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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Putin, na defensiva, mobiliza o próprio capital político pessoal

19/11/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


The Saker
Comecemos pelo que eu, pessoalmente, considero más notícias: ou Putin realmente acredita na economia liberal de mercado, ou tem de dizer que acredita. Começou e terminou a sessão de Perguntas & Respostas com manifestação enfática, categórica, de total apoio às políticas do Banco Central e à sua presidenta, Nabiulina; e com apoio não menos categórico também ao governo e ao seu Primeiro-Ministro, Medvedev. Pior: Putin declarou que acredita que as forças de mercado, elas mesmas, corrigirão os desequilíbrios atuais. No máximo, concordou que algumas decisões teriam de ter sido tomadas há mais tempo, mas só isso.

Alguns adorarão a ideia. Lew Rockwell chegou a escrever que daria a Elvira Nabiulina o prêmio de “Banqueira-Central do Ano”. Nem todos concordam. Victor Gerashchenko, por exemplo, ex-presidente do Banco Central, disse que se estivesse na posição de Nabiulina hoje, “pedia uma arma e dava um tiro na cabeça”.

Tenho de admitir que eu, pessoalmente, estou decepcionado pela aparente fé que Putin deposita na economia de mercado. Digo “aparente”, porque é possível que haja coisas de que não estou informado. Por exemplo, quanto mais Putin fala de “forças de mercado”, mais a China parece envolver-se mais pesadamente na economia russa. Para os interessados nesses desenvolvimentos, verifiquem, por favor as seguintes fontes:


O amigo chinês que me enviou o artigo de People's Daily enviou também um comentário particularmente interessante. Ele escreveu:

Política Yin e yang? Não há como não ver aí um padrão muito forte. China e Rússia estão, ambas, engajando o inimigo/aliado da outra, com os quais têm atritos, para trazê-los para dentro da dobra eurasiana. Que lhe parece? É intencional? No início do ano tive minhas dúvidas, mas continua a acontecer cada vez mais.

Acho que acerta o olho do alvo. É do mais alto interesse estratégico russo que a China aplique um pouco de “diplomacia do yuan” na União Europeia, não só porque a China é aliado próximo, mas, principalmente, porque a China “não é os EUA”. Nesse ponto do tempo, “qualquer coisa” que enfraqueça o total controle que os EUA mantêm sobre suas colônias na União Europeia é bem-vinda. Cada yuan investido na União Europeia é um dólar não investido.

É só um exemplo. Putin provavelmente sabe muitas coisas que nós não sabemos, e não pode provavelmente dizer tudo que sabe ou planeja. Mas minha impressão completamente subjetiva é que Putin simplesmente não tem o poder necessário para confrontar cara a cara os Integracionistas Atlanticistas.

Mikhail Kazin
Mikhail Khazin, que sabe muito, já disse até, recentemente, que há Integracionistas Atlanticistas nos “ministérios de poder. E dado que tenho certeza de que ele não se referia ao Ministério da Defesa, restam os Ministérios de Assuntos Internos ou de Segurança do Estado.  Se for verdade, não é bom. É isso ou, então, Putin sinceramente acredita em economia liberal de mercado. Quanto a mim, absolutamente não acredito.

Na minha avaliação, há dois principais problemas com a lógica de Putin. Primeiro, a Rússia precisa não menos, mas MAIS regulações e MAIS controle pelo Estado. No mínimo, realmente creio que a simples instituição do Banco Central já é tóxica: foi criado pelo regime de Ieltsin, que os EUA controlavam, para subordinar a política russa (e os políticos) aos cartéis internacionais de bancos; e vê-se que funciona à perfeição. Putin pode disparar aviões bombardeiros para o Golfo do México, mas não consegue demitir Nabiulina, muito menos assumir o controle do Banco Central.

Nikolai Starikov disse até que a piada que está circulando agora informa que “Putin enviará tropas para o Banco Central”. Mostra o quando muitos russos estão desgostosos com a tal instituição supranacional que não presta contas a nada e ninguém. Mas é pior que isso.

A opção a favor da “solução” tipo mercado-livre não regulado basicamente entrega a Rússia, de mãos amarradas, ao sistema financeiro controlado pelo império anglo-sionista. Como poderá a Rússia libertar-se da “canga do dólar”, se permanecer como integrante do sistema internacional dominado pelo dólar?!

Tenho de dizer que publiquei, agradecido, o excelente artigo de Peter Koenig [“Dólar em queda livre – Brilhante plano dos gênios da economia russa? Quem é o gênio do xadrez?” (ing.)], mas foi daquelas ocasiões em que publico algo que me parece interessante, mas com cujo conteúdo não concordo. Meu instinto repete insistentemente que Putin não está aplicando qualquer “golpe esperto” de judô nos plutocratas ocidentais. Espero sinceramente estar errado, mas é o que me diz o meu instinto.

De modo geral, Putin esteve sempre na defensiva, todas as vezes que teve de responder perguntas sobre o Banco Central e o governo. Especialmente diferente, se se compara com o modo absolutamente magnífico como ele lidou com as perguntas sobre a Ucrânia, mesmo quando interrogado por um jornalista ucraniano muitíssimo hostil. Repito o que já disse muitas vezes: não sou profeta, nem leio pensamentos.

Não sei o que Putin pensa ou o que fará. Mas acho que os muitos anos que acumulo, observando o homem, deram-me uma espécie de “instinto bem informado” sobre ele; e esse instinto diz que Putin tem, sim, visão forte e clara da política internacional, especialmente sobre a Ucrânia; mas que não tem o mesmo tipo de visão forte e clara para os problemas econômicos.

No que tenha a ver com a Ucrânia, a posição de Putin é clara como cristal:

A Crimeia é nossa para sempre, não deixaremos que esmaguem o Donbass; queremos uma Ucrânia sem algemas, na qual sejam respeitados os direitos dos povos e das regiões, e vocês têm de negociar com os novorussos, que tem direito pleno à autodeterminação (posição que deixa aberta a possibilidade de que, embora a Rússia possa ‘'preferir'’ uma Ucrânia unida, os novorussos têm o “direito” de optar por outra solução).

Vladimir Putin - sobre a Crimeia e o Donbass
Clara, direta e, eu diria, perfeitamente razoável. Em contraste, no que tenha a ver com a economia, farejo alguma coisa como política “fundamentada na fé” [liberal]: “as forças de mercado corrigirão a situação artificial atual e, dentro de dois anos, a crise estará superada”.

O problema aí é que o mesmo Putin TAMBÉM diz que o ocidente está manipulando completamente os mercados, sem deixar espaço para que as forças de mercado atuem. Assim sendo, o que Putin está realmente dizendo é: “o Império não tem os meios para engambelar os mercados por mais de dois anos”. Ah-é? Será? É mesmo? Não estou, não, de modo algum, convencido disso. Pelo que já se viu, o Império está engambelando os mercados, já há muitos e muitos anos (pode-se dizer... desde 1971).

Resumo: o que ouço de Putin em matéria econômica é “mais do mesmo”; e dado que não estou gostando do que vejo, tenho de acrescentar “só que piorado”.

Mesmo assim, a situação não é fatalmente desesperadora. Por mais que eu pense que as políticas econômicas de Putin estejam erradas, e por mais que creia que o Banco Central Russo é muito mais parte do problema, não da solução, não há aí escolha binária, ou branco ou preto: jogar por regras erradas, ou no campo errado de jogo não implica necessariamente que você perderá o jogo; só que você fez uma escolha inicial errada.

Para começar, pode-se argumentar, corretamente, que o rublo é moeda com fundamentos muito mais firmes e confiáveis que o dólar.

Segundo, concordo que as forças de mercado estão resistindo contra a distorção norte-americana, e que a integração de China e Rússia contribuirá inevitavelmente para ajudar a economia russa.

Terceiro, a União Europeia já está em recessão, e se a coisa piorar, começará a quebradeira de bancos norte-americanos muito pesadamente conectados ao mercado da União Europeia.

Quarto, em termos objetivos, a Rússia permanece sentada sobre uma fortuna tangível de recursos naturais, e tem pleno acesso ao gigantesco mercado chinês. Nessas condições, será terrivelmente difícil para os anglo-sionistas “isolar” a Rússia. Assim, objetivamente, Putin acerta num ponto: ainda que as coisas talvez piorem antes de melhorar, elas inevitavelmente melhorarão.

Significa que Putin é jogador gênio de xadrez? Não diria isso. Não há dúvidas de que acumula currículo de movimentos políticos absolutamente brilhantes. Sim, mas, agora, Putin está visivelmente lutando. Sou como todos: queremos vê-lo surgir com mais um brilhante “movimento de xadrez” e espetá-lo no coração do Império, mas não estou vendo como Putin possa fazer tal coisa, não, pelo menos, nesse momento do processo.

O que vi na coletiva de imprensa é um Putin claramente na defensiva, que teve de mobilizar muito de seu capital pessoal de popularidade e confiabilidade. Ele admitiu honestamente que as coisas podem ainda piorar, e que não há remédio de efeito instantâneo para a atual crise. Comprometeu-se claramente com um período de dois anos, prazo simultaneamente curto demais e longo demais. É tempo demais, suficiente para destruir sua popularidade; e é tempo de menos para inverter o rumo de um país gigantesco como a Rússia.

O momento mais pungente das três horas de coletiva aconteceu quando Putin explicou o que está em jogo hoje. Disse ele:

Putin no Clube Valdai
No Clube Valdai, dei um exemplo de nosso símbolo mais facilmente identificável. É um urso protegendo sua taiga. Se prosseguirmos nessa analogia, às vezes penso que talvez o melhor, para nosso urso fosse não se mover, permanecer parado. Talvez devesse deixar de caçar porcos e javalis pela taiga, e pôr-se a colher amoras e a comer mel. Talvez, assim, o deixassemem paz. Mas não, não é assim. Sempre haverá alguém ali tentando acorrentá-lo. E se o acorrentarem, imediatamente lhe cortam as garras e os dentes.

Nessa analogia, refiro-me ao poder da contenção nuclear. Quando acontecer – que Deus não permita – e eles já não precisarem do urso, a taiga será invadida e destruída (...) E então, já sem dentes e sem garras, o urso será plenamente descartável, sem qualquer serventia. Talvez o empalhem, e ponto final.

O que estou dizendo é que não se trata da Crimeia, mas de nós protegermos nossa independência, nossa soberania e nosso direito de existir. Isso é o que todos temos de entender.

Palavras impressionantes, que confirmam plenamente um dos fatos mais importantes da atual situação: o Império Anglo-Sionista e a Rússia estão em guerra, guerra na qual ou o Urso Russo será “empalhado, e ponto final”, ou o Império Anglo-Sionista ruirá. É guerra existencial para os dois lados, para o Império Anglo-Sionista e para o Campo Civilizacional Russo – um deles derrotará o outro.

Não é a primeira vez que Putin explica isso, mas dessa vez senti na voz dele uma urgência que nunca vi nele, antes. Putin estava, simultaneamente, alertando o povo russo e pedindo ao povo que lhe dê apoio, a ele, pessoalmente. Meu palpite é que terá o apoio de que precisa, mas não sei por quanto tempo.

The Saker

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A maior ameaça contra a Rússia e contra Putin [e contra Dilma e...]

Acooordem! A Rússia é aqui! O bicho tá pegano! Heeeeeeeeelp!

8/12/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no quiosque do Birolho na Vila Vudu: Mais um artigo para compor uma premiadíssima série ainda não escrita a ser intitulada “TOOOOODOS OS BRICS ainda têm de lutar para sobreviver ao ataque furioso, violentíssimo, da GGOG (Grande Grana Ocidental Global)”.

A verdade é que o que torna aparentados todos os países chamados BRICS não é algum “desenvolvimento-em-si”, mas o estrondoso sucesso que alcançaram, ao não se terem deixado atropelar & matar totalmente pela GGOG como, por exemplo, a União Europeia deixou-se atropelar-matar-total.

E a disputa vai-se agravando, quanto mais se estende o tempo de sobrevida-com-sucesso, dos países BRICS, contra os desejos e projetos da GGOG.

O mais preocupante, hoje – e é o que o Saker anota aí, em relação à Rússia – é que NENHUM dos países BRICS tem desenvolvida qualquer “teoria da resistência” contra o assalto da GGOG aos BRICS.

De fato, a única “teoria” que há circulante é a “teoria” que manda abrir as portas prôs ladrões e liberar geral, teoria também chamada “livre neoliberalismo da/para a privataria cum pirataria et agito das ONGs-pussies & CIA”.

“Ah... [suspiro] que saudade do Comandante Hugo Chavez!” [pano rápido]

The Saker
O recente discurso de Putin à Assembleia Geral da Federação Russa foi constituído de duas partes: uma parte em que falou sobre a política exterior da Rússia e que foi fala indiscutivelmente histórica; e outra, na qual falou sobre economia interna. E essa segunda parte foi o triste desapontamento, para dizer o mínimo. De fato, devo dizer que foi aterrorizante. Não vou postar toda essa parte “econômica”; os interessados podem ler (em espanhol) no blog redecastorphoto ou (em inglês) na página do Kremlin. Mas eis o meu resumo do que Putin disse:

●– Faremos todos os esforços para ajudar a comunidade empresarial russa; faremos todos os esforços também para fazer retornar à Rússia todo o dinheiro russo que está escondido em paraísos fiscais longe daqui; e criaremos estabilidade e previsibilidade.

OK, tudo muito bonito, tudo muito bem, exceto que Putin não disse tudo que realmente faria diferença. Como, dentre outros “não ditos”:

●– Putin não denunciou como criminoso o trabalho da presidenta do Banco Central Russo.
●– Putin não ameaçou vender bônus dos EUA e trazer para casa de volta o dinheiro dos russos.
●– Putin não demitiu um único oficial russo por incompetência nem, muito menos, por sabotagem.
●– Putin não anunciou grande modificação no status do rublo; não falou, por exemplo, sobre o rublo-ouro.
●– Putin não rejeitou o modelo econômico ocidental.
●– Putin não anunciou qualquer reforma, nem que o estado russo estatizará o Banco Central da Rússia.
●– Mais importante, Putin não anunciou nenhuma grande mudança na política econômica.

Vladimir Putin
Não tenho como saber se Putin acredita sinceramente nos dogmas econômicos liberais ocidentais, ou se só lhe resta fingir que acredita. Mas o resultado é o mesmo: Putin rejeita o modelo político ocidental, ao mesmo tempo em que, ao que parece, endossa integralmente o modelo econômico.

Acabo de assistir a uma entrevista de Mikhail Khazin e Evegnii Feodorov, pela rádio Russian New Service (em russo), e os dois estão tocando o alarme.

Elvira Nabiullina
Khazin está exigindo que a presidenta do Banco Central da Rússia (Elvira Nabiullina), seja demitida e presa; Feodorov quer a extinção do Banco Central. Concordo com ambos.

A economia russa em geral, e o rublo em especial, estão ambos sob ataque direto, não só por efeito das sanções, mas também por movimentos e operações especulativos. O preço do petróleo está em colapso, efeito, provavelmente, de várias razões objetivas (recessão mundial) e operações deliberadas dos EUA. Mas Putin não está introduzindo nenhuma mudança significativa no rumo da economia, e até elogiou o Banco Central por suas atividades! Não faz recordar algo?

Pessoalmente, tudo isso me faz relembrar o que aconteceu nos últimos meses de Anatolii Serdiukov, quando os militares russos estavam sendo atingidos por um escândalo depois de outro, sem parar, e Putin continuava a elogiar Serduikov e seu trabalho. Afinal, Serdiukov foi demitido e substituído pelo realmente destacado e impressionante Shoigu, mas a demissão de Serdiukov demorou muito, exigiu trabalho muito intenso. E até hoje nenhum tribunal condenou Serdiukov por suas numerosas atividades criminosas.

Significa que Putin é hesitante, fraco ou que está confuso?
[Significa que Dilma é hesitante, fraca ou que está confusa? (NTs)]

Acho que não. Acho que tudo isso mostra que uma das tarefas mais gigantescas e mais perigosas para Putin é livrar-se dos sabotadores nos altos escalões do poder.

Mikhail Khazin
O mesmo Mikhail Khazin disse recentemente que só agora o poder do grupo Soberanista Eurasiano pró-Putin começa a equivaler, aproximadamente, ao poder dos Integracionistas Atlanticistas pró-EUA (não usou essas palavras, que são expressões minhas).

Esperemos que Putin esteja planejando, para Nabiulina, operação semelhante à que conseguiu destituir Serdiukov, mas nada parece apontar nessa direção. A pressão sobre Putin aumenta para que tome medidas dramáticas e, de uma vez por todas, desconecte a economia russa da ortodoxia neoliberal conhecida como “Consenso de Washington”, mas também há forte resistência.

Essa é, de longe, a maior ameaça contra Rússia e contra Putin [e contra o Brasil e contra Dilma (NTs)]: a 5ª coluna de sabotadores nos mais altos postos do poder, sobretudo, ainda, dentro do governo [e no venal JUDICIÁRIO brasileiro (Nrc)]. Enquanto esse pessoal permanecer no poder, a Rússia [e o Brasil (Nrc)] continuará fraca e frágil e muito suscetível às armas da econômica que o ocidente mobiliza contra o mundo.


The Saker