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sexta-feira, 22 de março de 2019

Alexei Kudrin é o miJair Bolsonaro de Putin

Kudrin quer dar aos EUA metade da Crimeia, metade do Donbass, metade das Ilhas Kuril, metade da Síria e metade da Venezuela.

O general Gerasimov está pronto para resistir contra os EUA em todas essas frentes




18/3/2019, John Helmer, Dances with Bears, Moscou

Alexei Kudrin (ilustração de abertura) é o candidato do ‘regime change’ ao Kremlin que sobrevive há mais tempo, e que não mora nem na cadeia nem no exterior. “Precisamos de ambiente global fraterno” – 
disse ele a uma conferência de empresários em Moscou, semana passada. Atualmente presidente da Câmara de Cobrança e Prestação de Contas, de auditoria do Estado, Kudrin explicou que “atualmente não se consegue ambiente global totalmente fraterno devido, em parte, a desentendimentos geopolíticos e sanções globais. A Rússia deve tentar reduzir esse fator e mitigar os desentendimentos e as sanções mediante conversações e outros meios.”
O remédio, para Kudrin, ele explicou, é fazer Rússia e EUA encontrarem-se “no meio do caminho”. Pediram que Kudrin explicasse melhor a parte “meio do caminho”.

Kudrin serve-se de porta-vozes na Câmara de Contas do Estado e numa organização política que mantém, chamada “Comitê de Iniciativas Civis”. Essa última Kudrin fundou-a em 2012, depois de ser 
demitido do cargo de ministro das Finanças, e se autoapresenta como “união em torno da ideia de modernizar o país e fortalecer instituições democráticas.” Ano após ano, o Comitê faz pesquisas sobre condições regionais, monitora a imprensa e organiza conferências de organizações políticas que apoiam Kudrin. Para recrutar ativistas locais, o Comitê também distribui prêmios em dinheiro e uma estatueta, “O Broto de Ouro”. É a organização perpétua de campanha eleitoral de Kudrin. Ninguém sabe de onde vem o dinheiro, mas regularmente Kudrin divulga sua “especial gratidão” a Norilsk Nickel, controlada por Vladimir Potanin e Oleg Deripaska.


Pediram que Kudrin explicasse o que queria dizer com a referência a desentendimentos geopolíticos. Qual sua proposta a ser apresentada nas conversações com os EUA? O que quer dizer com “outros meios”? O que significa “meio do caminho” – entregar metade da Crimeia à Ucrânia? Metade da Síria, a Israel e Turquia? Metade das ilhas Kuril, entregues no Japão?

Os escritórios de Kudrin na Câmara e no Comitê informaram que ele não responde a telefonemas. Pediram que se enviassem perguntas por e-mail. As perguntas foram. Por telefone, os dois escritórios confirmaram que receberam os e-mails. Kudrin jamais respondeu.

Há um ano, quando Kudrin pressionava publicamente o presidente Putin para que lhe desse um posto no novo governo, com poderes especiais para negociar com os EUA, ele delineou um plano de ataque contra o Ministério de Defesa da Rússia e Forças Armadas – que cortava o orçamento militar da Rússia, a capacidade de defesa e toda a assistência à Crimeia e ao Donbass. O plano apareceu numa entrevista a um jornal de Londres, porque Kudrin negou-se a comentar o assunto pessoalmente, na Rússia. Detalhes, aqui.

Em maio, depois que sua campanha de autopromoção política fracassara, Kudrin desdisse, em discurso ao Parlamento estadual, tudo que dissera em Londres. Tentava tentar obter os votos necessários para ser confirmado no velho emprego na Câmara de Contas. Se quiser ler clique aqui. Kudrin obteve a votação mais alta jamais vista contra qualquer nome indicado pelo presidente para presidir a Câmara de Contas. Hoje, Kudrin aparece em primeiro lugar nas pesquisas que definem os dez políticos nos quais a população menos confia, em todo o país.

O principal alvo das campanhas de desconstrução de Kudrin ainda é, como sempre foi, a liderança militar russa. O general Valery Gerasimov, Comandante do Estado-maior das Forças Armadas da Federação Russa, respondeu com um quadro detalhado da estratégia russa contra os EUA. 

O discurso de Gerasimov, intitulado “Vetores do Desenvolvimento de Estratégia Militar”, foi apresentado à Academia de Ciências Militares. O texto pode ser lido na íntegra, aqui  em russo, e aqui em inglês.




Gerasimov identificou “os EUA e seus aliados” como engajados em guerras permanentes de todos os tipos, inclusive “preparação para ‘ataque global’, ‘batalha em multidomínios’ [e o] uso de tecnologias de ‘revoluções coloridas’ e ‘poder brando’ [ing. soft power].” 

“O objetivo dos EUA e aliados é eliminar o Estado de países indesejáveis, minar a soberania desses estados, trocar autoridades públicas legitimamente eleitas. Foi feito no Iraque, na Líbia e na Ucrânia. Atualmente ações similares podem ser observadas na Venezuela (…). O resultado que os EUA obtiveram na Síria permitiu-nos [aos russos] identificar e definir a direção atual das pesquisas para emprego da Forças Armadas no cumprimento de missões de proteção e promoção de interesses nacionais russos fora do território nacional.”

É a primeira vez que o Estado-maior da Rússia identifica a Venezuela, ao lado de Ucrânia e Síria, como alvo de guerra dos EUA contra a qual é do interesse estratégico da Rússia opor-se. Gerasimov reservou também uma palavrinha para Kudrin. 

Em sua fala, Kudrin ignorara os militares, em seu ‘projeto’ de governo russo coordenado: “Se os sistemas policiais trabalham com plano próprio, enquanto instituições internacionais e o Ministério de Relações Exteriores trabalham por outro plano, e o Ministério de Desenvolvimento Econômico tenta aumentar a taxa de crescimento da economia até os padrões globais médios, nesse caso acontece exatamente coisa alguma. É preciso haver equipe coesa, todos trabalhando para um mesmo objetivo. [Todas as agências do Estado devem] sincronizar as ações, inclusive no formato de diálogo e de conciliação de tarefas, para melhorar o clima de investimento.”

A resposta do general Gerasimov: “O Pentágono começou a desenvolver estratégia de guerra fundamentalmente nova, que foi apelidada “Cavalo de Troia”. A essência dessa estratégia depende do uso ativo do ‘potencial protesto da 5ª coluna’ com vistas a desestabilizar a situação com simultâneos ataques com armas teleguiadas de precisão contra os alvos mais importantes.”

A coordenação dos recursos de defesa da Rússia, como a entende o Estado-maior, exige que as medidas para defesa contra sanções econômicas e operações de mídia e ciberataques dos EUA contra a Rússia e seus aliados, inclusive a subversão doméstica, devem ser dirigidas pelo Comando do Estado-maior.

“Gostaria de registrar” – disse Gerasimov – “que a Federação Russa está pronta para fazer frente a todas e a cada uma dessas estratégias. Em anos recentes, cientistas militares, trabalhando com o Estado-maior, desenvolveram abordagens conceituais para neutralizar as ações agressivas de adversários potenciais. O campo de pesquisa da estratégia militar é a luta armada em seu nível estratégico. Com a emergência de novas áreas de confronto nos conflitos modernos, os métodos de luta cada vez mais se encaminham diretamente para a aplicação integrada de medidas políticas, econômicas, de informação e outras medidas não militares, implementadas com o apoio da força militar.”

Tradução original no blog O Empastelador




quarta-feira, 17 de junho de 2015

Ucrânia e o risco apocalíptico da ignorância “noticiada”



16/5/2015, [*] David Swanson, OpEd News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu




Não posso garantir que não tenha sido publicado livro melhor, esse ano, que Uckraine: Zbig’s Grand Chessboard and How the West Was Checkmated [Ucrânia: o Grande Tabuleiro de Xadrez de Zbig, e como o ocidente recebeu xeque-mate], mas tenho certeza de que não houve livro mais importante que esse.
Das cerca de 17 mil bombas nucleares que há no mundo, EUA e Rússia possuem cerca de 16 mil. Os EUA flertam furiosamente com a 3a. Guerra Mundial, o povo norte-americano não tem nem ideia de como ou por quê, e os autores Natylie Baldwin e Kermit Heartsong explicam tudo muito claramente. Agora me digam: pode haver coisa em que vocês gastem seu tempo, mais importante que isso?
Esse livro tem boas chances de ser o mais bem concebido e escrito que li esse ano. Lá estão todos os fatos relevantes – os que eu já conhecia e muitos de que nem suspeitava – expostos de forma concisa e em perfeita ordem. E tudo isso, a partir de uma visão de mundo bem informada. Não tenho nada a reclamar, o que é novidade total em todas as resenhas de livro que escrevi em toda a minha vida. Acho estimulante e encorajador encontrar autores tão bem informados, capazes de captar a significação da informação que buscam e encontram.
Praticamente metade do livro é usada para expor o contexto em que se desenrolam os eventos recentes na Ucrânia. É útil para compreender o fim da guerra fria, o ódio irracional contra a Rússia que invadiu a elite norte-americana, e os padrões de comportamente que se repetem, dessa vez em tonalidade e volume muito mais altos.
Agitar fanáticos armados no Afeganistão e Chechênia e Geórgia, e tomar por alvo a Ucrânia para uso assemelhado: eis um contexto ‘de notícias’ que ninguém jamais encontrará na CNN.
A parceria dos neoconservadores (que armaram e provocaram a violência na Líbia) com os guerreiros “humanitários” (que acorreram para garantir a “mudança de regime”): eis um precedente e um modelo do qual a National Public Radio (NPR) não falará. A promessa que os EUA fizeram, de não expandir a OTAN para os 12 novos países bem ali, junto à fronteira russa, o afastamento dos EUA, que se separaram do Tratado Anti-Mísseis Balísticos (Tratado ABM) e a corrida para implantar “mísseis de defesa” – esse é o contexto que jamais ocorreria à rede Fox News “noticiar” como fatores ou elementos significativos.
O apoio dos EUA a governos de oligarcas criminosos, dispostos a vender recursos do povo russo, e a resistência do governo russo contra esses ardis – aí estão relatos já quase incompreensíveis, se você é consumidor de muitas “notícias” e de “noticiosos” “jornalísticos”. Mas lá estão, no livro, explicados e bem documentados por Baldwin e Heartsong.
O livro inclui excelente contextualização para que se avaliem usos e abusos das lições de Gene Sharp e as “revoluções coloridas” instigadas pelo governo dos EUA. Arremate final é, me parece, tantos aí, na mídia e pelo mundo, sempre a reconhecer e pregar a importância da ação não violenta, para o bem ou para o mal. A mesma lição lá está também (dessa vez para o bem) na resistência civil às tropas ucranianas na primavera de 2014, e na atitude de (alguns) soldados que se recusaram a atirar contra civis.

Revolução Rosa (Georgia - 2003)


A Revolução Laranja na Ucrânia em 2004, a Revolução Rosa na Geórgia em 2003, e Ucrânia II em 2013-2014 são todas bem claramente recontadas, incluindo cronologia detalhada. É realmente impressionante a quantidade de informação que nós, norte-americanos médios (e eleitores voluntários) ignoramos completa e absolutamente.
Líderes ocidentais reuniram-se repetidas vezes em 2012 e 2013, planejando o golpe contra a Ucrânia. Neonazistas ucranianos foram enviados à Polônia para cursos intensivos de golpe contra um estado democrático. ONGs e mais ONGs, que operavam a partir da embaixada dos EUA em Kiev organizaram “seminários” para treinamento de golpistas.
Dia 24/11/2013, três dias depois de a Ucrânia ter recusado um acordo com o FMI, que incluía recusar-se a romper relações com a Rússia, os manifestantes começaram a enfrentar a polícia em Kiev. Os manifestantes agiram sempre com violência, destruíram prédios e monumentos, lançaram coquetéis Molotov, mas o presidente Obama ordenou ao Presidente da Ucrânia que não reagisse com excessiva força. (Que impressionante contraste com o tratamento que Obama ordenou contra o Movimento Occupy! Ou os tiros, numa rua próxima do Senado dos EUA, contra uma mãe que fez uma curva abrupta com seu carro, onde levava o filho bebê, e que pareceu “ameaçadora” aos policiais).
Grupos financiados pelos EUA organizaram uma “oposição” na Ucrânia, fundaram um canal de TV e promoveram a “mudança de regime”, vale dizer, o golpe. O Departamento de Estado dos EUA gastou coisa de US$ 5 bilhões. A Secretária de Estado Assistente, que escolheu e elegeu, só ela, os novos governantes da Ucrânia, levou sanduíches e bolinhos para os golpistas em plena praça.
Quando aqueles mesmos golpistas da praça derrubaram o governo da Ucrânia, em fevereiro de 2014, os EUA imediatamente declararam legítimo o governo dos golpistas. Aquele novo governo extinguiu os partidos políticos, atacou, torturou e assassinou membros dos partidos depostos pelo golpe. O novo governo incluiu neonazistas desde o primeiro dia, e pouco depois passou a incluir também funcionários importados dos EUA.
O novo governo proibiu o idioma russo – primeira língua de muitos cidadãos ucranianos. Monumentos e memoriais russos foram destruídos. Populações falantes de russo foram atacadas e assassinadas.
A Crimeia, região autônoma da Ucrânia, com Parlamento próprio, foi parte da Rússia de 1783 até 1954, e votou publicamente a favor da manutenção dos laços com a Rússia em 1991, 1994 e 2008, e o Parlamento da Ucrânia votou a reincorporação à Rússia em 2008. Dia 16/3/2014, 82% dos crimeanos participaram de um Referendum, no qual 96% deles se manifestaram a favor de a Crimeia ser reintegrada à Rússia.
Essa ação não violenta, sem sangue, democrática e legal, que não violou nem a Constituição nem qualquer outra lei ucraniana, e que foi atacada por violento golpe de Estado... é o que o “ocidente” vive de “denunciar”, como se fosse alguma “invasão da Crimeia” pelos russos.

Resultado final do referendum na Crimeia


ATUALIZAÇÃO: Na mais recente reunião do G7, a Rússia foi alvo da retórica mais ensandecida. O presidente dos EUA, Barack Obama, perguntou, sobre o presidente da Rússia, Vladimir Putin: “Será que ele continua a destroçar a economia de seu país e a manter o isolamento da Rússia, movido por um super orientado desejo de recriar as glórias do império soviético?” (12-14/6/2015, Counterpunch, Vijay Prashad, em redecastorphoto, G7: Moedas a proteger, países a bombardear, traduzido).
Novorrussos, que tentaram tornar-se independentes, foram também atacados por militares ucranianos, um dia depois de John Brennan visitar Kiev e ordenar aquele crime.
Sei que a Polícia do Condado de Fairfax, que nos manteve, eu e meus amigos, bem longe da casa de John Brennan na Virginia não sabiam nem uma linha do inferno que aquele homem havia lançado sobre gente inocente, a milhares de quilômetros dali. Mas tamanha ignorância é, no mínimo, tão perturbadora quanto qualquer ativa má intenção criminosa.
Civis foram atacados por aviões e helicópteros de guerra durante meses, na mais terrível matança, como nunca mais se vira na Europa desde a 2a. Guerra Mundial. O presidente Vladimir Putin da Rússia repetidamente clamou por paz, por uma trégua, por um cessar-fogo, por negociações. Até que, finalmente, dia 5/9/2014, assinou-se um acordo de cessar-fogo.
Chama a atenção, na direção diametralmente oposta do que recebemos como “notícias”, que a Rússia não invadiu a Ucrânia em nenhuma das inúmeras vezes que os “noticiários” “informaram” que teria invadido. Somos pós-graduados em armas inventadas de destruição em massa, em ameaças míticas contra os cidadãos líbios, em acusações falsas de uso de armas químicas na Síria... Agora estamos sendo adestrados a acreditar em invasões que jamais aconteceram.
A “prova” da tal invasão foi cuidadosamente perdida em local incerto e não sabido, sem qualquer detalhe que a identificasse, caso alguém tropeçasse nela. Pois mesmo assim a farsa foi desmascarada.
Cabine do MH-17 metralhada por caça  Su-25 da FA "ukie"

O avião que fazia o voo MH17 foi derrubado: a culpa é da Rússia, mesmo sem provas. E, pior, mesmo contra todas as provas que adiante se exibiram. Os EUA sempre souberam exatamente o que aconteceu. Mas não divulgaram a informação que tinham. A Rússia distribuiu o que tinha e provou, comprovado pelo depoimento de testemunhas em terra e pelos depoimentos dos controladores de voo, que o avião foi derrubado por um ou mais outros aviões. As “provas” de que a Rússia teria derrubado o avião foram expostas como grosseiras falsificações: ninguém em terra jamais viu a trilha de fumaça no céu que o tal míssil russo, se existisse, teria deixado.
Os autores Baldwin e Heartsong concluem seu trabalho com detalhada argumentação para demonstrar que as ações dos EUA recaíram sobre os próprios EUA, que a única verdade é que os cidadãos norte-americanos não têm nem qualquer mínima ideia do que acontece ou deixa de acontecer, que os donos do poder em Washington usam a Segunda Emenda como se fosse direito deles, contra todo o mundo. Sanções contra a Rússia tornaram Putin tão popular na Rússia quanto George W. Bush depois que deu jeito de parecer presidente de alguma coisa, enquanto aviões derrubavam arranha-céus no coração de New York. As mesmas sanções fortaleceram a Rússia, empurrando-a para aumentar a produção interna e para alianças com nações não controladas pelos EUA. A Ucrânia sofreu e a Europa está sofrendo com o corte no fornecimento de gás russo, enquanto a Rússia faz negócios com Turquia, Irã e China. Expulsar a base naval russa da Crimeia é delírio mais sem futuro hoje, do que antes de essa loucura ter começado.
A Rússia lidera o movimento pelo qual mais e mais nações preparam-se para abandonar o dólar norte-americano. Sanções retaliatórias da Rússia, atingem já o “ocidente”. Longe de estar isolada (como delira o presidente Obama, dentre outros), a Rússia está trabalhando com países BRICS, na Organização de Cooperação de Xangai e em outras alianças. Sem dar sinal algum de “empobrecimento” (como nos delírios do presidente Obama, dentre outros), a Rússia está comprando ouro, enquanto os EUA afundam-se cada dia mais em dívidas e desemprego, e sempre, cada dia mais, vistos pelos cidadãos do mundo como agente incapaz de jogar limpo, como jogador-bandido; e já detestados também na Europa, porque os EUA privaram os europeus do comércio com a Rússia.

BRICS - Brasil, Rússia, Ìndia, China, África do Sul


Essa história começa na irracionalidade do trauma coletivo depois do holocausto da 2a. Guerra Mundial, e do ódio cego contra a Rússia. Talvez também termine na mesma absoluta irracionalidade. Se o desespero dos EUA levar o país a guerra contra a Rússia, na Ucrânia ou onde for, em algum ponto da fronteira russa, onde a OTAN vive de joguinhos de guerra e provocações, é possível que essa história, do enlouquecimento dos EUA, seja a última narrativa que a humanidade ouviu sobre ela mesma.
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[*] David Swanson é o autor de When the World Outlawed War, War Is A Lie e Daybreak: Undoing the Imperial Presidency and Forming a More Perfect Union (todos sem tradução para português). Anima 2 blogs: (http://davidswanson.org e http://warisacrime.org). 
Trabalha para a organização ativista on-line http://rootsaction.org.

domingo, 29 de março de 2015

Blitz de EUA-sauditas no Iêmen: Agressão brutal, por absoluto desespero


27/3/2015, [*] Tony Cartalucci – New Eastern Outlook, NEO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Guerreiros houthis do Iêmen
O modelo de “guerra à distância” ou “guerra por procuração” que os EUA estão usando em todo o Oriente Médio e no leste da Europa, e também, até, em partes da Ásia, parece ter fracassado mais uma vez, agora no Iêmen, estado do Golfo Pérsico.

Ao derrubarem o regime apoiado por EUA-sauditas no Iêmen e uma coalizão de extremistas sectários que inclui Al Qaeda e sua nova griffe, o “Estado Islâmico”, milícias iemenitas pró-Irã viraram a maré contra o chamado “poder suave” dos EUA; o movimento exigiu intervenção militar mais direta. O que se diz é que não haveria forças militares dos EUA diretamente envolvidas, mas não há dúvida quanto ao envolvimento de aviões de guerra e de uma possível força em solo, dos sauditas.

Por mais que Arábia Saudita diga que “10 países” já se uniram à sua coalizão para intervir no Iêmen (como a invasão e a ocupação do Iraque, pelos EUA, a coisa agora também vem escondida por trás de uma “coalizão”), é operação quase que exclusiva dos sauditas, com “parceiros de coalizão” acrescentados, como tentativa oca para gerar alguma legitimidade diplomática.

Nem o New York Times, na manchete da matéria que publicou, Saudi Arabia Begins Air Assault in Yemen [Arábia Saudita inicia ataque aéreo ao Iêmen], dá sinais de ver por ali algum dos tais “10” outros países. Lá se lê:

A Arábia Saudita anunciou na 4ª-feira (25/3/2015) à noite que lançou uma campanha militar no Iêmen, cujo início, segundo um funcionário saudita, foi um ataque para restaurar um governo iemenita que entrara em colapso depois que forças rebeldes assumiram o controle de grandes partes do país.

A campanha aérea começou em momento em que o conflito interno no Iêmen deu sinais de começar a degenerar em guerra por procuração entre potências regionais. O anúncio dos sauditas ocorreu numa rara conferência de imprensa, em Washington, convocada por Adel al-Jubeir, embaixador do reino nos EUA.

Guerra por procuração contra o Irã

Na verdade, o conflito no Iêmen é guerra por procuração, não entre Irã e Arábia Saudita, mas entre Irã e os EUA, com os EUA tenho designado a Arábia Saudita como seu desgraçado substituto no palco.

Os interesses do Irã no Iêmen servem, como resultado direto da “Primavera Árabe” arquitetada pelos EUA e das tentativas para derrubar a ordem política no Norte da África e Oriente Médio, para criar ali uma frente sectária unificada contra o Irã, em conflito direto com Teerã. A guerra que prossegue na Síria é uma das partes dessa conspiração geopolítica muito mais ampla, que visa a derrubar um dos mais importantes aliados regionais do Irã, queimando a ponte que liga o Irã a outro importante aliado, o Hezbollah no Líbano.

E, apesar de o interesse do Irã no Iêmen estar sendo apresentado como mais um “exemplo” do que seria agressão iraniana, que indicaria a incapacidade do Irã para viver em paz com os vizinhos, até os próprios políticos norte-americanos já reconheceram, há muito tempo, que a influência iraniana na região, inclusive com apoio que dá a grupos armados, tem objetivo exclusivamente defensivo, reconhecendo também que o ocidente e seus aliados regionais só fazem tentar cercar, subverter, agitar, com o objetivo de derrubar a atual ordem política no Irã.

A Corporação RAND, com sede nos EUA, que se apresenta como “instituição sem finalidades de lucro que ajuda a melhorar a política e a tomada de decisões, mediante as pesquisas e análises que oferece”, produziu um relatório em 2009, para a Força Aérea dos EUA, que leva o título de “Perigoso mas não onipotente: sobre o alcance e as limitações do poder iraniano no Oriente Médio” [Dangerous But Not Omnipotent : Exploring the Reach and Limitations of Iranian Power in the Middle East]. Nesse relatório, a RAND examina a estrutura e a posição dos militares iranianos, inclusive do Corpo de Guardas Revolucionários, do futuro deles e do armamento com que contam – e que sempre visam a proteger as fronteiras e os interesses nacionais contra ataques externos.

Mapa do Iêmen e as áreas em litígio
O relatório admite que:

A estratégia do Irã é largamente defensiva, com apenas alguns elementos ofensivos. A estratégia do Irã, de proteger o regime contra ameaças internas, para deter possível agressão, salvaguardar o país se houver agressão e ampliar sua influência é, em larga medida, estratégia defensiva, que oferece algumas possibilidades agressivas, se combinadas com expressões das aspirações regionais do Irã. É em parte uma resposta aos pronunciamentos e à postura política dos EUA na região, especialmente depois dos ataques terroristas de 11/9/2001. A liderança iraniana leva muito a sério a ameaça de invasão, dados a discussão aberta nos EUA sobre “mudança de regime”, os discursos em que o Irã é definido como parte do “eixo do mal” e os esforços, pelas forças dos EUA, para garantir acesso a bases implantadas em estado localizados em torno do Irã.

Seja qual for o motivo imperativo que a Arábia Saudita tenta associar à sua agressão militar injustificável contra o Iêmen, e seja qual for o apoio retórico, diplomático ou militar que os EUA estão tentando dar ao regime saudita, a legitimidade dessa ação militar cai aos pedaços, ante as palavras dos próprios deputados e senadores dos EUA que abertamente admitem que o Irã e seus aliados simplesmente reagem a uma campanha montada contra eles – campanha de cerco, sanções econômicas, agressão militar clandestina, subversão política e até terrorismo. O objetivo dessa campanha é estabelecer a hegemonia ocidental em toda aquela região, à custa da soberania do Irã.

Os motivos alegados pelos sauditas não têm legitimidade

O que se vê agora é um regime autocrático hereditário, não eleito – que governa a Arábia Saudita, país conhecido pelos incontáveis abusos contra direitos humanos, e terra onde jamais se viu qualquer coisa sequer assemelhada a “direitos humanos” – que aí aparece, hoje, posando como árbitro que decidirá quais governos no Iêmen, país vizinho, seriam “legítimos” e “não legítimos”. E a ponto de usar força militar saudita, para restaurar, no Iêmen, um ou outro governo derrubado, mas que os sauditas considerem legítimo.

Houthis capturaram tanques do exército iemanita
O apoio que os EUA garantem ao regime saudita visa a dar legitimidade a uma narrativa de violência bruta, que, sem a “cobertura” norte-americana, seria ainda mais difícil de impingir à opinião pública mundial. Problema, aí, é que os EUA também já padecem de grave falta de legitimidade e de autoridade moral.

Ainda mais irônico, é que extremistas apoiados por EUA e Arábia Saudita, inclusive a Al-Qaeda no Iêmen, serviram como forças avançadas para manter sob controle as milícias houthis, de modo a que não viesse a ser necessária alguma intervenção militar direta como a que agora se vê! Significa que a Arábia Saudita e os EUA só estão atacando o Iêmen depois do colapso do regime comandado pelos terroristas que EUA e sauditas apoiavam.

Na realidade, pondo-se de lado a retórica de Arábia Saudita e EUA, havia no Iêmen um regime regional brutal, que tentou tomar o estado e perdeu. E agora o aspirante a hegemon global, que patrocinava aquele regime brutal está obrigado a intervir diretamente para tentar limpar a própria imundície.

O perigoso jogo da Arábia Saudita

O ataque aéreo contra o Iêmen tem o objetivo de impressionar o público, com a ostentação, pelos sauditas, de força militar. Será indispensável um exército de coturnos em solo, para atacar e meter medo nos combatentes houthis e forçá-los a se renderem. Para tentar obter vitória rápida sobre os combatentes houthis, conhecidos pela autoconfiança quase invencível, a Arábia Saudita arrisca-se e envolver-se num conflito que poderá escapar facilmente do contexto para o qual a máquina militar dos EUA foi construída.

Abdrabbuh Mansour Hadi, Presidente do Iêmen, fugiu da capital Sanaa para Aden, resistindo ao ataque dos Houthis
Ainda é cedo para dizer como se sairão sauditas e seus patrocinadores norte-americanos na atual operação militar e até que ponto conseguirão firmar pé no Iêmen.

Mas a evidência de que os houthis já enfrentaram de igual para igual e derrotaram forças dos EUA–sauditas que combatiam por procuração bem às portas de Riad, indica que os houthis tenham capacidade operacional para sobreviver ao atual assalto de EUA–sauditas e, mais, que poderão sair fortalecidos dos atuais confrontos.

Relatos de que os combatentes houthis empregaram aviões iemenitas capturados reforçam ainda mais essa noção – mostrando sofisticação tática, operacional e estratégica que poderá perfeitamente dar conta do que os sauditas tenham para lançar contra os houthis, tornando-os cada vez mais fortes.

Daí pode resultar um conflito que respingará por cima das fronteiras do Iêmen, sobre a própria Arábia Saudita. Sejam quais forem os segredos obscuros ocultados por décadas de autocensura da empresa–mídia ocidental sobre a verdadeira natureza sociopolítica da Arábia Saudita (vídeo no fim do parágrafo mostrando a vida houthis segundo o NYTimes em inglês), tudo acabará por vir à tona, quando o povo da península arábica for forçado a escolher entre arriscar a própria vida lutando a favor de um regime-vassalo do ocidente ou tomar, para eles mesmos, um pedaço da península.


Além disso, uma transferência de recursos e de milicianos sob a bandeira do chamado “Estado Islâmico” e Al-Qaeda, da Síria para a Península Arábica, demonstrará ainda mais claramente que os EUA e seus aliados regionais sempre estiveram por trás do caos e das atrocidades que se veem na Síria, já há quatro anos. Tais revelações solaparão o que restar da autoridade moral do ocidente e de seus aliados regionais; e isso corroerá ainda mais rapidamente os esforços do ocidente & parceiros para arregimentar esforços que os salvem de uma batalha que eles mesmos conspiraram para fazer começar.

Esvai-se a legitimidade norte-americana

Ainda no começo do mês em curso, mais uma vez os EUA cuidaram de fazer o mundo “relembrar” uma tal “invasão” russa na Crimeia (vídeo no fim do parágrafo, em inglês). Depois de ter desestabilizado a Ucrânia com uma insurreição armada, violenta, em Kiev, com o objetivo de expandir a OTAN cada vez mais para dentro da Europa Oriental e mais próxima de Rússia, o ocidente ainda insiste que a Rússia não teria mandato para intervir na vizinha Ucrânia. Os negócios da Ucrânia devem ser resolvidos pelos ucranianos – dizem os EUA. Evidentemente, os EUA querem dizer que, sim, assuntos ucranianos devem ser resolvidos pelos ucranianos, se e somente se os ucranianos resolverem as coisas na direção que mais interessa aos EUA.


Esse modo de proceder é ainda mais claro agora, no Iêmen, onde o povo iemenita não tem “licença” para resolver o que quer que seja. Tudo, inclusive, até, uma invasão militar, foi decidido e executado especificamente para assegurar que o povo do Iêmen não consiga decidir coisa alguma – e é assim, bem claramente, porque as decisões dos iemenitas não dão sinal algum de estar tomando o rumo que mais interessa aos EUA.

Essa descarada e nua hipocrisia será claramente percebida pela opinião pública global e nos círculos diplomáticos. A impotência do ocidente, que já não consegue implantar e manter sequer uma narrativa que faça algum sentido e convença – como, antes, o ocidente sempre conseguiu fazer, por mentirosas que fossem as velhas narrativas – é sinal crescente de fraqueza.

Parceiros na empreitada global na qual o ocidente está engajado logo perceberão que essa fraqueza é causa para eles desinvestirem – ou, no mínimo, que é causa para que diversifiquem seus investimentos, na direção de outros países e empresas. A diversificação poderá facilmente incluir o mundo multipolar de Rússia e China. A evanescente hegemonia ocidental global terá chegado ao fim, num conflito destrutivo, movido por despeito e desespero.

Hoje, todo esse despeito e todo esse desespero abatem-se sobre o Iêmen.




[*] Tony Cartalucci é pesquisador de geopolítica e escritor sediado em Bangkok, Tailândia. Seu trabalho visa cobrir os eventos mundiais a partir de uma perspectiva do Sudeste Asiático, bem como promover a auto-suficiência como uma das chaves para a verdadeira liberdade; é colaborador, dentre outras publicações, da revista online New Eastern Outlook.