha a crescente convicção dos limites (e ao mesmo tempo do valor) da filosofia continental.

Sartre resumiu tudo isso no prefácio que escreveu para Os Condenados da Terra de Frantz Fanon (1961), ao dizer, falando ao público francês e europeu: “Prestem atenção, ouçam o que Fanon diz: ele já não está falando conosco”. 


 

domingo, 11 de novembro de 2012

“Obama tem muito a aprender com Hugo Chávez”


11/11/2012, Santiago Zabala (entrevista a Silvia Mazzini), Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Se Obama espera fazer qualquer “mudança real”, então ele deve se
inspirar em algumas reformas que Chávez fez na Venezuela. 

Santiago Zabala
O que têm em comum o presidente da Venezuela Hugo Chávez, o movimento Occupy e a Primavera Árabe? Para Santiago Zabala, professor de filosofia da Universidade de Barcelona, são todos “alterações” hermenêuticas que geram efeitos “saudáveis” para sociedades democráticas. Aqui, a professora da Humboldt University, Silvia Mazzini, discute o “comunismo hermenêutico” com Zabala; e como o recém reeleito presidente Chávez da Venezuela deve ser visto como modelo a seguir, pelo também recém reeleito presidente Barack Obama dos EUA.
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Silvia Mazzini
Silvia Mazzini: Slavoj Zizek elogiou seu Hermeneutic Communism [1] (escrito com Gianni Vattimo) como “livro necessário como o ar que respiram, para todos e todas que pensam em política radical!” O livro conclui com a sugestão de que o presidente da Venezuela é modelo a seguir, para o presidente dos EUA. Você acha que o fato de os dois presidentes terem sido reeleitos confirma aquela tese?

Santiago Zabala: Não, não acho, porque os dois foram reeleitos por razões muito diferentes. Obama usou a palavra “mudança” como chamariz, mas a mudança já estava em curso, desde antes, na Venezuela e em outros países latino-americanos. Veja, por exemplo, a reforma da Saúde, de Obama: é nada, comparada à que Chávez conseguiu fazer. Chávez oferece hoje atendimento gratuito à saúde para milhões de pessoas, pela primeira vez; reduziu 70% da pobreza extrema; e quadruplicou as aposentadorias, dentre outras mudanças. Em questões de política exterior, não há qualquer dúvida de que Obama foi muito mais violento, se se considera as guerras ainda em curso no Afeganistão e no Paquistão e, claro, os prisioneiros que continuam em Guantánamo.

Por mais que Obama seja, e provavelmente é, homem decente, todos ainda estamos esperando as tais “mudanças”. Chávez, por outro lado, não apenas fez as mudanças que prometeu fazer: também soube impô-las, quando necessário. Seja como for, a ideia de que Chávez é modelo que Obama deve seguir tem de ser discutida e entendida dentro do contexto filosófico do livro.

SM: Você fala do “comunismo hermenêutico” de Chávez, em oposição ao “neoliberalismo conservador” de Obama?

SZ: Sim. A ideia básica é que os EUA, a União Europeia e outras democracias ocidentais já estão “enquadradas”, quer dizer, já foram politicamente neutralizadas. Um dos maiores erros de Obama foi ter investido no bipartidarismo, quando tinha a maioria do Senado, nos dois primeiros anos de governo. Em tese, poderia ter feito, naquele momento, o que quisesse. Chávez fez exatamente o contrário: usou a maioria que tinha, não só para afastar a Venezuela do FMI, mas, também, para nacionalizar grande parte dos recursos nacionais, para, assim, financiar os programas sociais que já conseguiram, dentre outras coisas, erradicar o analfabetismo e criar clínicas médicas por todo o país.

Se se consideram as diferenças entre Obama e Romney, não eram tão grandes quanto as diferenças que separam Chávez e Capriles. É verdade que Obama acaba, apenas, de ser reeleito, mas é muito claro que nada aconteceria de muito diferente, nos EUA, sob governo Republicano, que justifique o muito que Obama fala sobre “mudança”.

Obama e Chávez podem ter muito em comum...
SM: Se se examina Chávez mais de perto... Ele não se declara “comunista” nem, e muito menos, comunista “hermenêutico”.

SZ: Até agora, ainda não! É verdade. Chávez fala de “socialismo para o século 21” ou “revolução bolivariana”. O comunismo, como você sabe, popularizou-se com vários filósofos contemporâneos (Terry Eagleton, Slavoj Zizek, Jodi Dean), depois que Francis Fukuyama declarou o “fim da história” como “vitória neoliberal”. Mas, como a Primavera Árabe e a crise financeira em curso demonstraram, a história está longe de acabada; e o capitalismo luta duramente para sobreviver. Nessa condição, o comunismo não volta como repetição, mas, sim, como uma possibilidade de emancipação para fora do enquadramento neoliberal do pensamento em que ainda vivemos.

A China ainda prossegue dentro dos parâmetros antigos e autoritários dos sovietes... Mas na Venezuela, não só se respeitam todos os procedimentos de eleições livres, limpas e democráticas, como, também, o sistema do Estado burocrático foi descentralizado para as missões sociais, as missiones encarregadas dos projetos para as comunidades.

SM: Como a palavra “comunismo”, também o adjetivo “hermenêutico” pode ser interpretado de diferentes modos. O que significa “hermenêutico” em seu livro?

SZ: “Hermenêutico” refere-se à filosofia da interpretação, que prossegue, mais ou menos, de Aristóteles a Richard Rorty. Embora Platão, no Íon [2] apresente a hermenêutica como uma teoria da recepção e prática para retransmitir as mensagens dos deuses do Olimpo, a palavra rapidamente adquiriu significado filosófico mais amplo, apontando a alteração dos significados, quer dizer, a possibilidade de receberem diferentes interpretações. Usamos a hermenêutica como um modo para indicar essa flexibilidade no comunismo.

Por isso o motto do livro (parafraseando o conhecido dito de Marx, em Teses sobre Feuerbach), é “os filósofos até hoje descreveram o mundo de diferentes modos: é chegada a hora de interpretar o mundo”. Ambos, a hermenêutica, que favorece a interpretação mais que a verdade, e o comunismo, que anseia pelo controle estatal sobre os recursos das nações, são alterações que acontecem dentro das nossas instituições intelectuais estabelecidas.

SM: Então, o comunismo hermenêutico não é basicamente uma teoria da interpretação, mas, principalmente, um chamado às alterações?

SZ: Sim, alterações como Chávez, a Primavera Árabe ou o movimento Occupy, as quais, todas essas, sacudiram a nossa chamada diplomacia internacional e comunidades nacionais democráticas. Como já se sabe, todas essas alterações foram benéficas para o desenvolvimento de sociedades democráticas: Chávez demonstrou que separar-se do FMI é benéfico; a Primavera Árabe, que nenhum daqueles ditadores jamais foi bem-vindo naqueles países; e o movimento Occupy demonstrou que absolutamente nem todos vivem satisfeitos nos países democráticos e ricos.

Quando Martin Heidegger, um dos arquitetos da hermenêutica, destacou, há décadas, que “a única emergência é a falta de emergência”, referia-se a esses tipos de alterações: emergência é quando essas alterações não ocorrem. 

SM: Mas por que Chávez deveria ser modelo para Obama? Afinal, as mudanças que o presidente venezuelano promoveu não se aplicam nos EUA.

SZ: Falemos claro: Obama é muito melhor que Bush ou Romney, mas se apresentou como agente de mudança que ninguém até hoje viu em ação, nem internacionalmente nem nacionalmente. Haveria muitas questões que poderia mencionar aqui, desde nomear para gerenciar a crise as mesmas pessoas que criaram a crise econômica, ou o uso indiscriminado de aviões-robôs armados, os drones, no Oriente Médio. Mas há uma questão que conecta e liga Obama, Bush e Romney, como se fossem um só: a favelização. A população que vive em favelas cresce hoje ao ritmo de 25 milhões de pessoas por ano, e já é grave questão social e de segurança para todas as nações. Já há Ministérios de Defesa que veem as favelas como o campo e batalha das guerras do século 21. Chávez canalizou quantidades massivas de recursos do Estado para dar casa a essas populações. Nos EUA, a população favelizada cresce em velocidade assustadora.

SM: Você acredita que Obama deveria pensar nas favelas e na favelização?

SZ: Sim, mas não falamos das favelas só porque elas continuam a crescer por toda a parte; falamos também por razões filosóficas. Em nosso livro, falamos das favelas como “descarga do capitalismo”; também são descargas, em termos filosóficos, outras posições (o desconstrucionismo, a teoria crítica, a hermenêutica) consideradas marginais e desnecessárias porque não se submetem ao realismo metafísico ou científico. Mas se essas posições não se submetem ao realismo científico (o qual, como Herbert Marcuse alertou-nos há tanto tempo, prepara “o caminho para a ideologia racista”), não é por razões teóricas, mas por justificações éticas, pelo interesse que têm pelos mais fracos, os marginais, os perdedores da história. Chávez, a Primavera Árabe e Occupy vivem, de fato, pelas margens e periferias do chamado ‘funcionamento certo’ das finanças, da política, da sociedade, porque provocam mudança, provocam alterações, quero dizer: provocam alterações não autorizadas.

SM: Você vê alguma utilidade em comparar um ator regional, a Venezuela, com um ator global, como os EUA?

SZ: Ora essa! Claro que sim. Chávez, como Obama para o Ocidente, não representa só seu país; é líder de todos os países latino-americanos que uniram forças (mediante UNASUL, ALBA e MERCOSUL) para libertarem-se do jugo do FMI e do Consenso de Washington em geral. Não esqueçamos que a América Latina deve crescer 10,1% em 2013, mais que qualquer outra região do mundo.

SM: E o que você responde aos que veem Chávez como político populista ou pouco democrático?

SZ: Acho que a imprensa-empresa apresenta Chávez sempre sob a pior luz possível, para garantir que ninguém perceba que sua política de mudança é exemplo a ser seguido. Começamos a pensar assim, quando nos demos conta da enorme quantidade de intelectuais que se dedicam a construir a imagem de Chávez como ditador, Thomas L Friedman, Moisés Nairn e Francis Fukuyama, todos unidos contra Chávez, o déspota. Mas é preciso dizer também que graças a economistas como Mark Weisbrot e jornalistas como Richard Gott, e diretores de cinema como Oliver Stone, que dedicam também grande quantidade de empenho a denunciar os vícios da desinformação, Chávez já começa, afinal, a ser reconhecido.

SM: Você também, como Tariq Ali e Noam Chomsky, parece estar completamente apaixonado pelo presidente da Venezuela.

SZ: Não diria “apaixonado”, parece-me exagero. O que interessa é que Obama lá está, com quatro anos de governo pela frente para promover mudanças. E, em matéria de governo que promete e faz mudanças, hoje, no mundo, gostem dele ou não, não há melhor modelo que Chávez.



Notas dos tradutores
[1]  VATTIMO, Gianni e ZABALA, Santiago. Comunismo Hermenéutico. De Heidegger a Marx (esp. Barcelona: Herder, 2012, 280 p.; sem tradução para o português). Há uma resenha em “Fracos do mundo, uni-vos!.
[2]  Lê-se resumo do diálogo platônico em: “Graecia Antiqua”  

sábado, 28 de julho de 2012

Por que tantos filósofos comunistas?


23/7/2012, Santiago Zabala, Al-Jazeera
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Santiago Zabala é pesquisador e professor de filosofia da Institució Catalana de Recerca i Estudis Avançats, ICREA [1], da Universidade de Barcelona. É autor, dentre outros trabalhos, de The Hermeneutic Nature of Analytic Philosophy (2008), The Remains of Being (2009), e, mais recentemente, com G. Vattimo, Hermeneutic Communism (2011), todos publicados pela Columbia University Press.


Barcelona – Ler Marx e escrever sobre Marx não faz de ninguém comunista, mas a evidência de que tantos importantes filósofos estão reavaliando as ideias de Marx com certeza significa alguma coisa.

A crise financeira de 2008 despertou um renovado interesse nos escritos de Karl Marx, afirma Zabala [EPA]
Depois da crise econômica global que começou no outono de 2008, voltaram a aparecer nas livrarias novas edições de textos de Marx, além de introduções, biografias e novas interpretações do mestre alemão.

Por mais que essa ressurreição[2]tenha sido provocada pelo derretimento financeiro global, para o qual não faltou a empenhada colaboração de governos democráticos na Europa e nos EUA, esse ressurgimento[3]de Marx entre os filósofos não é consequência nem simples nem óbvia, como creem alguns.

Afinal, já no início dos anos 1990s, Jacques Derrida[4], importante filósofo francês, previu que o mundo procuraria novamente por Marx. A previsão certeira apareceu na resposta que Derrida escreveu a uma autoproclamada “vitória neoliberal” e ao “fim da história” inventados por Francis Fukuyama.

Contra as previsões de Fukuyama, o movimento Occupy e a Primavera Árabe demonstraram que a história já caminha por novos tempos e vias, indiferente aos paradigmas econômico, neoliberal e internacional sob os quais vivem alguns. Vários importantes pensadores comunistas (Judith Balso, Bruno Bosteels, Susan Buck-Mors, Jodi Dean, Terry Eagleton, Jean-Luc Nancy, Jacques Rancière, dentre outros), dos quais Slavoj Zizek é o que mais aparece, já operam para ver e mostrar como esses novos tempos são descritos em termos comunistas, quer dizer, como via de ação radical.

O movimento acontece não só em conferências de repercussão planetária em Londres[5], Paris[6], Berlin[7]e New York[8](com participação de milhares de professores, alunos e ativistas) mas também na edição de livros que se convertem em best-sellers globais como Império [9] de Toni Negri e Michael Hardt, A Hipótese Comunista [10] de Alain Badiou e Ecce Comu [11] de Gianni Vattimo, dentre outros. Embora nem todos esses filósofos apresentem-se como comunistas – não, com certeza, como o mesmo tipo de comunista – a evidência de que o pensamento comunista está no centro de seu trabalho intelectual autoriza a perguntar por que há hoje tantos filósofos comunistas tão ativos.

A ressurgência do marxismo

Evidentemente, nessas conferências e nesses livros, o comunismo não é proposto como programa para partidos políticos, para que reproduzam regimes historicamente superados; é proposto como resposta existencial à atual catástrofe neoliberal global.

A correlação entre existência e filosofia é constitutiva, não só da maioria das tradições filosóficas, mas também das tradições políticas, no que tenham a ver com a responsabilidade sobre o bem-estar existencial dos seres humanos. Afinal, a política não é apenas instrumento posto a serviço da vida burocrática diária dos governos. Mais importante do que isso, a política existe para oferecer guia confiável rumo a uma existência mais plena. Mas quando essa e outras obrigações da política deixam de ser cumpridas pelos políticos profissionais, os filósofos tendem a tornar-se mais existenciais, vale dizer, tendem a questionar a realidade e a propor alternativas.

Foi o que aconteceu no início do século 20, quando Oswald Spengler, Karl Popper e outros filósofos começaram a chamar a atenção para os perigos da racionalização cega de todos os campos da atividade humana e de uma industrialização sem limites em todo o planeta. Mas a política, em vez de resistir à industrialização do homem e da vida humana, limitou-se a seguir uma mesma lógica industrial. As consequências foram devastadoras, como todos já sabemos.

Hoje, as coisas não são essencialmente diferentes, se se consideram os efeitos igualmente calamitosos do neoliberalismo. Apesar do discurso triunfalista do neoliberalismo, a crise das finanças globais neoliberais do início do século 21 serviu para mostrar que nunca as diferenças de bem-estar material foram maiores ou mais claras que hoje: a população que vive em favelas urbanas alcança hoje a cifra espantosa de 25 milhões de pessoas; e a devastação dos recursos naturais do planeta já provoca efeitos assustadores em todo o mundo, tão devastadores que, em alguns casos, já não há remédio possível.

Por isso tudo, relatório recente do Ministério da Defesa da Grã-Bretanha[12]previa, além de uma ressurgência de “ideologias anticapitalistas, possivelmente associadas movimentos religiosos, anarquistas ou nihilistas, também movimentos associados ao populismo; além do renascimento do marxismo". Essa ressurgência do marxismo é consequência direta da aniquilação das condições de existência humana resultantes do capitalismo neoliberal como o conhecemos.

O que é “comunismo”?

Por mais que a palavra “comunista” tenha adquirido inumeráveis diferentes significados ao longo da história, na opinião pública atual significa, além de uma espécie de relíquia, também um sistema político cujos componentes culturais, sociais e econômicos são todos controlados pelo estado.

Por mais que talvez seja o caso em alguns países, para a maioria dos filósofos e pensadores contemporâneos esse significado é insuficiente, está superado, é efeito de propaganda massiva e, sobretudo, é diariamente desmentido pela evidência de que o mundo não estaria vivendo uma “ressurgência” do marxismo, se o comunismo marxista fosse apenas isso.

Como diz Zizek, “o comunismo de estado não funcionou, não por fracasso do comunismo, mas por causa do fracasso das políticas antiestatizantes, porque não se conseguiu quebrar as limitações que o estado impôs ao comunismo, porque não se substituíram as formas de organização do estado por formas “diretas” não representativas de auto-organização social”.

O comunismo, como ideário antiestatizante das oportunidades realmente iguais para todos, é hoje a melhor orientação, o melhor guia, a melhor ideia, a melhor hipótese para os movimentos políticos libertários antipoder, como os que nasceram dos protestos em Seattle (1999), Cochabamba (2000) e Barcelona (2011).

Por mais que esses movimentos lutem em nome de causas e valores específicos e diferentes entre eles (contra a globalização econômica desigualitária, contra a privatização da água, contra políticas financeiras danosas), todos lutam contra o mesmo adversário: o sistema de distribuição não igualitária da propriedade, em democracias organizadas pelos princípios impositivos do capitalismo.

Como o demonstram a pobreza sempre crescente e o inchaço das favelas, o modelo de capitalismo que conhecemos foi o que sobrou, depois de todas as tentativas que o capitalismo empreendeu antes da mais recente, e que fracassaram todas, uma depois da outra. Desses diferentes e variados fracassos, brotaram diferentes e variados comunistas.

Comunismo e democracia

Em resumo, enquanto Negri e Hardt[13]buscam no “comum” (quer dizer, nos modos pelos quais a propriedade pública imaterial pode ser propriedade dos muitos), e Badiou busca nas insurreições (em ações como a da Comuna de Paris)[14], a possibilidade de se alcançarem “formas de auto-organização” não estatais, quer dizer, a possibilidade de formas comunistas, Vattimo (e eu)[15]sugerimos que todos examinemos os novos líderes democraticamente eleitos na Venezuela, Bolívia e outros países latino-americanos.[16]

Se esses líderes conseguiram chegar ao governo e começar a construir políticas comunistas sem insurreições violentas, não foi por terem chegado ao mundo político armados por fortes conteúdos teóricos ou programáticos; de fato, só levaram para dentro do poder de governos de seus respectivos países as suas próprias respectivas fraquezas.

Diferente da agenda pregada pelo “socialismo científico”, o comunismo “fraco” (também chamado “hermenêutico”[17]) abraçou não só a causa ecológica[18]do des-crescimento, mas também a causa da descentralização do sistema burocrático estatal, de modo a permitir que se constituam conselhos independentes locais, que estimulam o envolvimento das comunidades.

Que ninguém se surpreenda pois se muitos outros filósofos continuarem a aproximar-se e reaproximar-se do comunismo como resposta às políticas neoliberais de destruição da vida e da felicidade pessoais e sociais, e se virem, como nós vimos, a alternativa[19]que se constrói na América Latina. Especialmente, porque as nações latino-americanas demonstraram que os comunistas podem ter acesso ao poder também pelas vias formais da democracia.





Notas e “links” de referência
[9] Império, 2005, Rio de Janeiro: Ed. Record, 501 p.
[10] A hipótese comunista, 2012, São Paulo: Boitempo Editorial, 152 p.
[17] Hermenêutico: adj. Relativo à interpretação dos textos, do sentido das palavras. (...) 3) Rubrica: semiologia. Teoria, ciência voltada à interpretação dos signos e de seu valor simbólico. Obs.: cf. semiologia 4) Rubrica: termo jurídico. Conjunto de regras e princípios usados na interpretação do texto legal (...). Etimologia: gr. herméneutikê (sc. tékhné) “arte de interpretar”, herméneutikós,ê,ón “relativo a interpretação, próprio para fazer compreender” [NTs, com verbete HERMENÊUTICA do Dicionário Houaiss,