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sábado, 23 de julho de 2011

Pepe Escobar: A verdade sobre o “Af-Pak”

Pepe Escobar

22/7/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu






Resenha de SYED SALEEM SHAHZAD, Inside al-Qaeda and the Taliban: Beyond Bin Laden and 9/11 [Por dentro da al-Qaeda e do Talibã: além de Bin Laden e do 11/9], Pluto Press, California [24/5/2011]. ISBM-13: 978-0745331010. US$26. 272 pp. (Pode ser comprado na Pluto Books). 

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Nota
Este blog contém inúmeros artigos de Syed Saleem Shahzad para o Asia Times traduzidos pelo pessoal da Vila Vudu
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Syed Saleem Shahzad
Pense em Saleem Shahzad como um avião-robô drone Predator paquistanês, carregado não de bombas, mas de palavras, sobrevoando todo o “Af-Pak”. Em vez de detonar “terroristas” – e uma festa de casamento dos pashtuns – os mísseis Hellfire de Saleem Shahzad detonam, completamente, os muros do labirinto concêntrico, de pressupostos e desinformações, que é tudo que o ocidente sabe sobre o “Af-Pak”. 

A editora Pluto Press – em gesto de compaixão – deveria enviar imediatamente um exemplar do livro ao autoproclamado ás da ‘contrainsurgência’ e atual diretor geral da CIA, general David Petraeus, para nem falar da equipe de sicofantas de coturnos nunca em terra que o cercam, ou dos “terrorism experts” de sofá, variedade “think tanks” –, para que possam pelo menos começar a ter alguma ideia aproveitável sobre o que realmente acontece na vida real, no “Af-Pak”. 

[À parte: Saleem Shahzad foi meu colega e meu amigo. Trabalhamos sincronizados imediatamente depois do 11/9 – ele em Karachi, eu em Islamabad/Peshawar. Depois, nos encontramos várias vezes em Karachi. Infelizmente nunca viajamos juntos às áreas tribais ou ao Afeganistão (habituei-me a usar intérpretes e contatos do Punjab ou pashtuns).]

Foi depois da invasão do Iraque, em 2003, que Saleem – chefe da sucursal de Asia Times Online no Paquistão – fixou a reputação de mais empenhado e brilhante jornalista que investigava o labirinto das áreas tribais paquistanesas. Por um desses golpes trágicos da história, seu livro foi lançada apenas três semanas depois do assassinato predefinido [orig. targeted assassination] de Osama bin Laden, no assalto a Abbottabad; e menos de uma semana antes de o próprio Saleem ser sequestrado, torturado e assassinado. Não, Saleem não foi assassinado pela “al-Qaeda”. A investigação sobre seu assassinato no Paquistão insiste em não andar para lugar algum (e assim com certeza permanecerá); mas a melhor aposta até agora, em matéria de culpados, parece ser uma facção da sub-bandidagem dos Inter-Services de Inteligência do Paquistão (ISI), com autorização dos níveis superiores. 

No pain no gain. “Só a luta ensina”. 

Mesmo para quem conheça bem o Paquistão, as áreas tribais e o Afeganistão, esse livro pode ser tão difícil quanto uma trilha no Hindu Kush – sobretudo pelo esforço para não confundir uns com outros, um elenco alucinante de personagens do que o próprio Saleem, em perfeita analogia, chama “uma versão al-Qaeda das Mil e Uma Noites”. 

O que se tem aqui é Saleem, como um Sir Richard Burton paquistanês, traduzindo para o mundo as aventuras hardcore de atores crucialmente decisivos, como o cruel Tahir Yaldochiv, senhor-da-guerra uzbeque e seu exército privado de 2.500 jihadis degoladores; ou o capitão Kurram e seu irmão mais velho, major Haroon – exemplos perfeitos de oficiais de médio escalão das forças armadas do Paquistão que renunciaram aos postos e encontraram os próprios destino e missão no trabalho de reciclar as táticas medievais da guerrilha Talibã, servindo-se, para isso, de lições da Guerra do Vietnã. 

Haroon, por exemplo, avalia, corretamente, que o apoio que o exército do Paquistão deu aos Talibã afegãos sempre foi apoio apenas tático –, parte da política oficial de Islamabad para criar “profundidade estratégica” contra a Índia; o mesmo se pode dizer do apoio à milícia do Lashkar-e-Taiba, ferramenta útil para o Paquistão, no caso de guerra contra a Índia. 

Foi Haroon quem recrutou a maioria dos melhores e mais ideologicamente comprometidos jovens guerreiros que integram a já legendária – em termos do “Af-Pak” – Brigada 313 do comandante Ilyas Kashmiri. 

E foi Haroon quem construiu conceitualmente toda a estratégia matadora de cortar as linhas de suprimento da OTAN, impedindo o avanço dos contêineres que chegam ao porto de Karachi, ao sul – essenciais para a sobrevivência da ocupação –, 80% dos quais têm de passar pelo desfiladeiro Khyber; e 20% vão para Kandahar. 

E, se Haroon for opinião na qual se deva confiar, 2012 será o inferno na terra. Harron disse a Saleem, em Karachi, que em 2012 osMahdi reaparecerão “para comandar as forças muçulmanas no Oriente Médio e derrotar os exércitos do ocidente comandados pelo anticristo [Dajjal]”. 

Fica aberta à discussão a questão sobre quem é o Dajjal, nessa cosmologia: o presidente dos EUA, Barack Obama; o Pentágono, o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu ou “Valem todas as anteriores”. 

Burning of the midnight lamp [1]
A espantosa quantidade de informação contida nesse livro é dose capaz de manter acordados por muitos anos os interessados em Hindu Kush. Dentre outras preciosidades, Saleem conta:

– como a al-Qaeda conseguiu unir duas tribos, os Mehsud (os “panteras” do Grande Jogo do século 19) e os Wazir (os “lobos”) e, assim, obteve controle completo sobre a área tribal do Waziristão Sul; antes, não havia ali mais que uma espécie de posto avançado dos Talibã da província de Helmand, sob influência do Talibã afegão; e como a al-Qaeda selecionou o Waziristão Norte, “perdedor”, para ali estabelecer seus quartéis-generais internacionais; e

– que esse foi o plano de jogo para reconstruir a al-Qaeda e os Talibã, depois do 11 de setembro. 

Saleem também conta como o legendário Jalaluddin Haqqani – sempre de cabelos e barbas tingidos e sempre em contato próximo com os serviços secretos paquistaneses (ISI) – nunca deixou de ser o principal Talibã senhor-da-guerra no Waziristão Norte; e como, por isso, o ISI cuidou de informá-lo de que os ataques contra ele não passariam de encenação. 

Como Sirajuddin, filho de Haqqani, no Waziristão Norte, e Baitullah Mehsud, no Waziristão Sul, conseguiram ascender à posição de respeitados tenentes do líder Talibã Mullah Omar, que confia neles; e como Sirajuddin Haqqani converteu-se no mais perigoso comandante do Talibã afegão que a OTAN enfrenta hoje. Como um dos principais ideólogos da al-Qaeda, o egípcio Sheikh Essa al-Misri, “vendeu” a estratégia deles aos líderes das áreas tribais. 

Como a principal “reestreia” dos Talibã, na grande ofensiva da primavera de 2006 – quando Washington decidiu que os Talibã já estariam mortos e enterrados – foi também uma história de sucesso da al-Qaeda, turbinada por 4.000 novos combatentes chechenos, uigures, uzbeques e árabes de diversas origens.

Como o Estado Islâmico do Waziristão Norte e o Estado Islâmico do Waziristão Sul conseguiram reunir, no norte, mais de 10 mil jihadis de Karachi, Lahore, Quetta e Peshawar, mais 12 mil das tribos – dos quais 3 mil afegãos e 2 mil de outras nacionalidades; e, no sul, 13 mil das tribos, inclusive algumas centenas de uzbeques e árabes de diversas origens. Assim, o Mulá Omar tem para começar, exército de, no mínimo, 40 mil combatentes. 

Como o principal emissário de Omar, Mullah Dadullah – aproveitando-se de contatos íntimos com a resistência sunita no Iraque – divulgou entre as tribos o conceito de suicida-bomba como forma legítima de jihad. 

Mas, sobretudo, como a al-Qaeda “modelou uma entidade paralela, Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP, Talibã Paquistaneses), para reforçar suas posições nas fortalezas naturais em sete agências tribais do Paquistão”. 

Poucos sabem que o TTP foi criado, de fato, como tática diversionista – de modo que a al-Qaeda pudesse promover sua ideologia dejihad global rumo ao califato global, que jamais correspondeu ao que quer Mullah Omar (cujo único interesse é expulsar do Afeganistão os exércitos estrangeiros de ocupação). Mas o Talibã no Afeganistão não podia criticar o TTP, porque estavam ajudando os afegãos a combater as forças da OTAN-EUA. 

A grande franquia tribal 

A tese central do livro é essa – que a al-Qaeda “clonou” os Talibã Afegãos, para criar os Talibã Paquistaneses – dentre aquela miríade de grupos militantes –, para que tivessem como conduzir uma revolução islâmica dentro do Paquistão, como franqueados da al-Qaeda. Nas palavras de Saleem, “É a primeira franquia apoiada pela al-Qaeda, local, popular e absolutamente tribal, em todo o mundo”. É possível que o Pentágono e a CIA, em Langley, tenham conseguido entrever pelo menos uma fresta desse grande quadro – mas um pouco tarde demais, no que tenha a ver com “Af-Pak”. 

A expressão “Af-Pak” foi cunhada pelo ex-enviado especial do governo Obama, Richard Holbrooke, em março de 2008. O problema é que chegou muito atrasada. Al-Qaeda tivera a mesma ideia muito tempo antes, já em 2002. 

Saleem argumenta, a partir de entrevistas que fez com comandantes e estrategistas chaves, que, se a al-Qaeda não tivesse concebido “um plano de combate para enfrentar dois exércitos hostis [a OTAN no Afeganistão; e o exército paquistanês no Paquistão], a guerrilha no Afeganistão teria morrido no final de 2002 e seus militantes em retirada estariam cercados e dizimados já no início de 2003”. 

Foi exatamente a impressão que tive, no Afeganistão, no outono de 2002: que a al-Qaeda estava em ruínas. Mas fato é que, no final de 2008, todas as sete agências tribais paquistanesas já estavam sob seu controle e influência. 

Al-Qaeda apostava em que Washington acabaria por render-se a algum tipo de acomodação com os Talibã históricos com bases no Afeganistão, em conjunção com o exército paquistanês; a situação seria aproximadamente a mesma de meados dos anos 1990s. De diferente que, dessa vez, os Talibã Paquistaneses lá estariam para estragar a festa – e fazer ver aos afegãos que a Jihad não estava confinada ao Afeganistão: que tivera de globalizar-se. 

Mas a al-Qaeda absolutamente não previu que os Talibã, com alguma esperteza, fossem seduzidos por Washington, por alguma espécie de acordo de partilha do poder (estamos hoje mais ou menos nesse ponto). 

Há quem duvide que Mullah Omar prefira a jihad, se puder ter voz no poder em Kabul, para nem falar da possibilidade de caber-lhe gorda fatia das taxas de pedágio, no caso de a saga do óleo-gasoduto TAP (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão) algum dia chegar a bom termo. 

Apesar de a al-Qaeda não ter previsto a massiva guerra de aviões-robôs pilotados à distância contra as áreas tribais, é evidente que vê como produtiva a crise humanitária gerada pelos drones e o bombardeio de terra arrasada que os EUA fazem contra as áreas tribais. Mais de um milhão de pessoas já abandonaram casa e terras em cinco das sete agências tribais: são um milhão de pessoas (e mais, se se consideram as famílias estendidas) que combaterão contra os EUA até o último alento. 

Saleem argumenta que a guerra dos aviões-robôs drones tripulados à distância forçou a al-Qaeda a entrincheirar-se mais fundo no Hindu Kush, onde todas as montanhas se ligam e interconectam; que, se não pode vencer nos desertos do Iêmen ou o Iraque, nem nas selvas da Somália, talvez possa vencer nas áreas tribais, aliada a Talibã Paquistaneses “que se movem livres pelas montanhas, como a águia que luta e sobrevive”. 

Já a águia norte-americana pensa diferente:o único modo de ‘vencer’ a guerra nas áreas tribais é ‘droná-los’ com bombas disparadas à distância, bombardeá-los sem parar, até que não reste uma alma viva. 

E que fim levou Osama?

É interessante observar o que Saleem não diz sobre Osama bin Laden. Fica implícito que Osama e (hoje líder da al-Qaeda) Ayman al-Zawahiri, com algumas poucas centenas de jihadis, pelo menos depois que escaparam de Tora Bora no final de 2001, estavam amoitados em Shawal, literalmente terra-de-ninguém na encruzilhada entre o leste do Afeganistão, o Waziristão Sul e o Waziristão Norte. 

Então, Osama some da narrativa – afinal, já permanecera “invisível” por anos. Reaparece depois da débâcle de 2007 na Mesquita Vermelha (Lal Masjid) em Islamabad – tentativa da al-Qaeda para abrir um front na própria capital –, quando, segundo Saleem, Osama teria indicado Abu Obaida al-Misri para organizar um levante no Paquistão, para tornar ingovernável o país. 

Se se pode crer na narrativa de Washington sobre Abbottabad – e há aí um imenso “se” –, Osama, naquele momento, já vivia em Abbottabad, mantido perfeitamente informado de tudo que acontecia no Paquistão. 

Saleem acredita na tese da al-Qaeda, segundo a qual o ataque de 11/9 foi organizado para atrair os EUA para uma armadilha no Afeganistão; o Pentágono teria usado o 11/9 como pretexto para implantar-se nas encruzilhadas cruciais da Ásia Central e Sul; e há sempre a possibilidade de que se permitiu que acontecessem os ataques do 11/9, de modo a que o Pentágono pudesse expandir o que, depois, passou a ser conhecido como a doutrina da Dominação de Pleno Espectro. 

Dado que Osama é relativamente ausente na narrativa – o que pode significar que seu papel, nos anos recentes, tenha sido só simbólico –, a verdadeira estrela é, de fato, Ilyas Kashmiri. Saleem foi (e ainda é) o único jornalista que jamais o entrevistou.[2]. Destacando-se dentre uma série de jihadis operacionais substituíveis, cada um com seu modus operandi, Kashmiri impressionou tanto os ideólogos da al-Qaeda, que foi promovido a chefe do Comitê Militar e encarregado de expandir a jihad para a Ásia Central. 

Para ele, o principal teatro de guerra sempre foi o Afeganistão e as áreas tribais paquistanesas, até que a jihad na Ásia Central – e na Índia – ganhou força. O mais extraordinário é que esse foi o plano do serviço secreto do Paquistão há 30 anos: construir um teatro de guerra para derrotar os soviéticos no Afeganistão e deixar que a Caxemira (e os Kashmiris [Caxemireses]) se autogovernassem na Índia. É imensa ironia da história que um Kashmir esteja hoje encarregado do mesmo plano... mas, dessa vez, para servir aos objetivos da Jihad global da al-Qaeda. 

Pode-se discordar de Saleem atribuir poderes imensos à al-Qaeda. No final do livro, escreve que o objetivo da al-Qaeda é exaurir o Ocidente e, então, anunciar sua vitória no Afeganistão. Enquanto os Talibã Afegãos – não a al-Qaeda – não pararem de zunir à volta da OTAN em tempo integral, o ocidente não sairá do Afeganistão: por causa do Óleo-gasodutostão; por causa das suculentas bases militares, ali, ao pé de Rússia e China; por causa dos planos expansionistas da OTAN; por causa da abundância de recursos minerais a serem explorados. 

E quando expõe os objetivos da al-Qaeda, a coisa vai ainda mais longe: “em seguida, a al-Qaeda aspira a ocupar a terra prometida do velho Khurasan, cujas fronteiras vão da Ásia Central ao Khyber Paktoonkhwa atravessando o Afeganistão, e daí expandir o teatro de guerra até a Índia”. 

Nunca acontecerá. Mas é certo que essa “visão” não sumirá sem mais nem menos. Sobretudo, será mantida eternamente viva, enquanto houver norte-americanos e europeus ocupando o Afeganistão, e as áreas tribais paquistanesas continuarem sob o fogo mortal, infernal, dos aviões-robôs drones dos EUA pilotados à distância. 

E quanto ao Irã? 

O livro tem alguns pequenos problemas – como Saleem dizer que em meados dos anos 1990s o então presidente do Afeganistão Burhanuddin Rabbani e seu ministro de Defesa, o “Leão do Panjshir” Ahmad Shah Massoud, “permitiram que Osama bin Laden se movesse do Sudão para o Afeganistão”. A verdade é que Osama chegou quando os Talibã já estavam no poder e os tadjiques de Massoud eram a única oposição. 

E há um grande problema: o que Saleem chama de ‘normalização’ das relações entre al-Qaeda e o Irã (discutimos muito furiosamente essa questão, por e-mail). Saleem argumenta que quando um diplomata iraniano foi sequestrado em Peshawar em 2008, a complexa rede tribal era comandada por Sirajuddin Haqqani. Muitos meses depois de negociações mediadas por Sirajuddin, Teerã recebeu seu diplomata, em troca da liberdade de agentes altamente qualificados da al-Qaeda que estavam presos no Irã – entre os quais Abu Hafs al-Mauritani, Suleiman Abu Gaith, Iman bin Laden – uma das filhas de Osama – e o egípcio Saif al-Adil. 

Nunca se obteve qualquer confirmação, de Teerã; mas é difícil crer que, ainda que Teerã autorizasse passe livre para os jihadis da al-Qaeda rumo ao Iraque, Ásia Central ou Turquia, poder-se-ia dizer que Teerã e a al-Qaeda ter-se-iam tornado por isso, digamos, “íntimos”. Antes de qualquer outra coisa, porque a al-Qaeda tinha e continua a ter relações muito próximas com os sunitas linha-dura do grupo Jundallah – especializado em “assassinatos predeterminados” na província iraniana do Sistão-Baloquistão. 

Esse é o caderno de notas de um jornalista apaixonante, às vezes intrigante, às vezes irritante, mas sempre magnífico jornalista, caderno que muitos lerão como um ‘diário’ do coração das trevas. Mas essa parte do mundo sobre a qual Saleem escreve é, de fato, das mais fascinantes, em termos sociais, antropológicos e até geológicos, de todo o planeta. O livro, sim, ganharia, se passasse por edição mais cuidadosa, que aparasse as redundâncias e deixasse ver mais claramente o contexto essencial. 

Saleem pensava em urdu – e depois traduzia para o inglês. O Saleem em inglês que os leitores de Asia Times Online e de vários outros jornais conhecem é resultado de horas e horas de doloroso trabalho de edição do editor Tony Allison. 

No final, o que realmente conta é que Saleem foi nosso ponto de fuga [orig. vanishing point [3]] naquela paisagem. Não é livro sobre “o terror”. É a narrativa empenhada de um homem só, numa imensa terra de tribos, armado com sua forte bússola moral, à procura da verdade. Por isso Saleem foi assassinado por um estado que há dentro do estado do Paquistão. Não foi assassinado pelos pashtuns.




Notas dos tradutores
[1] Literalmente “queimando [o querosene?] da lâmpada da meia-noite”. É título de canção gravada por Jimmi Hendrix (1967). Letra no Terraletras.  
[2] Entrevista exclusiva que Kashimiri deu ao jornalista Syed Saleem Shahzad: “Al-Qaeda's guerrilla chief lays out strategy”, Asia Times Online, 15/10/2009. Sobre o mesmo assunto, ver “Duas Estratégias Islamitas que se Opõem: A Al-Qaeda contra os talibãs”, Syed Saleem Shahzad, Le Monde Diplomatique, 6/7/2007.
[3] “Vanishing Point” [em port. “Corrida contra o Destino”] é filme “de estrada”, cult, de 1971.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Jornalista Syed Saleem Shahzad foi assassinado

Syed Saleem Shahzad

De: Asia Times Online -  31/5/2011
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Syed Saleem Shahzad, 40 anos, editor-chefe da sucursal de Asia Times Online em Islamabad, Paquistão – que estava desaparecido desde domingo à noite, quando não compareceu a entrevista marcada numa rede de televisão – pode ter sido assassinado, segundo informou hoje a polícia paquistanesa. Corpo ainda não identificado, mas que pode ser do jornalista, foi encontrado hoje num canal em Mandi Bahauddin na província de Punjab, cerca de 150 km ao sul de Islamabad onde o carro do jornalista fora localizado. (Agora, às 15h53, a notícia já foi confirmada.) 

Para Ali Dayan Hasan, pesquisador da organização Human Rights Watch, Shahzad foi sequestrado e morto, provavelmente, por causa de artigo publicado dia 27/5 em Asia Times Online, no qual informa sobre infiltração da al-Qaeda na Marinha do Paquistão. 
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Aqui vai, traduzido, o artigo do dia 27/5/2011, de Syed Saleem Shahzad, jornalista paquistanês que descobrimos na internet, que aprendemos a admirar, e do qual traduzimos vários artigos. A luta sempre continua.
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Al-Qaeda avisou que atacaria no Paquistão
27/5/2011, Syed Saleem Shahzad,  Asia Times Online 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

ISLAMABAD. A al-Qaeda atacou a base naval paquistanesa PNS Mehran, em Karachi, dia 22 de maio, depois que fracassaram as negociações entre a Marinha do Paquistão e a al-Qaeda para a libertação de vários oficiais da marinha presos sob a acusação de trabalharem como contatos da al-Qaeda – como revelaram investigações conduzidas pelo jornal Asia Times Online.

As forças de segurança do Paquistão enfrentaram 15 horas de combate para reocupar a base naval, depois de a base ser invadida e ocupada por pequeno grupo de militantes fortemente armados.

Houve pelo menos 10 mortos e foram destruídas duas aeronaves de patrulha marítima e detecção de submarinos fabricadas nos EUA, P3-C Orion, no valor, cada uma, de 36 milhões de dólares, antes de alguns dos militantes conseguirem furar o cerco de milhares de soldados, e escapar.

Declaração oficial fala de seis militantes atacantes, dos quais quatro teriam sido mortos e dois teriam escapado. Fontes não oficiais dizem que os militantes que ocuparam a base eram 10, dos quais seis escaparam. Fontes de Asia Times Online confirmam que os militantes atacantes eram, todos, membros da Brigada 313, de Ilyas Kashmiri – o braço operacional da al-Qaeda.

Três ataques contra ônibus da Marinha, no qual morreram pelo menos nove pessoas, mês passado, foram ‘avisos’, e visavam a pressionar o comando da Marinha paquistanesa no sentido de libertar os oficiais suspeitos presos, como a al-Qaeda desejava.

O assassinato de Osama bin Laden dia 2 de maio no Paquistão, empurrou os vários grupos da al-Qaeda na direção de um consenso que até então não havia, sobre o ataque à base em Karachi – em parte vingança pela morte do líder, e, simultaneamente, ataque contra a capacidade de vigilância do Paquistão, sempre em disputa contra a Marinha indiana.

Mas o motivo mais profundo e de mais peso foi, sem dúvida, a reação contra a perseguição e a prisão em massa de simpatizantes e afiliados da al-Qaeda que há dentro da Marinha paquistanesa.

Um vulcão de militantes 

Há várias semanas, a inteligência da marinha rastreou e localizou células da al-Qaeda em operação dentro de várias bases em Karachi – a maior cidade e porto chave no país.

“Sentimentos islâmicos são comuns e frequentes nas forças armadas” – disse a Asia Times Online alto oficial da Marinha que pediu para não ser identificado porque não tem autorização formal para falar à mídia.

“Jamais nos sentimos ameaçados por esses ou quaisquer outros sentimentos religiosos. Todos os exércitos do mundo, americano, britânico, indiano, todos eles, extraem da religião algum tipo de inspiração que ajuda a motivar os soldados, contra o inimigo. O Paquistão é resultado da teoria segundo a qual indus e muçulmanos são mundos separados e, portanto, não há como separar o Islã e os sentimentos islâmicos, e as forças armadas do Paquistão” – disse a esse jornalista o mesmo oficial.

“Apesar disso, observamos um movimento diferente, de formação de novos grupos, em várias bases navais em Karachi. Embora não se possa impedir soldados de praticar a religião ou de estudar o Islã, constatamos que esses novos grupamentos pregavam a rebelião contra a disciplina das forças armadas. A partir daí, iniciamos uma operação de inteligência na Marinha, para identificar responsáveis por pregação não desejada.”

O mesmo oficial explicou que os novos grupamentos estavam-se organizando contra a liderança das forças armadas – e contra, sobretudo, a aliança com os EUA contra a militância islâmica. Foram interceptadas mensagens que se interpretaram como planos para atacar oficiais norte-americanos em visita ao país. Nesse ponto, a inteligência paquistanesa interveio e foram detidos dez oficiais de Marinha, a maioria dos quais de baixo escalão, em várias ações.

“Foi o começo de graves problemas” – disse o oficial.

Os detidos estavam sendo mantidos num dos escritórios da inteligência em Karachi, mas antes que pudesse começar qualquer interrogatório, o encarregado das investigações foi diretamente ameaçado por militantes, que não deixaram qualquer dúvida de que sabiam exatamente onde os acusados estavam presos.

Imediatamente os acusados foram transferidos para local mais seguro, mas as ameaças continuaram. Para oficiais encarregados do caso, os militantes temiam que os interrogatórios levassem à revelação de outros membros da mesma organização também infiltrados nos quadros da Marinha. A partir daí, os militantes passaram às ameaças diretas. Deixaram bem claro que, se aqueles detidos não fossem libertados, começariam os ataques contra instalações navais.

Não havia qualquer dúvida de que os militantes continuavam a receber informação atualizada, porque sempre sabiam onde os detidos estavam, o que indicava infiltração considerável, pela al-Qaeda, nos quadros da Marinha. Convocou-se reunião de alto escalão da Marinha, na qual um oficial da inteligência insistiu em que o assunto fosse conduzido com extremo cuidado, para evitar consequências desastrosas. Todos concordaram, e decidiu-se abrir uma linha de comunicação direta com a al-Qaeda.

Abdul Samad Mansoori, estudante e ex-ativista sindical, hoje integrado à Brigada 313, criado em Karachi, mas que vive atualmente na área tribal do Waziristão Norte, foi contatado. E iniciaram-se as conversações. A al-Qaeda exigiu que todos os detidos fossem imediatamente libertados, sem mais interrogatórios. A exigência não foi aceita.

Os detidos foram autorizados a falar com familiares, que constataram que estavam sendo bem tratados, mas os oficiais da Marinha estavam interessados demais em interrogá-los, para poderem avaliar a extensão da penetração da al-Qaeda. A al-Qaeda foi informada que, depois de completado o interrogatório, os homens seriam expulsos da Marinha e libertados. A decisão não atendia aos interesses da Al-Qaeda. Como resposta, foram atacados os ônibus da Marinha, em abril.

Essa reação da al-Qaeda sugeriu aos agentes de segurança que haveria mais em jogo, do que a única célula da al-Qaeda que a Marinha já identificara. A partir desse momento, a segurança do Paquistão passou a temer que, se o problema da infiltração da al-Qaeda na Marinha não fosse adequadamente resolvido, logo poderiam surgir riscos graves também contra as linhas de suprimento da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte]. 

Os comboios da OTAN são rotineiramente atacados depois de já terem partido de Karachi para o Afeganistão. Dada a situação em Karachi, os mesmos comboios ficariam expostos a ataques já no porto de Karachi. E os norte-americanos que frequentemente visitam as instalações navais na cidade também ficariam expostos a grave risco de ataque.

A Marinha então aprofundou as investigações e fez mais presos. Dessa vez, foram detidos oficiais de diferentes origens étnicas. Um dos detidos vinha da tribo Mehsud do Waziristão do sul, e parecia ter recebido ordens diretas de Hakeemullah Mehsud, chefe do grupo Tehrik-e-Taliban Pakistan (“Talibã Paquistão”). Outros eram originais da província Punjab e de Karachi, capital da província Sindh.

Depois que Bin Laden foi morto pelos SEALs da Marinha dos EUA em Abbottabad, 60 km ao norte de Islamabad, os militantes decidiram que o momento estava maduro para ações de maiores proporções.

Em uma semana, membros infiltrados da al-Qaeda na base aeronaval de Mehran forneceram mapas, fotos de várias rotas de entrada e saída, tomadas durante o dia e à noite, a localização dos hangares e detalhes da provável reação das forças externas de segurança.

Por isso, os militantes conseguiram entrar e sair da base, apesar de ser muito fortemente protegida. Dentro da base, um grupo destruiu as duas aeronaves, um segundo grupo cuidou da defesa contra o primeiro assalto das forças de segurança, e um terceiro grupo garantiu cobertura de retaguarda aos demais. Vários conseguiram escapar, graças a essa cobertura. Todos os que ficaram na retaguarda foram mortos.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Talibã e al-Qaeda: Amigos em armas (1/2)

4/5/2011, Syed Saleem Shahzad, Asia Times Online 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nota do original:
Esse artigo foi escrito antes do anúncio da morte de Osama bin Laden, dia 2/5/2011.
Parte 2/2: “Andanças pelo Waziristão Sul”   (ainda não publicado)

WANA, Waziristão Sul – No difícil debate sobre quem é bom e quem é mau, o Paquistão tem apresentado Nazir Ahmed, associado à al-Qaeda, como modelo de “bom Talibã”. 

Do outro lado da fronteira, no Afeganistão, a história é diferente: chefe da tribo wazir da área tribal do Waziristão Sul do Paquistão, Nazir Ahmed é visto pelos exércitos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) como “o pior dos inimigos”, acusado de ser o cérebro dos mais devastadores ataques que a OTAN tem sofrido na província Paktika; e como o mais bem sucedido recrutador de soldados para os Talibã nas províncias de Zabul e Helmand. 

Apesar disso, a OTAN e os EUA, que insistem num processo de reconciliação com os Talibã, ainda repetem que Nazir seria agente do “campo do bem” dos Talibã, disposto a fazer algum acordo com o ocidente. Dificilmente poderiam estar mais distantes da realidade. 

Nazir, 36, também conhecido como Mullah Nazir ou Maulvi Nazir, falou ao jornal Asia Times Online, na primeira entrevista de sua vida a organização independente de mídia (antes, só falara ao jornal al-Sahab da al-Qaeda [1]). Vê-se desde logo que, sim, a al-Qaeda preparou uma nova geração de comandantes. Nazir, hoje, avalia toda e qualquer questão pelos critérios ideológicos e estratégicos da al-Qaeda. 

Nazir comanda o Waziristão Sul e partes também da província Paktika do outro lado da fronteira –, e nessas regiões sua palavra é lei. Até o ano passado, era proprietário de terras na província de Kandahar, núcleo do território dos Talibã no Afeganistão. 

Exceto em raríssimas circunstâncias, Nazir nunca se opôs à presença do exército no Waziristão Sul. Tampouco jamais se intrometeu no governo apoiado por Islamabad na importante cidade de Wana, exceto quando o governo, ali, se intrometeu diretamente em questões internas dos Talibã. Manteve-se neutro durante as grandes operações dos militares paquistaneses, em 2009, contra o grupoTehrik-e-Taliban Pakistan (Talibã no Paquistão). 

Em 2007, comandou o massacre de membros do Movimento Islâmico do Uzbequistão, anti-Paquistão, no qual morreram pelo menos 250 uzbeques e centenas foram expulsos de onde viviam no Waziristão Sul, depois que fugiram do Afeganistão quando da queda do governo dos Talibã em 2001. 

Do Waziristão Sul, sua rede estende-se para o sudoeste do Afeganistão, incluindo as províncias Paktika, Zabul, Helmand, até Kandahar. Semelhante a essa, a rede comandada por Sirajuddin Haqqani tem base no Waziristão Norte, de onde controla a maior rede anti-Coalizão do sudeste afegão (províncias de Paktia, Khost, Ghazni, até Kabul). 

Os aviões-robôs pilotados à distância, os drones, da CIA, já várias vezes caçaram Nazir, e ele foi ferido num ataque em 2008. Atribui o sucesso, até agora, de sempre conseguir escapar dos ataques da CIA ao fato de não se deixar ver em público. 

Extremamente leal ao líder Talibã, Mullah Omar e a parte do Talibã afegão, Nazir começou como guerrilheiro Talib convencional, seguidor do ideário populista de todo o movimento Talibã. 

As mudanças começaram em 2006, quando Nazir, como vários outros, entre os quais Sirajuddin Haqqani, entraram em contato direto com a al-Qaeda e deram-se conta de que teriam de transformar sua luta de guerrilha antiquada, para por fim à drenagem de recursos humanos vitalmente importantes, sem qualquer resultado objetivo. Daí em diante começou o processo de garantir melhor treinamento técnico e estratégico aos soldados que Nazir comandava, mudança que rapidamente começou a gerar recompensas. 

No Afeganistão, se um comandante tribal mantém-se limitado exclusivamente a relações com os Talibã, jamais terá espaço para destacar-se, porque os Talibã só oferecem baixo número de combatentes e minguados recursos financeiros. Mas se um comandante tribal alia-se à al-Qaeda, imediatamente surgem oportunidades para operações conjuntas com os altos comandantes árabes regionais, pelos quais fluem os recursos financeiros para as grandes operações. 

Além disso, facções laterais das organizações jihadistas paquistanesas, como Jaish-e-Mohammad, o movimento Laskhar-e-Taiba e os Harkatul Mujahideen também são fonte inesgotável de combatentes, nas quais todos os comandantes associados à al-Qaeda podem abastecer-se. 

Tudo leva a crer que OTAN e EUA não se tenham dado conta de que Nazir é membro destacado da al-Qaeda, agora que investem tão decididamente num chamado “processo de reconciliação” com a ala considerada “dos Talibã bons”. Tampouco parecem ver com clareza entender as mudanças dramáticas que ocorreram nos altos quadros dos Talibã. 

“Somos favoráveis a conversar com os americanos. Mas agora não é hora de conversar com eles” – disse Nazir, medindo atentamente as palavras. – “Por hora, os americanos querem espaço para respirar. Não nos interessa que respirem muito. No presente momento, não há qualquer condição para dialogarmos. Só será possível dialogar depois que as forças da OTAN se retirarem do Afeganistão” – disse ele, com um sorriso. 

“E depois da retirada, o que haverá para discutir com a OTAN?” – Nazir continuou, em tom retórico. – “Depois de a OTAN ter-se retirado do Afeganistão, poderemos discutir os pontos em que os Talibã terão direito garantido de perseguir seus próprios objetivos em todo o mundo ou, no caso de interessar à OTAN limitar alguns desses direitos, poderemos discutir também os tratados que terão de ser assinados, para que a convivência seja possível”. 

A frase colheu-me de surpresa, vinda de um Talibã que não é visto no ocidente como comandante jihadista global, mas como mero soldado guerrilheiro que luta contra a ocupação no Afeganistão. E disse eu: “Atacar alvos no exterior, no ocidente, pode ser agenda da al-Qaeda, mas nunca foi agenda dos Talibã. Assim sendo, por que o senhor imagina que o ocidente negociaria com os Talibã?" 

“Al-Qaeda e os Talibã são uma e a mesma coisa. Temos estratégias diferentes no plano operacional, mas no plano político somos absolutamente coesos” – respondeu Nazir, e surpreendeu-me ainda mais. 

“Mas o senhor é considerado anti-al-Qaeda. O senhor expulsou o Movimento Islâmico do Uzbequistão [ligado à al-Qaeda], do Waziristão Sul. Nazir ficou sério e pareceu tenso, mas num segundo acalmou-se e respondeu com voz firme: “Não sou anti-al-Qaeda. Erra quem diga isso. O que aconteceu entre meu grupo e os uzbeques foi resultado de disputas internas, de diferenças internas. Nunca fiz o que fiz por ter sido forçado a agir, por seja quem fosse.” 

Nazir contou que, depois da morte do líder do Movimento Islâmico do Uzbequistão, Tahir Yuldashev, morto num ataque de aviões-robôs em 2009, os novos comandantes uzbeques e Nazir voltaram a ter boas relações, conversaram e acertaram suas diferenças. 

“No fim das contas, todos somos mujahideen e a jihad é uma só e não ficará confinada só ao Afeganistão. Vai seguir um longo caminho. Os monarcas e ditadores do mundo árabe são usurpadores. As demonstrações de massa contra eles são manifestações pró-democracia, mas também podem beneficiar os mujahideen. A situação melhorou muito rapidamente a nosso favor, e os mujahideen do Afeganistão reunirão forças com todos os povos árabes.” – E completou: – “O primeiro local para onde já decidimos enviar nossos combatentes é o Iêmen”. 

Tentei insistir na questão da reconciliação com os Talibã: “Os jornais têm falado muito sobre um escritório oficial de representação dos Talibã na Turquia e sobre questões em torno das quais já haveria acordo” – disse eu. 

Nazir respondeu: “Sou um pequeno mujahid [combatente, guerrilheiro]. Sei pouco de política, mas uma coisa sei com certeza: que a OTAN não tem qualquer boa intenção quanto ao futuro dos Talibã. Esse tipo de escritório de representação [na Turquia] é conspiração, tentativa de deter a rede e paralisar os padrões de alta mobilidade dos Talibã. Sou mujahid pequeno, comandante pequeno, digamos assim, mas posso dizer com autoridade, no campo sobre o qual posso falar, que nenhum comandante fiel ao Mullah Mohammad Omar jamais cairá nesse tipo de armadilha, nem qualquer dos combatentes de campo. Todo o movimento está unido, de cima a baixo, na direção de rejeitar esse processo de diálogo” – disse Nazir. E acrescentou: “As grandes potências sempre se põem a fazer contorcionismos políticos, quando veem que a vitória militar é impossível”. 

“Quando os soviéticos viram que não alcançariam vitória militar no Afeganistão [no final da década dos 1980s], procuraram alianças com os senhores-da-guerra, mas nem isso salvou-os da derrota” – disse Nazir. 

Minha visita ao Waziristão Sul coincidiu com a declaração, pelos Talibã, de que em breve se iniciaria a ofensiva anual da primavera. Perguntei se havia já delineada alguma nova estratégia para esse ano. 

“Diálogo” – disse Nazir, sorrindo. 

“Diálogo com quem?” – insisti. 

“Já abrimos diálogo com o Milli Urdu [Exército Nacional Afegão]. Diálogo em vários níveis. Temos estratégia nova esse ano, que tudo faremos para implantar com sucesso, segundo a qual nenhum afegão matará afegãos, a menos que seja inevitável”. 

“Vocês estão conversando com o ministro da Defesa ou com o ministro do Interior do Afeganistão?” – perguntei. 

“Não, não há qualquer contato com líderes do campo político. A comunicação está acontecendo exclusivamente entre os comandantes de campo, dos dois lados. Antes de vir até aqui para encontrá-lo para essa entrevista, fui avisado de que um importante comandante do exército afegão quer falar comigo. A única coisa que temos a dizer a eles é que se afastem e nos deixem combater os estrangeiros. Até agora, eles têm concordado. Vez ou outra, até facilitam os contatos” – disse Nazir. 

Perguntei sobre a antiga Aliança do Norte, o bloco no norte do Afeganistão que fez feroz oposição ao regime Talibã, acompanhando os esforços de paz internacionais. 

“Estavam todos muito entusiasmados, mas os Talibã deixaram bem claro que eles  também teriam de fazer alguns sacrifícios... e eles desistiram.” Nazir acrescentou que vários altos comandantes da Aliança do Norte procuraram discutir algum acordo de futuro político com os Talibã. 

“Incluíram todos os comandantes de [província do norte] Panjshir, até Martial Fahim. Apareceram com uma fórmula, pela qual reconheceriam qualquer governo chefiado por Mullah Mohammad Omar, no qual recebessem o segundo maior número de pastas. Aceitamos tudo, dissemos que nada tínhamos contra dar-lhes posições ministeriais, mas que, antes de receber os novos ministérios, teriam de renunciar aos cargos de gabinete que exerciam e unir-se aos Talibã na luta contra a ocupação estrangeira. Foi quando desistiram de tudo” – disse Nazir. 

“Mas não foi a única oferta de paz” – Nazir continuou. Temos recebido propostas de paz das forças estrangeiras, também por vias extraoficiais. Ano passado, o exército britânico, na província de Helmand, disse aos Talibã que todas as grandes operações eram executadas pelos norte-americanos e que, se nós não atacássemos os britânicos, os britânicos não nos atacariam.” 

Eu estava pronto para pedir-lhe que discorresse sobre essa informação, quando Nazir convidou-me para almoçar: “Venha sentar-se conosco, e almoçamos juntos”. Entendi como forma polida, mas irrevogável, de dar por encerrada a entrevista.


Nota de Tradução
[1] Essa matéria pode ser lida, em inglês, em: Taliban Leader Mullah Nazir Defends Jihad in South Waziristan