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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Putin, na defensiva, mobiliza o próprio capital político pessoal

19/11/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


The Saker
Comecemos pelo que eu, pessoalmente, considero más notícias: ou Putin realmente acredita na economia liberal de mercado, ou tem de dizer que acredita. Começou e terminou a sessão de Perguntas & Respostas com manifestação enfática, categórica, de total apoio às políticas do Banco Central e à sua presidenta, Nabiulina; e com apoio não menos categórico também ao governo e ao seu Primeiro-Ministro, Medvedev. Pior: Putin declarou que acredita que as forças de mercado, elas mesmas, corrigirão os desequilíbrios atuais. No máximo, concordou que algumas decisões teriam de ter sido tomadas há mais tempo, mas só isso.

Alguns adorarão a ideia. Lew Rockwell chegou a escrever que daria a Elvira Nabiulina o prêmio de “Banqueira-Central do Ano”. Nem todos concordam. Victor Gerashchenko, por exemplo, ex-presidente do Banco Central, disse que se estivesse na posição de Nabiulina hoje, “pedia uma arma e dava um tiro na cabeça”.

Tenho de admitir que eu, pessoalmente, estou decepcionado pela aparente fé que Putin deposita na economia de mercado. Digo “aparente”, porque é possível que haja coisas de que não estou informado. Por exemplo, quanto mais Putin fala de “forças de mercado”, mais a China parece envolver-se mais pesadamente na economia russa. Para os interessados nesses desenvolvimentos, verifiquem, por favor as seguintes fontes:


O amigo chinês que me enviou o artigo de People's Daily enviou também um comentário particularmente interessante. Ele escreveu:

Política Yin e yang? Não há como não ver aí um padrão muito forte. China e Rússia estão, ambas, engajando o inimigo/aliado da outra, com os quais têm atritos, para trazê-los para dentro da dobra eurasiana. Que lhe parece? É intencional? No início do ano tive minhas dúvidas, mas continua a acontecer cada vez mais.

Acho que acerta o olho do alvo. É do mais alto interesse estratégico russo que a China aplique um pouco de “diplomacia do yuan” na União Europeia, não só porque a China é aliado próximo, mas, principalmente, porque a China “não é os EUA”. Nesse ponto do tempo, “qualquer coisa” que enfraqueça o total controle que os EUA mantêm sobre suas colônias na União Europeia é bem-vinda. Cada yuan investido na União Europeia é um dólar não investido.

É só um exemplo. Putin provavelmente sabe muitas coisas que nós não sabemos, e não pode provavelmente dizer tudo que sabe ou planeja. Mas minha impressão completamente subjetiva é que Putin simplesmente não tem o poder necessário para confrontar cara a cara os Integracionistas Atlanticistas.

Mikhail Kazin
Mikhail Khazin, que sabe muito, já disse até, recentemente, que há Integracionistas Atlanticistas nos “ministérios de poder. E dado que tenho certeza de que ele não se referia ao Ministério da Defesa, restam os Ministérios de Assuntos Internos ou de Segurança do Estado.  Se for verdade, não é bom. É isso ou, então, Putin sinceramente acredita em economia liberal de mercado. Quanto a mim, absolutamente não acredito.

Na minha avaliação, há dois principais problemas com a lógica de Putin. Primeiro, a Rússia precisa não menos, mas MAIS regulações e MAIS controle pelo Estado. No mínimo, realmente creio que a simples instituição do Banco Central já é tóxica: foi criado pelo regime de Ieltsin, que os EUA controlavam, para subordinar a política russa (e os políticos) aos cartéis internacionais de bancos; e vê-se que funciona à perfeição. Putin pode disparar aviões bombardeiros para o Golfo do México, mas não consegue demitir Nabiulina, muito menos assumir o controle do Banco Central.

Nikolai Starikov disse até que a piada que está circulando agora informa que “Putin enviará tropas para o Banco Central”. Mostra o quando muitos russos estão desgostosos com a tal instituição supranacional que não presta contas a nada e ninguém. Mas é pior que isso.

A opção a favor da “solução” tipo mercado-livre não regulado basicamente entrega a Rússia, de mãos amarradas, ao sistema financeiro controlado pelo império anglo-sionista. Como poderá a Rússia libertar-se da “canga do dólar”, se permanecer como integrante do sistema internacional dominado pelo dólar?!

Tenho de dizer que publiquei, agradecido, o excelente artigo de Peter Koenig [“Dólar em queda livre – Brilhante plano dos gênios da economia russa? Quem é o gênio do xadrez?” (ing.)], mas foi daquelas ocasiões em que publico algo que me parece interessante, mas com cujo conteúdo não concordo. Meu instinto repete insistentemente que Putin não está aplicando qualquer “golpe esperto” de judô nos plutocratas ocidentais. Espero sinceramente estar errado, mas é o que me diz o meu instinto.

De modo geral, Putin esteve sempre na defensiva, todas as vezes que teve de responder perguntas sobre o Banco Central e o governo. Especialmente diferente, se se compara com o modo absolutamente magnífico como ele lidou com as perguntas sobre a Ucrânia, mesmo quando interrogado por um jornalista ucraniano muitíssimo hostil. Repito o que já disse muitas vezes: não sou profeta, nem leio pensamentos.

Não sei o que Putin pensa ou o que fará. Mas acho que os muitos anos que acumulo, observando o homem, deram-me uma espécie de “instinto bem informado” sobre ele; e esse instinto diz que Putin tem, sim, visão forte e clara da política internacional, especialmente sobre a Ucrânia; mas que não tem o mesmo tipo de visão forte e clara para os problemas econômicos.

No que tenha a ver com a Ucrânia, a posição de Putin é clara como cristal:

A Crimeia é nossa para sempre, não deixaremos que esmaguem o Donbass; queremos uma Ucrânia sem algemas, na qual sejam respeitados os direitos dos povos e das regiões, e vocês têm de negociar com os novorussos, que tem direito pleno à autodeterminação (posição que deixa aberta a possibilidade de que, embora a Rússia possa ‘'preferir'’ uma Ucrânia unida, os novorussos têm o “direito” de optar por outra solução).

Vladimir Putin - sobre a Crimeia e o Donbass
Clara, direta e, eu diria, perfeitamente razoável. Em contraste, no que tenha a ver com a economia, farejo alguma coisa como política “fundamentada na fé” [liberal]: “as forças de mercado corrigirão a situação artificial atual e, dentro de dois anos, a crise estará superada”.

O problema aí é que o mesmo Putin TAMBÉM diz que o ocidente está manipulando completamente os mercados, sem deixar espaço para que as forças de mercado atuem. Assim sendo, o que Putin está realmente dizendo é: “o Império não tem os meios para engambelar os mercados por mais de dois anos”. Ah-é? Será? É mesmo? Não estou, não, de modo algum, convencido disso. Pelo que já se viu, o Império está engambelando os mercados, já há muitos e muitos anos (pode-se dizer... desde 1971).

Resumo: o que ouço de Putin em matéria econômica é “mais do mesmo”; e dado que não estou gostando do que vejo, tenho de acrescentar “só que piorado”.

Mesmo assim, a situação não é fatalmente desesperadora. Por mais que eu pense que as políticas econômicas de Putin estejam erradas, e por mais que creia que o Banco Central Russo é muito mais parte do problema, não da solução, não há aí escolha binária, ou branco ou preto: jogar por regras erradas, ou no campo errado de jogo não implica necessariamente que você perderá o jogo; só que você fez uma escolha inicial errada.

Para começar, pode-se argumentar, corretamente, que o rublo é moeda com fundamentos muito mais firmes e confiáveis que o dólar.

Segundo, concordo que as forças de mercado estão resistindo contra a distorção norte-americana, e que a integração de China e Rússia contribuirá inevitavelmente para ajudar a economia russa.

Terceiro, a União Europeia já está em recessão, e se a coisa piorar, começará a quebradeira de bancos norte-americanos muito pesadamente conectados ao mercado da União Europeia.

Quarto, em termos objetivos, a Rússia permanece sentada sobre uma fortuna tangível de recursos naturais, e tem pleno acesso ao gigantesco mercado chinês. Nessas condições, será terrivelmente difícil para os anglo-sionistas “isolar” a Rússia. Assim, objetivamente, Putin acerta num ponto: ainda que as coisas talvez piorem antes de melhorar, elas inevitavelmente melhorarão.

Significa que Putin é jogador gênio de xadrez? Não diria isso. Não há dúvidas de que acumula currículo de movimentos políticos absolutamente brilhantes. Sim, mas, agora, Putin está visivelmente lutando. Sou como todos: queremos vê-lo surgir com mais um brilhante “movimento de xadrez” e espetá-lo no coração do Império, mas não estou vendo como Putin possa fazer tal coisa, não, pelo menos, nesse momento do processo.

O que vi na coletiva de imprensa é um Putin claramente na defensiva, que teve de mobilizar muito de seu capital pessoal de popularidade e confiabilidade. Ele admitiu honestamente que as coisas podem ainda piorar, e que não há remédio de efeito instantâneo para a atual crise. Comprometeu-se claramente com um período de dois anos, prazo simultaneamente curto demais e longo demais. É tempo demais, suficiente para destruir sua popularidade; e é tempo de menos para inverter o rumo de um país gigantesco como a Rússia.

O momento mais pungente das três horas de coletiva aconteceu quando Putin explicou o que está em jogo hoje. Disse ele:

Putin no Clube Valdai
No Clube Valdai, dei um exemplo de nosso símbolo mais facilmente identificável. É um urso protegendo sua taiga. Se prosseguirmos nessa analogia, às vezes penso que talvez o melhor, para nosso urso fosse não se mover, permanecer parado. Talvez devesse deixar de caçar porcos e javalis pela taiga, e pôr-se a colher amoras e a comer mel. Talvez, assim, o deixassemem paz. Mas não, não é assim. Sempre haverá alguém ali tentando acorrentá-lo. E se o acorrentarem, imediatamente lhe cortam as garras e os dentes.

Nessa analogia, refiro-me ao poder da contenção nuclear. Quando acontecer – que Deus não permita – e eles já não precisarem do urso, a taiga será invadida e destruída (...) E então, já sem dentes e sem garras, o urso será plenamente descartável, sem qualquer serventia. Talvez o empalhem, e ponto final.

O que estou dizendo é que não se trata da Crimeia, mas de nós protegermos nossa independência, nossa soberania e nosso direito de existir. Isso é o que todos temos de entender.

Palavras impressionantes, que confirmam plenamente um dos fatos mais importantes da atual situação: o Império Anglo-Sionista e a Rússia estão em guerra, guerra na qual ou o Urso Russo será “empalhado, e ponto final”, ou o Império Anglo-Sionista ruirá. É guerra existencial para os dois lados, para o Império Anglo-Sionista e para o Campo Civilizacional Russo – um deles derrotará o outro.

Não é a primeira vez que Putin explica isso, mas dessa vez senti na voz dele uma urgência que nunca vi nele, antes. Putin estava, simultaneamente, alertando o povo russo e pedindo ao povo que lhe dê apoio, a ele, pessoalmente. Meu palpite é que terá o apoio de que precisa, mas não sei por quanto tempo.

The Saker

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A maior ameaça contra a Rússia e contra Putin [e contra Dilma e...]

Acooordem! A Rússia é aqui! O bicho tá pegano! Heeeeeeeeelp!

8/12/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no quiosque do Birolho na Vila Vudu: Mais um artigo para compor uma premiadíssima série ainda não escrita a ser intitulada “TOOOOODOS OS BRICS ainda têm de lutar para sobreviver ao ataque furioso, violentíssimo, da GGOG (Grande Grana Ocidental Global)”.

A verdade é que o que torna aparentados todos os países chamados BRICS não é algum “desenvolvimento-em-si”, mas o estrondoso sucesso que alcançaram, ao não se terem deixado atropelar & matar totalmente pela GGOG como, por exemplo, a União Europeia deixou-se atropelar-matar-total.

E a disputa vai-se agravando, quanto mais se estende o tempo de sobrevida-com-sucesso, dos países BRICS, contra os desejos e projetos da GGOG.

O mais preocupante, hoje – e é o que o Saker anota aí, em relação à Rússia – é que NENHUM dos países BRICS tem desenvolvida qualquer “teoria da resistência” contra o assalto da GGOG aos BRICS.

De fato, a única “teoria” que há circulante é a “teoria” que manda abrir as portas prôs ladrões e liberar geral, teoria também chamada “livre neoliberalismo da/para a privataria cum pirataria et agito das ONGs-pussies & CIA”.

“Ah... [suspiro] que saudade do Comandante Hugo Chavez!” [pano rápido]

The Saker
O recente discurso de Putin à Assembleia Geral da Federação Russa foi constituído de duas partes: uma parte em que falou sobre a política exterior da Rússia e que foi fala indiscutivelmente histórica; e outra, na qual falou sobre economia interna. E essa segunda parte foi o triste desapontamento, para dizer o mínimo. De fato, devo dizer que foi aterrorizante. Não vou postar toda essa parte “econômica”; os interessados podem ler (em espanhol) no blog redecastorphoto ou (em inglês) na página do Kremlin. Mas eis o meu resumo do que Putin disse:

●– Faremos todos os esforços para ajudar a comunidade empresarial russa; faremos todos os esforços também para fazer retornar à Rússia todo o dinheiro russo que está escondido em paraísos fiscais longe daqui; e criaremos estabilidade e previsibilidade.

OK, tudo muito bonito, tudo muito bem, exceto que Putin não disse tudo que realmente faria diferença. Como, dentre outros “não ditos”:

●– Putin não denunciou como criminoso o trabalho da presidenta do Banco Central Russo.
●– Putin não ameaçou vender bônus dos EUA e trazer para casa de volta o dinheiro dos russos.
●– Putin não demitiu um único oficial russo por incompetência nem, muito menos, por sabotagem.
●– Putin não anunciou grande modificação no status do rublo; não falou, por exemplo, sobre o rublo-ouro.
●– Putin não rejeitou o modelo econômico ocidental.
●– Putin não anunciou qualquer reforma, nem que o estado russo estatizará o Banco Central da Rússia.
●– Mais importante, Putin não anunciou nenhuma grande mudança na política econômica.

Vladimir Putin
Não tenho como saber se Putin acredita sinceramente nos dogmas econômicos liberais ocidentais, ou se só lhe resta fingir que acredita. Mas o resultado é o mesmo: Putin rejeita o modelo político ocidental, ao mesmo tempo em que, ao que parece, endossa integralmente o modelo econômico.

Acabo de assistir a uma entrevista de Mikhail Khazin e Evegnii Feodorov, pela rádio Russian New Service (em russo), e os dois estão tocando o alarme.

Elvira Nabiullina
Khazin está exigindo que a presidenta do Banco Central da Rússia (Elvira Nabiullina), seja demitida e presa; Feodorov quer a extinção do Banco Central. Concordo com ambos.

A economia russa em geral, e o rublo em especial, estão ambos sob ataque direto, não só por efeito das sanções, mas também por movimentos e operações especulativos. O preço do petróleo está em colapso, efeito, provavelmente, de várias razões objetivas (recessão mundial) e operações deliberadas dos EUA. Mas Putin não está introduzindo nenhuma mudança significativa no rumo da economia, e até elogiou o Banco Central por suas atividades! Não faz recordar algo?

Pessoalmente, tudo isso me faz relembrar o que aconteceu nos últimos meses de Anatolii Serdiukov, quando os militares russos estavam sendo atingidos por um escândalo depois de outro, sem parar, e Putin continuava a elogiar Serduikov e seu trabalho. Afinal, Serdiukov foi demitido e substituído pelo realmente destacado e impressionante Shoigu, mas a demissão de Serdiukov demorou muito, exigiu trabalho muito intenso. E até hoje nenhum tribunal condenou Serdiukov por suas numerosas atividades criminosas.

Significa que Putin é hesitante, fraco ou que está confuso?
[Significa que Dilma é hesitante, fraca ou que está confusa? (NTs)]

Acho que não. Acho que tudo isso mostra que uma das tarefas mais gigantescas e mais perigosas para Putin é livrar-se dos sabotadores nos altos escalões do poder.

Mikhail Khazin
O mesmo Mikhail Khazin disse recentemente que só agora o poder do grupo Soberanista Eurasiano pró-Putin começa a equivaler, aproximadamente, ao poder dos Integracionistas Atlanticistas pró-EUA (não usou essas palavras, que são expressões minhas).

Esperemos que Putin esteja planejando, para Nabiulina, operação semelhante à que conseguiu destituir Serdiukov, mas nada parece apontar nessa direção. A pressão sobre Putin aumenta para que tome medidas dramáticas e, de uma vez por todas, desconecte a economia russa da ortodoxia neoliberal conhecida como “Consenso de Washington”, mas também há forte resistência.

Essa é, de longe, a maior ameaça contra Rússia e contra Putin [e contra o Brasil e contra Dilma (NTs)]: a 5ª coluna de sabotadores nos mais altos postos do poder, sobretudo, ainda, dentro do governo [e no venal JUDICIÁRIO brasileiro (Nrc)]. Enquanto esse pessoal permanecer no poder, a Rússia [e o Brasil (Nrc)] continuará fraca e frágil e muito suscetível às armas da econômica que o ocidente mobiliza contra o mundo.


The Saker

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Mikhail Khazin, sobre [antes da] fala de Putin

7/12/2014, The Saker – apresenta [*] Mikhail Khazin
Traduzido do inglês pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker

Entreouvido no furdunço do Padreco, na Vila Vudu:
A turma aqui na Vila não entende de economia. Mas uma coisa a gente bateu o olho e entendeu:
Brasil e Rússia são muuuuito parecidos, no sentido de os dois países estarem conseguindo crescer e sobreviver dentro do “grupo dos levíncolas” [os países BRICS, que continuam crescendo e incluindo e distribuindo riqueza, mesmo levando sempre pelas fuças o sempre furioso ataque dos EUA na disputa geopolítica].
É ver/ler o que aí vai, pensar e tentar, pelo menos, começar escrever as pontes-argumentos que nos conectem a realidade muito semelhante à que aí se vê e possam ajudar a explicar a nós mesmos o que a imprensa-empresa do Grupo GAFE (GloboAbrilFolha de S. PauloEstadão) existe para tornar ininteligível, e nenhuma “cumunicação” petista ou comunista nos explicou até hoje aos brasileiros pobres. Muito bom.


[Transcrição (13’) da fala em russo distribuída por French Saker, já traduzida para inglês (cc no vídeo), por e-mail, aqui traduzida]


Fala Mikhail Khazin (em russo, traduzido a seguir)

00:00:00 --> 00:00:10 – Já é bem claro para todos, hoje, até para intelectual de renome como o primeiro-ministro Cameron, da Grã-Bretanha, que a crise mundial só faz ampliar-se e aprofundar-se.

00:00:11 --> 00:00:22 – Cameron já está prevenindo o mundo de que a próxima grande crise nos espera. Já há crescente histeria entre vários líderes ocidentais.

00:00:23 --> 00:00:33 – Quando – imediatamente depois da reunião em Brisbane, a Sra. Merkel começou a promover uma zona de livre comércio entre EUA e União Europeia (cujo primeiro resultado seria a desindustrialização da Europa Ocidental, semelhante à que foi feita contra a Bulgária e os Estados Bálticos),

00:00:44 --> 00:01:06 – tornou-se logo evidente que somente eventos de grande escala forçariam esses governantes a assumir essa via tão perigosa, que nunca, em outras circunstâncias se atreveriam a propor.

00:01:07 --> 00:01:12 – É golpe violento demais contra o status, a posição deles mesmos.

00:01:13 --> 00:01:25 – Em outras palavras, não querem falar do que aconteceria em longo prazo, porque sabem que há eventos futuros, próximos, muito grandes, que desmentiriam qualquer previsão favorável que fizessem.

00:01:26 --> 00:01:28 – Que eventos são esses?

00:01:29 --> 00:01:43 – Temos de compreender os atuais eventos, de uma perspectiva econômica, cujo atual modelo é o sistema financeiro e econômico de Bretton Woods.

00:01:44 --> 00:01:58 – Muitos creem, erradamente, que esse sistema tenha morrido dia 15 de agosto de 1971, quando os EUA declararam seu segundo ‘calote’ no século 20, quando se recusaram a trocar dólares por ouro.

00:01:59 --> 00:02:02 – Mas não, o sistema não morreu.

00:02:03 --> 00:02:10 – O sistema de Bretton Woods é um mecanismo para expandir a zona do dólar, que criou suas próprias instituições especiais, a saber:

00:02:11 --> 00:02:19 – O FMI, o Banco Mundial e o acordo sobre tarifas e comércio HCT (Harmonized Customs Tariff) – que hoje é mais conhecido como “Organização Mundial do Comércio” [World Trade Organization, WTO].

00:02:20 --> 00:02:22 – Todas essas instituição continuam aí, vivas e operantes.

00:02:23 --> 00:02:29 – Essas instituições é que definem o sistema de Bretton Woods, pelo qual todos os valores são ligados ao dólar norte-americano.

00:02:30 --> 00:02:52 – O modelo da economia moderna funciona como um mecanismo de redistribuição de renda, que é constituído quando o Federal Reserve imprime dólar para comprar novos bens que são parte do sistema do dólar.

00:02:53 --> 00:03:09 – No começo, compraram os países da Europa Ocidental; depois o Japão, depois Taiwan, Cingapura, depois Coreia, China, e, adiante, os países da comunidade econômica socialista [orig. socialist Commonwealth].

00:03:10 --> 00:03:21 – Hoje, esse modelo chegou a esgotamento natural. Todos os recursos mundiais, inclusive o petróleo russo, já estão denominados em dólares.

00:03:22 --> 00:03:25 – Significa que aqueles recursos já são parte da capitalização em dólares dessas empresas, que são proprietárias dos campos de petróleo.

00:03:26 --> 00:03:28 – Não restou nenhum recurso/patrimônio no mundo a ser comprado e denominado em dólares.

00:03:29 --> 00:03:33 – Significa que é impossível continuar a imprimir dólares, porque não há o que comprar.

00:03:34 --> 00:03:38 – Houve uma tentativa para criar patrimônio fictício, para cuja compra fosse possível usar dólares – os chamados “derivativos”.

00:03:39 --> 00:03:42 – Mas os “derivativos” também deixaram de funcionar, porque se criaram derivativos demais, em excesso.

00:03:43 --> 00:03:46 – Já não há de onde extrair lucros da economia global.

00:03:47 --> 00:03:57 – Alguns atores desse mesmo processo, inclusive Rússia e China, dizem: “Mas... E onde está a nossa parte? Nunca aceitamos a ideia de vocês”.

00:03:58 --> 00:04:01 – De fato, no passado os lucros do que era emitido eram partilhados entre todos.

00:04:02 --> 00:04:06 – Claro que os EUA ficavam com a maior parte, mas os demais também estavam recebendo sua parte do bolo.

00:04:07 --> 00:04:10 – A Rússia, por exemplo, que nos interessa diretamente, recebia a parte dela graças aos altos preços da energia.

00:04:11 --> 00:04:23 – Naquele momento, as elites ainda podiam decidir se roubavam tudo, integralmente, como ainda está acontecendo na Nigéria, ou se partilhavam alguma coisa com o próprio povo.

00:04:24 --> 00:04:27 – A situação que absolutamente não interessa a ninguém é a situação em que ninguém ganha nada.

00:04:28 --> 00:04: 43 – Além do mais, para proteger sua própria economia, os EUA começaram a usar Bretton Woods, primeiramente seu sistema financeiro, não para distribuir, mas para tomar.

00:04:44 --> 00:04:52 – Um dos significados das eleições [de meio de mandato] nos EUA é que foi votação entre dois conceitos.

00:04:53 --> 00:05:02 – O primeiro (1), seria salvar a economia global à custa de recursos dos EUA; mas, em outras palavras, todos ganham alguma coisa.

00:05:03 --> 00:05:09 – O segundo (2), salvar a economia dos EUA à custa do resto do mundo; em outras palavras, tirar de todos, para dar aos EUA.

00:05:10 --> 00:05:17 – Esse segundo conceito, que os votantes nos EUA associam ao Partido Republicano, venceu.

00:05:18 --> 00:05:34 – Hoje, temos um mundo no qual os países do 3º mundo não recebem mais investimentos em dólar; e no qual, em vez disso, todos os capitais desses países fluem de volta para os EUA.

00:05:35 --> 00:05:40 – Nessa situação, que não é satisfatória para ninguém, será impossível esperar qualquer estabilidade.

00:05:41 --> 00:06: 00 – Muito provavelmente, todos começarão a sacudir o bote; e os EUA tentarão respostas só paliativas.

00:06:00 --> 00:06:03 – Obama, pelo que se sabe, apoiava a abordagem alternativa.

00:06:04 --> 00:06:08 – Para ele, melhor seria salvar o mundo, em vez de salvar só os EUA. Mas Obama foi derrotado.

00:06:09 --> 00:06:20 – Por tudo isso, sinto-me inclinado a esperar por uma explosão, para muito em breve, que quebrará em pedaços o que ainda resta do sistema de Bretton Woods.

00:06:21 --> 00:06:23 – Estimo um prazo de 12, 18 meses.

00:06:24 --> 00:06:29 – É muito provável que se manifeste, no discurso do presidente Putin, um conflito interno semelhante também na Rússia.

00:06:30 --> 00:06:39 – Há persistentes rumores de batalha interna entre essas duas forças e estão sendo redigidas duas mensagens, com trechos diferentes na parte que trata da economia.


O grupo neoliberal

00:06:40 --> 00:06:47 – A situação é a seguinte: há um grupo liberal que apoia o modelo de Bretton Woods, do FMI.

00:06:48 --> 00:07:01 – Trabalham exclusivamente a partir dos roteiros que o FMI traça. Portanto, ninguém deve esperar de tipos como Nabiullina, Ulyukaev, Shuvalov, ou Dvorkovich qualquer revelação a favor de apoiar a economia russa. [No Brasil, os tipos dos quais ninguém deve esperar coisa alguma são os FHCs, Aécios, Alckimins, Serras, Marinas Silva & Neca (?!) Itaú e toda a tucanaria da privataria & privatagem (NTs).

00:07:02 --> 00:07:05 – É gente que recebe ordens e as cumpre aplicadamente.

00:07:06 --> 00:07:12 – A lógica dessa gente é muito simples. Dizem: “Recebemos nossa fatia do bolo. Por que deveríamos destruir esse modelo?”

00:07:13 --> 00:07:19 – É gente que não aceita o fato de que já não estão recebendo nem a fatia ‘deles’, porque já não existe nem bolo nem fatia. Mas isso absolutamente não entra na cabeça deles.

00:07:20 --> 00:07:27 – A única vantagem competitiva que eles poderiam ter sobre outros é que poderiam ainda negociar com o FMI.

00:07:28 --> 00:07:33 – Mas, se o FMI, dentro do quadro do sistema de Bretton Woods, já nada tem a dar... ninguém mais precisa dessa gente [No Brasil, são os FHCs, Aécios, Alckimins, Marinas Silva & Neca (Itaú) e Serra e toda a tucanaria da privataria & privatagem (NTs)].

00:07:34 --> 00:07:41 – Por isso, toda essa gente está tentando salvar, a qualquer custo, os restos do sistema.

00:07:42 --> 00:07:48 – Não sei se realmente não compreendem, ou se compreendem perfeitamente e mesmo assim insistem, mas o resultado do que fizeram e tentam ainda fazer, é que nosso capital está sendo alienado, o que enfraquece nossa condição.

00:07:49 --> 00:07:53 – Talvez compreendam, mas se recusam a aceitar, porque teriam de fugir, voar para longe, acompanhando os capitais deles.

00:07:54 --> 00:07:57 – Mas... e como ganhariam a vida na Terra dos Livres?! Como professores medíocres, contratados semestralmente – e semestralmente desempregados, nas universidades caipiras dos EUA?

[No Brasil, os correspondentes tucanos da privataria só arranjam empreguinhos na universidade caipira que pertence ao Sr. Gilmar Mendes, em Brasília; ou, então, como colunistas alugados à Folha de S.Paulo ou a O Estado de S.Paulo ou à TV Cultura-SP. E, isso, só até serem demitidos com pé-na-bunda, como Danuzas, Cantanhêdes e outrinhos, que encheram o saco ATÉ dos fascistas burros que eles tão burramente serviram (NTs)].

00:07:58 --> 00:08:03 – Melhor, pensam eles, continuar na Rússia, onde sempre podem tentar chegar a ministro, presidente do Banco Central e coisa-e-tal.

00:08:04 --> 00:08:06 – E lá nos EUA? Conseguiriam viver como assalariados, comer do próprio trabalho?!

00:08:07 --> 00:08:13 – Imagine um desses ministros russos “modernos”, obrigado a viver de salário e tendo de pagar impostos!

00:08:14 --> 00:08:19 – Para eles, essas ideias são simplesmente o mais ofensivo cinismo.

O grupo integracionista regional, para mundo multipolar

00:08:20 --> 00:08:28 – O conceito que se opõe àquela gente diz que é tempo de construirmos nosso próprio sistema financeiro regional.

00:08:29 --> 00:08:43 – Se já não temos acesso ao mecanismo do investimento do dólar, então temos de construir nosso próprio centro regional e respectivo mecanismo regional de financiamento.

00:08:44 --> 00:08:55 – Fiz uma palestra sobre isso, anteontem, em Astana, numa grande conferência dedicada ao início do segundo plano quinquenal de industrialização.

00:08:56 --> 00:09:02 – O Cazaquistão, diferente da Rússia, já trabalha há cinco anos na substituição de importações.

00:09:03 --> 00:09:14 – Embora as condições iniciais fossem piores no Cazaquistão que na Rússia, por causa da economia menor, o país já está crescendo 4-5%, e nós, russos, não crescemos nos últimos dois anos.

00:09:15 --> 00:09:17 – Aconteceu no Cazaquistão, por causa da industrialização.

00:09:18 --> 00:09:27 – Discutimos essa questão com o presidente do Cazaquistão, numa mesa redonda prevista para 30-40 min, mas que durou duas horas.

00:09:28 --> 00:09:37 – Foi discussão real, porque Nazarbayev tinha perguntas claras a fazer e ideias claras a discutir sobre o que se pode alcançar, realistamente.

00:09:38 --> 00:09:46 – Disse a ele que precisamos de recursos de investimentos privados, porque já não há investimento algum, no quadro do sistema de Bretton Woods.

00:09:47 --> 00:09:55 – Atualmente, o que se disputa é qual estratégia escolher, não se podemos ceder.

00:09:56 --> 00:10:01 – Daí os rumores de que a fala do presidente estaria sendo preparada só pelo Kremlin, sem participação do resto do governo.

00:10:02 --> 00:10:22 – O resto do governo, com sua Escola de Economia (de Chicago), está escrevendo seus discursos neoliberais, segundo o qual só há um deus, o FMI; e suas profetas Lagarde ou Janet Yellen.

00:10:23 --> 00:10:35 – Não sei como vai acabar isso, mas estou certo de que a saída antecipada de Putin, que deixou Brisbane antes da hora prevista, não aconteceu porque algo o tivesse “ofendido”.

00:10:36 --> 00:10:46 – Perdoem-me, mas... o presidente Putin foi alto oficial de inteligência, foi treinado desde a juventude a não reagir “emocionalmente” nesse tipo de situação.

00:10:47 --> 00:10:55 – Não. O presidente Putin deixou aquela reunião, não porque alguma coisa o tivesse ofendido, mas, isso sim, porque se deu conta de que falar com aquela gente é completa perda de tempo, não leva a coisa alguma.

00:10:56 --> 00:11:14 – Aquele pessoal não quer e nem pode discutir situações críticas, porque eles são figurantes de segunda classe, naquele show. Se todos ali se comportam daquele modo porque não passam de fantoches, nós temos de falar diretamente com quem opera os cordões dos fantoches.

00:11:15 --> 00:11:18 – E se eles tampouco compreendem o que se passa, aí, já é outro problema.

00:11:19 --> 00:11:28 – De minha parte, tendo a crer que são fantoches, o que não implica que sejam levados em consideração nas políticas do operador dos fantoches. São partes relevantes, só, no funcionamento de determinadas regras do jogo.

00:11:29 --> 00:11:36 – Falo das regras que têm a ver com uma espécie de “politicamente-correto liberal” que está tão profundamente plantada na consciência deles que nem que quisessem conseguiriam livrar-se delas.

00:11:37 --> 00:11:40 – Então, continuam, como hamster que corre sem parar em sua gaiola de arame, e não está indo para lugar algum.

00:11:41 --> 00:11:46 – É completamente inútil falar com eles. Então, temos de criar modelos alternativos.

00:11:47 --> 00:11:50 – Em termos gerais, temos de esquecer por algum tempo a União Europeia e os EUA.

00:11:51 --> 00:11:57 – A UE não é entidade viável. O modo como se espatifará em pedaços, é questão à parte do que discutimos aqui.

00:11:58 --> 00:12:14 – Pode acontecer de tentarem salvar um corpo de duas metades: uns pedaços da velha Europa Ocidental formarão uma União Europeia de 1ª classe; e o Leste da Europa formará outra União Europeia de 2ª classe.

00:12:15 --> 00:12:21 – O que interessa agora, é que essa discussão não nos diz respeito e deve parar imediatamente.

00:12:22 --> 00:12:29 – Ao dizer que é necessário forçar a zona de livre comércio com os EUA, a chanceler Merkel, de fato, põe fim à União Europeia.

00:12:30 --> 00:12:32 – Por hora, é assunto para esquecer.

00:12:33 --> 00:12:59 – O agudo conflito entre forças pró-Ocidente e forças eurasianas [no Brasil, se falaria de “forças pró-EUA” e forças continentais integracionistas bolivarianas (NTs)] que começou na Rússia no início dos anos 1990s, alcançou hoje alto nível, quando forças anti-FMI, se não derrotaram totalmente os neoliberais, pelo menos já se fazem ouvir.

00:13:00 --> 00:13:13 – Temos de ver se as forças neoliberais são capazes de apresentar pelo menos algum argumento racional à sociedade. Até agora, os argumentos deles são só argumentos de autoridade, da posição de poder.

00:13:14 --> 00:13:19 – Dizem: “Seguinte, amigos: nós controlamos o FMI, então... vocês não vivem sem nós”.

00:13:20 --> 00:13:24 – É mais do que claro, hoje, que o FMI nada nos dará, e já vimos isso. Então, eles precisam apresentar outra abordagem.

00:13:25 --> 00:13:31 – Mas... E o que teriam a oferecer? Destruição da educação pública? Destruição da assistência pública à saúde? Destruição das aposentadorias e pensões? Têm o que, a nos oferecer? O sistema bancário?!

00:13:32 --> 00:13:37 – A verdade é que tudo em que os neoliberais põem a mão, vira poeira.

00:13:38 --> 00:13:42 – Se o presidente Putin da Federação Russa escolher as vias neoliberais, temo que seu poder vire poeira

[Fim da transcrição]. 
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[*] Mikhail Leonidovich Khazin (1962), economista, autor do livro Sunset of the Dollar Empire and the End of the Pax Americana (2003). Sobre o livro, há entrevista interessantíssima (inglês)em: Mikhail Khazin: U.S. will soon face second “Great Depression”