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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Mikhail Khazin, sobre [antes da] fala de Putin

7/12/2014, The Saker – apresenta [*] Mikhail Khazin
Traduzido do inglês pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker

Entreouvido no furdunço do Padreco, na Vila Vudu:
A turma aqui na Vila não entende de economia. Mas uma coisa a gente bateu o olho e entendeu:
Brasil e Rússia são muuuuito parecidos, no sentido de os dois países estarem conseguindo crescer e sobreviver dentro do “grupo dos levíncolas” [os países BRICS, que continuam crescendo e incluindo e distribuindo riqueza, mesmo levando sempre pelas fuças o sempre furioso ataque dos EUA na disputa geopolítica].
É ver/ler o que aí vai, pensar e tentar, pelo menos, começar escrever as pontes-argumentos que nos conectem a realidade muito semelhante à que aí se vê e possam ajudar a explicar a nós mesmos o que a imprensa-empresa do Grupo GAFE (GloboAbrilFolha de S. PauloEstadão) existe para tornar ininteligível, e nenhuma “cumunicação” petista ou comunista nos explicou até hoje aos brasileiros pobres. Muito bom.


[Transcrição (13’) da fala em russo distribuída por French Saker, já traduzida para inglês (cc no vídeo), por e-mail, aqui traduzida]


Fala Mikhail Khazin (em russo, traduzido a seguir)

00:00:00 --> 00:00:10 – Já é bem claro para todos, hoje, até para intelectual de renome como o primeiro-ministro Cameron, da Grã-Bretanha, que a crise mundial só faz ampliar-se e aprofundar-se.

00:00:11 --> 00:00:22 – Cameron já está prevenindo o mundo de que a próxima grande crise nos espera. Já há crescente histeria entre vários líderes ocidentais.

00:00:23 --> 00:00:33 – Quando – imediatamente depois da reunião em Brisbane, a Sra. Merkel começou a promover uma zona de livre comércio entre EUA e União Europeia (cujo primeiro resultado seria a desindustrialização da Europa Ocidental, semelhante à que foi feita contra a Bulgária e os Estados Bálticos),

00:00:44 --> 00:01:06 – tornou-se logo evidente que somente eventos de grande escala forçariam esses governantes a assumir essa via tão perigosa, que nunca, em outras circunstâncias se atreveriam a propor.

00:01:07 --> 00:01:12 – É golpe violento demais contra o status, a posição deles mesmos.

00:01:13 --> 00:01:25 – Em outras palavras, não querem falar do que aconteceria em longo prazo, porque sabem que há eventos futuros, próximos, muito grandes, que desmentiriam qualquer previsão favorável que fizessem.

00:01:26 --> 00:01:28 – Que eventos são esses?

00:01:29 --> 00:01:43 – Temos de compreender os atuais eventos, de uma perspectiva econômica, cujo atual modelo é o sistema financeiro e econômico de Bretton Woods.

00:01:44 --> 00:01:58 – Muitos creem, erradamente, que esse sistema tenha morrido dia 15 de agosto de 1971, quando os EUA declararam seu segundo ‘calote’ no século 20, quando se recusaram a trocar dólares por ouro.

00:01:59 --> 00:02:02 – Mas não, o sistema não morreu.

00:02:03 --> 00:02:10 – O sistema de Bretton Woods é um mecanismo para expandir a zona do dólar, que criou suas próprias instituições especiais, a saber:

00:02:11 --> 00:02:19 – O FMI, o Banco Mundial e o acordo sobre tarifas e comércio HCT (Harmonized Customs Tariff) – que hoje é mais conhecido como “Organização Mundial do Comércio” [World Trade Organization, WTO].

00:02:20 --> 00:02:22 – Todas essas instituição continuam aí, vivas e operantes.

00:02:23 --> 00:02:29 – Essas instituições é que definem o sistema de Bretton Woods, pelo qual todos os valores são ligados ao dólar norte-americano.

00:02:30 --> 00:02:52 – O modelo da economia moderna funciona como um mecanismo de redistribuição de renda, que é constituído quando o Federal Reserve imprime dólar para comprar novos bens que são parte do sistema do dólar.

00:02:53 --> 00:03:09 – No começo, compraram os países da Europa Ocidental; depois o Japão, depois Taiwan, Cingapura, depois Coreia, China, e, adiante, os países da comunidade econômica socialista [orig. socialist Commonwealth].

00:03:10 --> 00:03:21 – Hoje, esse modelo chegou a esgotamento natural. Todos os recursos mundiais, inclusive o petróleo russo, já estão denominados em dólares.

00:03:22 --> 00:03:25 – Significa que aqueles recursos já são parte da capitalização em dólares dessas empresas, que são proprietárias dos campos de petróleo.

00:03:26 --> 00:03:28 – Não restou nenhum recurso/patrimônio no mundo a ser comprado e denominado em dólares.

00:03:29 --> 00:03:33 – Significa que é impossível continuar a imprimir dólares, porque não há o que comprar.

00:03:34 --> 00:03:38 – Houve uma tentativa para criar patrimônio fictício, para cuja compra fosse possível usar dólares – os chamados “derivativos”.

00:03:39 --> 00:03:42 – Mas os “derivativos” também deixaram de funcionar, porque se criaram derivativos demais, em excesso.

00:03:43 --> 00:03:46 – Já não há de onde extrair lucros da economia global.

00:03:47 --> 00:03:57 – Alguns atores desse mesmo processo, inclusive Rússia e China, dizem: “Mas... E onde está a nossa parte? Nunca aceitamos a ideia de vocês”.

00:03:58 --> 00:04:01 – De fato, no passado os lucros do que era emitido eram partilhados entre todos.

00:04:02 --> 00:04:06 – Claro que os EUA ficavam com a maior parte, mas os demais também estavam recebendo sua parte do bolo.

00:04:07 --> 00:04:10 – A Rússia, por exemplo, que nos interessa diretamente, recebia a parte dela graças aos altos preços da energia.

00:04:11 --> 00:04:23 – Naquele momento, as elites ainda podiam decidir se roubavam tudo, integralmente, como ainda está acontecendo na Nigéria, ou se partilhavam alguma coisa com o próprio povo.

00:04:24 --> 00:04:27 – A situação que absolutamente não interessa a ninguém é a situação em que ninguém ganha nada.

00:04:28 --> 00:04: 43 – Além do mais, para proteger sua própria economia, os EUA começaram a usar Bretton Woods, primeiramente seu sistema financeiro, não para distribuir, mas para tomar.

00:04:44 --> 00:04:52 – Um dos significados das eleições [de meio de mandato] nos EUA é que foi votação entre dois conceitos.

00:04:53 --> 00:05:02 – O primeiro (1), seria salvar a economia global à custa de recursos dos EUA; mas, em outras palavras, todos ganham alguma coisa.

00:05:03 --> 00:05:09 – O segundo (2), salvar a economia dos EUA à custa do resto do mundo; em outras palavras, tirar de todos, para dar aos EUA.

00:05:10 --> 00:05:17 – Esse segundo conceito, que os votantes nos EUA associam ao Partido Republicano, venceu.

00:05:18 --> 00:05:34 – Hoje, temos um mundo no qual os países do 3º mundo não recebem mais investimentos em dólar; e no qual, em vez disso, todos os capitais desses países fluem de volta para os EUA.

00:05:35 --> 00:05:40 – Nessa situação, que não é satisfatória para ninguém, será impossível esperar qualquer estabilidade.

00:05:41 --> 00:06: 00 – Muito provavelmente, todos começarão a sacudir o bote; e os EUA tentarão respostas só paliativas.

00:06:00 --> 00:06:03 – Obama, pelo que se sabe, apoiava a abordagem alternativa.

00:06:04 --> 00:06:08 – Para ele, melhor seria salvar o mundo, em vez de salvar só os EUA. Mas Obama foi derrotado.

00:06:09 --> 00:06:20 – Por tudo isso, sinto-me inclinado a esperar por uma explosão, para muito em breve, que quebrará em pedaços o que ainda resta do sistema de Bretton Woods.

00:06:21 --> 00:06:23 – Estimo um prazo de 12, 18 meses.

00:06:24 --> 00:06:29 – É muito provável que se manifeste, no discurso do presidente Putin, um conflito interno semelhante também na Rússia.

00:06:30 --> 00:06:39 – Há persistentes rumores de batalha interna entre essas duas forças e estão sendo redigidas duas mensagens, com trechos diferentes na parte que trata da economia.


O grupo neoliberal

00:06:40 --> 00:06:47 – A situação é a seguinte: há um grupo liberal que apoia o modelo de Bretton Woods, do FMI.

00:06:48 --> 00:07:01 – Trabalham exclusivamente a partir dos roteiros que o FMI traça. Portanto, ninguém deve esperar de tipos como Nabiullina, Ulyukaev, Shuvalov, ou Dvorkovich qualquer revelação a favor de apoiar a economia russa. [No Brasil, os tipos dos quais ninguém deve esperar coisa alguma são os FHCs, Aécios, Alckimins, Serras, Marinas Silva & Neca (?!) Itaú e toda a tucanaria da privataria & privatagem (NTs).

00:07:02 --> 00:07:05 – É gente que recebe ordens e as cumpre aplicadamente.

00:07:06 --> 00:07:12 – A lógica dessa gente é muito simples. Dizem: “Recebemos nossa fatia do bolo. Por que deveríamos destruir esse modelo?”

00:07:13 --> 00:07:19 – É gente que não aceita o fato de que já não estão recebendo nem a fatia ‘deles’, porque já não existe nem bolo nem fatia. Mas isso absolutamente não entra na cabeça deles.

00:07:20 --> 00:07:27 – A única vantagem competitiva que eles poderiam ter sobre outros é que poderiam ainda negociar com o FMI.

00:07:28 --> 00:07:33 – Mas, se o FMI, dentro do quadro do sistema de Bretton Woods, já nada tem a dar... ninguém mais precisa dessa gente [No Brasil, são os FHCs, Aécios, Alckimins, Marinas Silva & Neca (Itaú) e Serra e toda a tucanaria da privataria & privatagem (NTs)].

00:07:34 --> 00:07:41 – Por isso, toda essa gente está tentando salvar, a qualquer custo, os restos do sistema.

00:07:42 --> 00:07:48 – Não sei se realmente não compreendem, ou se compreendem perfeitamente e mesmo assim insistem, mas o resultado do que fizeram e tentam ainda fazer, é que nosso capital está sendo alienado, o que enfraquece nossa condição.

00:07:49 --> 00:07:53 – Talvez compreendam, mas se recusam a aceitar, porque teriam de fugir, voar para longe, acompanhando os capitais deles.

00:07:54 --> 00:07:57 – Mas... e como ganhariam a vida na Terra dos Livres?! Como professores medíocres, contratados semestralmente – e semestralmente desempregados, nas universidades caipiras dos EUA?

[No Brasil, os correspondentes tucanos da privataria só arranjam empreguinhos na universidade caipira que pertence ao Sr. Gilmar Mendes, em Brasília; ou, então, como colunistas alugados à Folha de S.Paulo ou a O Estado de S.Paulo ou à TV Cultura-SP. E, isso, só até serem demitidos com pé-na-bunda, como Danuzas, Cantanhêdes e outrinhos, que encheram o saco ATÉ dos fascistas burros que eles tão burramente serviram (NTs)].

00:07:58 --> 00:08:03 – Melhor, pensam eles, continuar na Rússia, onde sempre podem tentar chegar a ministro, presidente do Banco Central e coisa-e-tal.

00:08:04 --> 00:08:06 – E lá nos EUA? Conseguiriam viver como assalariados, comer do próprio trabalho?!

00:08:07 --> 00:08:13 – Imagine um desses ministros russos “modernos”, obrigado a viver de salário e tendo de pagar impostos!

00:08:14 --> 00:08:19 – Para eles, essas ideias são simplesmente o mais ofensivo cinismo.

O grupo integracionista regional, para mundo multipolar

00:08:20 --> 00:08:28 – O conceito que se opõe àquela gente diz que é tempo de construirmos nosso próprio sistema financeiro regional.

00:08:29 --> 00:08:43 – Se já não temos acesso ao mecanismo do investimento do dólar, então temos de construir nosso próprio centro regional e respectivo mecanismo regional de financiamento.

00:08:44 --> 00:08:55 – Fiz uma palestra sobre isso, anteontem, em Astana, numa grande conferência dedicada ao início do segundo plano quinquenal de industrialização.

00:08:56 --> 00:09:02 – O Cazaquistão, diferente da Rússia, já trabalha há cinco anos na substituição de importações.

00:09:03 --> 00:09:14 – Embora as condições iniciais fossem piores no Cazaquistão que na Rússia, por causa da economia menor, o país já está crescendo 4-5%, e nós, russos, não crescemos nos últimos dois anos.

00:09:15 --> 00:09:17 – Aconteceu no Cazaquistão, por causa da industrialização.

00:09:18 --> 00:09:27 – Discutimos essa questão com o presidente do Cazaquistão, numa mesa redonda prevista para 30-40 min, mas que durou duas horas.

00:09:28 --> 00:09:37 – Foi discussão real, porque Nazarbayev tinha perguntas claras a fazer e ideias claras a discutir sobre o que se pode alcançar, realistamente.

00:09:38 --> 00:09:46 – Disse a ele que precisamos de recursos de investimentos privados, porque já não há investimento algum, no quadro do sistema de Bretton Woods.

00:09:47 --> 00:09:55 – Atualmente, o que se disputa é qual estratégia escolher, não se podemos ceder.

00:09:56 --> 00:10:01 – Daí os rumores de que a fala do presidente estaria sendo preparada só pelo Kremlin, sem participação do resto do governo.

00:10:02 --> 00:10:22 – O resto do governo, com sua Escola de Economia (de Chicago), está escrevendo seus discursos neoliberais, segundo o qual só há um deus, o FMI; e suas profetas Lagarde ou Janet Yellen.

00:10:23 --> 00:10:35 – Não sei como vai acabar isso, mas estou certo de que a saída antecipada de Putin, que deixou Brisbane antes da hora prevista, não aconteceu porque algo o tivesse “ofendido”.

00:10:36 --> 00:10:46 – Perdoem-me, mas... o presidente Putin foi alto oficial de inteligência, foi treinado desde a juventude a não reagir “emocionalmente” nesse tipo de situação.

00:10:47 --> 00:10:55 – Não. O presidente Putin deixou aquela reunião, não porque alguma coisa o tivesse ofendido, mas, isso sim, porque se deu conta de que falar com aquela gente é completa perda de tempo, não leva a coisa alguma.

00:10:56 --> 00:11:14 – Aquele pessoal não quer e nem pode discutir situações críticas, porque eles são figurantes de segunda classe, naquele show. Se todos ali se comportam daquele modo porque não passam de fantoches, nós temos de falar diretamente com quem opera os cordões dos fantoches.

00:11:15 --> 00:11:18 – E se eles tampouco compreendem o que se passa, aí, já é outro problema.

00:11:19 --> 00:11:28 – De minha parte, tendo a crer que são fantoches, o que não implica que sejam levados em consideração nas políticas do operador dos fantoches. São partes relevantes, só, no funcionamento de determinadas regras do jogo.

00:11:29 --> 00:11:36 – Falo das regras que têm a ver com uma espécie de “politicamente-correto liberal” que está tão profundamente plantada na consciência deles que nem que quisessem conseguiriam livrar-se delas.

00:11:37 --> 00:11:40 – Então, continuam, como hamster que corre sem parar em sua gaiola de arame, e não está indo para lugar algum.

00:11:41 --> 00:11:46 – É completamente inútil falar com eles. Então, temos de criar modelos alternativos.

00:11:47 --> 00:11:50 – Em termos gerais, temos de esquecer por algum tempo a União Europeia e os EUA.

00:11:51 --> 00:11:57 – A UE não é entidade viável. O modo como se espatifará em pedaços, é questão à parte do que discutimos aqui.

00:11:58 --> 00:12:14 – Pode acontecer de tentarem salvar um corpo de duas metades: uns pedaços da velha Europa Ocidental formarão uma União Europeia de 1ª classe; e o Leste da Europa formará outra União Europeia de 2ª classe.

00:12:15 --> 00:12:21 – O que interessa agora, é que essa discussão não nos diz respeito e deve parar imediatamente.

00:12:22 --> 00:12:29 – Ao dizer que é necessário forçar a zona de livre comércio com os EUA, a chanceler Merkel, de fato, põe fim à União Europeia.

00:12:30 --> 00:12:32 – Por hora, é assunto para esquecer.

00:12:33 --> 00:12:59 – O agudo conflito entre forças pró-Ocidente e forças eurasianas [no Brasil, se falaria de “forças pró-EUA” e forças continentais integracionistas bolivarianas (NTs)] que começou na Rússia no início dos anos 1990s, alcançou hoje alto nível, quando forças anti-FMI, se não derrotaram totalmente os neoliberais, pelo menos já se fazem ouvir.

00:13:00 --> 00:13:13 – Temos de ver se as forças neoliberais são capazes de apresentar pelo menos algum argumento racional à sociedade. Até agora, os argumentos deles são só argumentos de autoridade, da posição de poder.

00:13:14 --> 00:13:19 – Dizem: “Seguinte, amigos: nós controlamos o FMI, então... vocês não vivem sem nós”.

00:13:20 --> 00:13:24 – É mais do que claro, hoje, que o FMI nada nos dará, e já vimos isso. Então, eles precisam apresentar outra abordagem.

00:13:25 --> 00:13:31 – Mas... E o que teriam a oferecer? Destruição da educação pública? Destruição da assistência pública à saúde? Destruição das aposentadorias e pensões? Têm o que, a nos oferecer? O sistema bancário?!

00:13:32 --> 00:13:37 – A verdade é que tudo em que os neoliberais põem a mão, vira poeira.

00:13:38 --> 00:13:42 – Se o presidente Putin da Federação Russa escolher as vias neoliberais, temo que seu poder vire poeira

[Fim da transcrição]. 
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[*] Mikhail Leonidovich Khazin (1962), economista, autor do livro Sunset of the Dollar Empire and the End of the Pax Americana (2003). Sobre o livro, há entrevista interessantíssima (inglês)em: Mikhail Khazin: U.S. will soon face second “Great Depression”

Pepe Escobar − Rússia e Turquia: pivô dentro da Eurásia

4/12/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online [recebido p/e-mail, ainda não publicado, mas pode ser lido no The Vineyard of the Saker francês]
Traduzido do francês pelo pessoal da Vila Vudu


O mais recente espetacular gambito no Oleogasodutostão – “Sai o Ramo Sul, entra o Ramo Turco” – continuará ainda por algum tempo a disparar massivas ondas geopolíticas de choque por toda a Eurásia. Disso, precisamente, trata o Novo Grande Jogo na Eurásia.


Em resumo: há alguns anos a Rússia concebeu um gasoduto Ramo Norte [orig. North Stream] – completamente operacional – e um gasoduto Ramo Sul – ainda em projeto – para contornar a Ucrânia considerada pouco confiável como país-de-trânsito para o gás. Agora, a Rússia concebe um novo bom negócio com a Turquia, para contornar a abordagem “não construtiva” (palavras de Putin) da Comissão Europeia (CE).

Para entender o jogo em curso, o contexto é indispensável. Acompanho em detalhe, já há cinco anos, a opera-das-óperas do Oleogasodutostão – a Guerra entre os gasodutos rivais Ramo Sul e Nabucco. Nabucco foi atropelado e abandonado no acostamento. O Ramo Sul pode até ressuscitar, mas só se a CE recuperar a razão (e não aposte nisso).

O gasoduto Ramo Sul com 3.600 km deveria estar construído em 2016, abraçando da Áustria aos Bálcãs/Itália. A Gazprom é proprietária de 50% (além da ENI italiana, 20%; da EDF francesa, 15%; e da Wintershall alemã, subsidiária da BASF, dona de 15%. No pé em que estão as coisas, nenhuma dessas gigantes europeias da energia está exatamente nadando em dinheiro – para dizer o mínimo. Durante meses, a Gazprom e a Comissão Europeia procuraram alguma solução. No fim, Bruxelas sucumbiu, previsivelmente, à própria mediocridade – e à incansável pressão dos EUA sobre o elo mais fraco: a Bulgária.

Gasodutos e Oleodutos em serviço e previstos para a Região
A Rússia continuará a construir um gasoduto sob o Mar Negro – mas agora redirecionado para a Turquia e, crucialmente importante, bombeando para lá a mesma quantidade de gás que o Ramo Sul bombearia. Para nem dizer que a Rússia terá uma nova central para distribuição de Gás Natural Liquefeito (GNL) no Mediterrâneo. A Gazprom portanto não gastou em vão os seus US$5 bilhões (financiamentos, custos de engenharia). O redirecionamento faz perfeito sentido comercial. A Turquia é a segunda maior cliente da Gazprom, depois da Alemanha, muito maior que Bulgária, Hungria e Áustria somadas.

A Rússia avança também numa rede unificada de distribuição de gás capaz de entregar gás natural extraído de qualquer ponto da Rússia, a qualquer central de distribuição em qualquer ponto das fronteiras russas.

E, como se fosse necessário, a Rússia exibe mais uma prova cabal, definitiva, de que o seu mercado consumidor em real crescimento para o futuro é a Ásia, sobretudo a China – não uma União Europeia acovardada, estagnada, devastada por políticas de “austeridade” e politicamente paralisada. A parceria China−Rússia que não para de crescer implica a Rússia como complementar da China, campeã dos grandes projetos de infraestrutura, da construção de barragens à implantação de oleodutos e gasodutos. É business trans-Eurásia, de vasto alcance geopolítico – não submetido a políticos afogados de ideologia.

“Derrota” dos russos? É mesmo? Onde?!

A Turquia também marcou um ponto. E não é só o negócio com a estatal russa Gazprom; Moscou construirá nada menos que toda a indústria nuclear da Turquia, além de aumentar a interação dos poderes soft (mais comércio e mais turismo). Além disso tudo, a Turquia está agora a poucos passos de converter-se em membro pleno da Organização de Cooperação de Xangai (OCX); Moscou faz ativo lobby para ajudar os turcos. Implica a Turquia ascendendo a uma posição privilegiada, como principal eixo de distribuição simultaneamente no Cinturão Econômico Eurasiano e, claro, na(s) Nova(s) Rota(s) da Seda(s) chinesa(s). A União Europeia bloqueia a Turquia? A Turquia vira-se para o leste. É a integração eurasiana em andamento.

Putin e Erdogan promovem a UNIÃO EURASIANA
Washington tenta furiosamente criar um novo Muro de Berlin, dos Bálticos ao Mar Negro, para “isolar” a Rússia. Pois nem assim a equipe que trabalha pela doutrina do “Não façam merda coisa estúpida” em Washington conseguiu antecipar mais um contra-ataque de Putin, jogada de judô/xadrez/go. E aplicada precisamente através do Mar Negro.

ATol noticia há anos o quanto é imperativo estratégico chave indispensável para a Turquia configurar-se como entroncamento de condução de energia do Oriente para o Ocidente – fazendo transitar qualquer coisa, do petróleo iraquiano ao gás do Mar Cáspio. O petróleo do Azerbaijão já atravessa a Turquia via o oleoduto BTC (Baku-Tblisi-Ceyhan), alavancado por Bill Clinton/Zbig Brzezinski. A Turquia também estaria no entroncamento se algum óleo/gasoduto Trans-Caspiano vier a ser construído (as chances são poucas, considerada a atual situação), para bombear gás natural do Turcomenistão para o Azerbaijão, dali transportado para a Turquia e afinal, para a Europa.

Assim sendo, o contragolpe de judô/xadrez/GO que Putin aplicou num único movimento implica forçar as estúpidas sanções que a UE aplicou à Rússia a ferirem, mais uma vez, a UE. A economia alemã já está padecendo amargamente a perda de negócios com a Rússia.

A brilhante “estratégia” da CE (EU) baila em torno do chamado Terceiro Pacote de Energia da União Europeia, que exige que os dutos e o gás natural que flui por eles pertençam a empresas diferentes. O alvo desse pacote sempre foi a empresa Gazprom – proprietária de gasodutos em muitos países da Europa Central e da Europa Oriental. E o alvo dos alvos sempre foi o gasoduto Ramo Sul.

Modelo da Central Nuclear da Turquia que deverá ser construída pela empresa russa ROSATOM na província de Mersin com entrada em serviço prevista para 2016
Agora, cabe a Bulgária e Hungria – países que, vale anotar, sempre se opuseram à “estratégia” da CE – explicar o fiasco às suas respectivas populações, e continuar a pressionar Bruxelas; afinal de contas, todos por ali estão condenados a perder fortunas, para nem falar que logo estarão sem gás, com o Ramo Sul fora de jogo.

O resumo da história é, pois, o seguinte: a Rússia vende ainda mais gás – à Turquia; a Turquia obtém seu muito necessário gás, com belo desconto; e a União Europeia, pressionado pelo Império do Caos, fica reduzido a dançar, dançar, dançar, feito galinhas degoladas, pelos escuros corredores de Bruxelas, sem entender o que desabou sobre elas. E enquanto os atlanticistas voltam ao modo-padrão, o único que conhecem – de cozinhar mais e mais sanções – a Rússia só faz comprar mais e mais ouro.

Cuidado com aquelas espadas

Não é o fim do jogo – longe disse. No futuro próximo, muitas variáveis entrecruzam-se.

O jogo de Ancara pode mudar – mas nada assegura que mude. O presidente Erdogan – o sultão de Constantinopla – com certeza identificou um califa desafiante, afamado no ISIS/ISIL/Daesh, que tenta roubar seu poder de feitiço. Assim sendo, o sultão pode flertar com a ideia de suavizar seus sonhos neo-otomanos, e conduzir a Turquia de volta à sua doutrina anterior de “zero problemas com os vizinhos”.

Sim, mas, devagar. O jogo de Erdogan, até aqui foi o mesmo que da Casa de Saud e da Casa de Thani: livrar-se de Assad, para possibilitar um oleoduto desde a Arábia Saudita, e um gasoduto desde os megacampos de Pars Sul/Dome Norte, no Qatar. Esse oleogasoduto seria Qatar-Iraque-Síria-Turquia, rivalizando com o já proposto Irã-Iraque-Síria, de US$ 10 bilhões. Consumidores finais: União Europeia, claro, desesperada em sua ofensiva de “fuja da Gazprom”.

-- Caro vizinho, como vão seus extremistas?
Assim sendo... o que acontecerá? Será que Erdogan abandonará sua obsessão de “Assad tem de sair”? Ainda é cedo para saber. O ministro turco de Relações Exteriores anda espalhando que Washington e Ancara estão próximas de definir uma zona aérea de exclusão ao longo da fronteira turco-síria – embora a Casa Branca, no início da semana, tenha insistido em que a ideia fora abandonada.

A Casa de Saud está como camelo perdido no Ártico. O jogo letal da Casa de Saud sempre se resumiu na mudança de regime para que pudesse ser construído o oleoduto patrocinado pelos sauditas da Síria até a Turquia. Agora os sauditas veem a Rússia a um passo de fornecer toda a energia de que a Turquia precisa – além de já estar posicionada para vender mais gás à União Europeia, em futuro próximo. E a coisa de “Assad tem de sair” não sai.

Mas são os neoconservadores nos EUA quem afiam, com fúria, as respectivas espadas envenenadas. Já nos primeiros dias de 2015 estará em votação na Câmara de Representantes uma “Lei de Liberdade para a Ucrânia” [orig. Ukrainian Freedom Act]. Tradução: a Ucrânia convertida em “principal aliado não-OTAN dos EUA”, o que, na prática, significa virtual anexação da Ucrânia pela OTAN. Passo seguinte: mais provocações turbinadas, pelos neoconservadores, contra a Rússia.

Um cenário possível é estados fantoches/vassalos como Romênia ou Bulgária – pressionados por Washington – decidir permitir pleno acesso aos navios de guerra da OTAN dentro do Mar Negro. Quem liga se o movimento viola os tratados atualmente vigente para o Mar Negro, que afetam ambas, Rússia e Turquia?  

E há ainda um perigoso “não sabido sabido” rumsfeldiano: como se sentirão os frágeis Bálcãs, subordinados aos desejos de Ancara. Assim como Bruxelas mantém Grécia, Bulgária e Sérvia num colete apertado, em termos de energia eles começarão a depender da boa vontade da Turquia.

Por hora, apreciemos a magnitude das ondas geopolíticas de choque, depois da jogada combode judô/xadrez/go. E nos preparemos para mais um capítulo do “pivô cruzando a Eurásia”, da Rússia. Semana que vem Putin visitará Delhi. Preparem-se para mais notícias-bomba geopolíticas.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro, Empire of Chaos, acaba de ser publicado pela Nimble Books.